SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.27 número5Índices de avaliação da qualidade da dieta índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista de Nutrição

versão impressa ISSN 1415-5273versão On-line ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. vol.27 no.5 Campinas set./out. 2014

https://doi.org/10.1590/1415-52732014000500010 

SEÇÃO TEMÁTICA - ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E CLÍNICOS NA PESQUISA EM ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO

A pesquisa em Nutrição Clínica no Brasil

Research in Clinical Nutrition in Brazil

Renata Borba de Amorim Oliveira 1   2  

Shirley Donizete Prado 1  

Maria Claudia da Veiga Soares Carvalho 1   3  

Francisco Romão Ferreira 1  

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Nutrição, Programa de Pós-Graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde. R. São Francisco Xavier, 524, Pavilhão João Lyra Filho, 12º Andar, Bloco E, Sala 12.007, 20559-900, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: SD PRADO. E-mail: <shirley.donizete.prado@gmail.com>

2Universidade Federal do Rio de Janeiro, Curso de Nutrição. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

3Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Nutrição Josué de Castro, Programa de Pós-Graduação em Nutrição. Rio de Janeiro, RJ, Brasil


RESUMO

Neste ensaio, busca-se uma primeira aproximação à pesquisa em Nutrição Clínica. Considera-se existir uma lacuna de informações e debates sobre elementos de cunho epistemológico e sobre interesses que marcam essa atividade no interior do campo científico da Alimentação e Nutrição no Brasil. O caráter multidimensional do campo alimentar-nutricional é apresentado como sua forte marca de identidade e motivo de distinção. Todavia, a pesquisa em Nutrição Clínica caracteriza-se pelo olhar biomédico, voltado enfaticamente para o metabolismo e para a doença, ficando excluídas as relações sociais e a intersubjetividade, com estudos voltados ao aspecto nutricional, sem considerar o alimentar. De outro lado, o alívio do sofrimento impõe a compreensão de relações entre seres humanos em sociedade. Tanto do ponto de vista metodológico como epistemológico, a biomedicina não é capaz de abarcar a totalidade do fenômeno da vida humana. Por essas razões, as Ciências Humanas e Sociais podem contribuir, em regime de cooperação interdisciplinar, com o campo da Alimentação e Nutrição, no sentido de instrumentalizar estudos inovadores tanto no aspecto conceitual quanto metodológico. Tais perspectivas podem trazer à luz as dimensões subjetivas do adoecimento humano, as quais constituem matéria essencial para os estudos sobre Nutrição Clínica.

Palavras-Chave: Alimentação; Ciências da Nutrição; Ciências Humanas; Dietoterapia; Pesquisa; Terapia nutricional

ABSTRACT

This essay intends to make a first approach to Clinical Nutrition research. We consider the gap that exists between information and debates about epistemological elements and about interests that mark this activity inside the scientific Field of Food and Nutrition in Brazil. The multidimensional character of the food-nutrition field is presented with its strong brand identity and motive of distinction. However, research in Clinical Nutrition is characterized by the biomedical perspective that focuses emphatically on metabolism and disease, excluding the social relationships and intersubjectivity of the studies that centre on nutrition and ignore food. The relief from suffering requires understanding interpersonal relationships in society. Both from the methodological and epistemological viewpoints, biomedicine is not capable of encompassing the entirety of the human life phenomenon. For these reasons, Human and Social Sciences can provide an interdisciplinary contribution to the Field of Food and Nutrition, in the sense of instrumenting innovative studies conceptually and methodologically. Such perspectives can bring to light the subjective dimensions of human illness that correspond to the essential subject of study for Clinical Nutrition.

Key words: Feeding; Nutritional sciences; Humanities; Diet therapy; Research; Nutrition therapy

INTRODUÇÃO

Neste ensaio, busca-se uma primeira aproximação à pesquisa em Nutrição Clínica. Considera-se existir uma lacuna de informações e debates sobre elementos de cunho epistemo-lógico e sobre interesses que marcam essa atividade no interior do campo científico da Ali-mentação e Nutrição, da ciência e da sociedade no Brasil.

