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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.13 no.4 São Paulo Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2010000400011 

ARTIGO ESPECIAL

 

Influência de fatores socioeconômicos, comportamentais e nutricionais na insatisfação com a imagem corporal de universitárias em Florianópolis, SC

 

 

Larissa da Cunha Feio Costa; Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos

Programa de Pós-Graduação em Nutrição do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo objetivou estimar a prevalência de insatisfação com a imagem corporal e testar a associação com fatores socioeconômicos, comportamentais e nutricionais em universitárias ingressantes de uma universidade pública em Florianópolis, SC. A insatisfação com a imagem corporal foi investigada por meio do Body Shape Questionnaire (BSQ-34), em uma amostra de 220 estudantes. O estado nutricional foi investigado por meio do índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura (CC) e percentual de gordura corporal (%GC). As características socioeconômicas (idade, renda familiar mensal e escolaridade dos pais), bem como consumo energético e prática de regimes para emagrecer também foram investigados. Os fatores associados à insatisfação com a imagem corporal foram testados pela regressão de Poisson. A prevalência de insatisfação com a imagem corporal foi de 47,3% (IC 95% 40,7; 53,9). O estado nutricional segundo IMC e a prática de regimes para emagrecer foram as variáveis que se mostraram associadas à insatisfação corporal. Os resultados apontam indicadores de uma elevada prevalência de rejeição da própria forma física entre as universitárias, o que sinaliza a necessidade de ações nutricionais nas universidades, a fim de esclarecer e prevenir atitudes alimentares anormais entre os estudantes.

Palavras-chave: Imagem corporal. Auto-Imagem. Estado nutricional. Estudantes.


 

 

Introdução

O conceito de imagem corporal como um fenômeno psicológico foi inicialmente estabelecido em 1935, pelo psiquiatra austríaco Paul Ferdinand Schilder (1886-1940), como sendo a imagem que o indivíduo tem de seu próprio corpo em sua mente, o que pode explicar a forma com que o corpo é a ele apresentado. Segundo o psiquiatra, a imagem corporal que é formada na mente é estabelecida pelos sentidos, idéias e sentimentos, que na maioria das vezes, são inconscientes. Essa representação é construída e reconstruída ao longo da vida1,2.

Ao longo dos tempos, a imagem de padrão corporal sofreu diversas mudanças, e em alguns momentos históricos pode-se perceber a brusca mudança da figura humana como sendo o tipo ideal. Podemos observar na evolução histórica da figura feminina que a obesidade era vista como padrão de beleza, valorizada e representada nas artes. A partir da década de 1960 inicia-se a busca pelo corpo magro, atlético e por formas definidas3.

Atualmente, preconiza-se que o que é belo é bom e que magreza é sinônimo de beleza, o que faz com que a mesma seja valorizada pela sociedade e seu oposto, a obesidade, seja fortemente rejeitada. Embora os ideais de beleza feminina variem em função dos padrões estéticos adotados em cada época, os estudos mostram que as mulheres têm procurado alterar seus corpos de modo a seguir esses padrões4.

O interesse na insatisfação corporal vem crescendo, motivado, em grande parte, pelo reconhecimento da importância da identificação de alterações na imagem corporal como fundamental para o diagnóstico precoce de Transtornos Alimentares e Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), pois os sintomas isolados destes transtornos precedem sua manifestação completa5.

De acordo com Conti, Frutuoso e Gambardella6:

Os fatores sociais, influências socioculturais, pressões da mídia e a busca incessante por um padrão de corpo ideal associado às realizações e felicidade estão entre as causas das alterações da percepção da imagem corporal, gerando insatisfação em especial para indivíduos do sexo feminino.

As intensas alterações biológicas e a instabilidade psicossocial da adolescência associadas com mudanças referentes ao ingresso no meio universitário, como novas relações sociais e adoção de novos comportamentos, podem fazer com que os adolescentes universitários sejam um grupo vulnerável a circunstâncias de risco à saúde. A proximidade com a vida adulta pode proporcionar oportunidades finais para implementar atividades visando prevenir problemas de saúde7,8.

