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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.13 no.3 São Paulo Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2010000300003 

ARTIGO ESPECIAL

 

Inatividade física e fatores associados em adultos, São Paulo, Brasil

 

 

Luane Margarete ZanchettaI; Marilisa Berti de Azevedo BarrosI; Chester Luiz Galvão CésarII; Luana CarandinaIII; Moisés GoldbaumIV; Maria Cecília Goi Porto AlvesV

IDepartamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
IIDepartamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - USP
IIIDepartamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista - UNIFESP
IVDepartamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP
VInstituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar prevalências de inatividade física e fatores associados, e exercícios e esportes praticados segundo escolaridade em 2.050 adultos de 18 a 59 anos de idade - Estado de São Paulo, Brasil.
MÉTODOS: Estudo transversal de base populacional com amostra estratificada e em múltiplos estágios. A inatividade física global foi aferida pelo International Physical Activity questionary - IPAQ short version, e por questão sobre prática regular de atividade física no lazer. A análise dos dados levou em conta o desenho amostral.
RESULTADOS: A prevalência de inatividade física no lazer foi maior entre as mulheres. Já a inatividade física pelo IPAQ foi maior entre os homens. Modelos de regressão múltipla de Poisson indicaram, nos homens, menor inatividade física pelo IPAQ nos solteiros e separados, estudantes e aqueles que não possuíam carro. A inatividade física no lazer foi maior nos homens acima de 40 anos e com menor escolaridade ou apenas estudantes. A inatividade física pelo IPAQ, nas mulheres, foi mais prevalente entre as com maior escolaridade, ocupações menos qualificadas e viúvas; a inatividade física no lazer diminuiu com o aumento da idade e da escolaridade. Entre as modalidades praticadas no lazer, a caminhada foi a mais prevalente nas mulheres e o futebol nos homens. A maioria das modalidades foi diretamente associada à escolaridade; aproximadamente 25% dos indivíduos com mais de 12 anos de estudo praticava caminhada.
CONCLUSÕES: Estes resultados sugerem que intervenções e políticas públicas de promoção da atividade física devem considerar diferenças socioeconômicas, de gênero, bem como as modalidades e o contexto em que a atividade física é praticada.

Palavras-chave: Atividade Física. Lazer. Exercícios. Fatores de Risco. Levantamentos Epidemiológicos. Brasil.


 

 

Introdução

O século vinte foi marcado pelo crescimento progressivo de inatividade física que atingiu na atualidade prevalências extremamente elevadas, tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento1. Evidências científicas consistentes têm sido produzidas sobre diferentes benefícios proporcionados à saúde pela prática de atividade física1-3. Pessoas que praticam atividades físicas regularmente apresentam menor risco de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de câncer, obesidade e quadros de depressão e ansiedade, entre outras morbidades1,3-5. Apresentam, também, menores taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares e no total das causas6. Estas constatações levaram a inatividade física a ser considerada um dos mais relevantes problemas de saúde da atualidade pelo papel que desempenha na incidência e prevalência de doenças crônicas1,7. Em consequência disso, a prática de atividade física tornou-se um importante recurso a ser utilizado na prevenção e controle dessas doenças e vem ganhando relevância nas políticas públicas propostas para a promoção da saúde6,7. Considera-se que a diminuição da inatividade física teria grande impacto nos custos dos serviços de saúde e na melhoria da saúde da população5.

Nos estudos epidemiológicos, a atividade física vem sendo focada em dois contextos: a atividade física no lazer - que engloba jogos, esportes, caminhadas e exercícios físicos realizados no tempo livre e a atividade física global - que inclui, além das atividades de lazer, aquelas realizadas como meio de locomoção, no trabalho e nas ocupações domésticas1,8. A maioria dos estudos epidemiológicos analisa em geral a atividade física no contexto de lazer, sendo que evidências de associações entre saúde e atividade física global ainda são escassas e controversas9. São raros os artigos que analisam tanto a atividade física no contexto global quanto no de lazer10.

