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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.21  supl.2 São Paulo  2018  Epub Feb 04, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720180005.supl.2 

ARTIGO ORIGINAL

Idosos não japoneses, japoneses e descendentes de japoneses no Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento: condições funcionais e de saúde

Tamara Nogueira PetroniI 

Daniella Pires NunesII 

Yeda Aparecida de Oliveira DuarteIII 

Helena Akemi Wada WatanabeIV 

Maria Lúcia LebrãoIV  *

ICentro de Referência do Idoso da Região Norte - São Paulo (SP), Brasil.

IICurso de Enfermagem, Universidade Federal do Tocantins - Palmas (TO), Brasil.

IIIEscola de Enfermagem, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IVFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO:

Introdução:

A cidade de São Paulo conta com a maior comunidade de descendentes japoneses fora do Japão.

Objetivos:

Comparar as condições demográficas, econômicas, funcionais e de saúde de idosos não japoneses, japoneses e descendentes de japoneses, bem como analisar comparativamente as condições funcionais e de saúde de idosos nascidos no Japão e de seus descendentes nascidos no Brasil.

Métodos:

Estudo transversal realizado no município de São Paulo, no ano de 2010, com 1.345 idosos (≥ 60 anos) participantes do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE). Os idosos foram classificados em não japoneses (não nascidos no Japão), japoneses (nascidos no Japão) ou descendentes diretos de japoneses. Para a análise dos dados, utilizou-se o teste do χ2 com correção Rao-Scott.

Resultados:

Dos 1.345 idosos, 3,3% eram japoneses ou descendentes. Esses se diferenciavam dos não japoneses quanto à escolaridade mais elevada e suficiência de renda. Entre os idosos nascidos no Japão, houve maior proporção de longevos (38,8%), portadores de doenças cardiovasculares (48,9%) e de declínio cognitivo (26,7%).

Conclusão:

Nota-se que os idosos japoneses/descendentes apresentaram melhor funcionalidade quando comparados aos não japoneses. Já entre japoneses e descendentes, observou-se diferenças no perfil das doenças. Acredita-se que tais resultados possam ser decorrentes das influências culturais.

Palavras-chave: Idoso; Atividades cotidianas; Japão

INTRODUÇÃO

Embora o processo de envelhecimento populacional seja um fenômeno mundial, há diferenças na expectativa de vida entre os países, mesmo entre aqueles que têm similaridades em seu desenvolvimento. Populações culturalmente distintas apresentam diferentes formas de adoecer e morrer, possivelmente em decorrência de seus hábitos e costumes, o que vem sendo investigado mais recentemente em estudos que abordam fenômenos migratórios envolvendo diferentes nacionalidades ou religiões1.

A imigração japonesa para o Brasil iniciou-se oficialmente em 18 de junho de 1908, com a chegada de 733 pessoas a bordo do vapor Kasato Maru no Porto de Santos. Ao longo do último século, a comunidade nipo-brasileira, conhecida também como nikkey, passou por grandes transformações e se integrou à sociedade brasileira2.

O Brasil é o país onde há o maior número de japoneses e seus descendentes fora do Japão. Em censo realizado no início da década de 1960, verificou-se que a população nikkey era de 429.413 pessoas, das quais 32% eram imigrantes3. Estudos posteriores4,5,6,7 apontaram que a maioria dos nikkeys estava concentrada na Região Sudeste (79,4%) e que, do total de 72,23% nipo-brasileiros que viviam no Estado de São Paulo, 40,39% viviam na capital e na Região Metropolitana.

De acordo com estudo realizado pelo Centro de Estudos Nipo-Brasileiros5, no período de 1987 a 1988, a população nipo-brasileira, segundo geração de descendência, tinha a seguinte composição: 12,5% eram japoneses natos e 85,4% eram descendentes de japoneses nascidos no país, dos quais 31,7% eram menores de 15 anos de idade, 57,5% tinham entre 15 e 60 anos e 9,7% eram maiores de 60 anos.

