SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.18 issue3Health information systems and pesticide poisoning at PernambucoHealth risks due to pre-harvesting sugarcane burning in São Paulo State, Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.18 no.3 São Paulo July/Sept. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500030013 

Artigos Originais

Prevalência de problemas auditivos e fatores associados em uma empresa agropecuária do sul do Brasil

Rafael Haeffner I  

Leila Maria Mansano Sarquis II  

Rita Maria Heck III  

Vanda Maria da Rosa Jardim III  

IPrograma de Pós Graduação em Epidemiologia, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

IIFaculdade de Enfermagem, Universidade Federal do Paraná - Curitiba (PR), Brasil

IIIFaculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Pelotas - Pelotas (RS), Brasil

RESUMO

OBJETIVO:

Descrever a prevalência e analisar os fatores associados a problemas auditivos em uma empresa agropecuária.

MÉTODOS:

Foi realizado um estudo de corte transversal, os participantes do estudo foram os trabalhadores de uma empresa agropecuária do sul do Brasil. A força de trabalho da empresa contava com as mais diversas ocupações. O instrumento da pesquisa foi um questionário semiestruturado aplicado por meio de entrevistas.

RESULTADOS:

Dos 326 trabalhadores da empresa foram entrevistados 273 (83,8%) e foi encontrada uma prevalência de problemas auditivos de n = 42 (15,4%) entre os participantes da pesquisa. Os problemas auditivos foram associados com níveis mais baixos de escolaridade e ao grupo ocupacional operacional, técnico assistencial e serviços gerais. As condições de saúde autorreferidas com associação para problemas auditivos foram depressão e irritação ou nervosismo. As exposições ocupacionais associadas aos problemas auditivos foram barulho, pó, vibrações, óleos e solventes e gases tóxicos.

CONCLUSÃO:

Houve uma prevalência intermediária de problemas auditivos em relação a outras pesquisas. Observou-se a necessidade da implantação de estratégias que visem à prevenção de problemas auditivos que contemplem principalmente os aspectos modificáveis, como a utilização de equipamento de proteção individual, e melhorias nas condições, organização e ambiente de trabalho.

Palavras-Chave: Perda auditiva; Exposição ocupacional; Saúde do trabalhador; Epidemiologia; Doenças dos trabalhadores agrícolas; Compostos químicos

INTRODUÇÃO

A globalização e a expansão das economias no mundo geram impacto sobre a saúde dos trabalhadores, pois impõem alta produtividade e cargas de exposições ocupacionais adversas aos trabalhadores, especialmente ao sistema auditivo. A audição pode ser considerada um dos sentidos mais importantes, sendo um dos principais responsáveis pela comunicação, e gera o desenvolvimento psicossocial das pessoas1. Os problemas auditivos serão um dos dez problemas de saúde mais comuns no mundo até 20302.

Os problemas auditivos, em especial os que podem ser relacionados ao trabalho, devem ser considerados no âmbito da saúde ocupacional, pois a comunicação social prejudicada pode reduzir a produtividade de trabalho, além de comprometer a qualidade do sono dos trabalhadores. É perceptível a importância desse sentido e o grande impacto socioeconômico que esses problemas podem acarretar à sociedade3.

Para os problemas auditivos, pode se citar que são gerados por diversos fatores em associação, sendo multicausal, entre eles ruído ou barulho, ocupação, tempo de trabalho, agentes químicos, solventes, gases tóxicos, entre outros aspectos laborais3 - 6. Tais agravos ainda podem estar associados a outras condições de saúde, como transtornos mentais e do sistema cardiovascular7 - 9. Existem estudos que indicam prevalência de 10 a 15% de pessoas afetadas por problemas auditivos na população em geral2. Parte desses estudos analisam ainda os problemas de audição em relação ao sexo e à idade.

As pesquisas que analisam os problemas auditivos de origem ocupacional sobre vários aspectos são de grande relevância, uma vez que estudos desse tipo são escassos no Brasil e a força de trabalho aumenta no país, que hoje tem aproximadamente 96 milhões de trabalhadores10. O objetivo deste estudo foi descrever a prevalência e analisar os fatores associados a problemas auditivos em uma empresa agropecuária do sul do Brasil.

MÉTODOS

Este estudo é uma abordagem quantitativa, observacional, com delineamento de corte transversal. Faz parte de um projeto de pesquisa da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul. Foi realizado em uma empresa agropecuária de médio porte, localizada no sul do Brasil, e possui vínculo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os participantes do estudo eram todos trabalhadores da referida empresa, com idade a partir de 18 anos. Para inclusão dos participantes foi seguido o critério: ser trabalhador efetivo da empresa. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado pelos participantes da pesquisa. A população de trabalhadores agropecuários compreendeu as áreas: assistência administrativa, supervisão/gerenciamento, operacional, técnico científico, técnico assistencial, pesquisa e serviços gerais. Os setores foram divididos em apoio, pesquisa, laboratório e campo.

