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Revista Brasileira de Epidemiologia

versão impressa ISSN 1415-790Xversão On-line ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.18  supl.2 São Paulo dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500060019 

Artigos Originais

Consumo de bebidas alcoólicas e direção de veículos nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, segundo dois inquéritos nacionais de saúde

Deborah Carvalho MaltaI  II 

Regina Tomie Ivata BernalIII 

Márcio Dênis Medeiros MascarenhasIV 

Marta Maria Alves da SilvaI 

Celia Landman SzwarcwaldV 

Otaliba Libânio de Morais NetoVI 

IDepartamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde - Brasília (DF), Brasil.

IIEscola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais - Belo Horizonte (MG), Brasil.

IIIFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IVDepartamento de Medicina Comunitária, Universidade Federal do Piauí - Teresina (PI), Brasil.

VInstituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.

VIDepartamento de Saúde Coletiva, Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil.

RESUMO:

Objetivo

Apresentar os resultados dos indicadores sobre consumo de álcool e direção para as capitais brasileiras obtidos em dois inquéritos populacionais realizados em 2013 no Brasil.

Métodos:

Estudo transversal realizado com dados da população adulta (≥ 18 anos) participante da Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). Foram calculadas as prevalências para os indicadores de consumo de bebida alcoólica e direção veicular.

Resultados:

A proporção de motoristas adultos de carro ou moto que dirigiram logo depois de beber foi significativamente maior no sexo masculino (29,3% - Vigitel; 24,4% - PNS), entre jovens de 18 a 29 anos (31,6% - Vigitel; 24,1% - PNS) e entre os residentes das capitais da Região Centro-Oeste (33,7% - Vigitel; 28,3% - PNS). A proporção de adultos que referiram beber e dirigir foi maior no sexo masculino (9,4% - Vigitel; 7,4% - PNS), no grupo de 18 a 29 anos (7,1% - Vigitel; 4,5% - PNS) e entre os residentes das capitais da Região Centro-Oeste (7,9% - Vigitel; 6,1% - PNS).

Conclusão:

O estudo permitiu estimar a prevalência do hábito de dirigir após ingestão de bebida alcoólica entre motoristas e na população em geral e mostrou coerência entre os resultados dos dois inquéritos epidemiológicos de abrangência nacional.

Palavras-chave: Consumo de bebidas alcoólicas; Condução de veículo; Acidentes de trânsito; Fatores de risco; Levantamentos epidemiológicos; Executoriedade da lei.

INTRODUÇÃO

O consumo de bebidas alcoólicas está inserido nas práticas e nos hábitos culturais de diversas civilizações há milênios. Assim, seu uso é incentivado e associado a festividades, cerimônias religiosas, momentos de alegria e celebrações1 2. Entretanto, o álcool também está associado a efeitos deletérios. A Organização Mundial da Saúde (OMS) atribui ao álcool cerca de 1,8 milhão de mortes globais (3,2% do total de mortes), além de provocar 4% da carga de doenças, o que representa 58,3 milhões anos de vida ajustados por incapacidade (disability-adjusted life years - DALY). O álcool é o quinto fator de risco mais importante em relação às mortes prematuras e incapacidades no mundo1. Na região das Américas, o consumo de álcool foi considerado o fator de risco mais importante para a carga de doenças2 3.

Os problemas causados pelo álcool podem afetar não apenas o consumidor, mas estendem-se a pessoas do círculo familiar de quem consome essa substância, como nos casos de violência doméstica, conflitos conjugais, abuso de crianças4. O uso do álcool pode resultar em consequências sociais e de saúde, incluindo redução da produtividade no trabalho, comportamento violento, lesões esportivas e de lazer, lesões e mortes no trânsito4 5, prática de sexo inseguro e uso de outras substâncias psicoativas6.

