SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 issue3Effect of sociodemographic, clinical-prophylactic and therapeutic procedures on survival of AIDS patients assisted in a Brazilian outpatient clinicHepatitis B in pregnant women assisted by the Prenatal Program of the Municipal Health Department of Ribeirão Preto, Brazil: prevalence of infection and care provided to newborns author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.8 no.3 São Paulo Sept. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2005000300008 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Risco anual da infecção tuberculosa no Distrito Federal (Brasil)

 

The annual risk of tuberculosis infection in the Federal District (Brazil)

 

 

Maria do Socorro Evangelista KusanoI, *; Iranilde José Messias MendesII; Elioenai Dornelles AlvesIII; Maria Cândida Motta de AssisIV

IDepartamento de Enfermagem, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília
IIEscola de Enfermagem de Riberão Preto, Universidade de São Paulo
IIIDepartamento de Enfermagem, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília
IVCoordenação do Programa Nacional de Tuberculose, Ministério da Saúde

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estudar o risco anual da infecção tuberculosa na população escolar e residente no Distrito Federal, em 1997.
METODOLOGIA:
Trata-se de um estudo transversal, realizado com escolares das cidades de Ceilândia e Guará, no Distrito Federal. Foram estudadas 1.328 crianças. Para levantar a prevalência foi aplicado o modelo de ten Dam & Ritze e o risco anual, o método sugerido por Ruffino-Netto. O banco e a apuração dos dados foram executados utilizando-se o software Excel and SPSS 9.0. Na análise estatística, foram aplicados o teste do Qui-quadrado e o Intervalo de Confiança. Houve aprovação do estudo pela Comissão de Ética em Pesquisa e, foi solicitada dos responsáveis pelas crianças a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS:
As proporções dos infectados e dos não-infectados pelo Mycobacterium tuberculosis nas duas cidades não diferiam estatisticamente (c2=3,8416). Verificou-se que as crianças residentes, com idade de oito anos, apresentavam uma prevalência de tuberculose de 3,3% e, um risco anual de 0,42%, em 1997.
CONCLUSÃO:
Os resultados apontaram uma redução do RI no Distrito Federal. A partir dessas informações, a área pode ser caracterizada como sendo de média intensidade para a infecção tuberculosa e com tendência de melhora na situação.

Palavras-chave: Tuberculose. Incidência de Tuberculose. Risco anual de infecção.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To study the annual risk of tuberculosis infection among school age children resident in the Federal District, during 1997.
METHODOLOGY: A cross-sectional study was carried out among 1,328 eight-year-old students, living in the cities of Ceilândia and Guará, in the Federal District, utilizing the Dam & Ritze model to determine prevalence rates and the method suggested by Ruffino-Netto for the annual risk. The data collected was processed using Excel and SPSS 9.0 software. Statistical analysis included Confidence Intervals and Chi-squares. The study was approved by the Ethics Research Committee, which requested that the adults responsible for the children signed a Term of Free and Full Consent.
RESULTS: The proportions of those infected and non-infected by Mycobacterium tuberculosis did not differ statistically (c2=3.8416) in the two cities. For 1997, the prevalence of tuberculosis was 3.3% and the annual risk of infection was 0.42% for the children studied.
CONCLUSION:
The authors expected to find a reduction in the IR in the Federal District. Based on this information, the area can be characterized as of medium intensity for tuberculosis infection but with a tendency towards the improvement in the epidemic.

Key Words: Tuberculosis. Tuberculosis incidence. Annual risk of infection.


