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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.19 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201600010009 

Artigos Originais

Estimativa de sequelas físicas em vítimas de acidentes de transporte terrestre internadas em hospitais do Sistema Único de Saúde

Silvânia Suely Caribé de Araújo AndradeI  II 

Maria Helena Prado de Mello JorgeI 

IFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

IIDepartamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde - Brasília (DF), Brasil

Resumo:

Objetivos:

Descrever o perfil das vítimas que foram internadas por lesões decorrentes de acidentes de transporte terrestre (ATT) e com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas, no Brasil, de 2000 a 2013, e analisar sua tendência temporal neste período.

Métodos:

Estudo ecológico com dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). Foi utilizada regressão de Prais-Winstein para estudo das tendências.

Resultados:

No período estudado, ocorreram 1.747.191 internações por ATT. O estudo destas identificou 410.448 pessoas (23,5%) com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas. Destas, 77,7% eram do sexo masculino, 26,5% na faixa etária de 20 a 29 anos, 46,4% residentes na Região Sudeste, 32,5% pedestres e 31,1% motociclistas. Para sequela "certeza" foram observadas 51.189 casos (12,5%), 43,8% eram pedestres. Houve 359.259 internações cujo diagnóstico sugeria sequela física "provável", destes 43,3% eram motociclistas. A tendência foi de estabilidade para as internações por ATT relacionadas ao total de pacientes com sequelas físicas e com sequela "provável". Todavia, foi observado aumento nas internações por ATT com diagnóstico sugestivo de sequela "certeza" no sexo masculino e nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Conclusão:

As internações com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas representaram cerca de 1/4 das internações por ATT registradas. As maiores proporções foram no sexo masculino, entre os adultos jovens, residentes na região Sudeste e entre os pedestres. Houve estabilidade na tendência das taxas de internação por ATT com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas para o Brasil e regiões, mas tendência ascendente para sequela "certeza" para a região Centro-Oeste e Norte e para o sexo masculino.

Palavras-chave: Acidentes de trânsito; Complicações; Distribuição temporal; Causas Externas; Sistemas de informação; Brasil.

Introdução

Os acidentes de transporte terrestre são importante causa de morte, lesão e incapacidade, representando um impacto no setor Saúde devido a sobrecarga sobre os serviços de urgência e emergência, atenção especializada, assistência social e reabilitação1,2,3. Muitos acidentes não têm o óbito como consequência, mas implicam em sequelas que produzem efeitos ao longo da vida das pessoas, como incapacidades4.

No mundo, estima-se que 20 a 50 milhões de pessoas sejam vítimas de lesões não-fatais decorrentes de acidentes de transporte terrestre, contribuindo para o aumento na prevalência de incapacidades5. Ainda globalmente, no ano 2000, os acidentes de transporte terrestre foram responsáveis por 69.138.531 anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALY), representando uma carga global de 2,4% dos DALYS por todas as causas e ocupando a 10° posição entre as vinte principais causas de mortalidade. Em 2012, estes acidentes alcançaram a 8° posição na listas das 20 principais causas de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade com 78.723.890 anos6.

Informações sobre a prevalência de pessoas com incapacidades devido a acidentes de transporte terrestre são escassas na literatura, especialmente sobre incapacidades permanentes. Entretanto, as evidências existentes indicam que esta prevalência varia de menos de 1%, em países como a Croácia, México e Rússia, a 25% na Polônia. Em média, uma em cada vinte vítimas de acidente de transporte terrestre será incapacitada permanentemente7.

A distribuição dessas ocorrências é desigual entre os países. Para aqueles com alta renda, foram previstas, em 2004, 2,8 e 1,1 milhões de casos de incapacidade moderada ou severa no grupo etário de zero a 59 anos e nos maiores de 60 anos, respectivamente. Todavia, para os países com renda média e baixa, afirmou-se que 35,4 milhões de pessoas com idade de zero a 59 anos e 5,7 milhões entre aqueles com mais de 60 anos apresentariam alguma incapacidade moderada ou severa8. Na região das Américas, mais de cinco milhões de indivíduos sofreriam lesões subsequente a acidentes de transporte anualmente3.

