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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.21  supl.2 São Paulo  2018  Epub Feb 04, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720180016.supl.2 

ARTIGO ORIGINAL

Fatores associados às alterações de equilíbrio em idosos residentes no município de São Paulo em 2006: evidências do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE)

Angela BushatskyI 

Luciana Correia AlvesII 

Yeda Aparecida de Oliveira DuarteIII 

Maria Lúcia LebrãoIV  *

IClínica de Reeducação Postural e Fisioterapia Bushatsky - São Paulo (SP), Brasil.

IIDepartamento de Demografia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas - Campinas (SP), Brasil.

IIIDepartamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IVDepartamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO:

Objetivo:

O objetivo deste estudo foi investigar a influência dos fatores demográficos, de condições de saúde e de estilo de vida nas alterações do equilíbrio corporal dos idosos residentes no município de São Paulo em 2006.

Métodos:

O estudo foi desenvolvido com base em dados provenientes do Estudo Saúde,Bem-Estar e Envelhecimento (SABE). Foram selecionados todos os indivíduos com 60 anos e mais de idade, de ambos os sexos. A amostra considerada era de 1.226 indivíduos, representando 930.639 idosos. A variável dependente foi a alteração de equilíbrio corporal do idoso. Para mensurá-la utilizou-se parte do Short Physical Performance Battery (SPPB). As variáveis independentes foram classificadas em três grupos: demográficas, de condições de saúde e de estilo de vida. Para estimar a associação entre as alterações de equilíbrio com as variáveis demográficas, de saúde e de estilo de vida em idosos foi realizada uma análise de regressão logística binária múltipla.

Resultados:

Idade, dificuldades em pelo menos uma mobilidade e realização de atividade física regular exercem uma significativa influência no equilíbrio corporal dos idosos (p < 0,05). A idade foi o determinante mais fortemente relacionado. Ter idade entre 75 a 79 anos e 80 anos e mais aumenta em 3,77 e 5,31vezes a chance, respectivamente, de os idosos apresentarem alterações de equilíbrio em comparação às idades de 60 a 64 anos.

Conclusão:

Medidas preventivas e que visam reverter um quadro de instabilidade corporal devem ser preconizadas e incorporadas na agenda de atenção à saúde dos idosos.

Palavras-chaves: Equilíbrio Postural; Idoso; Saúde do Idoso; Fatores Epidemiológicos; Modelos Logísticos; Brasil

INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um fenômeno fisiológico contínuo e progressivo experimentado pelas pessoas ao longo de suas vidas e caracteriza-se por mudanças psicológicas, sociais, genéticas e biológicas1.

O processo fisiológico do envelhecimento compromete, dentre outros sistemas corporais, a habilidade do sistema nervoso central (SNC) em realizar o processamento dos sinais vestibulares, visuais e proprioceptivos responsáveis pela manutenção do equilíbrio corporal, bem como diminui a capacidade de modificações dos reflexos adaptativos. Esses processos degenerativos são responsáveis pela ocorrência de vertigem e/ou tontura e de desequilíbrio na população idosa2.

O equilíbrio corporal é fator primordial para a orientação do indivíduo no espaço circundante3. É um processo automático que possibilita ao indivíduo se mover no meio ambiente e resistir à desestabilização da gravidade. Nele, o SNC precisa de acurada percepção do senso interno da posição dos segmentos corporais, uns em relação aos outros e destes em relação ao espaço4.

O desequilíbrio corporal é um dos principais fatores que limitam a vida do idoso. Namaioria dos casos, não pode ser atribuído a uma causa específica, mas sim a um comprometimento do sistema de equilíbrio como um todo. O desequilíbrio corporal aumenta com a idade5,6. As quedas são as consequências mais graves do desequilíbrio, sendo seguidas por fraturas, hospitalização, complicações psicológicas, medo de novas quedas, perda e redução da independência7, da autonomia e mortalidade. Há um aumento na incidência de mortalidade de idosos devido a fraturas decorrentes de quedas. Segundo dados encontrados por Coutinho etal.8, a mortalidade acumulada em um ano de idosos após hospitalização por fratura decorrente de queda foi de 25,2% e 4% para idosos com e sem fratura grave. As quedas também elevam os custos com o tratamento de saúde, gerando consequências negativas, sobretudo para a qualidade de vida dos idosos.

