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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.9 no.4 São Paulo Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2006000400004 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Estudo comparativo da prevalência de Staphylococcus aureus importado para as unidades de terapia intensiva de hospital universitário, Pernambuco, Brasil

 

Comparative study on the prevalence of Staphylococcus aureus imported to intensive care units of a university hospital, Pernambuco, Brazil

 

 

Silvana Maria de Morais CavalcantiI; Emmanuel Rodrigues de FrançaI; Marinalda Anselmo VilelaII; Francisco MontenegroII; Carlos CabralII; Ângela Cristina Rapela MedeirosI

IDepartamento de Dermatologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Universidade de Pernambuco – Recife, PE
IIDepartamento de Microbiologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Universidade de Pernambuco – Recife, PE

Correspondência

 

 


RESUMO

O Staphylococcus aureus é um dos principais patógenos que coloniza indivíduos saudáveis na comunidade e responde por infecções em pacientes hospitalizados. Um estudo transversal foi realizado para determinar a prevalência de S. aureus meticilina-resistente e sensível entre 231 pacientes, internados entre janeiro e abril de 2003, nas unidades de terapia intensiva (UTIs) do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, assim como os possíveis fatores associados à colonização. Foram coletadas secreções de narinas, axilas, região perineal e dermatoses com soluções de continuidade, de todos os pacientes, nas primeiras 48 horas de internamento nas UTIs. O material foi semeado em meios de cultura adequados. A prevalência de S. aureus igualou-se a 37,7% (87/231), sendo 13% (30/231) meticilina-resistente e 24,8% (57/231) meticilina-sensível. Idade, sexo, uso de antibioticoterapia, corticoterapia, motivo e local do internamento não se associaram à presença do S. aureus ou do meticilina-resistente. Houve associação significante entre procedência hospitalar e colonização por S. aureus, independente da cepa, e entre internamento anterior e presença do S. aureus meticilina-resistente. As narinas foram o sítio de colonização mais significante, por S. aureus meticilina-resistente (47/57=82,4%) e sensível (23/30=76,7%). Foi alta a prevalência do S. aureus (meticilina resistente ou sensível), assim como do meticilina-resistente entre os pacientes das UTIs deste hospital. Estudos futuros poderão comprovar se os resultados aqui descritos e medidas de rastreamento para S. aureus poderiam ser adotadas, de forma prospectiva, para se avaliar o risco, assim como a magnitude do efeito, no controle de infecções hospitalares provocadas por estes patógenos.

Palavras-chaves: Prevalência. Staphyloccocus aureus. Resistência à meticilina. Unidade de Terapia Intensiva.


ABSTRACT

Staphylococcus aureus is the most important pathogen that colonizes healthy individuals in the community and is responsible for infections in hospitalized patients. A cross-sectional study was carried out to determine the prevalence of methicillin-resistant and sensitive S. aureus, in 231 patients, hospitalized from January to April 2003, in the Intensive Care Units (ICU) of Hospital Universitário Oswaldo Cruz, as well as possible factors associated with colonization. Secretions, from the anterior nostrils, armpits, perineum and dermatosis with continuity solutions, were collected from all patients, within the first 48 h of admission at the ICU. These samples were spread on appropriate media. The prevalence of S. aureus was 37.7% (87/231), of which 13% (30/231) methicillin-resistant and 24.8% (57/231) methicillin-sensitive. Age, gender, antibiotic therapy, corticoid therapy and cause and place of hospitalization were not associated to colonization by S. aureus or methicillin-resistance. There was a significant association between hospital of origin and S. aureus colonization, regardless of strain, as well as between previous hospitalization and the presence of methicillin-resistant S. aureus. Regardless of strain, nostrils were the most significant colonization site for methicillin-resistant (47/57=82.4%) and methicillin-sensitive S. aureus (23/30=76.7%). There was a high prevalence of S aureus, (methicillin resistant or sensitive), as well as of methicillin resistance among ICU patients in this hospital. Future studies may prove the results reported here and screening routines for S. aureus should be adopted, prospectively, to evaluate risk, as well as the magnitude of the effect, on the control of hospital infections caused by these pathogens.