Em decorrência de diferenças na morbimortalidade desse grupo, comparativamente a outras populações, os japoneses têm merecido atenção especial, além de representarem uma das populações mais longevas do mundo.

Assim, alguns autores8 afirmam que imigrantes apresentam um padrão de mortalidade compatível ao grau de aculturação atingido, pois tenderam a modificar gradualmente seus hábitos. Embora a hereditariedade na etiologia da doença esteja bem estabelecida, há grande importância dos fatores ambientais. Desse modo, há modificações biológicas, psicossociais, nutricionais e culturais ocorridas por meio da interação desses grupos com ambientes culturalmente distintos, quando comparados ao perfil dos residentes do seu local de origem.

Considerando o grande movimento migratório por que vem passando o mundo na atualidade, e o fato de o Brasil ser um país cuja população é composta por imigrantes e seus descendentes, conhecer o impacto da aculturação na mudança nas condições de saúde e funcionalidade de imigrantes e seus descendentes é fundamental para o planejamento de políticas públicas adequadas às diferentes demandas da população idosa.

OBJETIVOS

Os objetivos foram comparar as condições demográficas, econômicas, funcionais e de saúde de idosos não japoneses, japoneses e descendentes de japoneses, bem como analisar comparativamente as condições funcionais e de saúde de idosos nascidos no Japão e seus descendentes nascidos no Brasil.

MÉTODOS

Este estudo é parte do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) e utilizou a base de dados do ano de 2010 do referido estudo, caracterizando-se, assim, como exploratório, transversal e analítico.

O Estudo SABE iniciou-se como um estudo multicêntrico, em 2000, sob a coordenação da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), com o objetivo de traçar o perfil das condições de vida e saúde das pessoas idosas da América Latina e do Caribe. Foi nessa época desenvolvido, simultaneamente, em sete centros urbanos da região: Buenos Aires (Argentina), Bridgetown (Barbados), São Paulo (Brasil), Santiago (Chile), Havana (Cuba), Cidade do México (México) e Montevidéu (Uruguai). No Brasil, foi desenvolvido no município de São Paulo e coordenado pelo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Ministério da Saúde. Em 2000, foram entrevistados 2.143 indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, por meio de amostragem probabilística por conglomerados em 2 estágios, denominada coorte A9.

Em 2006, o Estudo SABE em São Paulo tornou-se longitudinal e de múltiplas coortes. Nesse momento, os idosos da coorte A foram localizados e novamente entrevistados (n = 1.115), e uma nova coorte probabilística de pessoas idosas com 60 a 64 anos (coorte B) foi introduzida (n = 298). O mesmo ocorreu em 2010, quando foram localizados e novamente entrevistados 748 idosos da coorte A, 242 da coorte B e introduzida nova coorte probabilística de pessoas idosas com 60 a 64 anos (coorte C, n = 355), perfazendo um total de 1.345 indivíduos. Para o presente estudo, a amostra foi constituída pela terceira onda realizada no ano de 2010.

A variável dependente foi o idoso ser nascido no Japão ou ter referido ser descendente direto de japoneses. As variáveis independentes foram: idade; sexo; estado marital; percepção de suficiência de renda; anos de estudo; autorrelato de hipertensão, diabetes, doença cardíaca, doença articular, doença pulmonar crônica e/ou doença cerebrovascular; presença de sintomas depressivos; declínio cognitivo e funcional; multimorbidade (≥ 2 doenças); estilo de vida (tabagismo, ingestão de álcool, sedentarismo); hospitalização e uso de serviços de urgência e emergência nos 12 meses anteriores à entrevista.