Vários aspectos contribuem para a perda, total ou parcial, do equilíbrio e controle corporal, tais como: alterações no sistema vestibular, diminuição das reações neuromotoras de equilíbrio e de contração muscular9, diminuição da força muscular, diminuição da coordenação motora, alterações visuo-espaciais10, alteração da propriocepção11 com a diminuição da sensibilidade tátil pela atrofia dos receptores, perdas das fibras proprioceptivas e diminuição dos reflexos tendíneos, alterações auditivas, cognitivas, depressão12e uso de determinados tipos de medicamentos13. Idosos com multimorbidade, baixo nível de atividade física e alcoolismo são mais propensos a apresentar alterações de equilíbrio14,15,16.

O conhecimento dos fatores associados às alterações de equilíbrio corporal dos idosos é de fundamental importância, uma vez que auxilia na adoção de estratégias preventivas mais adequadas e específicas voltadas para atenuar os efeitos deletérios de certos determinantes. Há uma escassez de estudos realizados no Brasil para identificar fatores determinantes associados às alterações de equilíbrio entre idosos residentes na comunidade. Diante desse contexto, o objetivo do presente estudo foi investigar a influência dos fatores demográficos, de condições de saúde e de estilo de vida nas alterações de equilíbrio corporal dos idosos residentes no município de São Paulo em 2006.

MÉTODOS

FONTE DE DADOS

O estudo foi desenvolvido com base em dados oriundos do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE). O Estudo SABE foi iniciado em 2000, sob a coordenação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e se caracterizou como um estudo epidemiológico transversal, de base populacional domiciliar. O objetivo era investigar os diversos aspectos referentes à saúde e condições de vida da população idosa residente em área urbana de sete países da América Latina e Caribe: Argentina, Barbados, Brasil, Chile, Cuba, México e Uruguai.

No Brasil, o Estudo SABE circunscreveu-se aos limites territoriais do município de São Paulo. Foram entrevistados 2.143 indivíduos com 60 anos e mais, não institucionalizados, de ambos os sexos, no período entre janeiro de 2000 e março de 2001 (chamado de A00)17.

O processo da amostra foi realizado em dois estágios: no primeiro, selecionaram-se os setores censitários e, no segundo, foram selecionados os domicílios dentro de cada setor. Emcada domicílio foram entrevistadas todas as pessoas residentes com 60 anos ou mais, independentemente do seu estado conjugal ou grau de parentesco. Devido à baixa densidade da população, ampliaram-se as amostras dos grupos etários de 75 anos e mais e, para compensar o excesso de mortalidade em relação à população feminina, ajustaram-se as amostras do sexo masculino para número igual ao do sexo feminino17. Maiores detalhes sobre o desenho amostral estão disponíveis em http://www.fsp.usp.br/sabe/livrosabe/Livro_SABE.pdf18.

No Brasil, em 2006, o Estudo SABE passou a ser longitudinal. A coorte de 2000 foi localizada e 1.115 idosos foram re-entrevistados. As perdas no período corresponderam aos óbitos (22,9%), às recusas (9,6%), mudanças (2,5%) e institucionalizações (0,4%). Essa coorte foi denominada de A06.

No mesmo momento foi realizado um novo sorteio probabilístico para a entrada de uma coorte com idade entre 60 a 64 anos que foi composta por 299 indivíduos (coorte B06). Dessaforma, a amostra total de 2006 é composta pela coorte A06, sobrevivente dos entrevistados em 2000 e pela nova coorte B06. Ambas as bases de dados tiveram seus pesos recalculados com base nas novas estimativas populacionais, permitindo, dessa forma, a utilização dos dados das pessoas de 60 anos e mais em 2006.

Para o ano de 2000, utilizaram-se instrumentos padronizados para todos os países. Opróprio idoso ou um informante elegível (familiar ou cuidador) responderam ao questionário aplicado por entrevistadores previamente treinados. Em 2006, esse instrumento foi revisado. Alguns blocos foram modificados e outros incorporados. Nos dois momentos, também foram coletados dados antropométricos.