Esse esforço faz parte de um investimento mais amplo voltado para a problematização de relações sociais nos processos de definição de temáticas1 e de estabelecimento dos diversos nú-cleos de saberes2, que compõem o campo cientí-fico da Alimentação e Nutrição3 - 5. Tal iniciativa vem sendo implementada dentro da perspectiva da afirmação do pluralismo de epistemologias como caminho de enriquecimento dos processos de construção de conhecimentos e saberes na lida acadêmica.

Considera-se, para as análises ora em-preendidas, o aporte de Pierre Bourdieu às refle-xões sobre campo científico6 , 7. Aqui, tanto os as-pectos próprios da pesquisa (definição do objeto, procedimentos metodológicos e abordagens analíticas), quanto os agentes em relação no con-texto da investigação científica, conferem o tom do debate. Desse modo, o mundo da ciência pode ser entendido como um "campo social como outro qualquer, com suas relações de força e mo-nopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes reves-tem formas específicas"6 (p.122). Por esses ca-minhos, o campo científico pode ser considerado como um espaço de luta concorrencial pelo "monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determi-nado"6 (p.122).

O desenvolvimento teórico tomado de Thomas Khun8 também subsidia esta abordagem quando se têm em conta os movimentos expres-sos a partir de paradigmas que identificam distin-tas estruturas conceituais e as práticas delas decorrentes.

Assim, questões epistemológicas são tratadas como fenômenos sociais - como posi-cionamentos paradigmáticos, intrinsecamente políticos.

No que concerne aos aspectos episte-mológicos, o campo da Alimentação e Nutrição corresponde a um espaço social em que as ordens da Natureza e da Sociedade se expressam através diferentes objetos de estudo4. O Quadro 1 sinte-tiza as especificidades que caracterizam cada uma dessas duas regiões da ciência: a Alimentação e a Nutrição.

Quadro 1. O campo científico da Alimentação e Nutrição. Fonte: Adaptado de Prado et al. 4.  

O caráter multidimensional do campo alimentar-nutricional é apresentado por meio de discursos presentes em diversos tratados cien-tíficos9 - 12 ou em documentos institucionais ofi-ciais13, através dos quais multi, inter ou transdis-ciplinaridade estão presentes como sua forte mar-ca de identidade e motivo de distinção. Esta con-dição deveria, por conseguinte, implicar práticas pluriepistemológicas de valorização das caracte-rísticas de origem de cada um desses espaços, como partícipes do jogo e da construção das regras de distribuição de capital científico em seu interior. Incluir-se-ia, nesse conjunto de práticas, a adoção de uma nomenclatura que viesse a representar, efetivamente, as variadas abordagens teóricas, os diferentes procedimentos metodo-lógicos, os distintos agentes e as muitas forças que operam em seu interior, ou seja, um nome que corresponderia à expressão mais sintética de sua identidade, do seu "Ser": "Alimentação e Nutrição". Todavia, tal não se dá.

Muito mais que a mera escolha de pala-vras, expressa-se neste aparente não-movimento que mantém única a Nutrição, o movimento de não-visibilidade da Alimentação e, com ela, o silêncio retumbante sobre a subjetividade e sobre os sujeitos em seu viver desejante, esta que é a marca indelével da nossa Humanidade, justa-mente a que, em definitivo, distingue o homem dos demais seres vivos, animais ou plantas, e das máquinas.

A nutrição clínica como um núcleo de saberes no interior do campo científico da alimentação e nutrição

No caso brasileiro, estudos sobre o ordena-mento interno ao campo da Alimentação e Nutrição informam sua conformação em espaços e formações disciplinares, ou seja, núcleos de saberes, como assim denomina Nunes14. Um largo predomínio da racionalidade biomédica dá o tom da maior parte desses núcleos de saberes no campo da Alimentação e Nutrição, registrando--se também a presença de perspectivas de cunho humanista, em que as relações sociais - e as subje-tividades que nelas se estabelecem e se expres-sam -, são tidas em alta conta como desafios para a lida científica.

