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Revista de Economia Contemporânea

Print version ISSN 1415-9848On-line version ISSN 1980-5527

Rev. econ. contemp. vol.19 no.2 Rio de Janeiro May./Aug. 2015

https://doi.org/10.1590/198055271925 

ARTIGOS

A diversificação da estrutura produtiva no Brasil: observações preliminares

The diversification of the productive structure in Brazil: preliminary remarks

Jucélio Kretzera 

aDepartamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo examinar a extensão da diversificação das operações produtivas no Brasil, de 2006 a 2010. Em 2007, o IBGE passou a adotar a versão 2.0 da CNAE, divulgando novas informações estatísticas de unidades ativas, em especial referentes às variáveis derivadas "empresa não diversificada" e "empresa diversificada". Conclui-se que a maioria das empresas do país apresenta um baixo nível de diversificação; a maioria das empresas brasileiras é "especializada" em suas atividades econômicas básicas (unidade local única). Das empresas que operam com "mais de uma unidade local", quase dois terços delas são classificados como "empresas não diversificadas", em 2010. No que tange às "empresas diversificadas", observa-se que, quanto maior o tamanho, maior tem sido a diversificação, mas verifica-se, de modo geral, que as empresas de todos os tamanhos têm se preocupado em expandir mais por meio da "diversificação por atividade e mista" e menos por intermédio da "diversificação espacial". Considerando a diversificação por setor de atividade econômica, as empresas da construção e da indústria de transformação atingiram níveis mais elevados de diversificação em 2010. De modo geral, diversos setores mostram características distintas com relação ao tipo de diversificação e ao porte das empresas.

Palavras-chave: diversificação de atividades; diversificação espacial; tamanho da firma.

ABSTRACT

This study aims to examine the extent of diversification of production operations in Brazil, of 2006-2010. In 2007, IBGE started adopting version 2.0 of the CNAE, disseminating new statistical information of active units, in especially relating to derived variables "non-diversified company" and "diversified company". It is concluded that most companies in the country has a low level of diversification; most Brazilian companies is "specialized" in their basic economic activities (single local unit). Businesses operating with "more of a local unit", almost two thirds of them are classified as "non-diversified companies", in 2010. As regards the "diversified companies", it is observed that the larger the size, greater has been the diversification, but there is, in general, companies of all sizes have been keen to expand more through "diversification of activity and mixed", and less through "spatial diversification". Considering diversification by sector of economic activity, construction companies and manufacturing industry have achieved higher levels of diversification, in 2010.In general, different sectors have different characteristics with respect to the type of diversification and size of the companies.

Keywords: diversification of activities; spatial diversification; firm size.

1. INTRODUÇÃO1

A discussão acerca dos aspectos teóricos da diversificação das firmas tem sido feita com base, principalmente, na obra de Penrose (1959). Após cinquenta anos da publicação de The theory of the growth of the firm , Edith Penrose continua sendo aclamada na literatura que trata a expansão diversificada da firma por abordar uma das características mais marcantes da moderna firma da iniciativa privada, a diversificação de suas atividades, que parece acompanhar seu crescimento. A literatura que se segue tem como referência as economias avançadas, porém, é preciso abordar as discussões sobre a diversificação com respeito a sua aplicação em países em desenvolvimento (países emergentes).

Diante do grande volume de pesquisas sobre o tópico diversificação, o presente trabalho busca investigar um aspecto básico ainda não compreendido amplamente nos estudos de caso brasileiros, levantado inicialmente por Penrose (1959, p. 138): admitindo o então processo de crescimento e diversificação corporativo, "[...] embora a diversificação extrema seja característico de algumas firmas, a especialização, definida de modo amplo, é mais a regra do que a exceção". Cumpre, então, investigar as características marcantes da recente diversificação da produção das empresas que operam no Brasil.

Dito isso, o objetivo, aqui, é examinar a extensão da diversificação no país, no período de 2006 a 2010, a partir do número de estabelecimentos (unidades locais) agregados às empresas com base nas informações estatísticas disponibilizadas no Cadastro Central de Empresas do IBGE. O argumento básico está em considerar que a diversificação em inúmeras linhas de operação implica firmas capacitadas na construção e ampliação de seus recursos, capacidades e competências apropriadas para manter uma posição de produção e mercado forte e, ainda, enfrentar as ameaças dos concorrentes.

O estudo está estruturado da seguinte maneira: o tópico a seguir exibe os fundamentos da análise da diversificação desenvolvida a partir de Penrose (1959) para explicar os condicionantes internos e externos à firma no processo de diversificação. Em seguida, procede-se a um exame da situação dos estabelecimentos (unidades locais) das empresas brasileiras, a partir do levantamento de dados estatísticos (IBGE) por grupos de tamanhos de empresa para os anos de 2006 a 2010, a fim de demonstrar como a diversificação está propagada atualmente no país. Por fim, as conclusões são apresentadas.

2. DIVERSIFICAÇÃO E CRESCIMENTO DA FIRMA: ESPAÇOS, DIREÇÕES E MÉTODOS DE DIVERSIFICAÇÃO

O mais importante na análise da economia da diversificação em Penrose (1959) concerne ao processo que acontece dentro da firma (mudanças nos serviços produtivos e conhecimentos disponíveis à firma e mudanças nas condições externas de oferta e mercado que são percebidas por ela), bem como ao significado da diversificação para a análise das relações de produção e mercado. Sendo assim, Penrose (1959, p. 108-109) postula que:

[...] uma firma diversifica suas atividades produtivas sempre que, sem abandonar completamente suas antigas linhas de produto, ao iniciar a fabricação de novos produtos, inclusive produtos intermediários, que são suficientemente diferentes dos outros produtos que ela produz, implique alguma diferença significativa nos programas de produção e distribuição da firma.

Nestes termos, a introdução de novos produtos implica não só a capacidade da firma deservir e influenciar seus clientes por meio de novos programas de venda em mercados existentes e distintos, mas também a de estabelecer relações tecnológicas entre vários produtos. Dessa maneira, a diversificação compreende incrementos (Penrose, 1959, p 109): (a) na variedade de produtos finais fabricados; (b) na integração vertical; e (c) no número de "áreas básicas" de produção nas quais a firma opera.