 

 

Introdução

Uma análise da morbimortalidade por tuberculose, com base na notificação compulsória de caso e atestado de óbito, entre 1979 e 1997, realizada por Kusano (2000)1, apontava uma tendência de declínio dessa enfermidade no Distrito Federal. No período considerado, a Capital da República apresentou uma variação de casos de "todas as formas" da enfermidade de 56,42/100.000 hab. para 37,95/100.000 hab., respectivamente. Da mesma forma, houve uma redução na incidência de tuberculose pulmonar bacilífera, de 31,24/100.000 hab. em 1979, para 17,39/100.000 hab., no ano de 1997. Um levantamento realizado no Distrito Federal, em 1971, pela Divisão Nacional de Tuberculose2, havia registrado uma prevalência da infecção tuberculosa em escolares (6 a 8 anos) de 8,5%. De 1986 a 1995, a incidência média de tuberculose bacilífera, incluindo todas as Regiões Administrativas do Distrito Federal, variou de um coeficiente máximo de 11,9/100.000 hab., na Ceilândia, para um coeficiente mínimo de 5,0/100.000 hab., no Guará. Embora essas evidências epidemiológicas indicassem uma redução do problema, era importante associá-las a um indicador alternativo, não só para dar maior sustentação aos dados anteriormente observados, mas também para dimensionar adequadamente a situação da doença tuberculosa no Distrito Federal, sobretudo quando se considera o contexto da aids.

Para tanto, optou-se por utilizar o risco anual de infecção (RI) ou taxa de incidência da tuberculose, sendo esta definida como a probabilidade de uma pessoa, livre de infecção, infectar-se após exposição ao bacilo de Koch no período de um ano3.

Trata-se de um indicador alternativo para uso da vigilância epidemiológica, que não sofre influência do sistema de informação, da cobertura dos programas, dos procedimentos diagnósticos e da busca de casos4. Por sua vez, a taxa de incidência serve como parâmetro para a programação e a avaliação epidemiológica das ações de controle da tuberculose, permitindo um dimensionamento fidedigno da morbimortalidade e da tendência da enfermidade na comunidade5.

Apesar de suas inúmeras vantagens, o estudo do risco, com base na prevalência, apresenta limitações em função da interferência na sensibilidade da tuberculina induzida por Mycobacterias Others Than Tuberculosis (MOTT's) e pela vacinação BCG, dificultando a identificação dos infectados pelo bacilo6.

Considerando estas particularidades, o presente trabalho propôs-se a estimar o risco de infecção tuberculosa no Distrito Federal em 1997. Trata-se, portanto, de um dos mais recentes estudos de risco realizados no Brasil, o que certamente poderá contribuir para ampliar o conhecimento epidemiológico da tuberculose no contexto da aids e da iniqüidade social. Tal proposição está também em função da escassez de pesquisas sobre a incidência de tuberculose, mostrando a pertinência de maiores esclarecimentos sobre o tema que voltou a ocupar lugar de destaque nas políticas públicas de saúde na atualidade.

 

Metodologia

Em 1997 foi realizado um estudo do tipo transversal em 36 escolas públicas do Distrito Federal, por meio de um inquérito entre escolares de 8 anos, residentes nas Regiões Administrativas de Ceilândia e Guará. Essas duas localidades foram selecionadas por apresentarem coeficientes máximo e mínimo de tuberculose bacilífera na Capital Federal, entre 1986 a 1995, estando as demais regiões inseridas nesse intervalo. Os coeficientes sugerem que a variação do risco de infecção tuberculosa encontrada no Distrito Federal oscilou entre esses dois extremos e, conseqüentemente, devem representar a situação da enfermidade na comunidade e permitir a extrapolação do resultado do estudo às demais áreas da Capital da República. Além disso, nos dois estudos, a amostra selecionada foi representativa da população estudantil, tendo ambas as regiões participado do inquérito nacional de prevalência tuberculosa2, no ano de 1971.

Da totalidade de 4.000 alunos matriculados nas escolas da Ceilândia, foram selecionados 50,0%, ou seja, 2.000 crianças, enquanto no Guará o estudo atingiu toda a população escolar com 8 anos, ou seja, 642 alunos, perfazendo um total de 2.642 sujeitos. Dessa totalidade, 1.586 estudantes tiveram autorização dos pais e/ou responsáveis, para participar do estudo. O tamanho efetivo da amostra foi de 1.328 alunos, observando-se um nível de significância de 5,0% e erro de amostragem < 0,053. Ressalta-se que a taxa de escolarização de crianças, em 1997, no Distrito Federal, era de quase 98,0%7.