Keywords: Prevalence. Staphylococcus aureus. Methicillin-resistance. Intensive Therapy Unit.


 

 

Introdução

Os Staphylococcus aureus coagulase positivos são patógenos da flora cutânea normal e das vias respiratórias, porém podem causar infecções, com freqüência associados a dispositivos e aparelhos implantados, principalmente em pacientes imunocomprometidos, muito jovens ou idosos1.

O S. aureus pode determinar doenças clinicamente manifestas ou o estado de portador assintomático, também denominado colonização ou simplesmente portador, quando presente no organismo do hospedeiro sem ocasionar lesões aparentes2,3. Essa bactéria faz parte da flora transitória da pele em até um terço da população em geral, tendo como principais sítios reservatórios o vestíbulo nasal (35%) e a região perineal (20%), além das regiões umbilical, axilar e interpododáctila (5% a 10%), de onde poderá ocorrer disseminação, provocando doença e transmissão a outros indivíduos4. Tais sítios podem estar colonizados persistentemente, intermitentemente ou ser resistentes à colonização pela bactéria5,6.

A transmissão pode se dar por contato direto7. No ambiente hospitalar, os trabalhadores da área de saúde8, ao prestar assistência a pacientes portadores persistentes ou manusear objetos colonizados, podem contaminar suas mãos e subseqüentemente transmitir o organismo para outros pacientes9.

Segundo a Sociedade Pediátrica Canadense10, as transmissões ambientais e por vias aéreas são incomuns, exceto em certas circunstâncias, como por exemplo, em unidades de queimados e unidades de terapia intensiva (UTI), onde podem ocorrer através de pacientes traqueostomizados com pneumonia por S. aureus.

O portador de S. aureus exerce papel chave na epidemiologia e na patogênese da infecção, sendo o maior fator de risco para desenvolvimento de infecções hospitalares e adquiridas na comunidade6. A maioria das infecções estafilocócicas é proveniente de fonte endógena11.

Em 2001, Von Eiff et al.12, ao analisarem o S. aureus de portador nasal como causa de bacteremia, constataram forte correlação entre cepas presentes nas narinas anteriores, isoladas no foco de infecção e encontradas no sangue de pacientes com bacteremia, sugerindo uma origem endógena para a infecção. Resultados semelhantes foram obtidos por Dupeyron et al.13, em estudo prospectivo, no qual, por técnicas de biologia molecular, detectaram cepas idênticas de S. aureus meticilina resistente (MRSA) nas narinas e no foco de infecção em pacientes internados em enfermaria de gastrenterologia. Estes autores também verificaram que a duração do internamento e a taxa de infecção foram significantemente maiores entre os pacientes que se tornaram portadores, quando comparados com aqueles que permaneciam não portadores.

Kluytmans et al.14 revisaram 59 trabalhos científicos, transversais, publicados entre 1934 e 1994, e analisaram a taxa média de S. aureus nas narinas de portadores em diversos grupos populacionais. Na população em geral, a taxa média de portador nasal foi de 37,2%.

Valores maiores foram encontrados em pacientes que puncionavam repetidamente a pele (diabetes insulino-dependentes, pacientes submetidos a hemodiálise ou diálise peritoneal ambulatorial contínua – CAPD, e usuários de medicações endovenosas), nos portadores de infecções cutâneas por S. aureus, de vírus da imunodeficiência humana (HIV), assim como nos pacientes com AIDS. Beaujean et al.15 afirmaram que a presença de infecções cutâneas por S. aureus é o maior risco para a persistência da condição de portador. Martin et al.16 e Sissolak et al.17 encontraram prevalência de 43% de portadores dentre pacientes infectados pelo HIV; Shapiro et al.18 e Nguyen et al.19, estudando pacientes com AIDS, confirmaram os dados de Kluytmans et al.14.

