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Revista Brasileira de Plantas Medicinais

versão impressa ISSN 1516-0572

Rev. bras. plantas med. vol.12 no.3 Botucatu jul./set. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-05722010000300010 

Arbóreas medicinais das matas ciliares do Rio Canoas: potencialidade de uso em projetos de restauração

 

Medicinal trees from riparian forests along Canoas River: potential use in restoration projects

 

 

Chaves, C.L.; Manfredi, C.S.*

Universidade do Planalto Catarinense, Departamento de Ciências Biológicas, Avenida Castelo Branco, 170, Bairro Universitário, Caixa Postal 525, CEP: 88509-900, Lages-Brasil

 

 


RESUMO

Este estudo objetivou identificar as espécies arbóreas medicinais das matas ciliares de três pequenas propriedades rurais do município de Urubici-SC, e estabelecer relações entre as características ecológicas das mesmas com as possibilidades de emprego para restauração de ambientes ciliares degradados. Empregou-se o método dos quadrantes, para levantamento dos indivíduos com CAP>15 cm. Os indivíduos amostrados foram herborizados, depositados no Herbário LUSC e categorizados quanto ao uso medicinal, parte usada, freqüência, síndrome de dispersão (anemocórica, autocórica e zoocórica), grupo ecológico (pioneira, secundária inicial, secundária tardia) e uso para restauração florestal. Dos 240 indivíduos amostrados, 197 indivíduos pertencentes a 22 espécies de 15 famílias botânicas apresentaram potencialidades medicinais. As famílias Euphorbiaceae, Rosaceae, Myrtaceae, Sapindaceae, Lauraceae e Anacardiaceae foram as mais abundantes. Mais de 85% das espécies com potencial medicinal amostradas apresentaram síndrome de dispersão zoocórica; cerca de 78% foram incluídas nos grupos ecológicos das secundárias iniciais e pioneiras e cerca de 88% são recomendadas para restauração. As espécies arbóreas medicinais são bastante freqüentes nas matas ciliares degradadas do Rio Canoas, podendo ser fonte de recursos genéticos para a restauração e adequação das APPs à legislação ambiental, além de se constituírem em produtos florestais não madeireiros passíveis de exploração.

Palavras-chave: biodiversidade, Floresta Ombrófila Mista, conservação, plantas medicinais, restauração


ABSTRACT

This study aimed to identify the medicinal arboreal species from riparian forests at three small farms in Urubici Municipality, Santa Catarina State, Brazil, and relate their ecological features to the possibilities of their use for restoration of degraded riparian environments. In order to survey individuals with circumference at breast height (CBH) >15 cm, the quadrant method was adopted. The sampled specimens were herborized, incorporated into the Herbarium LUSC and categorized according to their medicinal use, employed part, frequency, dispersal syndrome (anemochory, autochory and zoochory), ecological group (pioneer, early secondary, late secondary) and use for forest restoration. Of the 240 sampled specimens, 197 belonging to 22 species of 15 families were potentially medicinal. The most abundant families were Euphorbiaceae, Rosaceae, Myrtaceae, Sapindaceae, Lauraceae and Anacardiaceae. More than 85% potentially medicinal species had zoochoric dispersal syndrome, around 78% were categorized as early secondary and pioneer, and around 88% were recommended for restoration. Medicinal arboreal species are quite common in degraded riparian forests along Canoas River. They can provide genetic resources for restoration and adequacy of permanent preservation areas (PPAs) to the environmental legislation; moreover, they are exploitable non-timber forest products.

Key words: biodiversity, Araucaria moist forests, conservation, medicinal plants, restoration


 

 

INTRODUÇÃO

A utilização de plantas medicinais vem sendo cada vez mais difundida no País, e é possibilitada pela ampla biodiversidade e pela miscigenação das culturas indígena, negra e européia (Oliveira et al., 2003), cujos dados sobre o uso destas plantas encontram-se registrados em vasta bibliografia (Dorigoni et al., 2001; Cruz & Kaplan, 2004; Alves et al., 2008; Karimi et al., 2008), que representa importante instrumento na triagem de material botânico para avaliação farmacológica.