Uma breve descrição da composição dos grupos ocupacionais: assistência administrativa (secretariado, auxiliar e agente administrativo e assessores de chefias); supervisão/gerenciamento (supervisores, gerentes e gestores da empresa); operacional (operadores de máquinas e veículos, operadores em geral, motoristas, porteiros, vigilantes, telefonistas, campeiro e "trabalhadores braçais"); pesquisa (pesquisadores das diversas áreas da empresa); técnico científico (trabalhadores com formação acadêmica); técnico assistencial (trabalhadores de nível médio com curso técnico em alguma área de atuação); serviços gerais (trabalhadores responsáveis pela limpeza e higienização da empresa).

Quanto aos setores, foram divididos em setor de apoio (setores referentes às áreas de administração, gestão, economia, financeira, comunicação, marketing, cultura, compras e recursos humanos da empresa); setor de pesquisa (referente às diferentes áreas de formação envolvidas com a pesquisa agropecuária como a pesquisa animal e vegetal, melhoramento genético, agroecologia, climatologia e agrometeorologia); setor de laboratórios (referente aos mais distintos laboratórios de análises das pesquisas da empresa); setor de campo (engloba todo o trabalho realizado no campo, referente ao tratamento de animais em pesquisa; plantio, cultivo e colheita dos espécimes vegetais pesquisados).

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi multidimensional, semiestruturado com questões abertas e fechadas, composto por questões socioeconômicas e demográficas, sobre estilo de vida, ocupação, organização e condições de trabalho, exposições/cargas ocupacionais, percepção de morbidade geral e percepção de morbidade relacionada com o trabalho11. As entrevistas foram realizadas na empresa durante o turno de trabalho com prévia autorização da empresa. Para a coleta de dados foram capacitados acadêmicos de enfermagem para as entrevistas. O período da coleta dos dados foi compreendido entre os meses de junho e outubro de 2008. No caso dos trabalhadores que não se encontravam nas dependências da empresa no momento das entrevistas, houve pelo menos outras três tentativas para abordagem desses trabalhadores.

Após o termino da coleta de dados foram realizados procedimentos como a correção dos questionários e o controle de qualidade das entrevistas. Foi construído um banco de dados com as informações coletadas através dos questionários aplicados. Os dados foram inseridos por meio de dupla digitação independente, utilizando-se o software Epi Info versão 6.04. Após a verificação e o controle de erros e inconsistências, a análise dos dados foi realizada no software STATA versão 12.

Foram analisadas variáveis dos tipos qualitativas dicotômicas, politômicas, e contínuas. As variáveis analisadas foram: sexo; idade/faixa etária (até 44 anos, 45 - 50 anos, e a partir de 51 anos); nível de escolaridade (ensino fundamental, ensino médio, ensino superior e ensino superior com pós-graduação). Os grupos ocupacionais, setores de trabalho vigentes na empresa, tempo de trabalho na ocupação (até 72 meses, 73 - 240 meses, e a partir de 241 meses) também foram analisados. O agravo ocupacional problemas auditivos, as exposições decorrentes do processo e organização do trabalho, e as comorbidades foram norteadas pelas seguintes questões: O Sr.(a) acha que o seu trabalho costuma lhe causar dificuldade de ouvir/zumbido (sim/não)?; O Sr.(a) teve problemas auditivos nos últimos 30 dias (sim/não)?; Em seu trabalho o Sr.(a) enfrenta as seguintes condições (sim/não)? (barulho/ruído, exposição ao pó, vibrações, utilização de óleos e solventes no trabalho, exposição a fumaça ou gazes tóxicos); O Sr.(a) acha que o seu trabalho costuma lhe causar irritação ou nervosismo (sim/não)?; O Sr.(a) tem alguma destas doenças (sim/não)? (depressão, insuficiência cardíaca congestiva [ICC], arritmia cardíaca).

Para a análise dos dados houve a utilização de frequência absoluta e relativa para as variáveis socioeconômicas, demográficas e da organização de trabalho, e ainda calculado o intervalo de confiança de 95% (IC95%) para o agravo ocupacional problemas auditivos relacionados ao trabalho. Para a variável idade e tempo de trabalho na função foram calculados média, mediana, desvio padrão, valor máximo e mínimo.

