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Revista de Nutrição

Print version ISSN 1415-5273

Rev. Nutr. vol.24 no.6 Campinas Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732011000600004 

ORIGINAL ORIGINAL

 

Qualidade da dieta de indivíduos expostos e não expostos a um programa de reeducação alimentar

 

Diet quality of individuals exposed or not to a nutrition education program

 

 

Flavia FelippeI; Liziana BalestrinII; Flávia Moraes SilvaIII Aline Petter SchneiderIV

IAssistente Social. Porto Alegre, RS, Brasil
IINutricionistas. Porto Alegre, RS, Brasil
IIIHospital das Clínicas de Porto Alegre, Serviço de Endocrinologia, R. Ramiro Barcelos, 2400, Santa Cecília, 90035-003, Porto Alegre, RS, Brasil Correspondência para/Correspondence to: F.M. Silva. E-mail: <flavia.moraes.Silva@hotmail.com>.
IVUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Curso de Nutrição, Departamento de Medicina Social. Porto Alegre, RS, Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVO: O presente estudo teve como objetivo comparar a qualidade da dieta de indivíduos expostos e não expostos a um programa de reeducação alimentar.
MÉTODOS: Foi realizado estudo transversal, envolvendo 100 indivíduos, com idade média de 40,7, DP=12,4 anos e índice de massa corporal médio de 27,4, DP=4,7kg/m². Foram avaliados dois grupos: um grupo com 54 indivíduos expostos a um programa de reeducação alimentar por 18 meses (grupo E) e um grupo composto por 46 indivíduos sem orientação nutricional prévia nos últimos 6 meses (grupo-controle). Ambos os grupos foram submetidos a avaliação antropométrica (peso, estatura, índice de massa corporal e circunferência da cintura) e do consumo alimentar (dois recordatórios alimentares de 24 horas). A análise dietética foi realizada no software Avanutri®, e a qualidade da dieta foi estimada pelo Índice de Alimentação Saudável adaptado para a população brasileira.
RESULTADOS: A pontuação no Índice de Alimentação Saudável, adaptado para a população brasileira, foi maior no grupo E do que no grupo-controle (M=97,0, DP= 6,2 vs M=84,2, DP=15,2; p<0,001). Em relação às categorias de classificação desse índice, os grupos diferiram quanto ao percentual de indivíduos com dieta de boa qualidade (29,6% dos indivíduos do grupo E vs 17,4% dos indivíduos do grupo-controle) e de má qualidade (0% no grupo E vs 10,9% no grupo-controle). Os indivíduos expostos ao programa de reeducação alimentar apre-sentaram maior pontuação para vegetais, frutas, laticínios, colesterol e variedade, assim como menor pontuação para óleos e açúcares, em comparação ao grupo-controle.
CONCLUSÃO: Indivíduos expostos ao programa de reeducação alimentar apresentaram dieta com melhor qualidade do que indivíduos sem acompanhamento nutricional prévio. Tais achados reforçam a importância da educação nutricional na promoção da alimentação saudável.

Termos de indexação: Avaliação nutricional. Comportamento alimentar. Consumo alimentar. Dieta. Educação alimentar e nutricional.


ABSTRACT

OBJECTIVE: The present study compared the diet quality of individuals exposed or not to a nutrition education program.
METHODS: This cross-sectional study compared the diets of 54 individuals exposed to a nutrition education program for 18 months (varied between 2 and 169 months) (group E) to those of 46 individuals who did not receive nutritional counseling in the last six months (group NE). All participants underwent anthropometric (weight, height, body mass index, waist circumference) and dietary assessments (two 24-hour recalls). Nutrient intakes were calculated by the Avanutri software® and diet quality was estimated by the Healthy Eating Index adapted for the Brazilian population (IASad).

