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Revista Brasileira de Plantas Medicinais

versão impressa ISSN 1516-0572

Rev. bras. plantas med. vol.12 no.3 Botucatu jul./set. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-05722010000300002 

Plantas medicinais e seus usos na comunidade da Barra do Jucu, Vila Velha, ES

 

Medicinal plants and their uses in Barra do Jucu community, Vila Velha Municipality, Espírito Santo State, Brazil

 

 

Albertasse, P.D.I, *; Thomaz, L.D.II; Andrade, M.A.III

IUniversidade Federal do Espírito Santo, Setor Botânica
IIUniversidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Biológicas, Av. Fernando Ferrari, 514, Campus Universitário, Goiabeiras, CEP: 29.075-910, Vitória-Brasil
IIIUniversidade Federal do Pará, Faculdade de Farmácia, Rua Augusto Corrêa, 1, Guamá, CEP: 66075-170, Belém-Brasil

 

 


RESUMO

A Barra do Jucu é um bairro do município de Vila Velha, estado do Espírito Santo, localizado numa área de restinga e habitado por caiçaras que tiram sua renda principalmente da pesca. O objetivo deste estudo foi resgatar e sistematizar as informações populares sobre as plantas medicinais utilizadas na localidade. Ao todo foram citadas 86 espécies pertencentes a 41 famílias, das quais Lamiaceae, Asteraceae e Solanaceae apresentaram o maior número de espécies. As espécies citadas estão relacionadas a 59 usos medicinais, entre os quais predominaram as doenças associadas ao aparelho digestivo. Quantificou-se o número de citações por informante para cada táxon, bem como o número de usos, possibilitando a indicação das espécies mais utilizadas na área, como Plectranthus barbatus Andrews a mais citada, e Anacardium occidentale L. a espécie empregada para o maior número de usos. Os resultados demonstram que a população possui vasto conhecimento das plantas e de suas propriedades de cura.

Palavras-chave: Restinga, Barra do Jucu, caiçaras, plantas medicinais


ABSTRACT

Barra do Jucu is a community from Vila Velha Municipality, Espírito Santo State, Brazil, located in a restinga area and inhabited by "caiçaras", whose income is mainly from fishing. The aim of this study was to recover and systematize popular information about the medicinal plants used in this locality. In total, 86 species belonging to 41 families were cited, of which Lamiaceae, Asteraceae and Solanaceae had the largest number of species. The mentioned species are related to 59 medicinal uses, mainly to diseases associated with the digestive system. The number of citations per informant for each taxon, as well as the number of uses was quantified, indicating the most used species in this area, including Plectranthus barbatus Andrews, the most cited one, and Anacardium occidentale L., the most used one. The results demonstrated that the population has wide knowledge about the plants and their healing properties.

Key words: Restinga, Barra do Jucu, "caiçaras", medicinal plants


 

 

INTRODUÇÃO

Como todo o resto da Floresta Atlântica, a restinga tem sua biodiversidade ameaçada a cada dia pela ação antrópica. Na comunidade estudada, tal ameaça está relacionada principalmente à especulação imobiliária, à retirada de areia, à retirada desordenada de espécimes animais e vegetais e à poluição direta ou indireta pelo acúmulo de lixo e esgoto. Assim, junto com a degradação do ambiente, muitas espécies vegetais são eliminadas antes mesmo de serem estudadas quanto às características ecológicas; potenciais terapêutico, ornamental, alimentar ou quaisquer benefícios que possam vir a trazer à comunidade.

A medicina popular vem oferecendo contribuição cada vez maior às ciências do homem, devido à gama de conhecimentos e práticas médicas de caráter empírico, influenciadas pelo contexto sócio-cultural, econômico e físico, no qual se encontram inseridas (Camargo, 1976). Com isso a etnobotânica, que tem sido definida como o estudo das inter-relações diretas entre humanos e plantas, procura interligar o conhecimento tradicional que determinada comunidade acumulou sobre o ambiente em que vive para que possa interagir com este ambiente e retirar a base de sustento para a sobrevivência e cultura (Martin, 1995).