Foi realizado o cálculo da razão de prevalência (RP) para obtenção da medida de efeito para associação12 com IC95% entre a variável dependente (problemas auditivos relacionados ao trabalho autorrelatado) e as variáveis independentes de exposições ocupacionais (barulho; exposição ao pó; vibrações; utilização de óleos e solventes no trabalho; exposição a gazes tóxicos). A RP de problemas auditivos foi realizada ainda com outros estados de saúde ou comorbidades, como irritação ou nervosismo relacionado ao trabalho; depressão autorreferida; ICC; arritmia cardíaca; considerando significativo p < 0,05.

Após a análise bruta, foi realizada a análise ajustada com a regressão de Poisson13 das variáveis de exposição ocupacional e comorbidades citadas para as variáveis com potencial fator de confusão para o desfecho, problemas auditivos, a variável sexo, e especialmente a idade por causa da presbiacusia que pode ocorrer em faixas de idades mais avançadas14, considerando significativo p < 0,05 e foi descrito o IC95%. Foram mantidas no modelo multivariado as variáveis que na análise bruta obtiveram p < 0,20.

O teste do χ2 de Pearson foi utilizado para comparar a diferença de proporção de problemas auditivos quanto ao sexo, faixa etária, nível de escolaridade, problemas auditivos nos últimos 30 dias, grupos ocupacionais, setores de trabalho dos trabalhadores e o tempo de trabalho na ocupação, considerando significativo p < 0,05.

O projeto de pesquisa foi enviado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, em conformidade com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), tendo o parecer favorável sob o nº 011/2008 no dia 18 de abril de 2008.

RESULTADOS

No período das entrevistas a empresa contava com 326 trabalhadores, dentre os quais 10 estavam afastados para aperfeiçoamento profissional e viagens técnicas, 8 em licença para tratamento de doença e 4 estavam de férias, totalizando 304 trabalhadores que exerciam atividades nas dependências da empresa no período de coleta de dados. Entre as perdas e recusas participaram desta pesquisa 273 (83,8%) trabalhadores. Nos resultados encontrados na Tabela 1 percebe-se, quanto às características sociodemográficas da referida empresa, a predominância do sexo masculino (79,1%). A média de idade dos trabalhadores foi de 47,6 anos, a mediana de 49 anos, o desvio padrão (DP) de 8,2 anos, a idade mínima de 19 e a máxima de 69 anos. Quase um terço dos trabalhadores (27,8%) tem pós-graduação para variável escolaridade. E a média de trabalho na função foi de 167,3 meses, a mediana de 132 meses, o DP de 127,2 meses, o tempo mínimo de 1 mês e o máximo de 624 meses na função (Tabela 2).

Tabela 1. Prevalência de problemas auditivos e distribuição dos trabalhadores conforme sexo, faixa etária, nível de escolaridade e problemas auditivos nos últimos 30 dias (n = 273), sul do Brasil, 2008. 

Variável Total
n (%)
Problemas auditivos Valor p
Sim
n (%)
Não
n (%)
Sexo
Masculino 216 (79,1) 37 (17,2) 178 (82,8)  0,127*
Feminino 57 (20,9) 5 (8,9) 51 (91,1)
Faixa etária
Até 44 anos 83 (30,4) 12 (14,6) 70 (85,4)  0,872*
45 aos 50 anos 90 (33,0) 13 (14,6) 76 (85,4)
A partir de 51 anos 100 (36,6) 17 (17,0) 83 (83,0)
Escolaridade
Ensino fundamental 70 (25,7) 12 (17,1) 58 (82,9)  0,011*
Ensino médio 69 (25,4) 18 (26,9) 49 (73,1)
Ensino superior 56 (20,6) 6 (10,7) 50 (89,3)
Pós-graduação 77 (28,3) 6 (7,8) 71 (92,2)
Registros perdidos 1
Problemas auditivos nos últimos 30 dias
Sim 20 (7,4) 18 (42,9) 2 (0,9) < 0,001*
Não 251 (92,6) 24 (57,1) 227 (99,1)
Registros perdidos 2

*Teste do ?2 de Pearson.

Tabela 2. Prevalência de problemas auditivos e distribuição dos trabalhadores conforme as variáveis de grupo ocupacional, setor de trabalho e tempo de trabalho na função (n = 273), sul do Brasil, 2008. 

