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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.21  supl.2 São Paulo  2018  Epub Feb 04, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720180015.supl.2 

ARTIGO ORIGINAL

Comparação do estado nutricional e da ingestão alimentar referida por idosos de diferentes coortes de nascimento (1936 a 1940 e 1946 a 1950): Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE)

Maria de Fátima Nunes MarucciI 

Manuela de Almeida RoedigerII 

Daiana Aparecida Quintiliano Scarpelli DouradoII 

Denise Rodrigues BuenoII 

IDepartamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IIPrograma de Pós-Graduação Nutrição em Saúde Pública, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO:

Introdução:

O processo de envelhecimento é caracterizado por várias alterações, incluindo do estado nutricional e da ingestão alimentar. Para compreender a tendência dessas alterações são necessários estudos com idosos de diferentes épocas de nascimento.

Objetivo:

Comparar o estado nutricional e a ingestão alimentar de idosos participantes do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), realizado em São Paulo, em 2000 e 2010.

Métodos:

O estado nutricional foi identificado pelo índice de massa corporal (IMC), considerando: baixo peso (IMC < 23 kg/m²); peso adequado (23 ≤ IMC < 28 kg/m²); excesso de peso (IMC ≥ 28 kg/m²); e a ingestão alimentar referida: número de refeições (≥ 3/dia), frequência de laticínios (≥ 1 porção/dia), de ovos e leguminosas (≥ 1 porção/semana), de frutas, legumes e verduras (≥ 2 porções/dia), de carnes (≥ 3 porções/semana) e de líquidos (≥ 5 copos/dia). A comparação foi realizada por razão de prevalência, utilizando regressão de Poisson.

Resultados:

Participaram 755 indivíduos de ambos os sexos, de 60 a 64 anos, nascidos nos períodos de 1936 a 1940 e 1946 a 1950. Os idosos nascidos entre 1946 e 1950 apresentaram maior razão de prevalência para excesso de peso (RP = 1,19) e para número de refeições (RP = 1,34) e para líquidos (RP = 1,18), contudo menor razão de prevalência para laticínios (RP = 0,87), para carnes (RP = 0,93) e para frutas, legumes e verduras (RP = 0,83).

Conclusão:

Estes resultados mostram cenários alimentar e nutricional preocupantes para a coorte mais recente (1946 - 1950).

Palavras-chave: Idosos; Envelhecimento; Antropometria; Alimentação; Estado nutricional; Estudos de coortes

INTRODUÇÃO

O processo de envelhecimento é caracterizado por diversas alterações biopsicossociais, que podem afetar o estado nutricional e a ingestão alimentar e causar incapacidade, desenvolvimento de doenças e agravos crônicos não transmissíveis (DACNT), com consequente piora na qualidade de vida e maior chance de óbito1,2,3,4, aumentando os custos do sistema de saúde. Por essa razão, esse processo, assim como a população idosa, tem despertado o interesse da comunidade científica e dos gestores da área de saúde.

O panorama nutricional dos brasileiros destaca-se por elevadas prevalências de excesso de peso (IMC ≥ 25 kg/m2), na população adulta, resultando em maior frequência desse distúrbio nutricional em idosos, contribuindo, para alteração do perfil de morbidade e de mortalidade nesse grupo5.

Resultados da análise de diferentes coortes de nascimento (1901, 1906, 1911, 1922 e 1930) mostraram que idosos suecos, nascidos em 1930, apresentaram maiores valores de peso corporal, e, consequentemente, do índice de massa corporal (IMC)6. Pesquisa realizada na Finlândia, com idosos nascidos em diferentes épocas (1913 - 1917 a 1968 - 1972), identificou maiores valores médios de IMC na coorte nascida mais recentemente especialmente, nas mulheres7.

Pesquisas com essa finalidade têm sido foco em outros países, mas no Brasil o tema ainda é incipiente. Foi encontrado, na literatura, um estudo brasileiro de análise de duas coortes de nascimento (1916 - 1926 e 1927 - 1937), com idosos participantes do Projeto Bambuí (MG), que constatou maior prevalência de excesso de peso (IMC ≥ 27 kg/m2), em homens na coorte nascida no período de 1927 - 19378.

