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Revista de Nutrição

versão impressa ISSN 1415-5273versão On-line ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. vol.28 no.5 Campinas sep./out. 2015

https://doi.org/10.1590/1415-52732015000500007 

Artigos Originais

Consumo alimentar de crianças de 12 a 30 meses que frequentam Centros Municipais de Educação Infantil no município de Colombo, Sul do Brasil

Food consumption in 12-30-month-old children attending Municipal Daycare Centers in the municipality of Colombo, Southern Brazil

Denise Yukari INOUE 1  

Mônica Maria OSÓRIO 2  

César Augusto TACONELI 3  

Suely Teresinha SCHMIDT 4  

Claudia Choma Bettega ALMEIDA 4  

1Nutricionista. Curitiba, PR, Brasil.

2Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Nutrição. Recife, PE, Brasil

3Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Exatas, Departamento de Estatística. Curitiba, PR, Brasil

4Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Segurança Alimentar e Nutricional. Av. Prefeito Lothário Meissner, 632, Jd. Botânico, 80210-170, Curitiba, PR, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: CCB ALMEIDA. E-mail: <clauchoma@gmail.com>.


RESUMO

Objetivo:

Analisar o consumo alimentar de crianças de 12 a 30 meses que frequentam Centros Municipais de Educação Infantil.

Métodos:

Estudo transversal realizado com 86 crianças dos Centros Municipais de Educação Infantil do município de Colombo, Paraná. O consumo alimentar nas creches foi avaliado pelo método da pesagem direta individual dos alimentos em dois dias não consecutivos e, no domicílio, utilizando-se o recordatório alimentar de 24 horas. Foram analisadas as medianas e o risco de inadequação de energia e de nutrientes de acordo com as Ingestões Dietéticas de Referência e as recomendações do Programa Nacional de Alimentação Escolar.

Resultados:

A maioria dos nutrientes apresentou ingestão mediana diária acima dos valores recomendados pelas Ingestões Dietéticas de Referência; o cálcio apresentou o maior risco de inadequação entre os nutrientes; 43% das crianças mostraram elevada ingestão energética e o lipídeo apresentou valor abaixo do aceitável. O consumo nas creches foi inferior às recomendações do Programa Nacional de Alimentação Escolar para energia, carboidrato, lipídeo, cálcio, ferro e fibras. A contribuição da ingestão de energia e lipídeo no domicílio foi superior a 50% em relação à ingestão diária.

Conclusão:

Os valores medianos dos nutrientes, geralmente acima das recomendações, associados aos riscos de inadequação de alguns micronutrientes e ao elevado consumo energético, evidenciam a importância de adequar o consumo alimentar e promover hábitos alimentares saudáveis nas crianças.

Palavras-Chave: Alimentação escolar; Consumo de alimentos; Creches; Necessidades nutricionais; Nutrição do lactente

ABSTRACT

Objective:

To analyze food consumption in 12-30 month-old children attending Municipal Daycare Centers.

Methods:

Cross-sectional study including 86 children of Municipal Daycare Centers in Colombo, Paraná State. Food consumption in the daycare centers was evaluated using the individual direct food weighing method in two non-consecutive days, and household food consumption was evaluated using the individual 24-hour dietary recall method. The median intake values and the prevalence of inadequacy of energy and nutrient intake were analyzed according to the Dietary Reference Intakes and the recommendations of the National School Feeding Program.

Results:

Most of the nutrients had median daily intake values above the daily dietary intake level, the Recommended Dietary Intake. Calcium had the highest prevalence of inadequacy among the nutrients evaluated; high energy intake was observed in 43% of children, and fat intake was below the recommended levels. The consumption of energy, carbohydrate, fat, calcium, iron, and fiber in the daycare centers evaluated was below the recommendations of the National School Feeding Program. The consumption of energy and fat at the household level accounts for more than 50% of the daily intake.

Conclusion:

The nutrient median intake values were in general above the recommended allowance, which, associated with the risk of inadequate intake of certain micronutrients and the high energy level consumption, demonstrates the importance of adequate food intake and the promotion healthy eating habits in children.