O álcool, mesmo em pequenas quantidades, aumenta o risco de envolvimento em acidente de trânsito, para os motoristas e pedestres, ao alterar a capacidade de discernimento, visão, tempo de reação e coordenação motora7. Estudos realizados no Brasil apontam a frequência elevada do consumo de álcool entre vítimas de acidentes e violências atendidas em serviços de emergência8 9. Mesmo se tratando de condições preveníveis, a combinação entre consumo de álcool e condução de veículos pode ser responsável por cerca de 20 a 50% das mortes no trânsito1 2 10.

Em função dessas evidências, o Ministério da Saúde (MS) passou a monitorar o consumo do álcool e a direção veicular na população brasileira, por meio de dois grandes levantamentos epidemiológicos: a Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel)11, realizada desde 2007 pelo MS, e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o MS, em 201312.

O objetivo do presente estudo foi apresentar os resultados dos indicadores sobre consumo de álcool e direção obtidos em duas pesquisas populacionais (Vigitel e PNS), realizadas em 2013.

MÉTODOS

Estudo transversal realizado com dados da população adulta (≥ 18 anos) participante dos inquéritos Vigitel e PNS em 2013.

Foram analisados dados da Vigitel em adultos (≥ 18 anos) residentes nas capitais dos 26 Estados brasileiros e no Distrito Federal que possuíam telefone fixo. A Vigitel utiliza sorteio amostral probabilístico em dois estágios:

  • • sorteio sistemático de 5.000 linhas telefônicas em cada cidade, seguido por ressorteio e organização de 25 réplicas (subamostras) de 200 linhas;

  • • sorteio de um morador adulto (≥ 18 anos) do domicílio para responder a entrevista. São entrevistados cerca de 54.000 indivíduos, ou cerca de 2.000 entrevistas por cidade a cada ano.

O cálculo do peso pós-estratificação é feito pelo método rake , considerando as variáveis sexo, faixa etária e nível de escolaridade, e visa igualar a composição da população adulta da cidade à composição sociodemográfica da população adulta total de cada cidade no ano do levantamento da pesquisa11.

A PNS foi realizada em 2013 e constitui-se em um inquérito epidemiológico de base domiciliar, representativo para o Brasil, as grandes regiões, as unidades federadas (UFs) e as capitais. O cálculo da amostra foi inicialmente realizado por amostragem aleatória simples baseada nos dados do Censo de 2010. A amostra planejada foi de 81.167 domicílios, considerando apenas aqueles ocupados, sendo elegíveis 69.994 domicílios, e as entrevistas foram realizadas em 64.348 domicílios, com taxa de não resposta de 8,1%12.

O plano amostral da PNS foi executado em três estágios. As unidades primárias de amostragem (UPAs) foram os setores censitários ou conjunto de setores; as unidades secundárias, os domicílios; as unidades terciárias, os residentes adultos (≥ 18 anos). Foram calculados fatores de ponderação para cada uma das três unidades de amostragem, considerando as probabilidades de seleção. O fator de ponderação para o residente selecionado foi calculado considerando também o peso do domicílio, ajustes de não resposta por sexo e calibração pelos totais populacionais por sexo e classes de idade estimados com o peso de todos os moradores. Detalhes sobre o processo de amostragem e ponderação são fornecidos na publicação sobre os resultados da PNS12.

O Quadro 1 apresenta os indicadores analisados no presente estudo, descrevendo o método de cálculo, a fonte dos dados e as perguntas realizadas durante os inquéritos.

Vigitel: Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico; PNS: Pesquisa Nacional de Saúde.

Quadro 1: Descrição dos indicadores utilizados no estudo. 

A população de estudo foi composta por adultos entre 18 e 74 anos residentes nas capitais e no Distrito Federal. Foram calculadas as prevalências e seus respectivos valores do intervalo de confiança de 95% (IC95%) para cada indicador, estratificadas por sexo, faixa etária (18 a 29, 30 a 59, 60 a 64, 65 a 74 anos), escolaridade (sem instrução e fundamental incompleto; fundamental completo e médio incompleto; médio completo e superior incompleto; superior completo), raça/cor da pele (branca, preta e parda) e conjunto de capitais por regiões geográficas (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste). As análises dos dados foram realizadas no programa Stata versão 11.0 (StataCorp ., CollegeStation , Estados Unidos), utilizando o comando survey para amostras complexas.