RESULTS: A total of 100 individuals with a mean age of 40.7, SD=12.4 years and mean body mass index of 27.4, SD=4.7kg/m² were studied. The two groups did not differ significantly in terms of age and BMI. Group E had a higher IASad score than group NE (97.0, SD=6.2 vs 84.2, SD=15.2, p<0.001). Regarding IASad classification categories, the percentages of individuals consuming a good-quality diet in the two groups differed significantly (29.6% in group E vs 17.4% in group NE) as did the percentages of those consuming a poor-quality diet (0% in group E versus 10.9% in group NE, p=0.014). Group E scored higher than group NE for vegetables, fruits, dairy, cholesterol and diet variety and lower than group NE for oils and sugars.
CONCLUSION: Individuals exposed to a nutrition education program had a better-quality diet than individuals not exposed to nutritional counseling. These findings reinforce the importance of nutrition education for the promotion of healthy food habits.

Indexing terms Nutrition assessment. Feeding behavior. Food consumption. Diet. Food and nutrition education.


 

 

INTRODUÇÃO

A alimentação nutricionalmente adequada pode atuar tanto na prevenção como no trata-mento de doenças. Nesse sentido, torna-se cada vez mais evidente a importância da avaliação dos hábitos alimentares da população. A avaliação da qualidade da dieta de indivíduos e/ou grupos populacionais é essencial ao conhecimento de pa-drões alimentares e ao estabelecimento das relações de causalidade entre dieta e doenças.

Os índices dietéticos têm sido desenvol-vidos para fornecer uma medida resumo das prin-cipais características da dieta, facilitando a ava-liação da qualidade da dieta em populações ou grupos de indivíduos¹. Esses índices consideram diferentes parâmetros, tais como grupos alimen-tares, nutrientes específicos, variedade e/ou diver-sidade. Dentre os instrumentos para avaliação da qualidade da dieta descritos na literatura, podem—se citar o Índice de Nutrientes (IN), o Escore de Variedade da Dieta (EVD), o Escore de Diversidade da Dieta (EDD), o Índice de Qualidade da Dieta (IQD) e o Índice de Alimentação Saudável (IAS)2.

Considerar nutrientes, alimentos e grupos de alimentos em conjunto parece ser uma ótima abordagem para análises epidemiológicas da dieta, a fim de se obter o máximo de informações acerca desta³. Nesse sentido, os índices dietéticos baseados em alimentos e nutrientes podem ser mais promissores, pois retêm a complexidade da dieta e permitem uma avaliação indireta de nu-trientes, sem reduzir a avaliação a um único com-ponente isolado¹.

Atendendo a essas características, destaca—se o Índice de Alimentação Saudável norte-ame-ricano (IAS), desenvolvido em 19954 e atualizado a cada cinco anos, o qual considera em sua última versão (2005)5 os seguintes componentes: cereais totais, cereais integrais, vegetais totais, vegetais verdes escuros e legumes alaranjados, frutas to-tais, frutas in natura, Leite e derivados, óleos, car-nes, leguminosas, gordura saturada, sódio e calorias provenientes de gordura sólida, álcool e açúcares. A soma dos 12 componentes totaliza um valor máximo de 100 pontos e reflete a ade-rência às recomendações nutricionais para a po-pulação americana6.

Em 2008, Mota et al.7 apresentaram uma adaptação do IAS norte-americano (versão ori-ginal de 1995) à população brasileira, conside-rando as recomendações nutricionais do país para uma alimentação saudável8, denominando o ins-trumento de Índice de Alimentação Saudável Adaptado (IASad). O IASad diferencia-se do IAS americano original, pois considera o número de porções dos grupos alimentares preconizados na Pirâmide Alimentar Brasileira Adaptada9, inclui o grupo das leguminosas, dos doces e açúcares e dos óleos e gorduras, exclui o item sódio da pon-tuação, além de estabelecer uma pontuação inter-mediária para o item variedade7.