Com base nessa assertiva, Dosi, Teece e Winter (1992) definem o conceito de "coerência corporativa" das linhas de negócios de uma firma, relacionadas pelas características do conhecimento e suas ligações. Para Prahalad e Hamel (1990), a competência essencial está associada à capacidade, por parte da gerência, de "consolidar" a habilidade de produção e a tecnologia da firma como um todo dentro da competência que habilita o negócio individual a "adaptar-se" rapidamente às mudanças de oportunidades. Dizem eles: "As competências essenciais são o aprendizado coletivo na organização, especialmente como coordenar diversas habilidades de produção e múltiplos cursos integrados de tecnologia".

Perante as mutáveis circunstâncias internas e externas, incluindo-se o estágio de desenvolvimento tecnológico e o nível de organização dos concorrentes, as firmas são impelidas a expandir suas atividades produtivas por meio da diversificação. Em outras palavras, a firma escolheria uma oportunidade de produção se acreditasse, entre outras coisas, que alterar ou adicionar a sua linha de produtos poderia proporcionar-lhe maiores lucros ou se considerasse que as ações necessárias compensariam o risco ou justificariam o volume de recursos a serem mobilizados para essa finalidade (Penrose (1959).

A ampliação das "áreas básicas" de produção de uma firma pode ocorrer de diferentes maneiras. Cada tipo de atividade produtiva que utiliza máquinas, processos, habilidades e matérias-primas, todas complementares e intimamente associadas no processo de produção, pode ser chamado de base de produção ou base tecnológica da firma, independentemente do número e do tipo de produtos manufaturados. Em relação ao mercado, prosseguindo com Penrose (1959), uma firma com uma única base produtiva pode comercializar seus produtos em diferentes mercados. Assim, uma firma pode ter diferentes áreas de mercado se houver diferentes programas de vendas para influenciar cada grupo de clientes.

Em um sentido mais geral, o termo diversificação apresenta duas dimensões no que diz respeito às relações de produção e mercado: diversificação da produçãodentro de sua área de especialização ou fora dela. De acordo com (Penrose (1959, p. 110), "diversificação dentro da mesma área de especialização refere-se à produção de mais produtos baseados na mesma tecnologia e vendidos nos mercados existentes da firma". Nestas circunstâncias, área de especialização diz respeito, segundo a autora, a certo tipo de produção a que ela sempre se dedica na fabricação de uma variedade de produtos, utilizando uma ou mais bases de produção, para servir seus clientes atendidos no âmbito de uma "área de mercado particular". As diferentes bases, assim consideradas, devem necessariamente estar ligadas à mesma tecnologia que não seja, em si mesma, muito específica em relação a qualquer tipo particular de produto (competência tecnológica). Por exemplo, uma firma especializada na fabricação de calçados de couro (sapatos masculino e feminino) passa a introduzir novos produtos em sua linha de produção existente, tais como tênis de qualquer material (adulto e infantil), e artigos para viagem, bolsas e semelhantes de qualquer material; todos voltados para a mesma área de mercado (comércio varejista).

A diversificação e a expansão primordialmente baseada em altos graus de competência e de conhecimentos técnicos de áreas produtivas especializadas, junto à posição de mercado que ela assegura, são características marcantes de muitas das maiores firmas na economia. Na diversificação dentro da área de especialização, a firma pode realizar movimentos horizontais e verticais em determinada cadeia produtiva (Penrose (1959; Britto, 2013).

Na concepção de Penrose, tendo alcançado uma posição satisfatória e razoavelmente segura em uma ou mais áreas de especialização, uma firma pode, desde que disponha de recursos para a expansão, descobrir oportunidades de crescimento em novas áreas de mercado e de produção mais promissoras do que o alargamento da expansão nas áreas existentes. Nesse caso, a diversificação envolve um afastamento das áreas de especialização da firma. A partida da firma para a conquista de novas áreas pode ocorrer por meio de três tipos de diversificação (Penrose, 1959, p. 110): "(1) a entrada em novos mercados com novos produtos usando a mesma base produtiva; (2) expansão no mesmo mercado com novos produtos baseados em uma diferente área de tecnologia; e (3) entrada em novos mercados com novos produtos baseados em uma diferente área de tecnologia".

O processo de diversificação como eixo do crescimento da firma é tão amplo que pode envolver diferentes métodos de expansão. Na verdade, existe uma relação entre os recursos existentes de uma firma e o tipo de expansão em consideração. Segundo Penrose (1959, p. 85), "ao planejar sua expansão, uma firma considera dois grupos de recursos: seus recursos previamente adquiridos ou 'herdados', e aqueles que ela deve obter do mercado no sentido de operacionalizar seus programas de produção e expansão". Daí se distinguem dois modos de expansão: a expansão interna e a expansão externa. Considerando o fato de as firmas em geral serem especializadas em áreas de atividades relativamente pouco amplas, mesmo quando oportunidades para diversificar mais extensamente por meio de aquisições se apresentam abertas, elas tendem a restringir suas tentativas de diversificação às áreas em que já possuem algumas qualificações (Penrose (1959). Nestas circunstâncias, uma firma pode desenvolver estratégias de "diversificação concêntrica" resultante da expansão externa por meio de aquisiçõesde estabelecimentos em campos relacionados à competência essencial - serviços produtivos desenvolvidos em suas atividades produtivas existentes que são especialmente valiosos na nova atividade. Há casos ainda de "diversificação em conglomerado" também por meio de aquisições, mas de estabelecimento em campos não relacionados, em que as firmas claramente não procuram fazer esforço algum para se estabelecer em um campo particular qualquer. Essa forma de crescimento por aquisição conglomerada conduz, com frequência, a uma dispersão das atividades produtivas de uma firma e pode criar uma estrutura produtiva extremamente desordenada.

Embora as oportunidades para entrar na produção de novos produtos possam ser um forte incentivo para a firma diversificar suas atividades produtivas, bem como a possibilidade de adquirir firmas lucrativas em campos não relacionados possa ser ampla, pressões competitivas externas, reais e potenciais devem ser reconhecidas. Economias em pleno crescimento não liberam as firmas de encararem a instabilidade (flutua­ções sazonais e cíclicas, inclusive flutuações adversas permanentes resultantes de mudanças em tecnologias ou nos gostos dos consumidores) da demanda de produtos específicos em favor das incursões sucessivas e bem-sucedidas de seus concorrentes em introduzir inovações de produtos e processos (Penrose (1959).