Devido à importância deste tema e à necessidade de estudos que busquem associação de fatores com a imagem corporal, objetivou-se estimar a prevalência de insatisfação com a imagem corporal e testar sua associação com a idade, renda, escolaridade dos pais, atividade física, índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura (CC), percentual de gordura corporal (%GC), consumo energético e prática de regimes para emagrecer em universitárias ingressantes de uma universidade pública em Florianópolis, SC.

 

Métodos

Trata-se de um estudo transversal, exploratório, realizado com uma amostra probabilística composta por 220 universitárias ingressantes nos 55 cursos de graduação oferecidos pela Universidade Federal de Santa Catarina, no primeiro semestre de 2006, no município de Florianópolis, SC. A coleta de dados foi realizada durante o período de 05 de junho a 08 de dezembro de 2006.

O presente estudo integrou um projeto de pesquisa que buscou identificar a prevalência de comportamentos alimentares anormais9,10. Para tanto, o cálculo da amostra mínima utilizou como um dos parâmetros a prevalência de sintomas de anorexia nervosa. Os parâmetros utilizados foram: 95% de confiança, erro amostral de 2,85 pontos percentuais e prevalência de sintomas de anorexia nervosa de 5,5%11. Desta forma, obteve-se uma amostra mínima de 212 alunas. A fim de compensar eventuais perdas ou recusas adicionou-se 20% ao valor da amostra mínima, totalizando 254 alunas. A seleção das alunas foi realizada por meio de seleção sistemática, através de listagem única, em ordem alfabética incluindo todas as universitárias ingressantes no referido ano.

Com o objetivo de oferecer treinamento à equipe de pesquisa, tornando-a mais experiente para as atividades de campo, testar os instrumentos e identificar possíveis dificuldades durante a etapa de coleta de dados, realizou-se um estudo piloto da pesquisa, o qual propiciou também a definição do número mínimo de membros da equipe de pesquisa necessário para o período de coleta de dados, a sequência de atividades desenvolvidas, o tempo necessário para a avaliação das universitárias, e os ajustes necessários no questionário de coleta de dados. As medidas antropométricas foram aferidas pelas autoras principais da pesquisa, devidamente treinadas por um profissional de Educação Física. Alunas do curso de Nutrição que não cursavam o primeiro semestre foram avaliadas, tornando possível a adequação da tomada de medidas antropométricas.

Para a coleta das variáveis socioeconômicas, comportamentais e insatisfação com a imagem corporal utilizou-se um questionário auto-aplicável, onde as estudantes foram orientadas sobre o correto preenchimento do mesmo.

Para evitar um possível viés de seleção amostral na pesquisa optou-se por não substituir as alunas que se recusaram a participar ou que não compareceram à coleta de dados.

Variáveis independentes

Foram investigadas as seguintes variáveis: idade; escolaridade materna e paterna em anos de estudo completos; renda familiar mensal; prática de atividade física; consumo alimentar, prática de regimes para emagrecer e medidas antropométricas.

Variáveis socioeconômicas e comportamentais

A idade das alunas foi calculada em anos, com base na subtração entre a data de coleta de dados e a data de nascimento. Para análise de associação as alunas foram alocadas em dois grupos etários, segundo critérios do Ministério da Saúde12: adolescentes com idade menor ou igual a 19 anos e adultas com idade igual ou maior que 20 anos.

As variáveis de escolaridade materna e paterna foram coletadas em anos de estudo, sendo categorizadas em: 1 a 8 anos de estudo; 9 anos ou mais de estudo completos.

A renda familiar mensal líquida informada pelas universitárias foi coletada em valor absoluto (em Reais) e utilizada apenas para caracterização geral da amostra. A fim de facilitar a análise dos dados, a renda familiar mensal foi convertida em salários mínimos e categorizada em: 1 a 3 salários mínimos; maior que 3 a 6 salários mínimos; e maior que 6 salários mínimos.

A prática de regime para emagrecer foi coletada a partir da pergunta "Faço regimes para emagrecer?", presente no Teste de Atitudes Alimentares13, que possibilitava respostas para as seguintes freqüências: nunca; raramente; às vezes; frequentemente; muito frequentemente; e sempre. As alunas foram agrupadas em: não pratica, quando as opções marcadas foram nunca, raramente ou às vezes; e, pratica, quando as opções marcadas foram frequentemente, muito frequentemente ou sempre.

