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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.19 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201600010020 

Notas e Informações

Um dicionário na dinâmica da epidemiologia

José Leopoldo Ferreira AntunesI 

IFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO:

Este texto sintetiza a repercussão do livro "A Dictionary of Epidemiology " em suas duas mais recentes edições (2008 e 2014). Foram relacionadas as resenhas, debates e comentários sobre o livro na imprensa especializada, bem como as intervenções no debate de Miquel Porta, editor da publicação. Procura-se sublinhar a importância do dicionário na dinâmica do meio profissional, como elemento de aglutinação e debate, tanto antes como depois de sua publicação. Por fim, são apresentadas sugestões quanto aos novos rumos que poderão vir a ser tomados nas futuras edições desse volume.

Palavras-chave: Epidemiologia; Dicionário; Formação de conceito; Consenso; Educação profissional em saúde pública; Estudos epidemiológicos.

Um dicionário de epidemiologia! Com esse sugestivo título, e sob os auspícios da International Epidemiological Association , o livro foi inicialmente lançado por John Last, da Universidade de Ottawa, e uma equipe de colaboradores em 19831. Novas edições se seguiram, sempre ampliando o número de verbetes e renovando seu conteúdo: 19872, 19953, 20014, 20085 e 20146. A cada nova edição, os predicados informativos, formativos e normativos dessa iniciativa foram saudadas na imprensa especializada.

Quando a quinta edição foi lançada em 2008, havia mudanças importantes em relação às anteriores. Sete anos haviam se passado desde o lançamento da quarta edição; o livro ganhara muitas páginas. Novos itens foram conceituados; muitos foram revisados. John Last, o proeminente protagonista das quatro primeiras edições, se retirara para uma posição coadjuvante, deixando na liderança editorial um de seus ex-colaboradores, Miquel Porta, o coordenador da unidade de epidemiologia clínica e molecular de câncer no Institut Hospital del Mar d'Investigacions Mèdiques (IMIM), em Barcelona. O mundo também mudara bastante no período, como notou o novo editor no prefácio. O enorme crescimento da Internet, o surgimento do Google e da Wikipedia mudaram o modo de se efetuar buscas e se relacionar com um dicionário.

Como estratégia para a elaboração da quinta edição, Miquel Porta abriu uma chamada pública do tipo wiki , solicitando a intervenção do meio profissional para propor mudanças nos itens já conceituados e sugerir novos. Ao final desse processo, foram registradas 224 colaborações (mais de 400 no processo da sexta edição), fornecendo ideias para a equipe de editores sistematizar no texto.

O meio profissional recebeu favoravelmente a quinta edição. Vários periódicos científicos saudaram o lançamento com apreciações elogiosas7,8,9,10,11,12. De fato, o dicionário cumpria a função de facilitar a comunicação entre os profissionais de saúde; fornecia referências para o ensino e pesquisa; e favorecia a comunicação dos achados epidemiológicos. Essas resenhas sublinharam as muitas qualidades do livro e suas diferentes formas de utilização. Além disso, perquiriram a opinião de seus possíveis leitores: o docente e pesquisador experiente; o estudante que inicia uma aplicação mais intensa à disciplina; o profissional de saúde dedicado a outras especialidades.

Mas houve também uma apreciação crítica importante. Olli Miettinen13, professor da Universidade McGill e importante referência no meio epidemiológico, desdenhou o prefácio muito extenso, rejeitou a consulta pública a colegas sem aplicação consistente à teoria epidemiológica e criticou a conceituação de vários verbetes de importância central no livro: epidemiologia; doença; caso; etiologia; população; incidência, prevalência e taxa; fator de risco e causa; desenho do estudo; intervenção; eficácia e efetividade; odds ratio e valor de p.

Miquel Porta14 não quis contra-argumentar sobre a definição dos itens específicos; mas não se eximiu de replicar a crítica, com vigor talvez até excessivo. Segundo ele, o Prof. Miettinen teria perdido substancialmente em inovação e influência nas ciências da saúde nos últimos 25 anos. A título de resenhar o dicionário, Miquel Porta continuava sua réplica, Miettinen teria querido reiterar suas próprias ideias, pois seu texto apenas referenciava as publicações dele mesmo. Não obstante, Miettinen sequer teria notado que, em vários dos verbetes cuja conceituação ele criticara, a equipe de editores do dicionário havia citado e referenciado abundantemente os textos por ele escritos.

A tréplica de Miettinen15 elevou ainda mais o calor do debate. Em uma nota bem curta, ele reclamava que Miquel Porta teria atacado o crítico, em vez de levar a crítica em consideração. E concluía afirmando que o trabalho de definição dos conceitos epidemiológicos demandava interlocutor mais habilitado, recomendando que Miquel Porta fosse substituído para a organização da próxima edição do dicionário. A proposta inusitada e o tom acerbo da polêmica fez com que os dirigentes da International Epidemiological Association intervissem16, valorizando o trabalho editorial de Miquel Porta e reafirmando o acerto em sua indicação.

De fato, Miquel Porta continuou seu trabalho e lançou a sexta edição do dicionário em 20146. De novo, seu trabalho foi favoravelmente acolhido e suas várias qualidades positivas foram sublinhadas nos periódicos científicos da área17,18,19,20. Apesar disso, novas críticas foram formuladas, e novas réplicas foram oferecidas pelo editor.