No presente estudo foram selecionados todos os indivíduos com 60 anos e mais de idade, de ambos os sexos, que apresentavam as informações de antropometria referente ao teste de equilíbrio em 2006, sendo a amostra considerada constituída de 1.226 idosos, representando 930.639 idosos do município de São Paulo em 2006.

VARIÁVEIS

A variável dependente foi a alteração de equilíbrio corporal do idoso. Para mensurá-lo utilizou-se parte do Short Physical Performance Battery (SPPB)19. De acordo com o SPPB, o equilíbrio é pontuado em três posições: solicita-se ao participante que fique com os pés juntos olhando para frente e se for capaz de se manter na posição durante 10 segundos é atribuído um ponto, caso não mantenha a posição por 10 segundos ou se recusar a tentar, nenhum ponto é atribuído. Em seguida, realiza-se o teste com o participante em posição Semi Tandem, que tem pontuação igual à anterior. Finalizando o teste de equilíbrio, solicita-se que o indivíduo fique na posição Tandem. Ambas as posições devem ser sustentadas por dez segundos. Vale destacar que na posição Semi Tandem o indivíduo assume a posição em pé com o calcanhar de um dos pés encostado na lateral do hálux do pé oposto; e na posição Tandem, o indivíduo em pé mantém o calcanhar de um dos pés na frente e encostado no outro pé. Sefor capaz de se manter na posição por 10 segundos são atribuídos dois pontos; se mantiver na posição entre três a 9,99 segundos é atribuído um ponto e para um tempo menor que três segundos nenhum ponto é atribuído. Dessa forma, o valor total do teste de equilíbrio será dado pela somatória das três posições, apresentando uma variação na pontuação entre zero (pior desempenho) e quatro pontos (melhor desempenho)19,20. Osidosos com quatro pontos foram classificados em sem alteração de equilíbrioe com pontuação entre zero a três pontos com alteração de equilíbrio.

As variáveis independentes foram divididas em três grupos: demográficas, de condições de saúde e de estilo de vida. As variáveis demográficas consideradas foram: idade em grupos quinquenais (60 - 64, 65 - 69, 70 - 74, 75 - 79, 80 anos e mais) e sexo.

As variáveis de saúde referidas incluídas foram: presença de hipertensão, diabetes, doença cardíaca, embolia/derrame/isquemia/trombose, artrite/artrose/reumatismo, osteoporose, problemas psiquiátricos (dicotomizado em sim e não), depressão (sim e não), declínio cognitivo (sim e não), vertigem ou tontura (sim e não), história de fratura (sim e não), percepção da visão (boa, regular e ruim), dificuldade em pelo menos uma Atividade Instrumental de Vida Diária (AIVD) (sim e não), dificuldade em pelo menos uma mobilidade (sim e não), dificuldade em pelo menos uma Atividade Básica de Vida Diária (ABVD) (sim e não), uso de medicamentos (sim e não), uso de psicotrópicos (sim e não), uso de bloqueadores de cálcio (sim e não), internação hospitalar nos últimos 12 meses (sim e não), Índice de Massa Corporal (IMC) (baixo peso, eutrófico, excesso de peso, obesidade). A doença cardíaca foi definida como ataque cardíaco, doença coronária, angina, doença congestiva ou outros problemas cardíacos. O IMC foi classificado de acordo com as recomendações proposta pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) em 2002 (IMC < 23 = baixo peso; 23 ≤ IMC < 28 = eutrófico; 28 ≤ IMC < 30 = sobrepeso; IMC ≥ 30 = obesidade). O declínio cognitivo foi determinado pela pontuação no Mini Exame do Estado Mental (MEEM) segundo nível de escolaridade (18 ou menos para analfabeto; 22 ou menos para 1 a 3 anos de estudo; 23 ou menos para 4 a 7 anos de estudo; 27 ou menos para 8 anos ou mais de estudo) sugerido por Herrera etal.21.

A depressão foi avaliada pela versão abreviada da “Escala de Depressão Geriátrica” (Geriatric Depression Scale - GDS) proposta por Sheikh e Yesavage22. No Estudo SABE, esse instrumento só é aplicado àqueles idosos que não apresentavam declínio cognitivo.

Os psicotrópicos foram definidos como os medicamentos da classe NO5 (antipsicóticos, ansiolíticos, hipnóticos e sedativos) e N06 (antidepressivos); e os bloqueadores dos canais de cálcio como pertencentes a classe C08 da Anatomical Therapeutic Chemical Code.