Diversos estudos nacionais7,10-12 e interna-cionais13,14 avaliaram a qualidade da dieta de dife-rentes grupos populacionais, utilizando índices dietéticos variados. Entretanto, não foram encon-trados na literatura estudos que tenham compa-rado a qualidade da dieta de indivíduos subme-tidos ou não a um programa de reeducação ali-mentar através de índices dietéticos. Sabe-se que a reeducação alimentar pode ser considerada uma medida para melhorar a qualidade da dieta e de vida de indivíduos e/ou populações, uma vez que fornece apoio e orientação para mudanças nos hábitos e estilo de vida15,16. A intervenção em grupos, por auxiliar no processo de identificação das pessoas que sofrem do mesmo problema e possibilitar a quebra da tradicional relação vertical que existe entre o profissional da saúde e o sujeito da sua ação, é apontada como uma estratégia facilitadora no processo de reeducação alimen-tar17. Nesse sentido, o objetivo do presente estudo foi comparar a qualidade da dieta de indivíduos expostos a um programa de reeducação alimentar à dieta de indivíduos sem orientação nutricional prévia.

 

MÉTODOS

O presente estudo transversal foi condu-zido, de um lado, em indivíduos expostos a um programa de reeducação alimentar, em uma clíni-ca privada de Porto Alegre, especializada no aten-dimento multidisciplinar do excesso de peso (grupo E), de outro lado, em funcionários da pre-feitura de Porto Alegre (grupo-controle). Foram incluídos no estudo homens e mulheres com idade entre 20 e 65 anos, tendo sido a amostra compos-ta, por conveniência, entre os meses de maio e agosto de 2009. Não foram incluídas gestantes no estudo.

O grupo E foi formado por clientes de uma clínica de reeducação alimentar, os quais reali-zavam acompanhamento semanal em grupos de apoio voltados para mudanças de hábitos alimen-tares e melhoria do estilo de vida. As reuniões eram coordenadas por uma equipe multipro-fissional (nutricionista, psicólogo e assistente so-cial), que trabalhava a modificação de pensa-mento, ação e sentimento relacionados ao com-portamento alimentar. Tais reuniões apresentavam duração média de 60 minutos e envolviam um grupo de no máximo 15 clientes. O tempo de acompanhamento na clínica variou entre os clien-tes que participaram do estudo, sendo a mediana de acompanhamento no programa de reeducação alimentar igual a 18 meses (variação: 2 169 me-ses).

Fizeram parte do grupo-controle trabalha-dores da Prefeitura de Porto Alegre, sem orien-tação nutricional prévia nos 6 meses anteriores à realização do estudo. O recrutamento dos parti-cipantes desse grupo foi feito a partir de cartazes com convites para avaliação nutricional e do con-sumo alimentar.

Todos os participantes que aceitaram par-ticipar do estudo assinaram o termo de consen-timento após serem esclarecidos acerca de sua natureza. O Comitê de Ética em Pesquisa do Cen-tro Universitário Metodista (IPA) aprovou a reali-zação do protocolo de pesquisa (protocolo nº 62/2009).

Os participantes foram submetidos à ava-liação nutricional e responderam a um questioná-rio padronizado acerca de suas características clínicas e sociodemográficas.

Quanto ao hábito de fumar, foi consi-derado fumante o participante tabagista atual, com história de tabagismo há pelo menos 12 me-ses, bem como aquele que parara de fumar há menos de 6 meses da avaliação. Os demais foram considerados ex-fumantes ou não fumantes. Os participantes foram questionados quanto ao consumo de álcool e a informação obtida foi cate-gorizada como "consome" ou "não consome". Foram questionados ainda acerca do grau de escolaridade e da prática de atividade física, sendo considerados sedentários aqueles que praticassem menos de 150 minutos de atividade física/se-mana18.