Estudos de base populacional têm utilizado diferentes instrumentos e critérios para aferição da inatividade física e do nível de atividade física, o que dificulta a comparabilidade entre os resultados obtidos9,11. Para inquéritos de base populacional é fundamental o uso de instrumento válido, de fácil aplicação e baixo custo, que possibilite a comparação entre pesquisas realizadas em diferentes localidades. O instrumento que tem sido mais frequentemente utilizado em estudos epidemiológicos no Brasil é o International Physical Activity Questionnaire (IPAQ) ou Questionário Internacional de Atividade Física (QIAF). Este questionário foi proposto pela Organização Mundial de Saúde, com o objetivo de tornar disponível um instrumento de medida de nível de atividade física que pudesse ser aplicado em diferentes regiões e culturas. O questionário foi testado em diversos países, entre eles o Brasil12.

A importância da atividade física para a saúde da coletividade gera a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o padrão epidemiológico dessa prática e monitorar sua prevalência em subgrupos populacionais.

Diante destas constatações, este estudo objetivou analisar as prevalências de inatividade física global e no lazer, e a associação desses indicadores com fatores demográficos e socioeconômicos em adultos de 18 a 59 anos, residentes em áreas do Estado de São Paulo, bem como avaliar diferenciais nas modalidades de exercícios físicos e esportes praticados segundo a escolaridade.

 

Material e Métodos

O presente estudo de corte transversal utilizou dados de inquérito de saúde de base populacional realizado no período de 2001 e 2002, em população urbana não institucionalizada, residente em quatro áreas:

• município de Campinas

• município de Botucatu

• regional do Butantã do município de São Paulo e

• a área composta pelos municípios de Itapecerica da Serra, Embu e Taboão da Serra.

Foram realizadas amostras probabilísticas obtidas em dois estágios. Em cada área da pesquisa os setores censitários urbanos foram agrupados em três estratos segundo o percentual de chefes de família com nível universitário: menor que 5%, entre 5 e 25% e maior que 25%. Em cada uma das áreas foram sorteados 10 setores de cada estrato com probabilidade proporcional ao tamanho do setor expresso pelo número de domicílios deste. No segundo estágio, uma amostra sistemática de domicílios foi sorteada em cada setor selecionado.

O tamanho mínimo definido para a amostra levou em consideração a possibidade de se estimar uma prevalência de 0,5 com um erro de 0,10, considerando um coeficiente de confiança de 95% na determinação de intervalos de confiança, e um efeito de delineamento de 2. Considerando possíveis perdas, o tamanho mínimo da amostra foi elevado em 20%. Maiores detalhes da metodologia podem ser encontrados em Alves et al13.

Para o presente estudo foram analisados os dados dos entrevistados com idade entre 18 a 59 anos.

O questionário do inquérito incluiu questões sobre condições socioeconômicas, morbidade nos últimos 15 dias, check list de doenças crônicas, uso de serviços de saúde e comportamentos relacionados à saúde, entre outros tópicos. O questionário foi aplicado diretamente à pessoa sorteada.

As variáveis incluídas no presente estudo foram:

Atividade física avaliada pelo Questionário Internacional de Atividade Física

(QIAF-IPAQ), versão curta, que afere a frequência semanal, a duração e a intensidade da atividade física realizada nos seguintes contextos: trabalho, meio de transporte, atividades domésticas e lazer. Os indivíduos foram categorizados em:

Sedentário: nenhuma atividade física por pelo menos 10 minutos contínuos em nenhum dia da semana.

Insuficientemente ativo: atividade física por pelo menos 10 minutos contínuos em algum dia da semana sem atingir o critério para ser classificado como ativo.