As variáveis de estilo de vida foram: atividade física regular (sim e não), alcoolismo (sim e não). O alcoolismo foi medido por meio da Versão Geriátrica abreviada do Teste Michigan (S-MAST-G). Para cada resposta “sim” é atribuído um ponto. Os idosos que obtêm dois ou mais pontos no teste são classificados como tendo problemas com álcool.

MÉTODO ESTATÍSTICO

Para garantir a representatividade da população total, foram incorporados aos dados os pesos para a expansão da amostra. Dados oriundos de pesquisas amostrais complexas são usados, frequentemente, para estimar médias, taxas e proporções. A utilização dos pesos amostrais permite que se obtenham estimativas não viciadas para os parâmetros populacionais. Contudo, as estimativas de medidas de dispersão não são obtidas de forma adequada com a simples utilização dos pesos. Este é o caso do erro padrão associado com os coeficientes das variáveis usadas no modelo de regressão. Em planos de amostragem complexa, as estimativas dos coeficientes são influenciadas apenas pelos pesos, ao passo que as estimativas das medidas de dispersão (variância) são influenciadas também pela estratificação e conglomeração, conjuntamente. Sendo assim, para evitar que os efeitos de conglomeração produzam impacto significativo na precisão das estimativas, podendo levar a conclusões incorretas na análise de testes de hipóteses, foram incorporados no processo de estimação dessas medidas os aspectos que definem o plano amostral complexo do Estudo SABE.

A estatística descritiva foi obtida para todas as variáveis pertencentes ao estudo, considerando a amostra total. A caracterização incluiu adicionalmente as variáveis demográficas (arranjo familiar - mora sozinho, mora acompanhado; estado marital - solteiro(a), casado(a)/união consensual, separado(a)/divorciado(a), viúvo(a)) e socioeconômicas (ocupação atual - trabalha, não trabalha; renda - sem rendimentos, até um salário mínimo, de um a dois salários mínimos, de dois a três salários mínimos, de três a cinco salários mínimos, cinco ou mais salários mínimos; escolaridade - sem escolaridade, de um a três anos de estudo, de quatro a sete anos de estudo, de oito a 11 anos de estudo, 12 ou mais anos de estudo).

Para estimar a associação entre a alteração de equilíbrio com as variáveis independentes demográficas, de saúde e de estilo de vida em idosos com 60 anos e mais em 2006, utilizou-se o modelo de regressão logística binária múltipla.

Inicialmente, foi realizada uma análise de regressão logística binária simples. As variáveis que se mostraram estatisticamente significativas (p < 0,25) foram selecionadas para a análise de regressão logística binária múltipla. Na análise múltipla foram incluídas, simultaneamente, todas as variáveis, tendo como referência um nível de significância de 5%. Osresultados do modelo final foram interpretados como razões de chance (odds ratio). Foi realizada a análise de resíduo para o modelo final.

As análises dos dados foram realizadas usando os procedimentos de pesquisa do software R versão 2.12.0.

Este estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Brasil (CONEP 315/99 e 83/06). A participação foi voluntária e uma declaração assinada de consentimento informado foi obtida a partir de todos os participantes.

RESULTADOS

Na amostra (n = 930.639) a idade variou de 60 a 90 anos, sendo a idade média 69,6 anos e a mediana 69 anos (DP = 7,1 anos). Do total de participantes, 59,6% eram do sexo feminino. Observa-se que 13,5% dos idosos moravam sozinhos, 58,1% eram casados ou estavam em união consensual e 30% viúvos. Aproximadamente 28,7% dessa população ainda trabalhava, 19,1% não possui escolaridade e 15,2% vivia com até um salário mínimo (Tabela 1).

Tabela 1. Distribuição relativa da amostra segundo características demográficas e socioeconômicas, município de São Paulo, 2006. 

