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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.21  supl.2 São Paulo  2018  Epub Feb 04, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720180013.supl.2 

ARTIGO ORIGINAL

Estado nutricional de idosos fumantes e ex-fumantes da cidade de São Paulo, Brasil

Isis Bonfitto GonçalvesI 

Maria Lúcia LebrãoI  *

Yeda Aparecida de Oliveira DuarteI 

Gabriela Arantes WagnerII 

Dirce Maria Trevisan ZanettaI 

IDepartamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IIDepartamento de Medicina Preventiva, Universidade Federal de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO:

Objetivo:

A concomitância de fumo e maus hábitos alimentares representa uma piora no prognóstico da saúde e na qualidade de vida dos idosos. O objetivo deste estudo foi caracterizar o estado nutricional de idosos fumantes e ex-fumantes residentes na cidade de São Paulo.

Métodos:

Foi realizado um estudo transversal em 2010, com uma amostra representativa de 1.345 indivíduos com 60 anos ou mais, que fazem parte da coorte de idosos acompanhados pelo Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE). Foram descritos os aspectos sociodemográficos, de saúde e nutricionais dos idosos de acordo com o uso de tabaco na vida.

Resultados:

A proporção de fumantes e ex-fumantes foi de, respectivamente, 12,9 e 54,7% para o sexo masculino; 11,0 e 25,2% para o sexo feminino; e de 11,8 e 37,2% para a população total do estudo. Para ambos os sexos, com o aumento da idade, diminuiu a proporção de fumantes. A proporção de idosas fumantes com ingestão adequada de frutas foi menor. Fumantes apresentaram pior estado nutricional, com menos refeições por dia e maior frequência de baixo peso.

Conclusão:

Considerando-se o impacto do hábito alimentar inadequado e de fumar sobre a saúde, os fumantes idosos merecem atenção especial sobre o seu estado nutricional.

Palavras-chave: Estado nutricional; Comportamento alimentar; Idosos; Fumo; Brasil; Epidemiologia

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno mundialmente estabelecido e traz consigo preocupações referentes à saúde, uma vez que é acompanhado pelo aumento na ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis assim como de doenças incapacitantes1.

Alguns aspectos do estilo de vida atual oferecem risco à saúde, tais como o tabagismo, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o sedentarismo, o alto consumo de alimentos ricos em açúcares e gorduras, e o baixo consumo de frutas e hortaliças2,3. O tabagismo destaca-se entre os hábitos que oferecem maior risco à saúde por ser a principal causa de mortes evitáveis no mundo, principalmente no que diz respeito às doenças cardiovasculares e ao câncer4. Os efeitos do tabagismo são pouco estudados em idosos5, mas considera-se que esta população apresente maiores riscos pela longa exposição6.

A literatura aponta para uma maior prevalência de tabagismo entre idosos de baixo peso, o que gera preocupação, pois a concomitância de dois ou mais comportamentos de risco pode acarretar em efeitos mais nocivos que a soma dos efeitos deles isolados6,7. O presente estudo analisou o hábito de fumar e sua associação com o estado nutricional de idosos moradores na cidade de São Paulo.

MÉTODOS

DELINEAMENTO

Este é um estudo transversal com dados do Estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento), obtidos em 2010. O estudo SABE é de múltiplas coortes e foi iniciado em 2000, com uma amostra probabilística de idosos (≥ 60 anos) residentes em São Paulo, SP, por meio de amostragem estratificada em dois estágios, com base em setores censitários da cidade. Detalhes sobre o desenho amostral do estudo inicial estão descritos em publicação anterior8. Em 2006, foi realizada a segunda entrevista com estes idosos e naquela ocasião nova amostra de idosos, entre 60 e 64 anos, foi obtida seguindo o mesmo procedimento da primeira visita, já que esta faixa etária não estava mais representada. A terceira visita de seguimento foi realizada em 2010, ocasião em que uma terceira amostra de idosos entre 60 e 64 anos foi adicionada. A amostra total avaliada naquele ano foi de 1.345 idosos (≥ 60anos), que representam 1.338.138 idosos residentes em São Paulo, uma vez que os pesos amostrais foram recalculados, com base no Censo de 2010, para manter a amostra representativa da população de idosos do município.