Ativo:

- atividades vigorosas ao menos 3 dias por semana e por pelo menos 20 minutos em cada sessão

- atividade moderada ou caminhada ao menos 5 dias por semana e ao menos por 30 minutos ou

- qualquer atividade ao menos 5 dias por semana perfazendo no total pelo menos 150 minutos.

Muito ativo:

- atividades vigorosas ao menos 5 dias por semana por no mínimo 30 minutos

- vigorosas ao menos 3 dias por semana, com 20 ou mais minutos por sessão, acrescidas de atividade moderada ou caminhada ao menos 5 dias por semana e com ao menos 30 minutos por sessão.

Considerou-se neste estudo o agrupamento das categorias: sedentários + insuficientemente ativos e utilizou-se o termo "insuficientemete ativo" para designar essa categoria.

Atividade física no lazer: foi definido como insuficientemete ativo no lazer, o individuo que respondeu negativamente à pergunta: "O senhor pratica regularmente, pelo menos uma vez por semana, algum esporte ou exercício físico?"

Variáveis socioeconômicas e demográficas: sexo (feminino e masculino), idade (18 a 29, 30 a 39, 40 a 49 e 50 a 59 anos), cor/raça auto referida (branca, preta/parda e outras), situação conjugal (com companheiro: casados e união estável; e sem companheiro: solteiros, viúvos e divorciados), religião (católica, evangélica e outras), escolaridade (de 0 a 7, 8 a 11 e 12 ou mais anos de estudo), renda familiar per capita (menor ou igual a 2 salários mínimos e maior que 2 salários mínimos), posse de automóvel pela família (sim ou não), ocupação no momento da entrevista, agrupada em: "do lar" (ocupação doméstica na própria casa), desempregados, estudantes, ocupações de maior qualificação (incluindo diretores, profissionais com nível superior e profissionais com nível técnico), e ocupações de menor qualificação (incluindo trabalhadores sem cargo de direção, nem nível superior, com atividades em comércio, administração, prestação de serviços, indústria ou agropecuária).

Os dados foram digitados em banco no programa Epi Info e as análises conduzidas com o programa STATA utilizando os comandos svy (para análise de amostras complexas).

Foram estimadas as prevalências de inatividade física pelo IPAQ e no lazer para cada sexo, segundo o conjunto das variáveis socioeconômicas e demográficas. Para testar as associações foi utilizado o teste de qui-quadrado, com nível de significância de 5%. Foram calculadas as razões de prevalência e intervalos de confiança de 95% por meio de regressão de Poisson. Foi desenvolvido modelo de regressão múltipla de Poisson, no qual foram incluídas as variáveis com p < 0,20 na análise bivariada, adotando-se o procedimento retrógrado (backward), sendo que permaneceram no modelo as variáveis com p < 0,05.

O projeto do presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da UNICAMP (parecer nº 369/2000).

 

Resultados

Foram analisados dados de 2.050 adultos (1.028 mulheres e 1.022 homens). Entre os indivíduos amostrados, ocorreram 7,6% de perdas entre recusas e não encontrados após mais de três visitas.

Verificou-se que entre os homens e as mulheres, respectivamente, a prevalência de sedentários pelo IPAQ foi de 6,8% e 4,4%, de insuficientemente ativos de 16,6% e 7,3%, de ativos 48,2% e 67,0% e de muito ativos 28,4% e 21,2%. A inatividade física no lazer teve prevalência de 65,4% (dados não apresentados em tabela).

Na Tabela 1 foram significativamente mais inativos no lazer homens com 30 anos ou mais, de cor preta/parda (no limiar da significância estatística), casados em relação aos solteiros, com menor escolaridade, sem carro no domicílio e com ocupação de menor qualificação. No IPAQ foram mais inativos os homens de cor branca, com 12 ou mais anos de escolaridade em relação àqueles com menos de 7 anos (no limiar da significância estatística), os com ocupações de maior qualificação e cuja família possuía carro. Os solteiros e separados mostraram-se significativamente mais ativos que os casados.