A prática de atividade física foi coletada a partir das opções "não pratico", "pratico menos de três vezes na semana" e "pratico mais de três vezes na semana". Para fins de análise, categorizou-se em: não praticam e praticam atividade física.

Consumo energético

A avaliação do consumo energético (energia em quilocalorias) foi obtida a partir da aplicação de inquérito recordatório alimentar de 24 horas. Os dados de consumo alimentar foram processados no software Nutwin14, onde foi obtido o consumo diário de energia.

Os resultados do consumo energético foram agrupados em duas categorias, de acordo com as Recommended Dietary Allowances15 para o sexo feminino na faixa etária de 15 a 50 anos. Consumo energético < 2.200 kcal; consumo energético > 2.200kcal.

Antropometria

Foram aferidas as medidas de peso, estatura, circunferência da cintura, e dobras cutâneas bicipital, tricipital, subescapular e suprailíaca. A coleta destas medidas seguiu as recomendações de Lohman, Roche e Martorell16. No momento da coleta de dados, as estudantes eram orientadas a retirar os sapatos, cintos, casacos pesados, jaquetas e blusas grossas.

A coleta das medidas de peso, estatura e circunferência da cintura foram obtidas em única tomada, enquanto as dobras cutâneas tricipital, bicipital, subescapular e suprailíaca foram obtidas em três momentos distintos, realizadas por uma das pesquisadoras principais, que foi devidamente treinada por um profissional da área de educação física a fim de evitar a variabilidade entre as medidas, sendo utilizada a média entre as três medidas aferidas.

O peso foi mensurado por meio de balança eletrônica com capacidade para 180 kg e precisão de 100 g. A estatura foi obtida com auxílio de antropômetro portátil com escala bilateral de 35 até 213 cm e resolução de 0,1 cm. A Circunferência da Cintura (CC) foi aferida por meio de fita métrica inextensível com precisão de 01 milímetro. As dobras cutâneas foram aferidas com o adipômetro Lange científico de precisão de 01 milímetro.

O peso e a estatura das universitárias foram empregados para o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), diagnosticado a partir do critério recomendado pela World Health Organization17, que considera baixo peso valores de IMC < 18,5 kg/m², eutrofia IMC entre 18,5 kg/m² e < 25,0 kg/m², sobrepeso IMC entre 25,0 kg/m² e < 30,0 kg/m² e obesidade IMC > 30,0 kg/m².

A circunferência da cintura (CC) foi utilizada por se tratar de uma medida sensível e específica para elevada adiposidade abdominal, estando relacionada a complicações metabólicas da obesidade em crianças e adolescentes18-21. Foram seguidos os critérios recomendados pela WHO16, de ausência de risco CC < 80cm e risco de obesidade abdominal CC > 80 cm.

As medidas de dobras cutâneas bicipital, tricipital, subescapular e suprailíaca foram utilizadas para estimar o percentual de gordura corporal (%GC), a partir da fórmula de Durnin e Womersley22, e a classificação seguiu os critérios propostos Lohman23, que considera: desnutrição %GC < 8; eutrofia %GC > 8 e < 32; obesidade %GC > 32.

Variável dependente: Imagem corporal

A presença de insatisfação com a imagem corporal foi investigada por meio do Body Shape Questionnarie (BSQ-34) - versão traduzida para o Português por Cordás24. As universitárias que pontuaram de 0 a 80 pontos foram classificadas como satisfeitas com a imagem corporal; 81 a 110 pontos preocupação leve; 111 a 140 preocupação moderada e 141-204 pontos foram classificadas como preocupação severa. Posteriormente a variável foi dicotomizada em satisfeitas, aquelas que atingiram de 0 a 110 pontos; e insatisfeitas aquelas com pontuação acima de 111 pontos, para fins de análise estatística.

O Body Shape Questionnaire (BSQ) é um teste auto-aplicável, cujo primeiro estudo de validação mostrou-se satisfatório para avaliar as preocupações com a imagem corporal, autodepreciação devido à aparência física e a sensação de estar gorda, tendo como parâmetro a subescala de insatisfação corporal do Eating Disorder Inventory (EDI) com a pontuação total do EAT-2625.