A população brasileira tem tradição no uso de plantas para tratamento de necessidades básicas em saúde (Brasil, 2006), mas o Brasil apresenta ainda enorme potencial a ser explorado na área de fitoterápicos devido à grande biodiversidade, a qual abrange grande quantidade de espécies endêmicas (Pedroso et al., 2007).

Mesmo com o crescente consumo de plantas medicinais em centros urbanos, por pacientes de todo nível sócio-econômico e cultural (Suyenaga et al., 2007), o emprego ainda predomina em zonas rurais, onde as pessoas têm informações sobre indicações de uso e facilidade de acesso.

A Floresta Atlântica é um imenso reservatório pouco explorado, sendo que em pequenas propriedades rurais situadas nos limites de abrangência estão contidos fragmentos florestais detentores da biodiversidade remanescente (Mariot & Reis, 2006). O município de Urubici, localizado no Planalto Serrano, apresenta extensas áreas de APPs (Áreas de Preservação Permanente) em função das características do relevo, e nele se concentram nascentes de importantes rios do Estado. Apesar disso, as matas ciliares foram praticamente dizimadas e substituídas por cultivos de olerícolas, justamente, porque as únicas áreas planas situam-se às margens do rio Canoas, que apresenta ao longo do percurso diferentes graus de perturbação.

Através da Rede Guarani-Serra Geral, desenvolve-se trabalho, através do qual se pretende restaurar as matas ciliares e resgatar a importância, mas priorizando a proteção dos recursos hídricos dentro das possibilidades econômicas da pequena propriedade e a identificação de produtos florestais não madeireiros. Leva-se em consideração também, novos referenciais de restauração, principalmente aqueles relacionados à resiliência ecológica dessas áreas (Reis et al., 2007), como a possibilidade da chegada de propágulos da vizinhança, a presença de regenerantes naturais na área degradada e o resgate da diversidade regional, para garantir a sustentabilidade da comunidade restaurada (Rodrigues et al., 2007).

Nesse sentido, é importante a identificação do potencial uso dos recursos vegetais como perspectiva econômica aos produtores, o que poderia resultar na redução gradual de áreas de APPs cultivadas com culturas agrícolas de alta demanda de agrotóxicos e que exercem alta pressão sobre a qualidade da água superficial. Valorar as florestas e identificar espécies arbóreas medicinais ou condimentares é fundamental, tanto para a subsistência dessas propriedades e a manutenção dos pequenos agricultores nesses locais, quanto para a proteção dos recursos naturais.

Sendo assim, o objetivo desse trabalho foi identificar as espécies arbóreas com potencial de uso medicinal presentes nos remanescentes das matas ciliares de pequenas propriedades do município de Urubici envolvidas em projetos de restauração, bem como determinar potencialidades de emprego para a restauração de áreas degradadas.

 

MATERIAL E MÉTODO

Caracterização do local

As áreas de estudo localizam-se em três pequenas propriedades não contíguas (Figura 1) do município de Urubici (latitude 28º00'48"S e longitude 49º35'22"W), situadas em duas comunidades: São José e Campestre. A população desse município é de 10.439 habitantes (IBGE, 2007). O clima é mesotérmico úmido, segundo a classificação de Köppen. O relevo de Urubici é composto por três unidades denominadas Planalto de Lages, Planícies Fluviais e Serra Geral.

As unidades experimentais compreendem áreas de regeneração natural de matas ciliares situadas em planícies aluviais, representadas por áreas planas adjacentes ao rio Canoas, periodicamente inundadas e localizadas paralelamente a lavouras de olericultura.

Estabelecimento das amostragens

As espécies selecionadas neste estudo foram extraídas do levantamento fitossociológico realizado em outubro de 2008, para o qual se empregou o método dos quadrantes. Foram alocados dois transectos de 100 m por propriedade, paralelamente ao curso do Rio Canoas na região central da faixa de mata ciliar. A distância entre os pontos sobre o transecto foi de 10 m, totalizando 240 indivíduos arbóreos (80 indivíduos/ propriedade) com CAP>15cm. Tendo em vista que os estudos foram realizados em pequenas propriedades, com pequenas faixas de mata ciliar, onde a largura varia de 1-15 metros, optou-se por alocar o transecto paralelamente ao curso do rio.