Key words: School feeding; Food consumption; Child care centers; Nutritional requeriments day; Infant nutrition

INTRODUÇÃO

A alimentação nos primeiros anos de vida deve ser qualitativa e quantitativamente adequada, a fim de garantir a ingestão dos nutrientes necessários para propiciar o crescimento e o desenvolvimento apropriados, além da formação de hábitos alimentares saudáveis1 , 2. Hábitos alimentares inadequados podem levar a carências nutricionais, comprometendo o crescimento e o desenvolvimento na infância, bem como contribuindo para o excesso de peso e para a antecipação de doenças crônicas não transmissíveis da fase adulta, como diabetes e doenças cardiovasculares2 , 3. Portanto, é importante que alimentos saudáveis sejam oferecidos às crianças tanto no domicílio como na escola.

Os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) possuem um papel fundamental na saúde e alimentação das crianças, pois nos primeiros anos de vida muitas delas começam a frequentar tais instituições de ensino onde permanecem por longos períodos do dia. Nesse contexto, visando a promoção de uma alimentação adequada e saudável como garantia da Segurança Alimentar e Nutricional, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) propõe a oferta de refeições que contribuam com o crescimento e desenvolvimento adequado de todas as crianças matriculadas nas escolas e creches públicas do País4.

Estudos têm mostrado uma relação positiva entre a frequência a instituições de educação infantil e a Segurança Alimentar e Nutricional5. Entretanto, ressalta-se a importância de avaliar a alimentação de crianças em CMEI, visando verificar a oferta de energia e nutrientes no atendimento às suas necessidades nutricionais para assegurar o seu adequado crescimento e desenvolvimento.

A situação alimentar pode indicar inadequações em populações vulneráveis, principalmente em crianças nos primeiros anos de vida, e permite contribuir para a elaboração de estratégias que previnem distúrbios nutricionais relacionados à alimentação. Portanto, avaliar os riscos de inadequação da ingestão de energia e nutrientes é essencial para identificar as características suscetíveis da alimentação e, assim, corrigir erros e promover hábitos alimentares saudáveis6 , 7. Desse modo, esta pesquisa teve como objetivo avaliar o consumo alimentar de crianças que frequentam CMEI.

MÉTODOS

O presente estudo é um recorte de uma pesquisa de caráter transversal, integrante de um projeto mais amplo intitulado "Segurança Alimentar e Nutricional no Ambiente Escolar", desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Trata-se da primeira pesquisa para avaliar o consumo alimentar nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) do município de Colombo, Paraná.

A amostra do estudo foi constituída por 86 crianças de ambos os sexos, matriculadas em período integral nos berçários de 26 CMEI, do total de 38, sorteados aleatoriamente, distribuídos nos três distritos sanitários do município. A seleção das crianças nos CMEI foi realizada por conveniência, correspondendo a 26,2% das crianças de 12 a 30 meses que estavam frequentando os 26 CMEI no ano de 2013. A coleta de dados foi realizada no período de junho a dezembro do mesmo ano, por uma equipe composta por duas alunas do Programa de Pós-Graduação em Segurança Alimentar e Nutricional juntamente com alunas do curso de graduação em Nutrição, todas previamente treinadas.

Os dados referentes ao consumo alimentar total foram obtidos em dois momentos através da aplicação de dois métodos amplamente descritos na literatura: pesagem direta de alimentos8 , 9, para avaliar o consumo no CMEI, e recordatório de 24 horas9, para verificar o consumo no domicílio.

A ingestão alimentar nos CMEI foi avaliada por meio do método da pesagem direta individual em dois dias não consecutivos da semana. Para esse procedimento, os utensílios utilizados nas refeições foram identificados com os nomes das crianças que participaram do estudo. Foi registrado o consumo dos alimentos fornecidos no café da manhã, colação, almoço, lanche da tarde e jantar. As repetições e restos alimentares de cada criança também foram pesados/mensurados para subsidiar o cálculo da quantidade ingerida. Os alimentos sólidos foram pesados em balança digital com capacidade de 5 kg e sensibilidade de 1 g e os líquidos foram mensurados em proveta graduada de 250 mL.

O consumo alimentar no domicílio foi obtido por meio de entrevista com a mãe ou responsável pela alimentação da criança, utilizando-se o Recordatório Alimentar de 24 horas (R24h) aplicado nos dias da pesagem direta. Dessa forma, obteve-se informações sobre a alimentação da criança no período em que esteve ausente do CMEI. Com o intuito de facilitar as respostas e diminuir as chances de erros nas estimativas das porções, utilizou-se, no momento da entrevista, um conjunto de utensílios (copos, pratos, colheres, conchas, mamadeiras etc.) para auxiliar os entrevistados na identificação das medidas.