A presença de sintomas depressivos foi identificada por meio da versão brasileira da Escala de Depressão Geriátrica, sendo considerados com triagem positiva para depressão os idosos com pontuação maior que cinco10. A presença de declínio cognitivo foi identificada usando a versão modificada do Miniexame do Estado Mental (MEEM), e o ponto de corte utilizado foi 12 ou menos11.

A funcionalidade foi avaliada por meio da dificuldade referida para o desempenho de atividades básicas de vida diária (ABVDs): alimentar-se, tomar banho, vestir-se, usar o vaso sanitário, ter capacidade de mobilização e transferência; e das atividades instrumentais de vida diária (AIVDs), como: cuidar do próprio dinheiro, utilizar meio de transporte, comprar alimentos, telefonar e tomar os próprios medicamentos. Foram considerados dependentes os idosos que referiram dificuldade no desempenho de ao menos uma das atividades.

A ingestão de álcool foi classificada em três categorias de frequência: baixa ingestão (menos de um dia por semana); ingestão moderada (um a três dias por semana) e alta ingestão (quatro ou mais dias por semana)12. A prática de atividade física foi avaliada pelas atividades de intensidade moderada e vigorosa da versão curta (traduzida) do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ), sendo classificado como ativos os idosos que praticavam 150 minutos ou mais de atividades moderadas por semana ou 75 minutos de atividades vigorosas por semana ou uma combinação equivalente de atividade de intensidade moderada e vigorosa13.

A análise dos dados foi realizada no pacote estatístico Stata 11.0. Para a análise descritiva das variáveis do estudo utilizaram-se proporções. As diferenças entre os grupos foram estimadas utilizando-se o teste do χ2 com correção de Rao-Scott, que leva em consideração pesos amostrais para estimativas com ponderações populacionais14. Foi estabelecido um nível de significância de 5% para estimar as diferenças entre os grupos.

O Estudo SABE foi submetido à aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Faculdade de Saúde Pública da USP, tendo obtido parecer favorável em todas as coletas realizadas.

RESULTADOS

Dos 1.345 idosos avaliados em 2010, 3,3% eram japoneses ou descendentes de japoneses. A maioria dos idosos japoneses ou descendentes de japoneses possui escolaridade mais elevada (62,2%) e relatou suficiência de renda (81,5%) quando comparados aos outros. Ao comparar os dois grupos, não houve diferença entre idade, sexo, estado marital, sintomas depressivos, prática de atividade física e multimorbidade. No entanto, houve associação significativa entre o relato de dificuldade no desempenho das ABVDs e AIVDs, tendo os japoneses e seus descendentes apresentado melhor desempenho funcional. Embora não tenha sido encontrada diferença estatística, idosos não japoneses apresentaram maior prevalência de declínio cognitivo, quando comparados aos japoneses (Tabela 1).

Tabela 1. Distribuição (%) dos idosos não japoneses e japoneses/descendentes de japoneses, segundo características socioeconômicas, demográficas e de saúde. São Paulo, 2010 (n = 1.345). 

Características Não japoneses (%) Japoneses e descendentes de japoneses (%) Valor p
Idade (anos)
60 a 69 54,4 54,2 0,990
70 a 79 30,6 30,0
80 ou mais 15,0 15,8
Sexo
Masculino 39,7 51,5 0,199
Feminino 60,3 48,5
Estado marital
Com companheiro 54,8 57,7 0,789
Sem companheiro 45,2 42,3
Renda suficiente
Não 43,8 18,5 0,007
Sim 56,2 81,5
Anos de estudo
Nenhum 12,1 5,2 0,000
1 a 3 22,8 10,3
4 a 7 38,2 18,3
8 ou mais 26,9 62,2
Declínio cognitivo 10,1 5,8 0,346
Presença de sintomas depressivos 9,9 18,2 0,1449
Prática de atividade física (ativo) 38,3 51,5 0,205
Doenças crônicas
Hipertensão arterial 67,0 60,6 0,485
Diabetes 24,8 33,7 0,345
Câncer 7,9 6,2 0,676
Doença pulmonar crônica 9,5 0,0 0,059
Doenças cardiovasculares 23,2 15,9 0,412
Doença cerebrovascular 7,3 0,0 0,112
Doenças articular 32,1 24,4 0,395
Osteoporose 19,2 28,5 0,206
Multimorbidade 55,5 55,4 0,993
Comprometimento em, pelo menos, uma atividade instrumental de vida diária
Não 72,4 92,3 0,001
Sim 27,6 7,7
Comprometimento em, pelo menos, uma atividade básica de vida diária
Não 71,0 85,5 0,008
Sim 29,0 11,5
Hospitalização* 11,2 5,1 0,131
Serviços de urgência* 21,6 22,5 0,918
Total 100,0 100,0