No Brasil, as taxas de mortalidade por acidentes de transporte terrestre têm diminuído parcialmente devido à aplicação do Código de Trânsito de 1998, mas apresentaram aumento na última década. Todavia, alto número de sobreviventes apresentam importantes sequelas físicas e psicológicas, principalmente adultos jovens9.

De acordo com os dados do Inquérito do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), realizado em serviços de urgência e emergência de 23 capitais e do Distrito Federal no ano de 2011, os principais motivos de internações hospitalares por causas externas foram as quedas, seguido dos acidentes de transporte. A maioria dos casos (67%) evoluiu para alta nas primeiras 24 horas após o atendimento de emergência, ao passo que 23,1 e 6,6% foram encaminhados para internação hospitalar ou transferidos para outro serviço, respectivamente10.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 2008, aponta que 4,8 milhões de pessoas estiveram envolvidas em acidentes de transporte; destas, 30,7% deixaram de realizar suas atividades rotineiras devido ao acidente11. Dados mais atuais da Pesquisa Nacional de Saúde 2013, realizada em amostra representativa de todo território brasileiro, apontam que mais de dois milhões de adultos (≥ 18 anos) estiveram envolvidos em acidente de trânsito com lesões corporais nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa. Destes, 15,1% relataram que tiveram sequela e/ou incapacidade decorrente deste evento, com as maiores prevalências entre as mulheres (18,6%), na faixa etária de 40 a 59 anos (21,3%) e entre os indivíduos com baixa escolaridade (19,3%)12.

Além disso, as causas externas em geral e os acidentes de transporte em particular acarretam altos custos emocionais e sociais, como dias de ausência do trabalho, danos mentais e emocionais incalculáveis nas vítimas e em suas famílias e pelos anos de produtividade ou de vida perdidos2,3. As sequelas psicológicas e transtorno de estresse pós-traumático decorrente dos acidentes de transporte terrestre (ATT) são potencialmente incapacitantes a longo prazo13, e apesar de extremamente relevantes ainda são pouco estudados.

O objetivo deste estudo foi descrever o perfil das vítimas que foram internadas devido a ATT no Brasil entre os anos de 2000 e 2013 e apresentaram diagnósticos sugestivos de sequelas físicas, bem como analisar a tendência temporal neste período.

Métodos

Foi realizado um estudo ecológico de séries temporais das internações de vítimas de ATT que apresentaram diagnóstico sugestivo de sequelas físicas no Brasil, no período de 2000 a 2013. Os dados referentes às internações foram obtidos do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (Datasus/Ministério da Saúde) em seu endereço eletrônico.

O SIH/SUS contempla informações sobre internações realizadas em hospitais públicos e conveniados ao SUS13,14. Foram calculadas as taxas anuais de internação com sequelas físicas decorrentes de ATT, segundo sexo, faixa etária e região geográfica. Para o numerador dessas taxas, primeiramente, foram selecionadas na base de dados do SIH as internações com diagnóstico secundário entre os códigos V01 a V89 do capítulo XX da décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde (CID-10)15, correspondente a ATT.

A partir da identificação das internações devido a ATT, foi utilizada a definição de caso para pessoas sequeladas segundo a metodologia desenvolvida por Mello Jorge e Koizumi16, que trabalharam com sequelas visíveis de acordo com diagnóstico principal correspondente a sequelas "certeza": esmagamento (CID10: S07, S17, S28, S38, S47, S57, S67, S77, S87, S97, T04, T.14.7), amputação (CID10: S08, S18, S28, S38, S48, S58, S68, S78, S88, S98, T05, T09.6, T14.7, T11.6, T13.6), traumatismo de nervos (CID10: S04, S44, S54, S64, S74, S84, S94, T06.2, T14.4, T11.3), traumatismo raquimedular (CID10: S14, S24, S34, T06.0, T06.1, T09.3, T09.4), sequela (CID10: S90 a S94); e "provável": traumatismo crânio-encefálico (CID10: S06) e queimadura (CID10: T20 A T32). Não serão estudas sequelas psicológicas neste trabalho.