VARIÁVEIS

Os dados foram coletados por meio de entrevistas domiciliares, realizadas por entrevistadores treinados. As variáveis sociodemográficas avaliadas foram: sexo (masculino; feminino); idade (60 - 64; 65 - 69; 70 - 74; ≥ 75); escolaridade em anos completos de estudo (<1- 3anos; 4 - 7 anos; ≥ 8 anos de estudo); renda em salários mínimos, categorizados em quartis; etnia (branco; outros); arranjo familiar (mora sozinho; mora acompanhado). Ascaracterísticas de saúde foram avaliadas pelas variáveis: número de doenças crônicas referidas (nenhuma; 1; ≥ 2); frequência de consumo de bebidas alcoólicas nos últimos três meses (< 1 dia/semana; 1 a 3 dias por semana; ≥ 4 dias por semana) e autopercepção de saúde (boa; não tão boa), e uso de tabaco na vida, que foi obtido por meio do autorrelato à pergunta: “O senhor tem ou teve o hábito de fumar?”(não fumante, ex-fumante e fumante atual).

A avaliação do estado nutricional foi feita pelo índice de massa corpórea (IMC), classificado de acordo com o sugerido pela Organização Panamericana de Saúde9 para idosos de baixo peso (IMC≤ 23 kg/m2), eutrófico (23 kg/m2< IMC < 28 kg/m2) e sobrepeso e obeso (IMC ≥ 28 kg/m2).

As variáveis nutricionais consideradas foram: número de refeições completas por dia (<3refeições; ≥ 3 refeições), consumo de leite e derivados pelo menos uma vez por dia(sim; não); consumo de ovo e feijões pelo menos uma vez por semana (sim; não); consumo de carne pelo menos três vezes na semana (sim; não); consumo de frutas pelo menos duas vezes por dia (sim; não); consumo de hortaliças pelo menos duas vezes por dia (sim; não). Outras características relacionadas ao estado nutricional foram: perda de peso nos últimos 12 meses (não; 1 a 3 kg; > 3 kg), relação cintura-quadril (< 0,9; ≥ 0,9 para homens e < 0,85; ≥ 0,85 para mulheres), autopercepção nutricional (boa; não tão boa).

ANÁLISES ESTATÍSTICAS

Para as análises descritivas foram calculadas proporções para as variáveis categóricas. Todas as análises incorporaram pesos para corrigir diferenças nas probabilidades de seleção dos participantes e os resultados são apresentados pelos valores ponderados. Diferenças entre os grupos foram estimadas pelo teste de Rao-Scott para variáveis categóricas, que consideram pesos amostrais para as estimativas de população com ponderações populacionais. Utilizou-se o pacote Survey do software STATA, que dispõe de procedimentos para análise de inquéritos amostrais complexos e permite incorporar os pesos distintos das observações que influenciam as estimativas pontuais de parâmetros da população total.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A participação foi voluntária e foi obtido um termo de consentimento livre e esclarecido assinado por todos os participantes. Não há conflito de interesses dos autores em relação a este estudo.

RESULTADOS

O comportamento em relação ao tabagismo foi diferente entre os sexos (Tabela 1), com maior proporção de mulheres que nunca fumaram (63,8%). Embora cerca de 70% dos homens tenham sido fumantes, 54,7% referiram ter parado de fumar. A proporção de fumantes atuais foi semelhante nos dois sexos. A maior proporção de fumantes ocorreu entre aqueles com idade entre 60 e 64 anos em ambos os sexos, com diminuição importante entre aqueles com idade acima de 70 anos. A frequência de fumantes não diferiu entre homens brancos e de outras etnias, e em mulheres brancas com relação às demais houve maior proporção de não fumantes. As mulheres que vivem sozinhas apresentaram maior proporção de fumantes do que as que vivem acompanhadas. Não houve diferença no uso de tabaco entre os diferentes níveis de escolaridade avaliados. Considerando a renda, houve predomínio de homens fumantes entre aqueles do menor estrato, enquanto os indivíduos com maior renda tinham a maior proporção de não fumantes (Tabela 2).

Tabela 1. Uso de tabaco na vida, por sexo em 2010; Estudo SABE [Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento]. 

