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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.18 no.4 São Paulo Out./Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500040007 

Artigos Originais

Avaliação do efeito independente de doenças crônicas, fatores sociodemográficos e comportamentais sobre a incapacidade funcional em idosos residentes em Ribeirão Preto, SP, 2007 - Projeto EPIDCV

Suzana Alves de MoraesI 

Daniele Almeida LopesII 

Isabel Cristina Martins de FreitasIII 

IDepartamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto (SP), Brasil.

IIPrograma de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto (SP), Brasil.

IIIPrograma de Post-Doc junto ao Núcleo de Epidemiologia da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto (SP), Brasil.

RESUMO:

Objetivos:

Investigar a prevalência e os fatores associados à incapacidade funcional em idosos residentes em Ribeirão Preto, SP, em 2007.

Métodos:

Estudo transversal de base populacional, com amostra complexa selecionada em três estágios. Para correção do efeito de desenho amostral, utilizou-se amostra ponderada (nw) de 536 idosos. A dependência funcional para atividades da vida diária foi aferida mediante a utilização de questionário estruturado e validado para estudos epidemiológicos de base populacional. Prevalências brutas do desfecho e estratificadas segundo variáveis sociodemográficas, comportamentais, relacionadas à saúde e à morbidade referida foram calculadas por pontos e por intervalos com 95% de confiança. Razões de prevalências brutas e ajustadas foram estimadas por pontos e por intervalos, utilizando-se a regressão de Poisson.

Resultados:

A prevalência bruta de incapacidade foi 50,31%. Nos modelos multivariados, após ajustamento intragrupos (modelos finais), as seguintes variáveis permaneceram independentemente associadas ao desfecho: sociodemográficas (idade, escolaridade e contribuição com a renda familiar); comportamentais (média diária de tempo sentado); relacionadas à saúde (hipertensão, doença isquêmica do coração, uso de medicamentos e baixo desempenho cognitivo); morbidade referida (número de doenças referidas e baixa acuidade auditiva).

Conclusão:

A elevada prevalência de incapacidades em idosos de Ribeirão Preto, bem como a presença de associações entre variáveis potencialmente modificáveis e o desfecho, impõe a necessidade de medidas específicas de promoção e prevenção em saúde com vistas à melhora da qualidade de vida desse estrato populacional já bem representado nas últimas pirâmides populacionais do município.

Palavras-chave: Incapacidade funcional; Fatores de risco; Envelhecimento; Estudos transversais; Epidemiologia; Saúde pública.

INTRODUÇÃO

A transição demográfico-epidemiológica compreende mudanças nos padrões de saúde e doença, ao longo do tempo, resultantes primordialmente de mudanças na estrutura etária da população, que culminaram com o envelhecimento populacional relativo e a substituição das doenças infectocontagiosas pelas crônico-degenerativas e causas externas que são, atualmente, as principais causas de morbimortalidade1.

Com o crescente aumento da população idosa, a capacidade funcional (CF) surgiu como novo conceito de saúde, mais adequado para instrumentalizar e operacionalizar a atenção à saúde do idoso, por refletir o impacto da doença/incapacidade sobre sua qualidade de vida2. Diferentes autores identificaram associações entre incapacidade funcional e fatores sociodemográficos, comportamentais e relacionados à saúde, embora na maior parte dos estudos fatores sociodemográficos, como idade, escolaridade e renda, ao lado de doenças crônicas e de comorbidades, tenham apresentado associações consistentes com a incapacidade funcional3 4 5 6.

O conhecimento dos fatores determinantes da incapacidade funcional tem sido possível graças aos estudos epidemiológicos de base populacional, embora, no Brasil, essas pesquisas se concentrem nas regiões Sul e Sudeste, e dentro destas, limitadas, em grande parte, às capitais, pouco se conhecendo sobre a realidade epidemiológica de municípios localizados no interior do país. Considerando-se que os fatores associados à incapacidade funcional podem sofrer interações com o ambiente, o presente estudo teve como objetivos investigar a prevalência de incapacidade funcional em idosos residentes em Ribeirão Preto, SP, e identificar os fatores independentemente associados a este desfecho.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo apresenta delineamento transversal, sendo parte integrante do Projeto EPIDCV (Prevalência de doenças cardiovasculares e identificação de fatores associados em adultos residentes em Ribeirão Preto, SP), estudo epidemiológico de base populacional, cuja coleta de dados foi conduzida no município de Ribeirão Preto no período 2007/2008.