As estimativas populacionais fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, conforme projeção para o período de 2000-206017, foram utilizadas como denominadores para o cálculo das taxas de internação. A análise de tendência das taxas de internação por sequelas físicas decorrentes de ATT, no período de 2000 a 2013 foi realizada por meio de modelo autorregressivo de Prais-Winsten. Este método é recomendado para análises de séries temporais, pois corrige a autocorrelação serial dos resíduos18. Considerou-se tendência significativa aquela cujo modelo estimado obteve p ≤ 0,05.

A variação anual (%) das taxas de internação por sequelas físicas decorrentes de acidentes de transporte terrestre no período foi estimada utilizando o log da taxa de internação como desfecho (Y) no modelo de regressão de Prais-Winstein. O coeficiente de regressão obtido foi aplicado à fórmula da taxa de variação anual (%): (-1 + 10ˆb) x 100. Os intervalos de confiança de 95% (IC95%) da taxa de variação anual foram determinados por meio da seguinte fórmula: b ± tEP, onde t corresponde ao valor do teste t de Student na tabela específica e o EP é o erro padrão do coeficiente do desfecho fornecido pela regressão18. As análises foram realizadas utilizando-se os Softwares Excel (versão 10) e Stata 11.

Os dados utilizados no presente estudo possuem acesso público, sem a identificação dos pacientes. Além disso, foram observados os princípios éticos que regem a pesquisa envolvendo seres humanos, conforme resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Este estudo faz parte do projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo sob o parecer número 85973/2012.

Resultados

No período de 2000 a 2013 ocorreram 1.747.191 internações por ATT, destas foram identificadas como vítimas com diagnósticos sugestivos de sequelas físicas 410.448 pessoas em todo o país. Destas, 77,7% eram do sexo masculino, 26,5% estavam na faixa etária de 20 a 29 anos, 46,4% eram residentes na região Sudeste e 32,5 e 31,1% eram pedestres e motociclistas, respectivamente. Considerando a sequela "certeza" (esmagamento, amputação, traumatismo de nervos, traumatismo raquimedular e sequela propriamente dita), foram observadas 51.189 internações decorrentes de ATT associadas a esta causa, sendo que 76,4% eram do sexo masculino, 24,1% estavam na faixa de 20 a 29 anos, 48,5% residiam na região Sudeste e 43,8% eram pedestres (Tabela 1).

Tabela 1: Total de internações por Acidente de transporte terrestre relacionadas com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas segundo algumas características das vítimas, Brasil, 2000 a 2013. (n = 410.448). 

Houve 359.259 internações durante os anos de estudo decorrentes de ATT com diagnósticos sugestivos de sequela "provável" (traumatismo crânio-encefálico e queimadura). Destas, 77,9% eram do sexo masculino, 26,9% estavam na faixa etária de 20 a 29 anos e 46,1% eram residentes da região Sudeste. Segundo o tipo de vítima, os motociclistas apresentaram a maior proporção de internações consequentes de ATT relacionadas com diagnóstico sugestivo de sequela "provável" (31,6%) (Tabela 1).

As taxas brutas de internação por ATT relacionadas com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas, para todo o país, foram de 13,3 e 16,3 internações por 100 mil habitantes nos anos 2000 e 2013, respectivamente. Essas taxas foram no ano 2000 de 1,7 internações por 100 mil habitantes para sequela "certeza" e 11,6 internações por 100 mil habitantes sequela "provável". Em 2013, essas taxas alcançaram 2,5 e 13,8 internações por 100 mil habitantes para sequela "certeza" e para sequela "provável", respectivamente (Tabela 2).

Tabela 2: Taxa de internação (bruta e padronizada) em vítimas de acidentes de transporte terrestre com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas e taxa de variação anual (%) e tendência, Brasil e regiões, 2000 e 2013 (n = 410.448). 

Fonte: Sistema de Internações Hospitalares do Sistema Único de Saúde/Ministério da Saúde (SIH-SUS/MS).