Ao estudar o complexo da medicina popular, deve-se enfatizar a necessidade de estudar simultaneamente a pessoa que possui os conhecimentos, bem como o ambiente onde essas práticas são espontaneamente aceitas, ultrapassando-se assim os limites da botânica aplicada. De mesma importância, a sistematização do estudo da medicina folclórica deve considerar, em primeira instância, o fator cultural em si, como a nosografia, etiologia, diagnóstico, terapêutica, farmacopéia disponível, profilaxia e higiene destas práticas e em segundo lugar, estudar o indivíduo que ministra a cura ou que tem o poder de curar (Savastano & Di Stasi, 1996).

O Espírito Santo, apesar de ser um estado culturalmente rico em manifestações folclóricas, sendo muitas delas particulares da região, só nos últimos anos tem recebido estudos mais específicos e incentivos à cultura peculiar. Da mesma forma, resta uma lacuna quanto ao estudo das plantas úteis ou potencialmente úteis na medicina popular ou mesmo daquelas com utilidades na alimentação, habitação, vestuário ou artesanato capixabas, embora alguns trabalhos desta natureza tenham sido realizados como Weinberg (1984) que destaca vários componentes da vegetação da restinga de Vila Velha e Guarapari com potencial paisagístico em cidades litorâneas; Simonelli & Pereira (1996) que tratam da utilização da vegetação nativa da planície quaternária pela população do sul do Espírito Santo, completando os estudos realizados na reserva Indígena de Comboios, Aracruz-ES e Jesus (1997) que desenvolveu estudo etnobotânico na Ilha de Guriri, São Mateus, ES.

Este trabalho justifica-se em vista do caráter dinâmico da medicina popular e do desaparecimento de espécies vegetais e das práticas culturais das populações ocupantes das áreas de restinga do litoral capixaba. Tais processos de desaparecimento são decorrentes da histórica devastação das florestas nativas e do processo de aculturação e desestruturação da rede de transmissão do conhecimento tradicional, mais acentuados na Barra do Jucu pela proximidade com a capital do estado, Vitória, e com os grandes centros urbanos.

Desta forma, este trabalho teve como objetivo resgatar e sistematizar o conhecimento popular sobre a flora medicinal da localidade, bem como, as informações botânicas sobre a mesma e as informações sócio-culturais da comunidade em estudo.

 

MATERIAL E MÉTODO

Caracterização da área de estudo

Este estudo foi desenvolvido na comunidade da Barra do Jucu, antiga vila de pescadores no município de Vila Velha (ES) que preserva até hoje suas características originais de vila e seu folclore. Recebeu esse nome, pois se localiza próxima à foz do Rio Jucu, onde a deposição dos sedimentos na foz forma uma barra arenosa.

O bairro da Barra do Jucu distante de Vila Velha 12 km, com acesso pela Rodovia do Sol, encontra-se localizado sob as coordenadas 20°26'15'' S e 40°18'45'' W. Faz fronteira com o Oceano Atlântico a leste, com a Rodovia do Sol e o bairro Santa Paula a oeste, ao sul com a Praia de Interlagos e tem como vizinho ao norte o Parque Natural Municipal de Jacarenema, este de grande importância ecológica e turística local.

Caracterização sócio-cultural

Segundo Figueiras (2004), este vilarejo vem passando por uma série de transformações que se acentuaram principalmente no decorrer da década de 1980. Entre estas transformações, uma das mais facilmente perceptíveis diz respeito à maior heterogenização de sua composição social. A Barra do Jucu, há quarenta anos, era habitada quase essencialmente por pessoas que viviam de atividades tradicionais como a pesca, a caça e agricultura e roças domésticas, atualmente estas pessoas dividem o espaço com atores sociais que ocupam as mais variadas funções como professores, comerciantes, funcionários públicos, advogados, artistas e surfistas.

Figueiras (2004) afirma ainda que os pescadores mais antigos sempre perceberam o Rio Jucu como alternativa garantida de fartura para os dias de "mar grosso", ou seja, em que não podiam pescar no mar. Porém com a progressiva degradação do rio, assistiu-se ao surgimento de um novo tempo de transformações no espaço desses pescadores que vão ter diferentes significados e servem como referência para uma dicotomia na sua visão de tempo, onde contrapõem-se o antigamente, marcado pela abundância do pescado e o hoje em dia, de escassez.

Apesar desse reconhecimento por parte da população caiçara da poluição do Rio Jucu, a principal atividade econômica ainda é a pesca tradicional que é realizada de três maneiras, ou seja, com rede de espera, rede de arrasto e linha e anzol. Por isso trata-se de comunidade remanescente de caiçaras no estado.