Na Tabela 2, as mulheres com as maiores prevalências de inatividade física no lazer foram aquelas com menos de 29 anos em relação às com mais de 50, de raça/cor preta ou parda, unidas e viúvas em relação às casadas, com escolaridade inferior a oito anos, com renda per capita igual ou inferior a dois salários mínimos, com ocupações de menor qualificação, desempregadas e do lar (em relação àquelas com maiores ocupações), e naquelas sem carro. Verificou-se maior inatividade física segundo o IPAQ nas mulheres de cor branca e com maiores níveis de escolaridade e renda, e menores prevalências de inativas nas evangélicas e nas que apenas estudavam, em relação àquelas com maiores ocupações.

Na Tabela 3 estão apresentadas as razões de prevalência das variáveis que persistiram no modelo de regressão múltipla de Poisson. Nos homens, as maiores prevalências de inativos no lazer foram nas categorias: 40 anos ou mais em relação a quem tinha menos de 29 anos, menor escolaridade e àqueles com maior ocupação (em relação aos que apenas estudavam). Maiores prevalências de inativos segundo o IPAQ foram observadas nos casados em relação aos solteiros ou separados, naqueles que possuíam carro e entre os com maior ocupação em relação aos apenas estudantes. O modelo final para as mulheres apontou maior inatividade física no lazer naquelas com menos de 29 anos em relação às com mais de 50, nas viúvas em relação às casadas, nas de menor escolaridade e com ocupações de menor qualificação em relação às com maiores ocupações. No modelo de regressão final para o IPAQ as mais inativas foram as mulheres com mais anos de escolaridade e, assim como no lazer, nas que ocupavam funções de menor qualificação em relação àquelas com melhores ocupações.

Quanto às atividades físicas praticadas no lazer (Tabela 4), verificou-se que 16,7% das mulheres praticavam caminhadas, 8,8% faziam ginástica ou musculação e 2,3% andavam de bicicleta. Entre os homens 20,8% jogavam futebol, 16,3% faziam caminhadas, 12,7% faziam ginástica ou musculação, 6,1% andavam de bicicleta e 2,2% praticavam natação. Com exceção do ciclismo, as prevalências dessas práticas em ambos os sexos aumentaram significativamente com os anos de estudo. Entre os homens, o futebol foi significativamente mais frequente na faixa de entre 8 a 11 anos de estudo.

 

Discussão

Este estudo detectou significativas diferenças sociais e de gênero na prevalência de inatividade física no lazer e aferida pelo IPAQ (levando em consideração todos os contextos diários de atividade física), e nas modalidades de exercícios físicos e esportes praticados em adultos de 18 a 59 anos de idade, em áreas do Estado de São Paulo.

A prevalência de inatividade física avaliada pelo IPAQ (sedentários + insuficientemente ativos) foi de 17,3%, sendo 11,7% nas mulheres e 23,4% nos homens. Valores superiores foram observados em inquérito telefônico em todas as capitais brasileiras - VIGITEL, no qual as prevalências de inatividade física (lazer, meio de transporte, ocupacionais e domésticas) variaram de 18,7% em Palmas a 32,3% em Natal, sendo de 25,6% em São Paulo14. Prevalências mais elevadas foram detectadas em pesquisa domiciliar realizada em 15 capitais brasileiras, em que a inatividade física avaliada pelo IPAQ variou de 28,2% em Belém a 54,5% em João Pessoa, sendo de 35,4% em São Paulo15. Outros estudos realizados no Brasil5,9,10 e em outros países3,16 têm apontado prevalências elevadas de inatividade física.

Revisão sistemática sobre atividade física no Brasil em diversas faixas etárias e com diferentes instrumentos, com predomínio de população adulta e uso do IPAQ, apontou ampla faixa de variação de inatividade fisica17. A existência no IPAQ de perguntas relacionadas às atividades domésticas com citação de exemplos pode contribuir em alguns contextos culturais e sociais para a superestimação especialmente entre as mulheres9.