Após a seleção dos estabelecimentos de ensino, os alunos foram cadastrados por escola, sendo identificados antecedentes patológicos, dados pessoais e vacinais. Em seguida, treinaram-se cinco observadores para a aplicação do BCG e aferição do teste tuberculínico, de acordo com o modelo proposto por Ruffino-Netto, Teruel e Duarte (1968)8.

Posteriormente, foi aplicado 0,1 ml. de PPD Rt 23, intradermicamente, em todas as crianças, no terço médio da face anterior do antebraço esquerdo (2 UT), além do reforço do BCG id. com a cepa Moreau do Rio de Janeiro. O segundo teste tuberculínico9 ocorreu após um período de 12 a 20 semanas do primeiro PPD9. A leitura dos testes foi realizada em dupla-cega, sendo aceito um erro de até 2mm8, considerando-se a média final das leituras e/ou aproximando-se o resultado para o número imediatamente superior ou inferior, alternadamente.

Os resíduos do BCG foram submetidos ao controle de qualidade, em laboratório, e o PPD foi testado em pacientes bacilíferos, ambos antígenos viáveis. O PPD e o BCG foram cedidos pela Secretaria Estadual de Saúde do Distrito Federal.

O teste tuberculínico e o BCG aplicados nas crianças auxiliam na discriminação das respostas específicas (causadas por Mycobacterium tuberculosis) e inespecíficas (ocasionadas pelas MOTT´s), mesmo em áreas com elevada cobertura por BCG, sendo esse o modelo de ten Dam & Hitze (1980)9. Segundo esses autores a sensibilidade específica é estável e a não-específica, aparentemente, reduz com o tempo, podendo ser induzida pelo BCG e levemente restaurada com o PPD. Por sua vez, a vacinação BCG em infectados pelo bacilo da tuberculose, não eleva o nível de sensibilidade tuberculínica.

Com base nos pressupostos citados, podem ser obtidas as seguintes situações e respostas9,10 quando:

  • a segunda reação tuberculínica for igual à primeira - é provável que a vacina BCG não tenha restaurado a sensibilidade tuberculínica, tratando-se de infecção pelo Mycobacterium tuberculosis. Além disso, pode ser devida a erro experimental ou a uma resposta inespecífica.
  • a segunda prova tuberculínica for maior do que a do primeiro teste - provavelmente a sensibilidade foi reforçada por MOTT's, pelo BCG ou algum erro experimental.
  • a segunda resposta tuberculina for menor do que a do primeiro PPD - a diferença pode ser atribuída a erro experimental, a perda temporária da sensibilidade por causa de infecções virais agudas, a tratamento com corticóides, a quimioterapia, entre outras possibilidades.

A contagem dos infectados pelo bacilo de Koch foi obtida a partir do diagrama de correlação, confrontando-se os resultados dos testes tuberculínicos pré e pós-vacinais, a fim de se conhecer a prevalência da infecção tuberculosa9,10 e considerado:

  • os casos situados sobre a diagonal, ou seja, aquelas reações pré e pós-vacinais iguais;
  • a contagem dos sujeitos, cuja reação pós-vacinal foi menor do que a pré-vacinal, situadas abaixo da diagonal, sendo excluídas as reações nulas, ou próximas de zero no pós-teste;
  • os indivíduos com reações pós-vacinais maiores, situados acima da diagonal, limitados, no entanto, pelo número de casos somados sob a diagonal na mesma linha.