Métodos de campo

Os dados foram obtidos por meio de visitas esporádicas, cerca de uma a cada mês, no período entre dezembro de 2004 a novembro de 2005, em diferentes pontos da localidade. Foram usados tanto métodos qualitativos como quantitativos, através das técnicas de entrevistas informais, abertas e semi-estruturadas, entrevistas estruturadas, listagem livre das plantas utilizadas (Alexiades, 1996; Martin, 1995) e sempre que possível observação direta e participante da rotina dos entrevistados (Albuquerque & Lucena, 2004) visando à obtenção de dados sócio-econômicos e culturais dos informantes, características botânicas das plantas utilizadas, as indicações terapêuticas e formas de preparo. Todas essas informações foram registradas em caderno de campo e algumas em fitas microcassete.

A técnica de amostragem e seleção de informantes utilizada foi a chamada "bola de neve" ("Snow Ball"), uma amostragem intencional na qual os informantes envolvidos são selecionados a partir de indicações feitas pelos entrevistados da comunidade e pelos próprios informantes. A partir do contato inicial com a comunidade, um primeiro especialista é reconhecido, que passa a indicar outro especialista e assim sucessivamente, até envolver todos os especialistas da comunidade, até que o ciclo se feche e novos especialistas não sejam mais apontados (Albuquerque & Lucena, 2004).

Coleta e identificação das plantas

Durante as entrevistas, as plantas citadas como medicinais pelos informantes, foram coletadas nos locais indicados pelos mesmos. O material botânico coletado foi processado segundo Mori et al. (1989). Os espécimes herborizados foram depositados no HVIES (Herbário Vitória Espírito Santo) da Universidade Federal do Espírito Santo, após a identificação, a qual seguiu o sistema de classificação proposto pela Angiosperm Philogeny Group - APG II (2003).

Assim como ocorre em diversos estudos de caráter etnobotânico, como o realizado na comunidade de Conceição-Açu, MT, por Pasa et al. (2005) e em Santo Antônio do Leverger, MT, por Amorozo (2002), as espécies com aplicação terapêutica consideradas neste estudo incluem, além daquelas indicadas para afecções que têm correspondência na medicina oficial, também aquelas espécies usadas para doenças e estados de desconforto identificados pelos informantes, mas que não são reconhecidos pela biomedicina, como por exemplo, quebrante, mal-olhado, inveja, considerando-se que fazem parte do universo nosológico da comunidade estudada (Bruneli apud Amorozo, 2002).

As plantas foram agrupadas em 10 categorias de uso medicinal, adaptadas de Ankli (1999), que são doenças associadas ao aparelho digestivo (APD); doenças associadas ao aparelho respiratório (APR); doenças associadas a condições dermatológicas (CD); doenças associadas à inflamação, dor e febre (IDF); doenças associadas ao sistema nervoso (SIN); doenças associadas ao sistema sanguíneo (SIS); doenças associadas a problemas urológicos (UR); doenças associadas a usos ginecológicos e problemas de mulheres (UG); usos místicos (UM) e outras doenças (OD) que inclui problemas relativos aos dentes, olhos, emagrecimento, derrame e câncer. Foi quantificado o número de citações e número de usos de cada espécie vegetal para fornecer uma medida do valor de importância das mesmas.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

Levantamento sócio-cultural

A amostra estudada foi composta por 14 pessoas apontadas pelos entrevistados locais, escolhidas com base no conhecimento em relação ao uso de plantas medicinais. Estes apresentaram idade variável entre 28 e 82 anos, estando a maioria na faixa dos 71-80 anos.

Dos entrevistados, 71% pertencem ao gênero feminino. O grau de escolaridade e a atividade profissional não influenciaram no nível de conhecimento das plantas úteis; a maioria é de aposentados que se dedicaram anteriormente ao lar, como donas de casa e empregadas domésticas (Tabela 1). Resultado semelhante foi descrito por Jesus (1997), dentro da grande variedade de profissões dos entrevistados na Ilha de Guriri, São Mateus/Conceição da Barra, ES. Os entrevistados, na maioria são nascidos na localidade, sendo expressivo o número de pessoas que ali chegaram há cerca de 3 a 15 anos.