As medidas antropométricas utilizadas para a avaliação do estado nutricional foram o peso (com roupas leves e sem sapatos), a estatura e a circunferência da cintura (medida no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca)19. Para tais medidas, foram utilizadas balança antro-pométrica e fita métrica de fibra de vidro flexível. A partir dos dados de peso e estatura, foi calcu-lado o Índice de Massa Corporal (IMC). Os partici-pantes do estudo foram classificados quanto ao estado nutricional a partir do IMC, considerando—se os pontos de corte propostos pela World Health organization: eutrofia quando IMC entre 18,5 e 24,9kg/m², sobrepeso quando IMC entre 25 e 29,9kg/m² e obesidade quando IMC >30kg/m² 19.

A avaliação do consumo alimentar foi reali-zada através da aplicação de dois Recordatórios alimentares de 24h (R24h), com intervalo de uma semana. Os dados dietéticos obtidos em medidas caseiras foram convertidos para grama e mililitro, a fim de possibilitar a análise nutricional detalhada do consumo alimentar. A análise da composição nutricional da dieta usual de cada participante, considerando-se a média dos dois dias de R24h, foi feita no Programa AvaNutri 4.0 Revolution20.

A avaliação da qualidade da dieta foi reali-zada através do IAS adaptado para a população brasileira7. Para isso os alimentos consumidos fo-ram convertidos em porções pelo valor energético, de acordo com o grupo da Pirâmide Alimentar ao qual pertenciam (Tabela 1). O número de por-ções recomendado para cada indivíduo foi ajus-tado ao valor calórico total, tendo como referência as porções recomendadas pelo Guia Alimentar para a População Brasileira8. As preparações culinárias elaboradas com mais de um grupo ali-mentar foram desmembradas nos seus ingre-dientes, e esses, classificados nos respectivos gru-pos correspondentes. A pontuação dos compo-nentes do IASad variou de 0 a 10 (Tabela 1), sendo os valores intermediários calculados propor-cionalmente. Dessa forma, quando o consumo dos grupos alimentares fosse igual ou superior ao recomendado, eram atribuídos 10 pontos; e, quando inferior, os pontos eram calculados por razão e proporção. Para os nutrientes (gordura total, saturada e colesterol) e para o item varieda-de, a pontuação também foi estabelecida por proporção entre a quantidade consumida por participante e a quantidade preconizada, confor-me proposto por Mota et al.7. Tendo em vista que no presente estudo foram utilizados dois R24h, a pontuação para o item variedade foi adaptada, sendo utilizado o ponto de corte de 12 itens (³12 itens) para pontuação máxima, e de 6 itens (<6 itens) para a pontuação mínima. Os alimentos fo-ram considerados como uma variedade sempre que fornecessem pelo menos metade das calorias referentes a uma porção do respectivo grupo alimentar. A soma da pontuação de cada com-ponente gerou o escore final do IASad, a partir do qual a dieta dos participantes foi classificada em três categorias: de boa qualidade (IASad >100 pontos), precisando melhorar a qualidade (IASad entre 71 e 100 pontos) e de má qualidade (IASad <71 pontos)7.

A normalidade das variáveis em estudo foi avaliada através do teste de Kolmogorof-Smirnoff. Foram utilizados o teste t de Student para amos-tras independentes, o teste de Mann-Whitney e o teste do Qui-quadrado, conforme indicado na comparação das características clínicas e dietéticas dos grupos (grupo E e grupo-controle). O teste Qui-quadrado de partição foi utilizado para a com-paração do número de participantes do grupo E com os do grupo-controle, de acordo com as categorias do IASad, após detectada diferença significativa entre as categorias. A Análise de Va-riância (Anova one-way) foi utilizada para com-paração da qualidade da dieta (pontuação final do IASad) entre os grupos, de acordo com o tem-po de acompanhamento no programa de reedu-cação alimentar (categorizado em tercis). O teste t de Student para uma amostra foi utilizado na comparação do número de porções dos grupos alimentares da dieta dos indivíduos do grupo E e do grupo-controle em relação ao preconizado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira.

Os resultados foram expressos como mé-dia ± desvio-padrão, mediana e amplitude inter-quartil (P25-P75) ou percentual de participantes com a característica analisada. Foram considerados estatisticamente significativos valores de p<0,05 (bicaudal). As análises foram realizadas no software SPSS 16.0 (SPSS Inc., Chicago, IL).

 

RESULTADOS

Foram estudados 100 indivíduos com ida-de Média (M) de 40,7, Desvio-Padrão - DP=12,4 anos e IMC médio de 27,4, DP=4,7kg/m². A maioria dos participantes era do sexo feminino (73%) e não fumante (93%). Consumo de bebida alcoólica foi relatado por 31% dos participantes. Menos da metade (43%) dos participantes foi classificada como sedentária. Possuíam o terceiro grau completo 67% dos participantes.

Na Tabela 2 estão descritas as caracterís-ticas gerais e os dados antropométricos dos participantes do estudo, de acordo com o grupo ao qual pertenciam. As únicas diferenças obser-vadas foram em relação ao sexo e ao grau de es-colaridade dos participantes, sendo observada maior proporção de homens no grupo-controle em comparação ao grupo E, bem como menor proporção de participantes com terceiro grau completo no primeiro grupo. Os grupos não dife-riram quanto a idade, tabagismo, consumo de bebida alcoólica e percentual de participantes sedentários. Em relação aos indicadores antropo-métricos, não foi observada diferença entre os grupos quanto a peso, estatura, IMC e circun-ferência da cintura.

A composição nutricional da dieta dos participantes do programa de reeducação ali-mentar está apresentada na Tabela 3. O grupo—controle apresentou menor consumo de calorias, de gordura total e frações e de colesterol, assim como maior consumo de carboidrato, proteína e fibras totais.

Qualidade da dieta de acordo com o IAsad

Os componentes do IAS referentes aos grupos alimentares foram convertidos em número de porções/1 mil calorias/dia, a fim de garantir o ajuste para o valor calórico total da dieta, o qual diferiu entre os grupos. Quando estes foram com-parados quanto à qualidade da dieta, foi obser-vada maior pontuação para o IASad no grupo E do que no grupo NE M= 97,0, DP 6,2 cfm= 84,2 DP= 15,2; p<0,001). Entretanto, a pontuação mé-dia do IASad dos dois grupos classifica a dieta de ambos como precisando melhorar a qualidade (71<IASad <100 pontos).

Na Tabela 4 está apresentada a pontuação para cada componente do IASad dos partici-pantes, de acordo com a exposição a programa de reeducação alimentar. O grupo-controle apre-sentou maior pontuação para o grupo das frutas, hortaliças, Leite e derivados, gordura total, coles-terol e variedade. Já a pontuação para o grupo dos óleos e gorduras e dos açúcares e doces foi maior nos participantes do grupo-controle, não sendo observada diferença entre os grupos em relação à pontuação obtida para o grupo dos cereais, leguminosas e carnes.

Em relação à qualidade da dieta, nenhum participante do grupo E apresentou-a de má quali-dade, enquanto 70,4% tiveram-na classificada como precisando melhorar a qualidade e 29,6% apresentaram dieta de boa qualidade. Já no grupo-controle, 10,9% dos participantes apre-sentaram dieta de má qualidade, 71,4% preci-savam melhorar a qualidade e 17,4% apresen-taram dieta de boa qualidade (Tabela 4). Diferen-ça estatisticamente significativa entre os grupos foi observada na proporção de indivíduos que apresentaram dieta de má qualidade (maior no grupo-controle) e dieta de boa qualidade (maior no grupo E).