Variável Total
n (%)
Problemas auditivos Valor p
Sim
n (%)
Não
n (%)
Grupo ocupacional
Assistência administrativa 29 (10,7) 1 (3,6) 27 (96,4)  0,013*
Supervisão/gerenciamento 18 (6,6) 2 (11,1) 16 (88,9)
Operacional 57 (20,9) 14 (25,0) 42 (75,0)
Pesquisa 67 (24,6) 4 (6,0) 63 (94,0)
Técnico científico 26 (9,6) 3 (11,5) 23 (88,5)
Técnico assistencial 62 (22,8) 15 (24,2) 47 (75,8)
Serviços gerais 14 (4,8) 3 (23,1) 10 (76,9)
Registros perdidos 2
Setor de trabalho
Apoio 115 (42,9) 20 (17,5) 94 (82,5)  0,422*
Pesquisa 65 (24,3) 6 (9,2) 59 (90,8)
Laboratório 38 (14,2) 7 (18,4) 31 (81,6)
Campo 50 (18,7) 9 (18,4) 40 (81,6)
Registros perdidos 5
Tempo de trabalho na função
Até 72 meses 97 (35,5) 13 (13,5) 83 (86,5)  0,447*
73 a 240 meses 93 (34,1) 18 (19,4) 75 (80,6)
A partir de 241 meses 83 (30,4) 11 (13,4) 71 (86,6)

*Teste do ?2 de Pearson.

A prevalência de problemas auditivos relacionados ao trabalho na empresa foi de 15,4% (IC95% 11,3 - 20,2). Para a variável sexo a diferença entre homens e mulheres para problemas auditivos não foi significativa, o sexo masculino foi mais acometido, com 17,2% (n = 37), e para o sexo feminino foi encontrado 8,9% (n = 5) das trabalhadoras com problemas auditivos. O grupo etário que mais se destacou para problemas auditivos foi a partir de 51 anos (17%). Quanto ao nível de escolaridade, houve diferença significativa (p = 0,011) entre os grupos, sendo que aqueles com ensino fundamental (17,2%) e médio (26,9%) foram os mais atingidos por problemas auditivos relacionados ao trabalho. E 42,9% (n = 18) dos trabalhadores com problemas auditivos relacionados ao trabalho referiram ter tido problemas auditivos nos últimos 30 dias anteriores à entrevista, enquanto apenas 0,9% (n = 2) que não referiram o agravo tiveram problemas auditivos no último mês, com diferença significativa (p < 0,001).

Conforme a Tabela 2, observa-se que houve diferença estatisticamente significativa (p = 0,01) entre os grupos ocupacionais para problemas auditivos relacionados ao trabalho, prevalecendo no grupo operacional (25%), assistencial (24,2%) e serviços gerais (23,1%). Para as demais variáveis descritas nessa tabela não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos em questão. O setor de trabalho em que menos ocorreu o problema foi o da pesquisa (9,2%) e nos outros setores a ocorrência foi semelhante, em torno de 18%. O tempo na função mais referido para problemas auditivos foi de 6 a 20 anos (19,4%).

Na Tabela 3 observa-se que os resultados das exposições ocupacionais e comorbidades que apresentaram associação mais significativa na análise foram: exposição ao barulho/ruído com RP de 4,22 (IC95% 2,02 - 8,82), e gases tóxicos com RP de 3,07 (IC95% 1,67 - 5,66); quanto às condições de saúde se destacou a irritação ou nervosismo gerado pelo trabalho com RP de 2,72 (IC95% 1,47 - 5,04), e depressão com RP de 2,36 (IC95% 1,08 - 5,13). Na análise ajustada com a introdução das variáveis sexo e idade para ICC houve redução da associação em aproximadamente 11%.

Tabela 3. Análise bruta e ajustada para sexo e idade da associação dos problemas auditivos conforme as variáveis das exposições e comorbidades (n = 271), sul do Brasil, 2008. 

Variável Análise bruta Análise ajustada
RP* (IC95%) Valor p RP** (IC95%)  Valor p
Barulho/ruído 4,22 (2,02 – 8,82) < 0,001 4,25 (2,00 – 9,01) < 0,001
2,17 (1,11 – 4,24) 0,023 2,12 (1,09 – 4,15) 0,028
Vibrações 2,72 (1,49 – 4,99)  0,001 2,54 (1,35 – 4,76) 0,004
Utilizar óleos, solventes no trabalho 2,39 (1,29 – 4,44) 0,005 2,38 (1,28 – 4,41) 0,006
Gases tóxicos 3,07 (1,67 – 5,66) < 0,001 3,00 (1,62 – 5,54) < 0,001
Irritação ou nervosismo do trabalho 2,72 (1,47 – 5,04) 0,001 3,09 (1,65 – 5,79) < 0,001
Depressão autorreferida 2,16 (1,00 – 4,68) 0,050 2,36 (1,08 – 5,13) 0,031
Insuficiência cardíaca congestiva 3,12 (1,11 – 8,76) 0,030 2,82 (0,98 – 8,11) 0,054
Arritmia cardíaca 1,92 (0,85 – 4,34) 0,115 1,89 (0,83 – 4,31) 0,126

RP: razão de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%; *bruta; **ajustada por regressão de Poisson.