Com o surgimento de cepas de S. aureus resistentes à maioria dos antibióticos beta-lactâmicos, inclusive a meticilina e glicopeptídeos, maior número de estudos foi desenvolvido com o objetivo de detectar os fatores associados ao desenvolvimento da condição de portador de MRSA6. Maior risco para colonização e subseqüente infecção pelo MRSA é observado em pacientes imunodeprimidos, expostos a antibioticoterapia, diabéticos insulino-dependentes, pacientes em uso de cateteres, pessoas em contato com pacientes colonizados ou infectados por esta bactéria, maiores de 60 anos20-22, pacientes com dermatoses que cursam com soluções de continuidade da pele20,22,23, aqueles com história de hospitalização20,23 ou de cirurgia20,22,24, pacientes transferidos após internamento hospitalar prolongado e portadores de doenças crônicas20.

Girou et al.25 recomendam seleção de MRSA entre pacientes com história de admissão hospitalar em áreas de alto risco, como UTI, pacientes com internamentos prévios, readmitidos ou transferidos de outras áreas do hospital e aqueles que foram submetidos a cirurgia de grande porte. Scanvic et al.23 e Papia et al.26, ao identificarem que a condição de portador de MRSA persiste no mínimo por três meses após a alta hospitalar, recomendam que todos os pacientes readmitidos nesse período sejam submetidos a medidas de seleção para MRSA e, em caso de positividade, isolados em enfermaria individual ou com dois leitos. Todavia, Lucet et al.20 afirmam que todos os pacientes admitidos na UTI, independentemente de internamento prévio, devem ser rastreados para MRSA, em virtude de não terem identificado fatores associados ao MRSA que permitissem um escore de sensibilidade para predizer o estado de portador.

Rastreamento de rotina e adoção de medidas de controle durante a admissão em áreas de alta endemicidade para MRSA, como a UTI25,27 e enfermaria de dermatologia28 são consideradas estratégias eficazes em relação aos custos e benefícios. Girou et al.25 relatam que o total dos custos do programa de controle são inferiores à média dos custos atribuídos à infecção pelo MRSA.

O objetivo do presente estudo foi verificar a prevalência e os fatores associados à colonização nasal e cutânea por Staphylococcus aureus, MRSA e MSSA, em caso importado para UTI do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC), Recife, no período de janeiro a abril de 2003.

 

Pacientes e métodos

Trata-se de um estudo transversal com teste de hipóteses para proporções de colonização por duas cepas de S. aureus e observação de possíveis fatores associados à colonização. Os pacientes foram considerados elegíveis se, ao serem admitidos em uma das UTI – geral, de doenças infecto-parasitárias, de cirurgia cardíaca e da unidade coronariana – do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, entre janeiro e abril de 2003, tivessem idade superior a doze anos.

Dentro das primeiras 48 horas após a admissão na Unidade de Terapia Intensiva, com base na informação dada pelo paciente, por seu responsável ou resgatada do prontuário, foram registrados: idade, sexo, procedência (classificada como hospitalar ou comunitária), uso de antibioticoterapia sistêmica prévia ou à época da pesquisa, uso de corticoterapia prévio ou à época da pesquisa, motivo do internamento (clínico ou cirúrgico), unidade de internamento (UTI geral, de doenças infecto-parasitárias, coronariana e de cirurgia cardíaca) e internamento anterior.

Para a análise dos dados, categorizou-se a idade dos pacientes em quatro intervalos: 12 - 19; 20 - 39; 40 - 59 e igual ou maior que 60 anos

Admitiu-se ter sido de procedência hospitalar o paciente com história de no mínimo 48 horas de internamento hospitalar anterior à admissão na UTI, e de procedência comunitária aquele proveniente de sua residência ou que tivesse sido internado por período inferior a 48 horas antes da admissão na UTI em estudo.

Para as variáveis hospitalização, uso de antibioticoterapia sistêmica e uso de corticóides, admitiu-se como prévia a ocorrência do evento no período de três meses antes da hospitalização na UTI.

O motivo do internamento foi considerado cirúrgico exclusivamente quando a cura da doença, que motivou o internamento, estava relacionada a procedimento cirúrgico.

Métodos laboratoriais

Após terem sido obedecidos os princípios éticos de pesquisa e o paciente ou seu responsável ter assinado o termo de consentimento livre esclarecido, procedeu-se à coleta de material biológico das paredes internas das narinas anteriores do paciente; de secreções das dermatoses que apresentavam soluções de continuidade, das axilas e de períneo, com swab estéril, umedecido com solução salina a 0,9%.

No mesmo dia da coleta, as amostras foram semeadas, separadamente, em ágar sangue, preparado com hemácias de carneiro a 5%, e ágar manitol salino a 7,5% (Probac do Brasil®). Todas as placas foram incubadas a 35ºC por 24h, em estufa bacteriológica. As colônias sugestivas de S. aureus foram semeadas em novas placas de Petri contendo ágar sangue, preparado com hemácias de carneiro a 5% e incubadas a 35ºC por 24h em estufa bacteriológica. As novas colônias sugestivas de S. aureus pela presença de halo de hemólise foram utilizadas para os testes de identificação dessa bactéria. Os S. aureus foram identificados pelo Gram pelo teste da coagulase em tubo e pelo teste da DNAse (Oxoid®).

O teste de coagulase consistiu em diluir uma colônia do segundo isolamento em ágar sangue em 0,5 mL de meio brain heart infusion (BHI) (Oxoid®) e 0,5 mL de plasma humano colhido sobre EDTA, em tubo de ensaio de 13x100 mm. Após homogeneização, a mistura foi incubada a 35ºC. A leitura do teste da coagulase foi realizada após quatro horas e 24 horas de incubação.

Uma colônia retirada da placa de ágar sangue de segundo semeio foi semeada linearmente no meio de DNAse (Oxoid®), procedendo-se à leitura após incubação em estufa bacteriológica a 35ºC, por 24 horas.

Naqueles pacientes nos quais os resultados dos testes de coagulase e DNAse foram discordantes realizou-se o teste de aglutinação Slidex Staph Plus® (BioMériéux).

Os MRSA foram identificados por meio do teste de sensibilidade a oxacilina, empregando-se meio ágar sólido Mueller Hinton contendo 4% de cloreto de sódio e 6 mg/L de oxacilina (Probac do Brasil®). Nos casos em que ocorreu heterorresistência foi necessário reisolar as colônias em meio ágar sangue-hemácias de carneiro com incubação a 35ºC por 24 horas.

Todos os MRSA identificados por qualquer um dos métodos foram confirmados por meio da pesquisa da proteína penicilina-ligante (penicilin binding protein - PBP2a), através de aglutinação de látex (Oxoid®), realizando-se controle de qualidade dos testes de coagulase e de DNAse com cepa padrão para S. aureus ATCC 25923 (Oxoid®).

Por meio do programa EPI-INFO, versão 6.04d, de novembro de 2002, distribuído pela Organização Mundial de Saúde e pelo Centers for Disease Control and Prevention, procederam-se à organização dos dados e ao cálculo dos testes de Qui quadrado, com e sem correção de Yates, para obediência às regras de Cochran e teste exato de Fisher, ao nível de significância de 0,05, unicaudal. Da estatística descritiva, foi utilizada distribuição de freqüências absolutas e relativas.

O presente estudo foi analisado e aprovado pela Comissão de Ética do HUOC, tendo sido respeitados os princípios éticos da Declaração de Helsinque VI e da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Esta pesquisa não envolve conflito de interesses.

 

Resultados

Dos 231 pacientes analisados, 55,8% eram do sexo masculino. Os pacientes colonizados por MRSA não diferiram significantemente do grupo MSSA ou dos pacientes não colonizados por S. aureus, quanto ao sexo e à faixa etária; todavia, observou-se discreto predomínio da colonização por MRSA no sexo feminino, quando comparado ao masculino, e menor acometimento por essa cepa de pacientes na faixa etária de 12 a 19 anos (Tabela 1).

