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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.18 no.4 São Paulo Out./Dec. 2015

https://doi.org/10.1590/1980-5497201500040027 

Debates

Capitalismo, ciberespaço e sociedade: evitando o extremismo*

Marcos Barbosa de OliveiraI 

IUniversidade de São Paulo - São Paulo (SP) Brasil


Compartilho decididamente as diretrizes do pensamento de Jaime Breilh que se revelam em seu artigo. Em primeiro lugar, também penso que os fenômenos sociais devem ser entendidos como parte de uma totalidade. Em meu trabalho, no campo dos estudos sobre a ciência, procuro incorporar, de forma articulada, as contribuições da Filosofia, da História, da Sociologia e da Economia da Ciência, num espírito muito semelhante ao da Epidemiologia Crítica.

Em segundo lugar, também vejo o capitalismo como o mais poderoso princípio organizador da sociedade, praticamente no mundo inteiro hoje, e a forma de sociedade resultante como marcada por inúmeras e fundamentais disfuncionalidades.

Em relação a essa segunda diretriz, entretanto, penso que se deve resistir à tendência de radicalizá-la, concebendo o capitalismo como uma entidade monolítica, todo-poderosa, fonte apenas de malefícios, responsável por tudo o que há de errado na sociedade. Um exemplo (interessante no presente contexto por dizer respeito ao ciberespaço) de contradição interna do capitalismo, que revela seu caráter não-monolítico, é o seguinte. Por um lado, os fabricantes de hardware e software procuram tornar seus produtos capazes de desempenhar eficientemente um número cada vez maior de funções, com isso, aumentando seu valor de uso, consequentemente, a demanda e, em última análise, os lucros. Por outro lado, entre as capacidades desenvolvidas encontram-se as de acessar, copiar e difundir conteúdos, as quais tornam muito difícil impor o respeito aos direitos de propriedade intelectual, sendo, portanto, prejudicial a outro setor da economia capitalista, o dos produtores de conteúdo.

A pergunta que coloco é se o autor não avança um pouco demais no sentido dessa radicalização, caindo numa forma de extremismo. O que me leva a considerá-la é ,principalmente, o fato de que, ao longo de todo o texto, tanto o capitalismo quanto o ciberespaço são apreciados de forma quase exclusivamente negativa. O capitalismo é denunciado como força essencialmente destruidora, da natureza, da soberania dos povos, das relações solidárias, e fomentadora de consumismo frenético, de modos de viver malsãos. O espaço cibernético é condenado como uma força opressora, uma "esfera de disciplinamento social e robotização da conduta", que invade nossa privacidade, promove a "proletarização inconsciente dos usuários da internet", tem impactos neurológicos e psíquicos nefastos nos jovens usuários, etc.

A única passagem do texto que escapa dessa visão tão carregada de negatividade ocorre quando o autor afirma que "a resposta à subordinação cibernética não é a desconexão, que nos levaria a prescindir das vantagens das ferramentas cibernéticas; uma alternativa que seria se não impossível, pelo menos claramente desvantajosa". Ora, se é impossível suprimir o ciberespaço, deve ser porque suas vantagens decorrem de sua capacidade de satisfazer necessidades genuínas das pessoas. Em nenhum momento, entretanto, tais vantagens são mencionadas, ou caracterizadas. Não é estranho, por exemplo, dada a orientação política do artigo, que nenhuma menção seja feita ao papel das redes sociais na organização de manifestações e outras atividades políticas de natureza progressista, como as da Primavera Árabe, dos movimentos dos indignados, do occupy , etc.?

E por que seria importante dar atenção aos aspectos positivos do sistema? Como reação aos aspectos negativos, o autor propõe uma atitude militante, de conscientização e mobilização, que merece todo o apoio. A nosso ver, contudo, para ter sucesso tal movimento não deve perder de vista o que há de bom no sistema, para não correr o risco de solapar as vantagens, na tentativa de bloquear as desvantagens. Não se deve esquecer também que a própria Internet é uma ferramenta importante na resistência às forças que tendem a desvirtuar seu caráter democrático.

Essas considerações não negam os méritos do artigo, na defesa da epidemiologia crítica, e na promoção do debate a respeito dos impactos, sem dúvida fundamentais, da Revolução das Tecnologias de Informação e Comunicação sobre a sociedade.

Para terminar, algumas questões que dizem respeito a um vínculo muito mais direto entre a epidemiologia e o ciberespaço. O tópico é o dos vírus de computador, e dos conteúdos virais na Internet. Por um lado, é evidente que o termo, no ciberespaço, é importado da biologia (ou, mais propriamente, dado o caráter danoso dos vírus de computador, da medicina, que se ocupa dos vírus patogênicos). Por outro lado, é surpreendente a semelhança, que justifica plenamente a escolha do nome, entre os processos de difusão dos vírus computacionais e de conteúdos virais, e a propagação dos vírus patogênicos nas epidemias. As perguntas são: até que ponto vai essa semelhança? Em que sentido se pode dizer que os softwares antivírus são vacinas? Será que os epidemiologistas não podem aprender com os criadores de software antivírus, ou vice-versa?

*Comentário sobre o artigo "Epidemiologia del siglo XXI y ciberespacio: repensar la teoría del poder y la determinación social de la salud", de Jaime Breilh, para a Revista Brasileira de Epidemiologia.

Autor correspondente: Marcos Barbosa de Oliveira. Rua Rafael Clark, 76. Jardim Jussara, CEP: 05526-010, São Paulo, SP, Brasil. Email: mbdolive@usp.br

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