A participação do adulto na pesquisa foi voluntária e a confidencialidade das informações foi garantida. Ambos os inquéritos foram aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, sob os Pareceres nº 13.081/2008 e nº 355.590/2013 (Vigitel) e nº 328.159/2013 (PNS).

RESULTADOS

No ano de 2013, a Vigitel e a PNS entrevistaram, respectivamente, 52.929 e 60.202 pessoas com idade a partir de 18 anos. A proporção de motoristas adultos de carro ou moto que dirigiram logo depois de beber foi significativamente maior no sexo masculino tanto na Vigitel (29,3%) quanto na PNS (24,4%). Quanto ao grupo etário, essa proporção foi significativamente mais elevada entre os jovens de 18 a 29 anos, cujos valores foram de 31,6% na Vigitel e de 24,1% na PNS. Em relação ao nível de instrução, a referência a esse tipo de comportamento foi mais frequente entre os que possuíam escolaridade de ensino fundamental completo a médio incompleto, com valores aproximados em ambos os inquéritos (25,9% na Vigitel e 25% na PNS), sem apresentar diferenças significativas comparadas às demais classes de escolaridade. O hábito de dirigir após beber foi mais frequente entre pessoas de cor preta e parda, porém sem diferença significativa, em ambos os inquéritos, em relação aos brancos (Tabela 1).

Tabela 1: Proporção (%) de motoristas* adultos ( ≥ 18 anos) que dirigiram logo depois de beber, segundo variáveis sociodemográfias e capitais das regiões, por inquérito realizado (Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico e Pesquisa Nacional de Saúde). Brasil, 2013. 

Fonte: Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), 2013. IC95%: intervalo de confiança de 95%; PNS: Pesquisa Nacional de Saúde, 2013; *inclui todos os entrevistados no denominador.

Ainda na Tabela 1, pode-se observar que o hábito de dirigir após consumir bebida alcoólica entre os residentes das capitais de Estado e no Distrito Federal foi relatado por 26,3% dos adultos entrevistados na Vigitel e por 21,3% dos participantes da PNS. Tal comportamento foi relatado em maior frequência entre os residentes das capitais da Região Centro-Oeste (33,7% na Vigitel e 28,3% na PNS).

Na Tabela 2, apresenta-se a proporção de adultos que referiram beber e dirigir no conjunto de participantes das duas pesquisas. As maiores proporções foram obtidas para os entrevistados do sexo masculino (9,4% na Vigitel e 7,4% na PNS), com diferença estatisticamente significativa em relação ao sexo feminino. O grupo de 18 a 29 anos foi o que apresentou a mais elevada frequência (7,1%), segundo a Vigitel, seguido do grupo de 30 a 59 anos (5,2%), enquanto na PNS esses grupos apresentaram frequências de, respectivamente, 4,5 e 4,4%, com diferença significativa em relação aos demais grupos etários. O hábito de beber e dirigir foi mais frequentemente relatado entre os indivíduos que possuíam ensino superior completo, com diferença estatisticamente significativa em relação aos demais níveis de instrução. A maior proporção foi observada entre pessoas de cor branca, mas não foi verificada diferença na distribuição desse indicador segundo raça/cor da pele.

Tabela 2: Proporção (%) de adultos ( ≥ 18 anos)* que bebem e dirigem, segundo variáveis sociodemográfias e capitais das regiões, por inquérito realizado (Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico e Pesquisa Nacional de Saúde). Brasil, 2013. 

Fonte: Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), 2013. IC95%: intervalo de confiança de 95%; PNS: Pesquisa Nacional de Saúde, 2013; *inclui todos os entrevistados no denominador.

