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Revista Brasileira de Epidemiologia

On-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.6 no.1 São Paulo Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003000100005 

Introdução de alimentos complementares e sua relação com variáveis demográficas e socioeconômicas, em crianças no primeiro ano de vida, nascidas em Hospital Universitário no município de São Paulo*

 

Introduction of complementary foods and its relation with demographic and socioeconomic variables during the first year of life of children born in a University Hospital in the city of Sao Paulo

 

 

Viviane Gabriela Nascimento SimonI; José Maria Pacheco de SouzaII; Sonia Buongermino de SouzaIII

IFaculdade de Saúde Publica, Universidade de São Paulo. Av. Dr. Arnaldo, 715 — CEP 01246-904, São Paulo, SP; vivianesimon@hotmail.com
IIDepartamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Publica, Universidade de São Paulo
IIIDepartamento de Nutrição, Faculdade de Saúde Publica, Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A alimentação da criança no 1º ano de vida é muito importante para seu crescimento e desenvolvimento. A alimentação complementar é influenciada por complexos fatores sociais, econômicos e culturais.
OBJETIVO: Verificar a idade de introdução de alimentos complementares no primeiro ano de vida, e sua relação com variáveis demográficas e socioeconômicas.
MÉTODOS: Estudou-se uma coorte de crianças nascidas em Hospital Universitário do Município de São Paulo. A verificação da idade de introdução de alimentos foi feita a partir de fichas preenchidas pela mãe, diariamente, onde constavam os alimentos oferecidos à criança a cada dia, até o final do seguimento. A introdução dos alimentos foi descrita utilizando-se a técnica de análise de sobrevida de Kaplan & Meier, e a análise de associação entre idade de introdução dos alimentos e as variáveis independentes foi feita pelo modelo de análise multivariável de Cox.
RESULTADOS: As idades medianas de introdução de água ou chá, leite não materno, frutas, verduras e legumes, cereais e tubérculos foram menores de 6 meses. Foram verificadas associações estatisticamente significativas entre escolaridade materna, renda familiar, trabalho materno e introdução de alguns alimentos.
CONCLUSÃO: Houve introdução precoce de água ou chá e de leite não materno. Além da renda e do trabalho materno, a escolaridade materna parece ser a variável que mais influencia a introdução de alimentos complementares.

Palavras-chave: Desmame. Alimentação infantil. Alimentação complementar. Prática alimentar infantil.


ABSTRACT

INTRODUCTION: Nutrition is an important aspect in the growth and development of infants in the first year of life. Complementary feeding is a complex process that is influenced by social, economic and cultural factors.
OBJECTIVES: To verify the age of introduction of complementary food in the first year of life, and its relation with demographic and socioeconomic variables.
METHODS: A cohort of children born in a University Hospital in the Municipality of Sao Paulo was studied. The age of introduction of foods to the infants was verified through a form that mothers filled out every day with the foods offered to their children, until the end of the follow-up. The introduction of foods was described using the Kaplan & Meier life table analysis. The association between age of introduction of foods and independents variables was analyzed by using Cox's multivariate analysis model.
RESULTS: The median age of introduction of water or tea, milk, fruits, greens and vegetables, cereals and tubercles was less than six months. Statistically significant associations between mother's schooling, family income, working conditions of the mother and supplementary foods introduction were observed.
CONCLUSION: There was an early introduction of the water or tea and non-breast milk. In addition to family income and mother's working conditions, mother's schooling seems to be the variable that most influenced the introduction of supplementary foods.

Key Words: Breastfeeding. Weaning. Supplementary feeding. Infant feeding. Infant feeding practices.


 

 

Introdução

Os cuidados com a criança no primeiro ano de vida são fundamentais, por ser esta uma fase em que ela se encontra extremamente vulnerável, tendo em vista o fenômeno do crescimento e a sua total dependência. Dentre as necessidades básicas para assegurar a sobrevivência, o crescimento e o desenvolvimento adequado, a nutrição assume papel importante1.

O ato do aleitamento materno representa a forma natural de alimentar uma criança nos primeiros meses de vida.

No Brasil, a prática do aleitamento materno apresentou tendência decrescente da década de 40 até a década de 70. Esse processo de redução começou a ser atenuado nos anos 80, quando tiveram início os programas de incentivo ao aleitamento materno2.

Em 1990, a Organização Mundial de Saúde recomendou que as crianças fossem amamentadas exclusivamente ao seio até os 4 a 6 meses de vida, pois a lactação seria a maneira mais eficiente de atender as necessidades nutricionais do bebê3.

Em 2001, a recomendação passa a ser aleitamento materno exclusivo até seis meses4.

A complementação do leite materno, a partir dos 6 meses de idade, é fundamental para atender as necessidades nutricionais do lactente.

Oferecer à criança alimentos que não o leite materno antes do quarto mês de vida é em geral desnecessário e pode deixar a criança mais vulnerável a diarréias, infecções respiratórias e desnutrição, que podem levar ao comprometimento do crescimento e do desenvolvimento5. Em compensação, a introdução de alimentos tardiamente, após o sexto mês, também pode trazer conseqüências indesejadas, tais como deficiência no crescimento6.