O processo de amostragem foi desenvolvido em três estágios e, a precisão das estimativas, calculadas em amostra de 1.205 indivíduos, correspondeu a erros de amostragem fixados em torno de 2% (para prevalências abaixo de 15% ou acima de 75%) e 3% (para prevalências entre 20 e 80%). No primeiro estágio, 81 setores censitários foram sorteados, e, na sequência, 1.672 domicílios e 1.395 participantes, correspondendo estes últimos, respectivamente, ao segundo e terceiro estágios7. A taxa de resposta foi de 82,1%, correspondendo a 1.133 adultos participantes. Para a correção do efeito de desenho amostral, utilizou-se amostra ponderada (nw) de 2.471 participantes com 30 anos e mais, residentes na área urbana do município, entre os quais foram identificados 536 idosos. Detalhamento sobre o processo de amostragem foi anteriormente publicado8.

Variável dependente: incapacidade funcional

Para a avaliação da incapacidade funcional, utilizou-se questionário estruturado e validado9, contendo 17 questões sobre as atividades da vida diária (AVDs), com variação de 0 - 34 pontos. Para cada AVD, o idoso foi classificado como totalmente independente (2 pontos), ajuda parcial (1 ponto) ou ajuda total (0 pontos). A capacidade funcional foi classificada em duas categorias (0/1), considerando-se como referência (categoria 0) aquela correspondente à independência total do idoso (34 pontos), enquanto a categoria "1" (incapacidade funcional) correspondeu à necessidade de ajuda parcial ou total para uma ou mais AVDs.

Variáveis independentes

Variáveis sociodemográficas

Incluíram-se os participantes de ambos os sexos e ≥ 60 anos. A escolaridade foi definida em quatro categorias, segundo o número de anos completos de escolaridade formal (0 - 3; 4 - 7; 8 - 11 e ≥ 12). O estado marital foi definido segundo a presença ou ausência de companheiro (a), independentemente de união formal. A contribuição da renda do idoso sobre a renda familiar foi classificada como: sem renda, contribuição ≤ 75% e contribuição > 75%. O Indicador Econômico de Ribeirão Preto (IERP)10 foi construído, utilizando-se variáveis relacionadas à aquisição de bens de consumo e à escolaridade do chefe da família, cujos escores oscilaram entre 67 e 1.086 pontos, sendo a variável classificada em quatro categorias, segundo os pontos de corte definidos pelos quartis da distribuição.

Variáveis comportamentais

O hábito de fumar em pack-years foi definido pela fórmula: [(nº cigarros/dia)/20 x nº de anos do hábito de fumar]11 e posteriormente classificado em 3 categorias: não fumantes, ≤ 14 anos fumando 1 maço/dia e > 14 anos fumando 1 maço/ dia, as duas últimas classificadas segundo o ponto de corte definido pela mediana da distribuição. Informações sobre o consumo de álcool foram extraídas do Questionário Alcohol Use Disorder Identification Test (AUDIT)12, considerando-se duas categorias: sem dependência (soma dos escores de 0 a 7) e com dependência (soma dos escores ≥ 8). A média diária de tempo sentado, em minutos/dia, foi calculada utilizando-se o International Physical Activity Questionnaire (IPAQ)13, versão curta.