Comparando as taxas padronizadas de internação por ATT relacionadas com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas por região, no ano 2000, as maiores taxas tanto tanto para sequela "certeza", quanto para sequela "provável" foram notadas na região Sudeste. Todavia, em 2013, as maiores taxas foram na região Nordeste para o total de sequelas físicas e para as sequelas "provável", e na região Centro-Oeste para sequela "certeza" (Tabela 2).

No Brasil e nas regiões, foi observada estabilidade nas taxas padronizadas de internação por ATT com diagnósticos sugestivos de sequelas físicas, nos anos de 2000 a 2013; o percentual de variação nas taxas estudadas foi de 1,2% (IC95% -19,1 - 26,5) para o país (Tabela 2). Para os diagnósticos sugestivos de sequelas "certeza" oriundas de ATT, houve tendência de aumento nas taxas de internação para as regiões Norte (variação: 9,8%; IC95% 1,3 - 38,1) e Centro-Oeste (variação: 17,6%; IC95% 2,5 - 85,1) (Tabela 2).

As taxas de internação por ATT com diagnóstico sugetivo de sequelas "prováveis" mostraram comportamento estável tanto para o Brasil (variação: 0,7%; IC95% -8,6 - 12,5) quanto para as regiões (Tabela 2). No sexo feminino, as taxas de internação devido a ATT com diagnóstico sugestivo de sequelas físicas variaram de 6,1 internações por 100 mil mulheres em 2000 a 6,9 internações por 100 mil mulheres em 2013. Houve estabilidade no comportamento das taxas de internação decorrente de ATT com diagnóstico sugestivo para sequela (variação: -0,5%; IC95% -19,1 - 22,4), sequela "certeza" (variação: 2,3%; IC95% -10,4 - 19,5) e sequela "provável" (variação: -0,9%; IC95% -9,8 - 9,0) no sexo feminino no período de 2000 a 2013 (Tabela 3).

Tabela 3: Taxa de internação (bruta e padronizada) em vítimas de acidentes de transporte terrestre com diagnóstico sugestivo de sequela física segundo tipo e sexo, 2000 e 2013 (n = 410.448). 

Fonte: Sistema de Internações Hospitalares do Sistema Único de Saúde/Ministério da Saúde (SIH-SUS/MS).

A taxa de internação para ATT com diagnóstico sugestivo de sequela para o sexo masculino foi de 20,52 e 25,79 internações por 100 mil homens nos anos 2000 e 2013, respectivamente. Foi observado comportamento estável nas taxas de internação por ATT com diagnóstico sugestivo por sequela (variação: 1,9%; IC95% -15,7 - 23,3) e sequela "provável" entre o sexo masculino no período analisado (variação: 1,4%; IC95% -8,2 - 9,4). Contudo, foi identificada tendência de aumento nas taxas de internação por ATT com diagnóstico sugestivo de sequela "certeza" entre os homens nos anos estudados (variação: 6,5% ; IC95% 1,2 - 29,0) (Tabela 3).

Discussão

As internações por ATT com diagnósticos sugestivos de sequelas físicas representaram mais de 1/4 das internações por ATT registradas no Sistema de Informação Hospitalar (SIH) do SUS no período de 2000 a 2013. As maiores proporções foram observadas no sexo masculino, entre os adultos jovens, residentes na região Sudeste e entre os pedestres. Este perfil foi semelhante para ambos os tipos de sequela ("certeza" e "provável"), diferindo apenas nesta última quanto ao tipo de vítima que é mais frequentemente afetada: os motociclistas.

As regiões que apresentam as maiores taxas de internação por ATT com diagnósticos sugestivos de sequelas físicas foram Sudeste e Nordeste, nos anos 2000 e 2013, respectivamente. Houve estabilidade na tendência das taxas de internação decorrente de ATT associadas com diagnósticos sugestivos de sequelas físicas para o Brasil e regiões. No entanto, foi identificada tendência de aumento nas taxas de internação por ATT relacionadas a diagnóstico sugestivo de sequela "certeza", com destaque para as regiões Norte e Centro-Oeste e para o sexo masculino.