Não se trata de colocar essas duas abor-dagens como excludentes entre si. Há, sim, a predominância de núcleos de saberes que se caracterizam marcadamente pelo paradigma da biomedicina. Mas há, também, ainda que em proporções menores, espaços em que o olhar naturalizado se depara com questões de ordem política ou cultural ou filosófica, por exemplo, estabelecendo-se aí alguns diálogos profícuos. É um significativo alento e importante motivo de ânimo, perceber que referências como histori-cidade e reflexividade não estão de todo ausentes nos processos de produção de conhecimento no interior do campo científico em questão.

Em levantamento que trata das linhas de pesquisa que compunham os programas de pós--graduação em 2009 na área de avaliação deno-minada "Nutrição" na Coordenação de Aper-feiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), confirmam-se a diversidade e a riqueza episte-mológicas como marca de identidade do campo científico alimentar-nutricional (Quadro 2)15. O núcleo de saberes que corresponde à Nutrição Clínica tem expressão nesse cenário, representado por 14,5% das linhas de pesquisa então em atividade nesse específico recorte da ciência nacional.

Quadro 2. Linhas de pesquisa dos programas de pós-graduação distribuídos por núcleos de saberes que conformam o campo científico de Alimentação e Nutrição, em 2009, no Brasil. Nota: Há duplicidade nos registros acima, pois uma mesma linha de pesquisa, algumas vezes, contempla mais de um dos núcleos de saberes. Fonte: Adaptado de Kac et al 15.  

Outro levantamento, bem recente, relativo a temas abordados em artigos publicados no periódico científico DEMETRA: Alimentação, Nutrição & Saúde, entre 2000 e 2012, confirma esse perfil qualitativo em termos de núcleos de saberes que constituem o campo cientifico da Alimentação e Nutrição16. Registra-se a presença de artigos oriundos da Nutrição Clínica, represen-tando cerca de 10% do total de publicações do periódico. Relevante salientar que essa é uma revista interdisciplinar e que recebe, portanto, contribuições de diversos espaços do conheci-mento, com maior presença da área da Saúde e do campo alimentar-nutricional. Como revista no-va, publica, principalmente, estudos desenvol-vidos por pesquisadores brasileiros; tal condição a coloca em posição diferenciada em relação aos periódicos internacionais que gozam de imenso prestígio entre pesquisadores, universidades, insti-tuições e agências de fomento à pesquisa e, por isso, mais procurada pelos estudiosos situados nos lugares biomédicos de produção de conhecimen-tos, em especial, os núcleos de saberes acima identificados como Nutrição Básica, Experimental e Clínica e Epidemiologia em Nutrição. Ainda que, portanto, não represente o universo dos estudos no campo da Alimentação e Nutrição no Brasil, esta sistematização deve ser aqui considerada, dado que corresponde a um dos poucos esforços já realizados a possibilitar algum vislumbre sobre a composição de forças sociais e de seus resulta-dos materiais em termos de publicação científica.

Procedendo conforme estudos imple-mentados2 , 5 , 17 a partir do Diretório dos Grupos de Pesquisa (DGP)18 do Conselho Nacional de Desen-volvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e utili-zando como termos de busca as expressões "nutrição clínica", "dietoterapia" e "terapia nutri-cional", recuperaram-se 39 grupos de pesquisa em atividade no Brasil no ano de 2010 (Figura 1). Complementarmente, consultando a Base Cor-rente desse mesmo Diretório, identificaram-se 88 grupos de pesquisa em agosto de 2014. Estudo implementado por Delmaschio et al. 5 informa a existência de 472 grupos de pesquisa no campo da Alimentação e Nutrição no Brasil no ano de 2008; nesse momento, a pesquisa em Nutrição Clínica correspondia a 7% dos estudos situados no campo alimentar-nutricional. O conjunto de informações sugere que a Nutrição Clínica cor-responde a algo entre 7% e 15% da pesquisa nacional quando esta se dirige aos estudos dos nutrientes e correspondentes necessidades celu-lares, assim como quando se volta para a com-preensão dos sentidos e significados da comida em formações sociais específicas.