Variáveis relacionadas à saúde

A hipertensão arterial foi definida conforme história prévia da condição diagnosticada pelo médico, uso regular de medicação anti-hipertensiva ou a média de três medidas consecutivas da pressão arterial, aferidas em esfigmomanômetros portáteis (Geratherm, Medical AG, Geschwenda, Alemanha), considerando-se hipertensos os que apresentaram aferições ≥ 140 x 90 mmHg para as médias da pressão sistólica e diastólica, respectivamente14. A intolerância à glicose foi definida conforme história prévia de diabetes diagnosticada pelo médico e também por testes orais de tolerância à glicose (TOTG), realizados em jejum de 12 horas e 2 horas após sobrecarga com 75 g de glicose. As glicemias (mg/dL) foram aferidas em sangue capilar pelo método de colorimetria por reflectância, utilizando-se aparelhos portáteis Accutrend (Roche Diagnostics GmbH, Mannheim, Alemanha), e para a definição de intolerância à glicose adotaram-se os pontos de corte recomendados pela WHO15. A variável foi classificada de forma dicotômica (não/sim), considerando-se, como referência, aqueles com glicotolerância normal e, como expostos, os diabéticos e os que apresentaram glicemia de jejum alterada ou glicotolerância diminuída. A doença isquêmica do coração (DIC), classificada de forma dicotômica (não/sim), foi representada pela combinação de angina e possível infarto do miocárdio, após aplicação do Questionário (Q-Rose)16 - versão completa. Número de medicamentos foi definido conforme seu consumo, nos 15 dias que antecederam a entrevista (informação obtida com o participante e confirmada mediante apresentação de prescrições médicas e/ou embalagens), sendo a variável classificada em quatro categorias: "nenhum medicamento", "1 - 2", "3 - 4" e "≥ 5". O desempenho cognitivo foi avaliado mediante a aplicação do Questionário Mini Exame do Estado Mental (MEEM), elaborado por Folstein et al.17. Os escores do MEEM variam de 0 a 30 pontos, e, para a proposta do presente estudo, foram tratados de forma dicotômica: > 25 (categoria de referência) e ≤ 25, conforme a mediana da distribuição. O estado nutricional foi classificado em três categorias: eutróficos, com sobrepeso e obesos, segundo pontos de corte para o índice de massa corporal (IMC), recomendados pela World Health Organization18. O peso em quilogramas foi aferido em balanças eletrônicas portáteis da marca Tanita, modelo BF 680(r), e a altura em estadiômetros da marca SECA(r), por entrevistadores treinados e calibrados que empregaram as técnicas propostas por Habicht e Butz19. Como indicador de obesidade central, utilizou-se o índice de conicidade (Índice C), definido segundo a equação abaixo20 e classificado de forma dicotômica, utilizando-se o ponto de corte correspondente ao percentil 25. Como referência para a circunferência da cintura, aferida em centímetros (cm), utilizou-se a menor curvatura situada entre o rebordo costal e a crista ilíaca, adotando-se pontos de corte específicos, segundo o sexo, recomendados pela International Diabetes Federation21. Para o peso, a altura e a circunferência da cintura, foram tomadas três medidas consecutivas, considerando-se a média das três medidas.

Variáveis relacionadas à morbidade referida

O número de doenças referidas por participante (artrite, reumatismo ou artrose, bronquite, prisão de ventre, catarata e problemas de coluna - comorbidades) foi classificado em três categorias ("0 - 1"; "2 - 3" e "≥ 4"). A acuidade visual e a acuidade auditiva foram classificadas como "excelente/boa" ou "regular/péssima". A saúde autorreferida foi classificada como "excelente/boa" e "regular/péssima".

Processamento dos dados

A coleta de dados foi realizada mediante aplicação de entrevistas estruturadas, aplicadas no domicílio dos elegíveis por equipe de entrevistadores treinados. Antes da digitação definitiva, processada com dupla entrada de dados, o controle de qualidade das informações foi avaliado por meio da replicação de 12,5% do total de entrevistas. Como medida de reprodutibilidade para as variáveis incluídas na replicação, utilizou-se a estatística Kappa, que alcançou valores superiores a 0,80.

Análise estatística

Além da caracterização da amostra, as prevalências de incapacidade funcional foram estimadas por pontos e por intervalos com 95% de confiança, segundo variáveis sociodemográficas, comportamentais, relacionadas à saúde e à morbidade referida. Para a identificação dos fatores associados à incapacidade funcional, razões de prevalências foram estimadas, por pontos e por intervalos com 95% de confiança, utilizando-se a regressão de Poisson22. Inicialmente, foram conduzidas análises univariadas, segundo variáveis sociodemográficas, comportamentais, relacionadas à saúde e à morbidade referida, excluindo-se as que apresentaram valores p > 0,25 para a estatística de Wald. A seguir, iniciou-se a construção dos modelos finais, sendo retidas nestes modelos e via backward as variáveis que, em cada um dos quatro grupos acima descritos, apresentaram valores p < 0,05 para a estatística de Wald. Todas as análises foram desenvolvidas no software Stata versão 10.1 para Windows. O cálculo de todas as estimativas levou em consideração o efeito de desenho amostral (deff ), utilizando-se os comandos "svy" do Stata.