Além da instabilidade, do crescimento lento ou até o declínio da demanda de certos produtos, outros motivos de diversificação devem ser considerados. Tendo alcançado uma posição satisfatória e razoavelmente segura em sua área de especialização, uma firma com recursos disponíveis e suficientes pode descobrir oportunidades para expansão em novas áreas muito mais promissoras do que um alargamento da expansão de suas áreas existentes, se a firma se confrontar com um comprometimento significativo de recursos adicionais, que passam a não contribuir tanto quanto possível para a geração de retorno. A nova oportunidade se revelará atrativa, contanto que a posição a ser conquistada pela firma seja suficiente para garantir as importantes economias de produção e marketing , bem como para estender as vantagens de aceitação e confiança do consumidor. Todavia, como enfatiza Penrose (1959, p. 143), "a tarefa de entrar e a tarefa de manter o novo campo contra a competição tornam-se mais fáceis se outras vantagens em adição à capacidade empreendedora e gerencial estiverem disponíveis". Crescimento não se resume à simples questão de produzir mais do mesmo produto em larga escala; ele envolve inovação, mudança de técnicas de distribuição e mudança de organização da produção e do gerenciamento. Nestes termos, Penrose (1959) chama atenção para os conflitos entre velocidade da expansão e a manutenção de "coordenação gerencial" eficiente de certa coleção de atividades econômicas de uma grande firma industrial.

Por outro lado, cumpre destacar a importância dos condicionantes externos à empresa no processo de diversificação. A capacidade de formular e implementar estratégias das firmas também é afetada pelo padrão de concorrência e estruturas de mercados específicas a setores particulares. Segundo Ferraz, Kupfer e Haguenauer (1995), o padrão de competição varia de indústria para indústria; cada uma apresenta reação distinta aos cenários formados a partir de diferentes mercados e ambiente tecnológico, bem como reage diferentemente às políticas macroeconômicas e às relações interindustriais - isso representa uma expressão das especificidades setoriais.

Para os autores, as mudanças nos padrões de concorrência, derivadas do surgimento de novas fontes de competitividade internacional (novos padrões de consumo mais fortemente baseados em tecnologias e globalizados, redução do ciclo de vida das inovações, e a maior presença no mercado internacional) e da perda de importância das vantagens competitivas tradicionais, como as baseadas nas disponibilidades de recursos naturais ou mão-de-obra barata, levaram a uma transformação das configurações industriais. Em praticamente todos os setores da atividade industrial, observam-se formas avançadas de articulação entre empresas, a chamada cooperação vertical. As relações tecnoeconômicas de grupos industriais específicos (setores industriais agregados de acordo com as categorias de uso dos bens, dos sistemas técnicos de produção e dos padrões de geração e difusão intersetorial de inovações), bem como suas respectivas características de produto e de mercado, tendem a condicionar as estratégias típicas de competição, incluindo a direção possível da diversificação, como apresentado no Quadro 1.

Fonte: Adaptado de Ferraz, Kupfer e Haguenauer (1995).

Quadro 1: Características dos segmentos selecionados, segundo Grupos Industriais 

Como exemplo, nas diversas atividades da indústria manufatureira voltadas para o consumo final da população em geral, prevalece um grupo de indústrias produtoras de "bens tradicionais" dedicadas a uma grande variedade de produtos e a procedimentos produtivos, decorrente da extensa segmentação de mercados em termos de níveis de renda dos consumidores. Nestas indústrias estão presentes alta variedade de produtos de baixa intensidade tecnológica e poucos requisitos de escala mínima de produção. Isso também é favorecido pelas características da oferta: elas permitem a convivência de empresas com características estruturais - porte, linha de produtos, capacitação e desempenho etc. - muito diferenciadas. A trajetória de evolução do padrão de concorrência nesses setores é de segmentação de mercados.

Em suma, a evolução das linhas de negócios nas quais as firmas brasileiras estão engajadas permite, a priori , fazer comparações entre o nível de diversificação das firmas, à medida em que aumentam de tamanho e mudam suas características ao longo do tempo. O número de empresas com unidade local única indica o quanto as empresas são "especializadas" em suas atividades econômicas básicas, que representam o maior volume da produção dos bens e serviços dentro de uma classe da CNAE (quatro dígitos). Como a unidade local única só pode ser classificada em uma única categoria da CNAE pelo IBGE, no enquadramento de uma unidade em diferentes níveis da classificação, as categorias devem estar relacionadas umas às outras por agregações e desagregações. Por exemplo, uma unidade classificada na Seção Indústrias de Transformação só poderá ser enquadrada em categorias mais detalhadas, nos níveis de divisão, grupo ou classe, que estejam dentro do âmbito desta seção. Os casos de múltiplas operações são comuns em empresas de maior porte, que, em quantidade, são minoria, mas que respondem por parcela significativa da produção (IBGE, 2007).

De acordo com a disponibilidade estatística, para uma identificação da diversificação das atividades produtivas, nos termos conceituais adotados pelo IBGE (2009), torna-se necessária a desagregação dos dados no que se refere à diversificação espacial e por atividades. Entretanto, para o devido tratamento e interpretação dos dados estatísticos, devem-se observar as restrições impostas pela definição da unidade de análise em consideração. Por exemplo, as empresas grandes e complexas, com múltiplas localizações e múltiplas atividades, podem apresentar certas limitações quanto a sua classificação em certas atividades econômicas, uma vez que o desenho da classificação não leva em conta a variedade de possibilidades de integração vertical e horizontal de atividades realizadas por empresas desse tipo. Além disso, o grau de similaridade de processos de produção das unidades diminui quando mais alto o nível de agregação das atividades (nível de seção). Nos níveis mais altos da classificação, a ênfase move-se crescentemente para a composição da produção, prevalecendo mais o que é produzido e menos os processos empreendidos para produzir aquela produção. Neste caso, unidades com insumos e processos produtivos diferentes obedecem a semelhanças na finalidade da atividade exercida. No nível de grupo da CNAE, as diferentes categorias compreendem atividades econômicas com função de produção significativamente diferente (IBGE, 2007). Via de regra, em empresas que produzem o mesmo produto ou similares, ou grupos de produtos, ou usem processos semelhantes de produção, geralmente há uma grande variedade de bens e serviços que são realmente ofertados.