Os dados da pesagem direta e dos R24h foram transformados em gramas e mililitros, utilizando-se o "Manual de avaliação do consumo alimentar em estudos populacionais (ISA)"10 e a "Tabela para avaliação de consumo alimentar em medidas caseiras"11. A soma do consumo investigado pelos dois inquéritos (pesagem e R24h) representou um dia de ingestão alimentar da criança (consumo alimentar total). Assim, foram obtidos dados referentes a dois dias não consecutivos para cada criança.

Para determinação dos valores de energia e nutrientes em ambos os locais investigados, foi utilizado o software Avanutri online (r) e, preferencialmente, a "Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (Taco)"12. Após a inserção dos dados no software, o processamento e análise estatística foram realizados no programa Statistical Package for the Social Science(SPSS Inc., Chicago, Ilinois, Estados Unidos) versão 20.0. Inicialmente, os valores medianos e percentis (25 e 75) foram usados para analisar o consumo alimentar total e nos CMEI, considerando que a ingestão de nutrientes dificilmente apresenta distribuição simétrica.

Para estimar o risco de inadequação referente ao consumo de macro e micronutrientes, foram considerados como parâmetros as recomendações em relação aos valores das Dietary Reference Intakes (DRI, Ingestões Dietéticas de Referência), propostas pelo Food and Nutrition Board/Institute of Medicine 13 , 14, sendo a população dividida em duas faixas etárias (7 a 11 meses e 12 a 30 meses). A Estimated Average Requirement (EAR, Necessidade Média Estimada) foi utilizada para avaliação da prevalência de inadequação de cada nutriente, sendo esta considerada a referência mais apropriada para o objetivo13. A normalidade dos nutrientes foi testada por meio do teste Kolmogorov-Smirnov, utilizando-se o nível de significância de 5%. Aqueles nutrientes que não apresentaram distribuição normal foram submetidos a uma transformação logarítmica, sendo sua normalidade testada novamente. A distribuição assimétrica permaneceu para o zinco, não sendo, portanto, avaliado o seu risco de inadequação.

Os dados foram ajustados para a remoção da variabilidade intrapessoal por meio do teste Análise de Variância (Anova). Não foi possível verificar o risco de inadequação quando não havia o valor de EAR estabelecido, sendo utilizada, nesse caso, a inges-tão adequada. Nesse caso, verificava-se se a mediana estava acima ou abaixo da referência.

A ingestão de energia foi avaliada utilizando-se os valores da Estimated Energy Requirement (EER, Necessidade Energética Estimada). A EER foi calculada para cada criança utilizando as equações para predição de gasto energético total, de acordo com as DRI recomendadas para cada faixa etária, considerando a idade e peso13. O risco de inadequação de energia foi determinado quando o valor obtido encontrava-se abaixo do valor médio da EER calculada do grupo. O consumo de energia foi classificado em até 80%, 80 a 120% e acima de 120%, considerado, respectivamente, como consumo insuficiente, adequado e em excesso15. Os macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídeos) foram avaliados segundo as recomendações das DRI13 , 16, utilizando a Acceptable Macronutrient Distribution Range (AMDR, Faixa de Distribuição Aceitável de Macronutrientes) para as crianças entre 1 a 3 anos: 45 a 65% de carboidratos, 5 a 20% de proteínas e 30 a 40% de lipídeos.

Os dados referentes ao consumo alimentar nos CMEI foram comparados com as referências do PNAE, o qual preconiza que a alimentação escolar deve fornecer 70% das necessidades diárias de energia e nutrientes aos alunos que frequentam período integral na Educação Infantil4. Também verificou-se a contribuição da alimentação no CMEI no consumo alimentar total da criança.

Tabela 1. Ingestão diária de energia e nutrientes de crianças de 12 a 30 meses frequentadoras de Centros Municipais de Educação Infantil e os respectivos valores de referência. Colombo (PR), 2013. 

Nota: a Estimated Avarage Requeriment;bAlimentação inadequada. P: Percentil; DRI: Dietary Reference Intakes.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde da UFPR, Processo nº 11312612.5.0000.0102, de acordo com os requisitos da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde17.