*Utilizou esse serviço de saúde nos 12 meses anteriores à entrevista. Fonte: Estudo SABE, 2010.

No total da amostra deste estudo (n = 41), 78,2% eram descendentes de japoneses e 21,8% referiram ter nascido no Japão. Entre os últimos, observa-se maior proporção de longevos (38,8%), homens (82,7%), casados (62,8%) e com maior escolaridade (75,3%). Já entre seus descendentes verifica-se a presença de idosos mais jovens (59,3%), mulheres (57,2%) e indivíduos com escolaridade elevada (82,3%) (Tabela 2).

Tabela 2. Distribuição (%) dos idosos japoneses e descendentes de japoneses nascidos no Brasil, segundo características socioeconômicas e demográficas. São Paulo, 2010 (n = 41). 

Características Japoneses (%) Descendentes de japoneses (%) Valor p
Idade (anos)
60 a 69 36,0 59,3 0,215
70 a 79 25,2 31,3
80 ou mais 38,8 9,4
Sexo
Masculino 82,7 42,8 0,055
Feminino 17,3 57,2
Estado civil
Casado 62,8 56,2 0,761
Divorciado 0,00 13,3
Viúvo 24,7 23,5
Solteiro 12,5 7,10
Renda suficiente
Não 21,5 17,7 0,832
Sim 78,5 82,3
Anos de estudo
Nenhum 9,9 3,9 0,448
1 a 3 14,8 8,9
4 a 7 0,00 23,5
8 ou mais 75,3 63,7
Total 100,0 100,0

Fonte: Estudo SABE, 2010.

Com relação às variáveis relacionadas à saúde, os idosos japoneses apresentam piores condições, quando comparados aos descendentes, nas variáveis declínio cognitivo (26,7%) e presença de doenças cardiovasculares (48,9%). Os descendentes, por sua vez, apresentaram maiores proporções de diabetes (41,2%), doença articular (30,4%) e uso de serviços de urgência (28%) nos 12 meses anteriores à entrevista (Tabela 3).

Tabela 3. Distribuição (%) dos idosos japoneses e descendentes de japoneses nascidos no Brasil, segundo condições de saúde. São Paulo, 2010 (n = 41). 

Características Japoneses (%) Descendentes de japoneses (%) Valor p
Autoclassificação da saúde
Boa/muito boa 49,7 57,6 0,831
Regular 50,3 40,7
Ruim/muito ruim 0,0 1,7
Declínio cognitivo
Não 73,3 100,0 0,018
Sim 26,7 0,0
Presença de sintomas depressivos
Não 85,6 91,2 0,675
Sim 14,3 8,8
Atividade física
Inativo 50,1 48,1 0,933
Ativo 49,9 51,9
Consumo de álcool
Baixo consumo 70,0 95,8 0,196
Moderado consumo 19,8 4,2
Alto consumo 10,2 0,0
Tabaco
Não 85,5 69,8 0,401
Sim 14,5 30,2
Doenças crônicas (sim)
Hipertensão arterial 69,1 58,2 0,598
Diabetes 6,6 41,2 0,025
Câncer 12,7 4,4 0,406
Doenças cardiovasculares 48,9 6,7 0,007
Doença articular 3,1 30,4 0,014
Osteoporose 10,5 33,5 0,113
Multimorbidade 53,2 56,1 0,886
Queda nos últimos 12 meses 9,3 33,0 0,127
Comprometimento em, pelo menos, uma atividade instrumental de vida diária
Não 60,6 80,8 0,277
Sim 39,4 19,2
Comprometimento em, pelo menos, uma atividade básica de vida diária
Não 87,3 92,7 0,638
Sim 12,7 7,3
Hospitalização* 0,0 6,5 0,481
Serviços de urgência* 2,8 28,0 0,011
Total 100,0 100,0