Considerações éticas

O Projeto EPIDCV foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, e protocolado sob o no 0725/2006. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme recomendações da Resolução no 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Na Tabela 1, observa-se que a amostra foi composta principalmente por participantes do sexo feminino; por aqueles entre 60 e 69 anos; com escolaridade entre 4 e 11 anos; que viviam com companheiro(a) e pertenciam a domicílios classificados nos dois últimos quartos do IERP. A prevalência bruta de incapacidade funcional foi elevada, e o efeito de desenho amostral (deff ) correspondeu a 1,71848.

Tabela 1: Características da população do estudo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil, 2007. Projeto EPIDCV. 

*n ponderado; IC95%: intervalo de confiança de 95%.

Em relação aos fatores sociodemográficos (Tabela 2), verifica-se que a prevalência de incapacidade funcional apresentou relação direta com a idade e relação inversa com a escolaridade e os quartos do IERP. Com relação às razões de prevalências ajustadas - faixas etárias (relação direta), escolaridade e contribuição da renda do idoso sobre a renda familiar (relações inversas) - apresentaram associações independentes com o desfecho.

Tabela 2: Prevalências e razões de prevalências brutas e ajustadas para incapacidade funcional, segundo fatores sociodemográfios. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2007. Projeto EPIDCV. 

RP: razões de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%.; (-) Variáveis não retidas no modelo final (p > 0,05).

Com relação aos fatores comportamentais (Tabela 3), nota-se que as prevalências do desfecho se destacaram entre aqueles que consumiram 1 maço de cigarros/dia por mais que 14 anos e entre aqueles com maior média diária de tempo sentado. As razões de prevalências para a variável "tempo sentado" apresentaram relação direta e associação independente com o desfecho (3ª terço).

Tabela 3: Prevalências e razões de prevalências brutas e ajustadas para incapacidade funcional, segundo fatores comportamentais. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2007. Projeto EPIDCV. 

RP: razões de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%; (-) Variáveis não retidas no modelo final (p > 0,05).

No que se refere aos fatores relacionados à saúde (Tabela 4), as prevalências de incapacidade funcional se destacaram entre os hipertensos, entre aqueles com doença isquêmica do coração, entre os que consumiram 5 ou mais medicamentos nos últimos 15 dias, e entre os que foram classificados como baixo desempenho cognitivo e apresentaram obesidade global ou central. Após o ajustamento simultâneo, permaneceram independentemente associados ao desfecho: hipertensão arterial, doença isquêmica do coração, número de medicamentos e baixo desempenho cognitivo.

Tabela 4: Prevalências e razões de prevalências brutas e ajustadas para incapacidade funcional, segundo fatores relacionados à saúde. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2007. Projeto EPIDCV. 

RP: razões de prevalência; DIC: Doença Isquêmica do Coração; MEEM: Mini Exame do Estado Mental; IC95%: intervalo de confiança de 95%; (-) Variáveis não retidas no modelo final (p > 0,05).

Quanto aos fatores relacionados à morbidade referida (Tabela 5), prevalências de maior magnitude para o desfecho foram observadas entre os que referiram quatro ou mais doenças, relataram baixa acuidade visual ou auditiva e classificaram sua saúde como regular/péssima. Após ajustamento simultâneo, permaneceram independentemente associados ao desfecho: número de doenças referidas (gradiente linear) e acuidade auditiva classificada como regular/péssima.

Tabela 5: Prevalências e razões de prevalências brutas e ajustadas para incapacidade funcional, segundo fatores relacionados à morbidade referida. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2007. Projeto EPIDCV. 

RP: razões de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%; (-) Variáveis não retidas no modelo final (p > 0,05).

DISCUSSÃO

No presente estudo, a prevalência bruta de incapacidade funcional foi elevada. Nos modelos multivariados, permaneceram independentemente associadas ao desfecho as variáveis sociodemográficas (faixas etárias, escolaridade e contribuição do idoso com a renda familiar); comportamentais (média diária de tempo sentado); relacionadas à saúde (hipertensão arterial, DIC, consumo de cinco ou mais medicamentos e baixo desempenho cognitivo) e relacionadas à morbidade referida (número de doenças referidas e acuidade auditiva).