Sexo
Homens Mulheres Total
% (IC95%) % (IC95%) % (IC95%)
Tabaco
Não fumante 32,4 (27,8 - 37,5) 63,8 (59,5 - 67,9) 51,1 (47,5 - 54,6)
Ex-fumante 54,7 (49,6 - 59,6) 25,2 (22,1 - 28,6) 37,2 (34,4 - 40,0)
Fumante atual 12,9 (9,7 - 16,9) 11,0 (8,7 - 13,8) 11,8 (9,7 - 14,3)

χ2 com correção de Rao-Scott: p < 0,001.

Tabela 2. Distribuição das características sociodemográficas segundo uso de tabaco na vida, por sexo em 2010; Estudo SABE [Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento].  

Homens Mulheres Total
¥ NF % EF % FA % Valor p* NF % EF % FA % Valor p NF % EF % FA % Valor p
Tabaco 32,4 54,7 12,9 < 0,001 63,8 25,2 11,0 < 0,001 51,1 37,2 11,8 < 0,001
Idade (anos)
60 - 64 29,3 51,0 19,7 0,027 53,5 31,5 15,0 < 0,001 42,9 40,1 17,1 < 0,001
65 - 69 41,8 48,5 9,8 56,0 29,4 14,6 50,2 37,2 12,6
70 - 74 36,1 53,7 10,3 76,2 17,2 6,7 60,0 31,9 8,1
≥ 75 26,3 66,8 6,8 73,7 19,9 6,4 56,6 36,9 6,6
Etnia
Branco 34,1 52,6 13,3 0,622 68,5 21,1 10,4 0,009 54,7 33,7 11,6 0,013
Outro 30,2 57,5 12,4 57,3 31,0 11,8 45,9 42,1 12,0
Escolaridade (série)
até 3ª 26,5 61,2 12,3 0,295 62,6 26,7 10,8 0,531 50,0 38,7 11,3 0,750
4ª - 7ª 29,3 56,8 13,9 65,6 25,2 9,2 50,6 38,2 11,2
> 8ª 40,8 46,8 12,5 63,1 22,9 13,9 52,7 34,1 13,3
Arranjo familiar
Sozinho 27,7 55,1 17,2 0,711 59,2 23,6 17,3 0,032 50,6 32,1 17,3 0,074
Acompanhado 33,0 54,6 12,4 64,9 25,6 9,6 51,1 38,1 10,8
Renda domiciliar mensal (quartil)
15,7 61,6 22,7 0,005 68,4 22,2 9,4 0,583 56,0 31,5 12,5 0,195
29,7 52,8 17,6 58,3 28,8 12,9 48,3 37,2 14,6
26,7 67,1 6,2 65,7 23,5 10,9 47,2 44,2 8,7
41,5 48,4 10,2 63,1 23,3 13,6 49,9 38,6 11,5

Dados ponderados para serem representativos da população de idosos em 2010 na cidade de São Paulo, Brasil; *χ2 com correção de Rao-Scott; ¥NF: não fumante, EF: ex-fumante, FA: fumante atual.

Quanto ao estado nutricional, 47,0% dos homens eram eutróficos, 13,3% tinham baixo peso e 39,7%, sobrepeso ou obesidade. Entre as mulheres, as proporções foram de 34,4, 12,4 e 53,4%, respectivamente. A frequência de sobrepeso e obesidade foi maior entre as mulheres quando comparadas aos homens (p < 0,001).

Indivíduos fumantes eram predominantemente de baixo peso, enquanto não fumantes tinham sobrepeso ou eram obesos (Tabela 2). Este padrão também foi observado em mulheres. Entre os fumantes, houve maior proporção de indivíduos com elevado consumo de bebidas alcoólicas e que referiram fazer menos de 3 refeições ao dia, com diferença significante entre as mulheres. Além disso, nessas mulheres predominou uma boa autopercepção de saúde. Os indivíduos que referiram duas ou mais doenças crônicas apresentaram menor proporção de fumantes, significante entre as mulheres (Tabela 3).

Tabela 3. Distribuição das características nutricionais e de saúde segundo uso de tabaco na vida, por sexo em 2010; Estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento).  