Em relação à alimentação, pesquisa realizada na Suécia com diferentes coortes (anos de nascimento: 1901, 1911, 1922 e 1930) verificou que os idosos nascidos nos dois primeiros anos (1901 - 1911) referiram ingerir mais frutas, hortaliças, frango, arroz e iogurte, quando comparada com as outras coortes9.

No Brasil, segundo as Pesquisas de Orçamentos Familiares (POF) (2002/2003 e 2008/2009), a população brasileira, incluindo idosos, apresentou redução da ingestão de frutas, legumes e verduras (FLV)10,11,12. Ainda, de acordo com os dados dessas pesquisas, a ingestão referida de linguiça, salsicha, mortadela, sanduíches e salgados foi menor para os indivíduos idosos12.

Diante do exposto, estudos que avaliem a população idosa de diferentes épocas de nascimento são de extrema importância, para verificar a tendência do envelhecimento populacional e as alterações no estado nutricional e na alimentação, com o propósito de identificar possíveis problemas emergentes e futuros, para o estabelecimento de políticas públicas e de estratégias de intervenção no campo da alimentação e nutrição.

O Estudo Saúde Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) se torna, nesse contexto, uma das principais pesquisas sobre envelhecimento populacional no Brasil, que tem analisado a situação de saúde e nutrição de diferentes coortes de idosos. Assim, o objetivo deste artigo foi comparar o estado nutricional e a ingestão alimentar, de duas coortes dos idosos participantes do estudo SABE, segundo sexo.

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal com análise de duas coortes de idosos (coortes A e C) participantes do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), no município de São Paulo (SP), avaliados em 2000 e em 2010.

Em 2000, a coorte A foi composta por 2.143 indivíduos, com 60 anos e mais, que residiam na área urbana do município de São Paulo. A descrição da amostragem, do questionário e da coleta de dados já foi publicada por Silva13. Em 2010, a coorte C foi composta por 329 indivíduos.

Para efeito de comparação das coortes, selecionaram-se apenas os indivíduos com 60 a 64 anos, da coorte A em 2000 (n = 426), nascidos entre 1936 e 1940; e, todos os indivíduos idosos da coorte C (n = 329), nascidos entre 1946 e 1950. Assim, participaram deste estudo 755 indivíduos idosos, de ambos os sexos.

As variáveis de estudo foram: estado nutricional e alimentação.

O estado nutricional foi identificado pelos valores do índice de massa corporal (IMC), em kg/m2. Para o cálculo, utilizaram-se os dados de peso corporal (PC) e estatura (EST), obtidos das questões (K05 e K11) da seção K do questionário do Estudo SABE. O peso corporal foi medido com o idoso em pé e descalço, em balança portátil marca SECA®, com capacidade de 150 kg. A estatura foi medida em antropômetro Harpender®, fixado à uma parede, ou batente de porta do domicílio, de forma a obter ângulo reto com o piso da residência. O idoso foi medido descalço, com o corpo ereto encostado na parede ou batente.

Para identificação do estado nutricional, utilizaram-se os valores propostos pela Organização Pan-Americana de Saúde14, para o Estudo SABE, considerando: baixo peso (IMC < 23 kg/m²); peso adequado para a estatura (23 ≤ IMC < 28 kg/m²); risco para obesidade (28 ≤ IMC < 30 kg/m²); e, obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²). Neste estudo, os idosos foram analisados, segundo três categorias: peso adequado (referência), baixo peso e excesso de peso (IMC ≥ 28 kg/m²).

A alimentação foi analisada segundo as variáveis: ≥ 3 refeições/dia; ≥ 1 porção de laticínios/dia; ≥ 1porção de ovos e⁄ou leguminosas/ semana; ≥ 3 porções de carnes (bovina, suína, aves e peixes)/semana; ≥ 2 porções de frutas, verduras e legumes/dia; e ≥ 5 copos de líquidos (água, chás, café)/dia, de acordo com a resposta dicotômica (sim ou não), referida pelos idosos ou informantes.

Os dados das variáveis de alimentação foram obtidos da seção C (C22a a C22g e C22_1 a C22_7), do questionário do Estudo SABE.

Para a análise dos dados foram utilizados testes estatísticos indicados para estudos do tipo survey, tendo em vista processo de amostragem complexa.