DISCUSSÃO

Este estudo apresentou uma prevalência de 15,4% (IC95% 11,3 - 20,2) de problemas auditivos e associação principalmente com baixa escolaridade, grupo ocupacional, exposição a ruído e condição de saúde, como irritação gerada pelo trabalho e depressão.

Em outros países do mundo a prevalência de problemas auditivos variou. Na Suíça foi de 31%2 , 15. Na Noruega, em pesquisa realizada com várias ocupações, a prevalência desse problema foi de 16,4%3, nos Estados Unidos foi de 16,1%8, e na Coreia foi de 10%16. Apesar de poucos estudos de problemas auditivos no Brasil, especialmente relacionados ao trabalho, nesse país a prevalência variou bastante, de 5,66 a 45,9% em trabalhadores17 , 18. Em um estudo de base populacional7 foi encontrada a prevalência de 5,21% de problemas auditivos. Outras pesquisas demonstraram taxas de prevalência diferentes das anteriores, uma envolvendo agricultores, na qual a prevalência foi de 15,7%6, e outra, que pesquisou trabalhadores de diversas ocupações submetidos a exposições combinadas de monóxido de carbono, ruído e tabagismo, encontrou 15% de prevalência para déficit auditivo19. Tais resultados corroboram o achado desta pesquisa.

Os problemas auditivos costumam acometer mais o sexo masculino. Conforme pesquisas3 , 15 , 20 - 23, essa atribuição da suscetibilidade relacionada ao gênero masculino para problemas auditivos pode ser explicada devido à função protetora dos estrogênios nas mulheres, sendo o estradiol um importante regulador da audição no sexo feminino15.

Quanto a outras questões sociodemográficas, os níveis inferiores de escolaridade podem ser associados à maior ocorrência de problemas auditivos8. Neste estudo, a maior ocorrência de problemas auditivos foi em níveis inferiores de escolaridade, essa relação se associou de forma significativa (p = 0,011). Isso pode ter ocorrido pelo fato de que os trabalhadores com níveis inferiores de escolaridade eram de ocupações com maiores exposições e consequentemente mais vulneráveis aos problemas auditivos. Outra associação significativa foi dos trabalhadores com problemas auditivos em relação à recorrência de problemas auditivos nos últimos 30 dias, com p < 0,001.

A diferença da prevalência de problemas auditivos em profissionais de um mesmo grupo ocupacional pode ser semelhante, porém quando distintos grupos ocupacionais são comparados, esses dados podem variar, tendo em vista a diferença entre eles para a multiplicidade de exposições ocupacionais e dose resposta à qual cada um está submetido. Os trabalhadores operacionais, técnicos assistenciais e de serviços gerais, operadores de guindaste, mineradores, chapeadores, mecânicos, operadores de tratores, entre outros têm chances mais elevadas de terem problemas auditivos em relação àqueles que exercem profissões administrativas, de docência e pesquisa3 , 18, semelhante aos resultados desta pesquisa.

Em relação ao tempo de trabalho na ocupação, pesquisas1 , 5 , 19 , 24 apontam que na medida em que progride o tempo de trabalho, os trabalhadores apresentam piora da função auditiva. Esse fato é compreensível, pois há maior exposição aos fatores de risco em relação ao menor tempo de trabalho na função. Neste estudo foi observado, em relação ao tempo na função, que os trabalhadores mais acometidos tinham de 6 a 20 anos de trabalho, mas sem associação significativa.

Nesta pesquisa foram encontradas algumas exposições ocupacionais que se destacaram com associação significativa para problemas auditivos do trabalho, como barulho, pó, vibrações, óleos e solventes, gases tóxicos e irritação ou nervosismo causado pelo trabalho. Tendo em conta que os problemas auditivos de origem ocupacional podem ter associação com outras exposições além do ruído25.

O barulho ou ruído em suas diferentes qualidades pode ser nocivo e uma das principais causas ocupacionais de problemas auditivos relacionados ao trabalho, o que foi encontrado em outras pesquisas e corroboram os nossos resultados1 , 5 , 14 , 17 , 22 , 24 , 26 , 27.