Figura 1. Grupos de pesquisa em Nutrição Clínica no Brasil de 2000 a 2010. Fonte: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(18). Nota: DGP: Diretório dos Grupos de Pesquisa. 

Numa abordagem de cunho qualitativo, chamam a atenção os nomes que identificam esses grupos de pesquisa.

Alguns são denominados por meio de expressões de ordem muito ampla, tomando a extensão do campo todo, como por exemplo: Alimentos, Nutrição ou Ciências Nutricionais, eventualmente especificando um grupo etário, como adultos ou idosos, por exemplo. Outros são intitulados de forma tão abrangente que prati-camente tudo o que há de biomédico poderia caber em seu interior, como é o caso de Meta-bolismo ou Exercício Físico ou Comportamento Alimentar ou Coletividades Enfermas e Sadias. Há ainda os grupos que fazem uso de denomi-nações correspondentes a doenças (como Car-diopatias, Câncer, Doenças Metabólicas, Diabetes) ou a especialidades médicas (Endocrinologia, Gastroenterologia, Cirurgia) ou, ainda, disciplinas clássicas (Bioquímica, Fisiologia). Talvez seja um interesse implícito nessas denominações receber agentes de origens diversas, como um guarda--chuva. São ordenamentos institucionais que pa-recem agregar alguns pesquisadores ou docentes que desenvolvem ou pretendem desenvolver seus estudos, colocando lado a lado uma ampla gama de variados objetos e metodologias de pesquisa. Pode-se pensar que buscam abordagens plurais por meio da articulação entre distintas disciplinas em seu interior, o que corresponderia a um valor de distinção e expressaria ao menos alguma soli-dariedade entre os participantes da empreitada. Sem exclusão automática da possibilidade anterior, pode-se estar diante de uma significativa fragilidade de seus membros, ou de parte deles, que vão se aproximando e buscando algum forta-lecimento conforme a vida institucional permite. Alguns tentam encontrar refúgio ou amparo entre pares que eventualmente os acolhem. Outros, usando vorazmente o espaço que se lhes apre-senta como mero degrau para o próximo passo na escalada de sua ascensão acadêmica. Isso, além de muitas tonalidades e matizes entre uma situação e outra.

Nesta aproximação primeira, percebe-se que a maioria dos grupos de pesquisa, em seus títulos, não apresenta palavras que possibilitem deduzir que ali se faz pesquisa em Nutrição Clí-nica. No interior desses grupos é comum encon-trar uma única linha de pesquisa que guarda essa denominação ou algo similar, entre as tantas que os compõem; note-se que tais linhas de pesquisa são as que contam com o menor número de pesquisadores, muitas vezes, uma única pessoa e sem orientandos Esses arranjos no interior de grupos de pesquisa - que se caracterizam por uma mescla de diferentes abordagens e de objetos de estudo não necessariamente articulados entre si -, são bastante frequentes, estando os agentes menos capitalizados a participar de agregados científicos, que os recebem conforme seus pró-prios interesses, quando ainda não veem condi-ções de seu estabelecimento específico.

Um segundo conjunto desses grupos de pesquisa traz em seus nomes identificação que explicita diretamente a abordagem clínico--nutricional. Trazem, como nos casos anterior-mente descritos, a presença de várias linhas de pesquisa, sendo que, desta feita, com maior número daquelas que se voltam para a Nutrição Clínica, e com maior número de pesquisadores e orientandos em sua composição. Mantêm-se, contudo, as expressões de ordem geral (como Metabolismo, Doenças Crônicas, Estresse Oxida-tivo ou disciplinas clássicas, como Fisiopatologia), conformando a indicação dos estudos aí em-preendidos.

Contando com significativo número de nu-tricionistas, esses espaços de convivência com outros profissionais correspondem a lugares em que tais agentes podem expressar suas forças em crescimento. Se, entre 2000 e 2010, o número de grupos de pesquisa cuja área predominante era a medicina passou de 3 para 5, para a área predominante Nutrição esse número passou de 5 para 30; registre-se que, ao lado do intenso incremento na Nutrição, não há crescimento expressivo da pesquisa em Nutrição Clínica em outras áreas - a como Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva, por exemplo -, ainda que se deva notar sua existência (Figura 2).

Figura 2. Grupos de pesquisa em Nutrição Clínica segundo Área Predominante no Brasil, de 2000 a 2010. Fonte: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(18). Nota: DGP: Diretório dos Grupos de Pesquisa. 

Nos dias de hoje, valor e distinção são con-feridos à produção científica de rápido consumo em periódicos internacionais presentes em duas principais bases de indexação (Journal Citation Reports 19 e SCImago Journals 20), modelo em que predominam as Ciências da Natureza. Construir esse tipo de conhecimento e alcançar sua divul-gação em conformidade com os referenciais nor-mativos vigentes são os caminhos para a capi-talização nos meios científicos, e o Brasil não foge a esse padrão. Contudo, aqui também não há homogeneidade. Estudos clínicos e biomédicos não mantêm similaridade permanente entre si, e alguns gargalos são particularmente identificados entre os primeiros. A pesquisa clínica caracteriza--se por demandar tempo muitas vezes bastante prolongado; as questões éticas são particular-mente complexas; o acompanhamento dos pa-cientes exige controles, em muitos casos, de difícil execução; é limitada a rede de instituições que apresentam condições para o desenvolvimento dessas investigações; há dificuldades na cons-trução de bases de dados que permitam usos por diversos pesquisadores; a dependência da dispo-nibilidade de voluntários é um importante fator de limitação; é baixo o financiamento para essa atividade quando comparado a outros espaços da pesquisa biomédica21 , 22.

Diante desses entraves, é comum a mi-gração de pesquisadores da pesquisa clínica, incluídos os que atuam na Nutrição Clínica, para campos próximos nos quais há maior viabilidade para o desenvolvimento de suas atividades. Pas-sam, assim, a se dirigir a outros objetos como aqueles situados no âmbito da Bioquímica, da Fisiopatologia, da Genética, da Epidemiologia... . Enfim, ao se verem mergulhados no agressivo modelo competitivo da ciência atual, os agentes (pesquisadores, estudantes, grupos de pesquisa, instituições etc.) seguem participando e cons-truindo o jogo científico e suas regras, e construin-do a si mesmos nesse complexo processo.

Debaixo do guarda-chuva das denomina-ções biomédicas mais amplas ou apresentando--se de modo mais específico, a pesquisa em Nutrição Clínica vem crescendo, ao mesmo tempo em que se vê constantemente diante do impor-tante dilema: permanecer nadando contra a corrente e/ou migrar para alguma facilidade em outros campos?

Parece razoável, aqui, pensar na existência de multi ou interdisciplinaridade entre a pesquisa clínica e os demais estudos biomédicos como caminho indiscutível para o núcleo de saberes da Nutrição Clínica. Todavia, é imprescindível regis-trar que a clínica refere-se a seres humanos em relação. A clínica para seres humanos exige al-guém em sofrimento e outro alguém cuja ativi-dade corresponde à busca de caminhos para o alívio desse sofrer. São pessoas que se relacionam entre si e com instituições, empresas, governos, enfim com ordenamentos sociais de todo tipo, expressando forças e interesses os mais diversos.

Nesse processo, destacam-se os interesses de cunho mercadológico, como, por exemplo, aqueles que se expressam através da chamada medicalização da sociedade23, que vem dando o tom dos (des)encontros no âmbito da saúde, da prática clínica e, também, da pesquisa clínica, in-cluída aí a de caráter nutricional. Desde fenô-menos macrossociais até o mais íntimo da relação entre o profissional de saúde e seu paciente - pas-sando pelas mediações situadas nas esferas da política, da cultura, dos valores que circulam nas formações sociais -, há toda a subjetividade inexo-ravelmente presente, e que a pesquisa clínica, incluindo a que se dá no âmbito da Nutrição Clí-nica, parece ignorar.