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta as medianas e percentis (25 e 75) do consumo alimentar total das crianças. Observa-se que a maioria dos nutrientes apresenta valores medianos acima dos de referência, tanto para EAR quanto para a ingestão adequada, com exceção das fibras. Já na Tabela 2, verifica-se que o cálcio e o magnésio apresentaram, respectivamente, o maior e o menor percentual de risco de inadequação em relação aos demais micronutrientes. A Figura 1 apresenta o consumo de energia em relação à classificação da EER segundo a faixa etária, sendo que 43% apresentam consumo excessivo de energia.

Na análise da distribuição aceitável de macronutrientes, 12,8% das crianças apresentaram consumo acima da AMDR para carboidratos e 7,0% para proteínas. Por outro lado, 81,4% tiveram consumo de lipídeo abaixo da AMDR.

/ A Tabela 3 apresenta as medianas de energia e nutrientes do consumo alimentar das crianças nos CMEI em relação às recomendações do

Tabela 2. Prevalência de inadequação da ingestão diária dos nutrientes de crianças de 12 a 30 meses frequentadoras de Centros Municipais de Educação Infantil. Colombo (PR), 2013. 

Figura 1 Consumo de energia (kcal) em relação à classificação da Estimated Energy Requeriment em crianças de 12 a 30 meses frequentadoras de Centros Municipais de Educação Infantil. Colombo (PR), 2013. 

Tabela 3. Ingestão de energia e nutrientes de crianças de 12 a 30 meses nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) em relação às recomendações do PNAE. Colombo (PR), 2013. 

Nota: *Valor percentual do consumo no CMEI em relação à recomendação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Md: Mediana; P: Percentil.

Tabela 4. Ingestão de energia e nutrientes de crianças de 12 a 30 meses nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) em relação ao consumo diário. Colombo (PR), 2013. 

Nota: *Valor percentual do consumo no CMEI em relação ao consumo total. Md: Mediana; P: Percentil.

PNAE. Observa-se que a ingestão mediana de energia (568 kcal), carboidrato (90,5 g), lipídeo (12,7 g), cálcio (243 mg), ferro (3 mg) e fibras (6 g) está abaixo dos valores recomendados. Ao analisar o consumo de energia e nutrientes nos CMEI em relação à ingestão diária total, verifica-se que a contribuição de energia, lipídeo, cálcio, vitamina C e ferro oferecidos nesses locais foi inferior a 50% da ingestão diária (Tabela 4).

DISCUSSÃO

O presente estudo representa a primeira pesquisa realizada no município de Colombo (PR) para avaliar o consumo alimentar de macro e micronutrientes das crianças que frequentam os berçários dos CMEI. Também analisa o consumo alimentar no período em que a criança está no domicílio.

O município, situado na região metropolitana de Curitiba (PR), caracteriza-se como uma cidade dormitório. Desse modo, muitas crianças permanecem o dia inteiro no CMEI, retornando para casa acompanhadas de seus familiares ou em transportes escolares. Assim, a avaliação do consumo alimentar dessa população, em especial aqueles que frequentam o berçário, torna-se essencial, tendo em vista que se trata de um grupo considerado vulnerável no tocante a uma alimentação inadequada, o que pode acarretar a ocorrência de doenças relacionadas ao consumo deficiente ou excessivo de nutrientes2.

Ao avaliar a ingestão alimentar das crianças, constata-se que a maioria dos valores medianos dos nutrientes do consumo total apresenta-se acima do preconizado pelas DRI13. Isso pode ser explicado pelo fato das crianças realizarem, além das cinco refeições no CMEI, outras refeições fora da instituição (lanches compostos por bolachas, leite, frutas, além do jantar). Chama atenção também a alta ingestão de cálcio, magnésio e zinco nas duas faixas etárias, possivelmente pelo alto consumo de leite adicionado de cereais fortificados, conforme observado nas refeições lácteas servidas às crianças tanto nos CMEI como nos domicílios.

O consumo elevado de vitamina A pode estar relacionado ao consumo de alimentos fontes desse nutriente, como alguns legumes (cenoura, abóbora) e frutas (mamão), além do consumo de leite de vaca. Aliado a isso, algumas crianças ainda consumiam o leite fortificado com vitamina A, vitamina D e ferro distribuído diariamente pelo programa estadual Leite das Crianças, ação assistencial que visa atender às famílias com membros entre 6 e 36 meses em situação de vulnerabilidade social18.