Realizou-se, em seguida, a soma dos casos que ficaram sobre a diagonal, abaixo e nela, dividida pelo total da população testada, obtendo-se a prevalência da infecção tuberculosa na amostra estudada9,10. Na contagem dos infectados pelo bacilo de Koch não foram consideradas as reações menores de 6 mm no teste pré-vacinal, devido à reduzida chance de incluir infectados10.

A partir da prevalência, foi possível conhecer o risco de infecção, sendo este calculado pela fórmula sugerida por Ruffino-Netto, Arantes (1976) 11:

Sendo No= número inicial de crianças não infectadas no início da contagem de tempo (ou para o tempo t = 0); Nt = número de crianças não infectadas ou que permanecem virgens de infecção, decorrido certo tempo t; t = tempo decorrido em anos; r = risco anual de infecção; e = base do sistema natural de logarítmo (neperiano); ln = logarítimo natural.

Na análise, foram empregados os testes do Qui-Quadrado, Kolmogorov-Smirnov e Intervalo de Confiança (IC), com nível de significância de 5,0%, bem como o software Excel. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde/UnB, Parecer nº 2/97.

 

Resultados

Dos 1.586 alunos inicialmente autorizados a participar do levantamento da prevalência da infecção tuberculosa, 1.328 escolares (83,7%) completaram todas as etapas da pesquisa. As perdas foram motivadas por transferências (32,2%), absenteísmo (23,2%), além de atividades extra-classe coincidindo com o dia de leitura do teste tuberculínico (23,6%). As demais causas decorreram de orientação médica contrária à vacinação (1,9%), de cicatriz quelóide (4,3%), de desistência dos pais (3,9%), de não-aceitação do aluno à intervenção (3,5%), de falta de aplicação da 2ª dose de BCG (0,4%), e da constatação de duas ou mais cicatrizes de BCG (7,0%). Foram observadas cicatrizes compatíveis com a vacinação BCG, em 98,3% das crianças estudadas.

Após a aplicação dos testes tuberculínicos, os resultados foram distribuídos conforme a apresentação na Figura 1 (Ceilândia) e na Figura 2 (Guará), tendo como elemento de interesse o par de medidas dos testes tuberculínicos pré e pós-vacinais com BCG, a distribuição de freqüências marginais simples, acumuladas, e o porcentual acumulado.

Mais de 78,0% das crianças apresentaram-se como não-reatoras ao PPD (0mm) antes da revacinação com BCG na Ceilândia (769/982), enquanto no Guará esse percentual aproximou-se de 75,0% (258/346). Na distribuição das reações pós-vacinais, verificou-se que mais de 50,0% dos participantes (706/1328) eram reatores fortes à tuberculina (> 10mm). Ao comparar os resultados dos testes tuberculínicos realizados antes e depois da vacina BCG, as duas cidades apresentaram o mesmo perfil de respostas ao PPD, ou seja, as diferenças máximas observadas foram de 0,037-0,082 e, a diferença crítica foi de 0,085 no Teste de Kolmogorov-Smirnov. Na análise dos diagramas de correlações, os resultados dos testes pós-vacinais (Figuras 1 e 2) mostraram, na maioria dos casos, reações acima da diagonal, denotando que as respostas observadas no teste pós-vacinal foram maiores.

Na identificação de cada um dos infectados, por Região Administrativa, foram distribuídos os resultados das reações em dois diagramas: um para Ceilândia (Figura 1), e o outro para o Guará (Figura 2). O total de infectados encontrados no levantamento do Distrito Federal, em 1997, foi de 44 crianças, sendo oito casos na diagonal, 18 abaixo, e 18 acima da diagonal (Figuras 1 e 2). Entre os infectados pelo bacilo de Koch, 25 crianças eram do sexo feminino e as demais do masculino. Na Ceilândia, 2,75% (27/982) das crianças estavam infectadas pelo bacilo tuberculoso e no Guará, 4,91% (17/346) com p=0,0626. Considerando o método de ten Dam & Ritze (1980)9, a prevalência de infecção tuberculosa em escolares com oito anos, residentes no Distrito Federal, foi estimada em 3,3% no ano de 1997.