A exposição ao ruído excessivo pode modificar histologicamente as células ciliadas da cóclea, ou até mesmo levar à a perda de cílios, entre outros danos vasculares e de neuroestruturas responsáveis pela audição28. No Brasil há normativas para prevenção de doenças relacionadas ao trabalho, como a Norma Regulamentadora 15 (NR-15), que estabelece os parâmetros limites de tolerância para ruído contínuo ou intermitente entre outros riscos laborais, tendo em vista que esse é um dos principais fatores de risco para perda auditiva de origem ocupacional29. A Norma Regulamentadora 6 (NR-6) dispõe sobre a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI), que são um conjunto de dispositivos contra um ou mais riscos ocupacionais. No caso das doenças auditivas provindas do trabalho, um dos principais EPI é o protetor auricular, uma barreira bem efetiva contra ruídos30.

Este estudo demonstrou que a vibração está associada a problemas auditivos, apesar da escassez de estudos que confirmem esse achado. As vibrações, sejam focais em uma região anatômica ou em todo o corpo, têm sido relacionadas ao déficit auditivo14 , 27.

A oto e a neurotoxicidade dos agentes químicos provenientes de poeiras, óleos e solventes, por exemplo, tolueno, benzeno, estireno e outros, podem causar danos tanto ao sistema auditivo periférico como ao central, sendo absorvidos em geral pelo trato respiratório e pele, podendo ainda causar disfunção coclear4 , 31 , 32. Os gases ou fumaças tóxicas, como monóxido de carbono, dissulfeto de carbono e agrotóxicos com alto grau de toxicidade, têm efeitos ototóxicos e induzem alterações deletérias à audição, especialmente quando ocorre a exposição prolongada do trabalhador a esse fator de risco16 , 19 , 28.

A irritação ou o nervosismo causado por situações da organização de trabalho pode elevar a altos níveis de cortisol no sangue e consequente estresse; e quando ocorre de forma contínua pode causar doenças do trabalho como a síndrome de Bornout, além de déficit auditivo sem causa orgânica aparente3 , 7 , 15.

Neste estudo houve comorbidades ou condições de saúde associadas aos problemas auditivos, como a irritação ou nervosismo e depressão; e para ICC houve tendência de associação. O aumento do risco para problemas auditivos pode estar relacionado a fatores de origem emocional e psicossocial3 , 9. As psicopatologias podem estar relacionados à deficiência auditiva, resultado da exaustão de reserva cognitiva, isolamento social ou combinação desses aspectos7 , 21. Ainda, as doenças cardiovasculares podem estar associadas aos problemas auditivos, de acordo com pesquisas8 , 9.

Entre as limitações do estudo, destaca-se o potencial do viés de memória, por se tratar de um estudo com delineamento de corte transversal. Outra limitação foram as perdas, que perfizeram 16,2% dos trabalhadores da empresa, o que torna o viés de seleção possível, porém é difícil que tenha ocorrido o efeito amostral do "trabalhador sadio", uma vez que as perdas ocorreram em grande parte devido à licença para capacitação profissional, férias, ou a trabalho. O instrumento tratou de problemas auditivos em geral e não de forma específica. Porém, houve a vantagem do instrumento ser multidimensional e ter efeito "cego" entre entrevistadores e entrevistados, pela alternância dos tópicos durante a entrevista33. A garantia do anonimato pode ter reduzido o viés de informação. Este estudo é de difícil generalização, pois foi realizado em apenas uma empresa e houve perdas.

No período da pesquisa, a empresa em questão possuía Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medina do Trabalho (SESMT) e Comissão Interna de Prevenção a Acidentes (CIPA). O SESMT era composto por dois técnicos em segurança do trabalho, um médico do trabalho e um engenheiro do trabalho. Além disso, atendiam à NR-6, disponibilizando EPI e monitorando as práticas laborais dos trabalhadores na medida do possível. A empresa contava com mais de duas subestações de trabalho, além de ocupar uma área territorial extensa, fator que possivelmente dificulta o monitoramento simultâneo e constante dos trabalhadores.

A empresa pesquisada adota a Política de Ambientes 100% Livres de Tabaco, por meio da lei federal nº 9.294/96, a fim de evitar o tabagismo passivo e promover ambiente de trabalho mais saudável; e para prevenção de comorbidades em geral e evitar a potencialização de doenças do trabalho. Para tal, são realizadas ações como distribuição de informativos e cartazes pela empresa sobre o assunto, mapeamento do quantitativo de fumantes na empresa e palestras educativas aos trabalhadores.