Todas as espécies amostradas foram coletadas. O material foi herborizado, identificado e doado ao Herbário Lages da Universidade do Estado de Santa Catarina (LUSC). As espécies foram agrupadas nas famílias botânicas segundo definições do Angiosperm Phylogeny Group (APGII, 2003). Para identificação das espécies recorreu-se a chaves dicotômicas e acervo bibliográfico disponível (Lorenzi, 2002a, 2002b; Wanderley et al., 2003; Sobral et al., 2006; Souza & Lorenzi, 2008; Reitz, 1965).

Potencial medicinal

Para cada espécie medicinal registrou-se a família, o nome popular, a parte usada e os principais tipos de uso na medicina popular. Foram compilados trabalhos etnobotânicos, etnoecológicos, taxonômicos e florísticos que indicassem ou citassem plantas medicinais da Floresta Atlântica (Reitz, 1965; Lorenzi & Matos, 2008; Moerman & Estabrook, 2003; Cruz & Kaplan, 2004).

Características ecológicas e síndrome de dispersão

As principais características ecológicas foram listadas de acordo com a descrição da literatura apresentada por Reitz (1965), Lorenzi (2002a; 2002b) e Carvalho (2006).

Para a caracterização da síndrome de dispersão dos diásporos das espécies coletadas, utilizaram-se os critérios e categorias propostas por Van der Pijl (1982), reunidos em três grupos básicos: 1) anemocóricas - espécies que apresentam mecanismos que facilitam a dispersão pelo vento; 2) zoocóricas - aquelas que possuem características relacionadas à dispersão por animais; e 3) autocóricas - as espécies que dispersam os diásporos por gravidade ou apresentam mecanismos de auto-dispersão como a deiscência explosiva, bem como informações registradas na literatura (Giongo & Waechter, 2007; Rondon-Neto et al., 2001; Piovello et al., 2006; Andreis et al., 2005).

A partir dos trabalhos de Machtans et al. (1996), Pizo (2002), Galetti et al. (2003), Silva (2003), Gressler et al. (2006) e Bechara et al. (2007) foram discutidas as implicações ecológicas dos tipos de síndrome de dispersão para a restauração de áreas degradas.

Classificação das espécies de acordo com grupos ecológicos e recomendação para restauração de áreas degradadas

As espécies foram classificadas de acordo com os grupos ecológicos (Gandolfi et al., 1995): i. pioneiras, ii. secundárias iniciais e iii. secundárias tardias, conforme registros na literatura (Araújo et al., 2005; Moscovich, 2006; Ramos & Boldo, 2007; Scherer et al., 2007).

Através de consultas bibliográficas, as espécies foram categorizadas em recomendadas (R) e não recomendadas (NR) para restauração de áreas degradas, conforme informações dos autores Knapik & Maranhão (2007), Nappo et al. (2004), Ferreira & Dias (2004), Lorenzi (2002a; b) e Silva et al. (2003).

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

Espécies dos remanescentes florestais com Potencial Medicinal

Dos 240 indivíduos arbóreos amostrados, 197 indivíduos pertencentes à 22 espécies de 15 famílias botânicas (Tabela 1), são citados na literatura especializada por apresentarem potencialidades medicinais, representando 82,08% do total de indivíduos amostrados, o que caracteriza a importância ecológica de espécies arbóreas medicinais nas matas ciliares das pequenas propriedades de Urubici.