Conhecidos os infectados e também os não-infectados pelo Mycobacterium tuberculosis, procedeu-se à verificação das possíveis divergências entre as proporções encontradas. A análise revelou resultados homogêneos nas duas localidades, ou seja, não houve diferença estatística (c2=3,8416). A proporção de infectados foi avaliada no Guará, resultando um IC de 95%: 0,0309-0,0773; e um IC de 95%: 0,0190-0,0397 na Ceilândia, sem significado estatístico.

A partir do conhecimento da prevalência de 8,5% no ano de 1971, descrita por Almeida (1974)2, e de 3,3% em 1997 observada neste estudo do Distrito Federal, utilizando-se as informações Qt=1-Pt, em 1971 (Q0=0,915) e 1997 (Qt=0,967), encontrou-se um r=0,2%, indicando que houve uma queda média na prevalência da infecção tuberculosa em torno de 2,2% ao ano. Ao comparar os dois inquéritos realizados no Distrito Federal, verificou-se uma redução na prevalência da infecção tuberculosa de 61,1%, entre 1971 e 1997.

Efetuou-se ainda o cálculo do risco anual de infecção para os outros intervalos de tempo, bem como a análise de sua tendência, aplicando o modelo sugerido por Ruffino-Netto (1976)11. Verificou-se então, em 1971, um RI de aproximadamente 1,1%, enquanto o obtido no ano de 1997 atingiu 0,4%, sendo a razão de decrescimento médio aritmético anual de 0,02%, no período.

Uma análise conjunta do período de 1963 a 1971 (Tabela 1), mostrou uma proporção de não-infectados de Qt= 0,9889t. Na segunda etapa, entre 1971 e 1988, uma proporção de Qt= 0,9147t, e no terceiro período (1989 e 1997) um Qt= 0,9669t. Supondo-se que o risco anual de infecção diminuiu a uma taxa constante a, os resultados mostraram que, no intervalo entre 1989 e 1997, a proporção de não-infectados com o bacilo tuberculoso foi de Qt =0,9958t.

 

 

Apesar de não serem conhecidos os dados intermediários de 1971 a 1989, a simulação do RI projetada na Tabela 1 mostrou uma queda anual de 3,3% e, na totalidade do período, de 63,6%. Pode-se observar que o RI observado no primeiro intervalo (1963 a 1971) foi de aproximadamente 1,1%, e de 0,4% entre 1989 e 1997. Vale ressaltar que, a partir de 1990, aproximadamente 5,5 das 1.328 crianças se infectaram a cada ano, mantendo-se a tendência por volta desse valor até 1997. Ao realizar uma representação quantitativa da queda no período, nessa idade e na região analisada, verificou-se uma expressiva redução da infecção tuberculosa, que oscilou de 1.100/100.000 crianças, em 1971, para 400/100.000 crianças em 1997.

Considerando que o RI no Distrito Federal foi estimado em 0,4% (p) em 1997, caso se mantenha a mesma tendência de redução do problema em 0,02% até o ano de 2010 (t=2010-1997), o risco encontrado será de 0,3% (p'). O resultado foi efetuado pela seguinte fórmula: p'= p (1-r)t = 0,004 (1-0,02)13 = 0,003076 @ 0,003 = 0,3%, significando que, nos próximos 13 anos, no Distrito Federal, mantida a mesma queda, o risco de infecção será reduzido a um quarto do coeficiente atual.

 

Discussão

Trabalhos realizados em crianças apontam que, após quatro anos da aplicação da vacina BCG, elas não respondem à prova tuberculínica9,12. A presente pesquisa revelou que, antes da revacinação, mais de 90% dos escolares do Distrito Federal eram não-reatores, confirmando os achados dos demais estudos.