Variáveis %
Idade (anos)
60 - 64 29,1
65 - 69 28,1
70 - 74 20,2
75 - 79 12,6
80 e mais 10,1
Sexo
Mulher 59,6
Arranjo familiar
Sozinho(a) 13,5
Estado marital
Solteiro(a) 4,0
Casado(a)/união consensual 58,1
Separado(a)/divorciado(a) 7,8
Viúvo(a) 30,0
Ocupação atual
Trabalha 28,7
Renda (SM)
Sem rendimentos 3,0
Até 1 15,2
1 a 2 17,0
2 a 3 10,7
3 a 5 9,8
5 ou mais 9,1
Escolaridade (anos de estudo)
Sem escolaridade 19,3
1 a 3 22,3
4 a 7 38,7
8 a 11 13,2
12 e mais 6,5

Fonte: Estudo SABE, 2006. Os dados faltantes são referentes à categoria sem informação. SM: Salário mínimo.

A prevalência dos idosos com alteração de equilíbrio era de 16,3%, sendo que as mulheres possuíam maiores proporções de prejuízos comparativamente aos homens (Figura 1). ATabela2 apresenta as características relacionadas às condições de saúde/doença e estilo de vida dos idosos residentes no município de São Paulo em 2006. A hipertensão arterial foi a doença crônica mais frequente (61,7%), acompanhada por artrite/artrose/reumatismo (31,4%), doenças cardíacas (21,2%), osteoporose (20,9%), diabetes (20,1%), problemas psiquiátricos (13,6%), embolia/derrame/isquemia/trombose (7,1%). Cerca de 25,9% dos idosos apresentavam declínio cognitivo, 13,1% sintomas depressivos, 16,3% declararam presença de vertigem ou tontura persistente e 8,4% referiram história de fratura. Quanto à percepção da visão, 69,5% afirmaram ter boa visão. Verifica-se que 38,2% declararam ter dificuldade em pelo menos uma AIVD, 20,0% em pelo menos uma ABVD e 86,8% apresentaram dificuldade em pelo menos uma mobilidade. Naamostra, 90,2% faziam uso de medicamentos, sendo que 3,3% dos idosos usavam psicotrópicos e 2,4% usavam bloqueadores de canal de cálcio. A internação hospitalar nos últimos 12meses foi relatada por 7,7% dos idosos, respectivamente. Quanto ao IMC, 24,3% apresentavam baixo peso e 21,2% obesidade. Aproximadamente 1,5% dos idosos apresentou resultado positivo no screening para alcoolismo e 18,3% relataram praticar atividade física regularmente.

Fonte: Estudo SABE, 2006.

Figura 1. Distribuição relativa (%) das alterações de equilíbrio dos idosos segundo sexo, município de São Paulo, 2006. 

Tabela 2. Distribuição relativa da amostra segundo características relacionadas à saúde/doença e estilo de vida, município de São Paulo, 2006. 

Variáveis %
Hipertensão* 61,7
Diabetes* 20,1
Doença cardíaca* 21,2
Embolia/derrame/isquemia/trombose* 7,1
Artrite/artrose/reumatismo* 31,4
Osteoporose* 20,9
Problemas psiquiátricos* 13,6
Depressão** 13,1
Declínio cognitivo*** 25,9
Presença de vertigem ou tontura 16,3
História de fratura 8,4
Percepção da visão
Boa 69,5
Regular 23,5
Ruim 6,5
Dificuldade em pelo menos uma AIVD 38,2
Dificuldade em pelo menos uma mobilidade 86,8
Dificuldade em pelo menos uma ABVD 20,0
Uso de medicamentos 90,2
Uso de psicotrópicos 3,3
Uso de bloqueadores de cálcio 2,4
Internação hospitalar nos últimos 12 meses 7,7
Atividade física regular 18,3
Índice de Massa Corporal
Baixo peso 24,3
Eutrófico 42,7
Excesso de peso 11,4
Obesidade 21,2
Screening para alcoolismo**** 1,5

Fonte: Estudo SABE, 2006. *Autorreferida; **Escala de Depressão Geriátrica; ***Mini Exame do Estado Mental; ****Teste de Michigan reduzido. As porcentagens se referem à categoria “sim”. Os dados faltantes são referentes à categoria sem informação. AIVD:Atividade Instrumental de Vida Diária; ABVD: Atividade Básica de Vida Diária.

A partir da análise de regressão logística binária simples foram elegíveis para a regressão múltipla as seguintes variáveis: idade, hipertensão arterial, doenças cardíacas, embolia/derrame/isquemia/trombose, depressão, declínio cognitivo, história de fratura, percepção da visão, dificuldade em pelo menos uma AIVD, dificuldade em pelo menos uma mobilidade, dificuldade em pelo menos uma ABVD, uso de psicotrópicos, internação hospitalar nos últimos 12 meses, IMC e atividade física regular.