É necessário considerar que o consumo de nutrientes acima dos valores de referência não reflete sua absorção total pelo organismo. A presença de determinados fatores pode tanto aumentar quanto diminuir a absorção dos mesmos. Entre eles, pode-se citar o tipo de processamento do alimento e a ingestão de gordura (que influenciam na absorção de vitamina A) e o consumo de alimentos ricos em fitatos e oxalatos (os quais diminuem a absorção de cálcio, ferro, magnésio e zinco)13.

Com relação à ingestão de fibras, observa-se que a mediana ficou abaixo do valor de referência, resultado observado também por Spinelli et al. 19. Isso pode estar relacionado à baixa variedade de hortaliças e frutas. Observou-se nos CMEI uma oferta mais frequente de tubérculos, como a batata, e legumes, como a cenoura, além da oferta do caldo e não do grão do feijão, fato também observado por Cruz et al.20. Com relação às frutas, a mais ofertada nos dias investigados foi a banana, possivelmente pela sua textura e fácil aceitação pelas crianças. É relevante destacar a importância das fibras alimentares, principalmente para evitar a obstipação intestinal e promover a saciedade, o que pode reduzir o consumo de energia e o risco de obesidade, bem como o risco de doenças cardiovasculares13.

O baixo risco de inadequação de vitamina A no presente estudo (7%) sugere, mais uma vez, que há uma boa oferta de alimentos fontes dessa vitamina na dieta das crianças estudadas. Apesar da mediana de vitamina C apresentar-se acima da EAR, a prevalência de inadequação é de 11%. Ressalta-se sua importância como antioxidante e cofator em processos enzimáticos e hormonais, além de auxiliar na absorção do ferro não-heme dos alimentos13. A literatura indica uma variação no consumo dessa vitamina para a população infantil, revelando tanto inadequações como excessos15. Apesar dos valores medianos estarem acima da EAR, 20% dos participantes apresenta risco de inadequação para cálcio. Atender à recomendação para esse mineral é essencial para a formação da estrutura dos ossos e dentes13. É importante ressaltar que os riscos de inadequação do consumo de nutrientes revelados no presente estudo, apesar de não apresentarem valores tão elevados, devem ser considerados, pois podem estabelecer uma condição prejudicial para o crescimento e desenvolvimento infantil.

Ao analisar os valores de nutrientes consumidos no CMEI com as recomendações do PNAE, observa-se que alguns deles (carboidrato, lipídeo, cálcio, ferro), bem como as fibras e a energia não alcançam as recomendações propostas. Isso poderia ser explicado pelo não planejamento de cardápio diferenciado para as diferentes faixas etárias e para os berçários. Nestes últimos, eram oferecidas as mesmas preparações servidas para as turmas de Maternal e Pré I e II. Ressalta-se que as diretrizes do PNAE preconizam essa divisão por faixa etária4, o que torna necessária a elaboração de cardápios padronizados para cada uma delas, com o objetivo de garantir a oferta adequada de energia e nutrientes.

Na maioria dos CMEI, a porção dos alimentos servida aos alunos era determinada pelas professoras, sendo observada a oferta de pequenas porções de carnes e hortaliças, o que pode ser um risco para a baixa ingestão de certos nutrientes. Evidencia-se a importância de elaborar orientações em relação ao porcionamento adequado dos alimentos, com o objetivo de fornecer a quantidade satisfatória de nutrientes. Outro estudo sobre o consumo alimentar em creches também destaca esse mesmo problema, demonstrando a importância de ações de educação e supervisão dos profissionais das instituições21.

O alto consumo de alguns nutrientes pode estar relacionado tanto com a ingestão alimentar no CMEI quanto no domicílio. O consumo de energia, lipídeo e cálcio maior no domicílio (contribuição superior a 50% na dieta total) pode estar relacionado à maior ingestão de produtos de alta densidade energética e, principalmente, à oferta de produtos lácteos (precocemente introduzidos na alimentação infantil), o que também foi observado por Bernardi et al. 22 , 23. O leite de vaca é uma fonte importante de cálcio, nutriente essencial para a formação óssea, sendo considerado pelos pais um alimento fundamental para a dieta das crianças. A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda o seu consumo no primeiro ano de vida,e ressalta a importância do aleitamento materno exclusivo até os seis meses e complementado até, pelo menos, os dois anos de idade24.