O consumo médio de porções de cada gru-po alimentar, relatado pelos participantes expostos ao Programa de Reeducação Alimentar e pelos participantes do grupo-controle, foi comparado ao número de porções recomendado pelo Guia Alimentar para a população brasileira (número de porções/1 mil calorias/dia), conforme resultados apresentados na Tabela 5. Tanto o grupo E como o grupo-controle apresentou um consumo médio de porções do grupo dos cereais, leguminosas e laticínios estatisticamente inferior àquele preco-nizado pelo Guia Alimentar, enquanto o consumo de porções do grupo das carnes, óleos e gorduras foi significativamente maior do que a recomen-dação. O grupo E apresentou maior consumo de frutas e hortaliças e menor consumo de açúcares e doces em comparação ao recomendado. Já no grupo-controle, o consumo de frutas foi inferior à recomendação, e o de açúcares e doces, supe-rior, ao passo que o consumo de hortaliças não diferiu estatisticamente do número de porções preconizados pelo Guia Alimentar.

Na Tabela 5 também estão apresentados o número e o percentual de participantes, de acordo com o grupo em estudo, que atendeu as recomentações preconizadas pelo Guia Alimentar. Observa-se que o grupo E apresentou consumo igual ou superior ao preconizado pelo Guia Ali-mentar para os cereais, frutas, hortaliças, legu-minosas, carnes e laticínios, bem como consumo igual ou inferior ao preconizado pelo Guia Ali-mentar para doces e óleos, assim demonstrando ter atendido às recomendações. Por outro lado, o grupo-controle apresentou maior proporção de participantes com consumo de doces e óleos superior ao preconizado. Tais dados corroboram a informação apresentada no parágrafo anterior: indivíduos submetidos a programa de reeducação alimentar apresentaram melhor qualidade da dieta do que aqueles desprovidos de orientação nutricional prévia.

Tendo em vista a ampla variação no tempo de acompanhamento dos indivíduos submetidos ao programa de reeducação alimentar, uma aná-lise foi conduzida a fim de comparar a qualidade da dieta dos mesmos, de acordo com o tempo de acompanhamento no programa. Para isso, os indi-víduos foram divididos em tercis, pelo tempo de acompanhamento [tercil 1: menos de 8 meses (17 indivíduos); tercil 2: de 8 a 61 meses (19 indi-víduos); tercil 3: mais de 61 meses (18 indivíduos)]. A pontuação final do IASad não diferiu entre os tercis, sendo igual a 97,74, DP= 5,93 pontos no tercil 1; 95,70, DP=6,88 pontos no tercil 2; e 97,64, DP= 5,82 pontos no tercil 3 (p=0,540).

 

DISCUSSÃO

O presente estudo comparou a qualidade da dieta de indivíduos expostos a um programa de reeducação alimentar, por um período me-diano de 18 meses (o qual variou entre 2 e 169 meses) - grupo E, com a dieta de indivíduos sem orientação nutricional prévia nos últimos 6 meses - grupo-controle. Em ambos os grupos, a maior parte dos participantes foi classificada como pre-cisando melhorar a qualidade da dieta. Entretanto, maior proporção de indivíduos com dieta de boa qualidade foi observada no grupo E, enquanto o grupo-controle apresentou uma proporção signi-ficativamente maior de indivíduos com dieta de má qualidade. O tempo de acompanhamento no programa de reeducação alimentar não influen-ciou a qualidade da dieta dos participantes do grupo E, o qual apresentou maior pontuação para vegetais, frutas, laticínios, colesterol e variedade da dieta, bem como menor pontuação para óleos e açúcares, em comparação ao grupo-controle. Estes achados apontam a reeducação alimentar como importante ferramenta na promoção de uma alimentação saudável.