Entre as famílias mais abundantes destacam-se Euphorbiaceae, Rosaceae, Myrtaceae, Lauraceae e Anacardiaceae, respectivamente com 52, 42, 31, 22 e 14 indivíduos (Tabela 1), sendo que Sebastiania commersoniana apresenta-se dominante em todas as propriedades estudadas, seguida de Prunus myrtifolia e da mirtácea Blepharocalyx salicifolius. Segundo Reitz (1965), S. commersoniana é uma espécie muito frequente nas planícies aluviais, comumente dominante, formando 60-80% de estrato contínuo das florestas de galeria. Dias et al. (1998) confirmam a importância dessa espécie na caracterização das matas ciliares da região sul do Brasil, especialmente nas florestas de araucária e Kolb et al.(1998) indicam a espécie para restauração de ambientes ciliares degradados.

A elevada abundância de algumas espécies como S. commersoniana, P. myrtifolia e B. salicifolius está associada à adaptabilidade das mesmas às áreas de solo úmido ou mesmo inundáveis. A adaptação a esses ambientes fragmentados e o isolamento da vegetação induz segundo Hanson et al. (1990), as situações de dominância de poucas espécies, diminuindo a diversidade, a equidade e a riqueza biológica. Porém, a abundância pode não significar que sejam bastante utilizadas para fins medicinais.

Segundo Moerman & Estabrook (2003), em estudo sobre o uso de plantas medicinais pelos nativos americanos, há preferência por espécies medicinais de algumas famílias em relação a outras, independente do tamanho dessas famílias. Essa preferência pode estar ligada a características culturais e a forma como a informação é transmitida, uma vez que de acordo com Marodin et al. (2001), em pesquisa realizada no Rio Grande do Sul, os usos terapêuticos das plantas não possui muita influência de livros ou cursos, mas é atribuído ao aprendizado com as gerações anteriores, ou seja, o conhecimento passa de mãe para filho.

A vegetação primária do território catarinense está dividida em seis formações vegetais distintas, entre as quais, destaca-se, no Planalto Serrano, a Floresta de Araucária, composta de sub-mata rica em representantes especialmente das famílias Myrtaceae e Lauraceae (Reitz, 1965), daí a importância dessas famílias nesse estudo.

Cruz & Kaplan (2004) salientam que espécies de Myrtaceae são empregadas frequentemente, para conter distúrbios gastrointestinais, estados hemorrágicos e doenças infecciosas, sendo as partes mais usadas as folhas, cascas e também os frutos, que são comumente consumidos.

Na medicina popular, as Lauraceae apresentam utilização variada, com ações anti-reumática, depurativa, gástrica, anti-sifilítica e outras. Destacam-se principalmente os gêneros Ocotea, que apresenta o maior número de espécies com potencial medicinal e Aniba (Marques, 2001).

Síndromes de Dispersão de Sementes

A principal síndrome de dispersão é a zoocórica, observada em mais de 77% das espécies medicinais que se encontram na área. De todas as espécies com potencial medicinal amostradas, apenas cinco não apresentam dispersão zoocórica (Tabela 2).

Nas floretas tropicais a forma mais freqüente de dispersão de sementes é a zoocórica, sendo que segundo Morellato & Leitão-Filho (1992) cerca de 60 a 90% delas são adaptadas a esse tipo de transporte. Para Floresta Ombrófila Mista, Rondon Neto et al. (2001) afirmam que 75,7% das espécies arbóreas são zoocóricas, 18,9% anemocóricas e 5,4% autocóricas. Liebsch & Acra (2007) registram, para o mesmo ecossistema 65,1% das espécies com diásporos zoocóricos, 23,6% anemocóricos, 2,2% autocóricos e 9,0% de plantas com síndrome não determinada.

A fauna é essencial para a dispersão de sementes de remanescentes próximos, podendo contribuir efetivamente para a regeneração das florestas (Parrota et al., 1997; Martins, 2007). Daí a importância do etno-conhecimento, principalmente de caçadores, indicando quais plantas em frutificação exercem grande atração sobre os animais, que, ao visitarem essas plantas para se alimentarem, atraem seus predadores (Reis et al., 2007). Nesse sentido, as espécies da família Myrtaceae merecem atenção, pois segundo Pizo (2002), todas as espécies de mirtáceas ocorrentes no Brasil produzem frutos carnosos, com variada morfologia, principalmente quanto ao tamanho, coloração e número de sementes, e com diferentes grupos de dispersores, entre os quais grandes aves frugívoras, macacos e morcegos (Gressler et al., 2006), podendo essas espécies serem consideradas bagueiras.