As taxas de mortalidade por acidentes de trânsito no Brasil atualmente estão menores que no início da década de 1990, parcialmente devido à aplicação do Novo Código de Trânsito de 1998. Todavia, alto número de sobreviventes apresentam importantes sequelas físicas e psicológicas, principalmente adultos jovens9,19.

No país, não existem dados que mostrem a carga das sequelas físicas em qualquer tipo de ATT. As primeiras estimativas gerais dessa situação foram feitas por Mello Jorge e Koizumi16, que, partindo de alguns diagnósticos selecionados (dentre estes, os traumatismos de coluna com comprometimento medular e as amputações) de pacientes vítimas de ATT, calcularam que cerca de 20% daqueles que evoluem para alta hospitalar apresentaram algum tipo de sequela.

Nos Estados Unidos, dados do National Health Interview Survey Disability de 1995 estimaram 1.275.172 pessoas com alguma incapacidade relacionada à colisão de veículos, com as maiores proporções entre mulheres e adultos na faixa etária de 55 a 64 anos de idade20. Outro estudo realizado em Yorkshire, na Inglaterra, em uma coorte de 1.239 adultos (≥ 18 anos), com dados coletados no período de 1993 a 1999, apresenta uma prevalência de 18,3% de sequelas procedentes de lesões nos pés e que demandaram mudança de trabalho/ocupação devido a lesão21.

A prevalência de incapacidade devido a acidentes (quedas, eventos ocupacionais, acidentes de transporte, dentre outros) em um estudo de base populacional em Gana foi de 0,83% (IC95% 0,67 - 1,01%), sem diferença entre homens e mulheres, sendo que as colisões entre veículos foram os tipos de acidentes mais frequentes. As lesões em pedestres foram a segunda causa mais comum de lesões incapacitantes devido a ATT22.

Um estudo realizado no município de Maringá (PR) com 3.468 vítimas de acidentes de trânsito no ano 2000 estabeleceu como fatores de risco associados à internação: ser pedestre, ciclista ou motociclista, ter acima dos 50 anos de idade, sofrer colisão com transporte pesado ou ônibus, acidentes durante a madrugada ou à tarde, de condutor residente no município23. Apesar desta pesquisa não mencionar sequelas físicas, comparando com o presente trabalho, há concordância quanto ao tipo de vítima internada nos dois estudos: em sua maioria, pedestres. Contudo, há diferença quanto à faixa etária afetada. Os autores afirmaram que a maioria dos idosos era pedestre, fator que aumenta a vulnerabilidade aos ATT.

Quanto às internações por ATT com diagnósticos sugestivos de sequelas físicas ser mais frequente em adultos jovens no estudo atual, a hipótese explicativa pode ser a maior exposição desse grupo populacional a situações de risco, como consumo abusivo de bebidas alcoólicas, direção após este consumo abusivo, exposições mais arriscadas na direção de veículos, condução além dos limites de velocidade permitidos, inexperiência, cansaço, dentre outros10,24,25,26,27,28,29.

O predomínio de internações decorrentes de ATT associadas com diagnósticos sugestivos de sequelas e a sua tendência ascendente no sexo masculino é condizente com outros estudos que demonstram que os homens e os adultos jovens são o segmento populacional mais afetado pelos ATT10,25,27,28,29. No ano de 2006, a primeira causa de internações entre os homens de 15 a 59 anos foi causas externas30. Em 2010, ocorreram 929.893 internações por causas externas, os acidentes de transporte terrestre representaram 15,7% das internações e com risco aumentado para os homens e na faixa etária de 20 a 59 anos31. Fatores socioculturais (machismo, relações de poder, competitividade, agressividade, dentre outros) que estabelecem o comportamento masculino na sociedade podem estar relacionados à maior exposição a situações de dano à saúde29,32,33.