O hábito de beber e dirigir entre os residentes das capitais de Estado e no Distrito Federal foi relatado por 5,2% dos adultos entrevistados na Vigitel e por 3,9% dos participantes da PNS, atingindo a maior frequência entre os residentes das capitais da Região Centro-Oeste (7,9% na Vigitel e 6,1% na PNS), conforme apresentado na Tabela 2.

DISCUSSÃO

Os dois levantamentos epidemiológicos aqui analisados permitem determinar que o hábito de dirigir após ingestão de bebida alcoólica em qualquer quantidade foi relatado nas capitais brasileiras por cerca de um terço dos motoristas adultos, segundo a Vigitel, ou cerca de um quarto, segundo a PNS. Foi maior entre motoristas do sexo masculino, jovens de 18 a 29 anos de idade e em residentes das capitais da Região Centro-Oeste. Para a população em geral, o hábito de beber qualquer quantidade de bebida alcoólica foi referido por cerca de um décimo da população, segundo a Vigitel, e 7,4% na PNS. Dirigir também foi mais relatado entre os homens, com destaque para o grupo de 18 a 29 anos de idade e residentes nas capitais do Centro-Oeste do Brasil em 2013. Esses resultados são superiores às prevalências encontradas em países desenvolvidos, como os Estados Unidos da América13 e Japão14, o que pode ser justificado pelas diferenças culturais e também pela instituição de medidas controle legal sobre o consumo de álcool15.

Apesar da dificuldade em se obter dados sobre dirigir depois de beber, tal informação vem sendo disponibilizada por recentes inquéritos, o que pode apoiar as políticas de prevenção dessa prática, em especial nas medidas de educação e de compreensão da sociedade sobre os efeitos nocivos desse comportamento. Nesse sentido, a Vigitel e a PNS são de inestimável valor, pois seus dados revelam a extensão do problema na população brasileira. Com base nos dados da PNS, estima-se que, pelo menos, 6,4 milhões de motoristas dirigem após ingerir bebidas alcoólicas no Brasil e, nas capitais, cerca de 1,4 milhão de motoristas possuem tal prática12.

Dentre os diversos problemas resultantes do uso nocivo do álcool, dirigir alcoolizado aumenta o risco dos acidentes de transporte1. No Brasil, estudos têm apontado a relação entre o efeito danoso de álcool e direção veicular. A revisão de Carlini-Cotrim e Matta Chasin16 apontou estudo em quatro capitais brasileiras onde a alcoolemia positiva esteve presente em 92% (n = 865) das vítimas de acidentes de trânsito em uma semana típica. A presença de qualquer teor de álcool foi encontrada em 61% da amostra e 16,6% do total da amostra apresentou alcoolemia acima de 0,6 g/L. Em Recife, durante o Carnaval, 80,7% das vítimas de acidentes de trânsito tinham resultados positivos de álcool no sangue17. Em São Paulo, estudo na sala de urgências de um hospital público apontou que 21,8% das vítimas de acidentes de trânsito apresentaram alcoolemia positiva18. Em Diadema, São Paulo, 30% dos motoristas estavam sob a influência do álcool e 22% possuíam concentração acima de 0,6 g/L19.

A concentração de álcool no sangue produz diversas alterações neuromotoras. Mesmo em baixas doses, já ocorre diminuição da atenção, falsa percepção da velocidade, euforia e dificuldade de discernir distintas luminosidades10.

Políticas e medidas legais de restrição no consumo de álcool e direção veicular, como o controle de propaganda de bebidas alcoólicas, a proibição de vendas a menores de idade e leis que normatizam o funcionamento de postos de venda de bebidas alcoólicas, são importantes para a redução do risco e, principalmente, para salvar vidas1 2 4 10.

A literatura aponta reduções significativas no número de mortos e feridos em países que adotaram legislações rígidas quanto ao álcool e à direção veicular, como nos Estados Unidos20, em Cali, na Colômbia, dentre outros2. Em geral, as medidas mais efetivas são a existência de uma legislação rigorosa, uma fiscalização sistemática e continuada e um sistema judicial que garanta que o indivíduo infrator será penalizado10.