A nuvem de palavras (Figura 3) construída a partir dos nomes das linhas de pesquisa que compõem os grupos de pesquisa aqui trazidos para exame coloca, de forma cristalina, a predo-minância da racionalidade biomédica no âmbito nutricional e a ausência dos sujeitos implicados nesses estudos. Na imagem gerada pela cons-trução da nuvem, destaca-se uma terapêutica voltada enfaticamente para o Metabolismo e, com menor força, para a doença. A palavra pa-ciente aparece uma única vez, sendo um verda-deiro desafio encontrá-la na Figura 3.

Figura 3. Nuvem de palavras dos grupos de pesquisa cujo nome explicita sua abordagem clínico-nutricional, em 2014, no Brasil. 

O paciente se configura como um sujeito assujeitado, colocado na condição de objeto de uma terapêutica definida por outrem. Mesmo esse outro, que domina a cena diante do paciente, não aparece. Assim, excluem-se as relações sociais e a intersubjetividade nos estudos desenvolvidos neste recorte da pesquisa, que se fixa no aspecto nutricional, sem considerar o alimentar. O alívio do sofrimento, imposto pelas relações entre seres humanos em sociedade, fica então reduzido a um olhar que ignora o relacional, perscrutando ape-nas o corpo biológico.

Pesquisa em nutrição clínica e perspectivas interdisciplinares no campo da alimentação e nutrição

Em praticamente todas as culturas, os alimentos sempre foram relacionados com a saúde - não apenas porque sua abundância ou escassez colocam em questão a sobrevivência humana, mas também (e em particular no mundo ocidental contemporâneo) porque o tipo de dieta e as razões médicas para sua utilização in-fluenciam fortemente a atitude diante da comida, considerando sua adequação à idade, sexo, cons-tituição física ou enfermidade24.

A predominância do pensamento tecni-cista, reforçado pelo discurso baseado em um saber traduzido pela linguagem que configura o jogo da clínica, está intimamente relacionada com a mudança da pergunta "O que é que você tem?" para "Onde lhe dói?". Tal passagem - do ser hu-mano para a doença -, envolve uma geometria dos corpos na qual a verbalização do patológico é eminentemente racional e marcada pela objeti-vidade científica positiva. São as medições instru-mentais da quantidade do evento observado que determinam o discurso do profissional de saúde, redistribuindo a relação do significado com o significante e configurando o discurso sobre a doença com base no saber sobre o indivíduo como corpo doente que necessita de intervenção25. Isso pode ser fielmente extrapolado para a Nutrição Clínica tal como praticada atualmente, assim como para a pesquisa praticada nesse núcleo de saberes.

Também na pesquisa em Nutrição Clínica, o ser doente não é considerado como um todo, limitando a sua prática aos elementos e segmen-tos que representam resultados de anormalidade ao serem avaliados através de observações fragmentadas26. É importante ter em conta que o corpo não se manifesta apenas através de técni-cas objetivas. É necessário considerar a natureza histórica constituída no interior de sua existência social concreta, possibilitando o tratamento atra-vés da permanente elaboração e reelaboração no mundo27. Os procedimentos e técnicas de ava-liação clínica do estado nutricional analisam e avaliam segmentos isolados do corpo, reduzindo ou eliminando a subjetividade humana e as dife-renças étnicas e culturais, assim ampliando o espa-ço das objetividades.

A centralidade da pesquisa clínica nas "doenças biomédicas" e o esquadrinhamento do doente em órgãos ou processos metabólicos se mostram tão mais agudos e intensos, quanto mais especializado o objeto de investigação. Tais sabe-res biocientíficos não ajudam a construir uma perspectiva mais integral para as pessoas. Pelo contrário, seu saber e as terapêuticas daí derivadas são dirigidos às doenças em seus mecanismos fisiopatogênicos e semiogênicos ou seus res-pectivos riscos, direcionando-se para o consumo de procedimentos especializados28.