Esses achados estão em consonância com os resultados de estudos nacionais3 4 6 23 24 25 26 27 28 29. Em relação aos estudos internacionais, os resultados de Ribeirão Preto são semelhantes aos apresentados por Tze-Pin et al.30, em estudo transversal conduzido em amostra multiétnica (chineses, malaios e indianos), aos achados do Rotterdam Study5 31, aos do German KORA-age Study25 e aos resultados relatados por Kelly-Hayes et al.32 na coorte de Framinghan.

O rigor metodológico na condução do processo de amostragem do Projeto EPIDCV, a elevada taxa de resposta (82,1%), bem como o treinamento exaustivo dos entrevistadores, ao lado de técnicas estatísticas pertinentes para a análise dos dados, reforçam a validade interna do estudo.

No presente estudo, a condição socioeconômica foi determinante da dependência funcional, observando-se que níveis elevados de escolaridade e renda permaneceram associados ao desfecho (fatores de proteção). Esses achados, confirmados por diferentes autores24 25 26 são decorrentes, principalmente, do maior acesso aos serviços de saúde e às informações relacionadas à prevenção das incapacidades, como a adoção de hábitos saudáveis que contribuem para a preservação da autonomia.

Considerando-se os fatores comportamentais, o consumo de álcool e o de cigarros não permaneceram associados ao desfecho, como também observado no Rotterdam Study5 e no Sul do Brasil6. Por outro lado, o comportamento sedentário, expresso pelo tempo sentado > 355 minutos/dia, apresentou associação positiva e independente com a incapacidade funcional. O excesso de tempo sentado contribui para o excesso de peso, diminuição da força muscular, rigidez das articulações, aumento dos níveis de colesterol e da resistência insulínica, bem como para a ocorrência de doenças cardiovasculares27 que interferem na funcionalidade do idoso.

Em relação aos fatores relacionados à saúde, os achados referentes ao efeito independente da hipertensão e da DIC sobre a incapacidade foram compatíveis com os relatados por Alves et al.3 em estudo transversal conduzido no município de São Paulo com dados do Projeto SABE. Os sintomas da hipertensão arterial, como fadiga, palpitações, formigamento nos membros superiores e inferiores, cefaleia e visão turva, dificultam a realização das atividades da vida diária. Além disso, a hipertensão, quando não controlada, representa um dos fatores de risco mais potentes para a doença coronariana8 e os acidentes vasculares cerebrais, cujas sequelas dificultam/impedem o indivíduo de desempenhar suas atividades de forma habitual.

Ainda, em relação às variáveis relacionadas à saúde, razões de prevalências ajustadas revelaram que o baixo desempenho cognitivo esteve positivamente associado à incapacidade funcional, resultados corroborados por outros autores33 34. Boult et al.33 construíram um modelo de simulação para o desenvolvimento de incapacidade funcional na população americana não institucionalizada, com base no Longitudinal Study of Aging , referente ao período entre 2001 e 2049. No modelo final, permaneceram independentemente associados ao risco de incapacidade funcional, além da idade, acidentes vasculares cerebrais, diabetes e artrite, bem como episódios frequentes de confusão mental. Análises preditivas permitiram identificar que no período em questão a redução de apenas 1%, a cada dois anos, na prevalência desses eventos possibilitaria aumento significativo do número de idosos livres de incapacidade funcional.

No que se refere ao uso de medicamentos, observou-se gradiente linear para as razões de prevalências ajustadas que aumentaram progressivamente, segundo o número de medicamentos consumidos. Resultados semelhantes aos do presente estudo foram também encontrados por Giacomin et al.28 no Projeto Bambuí, MG, e por Nunes et al.29 em estudo transversal conduzido com idosos de Ubá, MG. Consumo elevado de medicamentos constitui-se, de per si , em indicador de saúde precária e reflete a presença de comorbidades que, em conjunto, prejudicam a autonomia funcional. Por outro lado, o excesso de medicamentos pode contribuir para a sedação prolongada, aumentando o risco de quedas e fraturas e, portanto, interferindo na realização das AVDs.