Homens Mulheres Total
¥ NF % EF % FA % Valor p* ¥ NF % EF % FA % Valor p* ¥ NF % EF % FA % Valor p*
Classificação por IMC&
Baixo peso 28,9 49,2 21,9 0,360 50,1 22,3 27,6 < 0,001 41,3 33,5 25,2 < 0,001
Eutrófico 32,3 52,9 14,8 60,1 26,4 13,5 46,8 39,0 14,1
Excesso de peso/Obeso 32,7 57,7 9,7 68,8 25,6 5,6 56,8 36,2 7,0
Perda de peso no último ano
Não perdeu 17,4 56,7 25,9 0,076 64,9 22,4 12,7 0,880 51,3 32,2 16,5 0,213
1 - 3 kg 27,9 69,6 2,5 63,5 29,0 7,5 50,4 44,0 5,7
≥3 kg 33,8 53,7 12,5 63,7 25,3 11,0 51,1 37,3 11,6
Número de refeições completas por dia
< 3 20,5 60,1 19,3 0,161 46,8 29,0 24,2 0,002 33,8 44,4 21,8 0,002
≥ 3 34,2 53,8 12,0 65,5 24,8 9,7 53,1 36,3 10,6
Autopercepção nutricional
Boa 32,9 54,1 13,0 0,083 65,0 24,5 10,5 0,083 51,7 36,8 11,5 0,295
Não tão boa 23,4 65,6 11,1 50,2 33,0 16,7 42,3 42,6 15,1
Autopercepção de saúde
Boa 27,7 55,1 17,2 0,711 59,2 23,6 17,3 0,032 50,6 32,1 17,3 0,074
Não tão boa 33,0 54,6 12,4 64,9 25,6 9,6 51,1 38,1 10,8
Relação cintura quadril
Acima 38,9 46,7 14,4 0,534 60,6 26,2 13,3 0,412 55,3 31,1 13,6 0,099
Abaixo 30,6 55,9 13,5 64,9 25,1 10,0 49,5 39,0 11,6
Consumo de bebidas alcoólicas (dias/semana)
< 1 32,3 56,4 11,4 0,427 64,4 25,7 10,0 0,059 53,9 35,7 10,4 0,022
1 a 3 27,4 56,8 15,9 58,4 23,5 18,0 38,8 44,6 16,7
> 4 39,5 45,2 15,4 59,7 11,8 28,5 42,9 39,5 17,6
Doenças crônicas
Nenhuma 36,4 48,9 14,8 0,285 68,3 19,8 12,0 0,039 52,3 34,3 13,4 0,021
1 33,4 52,5 14,1 64,4 22,6 13,0 53,0 33,6 13,4
≥ 2 28,2 61,6 10,2 60,9 30,7 8,4 48,3 42,6 9,1

Dados ponderados para serem representativos da população de idosos em 2010 na cidade de São Paulo, Brasil; *χ2com correção de Rao-Scott; ¥NF: não fumante, EF: ex-fumante, FA: fumante atual.

Não houve diferença significativa no consumo de laticínios (p = 0,737 em homens e p=0,188 em mulheres), carnes (p = 0,321 e p = 0,341), ovos e feijões (p = 0,320 e p = 0,493) e hortaliças (0,328 e 0,870), considerando o uso de tabaco na vida, assim como no consumo de frutas entre os homens (p = 0,664). Entre as idosas fumantes, foi maior a proporção de inadequação no consumo de frutas (p = 0,005) (Figura 1).

NF: não fumante, EF: ex-fumante, FA: fumante atual.

Figura 1. Proporção de consumo alimentar segundo sexo e uso de tabaco na vida, em 2010; Estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento). 

DISCUSSÃO

A frequência de tabagismo neste trabalho foi de 12%. Embora cerca de 70% dos homens idosos tenham fumado alguma vez na vida, e essa proporção seja bem menor entre as mulheres, com cerca de 35%, os fumantes atuais tiveram proporção semelhante nos dois sexos, uma vez que a proporção de ex-fumantes foi considerável entre os homens. Historicamente a prevalência do uso do tabaco é maior entre os homens, porém o tabagismo entre as idosas tem se elevado em função do aumento de tabagismo entre as mulheres mais jovens10. A interrupção do tabagismo deve ser incentivada entre os idosos, uma vez que há benefícios observados em todas as faixas etárias, que incluem melhora funcional e redução na morbidade e mortalidade11,12.