O risco anual de infecção tuberculosa encontrada na Capital da República em 1997 foi de 0,4%, e a prevalência de 3,3%. Considerando a análise do RI de 1,1%, e da prevalência de 8,5% no ano de 1971, verificou-se uma redução de ambos os indicadores, o que reflete uma tendência de melhoria epidemiológica da tuberculose na área.

Estudos relacionados com o RI realizados pela Organização Mundial da Saúde em vários países mostraram a existência de três tipos principais de situações epidemiológicas: nos países de baixa intensidade de infecção tuberculosa, o RI está em torno de 0,1%, e em constante queda de mais ou menos 10% a 14% ao ano13,14; nos países de média intensidade de infecção tuberculosa, embora o RI observado seja maior, a redução anual é menos expressiva, alcançando 2,5 a 7,5%; por sua vez, nos países de alta intensidade de infecção tuberculosa o RI foi superior a 2%, não tendo sido verificada nenhuma modificação na tendência do risco de infecção nos últimos 10 anos14,15.

Ao analisar o cenário na Capital Federal, observou-se que o risco estimado para 1997, foi muito superior ao observado nas áreas desenvolvidas e, ao considerar os dois inquéritos (1971 e 1997) não houve registro de queda acentuada do RI, como ocorreu nas regiões industrializadas14,16, sendo a razão de decrescimento médio de 0,02%ao ano. Esses dados sugerem que o Distrito Federal pode ser caracterizado como uma área de média intensidade de tuberculose, o que coincide com os achados obtidos por meio das notificações compulsórias de casos1. Cumpre ressaltar a tendência de queda nesse indicador no Distrito Federal, em termos de redução do problema, quando analisada na totalidade do período e comparada com outros países com elevado nível da enfermidade14,17. Provavelmente, esta reduzida queda na queda da incidência anual de infecção tuberculosa nos anos 90 esteve associada à questão da aids, à pobreza e à migração para o Distrito Federal. Atualmente, o RI no Brasil está estimado em cerca de 0,8% na população geral18. Na década de 70, a queda verificada desse indicador no país era de 2,5% a 3,0% ao ano; enquanto em 1990 esse percentual de redução anual caiu para 2,0% a 4,0% e reduzindo-se, mais recentemente, para 0,4% ao ano18. Ao comparar a tendência do RI observada no Distrito Federal com a do país, entre 1971 e 1997, verificou-se uma queda de 2% ao ano, valor bem superior ao registrado atualmente no Brasil (Tabela 1). A redução torna-se mais significativa se os valores do risco de infecção estimados para o intervalo 1971 a 1989 estiverem corretos. Neste caso, o decrescimento médio geométrico encontrado foi de 0,96% ao ano, o que representa uma queda anual em torno de 3,3%, dado este bem superior ao observado no país.

O caminhar da endemia tuberculosa está associado a uma série de fatores ou intervenções que têm influência sobre o não-adoecimento das pessoas. Dentre essas podem ser citadas a melhoria das condições socioeconômicas (contribui com uma redução do RI em 4-6%/ano) e a quimioterapia adequada (produz uma queda adicional de 7-9%/ano). Por outro lado, a pobreza, a epidemia da aids, a imigração da população dos países com elevado nível de tuberculose, além das dificuldades de operacionalização dos programas de tuberculose e o crescimento demográfico têm sido responsabilizados por essa piora epidemiológica da tuberculose no planeta14.

Ao analisar os dados do Rio de Janeiro, em 1986, o risco estimado por Camacho (1988)10 ficou em 0,36%, aplicando-se o modelo de ten Dam & Hitze nas idades de 6 a 10 anos. Por sua vez, no Rio Grande do Sul, em 1988, foi estimado um risco de 0,33%, em escolares com idade de 6 a 7 anos19, mostrando que no Distrito Federal, em 1997, a problemática da infecção tuberculosa ainda era significativa, quando comparada à situação epidemiológica de algumas áreas do Sudeste e do Sul do país (Tabela 1). Da mesma forma, além do RI ser ainda elevado no Distrito Federal, não mostra uma diminuição significativa como ocorre na Holanda (10 a 14% anual)14. O RI encontrado foi mais de seis vezes superior quando comparado, por exemplo, ao da Holanda, diferindo também do encontrado em alguns países da África e da Ásia, de cerca de 2-3% nos últimos 10 anos14.