A descrição da população foi apresentada, segundo distribuição da frequência relativa ponderada dos idosos, de acordo com estado nutricional e variáveis de alimentação. O teste χ2 de Rao & Scott foi utilizado para verificar as diferenças e/ou semelhanças estatísticas entre as proporções de idosos, em relação às variáveis de estudo. O modelo de regressão de Poisson com variância robusta foi utilizado para comparar as variáveis de estudo entre as coortes, sendo a coorte A considerada como referência. Foram estimados a razão de prevalência (RP) e intervalo de confiança (IC) e consideradas diferenças significativas entre as coortes, quando p < 0,05. Todos os cálculos foram realizados pelo programa STATA 13.1 para Windows.

RESULTADOS

Participaram deste estudo 755 idosos (52% mulheres), sendo 426 da coorte A (56% homens) e 329 da coorte C (57% mulheres).

Quanto ao estado nutricional, verificou-se maior proporção de idosos com peso adequado (42,5%) e com baixo peso (15,5%) na coorte A, e maior proporção (53,7%) de idosos com excesso de peso na coorte C (p = 0,004) (Tabela 1).

Tabela 1. Distribuição da frequência de idosos, segundo coortes estudadas, estado nutricional e variáveis de alimentação. São Paulo, Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, 2000 e 2010.  

Variáveis Coorte A Coorte C Valor p*
n % n %
Estado nutricional
Peso adequado 176 42,5 120 36,9 0,0040*
Baixo peso 63 15,5 35 9,4
Excesso de peso 187 42,0 174 53,7
≥ 3 refeições ao dia
Sim 283 66,0 289 88,3 0,0000*
Não 142 34,0 38 11,7
≥ 1 pç de laticínios/dia
Sim 341 79,3 226 69,2 0,0031*
Não 85 20,7 103 30,8
≥ 1 pç de ovos e/ou leguminosas/sem
Sim 405 95,3 316 95,6 0,8412
Não 21 4,7 13 4,4
≥ 1 pç de carne 3 vezes/sem
Sim 392 92,1 278 85,2 0,0050*
Não 34 7,9 49 14,8
≥ 2 porções de FLV /dia
Sim 348 80,9 222 67,4 0,0001*
Não 78 19,1 107 32,6
≥ 5 copos de líquidos/dia
Sim 223 52,0 197 61,2 0,0182*
Não 203 48,0 131 38,8

pç: porção; sem: semana; FLV: frutas, legumes e verduras; *Teste χ² de Rao & Scott (p < 0,05).

O estado nutricional, em relação ao sexo, apresentou resultados semelhantes, na coorte C, pois constatou-se menor proporção de mulheres com baixo peso (10,2%), porém maior, com excesso de peso (59,5%), com diferença estatística (p = 0,0000) (Tabela 2). Igualmente, para os homens, verificou-se menor proporção de idosos com baixo peso (8,3%), e maior, com excesso de peso (46,1%), porém sem diferença estatística (Tabela 3).

Tabela 2. Distribuição da frequência de mulheres, segundo coortes estudadas, estado nutricional e variáveis de alimentação. São Paulo, Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, 2000 e 2010. 

Variáveis Coorte A Coorte C Valor p*
n % n %
Estado nutricional
Peso adequado 87 50,6 61 30,3 0,0000*
Baixo peso 31 18,0 23 10,2
Excesso de peso 53 31,4 125 59,5
≥ 3 refeições ao dia
Sim 114 66,1 188 91,5 0,0000*
Não 57 33,9 20 8,5
≥ 1 pç de laticínios/dia
Sim 128 74,2 150 71,0 0,5194
Não 43 25,8 59 29,0
≥ 1 pç de ovos e/ou leguminosas/sem
Sim 166 97,2 200 96,0 0,3268
Não 5 2,7 9 4,0
≥ 1 pç de carne 3 vezes/sem
Sim 162 94,3 181 88,0 0,0442*
Não 9 5,7 27 12,0
≥ 2 porções de FLV /dia
Sim 132 77,1 154 73,2 0,4147
Não 39 22,9 55 26,8
≥ 5 copos de líquidos/dia
Sim 96 55,3 112 53,8 0,7749
Não 75 44,7 96 46,2

pç: porção; sem: semana; FLV: frutas, legumes e verduras; *Teste χ² de Rao & Scott (p < 0,05).