O papel das plantas bagueiras é justamente o de atrair fauna diversificada, e por isso, devem ser utilizadas como promotoras de encontros interespecíficos dentro de áreas degradadas, exercendo o papel de nucleadoras (Reis et al., 1999), especialmente, em ambientes fragmentados, onde em consequência da ausência ou baixa abundância de animais frugívoros, o sucesso reprodutivo das plantas, medido pela remoção de seus frutos pode ser drasticamente afetado (Galetti et al., 2003). Assim, a manutenção dos corredores florestais ripários facilita a movimentação de indivíduos juvenis de aves conforme demonstrado por Machtans et al. (1996), servindo ainda de abrigo aos mesmos.

Por outro lado, a estreita faixa de mata ciliar nas unidades experimentais e no município como um todo, cria condições características de borda, e segundo Galetti et al. (2003), há evidências de que a abundância de pequenas aves frugívoras é maior na borda dos fragmentos; em conseqüência, plantas situadas nas bordas tem os frutos removidos com maior frequência do que plantas no interior dos fragmentos e pelo fato de freqüentarem também as adjacências, as plantas de borda podem contribuir sobremaneira para a chuva de sementes.

Esse efeito traz consequências diretas sobre a seleção das espécies que devem ser utilizadas para enriquecimento das áreas adjacentes em restauração. Considerando-se que os vertebrados frugívoros são importantes no fluxo de sementes de áreas conservadas para degradadas, a atração dos mesmos para áreas em restauração pode ser feita pelo plantio de espécies zoocóricas pioneiras e secundárias iniciais com o intuito de promover a reconstrução de interações da comunidade (Rodrigues & Gandolfi, 2000), o que pode ser feito especialmente, pelo plantio de espécies que produzem frutos carnosos ou arilados, que são consumidos por aves e mamíferos frugívoros, prevendo-se a manutenção da disponibilidade constante de frutos ao longo do ano (Silva, 2003) e também, pela utilização de poleiros artificiais (Bechara et al., 2007).

A síndrome de dispersão é um dos processos mais importantes da regeneração natural de florestas tropicais, assim como da colonização de habitats (Van der Pijl, 1982), e por isso, precisa ser considerada. A resolução SMA-8 de 7/3/2007, do estado de São Paulo, prevê no seu Artigo 11, que para recuperação de áreas com algum tipo de cobertura florestal nativa remanescente, uma das recomendações a ser observada é que nos casos de plantio de espécies arbóreas para fins de restauração as áreas devem ser enriquecidas com espécies não pioneiras, priorizando-se espécies nativas da flora regional presentes em alguma das categorias de ameaça (vulnerável, em perigo, criticamente em perigo ou presumivelmente extinta), bem como espécies zoocóricas.

Classificação das espécies em grupos ecológicos e recomendação para restauração de áreas degradadas

Na distribuição das espécies em grupos ecológicos, as pioneiras (10) ocupam a primeira posição com 45,45%, seguidas das secundárias iniciais (8) com 36,36% e 3 secundárias tardias, 13,63%, sendo que Dicksonia sellowiana não foi incluída em nenhum critério (Tabela 2). A inserção das espécies nos grupos sucessionais esbarrou nas divergências de critérios empregados por diferentes autores. Silva et al. (2003) citam também essa dificuldade, além da própria resposta diferencial de uma mesma espécie frente às diferentes condições ambientais em função das características genéticas do indivíduo.

Quanto à frequência, o maior número (Tabela 1) de indivíduos arbóreos medicinais amostrados está incluído na categoria de pioneiras (89), seguidos das secundárias tardias (54) e secundárias iniciais (53).