A Tabela 3 mostra as razões de chances do modelo de regressão logístico binário múltiplo para as alterações de equilíbrio dos idosos. Os resultados revelam que a idade, dificuldades em pelo menos uma mobilidade e realização de atividade física regular exercem uma significativa influência no equilíbrio corporal dos idosos e as associações foram estatisticamente significativas ao nível de 5%. A idade foi o determinante mais fortemente relacionado. Teridade entre 75 a 79 anos e 80 anos e mais aumenta em 3,77 e 5,31 vezes, respectivamente, a chance de os idosos terem alterações de equilíbrio comparativamente à categoria de referência 60 a 64 anos (p < 0,05). Possuir dificuldades em pelo menos uma mobilidade piora o equilíbrio dos idosos. A presença de dificuldade aumenta em 2,64 vezes a chance de os idosos apresentarem alterações do equilíbrio em relação à categoria de referência (p < 0,05). A prática de atividade física regularmente se mostrou como um fator protetor. Idosos que realizam atividades físicas regularmente diminuem em 66% a chance de possuírem alterações de equilíbrio (p < 0,05) em comparação aos idosos que não praticam.

Tabela 3. Razões de chances do modelo de regressão logístico binário múltiplo para as alterações de equilíbrio dos idosos residentes no município de São Paulo, 2006. 

Variável Razões de Chances Valor p
Intercepto 0,000
Idade (anos)
60 - 64 1,00
65 - 69 1,98 0,046
70 - 74 1,79 0,078
75 - 79 3,77 0,000
80 e mais 5,31 0,000
Hipertensão* 1,08 0,685
Doença cardíaca* 1,18 0,459
Embolia/derrame/isquemia/trombose* 1,39 0,336
Depressão* 1,18 0,574
Declínio cognitivo* 1,15 0,527
História de fratura* 1,56 0,114
Percepção da visão
Boa 1,00
Regular 0,98 0,932
Ruim 1,10 0,815
Dificuldade em pelo menos uma AIVD* 0,98 0,489
Dificuldade em pelo menos uma mobilidade* 2,64 0,037
Dificuldade em pelo menos uma ABVD* 1,16 0,813
Uso de psicotrópicos* 1,50 0,373
Internação hospitalar nos últimos 12 meses* 1,04 0,914
Atividade física regular* 0,34 0,000
Índice de Massa Corporal
Eutrófico 1,00
Baixo peso 0,90 0,651
Excesso de peso 1,64 0,113
Obesidade 1,19 0,477

Fonte: Estudo SABE, 2006. *Categoria de referência: não. AIVD: Atividade Instrumental de Vida Diária; ABVD: Atividade Básica de Vida Diária.

DISCUSSÃO

O presente estudo identificou fatores associados às alterações do equilíbrio corporal dos idosos residentes no município de São Paulo no ano de 2006. Os resultados mostram que idade, dificuldade em pelo menos uma mobilidade e prática de atividade física regular apresentam associações estatisticamente significativas com as alterações de equilíbrio dos idosos residentes no município de São Paulo em 2006.

A idade mais avançada foi o determinante mais fortemente relacionado. Os resultados do presente estudo corroboram aqueles encontrados por outras pesquisas. De acordo com Gahery etal.23, a idade é um importante fator para o risco de alterações do equilíbrio e está sempre presente entre as principais causas. Para Iwasaki & Yamasoba24, o equilíbrio se altera com o aumento da idade e as estratégias para sua manutenção se modificam ao longo da vida.

O envelhecimento fisiológico compreende uma série de alterações nas funções orgânicas e mentais, devido exclusivamente aos efeitos da idade avançada sobre o organismo, fazendo com que o mesmo perca a capacidade de manter o equilíbrio homeostático e que todas as funções fisiológicas gradualmente comecem a declinar. Esse processo determina a progressiva perda da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente e ocasiona maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos. Estes, por sua vez, levam a disfunções em vários órgãos e funções no idoso, como mudanças no sistema visual, vestibular e proprioceptivo, ocasionando os distúrbios da postura e do equilíbrio24. Sendo assim, quanto mais avançada for a idade do indivíduo mais vulnerável ele se torna.