No lazer, a prevalência de inatividade física foi de 65,4% (56,2% entre os homens e 73,8% entre as mulheres). Esses valores foram inferiores aos de pesquisa realizada nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil (87%, 81,8% entre os homens e 91,8% entre as mulheres)2 e similares aos observados na população do Peru (61,8%, 55,5% entre os homens e 67,6% entre as mulheres), em estudo que utilizou questão similar sobre a prática de exercícios de lazer ao menos uma vez por semana. Nessa pesquisa, apenas 10% entre os que não eram sedentários de fato atingiam as recomendações de 150 minutos por semana18. Estudo realizado em capitais brasileiras revelou que o município de São Paulo teve a menor prevalência de pratica de atividade física de lazer durante 30 minutos, cinco ou mais dias da semana (12,1%), sendo de 13,8% entre os homens e 10,6% entre as mulheres14. Os estudos que analisam a prática de atividade física vêm utilizando diferentes instrumentos e definições para sedentarismo no lazer, dificultando as comparações entre os resultados obtidos. Revisão sistemática de estudos brasileiros encontrou ampla faixa de prevalência de sedentarismo no lazer variando entre 55,3% a 96,7%17.

Os homens foram mais inativos que as mulheres no IPAQ. Achados semelhantes foram verificados em outras pesquisas realizadas no Estado de São Paulo9,11 e nas Regiões Sul e Sudeste do Brasil5. Vários estudos, entretanto, têm detectado maior sedentarismo global entre as mulheres15,16,19-22.

A inatividade física no contexto do lazer foi mais prevalente entre as mulheres, o que vêm sendo consistentemente relatado4,8,14,23.

As diferenças de gênero podem ser explicadas pelos papéis sociais e familiares diferenciados que homens e mulheres adultos exercem, influenciados pela cultura e organização social em que vivem. As mulheres usualmente são as responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidadoras de crianças e parentes com limitações, frequentemente também exercem trabalho remunerado ou são dependentes do marido, e acabam tendo menor disponibilidade de tempo e de oportunidades para atividades de lazer24.

Observou-se que a inatividade física pelo IPAQ se elevou com o aumento da idade, o que é frequentemente relatado na literatura9,11,15,19- 21. Algumas pesquisas, entretanto, não têm detectado associações significativas entre sedentarismo em contexto geral e faixa etária14,25. A inatividade física no lazer tende a aumentar com a idade, como detectaram outros estudos realizados no Brasil2,4,7, embora essa associação não tenha sido encontrada em adultos e idosos da união Européia23. Nosso estudo detectou que a inatividade física no lazer foi menor nas mulheres entre 50 a 59 anos em relação àquelas com menos de 29 anos, o que é coerente com estudo realizado na Europa, no qual a prática de atividade física no lazer foi mais prevalente com o aumento da idade26 e também com resultados do VIGITEL14, em que as mulheres entre 18 a 24 anos eram as menos ativas no lazer.

Após análise de regressão múltipla, os achados de indivíduos mais inativos no lazer de cor preta/parda, bem como a maior inatividade detectada pelo IPAQ em indivíduos de cor branca, deixam de ser significativos, concordando com os achados de Dias-da-Costa et al.4, que não detectaram diferenças raciais na inatividade física no lazer na população adulta da cidade de Pelotas e os de Siqueira et al.5, em pesquisa realizada com o IPAQ nas Regiões Sul e Nordeste do Brasil.

Ser ativo no lazer associou-se à situação conjugal, sendo mais prevalente em homens solteiros, mesmo após ajuste por idade, o que é similar aos resultados de outros estudos brasileiros4,8. São também os solteiros, juntamente com os separados, os que mais praticam atividades físicas aferidas pelo IPAQ, equivalente aos achados de pesquisa realizada em 15 países da União Européia20. Entretanto, estudo conduzido em Portugal não detectou diferenças significativas em relação à situação conjugal e atividade física geral25.