A literatura científica é escassa no que se refere ao efeito da reeducação alimentar na quali-dade da dieta, especialmente quando se trata de estudos que utilizam índices dietéticos. Contudo, melhora na qualidade da dieta de indivíduos, por meio da educação nutricional, é demonstrada de forma indireta por estudos disponíveis na lite-ratura21,22. Ensaio clínico randomizado, conduzido com 80 famílias do município de São Paulo, de-monstrou aumento no consumo de frutas e vege-tais de famílias submetidas a encontros semanais de educação nutricional, quando comparadas às famílias do grupo-controle, as quais não rece-beram nenhuma intervenção educacional por três semanas21. Outro estudo avaliou o efeito de dois programas de educação nutricional sobre o risco cardiovascular em pacientes hipertensos e com excesso de peso, tendo sido demonstrada redução no consumo de calorias após 40 semanas de acompanhamento22.

Outros trabalhos nacionais que avaliaram a qualidade da dieta de diferentes grupos, por meio de índices dietéticos variados, também de-monstraram que a maior parte dos indivíduos ne-cessita melhorar a qualidade da dieta. Estudo reali-zado com moradores da cidade de Botucatu (São Paulo) demonstrou necessidade de melhoria na qualidade da dieta de 74% dos indivíduos. Nesse estudo, que utilizou o índice de qualidade da dieta, 12% dos participantes tiveram suas dietas classificadas como sendo de boa qualidade, enquanto 14% deles apresentaram dietas inade-quadas11. Em outro estudo transversal nacional de base populacional, envolvendo 1.840 indiví-duos de ambos os sexos, 74% das dietas foram classificadas como precisando de melhorias12. Ainda, o estudo conduzido por Mota et al7., que validou e adaptou o IAS à população brasileira, demonstrou necessidade de melhorar a qua-lidade da dieta em 71% dos 502 paulistanos estudados.

A qualidade da dieta de 67 pacientes com diabetes melito (DM) tipo 2, avaliada através do IAS americano, foi classificada como precisando de melhorias em 52,2% dos pacientes, enquanto 40,3% apresentaram dieta de boa qualidade e os demais apresentaram dieta de má qualidade10. A maior proporção de indivíduos com dieta de boa qualidade, nesse estudo, possivelmente pode ser justificada pelo fato de os participantes apre-sentarem diabetes, condição clínica que geral-mente leva à modificação dos hábitos alimentares, por ser a dieta um dos pilares do tratamento23. De fato, em estudo transversal envolvendo mais de 8 mil adultos americanos, a qualidade da dieta foi associada inversamente com a glicemia de je-jum e a hemoglobina glicada, marcadores bioquí-micos de controle glicêmico em pacientes diabé-ticos24.

Em relação aos componentes do IASad, os participantes expostos a programa de reeduca-ção alimentar apresentaram maior pontuação para o grupo das frutas, vegetais, laticínios, gordu-ra total, colesterol e variedade, bem como menor pontuação para o grupo dos açúcares e óleos. Entretanto, apesar de apresentarem melhor quali-dade da dieta em comparação ao grupo-controle, os participantes do grupo exposto ao programa de reeducação alimentar relataram consumo mé-dio de porções do grupo das leguminosas e do Leite e derivados estatisticamente inferior à reco-mendação. Ademais, o consumo de alimentos do grupo das carnes e do grupo dos óleos e gorduras foi superior ao número de porções preconizado pelo Guia Alimentar para a população brasileira.

Discrepâncias em relação às recomen-dações nutricionais também foram encontradas por outros pesquisadores. Santos e colaboradores demonstraram consumo de vegetais, frutas e laticínios inferior à recomendação, entre pacientes com diabetes melito tipo 210. Consumo de frutas e vegetais abaixo do preconizado também foi observado em estudo conduzido por Fisberg e colaboradores, no qual 60% dos participantes apresentaram consumo de colesterol acima do recomendado11. Baixo consumo de laticínios, fru-tas e verduras também foi descrito em estudo nacional de base populacional, no qual respectiva-mente 73% e 81% dos participantes apresenta-ram pontuação máxima para o consumo de car-nes e de colesterol12.