Uma revisão sistemática sobre lesões por ATT descrevem que de 35 a 40% destes acarretam traumas graves, cujas principais vítimas são os pedestres, do sexo masculino e na faixa etária entre 19 e 29 anos. O traumatismo crânio-encefálico é o tipo isolado de lesão mais comum nos casos graves e fatais e com maior potencial de gerar sequelas34.

Nos dados do presente estudo sobre a distribuição geográfica das internações por ATT relacionadas com diagnóstico sugestivo de sequelas destacaram-se as regiões Sudeste e Nordeste corroborando com um trabalho que demonstrou que, já em 2003, a região Sudeste foi proporcionalmente o estrato geográfico com maior concentração de óbitos por ATT (41%), seguida da região Nordeste (22%)19. A região Nordeste também apresentou elevação do risco de morte por ATT entre os anos de 2000 a 201035.

Os motociclistas foram o tipo de vítima mais afetado nas internações por ATT associadas com diagnóstico de sequelas "prováveis". A motocicleta esteve envolvida em 56,8% dos ATT (n = 7.451) atendidos nos serviços de urgência e emergência em 24 capitais e no Distrito Federal, investigados por meio de inquérito do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA) no ano de 201110. O uso de dispositivos de segurança, como o capacete, contribui para minimizar a gravidade do acidente e consequentemente a ocorrência de sequelas33. Entretanto, dados de uma série histórica da década de 1980 a 2003 indicam o aumento da mortalidade por ATT entre os motociclistas; a hipótese mais provável é a que relaciona o fato ao crescimento da frota de motocicletas no país19.

Os motivos do incremento na frota de motociclistas podem ser atribuídos à precariedade do transporte coletivo, aos serviços de tele-entregas, à possibilidade de um trabalho para os jovens e a facilidade de compra de uma motocicleta34. Os motociclistas apontaram que os riscos de acidentes de trânsito estão relacionados a interesses pessoais e sociais para responder demandas que envolvem dinheiro, velocidade e urgência35.

A tendência de aumento nas taxas de internação por ATT relacionadas ao diagnóstico sugestivo de sequela "certeza", principalmente na região Centro-Oeste, condizem com os dados de mortalidade por ATT em que a região citada apresentou as maiores taxas de mortalidade em 200322. Os principais fatores de risco implicados na geração de sequelas de ATT são: disponibilidade de serviços de urgência, gravidade da lesão, tempo até o atendimento pré-hospitalar, dano medular34,39,40,41,42.

Como limitação deste trabalho cita-se o uso de base de dados referente apenas às internações em serviços vinculados ao SUS. Entretanto, essas internações correspondem a cerca de 70% das internações realizadas no país13,14. Uma outra limitação foi a não inclusão das sequelas psicológicas decorrentes de ATT.

Conclusão

A prevenção dos ATT e de suas sequelas no Brasil está diretamente relacionada à atenção pré-hospitalar e hospitalar das vítimas e para, além disso, à vigilância dos acidentes e violências, à adoção de medidas educativas e legislativas de segurança viária que contribuam para a redução da morbimortalidade por esses agravos, conforme as diretrizes da Política Nacional de Redução da Morbimortalidade sobre Violência e Saúde40,43. Os atendimentos de reabilitação assumem importância crescente com o aumento das sequelas "certeza" no país. Entretanto, os serviços de reabilitação ainda são insuficientes, inadequados e de baixa cobertura44. Isso posto, recomenda-se maior investimento na prevenção dos ATT e na reabilitação das vítimas com sequelas, reduzindo o impacto social desses agravos. Há necessidade de políticas públicas em saúde e estratégias que possibilitem o acesso a ações tanto no campo preventivo quanto no campo da reabilitação.

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 04 de Maio de 2015; Aceito: 02 de Setembro de 2015

Autor correspondente: Silvânia Suely Caribé de Araújo Andrade. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde. SAF Sul, Trecho 02, lotes 05 e 06, bloco F, Torre I, Edifício Premium, térreo, sala 16, CEP: 70070-600, Brasília, DF, Brasil. E-mail: silvania.andrade@saude.gov.br

Conflito de interesses: nada a declarar

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