Considera-se importante mencionar que, embora a obesidade e o acúmulo de gordura abdominal dificultem a realização de algumas AVDs, como vestir-se, deitar-se e levantar-se da cama e subir escadas, entre outras, o estado nutricional e o índice de conicidade não permaneceram no modelo final. Efeitos potentes de outras doenças crônicas como a hipertensão arterial, a doença isquêmica do coração e as comorbidades sobre a incapacidade funcional podem ter retirado o efeito independente da obesidade global e da obesidade central sobre o desfecho em questão.

Em relação às comorbidades, expressas pelo número de doenças referidas, constatou-se indicação de gradiente linear para as prevalências do desfecho em suas categorias, bem como para as respectivas razões de prevalências ajustadas, resultados corroborados por Santos et al.26, no Sul do Brasil, que identificaram que a categoria correspondente ao maior número de doenças referidas permaneceu positiva e independentemente associada à incapacidade funcional.

Em relação à acuidade auditiva, resultados semelhantes aos do presente estudo foram relatados por Nourhashémi et al.34 e Odding et al.31, em estudos transversais conduzidos na França e na Holanda, respectivamente, nos quais o comprometimento auditivo apresentou associação positiva e independente com a incapacidade funcional. Uma hipótese plausível para esses achados pode estar fundamentada na perda progressiva de convívio social, no isolamento e na falta de motivação para atividades recreativas e sociais que, em conjunto, podem contribuir para a deterioração da independência funcional.

Em suma, os achados do presente estudo reproduziram os resultados de estudos nacionais e internacionais, com delineamentos transversais ou de coorte, o que reforça sua coerência e a consistência. Em adição, confirma-se, em Ribeirão Preto, o advento do quinto estágio da transição epidemiológica postulado por Omran1 e denominado "longevidade paradoxal", no qual o declínio da mortalidade e da fecundidade resultaria em aumento da sobrevivência, com consequente acúmulo de doenças crônicas e das incapacidades delas decorrentes.

Limitações inerentes ao delineamento transversal podem ser exemplificadas pela ausência de associações, com o desfecho, de exposições como a carga de tabagismo, expressa pelo indicador pack-years , ou a dependência de álcool, sendo plausível supor que a limitação funcional pode ter contribuído para o controle dessas exposições (viés de causalidade reversa). Outra limitação do estudo refere-se à impossibilidade de estratificação dos modelos segundo o sexo, tendo em vista a perda de poder estatístico inerente à diluição da amostra nos estratos. Entretanto, testes de interação entre sexo e as demais variáveis que permaneceram nos modelos finais, em relação ao desfecho, não foram estatisticamente significantes (p > 0,05).

Por último, considera-se oportuno enfatizar que estudos em andamento, com dados do Projeto EPIDCV, nos quais estão sendo aplicados modelos de equações estruturais multinível35, deverão esclarecer possíveis efeitos diretos, indiretos ou recíprocos entre as covariadas e o desfecho em questão, elucidando-se relações que ainda permanecem obscuras, a partir da utilização de modelos clássicos multivariados.

CONCLUSÃO

A elevada prevalência de incapacidade funcional em idosos de Ribeirão Preto, bem como a presença de associações entre variáveis potencialmente modificáveis e o desfecho, impõem a necessidade de medidas específicas de promoção e prevenção em saúde que resultem em melhora da qualidade de vida dos idosos, estrato já bem representado nas últimas pirâmides populacionais do município36.

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Fontes de financiamento: O Projeto EPIDCV foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) - Processo no 2006/50495-2. Lopes DA - Bolsa de Mestrado - CAPES. Freitas ICM - Bolsa de Post-Doc FAPESP (Processo no 12/51141-0).

Recebido: 26 de Novembro de 2014; Aceito: 09 de Maio de 2015

Autor correspondente: Suzana Alves de Moraes. Avenida Bandeirantes, 3900. Campus Universitário. CEP 14040-902. Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: samoraes@usp.br

Corresponding author: Suzana Alves de Moraes. Avenida Bandeirantes, 3900. Campus Universitário. CEP 14040-902. Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: samoraes@usp.br

Conflito de interesses: nada a declarar

Conflict of interests: nothing to declare

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