Como em outros estudos, o fumo atual decresceu com o avanço da idade. A literatura mostra associação do tabagismo com o fato de o idoso morar sozinho, com a baixa escolaridade e com a renda6,13. Neste estudo, não houve diferença quanto à escolaridade; morar sozinho se associou ao tabagismo entre as mulheres, e a baixa renda entre os homens.

Observou-se alta frequência de idosas fumantes com baixo peso, o que seguem os achados de Zaitune etal.6, na população da região sudoeste da Grande São Paulo, Campinas e Botucatu, e de Berto etal.3, no Rio Grande do Sul. O ganho de peso com a cessação do fumo pode representar um obstáculo para o tratamento do tabagismo, principalmente entre as mulheres, em que o excesso de peso é mais frequente14. Entretanto, nesse estudo houve aumento na frequência de sobrepeso em mulheres não-fumantes e não houve em ex-fumantes. As mudanças de padrão alimentar no envelhecimento podem se originar de diversas causas fisiológicas ou psicossociais, mas o tabagismo representa um fator que potencializa os efeitos negativos nos hábitos alimentares dos idosos, uma vez que o hábito de fumar ocasiona redução do paladar e do olfato3,15. Além disso, os efeitos anorexígenos da nicotina agem sobre o apetite de forma que o peso corporal tende a ser menor entre os fumantes6. Os determinantes para o baixo peso não foram descritos neste trabalho, mas observou-se que mulheres fumantes faziam menos refeições ao dia. Quanto à qualidade da alimentação, nesse estudo, os resultados seguiram alguns padrões da população idosa no Brasil, com maior proporção de adequação no consumo de alimentos fontes de proteína, com exceção dos leites e derivados. O tabagismo não prejudicou significativamente o consumo desses alimentos. Houve apenas uma redução na proporção de consumo adequado de frutas entre as idosas fumantes atuais; no entanto, a frequência de adequação manteve-se acima de 80%. Por sua vez, Surban etal.2 observaram que o consumo de frutas e hortaliças foi menor quanto maior a intensidade do tabagismo, aumentando o risco de câncer. Estes autores também observaram que os fumantes são os que mais deixam de tomar o café da manhã. O baixo peso, em função da baixa ingestão calórica e de nutrientes, pode levar a uma debilidade funcional e física, piora na qualidade de vida, e maior hospitalização e mortalidade 16.

A concomitância do tabagismo com outros hábitos não saudáveis, observada nesse estudo, tem sido apontada em vários estudos, como o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e a má alimentação3,6.

A frequência de fumantes diminuiu e a de ex-fumantes aumentou com a presença de duas ou mais doenças crônicas. Quando avaliado por sexo, esta distribuição foi observada também entre as mulheres. Mais análises são necessárias para justificar estes dados, porém Zaitune etal.6 apontam dois fenômenos que podem explicar este fato: a cessação do tabagismo com o surgimento de agravos e o maior risco de mortalidade precoce entre os fumantes. Além disso, a maior proporção de mulheres fumantes com boa autopercepção de saúde e de fumantes na faixa etária de 60 a 64 anos reforça essa suposição.

Esse estudo tem limitações, uma vez que seu delineamento transversal não permite estabelecer a temporalidade dos eventos, não sendo possível determinar se o estado nutricional observado em fumantes é decorrente do fumo. Embora a avaliação nutricional pelo IMC tenha suas restrições, como na identificação da composição corporal e da adiposidade central, segundo Silveira etal.17, ele é considerado um bom indicador em estudos epidemiológicos por apresentar baixo custo, fácil aplicação, associação com doenças crônicas não transmissíveis, entre outros.

CONCLUSÃO

O hábito de fumar do idoso associou-se às piores condições de estado nutricional, com menor quantidade de refeições por dia, se comparado aos idosos não fumantes, contribuindo para a maior frequência de baixo peso observada. À luz dos resultados observados e considerando as repercussões na saúde, os idosos fumantes merecem especial atenção quanto ao seu estado nutricional.

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Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisas do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 53778-3/2009; DMTZ parcialmente financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo 71.702/2011-0.

Recebido: 12 de Março de 2015; Aceito: 31 de Março de 2015

Autor correspondente: Dirce Maria Trevisan Zanetta. Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Departamento de Epidemiologia. Avenida Dr. Arnaldo, 715, CEP: 01246-904, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: dzanetta@usp.br

*in memoriam

Conflito de interesses: nada a declarar

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