Rosen et al.26 encontraram um coeficiente de confiabilidade significante de 0,88 para todos os 34 itens das características psicométricas do BSQ-34. Resultados semelhantes foram observados no Brasil, após a validação do instrumento na língua portuguesa5.

Análise estatística

Os cálculos estatísticos foram realizados com o apoio dos programas Epiinfo versão 3.5.1 e STATA versão 9.0. A fim de caracterizar a amostra foi realizada a descrição das variáveis de interesse do estudo com base nas medidas de tendência central e dispersão (média e desvio-padrão). A variável insatisfação com a imagem corporal é a variável dependente ou desfecho deste estudo. As variáveis independentes são: idade, renda familiar mensal, escolaridade materna e paterna, prática de atividade física, índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura (CC), percentual de gordura corporal (%GC), consumo energético e prática de regimes para emagrecer. O teste Qui-quadrado de Pearson foi aplicado para selecionar as variáveis independentes associadas ao desfecho. Para testar a associação entre insatisfação com a imagem corporal e as variáveis independentes foi utilizada a regressão múltipla de Poisson cuja medida de associação obtida é a razão de chances (OR) com intervalo de confiança de 95%. Considerou-se uma significância de 5%, ou seja, p < 0,05. As taxas de prevalência e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) foram calculadas utilizando-se padronização direta.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os dados foram coletados após o consentimento dos coordenadores dos cursos, bem como das estudantes selecionadas, tanto adolescentes quanto adultas. Sendo-lhes assegurado o sigilo sobre as informações pessoais.

 

Resultados

A taxa de resposta obtida no presente estudo foi de 86,6%. A prevalência de insatisfação com a imagem corporal encontrada nas universitárias ingressantes foi de 47,3% (IC 95%: 40,7 - 53,9), considerando as categorias leve (27,3%), moderada (15,5%) e severa (4,5%).

As características gerais da amostra estão apresentadas na Tabela 1. Observa-se que a média de idade das universitárias foi de 20,2 anos, com desvio-padrão de 2,75. Sendo encontradas 57,7% das universitárias adolescentes (menores de 20 anos) e 42,3% adultas (com 20 anos ou mais).

 

 

A média de escolaridade materna e paterna em anos de estudos completos equiparou-se a 12 anos. A renda familiar mensal apresentou média de R$ 4.469,00, porém observou-se valores mínimo e máximo discrepantes de R$ 450,00 e R$ 26.000,00, respectivamente. O consumo energético médio das universitárias foi de 1.780,86 kcal, mostrando grande variação entre o valor mínimo e máximo (331 kcal e 5.325 kcal, respectivamente). Quando realizada a categorização, observou-se que 79% das universitárias obtiveram consumo menor que 2.200 kcal no dia.

A Tabela 2 apresenta a distribuição e associação das variáveis independentes com o desfecho (insatisfação com a imagem corporal). Observou-se elevado índice de descontentamento com a imagem corporal tanto em universitárias eutróficas como naquelas que se apresentaram acima do peso. As alunas com baixo peso (IMC < 18,5 kg/m²) apresentaram significativamente maior prevalência de satisfação com a imagem corporal (91,4%), enquanto as alunas com obesidade (IMC > 30 kg/m²) apresentaram significativamente maior prevalência de desagrado com a própria imagem corporal (85,7%) (p < 0,0001).

 

 

A prática de regimes para emagrecer frequentemente ou muito frequentemente apresentou prevalência significativamente maior no grupo das alunas insatisfeitas (96,8%) com a imagem corporal, quando comparado ao grupo de alunas satisfeitas com a imagem corporal (3,2%) (p = 0,004) .

A análise de regressão múltipla de Poisson mostrou que a insatisfação com a imagem corporal foi significativamente maior entre as universitárias obesas, as que praticam regimes para emagrecer, e aquelas com percentual de gordura corporal (%GC) elevado. Entretanto, esta última associação perdeu a significância estatística na análise ajustada (Tabela 3). As universitárias eutróficas apresentaram prevalência 5,3 vezes maior de insatisfação com a imagem corporal, enquanto as universitárias com sobrepeso apresentaram prevalência 4,5 vezes maior, e as obesas apresentaram prevalência 6,7 vezes maior do que as com baixo peso. As estudantes que praticam regimes para emagrecer apresentaram prevalência 2 vezes maior de insatisfação corporal.