Em suma, caracteriza-se como diversificação a produção de mais um produto pela empresa, em contraste com a empresa com um único produto. Este conceito é usado, pois, no sentido amplo, mas seguindo a definição de Edith Penrose. Em conformidade com Miller (1981), os indicadores de diversificação estudados neste trabalho consistem na mensuração e caracterização de empresas com produtos múltiplos, sejam estes integrados ou não à produção primária. Nos termos conceituais adotados peloIBGE (2007), a diversificação se verifica, de fato, nas classificações de "diversificação por atividade e mista", pois a "diversificação espacial" representa, principalmente, uma dispersão geográfica de suas atividades produtivas para outras Unidades da Federação, podendo ou não variar sua linha de produtos entre as diversas classes existentes no mesmo grupo. Na verdade, as "empresas não diversificadas" podem até estar diversificando suas atividades em nível de classes da CNAE. Em outras palavras, nos níveis mais altos da classificação, a ênfase move-se crescentemente para a composição da produção, prevalecendo mais o que é produzido (produto/serviço) e menos os processos empreendidos para produzir aquela produção (base de produção).

Os censos econômicos e outras pesquisas do IBGE consideram como unidades censitárias básicas as empresas que são agregadas segundo sua atividade econômica, seja ela industrial, comercial, financeira, de serviço etc. A exemplo do conceito de base tecnológica, ou base de produção, usado por Penrose (1959), a aglutinação das atividades industriais das empresas do IBGE, que satisfaz de forma homogênea, no mesmo nível de agregação, às condições de máquinas, processos e matérias-primas complementares e relacionadas, pode ser classificada a três dígitos. No entanto, dentro de determinada indústria a três dígitos pode-se verificar várias "bases tecnológicas"; pode haver bases tecnológicas a dois, quatro ou seis dígitos.

Sendo assim, adotam-se, aqui, indicadores de diversificação espacial e de atividades no total de empresas e nas empresas com mais de uma unidade local nas diferentes seções da classificação de atividades CNAE; os mesmos indicados pelo IBGE (2007), mas com algumas variações. As empresas classificadas como não diversificadas concentram suas linhas de negócios em apenas uma unidade da Federação e em atividades econômicas com função de produção similares (único grupo da CNAE), trata-se de empresas localmente centralizadas .

3. EMPRESAS BRASILEIRAS DIVERSIFICADAS ESPACIALMENTE E POR ATIVIDADE

É possível analisar, em nível agregado, a extensão da diversificação industrial de um país a partir do número de estabelecimentos (unidades locais) vinculados às empresas com base nas informações estatísticas disponibilizadas no Cadastro Central de Empresas do IBGE, no caso brasileiro. Os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), disponíveis em suas pesquisas industriais ou na base de dados agregados SIDRA (Sistema IBGE de Recuperação Automática), proporcionam extensas informações estatísticas por grupos de tamanhos de firma para diversos anos, suficientes para demonstrar se a diversificação está ou não extremamente disseminada atualmente. O sistema de classificação industrial adotado no Brasil é a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). Os dados da CNAE também fornecem informações consideráveis, porém, pouco exploradas nos esforços acadêmicos, sobre o "grau" de diversificação, medido em censos de classes de produtos e censos industriais.

Parafraseando Penrose (1959), uma olhada superficial para a extensão das operações produtivas de poucas empresas brasileiras pode confirmar a sua dificuldade em estabelecer uma ou mais 'bases' amplas e relativamente enraizadas sobre as quais possa adaptar e estender suas operações em um mundo incerto, mutável e competitivo. A economia brasileira tem revelado um baixo nível de diversificação das operações produtivas das grandes firmas, mas, apesar disso, há uma leve tendência de aumento da diversificação das firmas no período. ATabela 1 mostra as linhas principais de negócios nas quais as firmas brasileiras estão engajadas, no período de 2006 a 2010. Esses dados permitem, a priori , fazer comparações sobre o nível de diversificação entre as firmas em geral de diferentes tamanhos. Em 2006, as firmas com mais de uma linha de negócio representam um pouco mais de 1% dos estabelecimentos brasileiros. Tal situa­ção permanece praticamente inalterada até 2010.

Tabela 1: Diversificação: número de empresas por Código CNAE 2.0 - Brasil 

Fonte: Elaboração própria com base em DPE/IBGE, 2006-2010 (Tabulação Especial).

A simples contagem do número de atividades dos distintos códigos da SIC das firmas ativas tem sido utilizada como medidas contínuas ou índices quantitativos de diversificação. As referidas medidas são consideradas válidas pela disponibilidade, objetividade e reaplicabilidade dos dados (Montgomery, 1982). A disponibilidade simples da contagem do número de indústria em que a empresa opera é apropriada para o reconhecimento da capacidade de a empresa entrar em atividades relacionadas ou não com sua produção primária. Apesar de representarem um indicador incompleto para o entendimento da diversificação, tais informações estatísticas tornam-se medidas úteis quando se pretende revelar, de maneira ampla, a extensão e o nível de diversificação da estrutura produtiva de um país.

A Tabela 2 mostra a evolução das linhas de negócios nas quais as firmas brasileiras estão engajadas no período de 2006 a 2010. Esses dados permitem, a priori , fazer comparações entre o nível de diversificação das firmas, à medida em que aumentam de tamanho e mudam suas características ao longo do tempo. O porte das empresas é classificado de acordo com as faixas de pessoal ocupado total definidas pela Oficina Estatística da Comunidade Europeia (EUROSTAT) e pela Organização das Nações Unidas (ONU): microempresas (MEs) são as empresas com até nove pessoas ocupadas; empresas pequenas (PEs) são as que possuem de 10 a 49 pessoas ocupadas; empresas médias (MdEs), de 50 a 249 pessoas; e empresas grandes (GEs) possuem 250 ou mais pessoas ocupadas (IBGE, 2009).

Tabela 2: Unidades locais das empresas segundo faixas de pessoal ocupado total - Brasil 

Fonte: Elaboração própria com base em dados de DPE/IBGE, 2006-2010 (Tabulação Especial).

