SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número3EditorialIV Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Brasileira de Epidemiologia

versão impressa ISSN 1415-790Xversão On-line ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. v.8 n.3 São Paulo set. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2005000300002 

EDITORIAL

 

 

Perdemos Richard Doll.

Nunca saberemos com certeza que nomes serão lembrados no futuro como referências no campo das idéias e da produção de conhecimento nas esferas da Epidemiologia e da Saúde Pública, mas além de John Snow, seguramente Richard Doll estará entre eles.

Seus trabalhos sobre a associação entre o tabagismo e câncer de pulmão são presença obrigatória nos livros texto de Epidemiologia e uma constante nas atividades de formação de profissionais de saúde e pesquisadores nestas áreas.

Embora os aportes de sua trajetória científica transcendam em muito o estudo dos efeitos do tabagismo na saúde humana, não é sobre estes que gostaria de comentar, mas sim do ser humano de olhar doce e franco que tive o privilégio de conhecer e conviver durante alguns poucos, mas sempre lembrados dias.

Durante os preparativos do IV Congresso Brasileiro de Epidemiologia, o EPI-RIO realizado em agosto de 1998, o nome de Richard Doll veio imediatamente à mente na estruturação da relação de palestrantes convidados. Ao contrário de alguns outros nomes _ felizmente poucos, e imediatamente desconsiderados- que ao serem convidados, responderam-nos perguntando quanto receberiam como pagamento para apresentarem conferências no Congresso, Doll prontamente aceitara o convite com satisfação. Cabe lembrar que então, com cerca de 85 anos de idade, tinha o compromisso já assumido de vir ao Rio de Janeiro no seguinte mês de setembro para dar uma conferência durante o Congresso Mundial de Câncer, igualmente aqui realizado duas semanas após o término do EPI-RIO.

Naqueles dias tivemos oportunidade de conversar bastante, e assim, conhecer um pouquinho do homem que se tornara o mito da Epidemiologia do século 20. Figura amável e de muito fácil conversação, dissera que fora como estudante de medicina que entrara em contato com o intenso debate ideológico entre as ideías liberais, socialistas e fascistas já presentes na sociedade inglesa na década de 30. Fora tambem como médico recém-formado, que se alistara voluntariamente no exército inglês para participar na luta contra o nazismo.

Finalizada a 2ª Guerra, ganhava força o debate entre trabalhadores e os dirigentes conservadores na Inglaterra para a criação do Sistema Nacional de Saúde, a primeira experiência dessa natureza no mundo capitalista. É no meio deste debate, que Doll é convidado por Bradford Hill – um dos grandes nomes da Bioestatística naquele período _, para ajuda-lo na análise da crescente elevação de casos de câncer de pulmão em homens que estavam sendo diagnosticados no país.

O que Doll então nos comentou era que tanto ele como Bradford Hill acreditavam piamente que a causa daquele fenomêno era a crescente poluição urbana decorrente da ampliação da frota de automóveis circulando por Londres e demais grandes cidades inglesas. Esta convicção era tão marcada que seus estudos inicais foram realizados analisando a distribuição do câncer de pulmão em guardas de trânsito, em comparação com aquela verificada entre os demais trabalhadores.

Para sua surpresa, a similitude de resultados em ambos grupos, levou-os a ampliar o espectro de possiveis fatores de risco, o que acabou conduzindo aos clássicos resultados dos estudos revelando a associção daquela neoplasia com o hábito de fumar, hipótese então considerada inusitada e surpreendente. Na Inglaterra dos anos 40, cerca de 80% dos homens adultos eram fumantes, hábito de vida então considerado como sofisticado e de bom gosto. As contra-capas de importantes revistas médicas daquele período apresentavam propaganda da indústria do tabaco com pretensos diálogos nas quais os personagens centrais eram profissionais de saúde, como médicos e enfermeiras, destacando suas preferências pelas diferentes marcas de cigarro, assim associadas à imagem de credibilidade e aceitabilidade social daqueles profissionais. Com os trabalhos de Doll e a contundência de seus resultados, o tabagismo sofre um de seus primeiros grande golpes, e em poucos anos, diminui a prevalência de fumantes nas camadas socais de maior escolaridade e renda na Inglaterra. Seu impacto geral para a saúde pública e nas atividades de promoção da saúde foi tão marcado que Doll recebe da realeza inglesa o grau de "Sir", sendo seu nome várias vezes sugerido posteriormente na indicação para Premio Nobel de Medicina, o que acabou nunca se materializando.

Daquela figura de homem alto e magro, simples mas majestoso, restou a imagem de um verdadeiro cientista, de bem com a vida, e para quem a aposentadoria não fazia parte de seu vocabulário. Sua curiosidade nao tinha limites, abarcando desde os segredos da culinária brasileira, até os desafios contemporâneos do conhecimento, como o estudo da associação entre os campos eletromagnéticos e a ocorrência de câncer na infância.

Como cientista, deixa como poucos um exemplo de vida, envolvido na produção do conhecimento e com um claro posicionamento e compreensão sobre a natureza de sua atividade na sociedade.

Como indivíduo, era uma pessoa sempre atenta à vida que lhe circundava, e a última imagem de que dele guardo lembrança foi ao nos despedirmos no Riocentro durante o Congresso Mundial de Câncer. Estava apressado, pois não queria atrasar-se para tomar o vôo de regresso, já que ao chegar a Londres, a esposa o estaria esperando no aeroporto, para dali dirigirem-se diretamente a uma sessão de teatro...

Sergio Koifman

Editor Associado

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons