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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.10 no.2 São Paulo June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2007000200015 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Uso recente de álcool, tabaco e outras drogas entre estudantes adolescentes trabalhadores e não trabalhadores

 

Recent use of alcohol, tobacco, and other drugs among working and nonworking adolescents

 

 

Delma P. Oliveira de SouzaI, II; Dartiu Xavier da Silveira FilhoI

IPrograma de Pós-Graduação em Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo
IIInstituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal de Mato Grosso

Correspondência

 

 


RESUMO

Foi realizado um estudo transversal, de base populacional, para determinar a prevalência do uso recente de substâncias psicoativas em uma amostra probabilística de 798 adolescentes trabalhadores e de 1.493 não trabalhadores, matriculados na rede estadual de educação básica da área urbana de Cuiabá, Brasil. Um questionário de autopreenchimento foi aplicado em sala de aula, indagando sobre aspectos sociodemográficas, sociais e o consumo de substâncias psicoativas. Definiu-se uso recente como consumo realizado uma ou mais vezes nos trinta dias que antecederam à entrevista. A prevalência na amostra do uso recente de álcool, tabaco e outras drogas foi de 37,4%, 9,5% e 8,4%, respectivamente, sendo mais elevada entre os adolescentes trabalhadores do que entre os não trabalhadores (47,4% versus 32,1% RO = 1,91, IC95% 1,60-2,28; 13,6% versus 7,3% RO = 1,98, IC95% 1,49-2,63; 11,1% versus 6,9% RO = 1,68, IC95% 1,24-2,26). Na análise de regressão logística, o uso recente de álcool, tabaco e outras drogas manteve-se associado aos trabalhadores da faixa etária de 15-20 anos, do sexo masculino e baixo nível socioeconômico (C+D+E). Conclui-se que os resultados indicam que o uso recente de álcool, tabaco e outras drogas foi diferente entre os trabalhadores em comparação com os não trabalhadores, sugerindo que esses resultados podem orientar as ações articuladas de prevenção e tratamento à população adolescente.

Palavras-chave: Trabalho. Estudante Adolescente. Substâncias Psicoativas. Epidemiologia. Saúde Pública.


ABSTRACT

We carried out a cross-sectional, population-based study comparing the prevalence of recent psychoactive substance use in a probabilistic sample of 798 adolescent students that were also workers and of'1,493 that did not work. Students were enrolled in state Basic Education schools in the urban area of Cuiabá, Brazil. A self-administered questionnaire was completed by subjects in the classroom. This questionnaire included items on sociodemographic and school-related variables, as well as on the consumption of psychoactive substances. Recent use was defined as once or more in the 30 days prior to the interview. Prevalence in the sample of recent use of alcohol, tobacco, and other drugs was 37.4%, 9.5%, and 8.4%, respectively, and was higher among workers than among non-workers (47.4% vs. 32.1%, OR = 1.91, 95%CI 1.60-2.28; 13.6% vs. 7.3%, OR = 1.98 95%CI 1.49-2.63; 11.1% vs. 6.9% OR = 1.68, 95%CI 1.24-2.26). After logistic regression analysis, use of alcohol, tobacco, and other drugs remained associated with working adolescents in the 15-20 years age group, males, and from C+D+E social classes. We conclude that the recent use of psychoactive substances differed between working and non-working students. These results may support public health and education policies regarding the implementation of concatenated preventive and therapeutic measures targeting the adolescent population.

Keywords: Epidemiology. Work. Psychoactive Substances. Adolescent Student. Public Health.


 

 

Introdução

A Organização Internacional do Trabalho - OIT, estabelece uma estimativa mundial de 352 milhões de crianças menores de 17 anos vinculadas ao trabalho (ILO, 2002)1. A magnitude desta estimativa e a importância da saúde física e psicossocial deste grupo populacional tornam a questão do trabalho infanto-juvenil uma prioridade na agenda das políticas públicas. No Brasil existem crianças e adolescentes que, além de exercerem uma atividade laborativa, estão matriculados na rede de Educação Básica, compreendida pelo Ensino Fundamental, com clientela de 7 a 14 anos de idade, e pelo Ensino Médio, com alunos de 15 a 17 anos de idade, conforme previsto na Lei de Diretrizes e Bases de 1996. Estas faixas etárias referem-se ao início e ao término da escolarização, desconsiderando-se aqueles em defasagem escolar. Embora a legislação brasileira restrinja o trabalho deste grupo populacional, ele existe no país e suas características de inserção variam entre as regiões, em relação ao sexo, área urbana e grupos etários.

O trabalho infanto-juvenil no Brasil encontra suas raízes e características na própria história brasileira. Em termos populacionais, verificou-se no país um intenso crescimento nas ultimas décadas. De 70 milhões de habitantes na década de 60 para 147 milhões na década de 80, entre os quais 44 milhões eram crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos de idade. Nos anos 90 inicia-se uma desaceleração do crescimento populacional e uma diminuição da taxa de crianças e adolescentes em relação ao total da população. A Pesquisa Nacional por Amostragem por Domicílios - PNAD de 2001 revelou que, das 5,4 milhões de crianças e adolescentes trabalhadores, 4,4 milhões também estudam, enquanto 1 milhão apenas trabalha. Entre os que estudam e trabalham, 30% tem uma jornada semanal de 40 horas, exceto nos Estados de São Paulo, Rondônia e Mato Grosso, onde crianças e adolescentes trabalham mais de 40 horas semanais2.

No Brasil, há variação na carga horária de trabalho semanal de crianças e adolescentes em função da idade e da atividade desempenhada. Entre o grupo com menos de 10 anos predomina uma carga horária de 20 horas (4 horas diárias), chegando a 40 ou mais horas semanais para o grupo de 17 anos de idade3.

Embora certos segmentos da sociedade considerem o trabalho uma fonte de benefícios para o jovem, através da elevação da auto-estima, responsabilidade pessoal, autonomia e preparação para a vida adulta, é sabido que o cansaço decorrente do trabalho precoce reduz a capacidade de concentração e que o uso de substâncias psicoativas provoca baixos índices de freqüência escolar, assim como altos índices de repetência e distúrbios do comportamento. Alem disso, as seqüelas referentes às doenças do trabalho de adolescentes aparecem, em sua maioria, na fase adulta, dificultando o desenvolvimento de políticas de prevenção para esta população4.

Com relação à questão do uso de substâncias psicoativas entre os adolescentes, existem vários estudos realizados no âmbito nacional5-9 e levantamentos epidemiológicos realizados com estudantes a partir de 10 anos de idade do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas, desde a década de 80, pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, CEBRID10. Todavia, no Brasil, poucos são os estudos que associam a questão do estudante adolescente trabalhador e não trabalhador com o uso de substâncias pasicoativas.

O objetivo deste estudo é comparar a prevalência do uso recente de álcool, tabaco e outras drogas entre estudantes adolescentes trabalhadores e não trabalhadores, e verificar sua associação com fatores sociodemográficos, escolares e de saúde, visando o aprofundamento científico da questão para subsidiar as políticas públicas de prevenção e tratamento.

 

Método

Tipo de estudo, local e população

Este estudo analítico de corte transversal é constituído de estudantes adolescentes trabalhadores e não –trabalhadores, matriculados no ano de 1998 em escolas da rede estadual de Ensino Fundamental e Médio do município de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso. Na época do estudo, o município contava com uma população de 483.346 habitantes, entre os quais 96.284 na faixa etária de 10 a 19 anos. O município possui localização estratégica no que concerne à ligação das regiões Nordeste, Sudeste e Sul com o Norte do país. A localização e o crescimento socioeconômico, a partir da década de 70, fizeram com que Cuiabá passasse a apresentar problemas típicos de metropolização, entre eles o consumo de substâncias psicoativas na sua população jovem11, contando com poucas políticas de prevenção, tratamento e pesquisas para a questão.

Para esta investigação definiu-se como elegível ser matriculado na rede estadual de ensino e estar na faixa etária de 10 a 20 anos. Este ponto de corte teve por base os princípios da Organização Mundial de Saúde – OMS sobre delimitação de início e fim da adolescência, o contexto educacional e o estudo de Outeiral12, que considera a adolescência constituída de três fases: a primeira, de 10 a 14 anos, a segunda de 14 a 17 anos, e a terceira de 18 a 20 anos. Esta categorização enquadra-se no início e término da escolaridade da população em estudo, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Para a inclusão no grupo que trabalha, considerou-se aquele que afirmou possuir um vínculo empregatício, trabalhando regularmente, assim como todo estudante na situação de desempregado nos últimos doze meses, que fez algum esforço na busca de remuneracão através de ''bicos" ou engajamento no mercado formal ou informal. O grupo que não trabalha foi constituído dos estudantes adolescentes que afirmaram ¨não trabalhar, apenas estudar¨, nunca exerceram atividades remuneradas, não fazem parte da economia ativa ou recebem mesada e são mantidos por seus responsáveis, embora exerçam dispêndio físico em trabalhos domésticos ou ajudem os pais ou parentes em atividades lucrativas sem receber remuneração13.

A amostra

Com base no objetivo deste estudo, que foi comparar o uso recente de substâncias psicoativas entre estudantes adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores, o sorteio buscou uma amostragem representativa por conglomerados (escolas) e estratificada (estratos representam modalidades de ensino da Educação Básica ministradas nas escolas: estrato 1 - Ensino Fundamental; estrato 2 - Ensino Médio; estrato 3 - Ensino Fundamental e Médio; estrato 4 - Educação de Jovens e Adultos), obtida em dois estágios: no primeiro, foram sorteadas as escolas, no segundo, as turmas10,14.

Para a estimativa do tamanho mínimo de amostra, para uso recente, considerou-se:

  • um erro alfa de 0,05;
  • um erro beta de 0,20;
  • uma prevalência de exposição ao trabalho para 25,0% dos estudantes;
  • uma prevalência de uso de drogas recente, entre os estudantes que não trabalham, de 5,0%;
  • um efeito de desenho de 1,8% pelo fato de o sorteio vir a ser feito por turmas e não aleatoriamente.

Foram incluídos, ainda, 10,0% para as perdas. Com esses procedimentos, a amostra mínima requerida para compor o grupo de estudantes adolescente trabalhadores seria de 618, e de 1.854 para não trabalhadores, totalizando 2 .472 estudantes adolescentes.

O instrumento

Empregou-se um questionário estruturado, adaptado à realidade brasileira10 e já testado no contexto cuiabano11. Nele foram inseridas as questões referentes ao trabalho, submetidas a um teste-reteste de confiabilidade13, com intervalo de 21 dias entre as aplicações. A sua aplicação se deu em sala de aula, sem a presença do professor, por acadêmicos treinados da área de saúde da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

O instrumento compôs-se das variáveis:

  • Trabalho: Sim/Não;
  • Uso recente de: álcool: Sim/Não (abrangendo o consumo de cerveja, chope, vinho, uísque, cachaça, champanhe); tabaco: Sim/Não; outras drogas: Sim/Não (abrangendo o uso de cocaína, maconha, solventes, anfetaminas, barbitúricos, ansiolíticos, opiáceos, antícolinérgicos, xaropes, alucinógenos, orexígenos e anabolizantes); idade do primeiro uso de droga. O termo ¨uso recente¨, com base na Organização Mundial de Saúde (OMS)15, refere-se à pessoa que utilizou alguma droga psicoativa pelo menos uma vez nos trinta dias que antecederam a pesquisa.
  • Dados sociodemográficas: sexo: Masculino/Feminino; faixa etária: 10-14/15-20 anos; nível socioeconômico: baseado em bens de consumo e nível de escolaridade do responsável pela família, conforme os critérios da Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado (ABIPEME), cuja soma compreende cinco categorias socioeconômicas A+B+C+D+E, agrupadas neste estudo em duas categorias: melhor poder aquisitivo (A+B) e médio e baixo poder aquisitivo (C+D+E );
  • Dados escolares: defasagem escolar: Sim/Não; falta às aulas nos últimos 30 dias que antecederam a pesquisa: (Sim/Não);
  • Dados de comportamento de saúde: prática de esportes categorizada em Sim/Não.

A análise

O teste do qui-quadrado e de Fisher's Exact foram usados para examinar as diferenças entre os dois grupos. Análises bivariadas foram feitas para exploração inicial dos dados, utilizando-se o teste do qui-quadrado para testar a homogeneidade das proporções, em um nível de significância de 0,05%.

Para o controle de variáveis de confusão, utilizou-se um modelo de regressão logística, método stepwise, baseado na razão de verossimilhança, para cálculo das razões oddso (RO) ajustadas. Entraram no modelo todas as variáveis que, na análise bruta, apresentaram valor de p (significância) igual ou menor que 0,25. Iniciou-se por modelo saturado - O teste de Hosmer-Lemeshow16 foi usado para avaliar o ajuste do modelo. A presença de confusão foi analisada, retirando-se as co-variáveis, uma a uma, pelo critério de p > 0,05 e verificando se sua saída não provocava mudanças superiores a 10,0% dos coeficientes das demais variáveis e, em seguida, comparando-se a nova RO com aquelas obtidas no modelo saturado, permanecendo no modelo final as variáveis com um nível de significância menor ou igual a 0,05%, observado através do teste de Wald.

A entrada e a validação dos dados foram objetivadas pelo programa Epi-info Versão 6.0, em dupla entrada e em arquivos separados, que foram comparados, e corrigidas as diferenças identificadas. Os erros de digitação, que atingiram aproximadamente 1% em 2.291 questionários, foram corrigidos, e as incoerências identificadas revistas manualmente. A análise crítica dos dados foi realizada conforme metodologia adotada em levantamentos com população estudantil10,17. O programa SPSS, Versão 9.0, foi utilizado para a análise estatística.

O presente estudo teve a aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso e do Comitê em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, e autorização da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso.

 

Resultados

Nenhum estudante se recusou a participar do estudo, porém foram excluídos 20,3% por não estarem na faixa etária delimitada, 0,06% pela resposta positiva à questão fictícia sobre drogas, e 0,89% por não ter respondido à questão sobre trabalho. Obteve-se as informações de 2.291 estudantes para análise sobre o uso recente de álcool, tabaco e outras drogas, representando 3,7% do total de estudantes matriculados, o que, na época, apontava para a existência de 61.889 estudantes cursando da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. Da amostra mínima requerida para o uso recente (2.472), obteve-se a informação de 798 estudantes adolescentes trabalhadores e 1.493 de não trabalhadores, representando 92,7% do previsto.

A Tabela 1 apresenta a composição da amostra e dos grupos de estudantes adolescentes trabalhadores e não trabalhadores. O primeiro grupo é formado em sua maioria pelo sexo masculino, insere-se na faixa etária de 15 a 20 anos, falta mais às aulas, apresenta mais defasagem escolar com pouca prática de esportes. O grupo de adolescentes não trabalhadores é formado na maioria pelo sexo feminino, na faixa etária de 10-14 anos. Em ambos os grupos, na sua maioria, as famílias possuem baixo poder aquisitivo (nível C) e o responsável tem poucos anos de escolaridade. A maior prevalência de uso recente de álcool (47,4%, IC 95% 1,60-2,28), tabaco (13,6%, IC 95% 1,49-2,63) e de outras drogas (11,1%, IC 95% 1,24-2,26) foi observada entre os estudantes trabalhadores com associação estatisticamente significativa em comparação com os adolescentes não trabalhadores (Figura 1).

 

 

 

 

Em relação à idade inicial do uso recente de substâncias psicotivas (Figura 2), observou-se que os estudantes adolescentes não trabalhadores apresentaram idade mais precoce, com associação significativa para o primeiro uso de álcool, tabaco e outras drogas, em comparação com os estudantes trabalhadores (Teste de Tukey, p < 0, 05).

 

 

Na Tabela 2, observa-se que os fatores associados com significância estatística ao uso recente de álcool abrangem os adolescentes trabalhadores do sexo masculino, que pertencem à faixa etária de 15 a 20 anos, cujo chefe da família possui baixa escolaridade, faltam às aulas e estão em defasagem escolar. Embora sem associação significante, a prática de esporte, em sua maioria, foi mais realizada entre os não trabalhadores. Quanto ao uso recente de tabaco, verificaram-se proporções mais elevadas no grupo de trabalhadores na faixa etária de 15 a 20 anos, pertencentes aos níveis socioeconômicos menos favorecidos (C+D+E), com diferenças significativas em relação aos não trabalhadores. Observou-se também que o grupo de trabalhadores apresenta as maiores proporções no consumo recente de outras drogas, com associação estatisticamente significativa para aqueles cujo responsável tem baixa escolaridade, aqueles que estão em defasagem escolar e que são do sexo masculino, com idade entre 15 e 20 anos.

Após a análise de regressão logística (Tabela 3), permaneceram no modelo com maior chance de uso recente de substâncias psicoativas os adolescentes trabalhadores na faixa etária de 15 a 20 anos (outras drogas RO = 4,41, IC 95% 2,20-8,82; álcool RO = 2,56, IC95% 1,83-3,57; tabaco RO=2,45,IC95% 1,29-4,66), com nível socioeconômico de menor poder aquisitivo (tabaco RO = 2,12, IC95% 1,15-3,91) e do sexo masculino (álcool RO = 1,82, IC95% 1,36-2,44; outras drogas RO = 1,97, IC95% 1,03-3,75), em relação aos não trabalhadores.

Informações adicionais sobre o uso recente de substâncias psicoativas quanto às características do trabalho foram analisadas em relação aos adolescentes não trabalhadores (Tabela 4). Observou-se associação significativa para o uso recente de álcool, tabaco e drogas para os trabalhadores com carga horária diária compreendida entre 4 e 8 horas, que não estão satisfeitos com o trabalho e apresentam outros motivos para trabalhar além apenas ajudar na renda familiar. Trabalhar no setor secundário apresenta maiores chances de uso recente de álcool; no setor terciário, para o uso de tabaco e outras drogas.

 

Discussão

Nas últimas décadas, os estudos epidemiológicos sobre o uso de drogas com a população estudantil da rede pública no Brasil têm sido relevantes para o conhecimento da magnitude do fenômeno quanto à prevalência e a fatores associados, subsidiando as políticas públicas de prevenção e tratamento.

No presente estudo, as prevalências do uso recente de álcool, tabaco e outras drogas entre adolescentes trabalhadores e não trabalhadores evidenciam semelhanças e diferenças no comportamento do estudante adolescente de Cuiabá-MT, em relação a outras investigações, mostrando que a questão do uso de substâncias psicoativas entre adolescentes vinculados ou não ao mercado de trabalho é uma questão de saúde pública18-22 .

Quanto à relação entre trabalho e uso recente de álcool, tabaco e drogas, os dados deste estudo também são consistentes com outro estudo22 que verificou maiores prevalências entre os estudantes trabalhadores para o uso de álcool e tabaco com associação estatisticamente significante. Em relação à perda da associação do uso recente de drogas entre os trabalhadores, observou-se semelhança desta investigação com os resultados encontrados em estudo realizado com adolescentes da Tailândia23, ou seja, associação do trabalho com o uso de álcool e tabaco entre trabalhadores, em análise bivariada, mas com perda da associação do uso de outras drogas e de sua significância estatística na análise de regressão logística, em comparação com os não trabalhadores.

Várias são as possíveis interpretações sobre a associação do consumo de álcool, tabaco e outras substâncias com o trabalho entre adolescentes20-24, pertinentes neste estudo, tais como:

  • os jovens em contato com outras pessoas mais velhas no ambiente de trabalho, que usam drogas, apresentam chances maiores para sua iniciação no consumo;
  • adolescentes já usuários de substâncias psicoativas, com renda disponível aumentada por mais horas de trabalho, podem encontrar no trabalho uma motivação para apoiar este uso de drogas;
  • o trabalho pode ser estressante para os adolescentes, e eles podem tentar aliviar a tensão usando alguma substância psicoativa;
  • baixo compromisso com a escola pode ter efeitos em ambas as decisões: trabalhar intensamente e usar alguma substância psicoativa;
  • a transição precoce para os papéis de adulto pode ser um mecanismo que conectaria maior atividade de trabalho e uso de alguma substância psicoativa.

As investigações sobre uso de substâncias psicoativas evidenciam que o uso de álcool, de modo geral, inicia-se na adolescência. Os resultados deste estudo mostraram que a média de idade da primeira experimentação do álcool se deu mais precocemente entre os não trabalhadores (12,55 ± 2,58) do que entre os trabalhadores, seguido pelo tabaco e outras drogas, e se manteve associada à faixa etária de 15 a 20 anos para as três substâncias. É preocupante esta iniciação precoce do uso de drogas lícitas e seus efeitos na saúde mental e física do adolescente, sendo importante que as intervenções se voltem para os aspectos da vulnerabilidade inerente à idade e estabeleçam ações para prevenir o primeiro uso de substâncias psicoativas17.

Com relação ao sexo, os homens trabalhadores consumiram mais álcool e outras drogas, não se diferenciando de estudos com população adolescente que também manifestou preferência pelo álcool19,22. Também chama a atenção as mulheres com maior uso de tabaco, coadunando-se com estudo realizado mais recentemente com estudantes da rede pública de Cuiabá17.

Com relação às condições econômicas da família dos participantes deste estudo, apenas os adolescentes trabalhadores de famílias de níveis menos favorecidos (C+D+E) mostraram-se associados ao uso recente de tabaco. Este resultado contrapõe-se aos dados de estudos que evidenciaram associação significativa entre melhor nível socioeconômico e uso de substâncias psicoativas10,17, e aos observados por Malcon et al.8 para o tabagismo em Pelotas, que não verificaram diferenças significativas entre uso e condições econômicas do adolescente.

Tratando-se da associação de trabalho e uso de substâncias psicoativas com as variáveis escolares, tanto a defasagem como as faltas às aulas estão associadas positivamente entre os adolescentes trabalhadores, em análise bivariada. Estes resultados devem ser analisados com cautela, principalmente com a perda de associação no modelo de regressão, embora haja estudos que relacionam o consumo de drogas ao baixo rendimento escolar e à ausência as aulas17,19.

Outro resultado que merece atenção refere-se à prática de esportes. Tanto entre os adolescentes trabalhadores como entre os não trabalhadores, observou-se o uso recente de substâncias psicoativas, não havendo diferenças significativas. Estudo realizado com estudantes7 também constatou que a prática de esportes não é um fator protetor para coibir o uso de drogas e que infelizmente ainda no seio da sociedade, perpassa a idéia de que manter o adolescente ocupado com atividades extracurriculares o impediria do contato com as drogas7.

Embora os resultados do presente estudo sejam consistentes e relevantes, algumas limitações devem ser consideradas, como o delineamento transversal não permitir inferências causais, pois fatores de risco e desfecho são vistos em um mesmo momento, e o viés de causalidade reversa não poder ser eliminado, bem como a não validação do instrumento para investigar comportamento privado e ilegal, como também o viés de informação devido a algum estudante não ter revelado o uso de substâncias por desconfiança ou erro de memória. A comparação com outros estudos fica prejudicada devido a diferenças metodológicas quanto à delimitação do padrão de uso de substâncias psicoativas, do ponto de corte para a carga horária de trabalho e dos critérios para identificação do estudante adolescente trabalhador.

Assim como tem sido mostrado em outros estudos22-24, os dados desta pesquisa sugerem que o trabalho está associado ao comportamento do uso recente de álcool, tabaco e drogas entre os estudantes adolescentes de Cuiabá. Entre esses, os mais expostos são os que afirmaram ter uma carga diária de trabalho de 4 a 8 horas, insatisfação com o trabalho, evidenciando que a atividade profissional não impede os adolescentes em idade escolar de beber, fumar e consumir drogas.

Também foi importante o resultado encontrado neste estudo referente ao maior uso recente de álcool entre os adolescentes que trabalham no setor secundário da economia nacional, que abrange, entre outros, o setor da construção civil, área que, além de absorver o maior número de trabalhadores com pouca qualificação profissional, apresentou, em estudo realizado em Cuiabá-MT25, proporção elevada de internações por uso de álcool, na faixa etária de 15 a 20 anos. É importante a realização de pesquisas que possam melhor identificar os fatores associados ao consumo de substâncias psicoativas versus segmento profissional.

Desde a coleta dos dados até o momento presente, políticas públicas foram implementadas nas esferas federal, estadual e municipal para a redução do consumo de substâncias psicoativas entre a população estudantil. Porém ainda não se tem a avaliação do seu impacto. Sabe-se apenas que as taxas de agravos de causas externas, especificamente a violência, têm apresentando índices consideráveis de adolescentes, seja como vítimas ou como agressores, sob efeito de alguma substância psicoativa.

Conclui-se que os resultados deste estudo devem ser considerados nas estratégias de prevenção do uso recente de álcool, tabaco e outras drogas na adolescência, e envolver ações conjuntas e articuladas entre as entidades educacionais, de trabalho, família e sociedade como um todo, bem como auxiliar os pesquisadores no aprofundamento da questão do uso indevido de drogas por adolescentes, identificando as diferenças e lacunas no campo da produção do conhecimento.

 

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Correspondência:
Delma P. Oliveira de Souza
Rua Safira, nº 71 Bosque da Saúde
Cuiabá,MT - CEP 78008-300
E-mail: souzadpo@terra.com.br

Recebido em: 25/08/06
Versão final reapresentada em: 06/04/07
Aprovado em: 25/04/07
Projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT – Processo n. 064/CAP/98). Bolsista do Programa Institucional de Capacitação Docente e Técnico Administrativo/CAPES/UFMT.