Quanto ao número de empresas com unidade local única, a Tabela 2 demonstra que, em 2006, 96,8% das empresas brasileiras são "especializadas" em suas atividades econômicas básicas, que representam o maior volume da produção dos bens e serviços dentro de uma classe da CNAE (quatro dígitos). São atividades desenvolvidas em categorias definidas pela homogeneidade quanto à similaridade de funções produtivas (insumos, tecnologia, processos), características dos bens e serviços, finalidade de uso etc. (IBGE, 2007). A maioria das empresas, especialmente de menor porte, opera em um único local (unidade local única), coincidindo, nestes casos, os dois enfoques empresa (uma firma ou razão social que engloba o conjunto de atividades econômicas exercidas em uma ou mais unidades locais/endereços de atuação) e unidade local (engloba todas as atividades desenvolvidas no endereço).

Enquanto medida simples de diversificação, restaram apenas 3,2% das empresas que diversificaram suas operações (Tabela 2), ao estabelecerem mais de duas unidades locais com atividade principal em diferentes grupos da CNAE (três dígitos) ou localizadas em diferentes Unidades da Federação (122.065 empresas com mais de uma unidade local). Ainda que inexpressivas, as empresas com mais de uma unidade local aumentaram 30,6% (de 122.065 para 159.467 unidades) no período de 2006 a 2010, evoluindo, assim, para uma maior diversificação produtiva.

Entretanto, analisando a expansão das atividades por porte das empresas no Brasil, em um sentido amplo, quanto maior o tamanho, maior tem sido a diversificação. Em 2006, possuíam mais de uma unidade local 1,7% das MEs, 12,6% das PEs, 31,4% das MdEs e 60,9% das GEs. Durante o período, suas posições vinham se mantendo relativamente estáveis até 2009, mas, em 2010, as maiores empresas começaram a apresentar uma leve queda no ritmo de crescimento - 30,5% das MdEs e 59,9% das GEs detinham mais de uma unidade local (Tabela 2). Em 2010, o Brasil passou a sentir os efeitos econômicos da crise subprime , iniciada nos Estados Unidos, em 2008, assumindo, porém, proporções globais, em razão dos efeitos de contágio entre as economias mundiais, por meio de dois possíveis canais de transmissão: financeiros e comerciais (Lobão, 2007; Silva, 2010).

Considerando-se a existência de empresas com múltiplas localizações e/ou múltiplas atividades econômicas, a investigação da unidade local permite análises na ótica espacial/geográfica e por atividade. Sendo assim, cumpre mostrar as definições de alguns conceitos úteis à presente análise. Entende-se por "empresa não diversificada" aquela que, apesar de atuar em mais de uma unidade local, concentra suas atividades em uma única Unidade da Federação (UF) e em um único grupo (G) da CNAE (três dígitos). A "empresa diversificada", por sua vez, possui, no mínimo, duas unidades locais com atividade principal em diferentes grupos da CNAE, ou localizadas em diferentes Unidades da Federação - empresa diversificada compreende: (1) a diversificação espacial; (2) a diversificação de atividades; e (3) a diversificação mista. "Empresa diversificada espacialmente" refere-se àquela que opera em, no mínimo, duas unidades locais, situadas em diferentes Unidades da Federação, porém, mantém suas atividades em um único grupo da CNAE; ao passo que a "empresa diversificada por atividade" opera em, no mínimo, duas unidades locais, classificadas com atividade principal em diferentes grupos da CNAE (três dígitos); e, por fim, a "empresa diversificada mista" possui, no mínimo, duas atividades locais, diversificadas espacialmente e por atividade (IBGE, 2007).

Nestas circunstâncias, conforme já havia sido mencionado anteriormente, são poucas as empresas que têm diversificado suas operações (3,2%, em 2006, e 3,5%, em 2010) com estabelecimento em mais de uma unidade local com atividade principal em diferentes grupos da CNAE ou localizadas em diferentes UF. Nota-se, como pode ser visualizado na Tabela 3, que a maioria das empresas apresenta, em 2010, um baixo nível de diversificação, isto é, 62,4% são consideradas "não diversificadas". Dentre elas (99.575 unidades locais), observa-se um predomínio de micro e pequenas empresas (89,9%). Comparando com a Tabela 1, se 98,93% das empresas se dedicam, em 2010, a apenas 1 código de classe da CNAE, logo as micro e pequenas empresas são altamente especializadas à única atividade principal.

Todavia, apesar desse baixo nível de diversificação, quando se admite a diversificação por porte das empresas, mais uma vez se constata que as maiores empresas são mais diversificadas do que as menores. Em 2010, entre as empresas com mais de uma unidade local, consideram-se "empresas diversificadas" 31,4% das MEs, 34,9% das PEs, 54,8% das MdEs e 76,4% das GEs (Tabela 3). As medidas simples de diversificação exibidas na Tabela 3 demonstram que não houve uma melhora na posição das empresas de todos os tamanhos durante o período de 2006 a 2010; pelo contrário, as "empresas diversificadas" apresentam uma leve queda no índice de diversificação, de 38,6% para 37,6%, respectivamente.

Tabela 3: Empresas e indicadores de diversificação espacial e de atividades no total de empresas, nas empresas com mais de uma unidade local e diversificadas, segundo o tipo de empresa e faixas de pessoal ocupado total - Brasil 

Fonte: Elaboração própria com base em dados de DPE/IBGE, 2006-2010 (Tabulação Especial).

Quanto às "empresas diversificadas", em 2010, nota-se um predomínio das micro e pequenas empresas, representando 73,5% (soma dos índices de MEs e PEs, em todos os tipos de diversificação). Percebe-se, ainda, que a diversificação por atividade (57,2%) se apresenta como a forma dominante de expansão para as empresas de todos os tamanhos, seguida pela diversificação espacial (27,0%) e diversificação mista (15,8%). Nesses tipos de diversificação, as MdEs e GEs respondem, juntas, por 8,6%, 9,7% e 8,2%, respectivamente (Tabela 3). Neste sentido, as evidências demonstram comportamentos antagônicos de acordo com o tamanho da empresa diversificada. Em 2010, a maioria das MEs (70,9%) e das PEs (60,8%) tem procurado a diversificação por atividade, isto é, operam em diferentes grupos da CNAE. No caso das MdEs, constata-se um certo balanceamento na dispersão de suas atividades produtivas entre a diversificação por atividade (38,7%), diversificação espacial (36,2%) e diversificação mista (25,2%). Com relação às GEs, apesar de uma discreta variação na direção da diversificação, boa parte delas (41,1%) tem optado pela diversificação mista, seguida pela diversificação espacial (37%) e diversificação por atividade (22%). Em um sentido amplo, verifica-se que as empresas de todos os tamanhos têm se preocupado mais em expandir, de fato, suas atividades produtivas (diversificação por atividade e mista: 79,1% das MEs, 73,4% das PEs, 63,8% das MdEs e 63% das GEs, em 2010) e menos em conquistar novas áreas geográficas (diversificação espacial), como exposto na Tabela 3.