Quanto à faixa etária, 12 (5,2%) eram adolescentes, 65 (28,1%) tinham idade entre 20 a 39 anos e 154 (66,7%) pacientes tinham 40 anos ou mais. Não houve associação significante entre presença de S. aureus e faixa etária, porém se observou redução do número de portadores com o aumento da idade, pois nos adolescentes o percentual de portadores foi 58,3% e nos maiores de 59 anos, 31,5% (Tabela 1).

Dos 231 pacientes analisados, 30 (13%) estavam colonizados pelo MRSA, 57 (24,8%) por MSSA e 144 (65,3%) não estavam colonizados. Considerando apenas os portadores de S. aureus, houve 34,5% e 65,5% de MRSA e MSSA, respectivamente (Tabela 1).

De acordo com o motivo do internamento, a prevalência de S. aureus nos pacientes internados nas UTIs por razões clínicas foi de 38,7%, semelhante àquela por razões cirúrgicas (36,8%), sem diferença estatisticamente significante entre os grupos (Tabela 1).

Em relação à unidade de internamento, a freqüência de MRSA foi maior na UTI de doenças infecto-parasitárias (15,4%), porém não diferiu estatisticamente das demais UTIs, onde os percentuais foram 11,1%, 13,3% e 13,2%, respectivamente na UTI coronariana, de cirurgia cardíaca e geral (Tabela 1).

Independente da cepa, houve maior número de portadores de S. aureus entre os pacientes provenientes de hospital (n=76, 53,9%) do que entre aqueles provenientes da comunidade (n=11, 12,2%), diferença essa estatisticamente significante (p < 0,001)(Tabela 1).

Em relação ao uso de antibióticos sistêmicos antes e no momento da pesquisa, em nenhuma das condições houve diferença entre os três grupos: MRSA, MSSA e não colonizados por S. aureus (Tabela 2).

Quanto ao uso de corticóide prévio ou no momento da pesquisa, não houve diferença significante entre os grupos analisados (Tabela 2).

Observou-se associação significante entre internamento anterior e colonização por S. aureus resistente à meticilina. Dentre os 87 portadores de S. aureus, 42 (48,3%) referiram internamento anterior, dos quais 19 (45,2%) tiveram diagnóstico de S. aureus MRSA, total que se reduziu para 11 (24,4%) entre os 45 pacientes sem internamento prévio (Tabela 2).

Com relação ao sítio da colonização, identificou-se predomínio estatisticamente significante das cepas MRSA e MSSA em narinas, quando comparadas à colonização nos demais sítios analisados. Considerando a distribuição da colonização por S. aureus, observou-se que as narinas foram o sítio mais freqüentemente colonizado, independentemente do número de sítios acometidos (Tabela 2).

 

Discussão

No presente trabalho, foram abordados casos de colonização por MRSA ou MSSA importados para a UTI, especificamente de procedência comunitária ou hospitalar, cujo conceito atendeu ao preconizado por Lucet et al.20, em 2003, os quais caracterizaram detalhadamente a variável procedência, permitindo comparação de dados.

Embora na literatura consultada, para conceituação de caso importado de S. aureus, sejam padronizados intervalos de tempo de 48 horas após admissão13,27,29 ou 72 horas25,26,28, adotou-se como tempo máximo para coleta de material biológico 48 horas após admissão na UTI, para assegurar maior fidedignidade de caso importado, além de reduzir a possibilidade de perda de casos por óbito ou por alta.

O MRSA pode persistir em diversos sítios de portadores, pelo menos por três meses após a alta hospitalar23,26,30. Assim sendo, a adoção de intervalo de tempo de três meses, tomado como referência para a caracterização de antibioticoterapia, corticoterapia prévias, além de internamento anterior, permitiu que se incluíssem no presente estudo pacientes readmitidos. Por outro lado, esse intervalo de tempo de certa forma reduziu o viés de memória do paciente ou de seu responsável.