Estudos com dados da Vigitel21 22 apontaram melhorias em relação ao hábito de beber abusivamente e dirigir, mostrando uma mudança nos hábitos da população brasileira, com declínio na tendência de beber e dirigir entre 2007 e 2013, em homens, de todas as faixas de escolaridade, na maioria das regiões do país. Assim, confirmou-se a importância da Lei Seca na redução do consumo de álcool, coincidindo com a publicação das Leis nº 11.705/200823 e nº 12.760/201224, reiterando a importância do marco regulatório proibindo álcool e direção. Em 2012, a "Nova Lei Seca" aperfeiçoou o marco legislatório e possivelmente contribuiu para a redução do ato de dirigir embriagado, ao estabelecer outras provas testemunhais e ampliar as sanções ao infrator24. Mais recentemente outras iniciativas, como o Programa Vida no Trânsito25, resultaram na redução da mortalidade em nas capitais onde o projeto foi implantado inicialmente.

As prevalências estimadas pela Vigitel apresentaram valores mais elevados que os da PNS. Os inquéritos usaram perguntas que permitem calcular indicadores semelhantes. A Vigitel usou quatro questões e a PNS usou duas, além de serem adotados filtros distintos, o que pode justificar tais diferenças. Na PNS, na pergunta sobre a frequência do consumo de bebidas alcoólicas, foi adotado filtro que exclui os que referem ter bebido menos de uma vez por mês. Assim, a Vigitel considerou qualquer quantidade de consumo de bebida alcoólica, enquanto a PNS considerou o consumo uma vez ou mais por mês. Essas variações nas perguntas e nos filtros podem justificar as diferenças nos valores das estimativas. Observa-se, entretanto, que os valores ficaram próximos. Outra possível diferença entre os resultados dos dois inquéritos pode ser devida às abordagens de entrevista, enquanto a Vigitel faz entrevistas por telefone, a PNS realiza no domicílio. Uma entrevista face a face pode fazer com que o entrevistado se sinta constrangido em relatar um ato considerado ilícito.

Dentre os limites do estudo, cita-se o fato de os dados serem restritos às capitais brasileiras, onde se espera maior rigor na fiscalização. Os estudos adotam metodologias e amostragens distintas. Enquanto a Vigitel foi realizada na população com linhas telefônicas fixas nas capitais, a PNS foi realizada em domicílios. Assim, todos esses aspectos metodológicos podem afetar a comparabilidade dos inquéritos, que usam estratégias diferentes de amostragem, coleta de informação presencial na PNS e por telefone no Vigitel, além de perguntas e filtros distintos. O uso de fatores de ponderação na Vigitel possibilita a correção das estimativas dos fatores estudados para a população adulta do conjunto das cidades11.

Entretanto, os resultados foram próximos e apontam a importância do problema de beber e dirigir nas capitais brasileiras, confirmando a necessidade da continuidade das medidas de fiscalização e punição.

CONCLUSÃO

O estudo permitiu estimar a prevalência do hábito de dirigir após ingestão de bebida alcoólica entre motoristas e na população em geral a partir de dois inquéritos epidemiológicos de abrangência nacional. Embora distintos em sua metodologia, ambos são úteis para realizar o monitoramento dessa condição de risco para a morbimortalidade resultante da combinação ingestão de bebida alcoólica e condução de veículos no Brasil.

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 17 de Abril de 2015; Aceito: 06 de Outubro de 2015

Corresponding author: Deborah Carvalho Malta, Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, SAF Sul, Trecho 02, Lotes 05 e 06, Bloco F, Torre I, Edifício Premium, Térreo, Sala 16, CEP: 70070-600, Brasília, DF, Brasil. E-mail: dcmalta@uol.com.br

Correspondence to: Deborah Carvalho Malta, Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, SAF Sul, Trecho 02, Lotes 05 e 06, Bloco F, Torre I, Edifício Premium, Térreo, Sala 16, CEP: 70070-600, Brasília, DF, Brasil. E-mail: dcmalta@uol.com.br

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