Considerando as empresas com mais de uma unidade local em diferentes setores da economia, pode-se observar que as empresas de eletricidade e gás são as que mais expandem suas unidades, representando 20,5% do total de empresas existentes no país, no final do período de 2006 a 2010. Em seguida, destacam-se a indústria extrativa (11,3%), a agricultura, pecuária, produção florestal, e a pesca e aquicultura (10,9%), conforme Tabela 4. A questão, agora, é saber se tal ampliação das principais linhas de negócios das empresas nesses tipos de atividades corresponde, de fato, a uma diversificação nas linhas principais de negócio em direção a diferentes grupos da CNAE ("empresas diversificadas") ou em atividades econômicas com função de produção similares em um único grupo da CNAE ("empresas não diversificadas").

Tabela 4: Participação de empresas com mais de uma unidade local, segundo seções da classificação de atividades CNAE - Brasil 

Fonte: Elaboração própria com base em dados de DPE/IBGE, 2006-2010 (Tabulação Especial).

Embora a indústria de transformação tenha apresentado (Tabela 4) um baixo grau de expansão, com uma participação de 4,7% em relação ao número de empresas total (391.455), durante 2006 a 2010, suas empresas têm demonstrado um importante peso na estrutura produtiva do país, totalizando 18.272 empresas com mais de uma unidade local. Em 2006, de acordo com aTabela 5, 63,6% das empresas da indústria de transformação possuem mais de uma unidade local "diversificada", atuando em diferentes grupos de atividade CNAE ou em diferentes Unidades da Federação. Dentre as três atividades econômicas mais representativas na expansão das unidades produtivas do país, a indústria de transformação assume um papel de destaque no processo de crescimento e diversificação das empresas brasileiras. Em 2010, do total de empresas com mais de uma unidade local (20.789), 65,3% delas são consideradas diversificadas, ficando atrás apenas do setor da construção, que, por sinal, mostrou um aumento expressivo de 43,3%, em relação a 2006, de suas unidades produtivas, acompanhada de uma diversificação crescente (68,8%, em 2006, para 73,3%, em 2010). Esse dinamismo da atividade manufatureira pode estar associado ao processo de diversificação industrial.

Tabela 5: Empresas e indicadores de diversificação nas empresas com mais de uma unidade local e diversificadas, segundo seções da classificação de atividades CNAE e faixas de pessoal ocupado total - Brasil 

Tabela 5: Empresas e indicadores de diversificação nas empresas com mais de uma unidade local e diversificadas, segundo seções da classificação de atividades CNAE e faixas de pessoal ocupado total - Brasil (continuação

Fonte: Elaboração própria com base em dados de DPE/IBGE, 2006-2010 (Tabulação Especial).

Os dados da Tabela 5 revelam a participação relativa, por ordem decrescente, das empresas diversificadas sobre o total de empresas com mais de uma unidade local. Na indústria da construção, por exemplo, 1.950 empresas diversificadas, em 2010, representam 73,3% do total de suas empresas com mais de uma unidade local (2.662 - Tabela 4). Considerando os dados por porte de empresas (Tabulação Especial), procedimentos semelhantes foram adotados para o cálculo da participação relativa de 451 micro, 501 pequenas, 535 médias e 463 grandes empresas.Vale destacar os setores que apresentaram, em 2010, os índices mais elevados de diversificação por parte das empresas maiores (médias e grandes empresas), quais sejam: da construção (37,5) e de água e esgoto (29,5), configurando, assim, setores com estruturas produtivas concentradas, inclusive funcionando sob o comando de grandes grupos econômicos. Nos demais setores relacionados na Tabela 5, as MdEs e GEs ainda assumem um papel importante na condução do processo de diversificação, na medida em que tais empresas operam em mercados moderadamente competitivos, como é o caso da indústria de transformação (23,7), do setor de transporte e armazenagem (21,3) e do setor financeiro (20,1).

Segundo Ruiz (2012), a recuperação econômica pós-2004 criou oportunidades de investimento, mas a crise internacional em 2008 instalou um clima de incertezas no horizonte de investimento e de diversificação dos grandes capitais. Em contrapartida, embora a diversificação dos capitais nacionais pudesse contar com o suporte do Estado, incentivada por política fiscal expansionista e políticas pró-investimento e de financiamento domésticas, o cenário econômico permanecia dúbio e complexo. Em síntese, Ruiz (2012, p. 109-110) enfatiza:

Entretanto, somente no período mais recente (pós-2009) alguns grupos passaram a se diversificar seguindo o "rastro da demanda" dos grandes projetos de empresas estatais ou vinculados ao orçamento público federal.[...] Entre as oportunidades detectadas pelas corporações nacionais, com raríssimas e conhecidas exceções, se manteve uma modesta opção por atividades intensivas em tecnologia.

De fato, constatam-se crescentes diversificações em setores específicos ligados a programas e projetos promovidos pelo setor público, conforme Tabela 5, em que as empresas da construção, de eletricidade e gás e da informação e comunicação seguem uma trajetória de expansão diversificada, no período de 2006 a 2010. Por outro lado, as empresas com atuação no setor de água/esgoto/resíduos, de atividades financeiras, de agricultura/pecuária/produção florestal/pesca/aquicultura têm apresentado uma importante redução no nível de diversificação, denotando estratégias com um perfil conservador, haja vista que as especializações setoriais se generalizam e a opção geral foi de baixo grau de diversificação das estruturas empresariais, ao passo que em transporte e armazenagem, atividades imobiliárias e indústrias extrativas, a diversificação se mantém relativamente estável.