A criança começa a aprender o quê e quando comer nos primeiros anos de vida, de acordo com a cultura do grupo social ao qual ela pertence1. Portanto, a alimentação influenciada pela família pode contribuir tanto para a adequação nutricional quanto para déficit ou excessos. Por conta disso, os aspectos quanti e qualitativos referentes às refeições fora da instituição (CMEI) são preocupantes, podendo colocar em risco a segurança alimentar e nutricional dessa população e colaborar para o aumentos dos riscos de sobrepeso e obesidade1 , 2 , 25. Assim sendo, é importante a implementação de programas e estratégias de educação em segurança alimentar e nutricional direcionada para os pais, com o objetivo de esclarecer informações sobre a importância da alimentação em casa. Esta deve ser saudável para que possa complementar as refeições realizadas no CMEI.

No presente estudo, observou-se um consumo excessivo de energia em 43,0% das crianças, o que está de acordo com os resultados de Tavares et al. 15, que encontraram alto índice de consumo de energia em 43,3% das crianças de creches públicas e em 41,6% das de instituições privadas no município de Manaus (AM). Já Martino et al. 26 verificaram ingestão energética acima dos valores recomendados em 78,3% das crianças de um a três anos em centros educacionais municipais em Alfenas (MG). O consumo excessivo de energia não garante a ingestão adequado de micronutrientes. Além disso, pode favorecer o excesso de peso, considerado fator de risco para processos patológicos que podem ser iniciados nos primeiros anos de vida, como doenças crônicas não transmissíveis, incluindo a aterosclerose e a hipertensão arterial1 , 2. Dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher revelam que o excesso de peso aumentou de 6,9 para 9,0%, entre 1996 e 2006, nas crianças menores de cinco anos na região Sul do País, indicando a necessidade de se estimular hábitos alimentares saudáveis para equilibrar a ingestão energética27.

A distribuição percentual abaixo da recomendação para lipídeo corrobora o resultado de outros estudos em escolas infantis7 , 28 , 29, sugerindo que o menor consumo de carne e pouca quantidade de óleo para o preparo dos alimentos podem interferir na ingestão desse nutriente. Sua restrição é preocupante durante a infância, período durante o qual seus requerimentos são relativamente altos, e sua importância deve ser considerada para a absorção de vitaminas lipossolúveis e carotenoides. Além disso, a baixa ingestão de gordura na alimentação pode resultar no comprometimento do crescimento, enquanto o excesso

pode aumentar o risco de doenças crônicas14. Por conta disso, os responsáveis pela alimentação das crianças, tanto no domicílio como nos CMEI, precisam ser orientados quanto ao modo de preparo e quantidade ofertada de gordura nas refeições.

Apesar das limitações de estudos com amostras não probabilísticas, é importante ressaltar que os 26 CMEI incluídos no estudo foram selecionados aleatoriamente, representando 68,4% das instituições desse tipo no município. Além disso, foram coletados dados do consumo alimentar individual na escola e no domicílio dos participantes, adotando procedimentos metodológicos rigorosos na coleta e análise dos dados com o intuito de evitar ao máximo vieses na estimativa da ingestão energética e de nutrientes dessa população.

CONCLUSÃO

Os valores medianos dos nutrientes, geralmente acima da EAR, associados aos riscos de inadequação de alguns micronutrientes e ao elevado consumo energético, evidenciam a importância de adequar o consumo alimentar e promover hábitos de alimentação saudável nas crianças de creches públicas.

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Recebido: 30 de Julho de 2014; Revisado: 08 de Junho de 2015; Aceito: 24 de Junho de 2015

COLABORADORESDY INOUE participou da concepção do estudo, coleta, processamento, análise e interpretação dos dados e redação do manuscrito. MM OSÓRIO participou da concepção e delineamento do estudo, análise e interpretação dos dados e revisão crítica do manuscrito. CA TACONELI participou da concepção e delineamento do estudo e revisão crítica do manuscrito. ST SCHMIDT participou da concepção do estudo e revisão crítica do manuscrito. ALMEIDA CCB participou da concepção e delineamento do estudo, análise e interpretação dos dados e revisão crítica do manuscrito.

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