CONCLUSÃO

Este estudo apresentou uma prevalência intermediária de problemas auditivos autorrelatados (15,4%) em trabalhadores agropecuários em relação à literatura encontrada. Os níveis inferiores de escolaridade, os grupos de trabalhadores operacionais, técnicos assistenciais e de serviços gerais apresentaram maior proporção de trabalhadores com problemas auditivos de forma significativa. Quanto às exposições e condições de saúde, as com maior associação foram ruído, gazes tóxicos e vibrações, irritação ou nervosismo e depressão autorrelatada.

Os resultados deste estudo possibilitam traçar inicialmente o planejamento e estratégias de prevenção de problemas auditivos nos trabalhadores da empresa em conjunto com a equipe SESMT e a CIPA, utilizando para essa construção principalmente a NR-6 e a NR-15, tendo em vista os fatores que mais se associaram ao agravo. A realização de oficinas e palestras aos colaboradores em geral da empresa sobre o tema pode ser uma das estratégias para conscientização do autocuidado nas atividades laborais, em especial aos mais suscetíveis ao agravo.

Há necessidade de novos estudos sobre agravo auditivo ocupacional, principalmente para o estabelecimento de causalidade entre os distintos e possíveis fatores de riscos laborais e problemas auditivos.

REFERÊNCIAS

Bisi RF, Coifman JDS, Ferreira MIDC, Mitre EI. Correlação entre o perfil audiométrico, idade e o tempo de atividade em motoristas de ônibus. Rev CEFAC 2013; 15(4): 749-56. [ Links ]

Hasson D, Theorell T, Westerlund H, Canlon B. Prevalence and characteristics of hearing problems in a working and non-working Swedish population. J Epidemiol Community Health 2010; 64(5): 453-60. [ Links ]

Engdahl B, Krog NH, Kvestad E, Hoffman HJ, Tambs K. Occupation and the risk of bothersome tinnitus: results from a prospective cohort study (HUNT). BMJ Open 2012; 2(1): e000512. [ Links ]

Fuente A, McPherson B, Hickson L. Auditory dysfunction associated with solvent exposure. BMC Public Health 2013; 13: 39. [ Links ]

Chung IS, Chu IM, Cullen MR. Hearing effects from intermittent and continuous noise exposure in a study of Korean factory workers and firefighters. BMC Public Health 2012; 12: 87. [ Links ]

Sena TRR, Vargas MM, Oliveira CCC. Saúde auditiva e qualidade de vida em trabalhadores expostos a agrotóxicos. Ciênc Saúde Coletiva 2013; 18(6): 1753-61. [ Links ]

Cruz MS, Oliveira LR, Carandina L, Lima MCP, César CLG, Barros MBA, et al. Prevalência de deficiência auditiva referida e causas atribuídas: um estudo de base populacional. Cad Saúde Pública 2009; 25(5): 1123-31. [ Links ]

Agrawal Y, Platz EA, Niparko JK. Prevalence of hearing loss and differences by demographic characteristics among US adults: data from the National Health and Nutrition Examination Survey, 1999-2004. Arch Intern Med 2008; 168(14): 1522-30. [ Links ]

Henry JA, Dennis KC, Schechter MA. General review of tinnitus: prevalence, mechanisms, effects, and management. J Speech Lang Hear Res 2005; 48(5): 1204-35. [ Links ]

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD): pesquisa básica, 2012. Disponível em:http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/protabl.asp?c=1869&z=pnad&o=3&i=P (Acessado em 06 de janeiro de 2015). [ Links ]

11. FassaAG.. O trabalho como determinante de morbidade comum em uma indústria de celulose e papel dissertação Pelotas: Universidade Federal de Pelotas; 1995 . [ Links ]

Francisco PMSB, Donalisio MR, Barros MBA, Cesar CLG, Carandina L, Goldbaum M. Medidas de associação em estudo transversal com delineamento complexo: razão de chances e razão de prevalência. Rev Bras Epidemiol 2008; 11(3): 347-55. [ Links ]

Barros AJ, Hirakata VN. Alternatives for logistic regression in cross-sectional studies: an empirical comparison of models that directly estimate the prevalence ratio. BMC Med Res Methodol 2003; 3: 21. [ Links ]

Krishnamurti S. Sensorineural hearing loss associated with occupational noise exposure: effects of age-corrections. Int J Environ Res Public Health 2009; 6(3): 889-99. [ Links ]

Hasson D, Theorell T, Wallén MB, Leineweber C, Canlon B. Stress and prevalence of hearing problems in the Swedish working population. BMC Public Health 2011; 11: 130. [ Links ]

Kim KS. Occupational hearing loss in Korea. J Korean Med Sci 2010; 25(Suppl): S62-69. [ Links ]