Na avaliação da prevalência da infecção tuberculosa, para que a doença esteja em fase de eliminação preconiza-se uma prevalência menor que 1% na população geral14. O coeficiente de 3,3% obtido em crianças de oito anos do Distrito Federal foi, portanto, bastante elevado se comparado ao observado nos países com baixa prevalência da doença14. Por sua vez, a revisão bibliográfica revelou uma prevalência de tuberculose da ordem de 4,13% em 1986 (6 a 10 anos), no Rio de Janeiro, utilizando-se o método de ten Dam & Hitze10. Em São Paulo, em 1982 e 1988, o coeficiente foi de 4,85% (7 anos) e de 4,48% (6 a 9 anos), respectivamente20-22. No ano de 1997, Bierrenbach5 (1998) levantou, em Salvador-Bahia, uma prevalência de 14,10% entre escolares com idade de 7 a 14 anos que, segundo a autora, é um dos mais elevados percentuais reportados na América Latina na última década. No Distrito Federal, a queda observada na prevalência de infecção tuberculosa foi superior a 60% entre 1971 e 1997, mesmo considerando-se os valores intermediários estimados.

Uma das limitações do estudo foi não poder caracterizar com maior precisão as modificações ocorridas no RI fora dos dois inquéritos; sendo assim, as possíveis variações dos indicadores, nos outros períodos, foram estimadas em função da falta de informações intermediárias. Ressalta-se ainda a interferência da sensibilidade tuberculinica com outras micobactérias e as limitações do próprio método de tem Dam & Hitze, que permitem realizar aproximações do risco anual cuja eficácia é difícil de avaliar.

Em síntese, apesar de os resultados apontarem uma redução do RI e queda na prevalência da infecção no Distrito Federal, esses coeficientes decresceram lentamente, o que permite considerar a área como de média intensidade de infecção tuberculosa, mostrando uma tendência de melhoria epidemiológica da enfermidade, coincidindo com os achados de morbi-mortalidade no estudo realizado por Kusano (2000)1.

 

Agradecimento

Ao Prof. Dr. Antônio Ruffino Netto pelas sugestões valiosas e orientação segura.

 

Referências

1. Kusano MSE. 40 anos de tuberculose no Distrito Federal – Brasil [tese de doutorado]. Ribeirão Preto, São Paulo: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP; 2000.        [ Links ]

2. Almeida, AP. Prevalência da infecção tuberculosa em escolares das capitais brasileiras. Rev Div. Na. Tuberc 1974; 18: 413-44        [ Links ]

3. Rieder HI. Methodological issues in the estimation of the tuberculosis problem from tuberculin surveys. Tubercle and Lung Diseases 1995; 76: 114-21.        [ Links ]

4. Haro, SA. Measurement and use of "risk of infections" indicators in BCG-vaccinated populations. Bulletin of the International Union Against Tuberculosis 1984; 59(3): 125-9.        [ Links ]

5. Daniel TM & Debanne SM. Estimation of annual risk of tuberculous infectious for white men in the United States. J Infec Dis 1997; 175: 1535-7.        [ Links ]

6. Arantes GR, Nardy SMC, Nogueira PA, Belluomini M, Weiler RMG, Influência do BCG aplicado no primeiro ano de vida no perfil tuberculínico à idade escolar. Medicina 1990; 23: 232-41.        [ Links ]

7. Distrito Federal. Governo do Distrito Federal. Aspectos demográficos da bacia do Paranoá. [2003-11-29] disponível em: www.semarh.df.gov.br/site/cap06/01.htm.        [ Links ]