*Utilizou esse serviço de saúde nos 12 meses anteriores à entrevista. Fonte: Estudo SABE, 2010.

DISCUSSÃO

O presente estudo possibilitou a análise comparativa das condições de saúde de idosos não japoneses, japoneses e descendentes de japoneses. Idosos japoneses relataram maior escolaridade e suficiência de renda e melhor desempenho funcional em relação aos não japoneses.

Segundo Hirano15, os japoneses consideram a escola como um instrumento inquestionável para apontar as regras de civilidade e um meio para a ascensão social. Diante disso, os imigrantes japoneses se mobilizaram para criar escolas e para cultivar a leitura de livros, por meio da participação coletiva da comunidade, garantindo, assim, educação para seus descendentes.

Diante desse contexto, também pôde ser evidenciada em nosso estudo a alta escolaridade dos descendentes de japoneses, o que contribui para a melhor condição econômica deles. Suzuki16 descreve que, embora a maioria dos imigrantes pertencesse a classes menos favorecidas economicamente, após chegarem ao Brasil, com o decorrer do tempo, conseguiram ascender socialmente, o que se observa pelo maior nível de escolaridade. Além disso, como pontua Sakurai17, no período de 1950 até meados dos anos 1970, o Brasil recebeu cerca de 50.000 japoneses, com um perfil diferenciado daqueles que imigraram no início do século XX. Esses novos imigrantes tinham maior qualificação ocupacional e maior nível educacional.

Em relação à capacidade funcional, os idosos não japoneses apresentaram pior comprometimento em relação aos idosos japoneses e descendentes de japoneses. Sampaio et al.18 investigaram a fragilidade em idosas japonesas, descendentes de japoneses e brasileiras, e encontraram que as brasileiras nativas podem ser mais vulneráveis e frágeis por causa das desvantagens sociodemográficas a que estão expostas e do estilo de vida. É interessante notar que, apesar de os japoneses natos serem mais velhos que seus descendentes, não houve diferença estatisticamente significante entre esses dois grupos no que diz respeito à funcionalidade.

No presente estudo, os idosos provenientes do Japão eram mais velhos e predominantemente do sexo masculino. A literatura evidencia a elevada predominância masculina nos movimentos migratórios da população japonesa1; além disso, é interessante notar que a imigração japonesa se deu majoritariamente antes da Segunda Guerra Mundial e que a política de imigração adotada no início do século passado determinava que, para a imigração, era necessário ter uma família, ou um casal e mais uma pessoa, que geralmente era do sexo masculino19, o que pode ter contribuído para esses resultados entre os japoneses natos.

Em estudo realizado pelo Centro de Estudos Nipo-brasileiros que incluiu idosos descendentes de japoneses verificou-se que aproximadamente 77% deles tinham de 65 a 79 anos de idade e 46,6% eram homens20. Tal proporção é similar à encontrada entre os idosos descendentes deste estudo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os japoneses, em especial as mulheres, têm a maior expectativa de vida no mundo21. Uma das justificativas para tal fato pode ser a contribuição genética e as condições nutricionais. Yamori et al.22 apontam que o maior consumo de peixe e soja foi significativamente associado a maiores níveis de HDL-C e folato, possivelmente contribuindo para o Japão apresentar a menor mortalidade por doença coronariana e a maior expectativa de vida entre os países desenvolvidos. Ademais, indivíduos japoneses que consomem produtos derivados da soja e peixes estão acostumados a uma alta ingestão de sódio. Yamori et al.23 descrevem que um dos efeitos adversos do uso do sódio é a associação positiva significativa com a mortalidade para doenças cerebrovasculares.