A dificuldade em pelo menos uma mobilidade também se revelou como um importante fator determinante das alterações de equilíbrio em idosos. O sistema musculoesquelético sofre modificações fisiológicas importantes decorrentes da senescência, tais como a diminuição progressiva da massa e da força muscular, do desempenho motor e da flexibilidade, levando a um maior prejuízo da funcionalidade em idosos. E idosos em declínio funcional são mais vulneráveis às alterações das reações de equilíbrio.

Os achados encontraram que a prática de atividade física regular foi um fator protetor. Estudos prévios apontaram que a realização de atividade física é importante para a melhora do equilíbrio em idosos25. De acordo com Ferraz etal.26, idosos sedentários eram mais susceptíveis a uma maior oscilação postural. Os achados encontrados por Figliolino etal.16mostram que os idosos que não praticavam atividade física apresentavam maior déficit de equilíbrio. Indivíduos sedentários apresentam uma menor mobilidade funcional e maiores alterações do equilíbrio e marcha.

A identificação de fatores associados ao equilíbrio corporal dos idosos fornece elementos importantes para as ações de prevenção e intervenção. Alguns fatores encontrados nos resultados deste estudo e que contribuem substancialmente para a instabilidade corporal do idoso podem ser modificados, como, por exemplo, a capacidade funcional e a prática de atividade física. Nesse sentido, cabe aqui afirmar que intervenções e abordagens que estimulem a realização de atividade física regular devem continuar como prioridades, uma vez que a atividade física se mostrou um importante fator da alteração de equilíbrio entre os idosos residentes no município de São Paulo. Promover um maior desempenho físico entre os idosos provoca uma melhora na força muscular, flexibilidade, capacidade aeróbica, capacidade funcional e, consequentemente, no equilíbrio. A redução das alterações de equilíbrio atua no sentido da prevenção de quedas e suas complicações, contribuindo para um envelhecimento mais ativo e saudável, diminuindo, sobretudo, a sobrecarga para o sistema de saúde. Do mesmo modo, abordagens específicas voltadas para as limitações funcionais existentes podem levar a uma melhora imediata da capacidade funcional, minimizando suas consequências no equilíbrio do idoso.

Não foram encontrados na literatura nacional estudos populacionais que investigam os fatores associados ao equilíbrio dos idosos, o que dificultou, em certa medida, a comparação com outros estudos no Brasil. Estudos de base populacional permitem a obtenção de dados dentro do domicílio do idoso e, de maneira especial, da comunidade na qual o indivíduo está inserido, podendo refletir, assim, a realidade das condições de saúde da população residente naquela área.

Os estudos transversais, como é o caso deste estudo, apresentam problemas de direção temporal entre exposições e desfechos, visto que essas informações são obtidas ao mesmo tempo. Assim, os estudos transversais impossibilitam a identificação da causa das relações. Portanto, futuras pesquisas com análises de dados longitudinais se fazem necessárias visando obter maiores explicações sobre a causalidade dessas relações nessa população.

CONCLUSÃO

Finalmente, as alterações de equilíbrio entre os idosos são determinadas por vários fatores. Atenção especial deve ser dada à identificação das causas do desequilíbrio corporal e abordar os déficits modificáveis. Medidas preventivas e que visam reverter um quadro de instabilidade corporal devem ser preconizadas e incorporadas na agenda de atenção à saúde dos idosos. A intervenção deve sempre maximizar o desempenho físico e funcional. A melhora das reações de equilíbrio possivelmente possibilitará ao idoso uma maior independência e, consequentemente, uma melhoria de sua qualidade de vida.

REFERÊNCIAS

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Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Recebido: 06 de Julho de 2015; Revisado: 08 de Julho de 2015; Aceito: 30 de Julho de 2015

Autor correspondente: Luciana Correia Alves. Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó”, Universidade Estadual de Campinas, Cidade Universitária Zeferino Vaz. Avenida Albert Einstein, 1300, Sala 24, CEP: 13081-970, Campinas, SP, Brasil - E-mail: luciana@nepo.unicamp.br

*in memoriam

Conflito de interesses: nada a declarar

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