Azevedo AN, Bernardo LD, Shing SCAC, Santos JN. Perfil auditivo de trabalhadores de um entreposto de carnes. Rev CEFAC 2009; 12(2): 223-34. [ Links ]

Miranda CR, Dias CR, Pena PGL, Nobre LCC, Aquino R. Perda auditiva induzida pelo ruído em trabalhadores industriais da região metropolitana de Salvador, Bahia. Inf Epidemiol SUS 1998; 7(1): 87-94. [ Links ]

Ferreira DG, Oliveira GL, Meira AL, Lacerda A. Efeitos auditivos da exposição combinada: interação entre monóxido de carbono, ruído e tabagismo. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012; 17(4): 405-11. [ Links ]

Lao XQ, Yu ITS, Au DKK, Chiu YL, Wong CCY, Wong TW. Noise exposure and hearing impairment among Chinese restaurant workers and entertainment employees in Hong Kong. PLoS ONE 2013; 8(8): e70674. [ Links ]

Lin FR, Metter EJ, O'Brien RJ, Resnick SM, Zonderman AB, Ferrucci L. Hearing loss and incident dementia. Arch Neurol 2011; 68(2): 214-20. [ Links ]

Choi YH, Hu H, Tak SW, Mukherjee B, Park SK. Occupational noise exposure assessment using O*NET and its application to a study of hearing loss in the US general population. Occup Environ Med 2012; 69(3): 176-83. [ Links ]

Weber SR, Périco E. Zumbido no trabalhador exposto ao ruído. Rev Soc Bras Fonoaudiol 2011; 16(4): 459-65. [ Links ]

Leensen MCJ, van Duivenbooden JC, Dreschler WA. A retrospective analysis of noise-induced hearing loss in the Dutch construction industry. Int Arch Occup Environ Health 2011; 84(5): 577-90. [ Links ]

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Perda Auditiva Induzida por Ruído (Pair). Saúde do Trabalhador. Protocolos de Complexidade Diferenciada 5. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília: Ministério da Saúde; 2006. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_perda_auditiva.pdf (Acessado em 28 de junho de 2014). [ Links ]

Helvik AS, Krokstad S, Tambs K. Hearing loss and risk of early retirement. The HUNT study. Eur J Public Health 2012; 23(4): 617-22. [ Links ]

Rabinowitz PM, Galusha D, McTague MF, Slade MD, Wesdock JC, Dixon-Ernst C. Tracking occupational hearing loss across global industries: a comparative analysis of metrics. Noise Health 2012; 14(56): 21-7. [ Links ]

May JJ. Occupational hearing loss. Am J Ind Med 2000; 37(1): 112-20. [ Links ]

Brasil. Norma Regulamentadora 15 (Atualização). NR-15 - Atividades e Operações Insalubres. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego; 2011. Disponível em: http://portal.mte.gov.br/data/files/8A7C816A36A27C140136A8089B344C39/NR-15%20(atualizada%202011)%20II.pdf (Acessado em 30 de junho de 2014). [ Links ]

Brasil. Norma Regulamentadora 6 (Atualização). NR6 - Equipamento de Proteção Individual - EPI. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego; 2010. Disponível em: http://portal.mte.gov.br/data/files/FF8080812DC56F8F012DCDAD35721F50/NR-06%20(atualizada)%202010.pdf (Acessado em 30 de junho de 2014). [ Links ]

Fuente A, McPherson B, Hormazabal X. Self-reported hearing performance in workers exposed to solvents. Rev Saúde Pública 2013; 47(1): 86-93. [ Links ]

Santos MP, Sebben VC, Farenzena PR, Dexheimer CF, Santos CP, Steffen VM. Exposição a agentes químicos e ruído em indústria de couro. Rev Bras Saúde Ocup 2005; 30(111): 51-6. [ Links ]

Straube A, Aicher B, Förderreuther S, Eggert T, Köppel J, Möller S, et al. Period prevalence of self-reported headache in the general population in Germany from 1995-2005 and 2009: results from annual nationwide population-based cross-sectional surveys. J Headache Pain 2013; 14(1):11. [ Links ]

Fonte de financiamento: nenhuma

Recebido: 16 de Julho de 2014; Revisado: 16 de Setembro de 2014; Aceito: 02 de Outubro de 2014

Autor correspondente: Rafael Haeffner. Rua Joaquim Nabuco, 2.060, Centro, CEP: 85003-160, São José dos Pinhais, PR, Brasil. E-mail: rafaelhaeffner@gmail.com

Conflito de interesses: nada a declarar

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.