O período de introdução da alimentação complementar, que deve ocorrer entre seis e doze meses de vida, é uma etapa crítica que, com freqüência, conduz à má nutrição e a enfermidades quando a criança não recebe uma dieta adequada. É um processo que envolve complexos fatores sociais, econômicos e culturais que interferem no estado nutricional da criança; a adoção de práticas alimentares adequadas nos primeiros anos de vida é de extrema importância, pois esse é o período em que os hábitos alimentares são estabelecidos e continuarão na adolescência e na idade adulta7,8.

A partir do exposto, buscou-se descrever a idade de introdução de alimentos complementares ao aleitamento materno no primeiro ano de vida, e sua relação com variáveis demográficas e socioeconômicas, em crianças nascidas em Hospital Universitário do Município de São Paulo.

 

Métodos

O presente estudo de coorte foi realizado utilizando-se dados de uma pesquisa matriz, que teve por objetivo estudar a prática alimentar, o crescimento e o desenvolvimento de crianças nascidas em Maternidade de Hospital Universitário situado no município de São Paulo, no período de outubro de 1998 a outubro de 1999, acompanhadas até completarem 1 ano de idade.De 588 recém-nascidos, 383 foram acompanhados até o final do primeiro ano de vida; das 383 crianças acompanhadas, 326 mães responderam de forma adequada o questionário da prática alimentar até um ano de vida, e constituem a amostra estudada nesta pesquisa.

A verificação da idade de introdução dos alimentos foi feita mediante fichas preenchidas pelas mães diariamente, onde constavam os alimentos oferecidos à criança a cada dia, até o final do seguimento. Para identificar o dia de introdução de cada alimento, foi levada em consideração a anotação da mãe no alimento em pelo menos 3 dias, num período de até 60 dias.

As variáveis de estudo foram:

  • Variável dependente: idade de introdução de água e chá e dos seguintes alimentos ou grupos de alimentos: leite não materno (formulado, em pó, fluido), frutas, cereais e tubérculos (arroz, macarrão, batata, mandioca, outros), verduras e legumes (alface, espinafre, cenoura, tomate, chuchu, outros), carnes (bovina, de frango e peixes), feijão e ovos (gema de ovo e ovo inteiro).

  • Variáveis independentes ou explanatórias: idade materna, escolaridade materna, condição de trabalho materno e renda familiar.

Para a caracterização da população foram apresentadas distribuições de freqüência. As curvas de introdução de alimentos foram obtidas utilizando-se a técnica de análise de sobrevida de Kaplan & Méier. Para cada alimento foi feita análise multivariável de Cox com as variáveis explanatórias.

As variáveis foram estudadas segundo as seguintes categorias:

  • idade materna: < 27 anos, 27 e + anos

  • escolaridade materna:1ª a 4ª séries; 5ª a 8ª séries; ensino médio; ensino superior. Considerou-se, para inclusão nas categorias ensino médio e ensino superior, mães que estavam cursando e as que já haviam completado o curso.

  • trabalho materno: trabalha fora; dona de casa

  • renda familiar: 0—3 sm; 4—6 sm; 7e mais sm; não informada. A categoria não informada foi mantida por uma questão de conveniência da análise multivariável, pois os dados faltantes não são considerados, levando à perda da hierarquização nos testes de máxima verossimilhança. Esta categoria pode ser interpretada pelo menos de duas formas. Uma delas é o fato de o não informante ter características próprias, portanto ser diferente dos demais e ter um significado epidemiológico em si mesmo, permitindo comparação com as demais categorias. A outra forma é não fazer considerações epidemiológicas em relação a essa categoria. No presente estudo, optou-se por esta última abordagem.

Adotou-se o critério de p < 5% para permanência da variável no modelo final. Foram utilizados os pacotes estatísticos Epi Info v.6.04 e Stata v.7.0.

O desenvolvimento da pesquisa seguiu os requisitos da "Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde do Brasil" (Ministério da Saúde, 1997) e as normas internas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, que regulamentam pesquisas envolvendo seres humanos.

 

Resultados

Das crianças estudadas, 52,8% eram do sexo masculino e 47,2% eram do sexo feminino. Observou-se maior proporção de mães na faixa etária entre 19 e 26 anos de idade. Em relação à escolaridade materna, verificou-se que a maior proporção das mães havia terminado, estava cursando ou havia parado de estudar no ensino médio.

Quanto ao trabalho materno, verificou-se que a maior proporção das mães era constituída por donas de casa. Por outro lado, 89,6 % dos pais trabalhavam fora de casa. A renda familiar situou-se, predominantemente, na faixa entre 3 e 6 salários mínimos (Tabela 1).

 

 

O Gráfico 1 apresenta as curvas de introdução dos alimentos, e na Tabela 2 são apresentadas as idades medianas de introdução de cada alimento ou grupo de alimentos estudados.