A melhor qualidade da dieta de indivíduos expostos ao programa de reeducação alimentar, em comparação àqueles sem orientação nutri-cional prévia, observada no presente estudo, pode ser atribuída ao fato de os indivíduos do primeiro grupo terem sido orientados e acompanhados para a mudança e melhora dos hábitos alimen-tares, através da educação nutricional. Isso porque a educação nutricional possibilita o desenvol-vimento de estratégias que modificam o padrão alimentar inadequado, bem como crenças, práti-cas e valores relacionados à alimentação25.

Os grupos não diferiram quanto ao estado nutricional, avaliado através do IMC e da circun-ferência da cintura, o que poderia confundir os resultados. A diferença no grau de escolaridade e no sexo, observada entre os grupos, poderia ser um determinante da qualidade da dieta. De fato, Morimoto et al.12 demonstraram variação significativa na qualidade da dieta de moradores da região metropolitana de São Paulo, de acordo com as características demográficas de sexo, grau de escolaridade e faixa etária. Entretanto, o ta-manho amostral do presente estudo dificulta a análise dos dados, estratificada por sexo e grau de escolaridade, devendo essas variáveis ser inter-pretadas como potenciais confundidores dos resultados do presente estudo. Isso porque a maior proporção de mulheres e de indivíduos com escolaridade mais elevada no grupo E poderia, em parte, justificar a melhor qualidade da dieta.

O presente estudo apresenta outras limita-ções potenciais, que devem ser consideradas a fim de garantir a correta interpretação dos resul-tados. A amostra de conveniência pode não ser representativa (o que inviabiliza a generalização dos resultados), além de estar associada a um potencial viés de seleção, vinculado ao fato de que os indivíduos que aceitaram ser voluntários no estudo podem apresentar hábitos de vida distintos dos daqueles que não demonstraram interesse em participar. Além disso, a maior moti-vação à adoção de uma dieta de melhor qualidade entre os indivíduos do grupo E, que procuraram se inserir em grupos direcionados para tal, tam-bém deve ser considerada na interpretação dos resultados. A utilização do R24h não é apontada pela literatura como a melhor alternativa para avaliação do consumo alimentar, já que - entre outras limitações - depende da memória do entre-vistado. Contudo, no presente estudo foram apli-cados dois R24h, o que contribui para a obten-ção de informações mais precisas acerca do con-sumo alimentar26.

 

CONCLUSÃO

A qualidade da dieta de indivíduos expos-tos a um programa de reeducação alimentar, por um período mediano de 18 meses, foi superior à de indivíduos sem orientação nutricional prévia nos últimos 6 meses. Os resultados reforçam a importância da educação nutricional para a modi-ficação dos hábitos alimentares e a consequente melhora da qualidade da dieta das populações. O consumo de laticínios e leguminosas abaixo da recomendação, e de carnes e óleos acima da reco-mendação, entre os indivíduos expostos a pro-grama de reeducação alimentar, alerta para a necessidade da educação nutricional continuada. A influência da qualidade da dieta, promovida por programas de reeducação alimentar, sobre a quali-dade de vida e os desfechos de saúde/doença das populações, requer a realização de novos estudos. É preciso ainda estudar melhor a influência do sexo e da escolaridade sobre a qualidade da dieta dos indivíduos submetidos a programas de reedu-cação alimentar.

 

COLABORADORES

F. Felippe elaborou o projeto de pesquisa, cole-tou e tabulou os dados e redigiu o artigo. L. Balestrin coletou e tabulou os dados. F.M. Silva coorientou o trabalho, supervisionou a logística do estudo, analisou os dados e redigiu o artigo. A.P. Schneider orientou o trabalho e a supervisão da logística do estudo, redigiu o artigo.

 

REFERÊNCIAS

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(Recebido em: 29/6/2010)
(Versão final reapresentada em: 4/7/2011)
(Aprovado em: 25/8/2011)