A constatação da tendência de redução da diversificação da produção agropecuária pode estar associada, em especial no caso da agroindústria, ao movimento de ajuste na estruturação da cadeia de produção (mudanças no padrão de concorrência iniciadas na década de 1980), por meio de processos de terceirização ou subcontratação, permitindo às empresas operarem com graus ótimos de especialização. Em relação à indústria extrativa, como setor de elevada intensidade de capital, as empresas optaram por processos de "recentragem", preferindo se especializar em linhas de produtos afins em termos da base tecnológica ou da área de comercialização (Ferraz et al., 1995).

Outro aspecto interessante a respeito do comportamento das empresas diversificadas refere-se ao fato de que a diversificação ocorre nas empresas de diferentes tamanhos. Via de regra, quanto maior o porte da empresa, maior é a diversificação. Em quase todos os setores da economia, as oportunidades de diversificação se mostraram igualmente favoráveis às empresas de todos os tamanhos. Por exemplo, na construção, 63,3% das MEs com mais de uma unidade local são "empresas diversificadas" e 84,5% das GEs também o são. No caso particular da indústria de transformação, as MEs tendem a ser mais diversificadas (64,0%), até 2010, do que as PEs (61,9%) e as MdEs (63,8%), mas as GEs (81,2%) com mais de uma unidade local superam todas as demais. Contudo, observa-se um aumento da diversificação para as GEs em detrimento das menores, no período de 2006 a 2010, apenas nos setores financeiro e de agricultura/pecuária/produção florestal/pesca/aquicultura (Tabela 5).

Por fim, cumpre revelar o grau de diversificação em cada setor específico, de acordo com o tipo de empresa diversificada, isto é, a diversificação espacial e de atividades. Os dados da Tab ela 6 exibem características bem distintas das empresas brasileiras diversificadas com relação ao tipo de diversificação e ao porte das empresas mais diversificadas em cada setor de atividade econômica.

Tabela 6: Empresas e indicadores de diversificação espacial e de atividades nas empresas diversificadas, segundo seções da classificação de atividades, tipo de empresa e faixas de pessoal ocupado total - Brasil 

Tabela 6: Empresas e indicadores de diversificação espacial e de atividades nas empresas diversificadas, segundo seções da classificação de atividades, tipo de empresa e faixas de pessoal ocupado total - Brasil (continuação

Tabela 6: Empresas e indicadores de diversificação espacial e de atividades nas empresas diversificadas, segundo seções da classificação de atividades, tipo de empresa e faixas de pessoal ocupado total - Brasil (continuação

Fonte: Elaboração própria com base em dados de DPE/IBGE, 2006-2010 (Tabulação Especial)

Na indústria da construção, a principal opção estratégica para o crescimento das empresas foi a diversificação de atividades, mas de modo acentuado para as empresas de menor porte. Tendo em vista a implantação, principalmente a partir de 2007, de programas do Governo Federal de promoção ao crescimento econômico do país, tais como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), a indústria da construção experimentou importantes transformações estruturais durante o boom imobiliário (2008-2010), em especial no segmento da construção de imóveis residenciais.

Para as empresas de todos os tamanhos surgiram mais oportunidades de diversificação de sua produção em direção a outras atividades econômicas (diversificação de atividades) na mesma localidade (UF), do que a expansão de suas bases produtivas existentes para outras áreas geográficas (diversificação espacial). Nas "atividades imobiliárias", que estão relacionadas ao ritmo da construção, houve uma inversão, entre 2006 e 2010, da expansão das empresas na busca por uma diversificação espacial (aumentou de 16,0% para 26,1% no período), a despeito da diversificação por atividade, caindo de 53,5% para 48,4%, respectivamente.

Nos setores como de água/esgoto/resíduos/descontaminação (maioria das empresas com ênfase na diversificação de atividades), da indústria de transformação (diversificação de atividades), de transporte e armazenagem (diversificação espacial), financeiro (diversificação espacial) e das indústrias extrativas (diversificação de atividades), as condições produtivas se mantêm praticamente estáveis durante o período em consideração. Por outro lado, nos casos particulares das empresas de eletricidade e gás e empresas da informação e comunicação, foram reforçadas as estratégias de diversificação espacial, de 2006 a 2010. Todavia, as MEs e PEs aumentaram, no período, sua presença no setor de eletricidade e gás, a despeito das empresas maiores. Por último, as empresas com atuação no setor de agricultura/pecuária/produção florestal/pesca/aquicultura, embora tenham apresentado uma importante redução no nível de diversificação (Tabela 5), demonstraram uma definição clara de direção de sua estratégia de expansão produtiva a favor da diversificação de atividades. Em 2006, o índice de diversificação de atividades era de 39,9%, enquanto que, em 2010, subiu consideravelmente para 72,0%. Nota-se que houve uma evolução surpreendente da diversificação exclusivamente por parte das MEs; elas partiram com 22,9% de empresas diversificadas por atividade, em 2006, e atingiram a marca de 60,4%, em 2010. Um desempenho inverso se observa nas demais empresas em outras faixas de tamanho, porém, em proporções menores.

4. CONCLUSÃO

A diversificação como característica marcante da grande empresa industrial e as práticas de expansão recentes das empresas diversificadas brasileiras foram as questões de pesquisa em consideração no presente estudo. Verificou-se, a partir das informações estatísticas extraídas de Tabulações Especiais do IBGE, do período de 2006 a 2010, que a maioria das empresas do país apresenta um baixo nível de diversificação, ou seja, as empresas brasileiras são "especializadas" em suas atividades econômicas básicas. Primeiramente, na contagem do número de empresas por Código CNAE, as empresas com mais de uma linha de negócio representam, aproximadamente, 1% dos estabelecimentos brasileiros no mesmo período; uma baixa diversificação de atividades produtivas se comparada a países desenvolvidos. Além disso, a maioria das empresas, sobretudo de menor porte, opera em um único local (unidade local única). Esse baixo nível de diversificação é evidente na medida em que um pouco mais de um terço das empresas com "mais de uma unidade local", em 2010, são consideradas "diversificadas" pelo IBGE. Tal comportamento já era esperado, haja vista que o predomínio das MEs e PEs é muito comum nas economias industrializadas.