 

 

Discussão

A prevalência de algum grau de insatisfação com a imagem corporal observada neste estudo (47,3%) apresentou-se superior àquelas encontradas pela maioria dos estudos nacionais, nos quais foi empregado o BSQ-34 para identificação da insatisfação com a imagem corporal27-29. A prevalência encontrada nestes estudos variou entre 18,8%28 e 46,9%27. Somente um estudo foi encontrado com prevalência maior (50%), cujo instrumento empregado tenha sido o BSQ-34, estudo este realizado por Moreira et al.30 com universitários da Bahia. Foram encontrados outros estudos com prevalências maiores de insatisfação corporal, porém, empregando outros instrumentos de avaliação, como, por exemplo, a Escala de figuras de silhuetas31,32.

No município de Florianópolis (SC), em estudo realizado com estudantes do sexo feminino entre 10 e 19 anos de escolas públicas do município, foi encontrada prevalência de 18,8% de insatisfação com a imagem corporal28.

O estado nutricional, segundo IMC e a prática de regimes para emagrecer, foram as variáveis que se mostraram associadas à imagem corporal, o que pode demonstrar a busca das universitárias pela adequação corporal, cujas motivações podem variar desde a busca pela saúde quanto a adequação aos padrões sociais de beleza. Este resultado merece atenção, uma vez que a insatisfação com a imagem corporal, bem como a prática alimentar restritiva, fazem parte dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos de comportamento alimentar33.

Resultados semelhantes de associação entre a insatisfação com a imagem corporal e o estado nutricional, segundo IMC, foram encontrados em outros estudos5,30,33,34.

Moreira et al.30 avaliaram 163 estudantes do primeiro ano do curso de Medicina e encontraram associação entre a insatisfação com a imagem corporal e o estado nutricional segundo IMC. As universitárias com IMC normal apresentaram maiores escores no BQS-34 do que as universitárias com IMC baixo (p < 0,015).

Bosi et al.33 também encontraram associação entre a insatisfação com a imagem corporal e o IMC ao avaliarem 193 universitárias do curso de Nutrição de 17 a 32 anos. Observou-se que 82,9% das universitárias que apresentaram resultado do BSQ moderado/grave eram eutróficas e 11,4% estavam acima do peso (sobrepeso/obesidade) (p = 0, 026).

Branco, Hilário e Cintra34 encontraram associação entre a insatisfação com a imagem corporal e o IMC (p < 0, 001). A insatisfação corporal foi encontrada também em estudantes eutróficos, mas especialmente naqueles com sobrepeso e obesidade. Além disso, os autores correlacionaram a autopercepção corporal com o estado nutricional e detectaram a superestimação feminina. Aproximadamente 39% das meninas eutróficas se consideravam com sobrepeso e 47% daquelas nesta condição se consideravam obesas. Entre os meninos, também houve uma distorção da realidade, porém, inversamente, 26% daqueles com sobrepeso se achavam eutróficos e 46% dos obesos se achavam somente com sobrepeso ou eutrofia.

Coqueiro et al.32 não encontraram associação entre a insatisfação com a imagem corporal e o IMC, porém, por meio da avaliação de 256 universitários em Florianópolis, encontraram que dos 79% de estudantes insatisfeitos com a imagem corporal, 49,2% apresentaram desejo de reduzir o tamanho da silhueta, enquanto 26,6% desejavam aumentá-la.

Kakeshita e Almeida35 avaliaram 106 universitários de ambos os sexos em Ribeirão Preto, e os resultados apontaram que mulheres eutróficas ou com sobrepeso (87%) superestimaram seu tamanho corporal, enquanto mulheres obesas e homens independentes do IMC (73%) subestimaram o tamanho corporal. As diferenças devido ao gênero foram estatisticamente significativas.