 

 

Apesar de ser povoado antigo, os entrevistados apontados como principais detentores do conhecimento das plantas locais usadas com fins medicinais na região faleceram há poucos anos e hoje o conhecimento da vegetação e a aplicabilidade está relacionado ao tempo de residência na região. Este mesmo conhecimento foi adquirido por diversos veículos, mas predominantemente com os antepassados dos entrevistados, como avós e pais; sendo as mães e avós as principais responsáveis pela passagem dos ensinamentos (Tabela 2).

 

 

Os informantes foram questionados quanto à razão pela qual utilizam as plantas como terapia e quanto à preferência pelo uso das mesmas em relação aos medicamentos industrializados (Tabela 2). Muitos afirmaram que o tratamento das moléstias com as plantas é mais lento, mas causa menos mal ou não faz mal, alguns usam para manter a tradição ou pela comodidade de ter as plantas no quintal, outros por ser uma alternativa barata e alguns entrevistados acham que as plantas tem mais poder e eficiência que os medicamentos industrializados.

A população local conta com um Posto de Saúde Municipal que atende as necessidades médicas mais urgentes. De acordo com informações obtidas no Posto de Saúde, não há programas relacionados ao uso de plantas medicinais, mas há registros de indicação por médicos para o alívio de sintomas apontados em certos casos, como, por exemplo, o chá da camomila para o alívio de cólicas menstruais.

Foram apresentadas um total de 59 diferentes indicações terapêuticas, aqui agrupadas em 10 categorias de uso medicinal. Muitas espécies foram citadas mais de uma vez, para diferentes usos, sendo que o maior número de espécies foi indicado para tratar de doenças do aparelho digestivo, além de doenças associadas à inflamação e dor, ao sistema sanguíneo e aparelho respiratório (Figura 1). Resultados semelhantes têm sido registrados para outros locais no Brasil (Amorozo & Gély, 1988; Hanazaki et al., 1996; Silva-Almeida & Amorozo, 1998; Amorozo, 2002; Pasa et al., 2005).

As plantas usadas como remédio pela população local apresentaram maior importância quando referidas para problemas mais simples e que fazem parte da atenção primária à saúde, por exemplo, úlcera, gastrite, enjôos, feridas, gripe, inflamações e dores.

Levantamento florístico

Foram levantadas 86 espécies de plantas usadas como terapia pela comunidade, pertencentes a 41 famílias botânicas, sendo Lamiaceae a mais freqüente, com 12 espécies, seguida de Asteraceae, com oito espécies e Solanaceae, com quatro espécies. Anacardiaceae, Apiaceae, Bignoniaceae, Cucurbitaceae, Myrtaceae, Rutaceae e Zingiberaceae, tiveram cada uma, três espécies citadas.

Não raro, as famílias Asteraceae e Lamiaceae também são encontradas como as mais frequentes em levantamentos de plantas medicinais no Brasil, como em Parente & Rosa (2001), Medeiros et al. (2004) e Pasa et al. (2005).

Obteve-se um total de 198 citações de uso. As espécies mais citadas foram o boldo (Plectranthus barbatus Andrews) com nove citações, hortelã (Mentha piperita L.) com oito citações, erva-cidreira (Lippia alba (Mill.) N. E. Br.), com sete citações, picão (Bidens pilosa L.), romã (Punica granatum L.) e arnica (Eupatorium maximilianii Schrad.) com seis citações cada, assa-peixe (Vernonia polyanthes Less.), alecrim (Rosmarinus officinalis L.) e melissa (Melissa officinalis L.) com cinco citações cada.

A maioria é empregada com vários usos (64% do total), sendo as mais importantes: caju (Anacardium occidentale L.), com seis diferentes usos, assa-peixe (Vernonia polyanthes Less.), saião (Kalanchoe brasiliensis Camb.) e hortelã-pimenta (Plectranthus amboinicus (Lour.) Spreng. ) com cinco usos e aroeira (Schinus terebinthifolius Raddi) com quatro usos indicados.

As espécies levantadas foram coletadas em ambientes de uso rotineiro da comunidade e existe o costume tradicional da troca de plantas entre vizinhos.

A maioria das plantas apresentadas neste estudo é retirada de quintais, ruas não asfaltadas ou jardins mantidos ao redor de suas casas, onde crescem espécies alimentícias ou que são utilizadas para fins medicinais. Esse procedimento é observado também por Coe & Anderson (1999), em estudo etnobotânico na Nicarágua e por Medeiros et al. (2004), em Mangaratiba, RJ.