8. Ruffino-Netto A, Teruel JR, Duarte, GG. Método de avaliação do treinamento de pessoal para-médico para efetuar a prova tuberculínica. Rev Div Nac Tuberc 1968; 12(48): 355-66.        [ Links ]

9. ten Dam HG & Hitze KL. Determining the prevalence of tuberculosis infection in populations with non-specific tuberculin sensitivity. Bull World Health Org 1980; 54(3): 475-83.        [ Links ]

10. Camacho LAB. Determinação de risco de infecção tuberculosa em população com alta cobertura vacinal pelo BCG [dissertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz; 1988.        [ Links ]

11. Ruffino-Netto A, Arantes GR. Risco de infecção em município do interior do Estado de São Paulo e suas aplicações. Rev Saúde Pública 1976; 10(1): 143-9.        [ Links ]

12. Menzies R, Visandjee B. Effect of bacile Camett-Guérin vaccination of tuberculin reactivity. Am Rev Respir Dis 1992; 145: 621-25.        [ Links ]

13. Vizcaya M, Haro SA, Arévalo M, et al. Prevalência de la infección tuberculosa en la población escolar de 6 y 7anos en Albacete. Arch Bronconeumo. 1995; 31(8): 378-82.        [ Links ]

14. UICTER. Guia de la tuberculosis para médicos especialistas. Paris; 2003.        [ Links ]

15. Carandina L. Infecção tuberculosa em escolares em zona urbana de Botucatu [dissertação de mestrado]. São Paulo: Escola de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 1980.        [ Links ]

16. Vynnyck E, Fine, PEM. The annual risk of infection with Mycobacterium tuberculosis in England and Wales since 1901. Int J Tuberc Lung Dis 1997; 1(5): 389-96.        [ Links ]

17. Peru. Ministerio de Salud del Peru. Dirección General de Salud de las Personas. DPNCET-Control de la tuberculosis. Prevalencia y riesgo annual de infección por tuberculosis en escolares de Lima-Callao y provincias – 1997-1998. (Informe Final). Lima; 2000.        [ Links ]

18. Kritski A, Conde MB, Souza GRM. A epidemiologia da tuberculose. In: Do ambulatório à enfermaria. Rio de Janeiro: Atheneu; 2000. p.1-14.        [ Links ]

19. Ott PW. & Gutierrez RS. Vigilância epidemiológica do programa. In: Picon PD, Rizzon CF, Ott WP. Tuberculose: epidemiologia, diagnóstico e tratamento em clínica e saúde pública. Porto Alegre: Medsi; 1993. p. 159-224.        [ Links ]

20. Arantes GR, Nardy SMC, Nassar J. Estudo sobre a evolução do risco de infecção tuberculosa em área com elevada cobertura por BCG. Rev Saúde Pública 1985; 19: 95-107.        [ Links ]

21. Arantes GR, Nardy SMC, Nogueira PA, Belluomini M, Weiler RMG. Estimativa da prevalência de infecção tuberculosa em escolares vacinados com BCG, por meio de método de Bhattacharya. Rev Saúde Pública 1991; 25(2): 112-29.        [ Links ]

22. Bierrnbach ALS. Estimativa de prevalência de infecção por Mycobacterium tuberculosis em populações de escolares na cidade de Salvador/Bahia/Brasil:1997 [dissertação de mestrado]. Brasília: Faculdade de Ciências da Saúde da UnB; 1998.        [ Links ]

 

 

recebido em: 06/01/05
versão final reapresentada em: 08/08/05
aprovado em: 12/08/05

 

 

Trabalho realizado como parte de tese de doutorado apresentado à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2000.
* Correspondência: Maria do Socorro Evangelista Kusano, SHIS QI 27 Conjunto 10 Casa 8 Lago Sul, 71675-100 Brasília - DF. E-mail: socorrok@unb.br

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License