Quando comparados a seus descendentes, idosos japoneses apresentaram piores condições quanto à presença de declínio cognitivo (26,7%), o que pode estar associado à sua maior longevidade. Otsuka et al.24 avaliaram 2.267 idosos nas cidades de Obu e de Higashiura, no Japão, e encontram que maior diversidade alimentar reduz o risco de declínio cognitivo. A incorporação de práticas consideradas características do estilo de vida ocidental, apesar da manutenção de alguns hábitos típicos do país de origem, acarreta mudanças graduais ao longo das gerações, em grande parte vinculada aos hábitos nutricionais25.

Em relação às doenças crônicas, chama-se a atenção para a alta prevalência de doenças cardiovasculares nos japoneses e de diabetes e doenças articulares entre os descendentes deles. Estudos apontam que os japoneses, que originariamente apresentavam baixa morbidade por diabetes e doenças cardiovasculares, após sofrerem mudanças socioculturais, passaram a apresentar alto risco26,27.

Idosos japoneses da primeira geração teriam uma proteção contra o diabetes pois mantinham os costumes orientais, enquanto os descendentes tendem a se afastar dos hábitos tradicionais japoneses, aumentando probabilidade de terem diabetes27.

Ao comparar os hábitos alimentares de japoneses e nisseis (primeira geração de descendentes), Gimeno et al.28 verificaram que houve mudança na dieta típica japonesa em ambas as gerações, tendo havido na segunda maior mudança, com a introdução de dieta típica ocidental. Segundo Tamura et al.29, os imigrantes apresentam um padrão de mortalidade semelhante ao grau de aculturação atingido, aproximando-os do perfil de morbimortalidade da população brasileira.

A ruptura com sua origem, determinada pela necessidade de readaptação social, cultural e econômica; a mudança gradativa nos hábitos culturais, redundando em transformação da dieta oriental e adoção do padrão alimentar do local de destino; e a presença de riscos competitivos de morte representados pelas doenças específicas de São Paulo podem aumentar o risco de os japoneses e seus descendentes contraírem tanto as doenças infecciosas quanto as de natureza crônica30.

CONCLUSÃO

Idosos japoneses e seus descendentes têm suficiência de renda, maior escolaridade e condição funcional e de saúde melhor que os não japoneses. A população japonesa é considerada como a de maior expectativa de vida do mundo. Isso tem sido atribuído, principalmente, a fatores genéticos, ambientais e culturais. Esse fato foi observado também em japoneses que imigraram para outros países e vivenciaram uma situação semelhante, ampliando tal condição para os seus descendentes.

Neste estudo, foi observado que idosos japoneses são mais longevos, quando comparados aos seus descendentes, o que pode ser atribuído à menor imigração de pessoas dessa origem no período pós-guerra.

Observou-se também uma maior prevalência de doenças crônicas entre os descendentes de japoneses, provavelmente associadas à aculturação. Assim, pode-se inferir que, possivelmente, os descendentes evoluirão de forma menos satisfatória que seus parentes nascidos no Japão.

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Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Recebido: 27 de Julho de 2017; Revisado: 04 de Agosto de 2017; Aceito: 23 de Agosto de 2017

Autor correspondente: Yeda Aparecida de Oliveira Duarte. Núcleo de Apoio à Pesquisa SABE. Avenida Dr. Arnaldo, 715, CEP: 01246-904, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: yedaenf@usp.br

*in memoriam

Conflito de interesses: nada a declarar

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