A prevalência de portador de S. aureus do presente trabalho foi maior que os 25,1% observados por Porter et al.31 em estudo retrospectivo realizado no período de abril de 1998 a março de 2000, envolvendo 565 pacientes submetidos à coleta de secreção de narinas anteriores, nas primeiras 24 horas de internamento em UTI. Assemelhou-se aos 35,7% detectados por Kluytmans et al.14, ao avaliarem a taxa média de prevalência dessa condição de portador, durante a admissão hospitalar, em 59 trabalhos científicos.

Identificou-se que a prevalência de MRSA, detectada entre os portadores de S. aureus da presente pesquisa, foi superior à das UTIs da França, conforme relatado por Girou et al.25, em 1998, e por Lucet et al.20, em 2003, que se igualaram respectivamente a 4,1% e 6,9%. No entanto, foi inferior aos 46% observados por Korn et al.32, em 2001, em duas UTIs de Brasília. Os resultados menores, encontrados na França, podem decorrer da eficácia dos programas de controle desses portadores, classificados por Chaix et al.27 como vantajosos em áreas de alta endemicidade, como a UTI, mesmo considerando os elevados custos.

Devido ao aumento da prevalência de MRSA em todo o mundo, segundo Scanvic et al.23, a admissão de portadores é a forma mais freqüente de sua introdução em unidades de saúde e, conseqüentemente, de sua disseminação. Assim sendo, sua identificação precoce, dentro de 48 horas a 72 horas após admissão em UTI, seria uma forma de reduzir o risco de colonização do portador, assim como de transmissão cruzada para outros pacientes e para profissionais da área de saúde.

Ainda que não se tenha verificado diferença estatisticamente significante, deve-se assinalar maior freqüência de S. aureus e de MRSA em mulheres, resultado que diferiu dos obtidos por Porter et al.31 e por Lucet et al.20, respectivamente iguais a 58,4% de S. aureus em homens na população em geral, 59,4% para MRSA no sexo masculino.

Também as prevalências de S. aureus e de MRSA nas diferentes faixas etárias diferiram daquela dos artigos pesquisados. Enquanto Porter et al.31 encontraram maior prevalência de S. aureus em indivíduos com idade média igual a 50,9 anos, entre os portadores de MRSA, Lucet et al.20 demonstraram que 73% dos pacientes apresentavam idade maior de 60 anos, fato fortemente associado com o portar MRSA, independentemente de outros fatores associados.

O motivo do internamento, clínico ou cirúrgico, não atuou como fator associado à colonização por S. aureus, nem a MRSA, concordando com os resultados de Lucet et al.20, ao avaliarem tanto pacientes transferidos de outras unidades intra ou extra-hospitalares, como aqueles provenientes da comunidade diretamente para a UTI. Uma explicação para a semelhança de prevalência de motivos distintos de internamento em UTI pode ter sido a similaridade dos fatores associados a que são submetidos os pacientes, em virtude do grau de comprometimento do estado geral. Demandam procedimentos invasivos, além de antibioticoterapia múltipla, independentemente da causa primária do internamento.

Tomando por base a prevalência de S. aureus como caso importado para as UTIs estudadas igual a 37,7%, pode-se afirmar que houve concentração dos portadores dessa bactéria na UTI de doenças infecto-parasitárias e na de cirurgia cardíaca, embora essas diferenças não tenham sido significantes. Analogamente, baseando-se na prevalência de 34,5% de casos importados de MRSA entre os portadores de S. aureus, pode-se afirmar ter havido um número maior de tais portadores na UTI de doenças infecto-parasitárias.

O maior número de portadores de S. aureus na UTI de doenças infecto-parasitárias era de se esperar, já que o HUOC é hospital de referência para pacientes portadores de HIV/AIDS, nos quais, segundo dados da literatura, é maior a freqüência de portadores de S. aureus17.