Uma primeira questão retomava a necessidade já apontada por ocasião do lançamento da edição anterior8,19: era preciso facilitar o acesso ao dicionário via web . Kogevinas21 via pouco sentido em não ter o texto em open access na atualidade, o que limitaria consideravelmente o seu uso. Era uma pena que o enorme esforço na elaboração do texto não resultasse em sua máxima utilização. Sobre isso, Miquel Porta22 respondeu de imediato, reiterando que o livro já podia ser adquirido em diferentes formatos eletrônicos e que a International Epidemiological Association facilitava o acesso a suas publicações para países de baixa renda. Mas oferecer o dicionário em acesso aberto implicaria custo adicional de editoração.

Como Miettinen fizera para a edição anterior, Raj Bophal, da Universidade de Edinburgh, escrutinizou diversos conceitos de importância central para a disciplina, e apontou inconsistências, ausências e deficiências23. Dentre outras definições, ele avaliou os conceitos de epidemiologia; incidência e prevalência; causalidade e diagramas causais; estudos ecológicos e caso-controle; randomização mendeliana; regressão de Poisson; risco relativo; intervalo de confiança. Ao contrário de Miettinen, no entanto, Raj Bophal expressou cordialidade em sua crítica, justificando que a elaboração de um dicionário é um trabalho sempre em progresso, um processo que não se conclui. E terminava observando que todos que amam a epidemiologia devem ser gratos a Miquel Porta e John Last, cuja paixão e energia têm sido a força motriz do sucesso das seguidas edições do dicionário.

Miquel Porta24 respondeu de modo também cordial, frisando, no título de sua réplica, que a resenha era positiva, e reiterando, já na primeira frase, que a crítica fora gentil. Mesmo assim, ele quis contra-argumentar sobre três dos conceitos discutidos por Raj Bophal: diagramas causais, estudos caso-controle e risco relativo. Mas seu silêncio sobre os demais itens da crítica talvez seja ainda mais significativo do que os pontos de réplica. Como todo bom livro, o dicionário se sustenta por si mesmo, e prescinde do esforço do editor em justificar cada decisão que eventualmente venha a ser questionada.

A mesma consideração parece ter sido dada à crítica seguinte; isto é, ao não replicar, Miquel Porta parece ter concordado que o texto do dicionário é suficiente e não demanda explicações adicionais. Paul Fine, da London School of Hygiene & Tropical Medicine , veio a público25 para refletir sobre o conceito de epidemiologia, tomando a definição da sexta edição como ponto de partida.

A elaboração do dicionário demanda a tarefa de perscrutar o meio profissional para aferir os consensos possíveis quanto a conceitos e definições, que devem ser refletidos no texto. Espera-se, do dicionário, que ele reflita a linguagem que é de fato utilizada, e não a que deveria ser utilizada, por mais balizada que seja a opinião de quem queira definir o que deve ou não ser utilizado. Para aferir a linguagem que é efetivamente usada, Miquel Porta examinou 800 itens de literatura, os quais foram referenciados na sexta edição, abriu a chamada pública do tipo wiki e consultou cerca de 250 colegas nominalmente indicados nas páginas introdutórias.

Mas esse enorme esforço de organização do meio profissional não se encerra com a publicação de cada nova edição do dicionário. Alguns especialistas manifestam suas sugestões por intermédio das consultas prévias, outros opinam posteriormente, quando o texto já está impresso. Paul Fine25 afirmou que a obsessão com definições é característica inerente à epidemiologia, pois ela sempre envolve condições complexas para observação, a busca de recursos apropriados para inferência e várias armadilhas e vieses que podem induzir a erro. Em outras palavras, as polêmicas sobre conceitos epidemiológicos que a publicação do dicionário propiciou fazem parte da dinâmica da especialidade.

Os epidemiologistas são treinados para serem exigentes quanto a questões conceituais e metodológicas. Não é de estranhar que as seguidas edições do dicionário tenham gerado debates. E é positivo que o editor tenha demonstrado aptidão e boa vontade em interagir com o meio profissional, tanto na etapa de preparação de cada nova edição, como no período posterior à sua publicação.

O dicionário revelou-se um instrumento importante para a dinâmica da epidemiologia. Sua oferta em acesso aberto continuará a ser cobrada pelo meio profissional; essa meta decerto persistirá como desafio a ser vencido. A constituição de redes temáticas para a elaboração de glossários especializados também delimita uma perspectiva para o futuro. Muitos epidemiologistas se aplicam majoritariamente a uma área temática: epidemiologia do câncer, das doenças transmissíveis, doenças cardiovasculares, saúde mental, saúde bucal, atividade física, dentre outras. Essas ramificações da epidemiologia decerto compartilham o arcabouço conceitual manifesto no dicionário; mas têm seus próprios conceitos e métodos específicos, cujo relacionamento em publicações específicas poderia cativar ainda mais seu desenvolvimento profissional.

REFERÊNCIAS

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 13 de Novembro de 2015; Aceito: 16 de Dezembro de 2015

Autor correspondente: José Leopoldo Ferreira Antunes. Avenida Doutor Arnaldo, 715, CEP: 01246-904, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: leopoldo@usp.br

Conflito de interesses: nada a declarar

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