Os casos de múltiplas operações são comuns em empresas de maior porte. Analisando a expansão das atividades por porte das empresas no Brasil, quanto maior o tamanho, maior tem sido a busca pela ampliação de suas operações. Em outras palavras, a expansão das unidades produtivas das faixas superiores de tamanho é sempre mais elevada do que aquela verificada nas faixas inferiores. Contudo, mesmo no caso das grandes empresas, percebe-se uma tendência geral à focalização de suas atividades produtivas em uma única Unidade da Federação e em um único grupo da CNAE (62,4% de empresas não diversificadas - IBGE). De fato, quase dois terços das empresas com mais de uma unidade local, em 2010, são classificadas como "empresas não diversificadas". Isso vem a confirmar o nível de especialização das empresas brasileiras, que estão operando em campos de produção similares em termos de insumos, tecnologia e processos.

Por outro lado, em uma análise da configuração das "empresas diversificadas", observam-se níveis distintos de diversificação por tamanho. De modo geral, verifica-se que as empresas de todos os tamanhos têm se preocupado mais em expandir, de fato, suas atividades produtivas (diversificação por atividade e mista) e menos em conquistar novas áreas geográficas (diversificação espacial).

Dentre as atividades econômicas mais representativas na expansão das unidades produtivas, a indústria de transformação assume um papel de destaque no processo de crescimento e diversificação das empresas brasileiras. A indústria de transformação exibiu um dos níveis mais elevados de participação das empresas com mais de uma unidade, consideradas "diversificadas", ficando atrás apenas do setor da construção, em 2010. Em que pese o papel da atividade manufatureira, normalmente associado com o processo de diversificação industrial, o setor da construção apresentou um crescimento expressivo, por meio da diversificação, na medida em que tende a acompanhar esse dinamismo industrial quando passou a contar com o suporte do Estado, sobretudo por meio de políticas pró-investimento e de financiamento domésticas ligadas aos recentes programas governamentais de investimentos em infraestrutura e habitação.

Em quase todos os setores da economia, as oportunidades de diversificação se apresentaram igualmente favoráveis às empresas de todos os tamanhos. Entretanto, o grau de diversificação em cada setor específico varia de acordo com o tipo de empresa diversificada, isto é, a diversificação espacial e de atividades. As evidências demonstram características bem distintas das empresas brasileiras diversificadas com relação ao tipo de diversificação e ao porte das empresas mais diversificadas em cada setor de atividade econômica. Entre 2006 e 2010, na indústria da construção, a principal opção estratégica para o crescimento das empresas foi a diversificação de atividades, mas de modo acentuado para as empresas de menor porte. Nas "atividades imobiliárias", que estão relacionadas ao ritmo da construção, houve uma inversão da expansão das empresas pela busca de uma diversificação espacial, a despeito da diversificação por atividade. Nos setores como de água/esgoto/resíduos/descontaminação (maioria das empresas com ênfase na diversificação de atividades), da indústria de transformação (diversificação de atividades), de transporte e armazenagem (diversificação espacial), financeiro (diversificação espacial) e das indústrias extrativas (diversificação de atividades), as condições produtivas se mantêm praticamente estáveis durante o período em consideração. Por outro lado, nos casos particulares das empresas de eletricidade e gás e empresas da informação e comunicação, foram reforçadas as estratégias de diversificação espacial. Por último, as empresas com atuação no setor de agricultura/pecuária/produção florestal/pesca/aquicultura, embora tenham apresentado uma importante redução no nível de diversificação, demonstraram uma definição clara da direção de sua estratégia de expansão produtiva a favor da diversificação de atividades.

Estudos empíricos detalhados e compreensivos de todos os aspectos da diversificação de empresas ainda são um problema difícil de ser resolvido. Cabe advertir que os resultados aqui encontrados para os indicadores subestimam a diversificação das atividades econômicas, já que determinados grupos econômicos atuam sob várias razões sociais. Não obstante a possibilidade de se realizarem estudos sobre o grau da diversificação por divisão (dois dígitos) ou grupo (três dígitos) da CNAE 2.0 (em especial para a indústria de transformação, admitindo-se que a grande expansão da atividade manufatureira total ocorre com o crescimento e a diversificação industriais),as informações estatísticas divulgadas pelo IBGE não permitem conhecer o número de unidades locais por empresa diversificada, nem os diferentes níveis de classificação das atividades econômicas da CNAE nos quais ela atua. Unidades que exercem um só tipo de atividade são classificadas conforme a única atividade empreendida. No entanto, são numerosos os casos de unidades que exercem atividades enquadradas em diferentes categorias da classificação.

O IBGE (2007) define métodos e regras para a identificação da atividade principal e atribuição do código CNAE às unidades. Os censos econômicos e as outras pesquisas do IBGE consideram como unidades censitárias as empresas, que são agregadas segundo sua atividade econômica, seja ela industrial, comercial, financeira, de serviço etc. No caso de unidades com múltiplas atividades, a regra geral é de classificação na CNAE 2.0, de acordo com a atividade principal. Todavia, para o estudo mais apro­fundado da relação entre a diversificação de atividades e o tamanho das empresas, torna-se necessário obter outras informações estatísticas, por meio de Tabulações Especiais, para se desenvolverem índices e análises de diversificação, mediante a mensuração e caracterização de empresas de produtos múltiplos.

No caso de uma investigação restrita à produção industrial, as empresas precisam ser classificadas segundo a sua indústria primária que apresentar o maior valor da produção, de acordo com a agregação das atividades em diferentes níveis (dois, três ou mais dígitos) da classificação de indústria do IBGE. A mensuração da integração das atividades múltiplas de uma unidade empresarial requer ainda a definição das atividades secundárias representadas pelas demais linhas de produção, sejam auxiliares, de apoio, integradas à produção principal ou não relacionadas a ela. As diferenças de heterogeneidade da produção nas empresas devem ser medidas para serem, de fato, identificadas as mais diversificadas.

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1Agradecimentos: O autor agradece aos valiosos comentários e sugestões dos pareceristas anônimos e ao suporte técnico dispensado pelo pessoal da Diretoria de Pesquisa do IBGE, que procedeu às Tabulações Especiais de informações estatísticas por grupos de tamanhos de empresas, a partir do Cadastro Central de Empresas.

Recebido: 19 de Agosto de 2014; Aceito: 24 de Agosto de 2015

Correspondência para: Jucélio Kretzer. Contato:jkretzer@hotmail.com.

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