Quanto à freqüência dos portadores de MRSA nas UTIs geral e de doenças infecto-parasitárias, pode-se aventar a hipótese de ter decorrido do fato de esses pacientes estarem mais gravemente enfermos e, em geral, terem como causa de internamento processos inflamatórios ou infecciosos, sendo submetidos mais freqüentemente a antibioticoterapia múltipla.

O fato de ter sido encontrado o segundo maior número de portadores de S. aureus na UTI de cirurgia cardíaca se reveste de especial importância, visto que Haddadin et al.22, em 2002, relataram que o portador nasal de S. aureus apresenta um risco maior de desenvolver infecções no sítio cirúrgico, ao que se associa o fato de ser o HUOC hospital de referência para tratamento de cardiopatias.

Com relação à procedência dos pacientes, os resultados do presente trabalho discordaram com os de Korn et al.32 quanto à procedência hospitalar não constituir fator de risco para portar MRSA na época da admissão na UTI, e concordaram com os de Porter et al.31, que relataram significância estatística entre ser portador de S. aureus e ter procedência hospitalar. Por outro lado, os resultados desta pesquisa de que 37,3% de portadores de S. aureus provieram da comunidade corroboram os resultados de Kenner et al.33.

A associação entre procedência hospitalar e a condição de portador de S. aureus ou de MRSA provavelmente decorreu de colonização durante internamento, o que permitiu prevalência maior do que os procedentes da comunidade.

Antibioticoterapia ou corticoterapia, prévias ou na ocasião do exame, não foram fatores associados ao portador de S. aureus, assim como a MRSA. Korn et al.32 referiram resultados semelhantes quando analisaram o uso prévio de antibióticos, relacionando-os com a colonização pelo MRSA. Lucet et al.20, ao estudarem, por meio de análise univariada, a antibioticoterapia e a corticoterapia como fatores associados para portar MRSA, na época da admissão na UTI, também não observaram associação.

De acordo com a literatura, portar S. aureus e MRSA é fator de risco para o desenvolvimento de infecções durante o internamento em UTI, aumentando a mortalidade desses pacientes2,3,7.

Quanto a internamentos anteriores, observou-se associação estatisticamente significante exclusivamente entre estar colonizado por MRSA e ter história de internamento anterior, o que diferiu dos resultados obtidos por Korn et al.32, que não observaram associação ao investigarem essas variáveis. No entanto, os dados da atual pesquisa concordaram com os de Lucet et al.20. Pacientes que apresentaram internamento anterior podem ter sido submetidos a antibioticoterapia, sem espectro para S. aureus meticilina-resistente, o que selecionou o MRSA.

Segundo a literatura consultada, o sítio de maior prevalência de S. aureus6,13 e de MRSA20 são as narinas anteriores, tal como ocorreu na presente pesquisa. Caso o estudo se restringisse a um único sítio, a eleição deveria recair sobre narinas anteriores, onde ocorreu a maior prevalência de S. aureus e de MRSA. No entanto, é importante ressaltar que se tivesse sido essa a metodologia adotada no presente trabalho, 17 (19,5%) pacientes teriam sido subdiagnosticados, permitindo sua recolonização, assim como a disseminação da bactéria.

Estudos futuros poderão comprovar os resultados aqui descritos e medidas de rastreamento para S. aureus poderiam ser adotadas, de forma prospectiva, para se avaliar o risco, assim como a magnitude do efeito, no controle de infecções hospitalares provocadas por estes patógenos. Sugere-se ainda que tais pesquisas sejam conjuntas com o laboratório de análises, para agilização do diagnóstico de portadores de MRSA e avaliação de custos e benefícios da triagem sistemática de casos importados.

 

Referências

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Correspondência:
Silvana Maria de Morais Cavalcanti
Rua Estrela, 77, apto 401, Parnamirim
Recife, PE CEP 52060-160
E-mail: silvana_cavalcanti@yahoo.com.br

recebido em: 27/01/06
versão final reapresentada em: 13/09/06
aprovado em: 20/09/06

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