Estes resultados chamam atenção pelo fato de que não somente as estudantes que se apresentaram acima do peso, mas a maioria das eutróficas se mostrou insatisfeita com seu corpo, o que aponta uma tendência das adolescentes e adultas jovens para quererem alcançar ou ficar com um peso abaixo do recomendado. E muitas vezes o caminho encontrado para tal objetivo é a prática de dietas restritivas.

Cicco et al.36 avaliaram 160 mulheres em São Paulo e identificaram que 80% das adultas e 50% das adolescentes com baixo peso consideravam seu peso normal, e 40% das adolescentes com baixo peso consideravam-se gordas ou muito gordas. A utilização de métodos para emagrecer se mostrou comuns no grupo das mulheres que se consideravam gordas, cujos métodos mais utilizados pelas adolescentes eram dietas de revistas, programas de TV e fórmulas indicadas por alguém, enquanto nas adultas 46,2% referiram utilizar algum método de purgação.

O ato de restringir os alimentos tem início geralmente na adolescência, em resposta a uma má aceitação das mudanças corporais, principalmente do peso, e associado a fatores psicológicos individuais e familiares e ao forte apelo sociocultural do culto à magreza, que podem predispor a um transtorno alimentar37.

De acordo com Campagna e Souza38, a falta de apoio social para lidar com as transformações próprias da juventude, bem como a extrema valorização da aparência veiculada pelos meios de comunicação faz com que os modelos de beleza sejam internalizados pelos jovens, sem ser questionados, como algo natural do sujeito.

A veiculação ou produção de notícias, representações e expectativas nos indivíduos com propagandas, informações e noticiários geram um conflito interno, onde de um lado há o estímulo para o uso de produtos dietéticos e práticas alimentares para emagrecimento e, de outro lado, o consumo de lanches tipo fast food, práticas alimentares que acabarão gerando obesidade. O corpo torna-se então um campo de luta que envolve diferentes saberes, práticas e imaginário social39.

O presente estudo apresenta algumas limitações metodológicas que incluem seu desenho amostral, transversal, que não permite estabelecer uma relação temporal entre as variáveis, e o cálculo amostral ter sido baseado na prevalência de sintomas de anorexia nervosa, o que pode ter subestimado os valores, uma vez que a prevalência de insatisfação com a imagem corporal é maior que os transtornos alimentares. Além disso, utilizou-se o mesmo critério de avaliação nutricional por IMC para as universitárias menores e maiores de 20 anos, para possibilitar a conferência dos mesmos. Tal comparação tem sido encontrada na literatura, sendo utilizada em estudantes que se encontram na fase de adolescência tardia, com seu padrão de estatura definido ou estabilizado para um padrão definitivo ou de adulto28,29,33. Da mesma forma, a Circunferência da Cintura foi utilizada para ambos os grupos, pois apesar de não haver padrão validado nacionalmente para adolescentes, estudos têm utilizado esta medida a fim de comparar a freqüência estimada de distribuição de adiposidade central com adiposidade total em crianças e adolescentes40.

Sugere-se que novos estudos sejam realizados, adotando-se novas variáveis, pois a imagem corporal é uma interação entre vários fatores: biológico, fisiológico, emocional e social. E de grande valia seria a utilização de estudos com intervenções na mudança da percepção da imagem corporal.

Os dados apresentados ressaltam a importância da avaliação da satisfação com a imagem corporal em universitárias, uma vez que a percepção distorcida da imagem corporal pode levar a práticas alimentares inadequadas, podendo causar danos à saúde e rendimento acadêmico das alunas. Ressaltam ainda a necessidade de ações nutricionais nas universidades, a fim de esclarecer e prevenir atitudes alimentares anormais entre os estudantes.

Agradecimentos: Agradecemos a Dorotéia Hofelmann pela colaboração nas análises estatísticas do trabalho e a toda equipe de entrevistadores pela colaboração na realização do trabalho de campo.

 

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Correspondência:
Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos
Departamento de Nutrição
Centro de Ciências da Saúde
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário Trindade, CEP 88040-970 Florianópolis, SC, Brasil.
Email: fguedes@ccs.ufsc.br

Recebido em: 02/09/09
Versão final reapresentada em: 19/08/10
Aprovado em: 01/09/10

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