A associação observada nas mulheres entre a atividade física avaliada pelo IPAQ e a filiação religiosa na análise bivariada, que deixou de ser significativa modelo final, pode ser explicada parcialmente pelo fato de que os dados do presente estudo apontaram associação significativa entre religião e escolaridade (p = 0,038), tendo os evangélicos menos anos de estudo.

Esta pesquisa detectou desigualdade na inatividade física no lazer segundo a escolaridade. Este achado concorda com os resultados de outras pesquisas realizadas no Brasil2,4,9,14 e em outros países18,23,25,27. Adultos com melhor nível educacional têm maior acesso ao conhecimento, além de condições materiais de vida que propiciam práticas e hábitos saudáveis.

Na inatividade física aferida pelo IPAQ, foi observada associação direta com o nível educacional, o que em parte pode ser atribuído ao fato de as pessoas com menor escolaridade terem maior prevalência de atividade físicas ocupacionais e de transporte. Inúmeros estudos brasileiros apontam que a inatividade física global é mais prevalente em indivíduos com maior escolaridade1,5,9,11,22. Estudo utilizando o IPAQ em 15 Capitais Brasileiras e no Distrito Federal, detectou apenas no Rio de Janeiro e em Porto Alegre prevalências maiores de indivíduos inativos nos estratos de menor escolaridade15. Pesquisas em países europeus têm verificado o inverso: em Gênova19 e em 15 países da União Européia20, ser inativo de maneira global foi mais frequente nos indivíduos de menor nível socioeconômico.

A associação detectada entre ocupação laboral e inatividade física no lazer em ambos os sexos também foi observada em adultos suíços, em que a inatividade física no lazer foi maior entre os trabalhadores com menor qualificação28; e em adultos australianos29 e portugueses25 com atividades ocupacionais incluídas na categoria "blue collar" (de menor qualificação). Alguns estudos detectaram associação entre atividades físicas de lazer e número de horas trabalhadas18,29, constatando que os segmentos sociais desfavorecidos disporiam de menos tempo ou energia para atividades físicas de lazer30. Poucos recursos psicossociais e baixa participação em grupos sociais poderiam explicar também a inatividade física no lazer em adultos socioeconomicamente desfavorecidos28. Adultos de estratos desfavorecidos tendem a morar mais distante do local de trabalho, residir em áreas menos seguras, utilizar transporte coletivo, gastar mais tempo com o deslocamento e fazer mais horas extras, tendo desta forma menos tempo para atividades de lazer29. Melhorias das condições gerais de vida e investimento em capital social são considerados fatores essenciais para a redução de comportamentos não saudáveis como a inatividade fisica28.

Possuir carro foi associado à inatividade física global entre os homens após ajuste para nível socioeconômico no modelo final. A posse de carro desestimularia a atividade física como meio de transporte31. A atividade física realizada como deslocamento merece destaque nas políticas de promoção da saúde. A importância de se promover o transporte ativo através de caminhada ou uso de bicicleta, diminuindo a utilização de carro, incrementa não só a saúde do indivíduo, mas também a do planeta reduzindo a emissão de poluentes32.

Nas modalidades esportivas e de exercícios praticadas, verificou-se que 16,5% dos adultos praticavam caminhadas, prevalência semelhante à de 15% observada em estudo realizado em Pelotas - RS. A caminhada é a atividade física mais prevalente tanto em países em desenvolvimento quanto desenvolvidos por ser de baixo custo e acessível para a população em geral11. Na presente pesquisa, nos maiores níveis de escolaridade, a prevalência de caminhada atingiu cerca de 25% em ambos os sexos.