Como os quintais e a rua foram os principais lugares apontados como pontos de coleta das plantas medicinais, pode-se dizer que estes locais e os procedimentos de coleta associados, estão relacionados à disponibilidade e facilidade de acesso, como mostra a hipótese da aparência ecológica, aplicada a etnobotânica por Phillips & Gentry (1993 a; b). A partir de predição simples relacionando uso e abundância, em que as plantas encontradas facilmente oferecem maior possibilidade para as populações locais experimentarem e aprenderem os usos, permitindo a perpetuação do conhecimento e utilização.

Apesar do fato de a comunidade estar localizada ao lado do Parque Estadual de Jacarenema, apenas 11% das plantas citadas neste estudo foram coletadas pelos informantes diretamente na área de restinga do Parque. Os entrevistados locais reconhecem a riqueza e o potencial da flora medicinal da restinga, porém alguns fatores os desestimulam a coletá-la e utilizá-la, dentre os principais estão a dificuldade de frequentar o local com muitos pontos referidos como sendo perigosos. Nota-se a crescente deterioração que o ambiente vem sofrendo com o acúmulo de lixo e esgoto, extração indiscriminada de espécies animais e vegetais ameaçadas, como orquídeas e bromélias para fins ornamentais e a aroeira, para produção da pimenta-rosa.

As espécies vegetais utilizadas pelos entrevistados (Tabela 3), têm predominantement hábito e herbáceo (59%), além de 17% com hábito arbustivo, 15% arbóreo e apenas 9% trepadeiras. Há equilíbrio entre o percentual de origem das espécies utilizadas, sendo 49% das espécies nativas do Brasil e 52% de exóticas já muito bem adaptadas às condições ecológicas locais.

Todas as partes vegetais foram indicadas para o preparo de remédios sendo as folhas as mais utilizadas, com 39% das indicações, seguidas da parte aérea em geral (24%), frutos (10%) e raízes, flores, casca e semente entre 8% e 5% das indicações. Resultados semelhantes são comumente registrados em outros trabalhos etnobotânicos (Jesus, 1997; Amorozo, 2002; Medeiros et al., 2004).

O uso combinado com outras plantas é frequente, assim como a utilização de outros ingredientes na preparação, tais como, leite, mel, açúcar, vinhos e cachaça.

Foram identificadas diversas formas de utilização, porém a mais freqüente é o decocto, com 33,11% das citações (Tabela 4). Como pode ser comprovado pelos estudos de Elisabetsky (1986) em algumas tribos indígenas brasileiras; Rodrigues (1998) no Parque Nacional do Jaú, Amazonas; Parente & Rosa (2001) em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro; Pasa et al. (2004) em Conceição-Açu, no Mato Grosso e Cortez et al. (1999) em diversas partes do Brasil é comum a prática dos chás feitos pela decocção não só para as partes duras ou secas do vegetal, como caules, raízes, folhas secas, etc., mas também a fervura das folhas frescas. Este procedimento não é indicado para qualquer planta, pois pode degradar ou eliminar princípios ativos das mesmas, inativando o efeito terapêutico do chá ou tornando-o perigoso à saúde.

 

 

As indicações e utilizações descritas na literatura condizem para a maioria das espécies descritas neste estudo (57%), enquanto que 43% não possuem o mesmo emprego, quando comparadas. São apresentadas 8 espécies (9,3%) para as quais são raras ou não foram encontradas referências na literatura pesquisada, dentre estas estão a arnica, uma das mais importantes com 6 citações e 3 diferentes usos, alfazema com 3 citações e 4 usos e um tipo de boldo-miúdo com 3 citações e 4 usos.

O fato de encontrar espécies não descritas ou pouco estudadas, sugere que as mesmas podem apresentar grande potencial para novos estudos na área farmacêutica.

Embora o emprego das plantas com fins terapêuticos ainda seja parte importante do cotidiano de grande parte dos entrevistados, existem outras opções disponíveis de tratamento, a escolha de uso entre cada tratamento é feita com base na necessidade de urgência de efeitos e na disponibilidade de cada um, seja pela sazonalidade das plantas ou custo de compra do medicamento.

 

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Recebido para publicação em 11/11/2008
Aceito para publicação em 25/02/2010

 

 

* palbertasse@yahoo.com.br

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