Tabela 3. Distribuição da frequência de homens, segundo coortes estudadas, estado nutricional e variáveis de alimentação. São Paulo, Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, 2000 e 2010. 

Variáveis Coorte A Coorte C Valor p*
n % n %
Estado nutricional
Peso adequado 89 36,2 59 45,6 0,1567
Baixo peso 32 13,6 12 8,3
Excesso de peso 134 50,3 49 46,1
≥ 3 refeições ao dia
Sim 169 66,0 101 84,0 0,0013*
Não 85 34,0 18 16,0
≥ 1 pç de laticínios/dia
Sim 213 83,3 76 66,8 0,0007*
Não 42 16,7 44 33,2
≥ 1 pç de ovos e/ou leguminosas/sem
Sim 239 93,7 116 96,0 0,4298
Não 16 6,3 4 4,0
≥ 1 pç de carne 3 vezes/sem
Sim 230 90,3 97 81,4 0,0266*
Não 25 9,7 22 18,6
≥ 2 porções de FLV /dia
Sim 216 83,9 68 59,6 0,0000*
Não 39 16,1 52 40,4
≥ 5 copos de líquidos/dia
Sim 127 49,3 85 71,1 0,0004*
Não 128 50,7 35 28,9

pç: porção; sem: semana; FLV: frutas, legumes e verduras; *Teste χ² de Rao & Scott (p < 0,05).

Para as variáveis de alimentação, pode-se observar maior proporção de idosos da coorte C, que referiram ≥ 3 refeições/dia (88,3 e 66%) e ≥ 5 copos de líquidos/dia (61,2 e 52%), porém menores proporções de idosos que referiram ingestão de laticínios (69,2 e 79,3%), de FLV (67,4 e 80,9%), de carnes (85,2 e 92,1%), com diferença estatística (p < 0,05) (Tabela 1).

Verificou-se que, para as mulheres, somente o número de refeições e a ingestão de carnes apresentaram diferença estatística (p < 0,05) entre as coortes estudadas. Na coorte C, a proporção de idosas que referiram ≥ 3 refeições/dia foi maior (91,5 e 66,1%) e para aquelas que referiram ≥ 1 porção de carnes 3 vezes/semana, foi menor (88 e 94,3%) (Tabela 2).

Os homens apresentaram diferenças significantes (p < 0,05) entre as coortes nas variáveis de alimentação: número de refeições, ingestão de laticínios, carnes, FLV e líquidos. Observou-se que menores proporções de idosos da coorte C referiram ingestão de laticínios (66,8 e 83,3%), de carnes (81,4 e 90,3%) e de FLV (59,6 e 83,9%), e maiores proporções, de líquidos (71,1 e 49,3%) e número de refeições (84,0 e 66,0%) com diferença estatística (p < 0,05) (Tabela 3).

Constatou-se que os idosos da coorte C apresentaram maior RP para excesso de peso (RP = 1,19), ≥ 3 refeições/dia (RP = 1,34) e ≥ 5 copos de líquidos/dia (RP = 1,18), contudo menor RP para laticínios (RP = 0,87%), carnes (0,93%) e FLV (RP = -0,83%), com diferença estatística (p < 0,05) (Tabela 4).

Tabela 4. Comparação entre as coortes estudadas, segundo estado nutricional, variáveis de alimentação e sexo. São Paulo, Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, 2000 e 2010. 

Variáveis Total Mulheres Homens
A x C A x C A x C
RP IC RP IC RP IC
Baixo peso 0,76 0,52 - 1,12 0,96 0,58- 1,58 0,57 0,31 - 1,05
Excesso de peso 1,19 1,02 - 1,39* 1,73 1,36 - 2,21* 0,86 0,68 - 1,10
≥ 3 refeições ao dia 1,34 1,23 -1, 45* 1,39 1,23 - 1,56* 1,27 1,12 - 1,45*
≥ 1 pç de laticínios/dia 0,87 0,79 - 0,96* 0,96 0, 84 - 1,09 0,80 0,69 - 0,93*
≥ 1 pç de ovos e/ ou leguminosas/ sem 1,00 0,97 - 1,04 0,98 0,93 - 1,02 1,02 0,97 - 1,08
≥ 1 pç de carne 3 vezes/ sem 0,93 0,87 - 0,98* 0,93 0,87 - 0,99* 0,90 0,81 - 1,00
≥ 2 porções de FLV/ dia 0,83 0,76 - 0,92* 0,95 0,84 - 1,07 0,71 0,60 - 0,84*
≥ 5 copos de líquidos/ dia 1,18 1,03 - 1,35* 0,97 0,80 - 1,18 1,44 1,20 - 1,73*

Modelo de regressão de Poisson com variância robusta; Coorte A como categoria de referência (valor = 1,00); RP: Razão de prevalência; IC: intervalo de confiança; pç: porção; sem: semana; FLV: frutas, legumes e verduras.