Quase todas as atividades físicas analisadas foram mais praticadas pelos grupos de maior escolaridade, concordando com os achados de outros autores18,30, com exceção do ciclismo em ambos os sexos e do futebol entre os homens. O futebol foi o esporte mais praticado pelo sexo masculino, atingindo prevalência de 20,9%, concordando assim com o estudo de Séclen-Palacin e Jacoby18, que também detectou maiores prevalências de prática de futebol nos estratos de menor nível socioeconômico. O futebol ultrapassa a questão socioeconômica por ser cultural e midiaticamente muito difundido no Brasil.

Praticar esportes é uma opção que requerer equipamentos e espaços físicos específicos, muitas vezes não acessíveis à parcela da população com menor poder aquisitivo30.

Com relação às limitações deste estudo, aponta-se para o fato de o inquérito não trazer informações mais detalhadas sobre outros fatores de influência como os sócio-ambientais, existência de espaços públicos adequados e seguros próximos da moradia, entre outros. Também a avaliação da inatividade física foi feita por meio de informação auto-referida, que poderia superestimar a atividade física por ser esta uma prática considerada desejável28, como as atividades domésticas entre as mulheres, por exemplo. Sendo um estudo de corte transversal, a possibilidade de causalidade reversa impede constatações de causa e efeito. Vale salientar que os indivíduos que praticam atividade física de lazer apenas uma vez por semana não foram considerados inativos, embora possam ser insuficientemente ativos (entre estes, cerca de 10% apenas não atingiram as recomendações de atividade física feitas pelo IPAQ).

Em relação às vantagens do estudo, relaciona-se o fato de abranger diferentes áreas do Estado de São Paulo, de utilizar um questionário padronizado para atividade física global (IPAQ), sendo o instrumento mais utilizado no Brasil17, e de se basear em amostra de tamanho suficiente para permitir a estratificação por sexo e possibilitar que desigualdades relevantes quanto à inatividade física possam ser detectadas. Outra qualidade do estudo é analisar tanto a atividade em contexto global quanto a atividade na situação de lazer, pois apresentam padrões epidemiológicos distintos. As diferenças entre as prevalências nestes dois contextos, assim como os fatores associados, demonstram a importância do seu estudo em separado25,27. As altas prevalências de inatividade física encontradas neste e nos estudos citados, demonstram a relevância da promoção de estilos de vida ativos18. Entender os fatores associados à inatividade física pode contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas e de programas de intervenção eficazes na redução das iniquidades sociais29. Diante destas constatações, são necessárias estratégias em saúde pública visando difundir e estimular a adesão à prática de atividades físicas levando em consideração tanto os diferenciais por sexo e socioeconômicos, como em relação ao contexto em que podem ser praticadas. Estimular a população a desenvolver e manter o hábito de praticar atividade física regular desde as idades mais jovens deve ser meta dos programas de promoção da saúde24. Maior oferta de espaços físicos e propiciar atividades físicas que possam ser desenvolvidas em grupos são estratégias importantes na diminuição da inatividade fisica28, especialmente nos subgrupos populacionais socialmente menos favorecidos.

Agradecimentos: à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) - pela bolsa de doutorado (processo nº 07/50164-9), pelo financiamento da pesquisa - Projeto de Políticas Públicas (processo nº 88/14099) e à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo pelo financiamento do trabalho de campo. À Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde pelo suporte financeiro para a análise dos dados através do Centro Colaborador em Análise de Situação de Saúde da FCM/UNICAMP (convênio 2763/2003). Ao CNPq, pelas bolsas de produtividade dos autores Marilisa Berti de Azevedo Barros, Chester Luiz Galvão César e Moisés Goldbaum.

 

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Correspondência:
Luane Margarete Zanchetta
Departamento de Medicina Preventiva e Social
Faculdade de Ciências Médicas
UNICAMP
Caixa postal 6111
Campinas, SP CEP 13083-970
E-mail: luanemz@fcm.unicamp.br

Recebido em: 26/10/09
Versão final reapresentada em: 27/05/10
Aprovado em: 29/06/10

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