 

 

 

 

Os resultados da análise multivariável para cada alimento são apresentados nas Tabelas 3 a 10.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Discussão

Apesar da maior difusão do conhecimento de que o leite materno, oferecido de forma exclusiva, atende às necessidades de energia e de nutrientes do lactente até cerca de seis meses de vida, verifica-se que o início do processo de desmame continua sendo precoce. Embora praticamente todas as mães, em países em desenvolvimento, iniciem a amamentação de seus filhos, poucas o fazem de modo exclusivo9.

No Gráfico 1 são apresentadas as curvas de idades de introdução dos alimentos. Pode-se admitir três blocos de alimentos, segundo a introdução. O primeiro bloco a ser introduzido é constituído por água ou chá, leite não materno e frutas. A seguir vêm as verduras e os legumes, os cereais e os tubérculos, e as carnes. O terceiro bloco é constituído por ovo e feijão. A Tabela 2 mostra que água e chá, leite não materno, frutas, verduras e legumes, cereais e tubérculos são alimentos com idades medianas de introdução menores de seis meses.

A complementação do leite materno com líquidos não nutritivos como água e chás é desnecessária. Supõe-se que a introdução precoce de água ou chá tenha ocorrido porque se trata de prática difundida, quase um traço cultural, acreditando-se que os líquidos são necessários porque a criança sente sede e, além disso, a mãe teme que, especialmente no verão, ela desidrate10,11. Além de água ou chá, a idade mediana de introdução de leite não materno evidencia o início precoce do desmame. Verificou-se que a maior proporção das crianças recebeu inicialmente o leite formulado. Esse resultado foi verificado também por Souza12 entre crianças atendidas em centros de saúde-escola no município de São Paulo. O leite formulado é indicado como a melhor opção quando ocorre precocemente o desmame13. Entretanto, sabe-se que esses leites têm custo elevado, o que leva, provavelmente, a um período muito curto de uso, com substituição pelo leite em pó integral ou pelo leite fluido que é contra indicado no primeiro ano de vida.

As idades de introdução de frutas, cereais e tubérculos, verduras e legumes, e carnes são muito próximas às verificadas em outros estudos 14-17.

O feijão e o ovo foram as introduções mais tardias, passando a fazer parte da alimentação da quase totalidade das crianças somente no final do primeiro ano de vida. Esse mesmo resultado foi encontrado por Szarfarc e colaboradores18 e por Spinelli17, que constataram que o feijão era oferecido com mais freqüência somente após um ano de idade.

Quanto à relação entre as idades de introdução dos alimentos e as variáveis explanatórias estudadas, verifica-se, na Tabela 3, que existe uma associação estatisticamente significativa entre mães com nível superior de escolaridade e a introdução mais tardia de água ou chá. Isso parece mostrar que o acesso à informação de que esses itens são dispensáveis nos primeiros seis meses de vida, quando a criança mama no peito, ainda depende de melhor nível de estudo, uma vez que oferecer água e chá é hábito bastante difundido e aceito pela população em geral.

Quanto à introdução de leite não materno (Tabela 4), nota-se que o fato de a mãe ser dona de casa faz com que a introdução seja mais tardia, levando a supor que a mãe que não trabalha fora do lar tem maior disponibilidade para o aleitamento.

Em relação a verduras e legumes, é interessante notar, na Tabela 7, que os grupos com escolaridade intermediária (5a a 8 a séries e ensino médio) são os que introduzem mais cedo. No modelo final, verifica-se associação estatisticamente significativa entre mães com ensino médio e introdução mais precoce de verduras e legumes.

A introdução mais cedo de carnes, como mostra a Tabela 8, está associada ao fato de a mãe ser dona de casa e estar incluída nos dois níveis mais elevados de renda familiar. A associação com maior nível de renda pode estar relacionada com o custo elevado do alimento.

Na Tabela 9 verifica-se associação estatisticamente significativa entre maior escolaridade e introdução mais cedo de feijão. Observa-se que há uma ordenação, pois as mães com escolaridade de nível superior introduzem o alimento mais cedo, seguidas daquelas com ensino médio e com 5a a 8 a séries e, finalmente, a introdução mais tardia ocorre entre as mães com escolaridade de 1a a 4 a séries.

As idades de introdução de frutas (Tabela 5), cereais e tubérculos (Tabela 6) e de ovo (Tabela 10) não se associaram às variáveis explanatórias.

 

Conclusão

Em vista dos resultados obtidos, conclui-se que houve introdução precoce principalmente de água ou chá, e de leite não materno. Por outro lado, observa-se também que, aos 360 dias de idade, quando a criança já poderia estar recebendo a alimentação da família, nenhum dos alimentos estudados obteve 100% de introdução na dieta.

Os resultados sugerem que a escolaridade materna talvez seja a variável que mais influencia a introdução de alimentos complementares no primeiro ano de vida.

 

Referências

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Recebido em: 23/11/01
1ª aprovação em: 04/12/01
Versão final em: 05/06/02

 

 

* Extraído de dissertação de Mestrado "Introdução de Alimentos Complementares em Crianças no Primeiro Ano de Vida Nascidas em Hospital Universitário no Município de São Paulo" apresentado à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo em 29/06/2001. (Bolsa CAPES de mestrado)