Observou-se que as mulheres da coorte C, apresentaram maiores valores de RP para excesso de peso (RP = 1,73) e para ≥ 3 refeições/dia (RP = 1,39), mas menor RP (RP = 0,93), para carnes, com diferença estatística (p < 0,05). Em relação aos homens, observou-se que os valores de RP para ≥ 3 refeições/dia (RP = 1,27) e ≥ 5 copos de líquidos/dia (RP = 1,44) foram maiores na coorte C, e menores para laticínios (RP = 0,80) e FLV (RP = 0,71), com diferença estatística (p < 0,05) (Tabela 4).

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos mostraram que o estado nutricional e a alimentação diferiram entre os idosos de mesma idade, porém nascidos em épocas diferentes. Estudos de coorte são importantes, pois fornecem dados valiosos para investigar o impacto que hábitos e exposições do passado têm na vida atual. O grupo de 60 a 64 anos foi escolhido, para permitir a comparação de idosos de coortes diferentes, porém com a mesma idade, supostamente com características semelhantes.

A coorte de idosos mais recente (coorte C, nascidos entre 1946 a 1950) apresentou estado nutricional e ingestão alimentar mais deficitários, que a coorte mais antiga (coorte A, nascidos entre 1936 a 1940).

Houve maior proporção de idosos com excesso de peso (19%) na coorte C, e estes resultados estão em consonância com outros estudos na literatura científica, internacional6,7 e nacional8,15 que mostraram que idosos “de gerações mais antigas” podem apresentar melhores condições de saúde e nutrição.

Lahti-Koski e colaboradores7, analisando, em 1972 e 1997, duas coortes da Finlândia (1913 - 1917 e 1968 - 1972), encontraram maiores prevalências de obesidade e maiores valores médios de IMC, especialmente nos idosos nascidos na corte mais recente.

Estudo com coortes de idosos suecos, de 70 anos e mais (no período de 30 anos), constatou mudanças nas prevalências de obesidade com maiores valores de excesso de peso, nas coortes de nascimento mais recentes6.

Estudo brasileiro de coortes de nascimento (1916 - 1926 e 1927 - 1937) do Projeto Bambuí (MG) também apresentou resultados semelhantes. Firmo e colaboradores15 verificaram que os idosos nascidos em coortes mais antigas apresentaram menores prevalências de excesso de peso. Sales et al.8, analisando as diferenças antropométricas de idosos pertencentes às distintas coortes, constataram que os indivíduos da coorte mais jovem apresentou maiores taxas de excesso de peso.

O excesso de peso e a obesidade, em idosos, resultam das mudanças no estilo de vida, principalmente, nos padrões alimentares e na prática de atividade física, conforme os dados da POF, realizada em 2008/20095.

Vale ressaltar que estudos mostraram que há maior prevalência desses distúrbios nutricionais na população adulta, o que influencia diretamente, para maiores taxas em idosos. Keyes et al.16 e Reither et al.17 analisaram a tendência secular de obesidade, em adultos e encontraram maiores prevalêncas, em coortes de nascimento mais recentes.

Analisando as diferenças do estado nutricional por sexo, observou-se que as mulheres da coorte mais recente (coorte C) apresentaram maior RP para excesso de peso, o que é preocupante, pois esse distúrbio nutricional pode acarretar alterações fisiológicas, psicológicas e sociais, como resistência à insulina, depressão e isolamento social, e contribuir para o desenvolvimento de doenças e agravos não transmissíveis, aumentando o risco de morte prematura18.