Para Caponi29, a saúde não pertence à "ordem dos cálculos, não é o resultado de tabelas comparativas, leis ou médias estatísticas e, por-tanto, seu estudo não é exclusivo das investiga-ções biomédicas". A interpretação da saúde/doença não se faz apenas com base em sensações fisiológicas, caracterizadas em termos biológicos ou bioestatísticos, uma vez que a própria leitura dessas sensações é uma construção psicossocial e antropológica. Isso significa que a percepção das sensações enquanto alterações faz parte de um aprendizado que diz respeito a significados socialmente compartilhados30 , 31. Do ponto de vista dos conteúdos, é possível dizer que qualquer tema de saúde é também assunto das Ciências Sociais e Humanas, uma vez que todos dizem respeito à vida, ao adoecimento, à morte, a como as pessoas os pensam e os enfrentam e ao que a sociedade e o setor fazem para gerenciá-los32.

Como, segundo Luz33, as disciplinas tradi-cionais da área da saúde estão ligadas umbilical-mente à Biologia, seu olhar se dá de modo pura-mente natural e técnico sobre a vida. Tanto do ponto de vista metodológico como epistemo-lógico, essas disciplinas são incapazes de abarcar a totalidade do fenômeno da vida humana. Por essas razões, as Ciências Humanas e Sociais vêm sendo solicitadas a trabalhar em regime de coope-ração interdisciplinar, de forma crescente, no cam-po da saúde, tendo adquirido relevante papel para instrumentar conceitualmente políticas inova-doras de saúde, que levam em consideração a participação de pacientes e de coletivos de usuários, ao incorporar categorias como as de su-jeito, sofrimento e cuidado na atenção à saúde.

Tais perspectivas trazem para o primeiro plano as dimensões subjetivas do adoecimento humano, as quais constituem matéria essencial para a Nutrição Clínica. Trata-se de assumir um movimento de busca de aproximação entre a Alimentação e a Nutrição nos planos conceituais, metodológicos e institucionais, potencializando a geração de conhecimentos e saberes inova-dores, com repercussões para a sociedade, em especial no que tange à saúde.

REFERÊNCIAS

1. Prado SD, Gugelmin SA, Mattos RA, Klotz-Silva J, Olivares PS. A pesquisa sobre segurança alimentar e nutricional no Brasil de 2000 a 2005: tendências e desafios. Cienc Saúde Colet. 2010; 15(1):7-18. [ Links ]

2. Klotz-Silva J, Prado SD, Carvalho MCVS, Ornelas TFS, Oliveira PF. Alimentação e cultura como campo científico no Brasil. Physis. 2010; 20(2):413-42. [ Links ]

3. Prado SD, Prado SD, Bosi MLM, Carvalho MCVS, Gugelmin AS, Klotz-Silva J, et al. A pesquisa sobre Alimentação no Brasil: sustentando a autonomia do campo Alimentação e Nutrição. Cienc Saúde Colet. 2011; 16(1):107-19. [ Links ]

4. Prado SD, Bosi MLM, Carvalho MCVS, Gugelmin AS, Mattos RA, Camargo Jr. KR, et al. Alimentação e Nutrição como campo científico autônomo no Brasil: conceitos, domínios e projetos políticos. Rev Nutr. 2011; 24(6):927-38. doi: 10.1590/S1415-52 732011000600013 [ Links ]

5. Delmaschio KL. Os grupos de pesquisa nos campos da alimentação e nutrição e das ciências dos alimentos de 2000 a 2008 no Brasil [mestrado]. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2012. [ Links ]