O conhecimento dos grupos ecológicos é necessário ao entendimento do estágio sucessional em que se encontram os remanescentes de mata ciliar desse estudo e para seleção de espécies para enriquecimento das áreas. Durante a sucessão secundária, os grupos de espécies adaptados as condições de maior luminosidade, colonizam as áreas abertas e crescem rapidamente, fornecendo o sombreamento para o estabelecimento de espécies mais tardias da sucessão (Martins, 2007). Assim, os critérios grupo ecológico e síndrome de dispersão, são considerados para a restauração. Nesse sentido, os dados sugerem uma fase de transição da floresta ciliar do estágio médio para o avançado de regeneração de acordo com a Resolução 04/1994 do CONAMA.

Contudo, um fator limitante que não pode deixar de ser considerado é o manejo das propriedades. Embora haja condições ecológicas favoráveis ao estabelecimento de secundárias tardias, especialmente sombreamento, caracterizando um modelo de facilitação (Connel & Slatyer, 1977), a regeneração é bastante baixa nesses locais, em função de serem utilizados para pastejo, uma vez que a principal atividade das propriedades é a bovinocultura de leite.

O potencial medicinal das espécies registradas, especialmente das famílias Myrtaceae e Lauraceae, que desempenham também papel funcional relevante para a restauração das áreas ciliares degradadas devido à atratividade que exercem sobre à fauna para promoção de interações extremamente importantes para as florestas ficou evidenciado. Das 22 espécies medicinais, para apenas três não são encontrados registros na literatura de recomendação para uso em restauração de áreas degradadas, Araucaria angustifolia, Dicksonia sellowiana e Scutia buxifolia, todas amostradas com baixa freqüência (Tabela 2), o que indica uma compatibilidade de uso para a medicina popular e para a restauração de áreas degradadas, as duas questões centrais dessa pesquisa.

Na busca do desenvolvimento econômico das pequenas propriedades rurais de Urubici, tem-se que considerar aspectos tanto ambientais quanto da identidade do local, como por exemplo, o ecoturismo, muito difundido no município, apontando atividades que satisfaçam as condições legais de exploração dos recursos naturais de forma sustentável, aspecto fundamental para a permanência do homem no campo.

Nessas pequenas propriedades rurais, onde os recursos para implantação de projetos de restauração de áreas degradadas são limitados, é possível promover interações ecológicas capazes de recuperar funções importantes para o equilíbrio ambiental utilizando-se espécies arbóreas da flora local adaptadas às características edafo-climáticas locais, e também passíveis de exploração comercial, como as espécies arbóreas medicinais, que atendem a um conjunto de características importantes do ponto de vista funcional e econômico.

Assim, a extração ordenada e planejada de espécies medicinais arbóreas pode ser uma maneira de valorar as APPs dessas pequenas propriedades, respeitando-se o previsto na Legislação (Lei nº 11.428 de 22 de dezembro de 2006, que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica), para a busca da sustentabilidade econômica da pequena propriedade. O uso de folhas apresenta caráter de conservação do recurso vegetal, pois a retirada das mesmas, se não for excessiva, não compromete o desenvolvimento e a reprodução da planta. Essa seria ainda uma medida apoiada pelo governo, que nas últimas décadas tem estimulado significativamente o estudo do potencial dos produtos florestais não-madeireiros (PFNMs) em desempenharem importante papel complementar à madeira e à agricultura nos meios de subsistência rurais e em contribuir para a conservação e o manejo sustentável das florestas (Mariot & Reis, 2006). Contudo, trabalhos preliminares sobre o levantamento de espécies e potencial de uso, começam agora a ser desenvolvidos, na perspectiva da elaboração de uma proposta para manejo num futuro próximo.

 

AGRADECIMENTO

Aos órgãos de fomento MCT/CNPq/CT-HIDRO e FAPESC/FUNJAB, que apoiaram a pesquisa através do Projeto Rede Guarani/Serra Geral. A equipe técnica de geoprocessamento da Rede Guarani/Serra Geral, pela produção dos mapas.

 

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Recebido para publicação em 09/03/2009
Aceito para publicação em 12/03/2010

 

 

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