Estudos realizados com coortes, na Finlândia e na Suécia, também verificaram maiores prevalências de excesso de peso e obesidade nas mulheres, nascidas em coortes mais recentes6,7. Diferentemente, em pesquisa brasileira, (1916 - 1926 e 1927 - 1937), constatou-se que o excesso de peso foi maior nos homens, embora os anos de nascimento não sejam os mesmos do presente estudo8.

Quanto à alimentação, verificou-se que os indivíduos da coorte mais jovem apresentaram maiores prevalências, para ≥ 3 refeições/dia (aumento de 34%), sendo maior nas mulheres (39%), do que nos homens (27%). Apesar de haver aumento na proporção de idosos, das coortes analisadas, que referiram realizar mais que três refeições ao dia, ainda não pode ser considerado um avanço, pois os dados não permitem concluir que houve melhora na qualidade das refeições.

Em relação aos laticínios, observou-se que a coorte mais recente apresentou menores prevalências, especialmente nos homens idosos. Os laticínios têm grande impacto na saúde dos idosos, pelo fornecimento de cálcio, cuja recomendação de ingestão é maior para esse segmento populacional, devido à diminuição da densidade mineral óssea e consequente risco de desenvolver osteopenia/osteoporose e fraturas, principalmente, em caso de quedas. Atenção especial deve ser dada a este grupo de alimentos para esta população19.

Fisberg e colaboradores20 analisaram os dados nacionais do inquérito de alimentação dos indivíduos idosos, realizado pela POF em 2009, e encontraram que dentre os minerais, o cálcio foi o que apresentou as maiores prevalências de ingestão inadequada em todas as regiões do país, tanto em homens (de 84 a 98%), quanto em mulheres (de 94 a 98%) idosas.

Eiben et al.9 analisaram dados coletados em 1971, 1981, 1992 e 2000, a tendência da alimentação em coortes de idosos suecos, com 70 anos e mais, nascidos em 1901, 1911, 1922 e 1930, ao longo de três décadas e constataram que coortes mais antigas referiram maior ingestão de iogurte, cereais matinais, frutas, verduras, legumes, frango, arroz e massas. No presente estudo, a coorte C apresentou menores proporções de idosos que referiram ingestão de FLV (67,4 e 80,9%) e de carnes (85,2 e 92,1%).

Em relação ao sexo, menor proporção de mulheres da coorte C (88 e 94,3%) referiu ingestão de carnes, e igualmente para os homens, quanto à ingestão referida de frutas, legumes e verduras (59,6 e 83,9%). Isso pode ser atribuído à substituição desses alimentos por outros e/ou a dificuldades de mastigação, de aquisição ou financeira21.

Fisberg e colaboradores20 também observaram que a ingestão de FLV, referida por idosos brasileiros, era insuficiente, uma vez que o valor médio (em g) de ingestão representou cerca de um terço das recomendações preconizadas pelo Guia Alimentar para a População Brasileira (≥ 400 g/dia). Esses resultados requerem atenção, necessitando-se de mais ações diretas para incentivo à ingestão desses alimentos, facilitando o acesso à essa população, com o objetivo de reverter esse cenário.

Apesar das limitações do inquérito alimentar deste estudo, comparar o estado nutricional, bem como ingestão alimentar, de diferentes coortes de nascimento ao longo do tempo, é necessário e importante, para entender as mudanças ocorridas ao longo da vida e do processo de envelhecimento.

CONCLUSÃO

Diante dos resultados obtidos, verifica-se que são evidentes as alterações que vêm ocorrendo no estado nutricional e na alimentação da população idosa brasileira, particularmente, do município de São Paulo. A coorte de nascimento mais recente apresentou as maiores prevalências de excesso de peso e menores de ingestão de laticínios, carnes e FLV, situação que prejudica as condições de saúde desse grupo populacional e pode predizer desenvolvimento futuro de DACNT. Essa realidade é preocupante, pois os serviços e profissionais de saúde do país, ainda não estão preparados para o cuidado integral desse grupo, que necessita de ações e intervenções alimentares e nutricionais urgentes.

REFERÊNCIAS

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Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Recebido: 01 de Julho de 2015; Revisado: 07 de Julho de 2015; Aceito: 08 de Julho de 2015

Autor correspondente: Maria de Fátima Nunes Marucci. Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Avenida Doutor Arnaldo, 715, Cerqueira César, CEP: 01246-904, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: mmarucci@usp.br

Conflito de interesses: nada a declarar

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