6. Bourdieu P. O campo científico. In: Pierre B. Sociolo-gia. São Paulo: Ática; 1983. [ Links ]

7. Bourdieu P. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Unesp; 2004. [ Links ]

8. Khun T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva; 2003. [ Links ]

9. Chaves N. Nutrição básica e aplicada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1978. [ Links ]

10. Chemin SMSS, Mura JDAP. Tratado de alimentação, nutrição e dietoterapia. São Paulo: Roca; 2007. [ Links ]

11. Oliveira JED, Santos AC, Wilson ED. Nutrição básica. São Paulo: Sarvier; 1982. [ Links ]

12. Philippi ST. Nutrição e técnica dietética. Barueri: Manole; 2003. [ Links ]

13. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Comunicado 003/2012 - área Nu-trição. Considerações sobre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade na área. Brasília: Capes; 2012 [acesso 2012 abril 7] Disponível em: <http//www.capes.gov.br/images/stories/download/avaliação/interdisciplinaridade_nutricao.pdf>. [ Links ]

14. Nunes ED. Saúde coletiva: história recente, passado antigo. In: Campos GWS, Minayo MCS, Akerman M, organizador. Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec; 2009. [ Links ]

15. Kac G, Proença RCP, Prado SD. A criação da área Nutrição na Capes. Rev Nutr. 2011; 24(6):905-16. doi: 10.1590/S1415-52732011000600011 [ Links ]

16. Prado SD. Quais os núcleos de saberes que confor-mam o campo da Alimentação e Nutrição no Brasil? Demetra. 2013; 8(1):1-8. [ Links ]

17. Guimarães R, Lourenço R, Cosac S. A pesquisa em epidemiologia no Brasil. Rev Saúde Pública. 2001; 35(4):321-40. [ Links ]

18. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Diretório dos grupos de pesquisa no Brasil. Plataforma Lattes. Brasilia: CNPq; 2013 [acesso 2013 maio 15]. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/web/dgp>. [ Links ]

19. Journal Citation Reports. [cited 2014 May 17]. Available from: <http://thomsonreuters.com/journal-citation-reports/>. [ Links ]

20. SCImago Journals & Country Ranks. [cited 2014 May 17]. Available from: <http://www.scimagojr.com/>. [ Links ]

21. Zago MA. A pesquisa clínica no Brasil. Ciênc Saúde Colet. 2004; 9(2):363-74. [ Links ]

22. Zucchetti C, Morrone FB. Perfil da pesquisa clínica no Brasil. Rev HCPA. 2012; 32(3):340-7. [ Links ]

23. Conrad P. The medicalization of society. Baltimore: The Johns Hopkins University Press; 2007. [ Links ]

24. Carneiro HS. Comida e sociedade: significados sociais na história da alimentação. Hist Questões Debates. 2005; 42(0):71-80. [ Links ]

25. Foucault M. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2006. [ Links ]

26. Canguilhem G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2002. [ Links ]

27. Silva AM. Corpo, ciência e mercado: reflexões acer-ca da gestação de um novo arquétipo da felicidade. Campinas: Autores Associados; 2001. [ Links ]

28. Tesser CD, Luz MT. Racionalidades médicas e inte-gralidade. Ciênc Saúde Colet. 2008; 13(1):195-206. [ Links ]

29. Caponi S. A saúde, como abertura ao risco. In: Czeresnia D, organizador. Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendência. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003. [ Links ]

30. Ferreira J. O corpo sígnico. In: Alves PC, Organizador. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1994. [ Links ]

31. Nordenfelt L. Conversando sobre saúde: um diálo-go filosófico. Florianópolis: Bermúncia; 2000. [ Links ]

32. Minayo MCS. A produção de conhecimentos na interface entre as Ciências Sociais e Humanas e a Saúde Coletiva. Saúde Soc. 2013; 22(1):21-31. [ Links ]

33. Luz MT. Especificidade da contribuição dos saberes e práticas das ciências sociais e humanas para a saúde. Saúde Soc. 2011; 20(1):22-31. [ Links ]

Recebido: 16 de Abril de 2014; Aceito: 06 de Novembro de 2014

COLABORADORES RDA OLIVEIRA e SD PRADO trabalharam em todas as etapas de produção do artigo, desde a con-cepção até a versão final. MCVS CARVALHO e FR FERREIRA colaboraram na construção do texto e tra-balharam na sua versão final.

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium provided the original work is properly cited.