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Revista Brasileira de Plantas Medicinais

Print version ISSN 1516-0572

Rev. bras. plantas med. vol.14 no.4 Botucatu  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-05722012000400005 

Plantas medicinais em quintais urbanos de Rio Branco, Acre

 

Medicinal plants in urban backyards in Rio Branco, Acre

 

 

Siviero, A.*; Delunardo, T.A.; Haverroth, M.; Oliveira, L.C.; Mendonça, A.M.S.

Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária - Embrapa Acre, Rodovia BR 364, km 14, CEP: 69.908-970, Rio Branco-Brasil

 

 


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo realizar levantamento das espécies vegetais de uso medicinal cultivadas em quintais urbanos da cidade de Rio Branco. Foram realizadas entrevistas presenciais com aplicação de questionário especifico registrando as espécies vegetais de uso medicinal e dados sócio-econômicos dos moradores em 132 quintais urbanos de Rio Branco entre 2009 e 2010. Os bairros selecionados para o estudo foram: Aeroporto Velho, Placas, e Novo Horizonte, todos situados na periferia do município. Foram detectadas 83 espécies vegetais de uso medicinal pertencente a 50 famílias botânicas com destaque para Lamiaceae (12,0%) e Asteraceae (6,0%), sendo 66,2% exóticas, e 28,9% e 16,8%, associadas ao uso alimentar e ornamental, respectivamente. A decocção das folhas visando à obtenção do chá foi o principal modo de preparo das plantas. A análise de regressão logística entre a riqueza de espécies e diversos fatores socioeconômicos dos entrevistados mostrou que a probabilidade de ocorrência de espécies é três vezes maior em quintais manejados por moradores com idade superior a 50 anos de idade. A análise de correlação não paramétrica de fatores quantitativos mostrou que a variável tempo de moradia está mais correlacionada com a riqueza de plantas medicinais do que a variável idade. O cultivo das plantas medicinais em quintais urbanos de Rio Branco auxilia no combate a doenças e promove a conservação ex situ da agrobiodiversidade agroflorestal, bem estar aos moradores pela melhoria da paisagem, ambiência microclimática e espaço de lazer.

Palavras-chave: diversidade vegetal, fitoterapia, Amazônia, agricultura urbana


ABSTRACT

This study aimed to survey the medicinal plant species grown in urban backyards in the city of Rio Branco. Personal interviews were conducted by applying a specific questionnaire recording the plant species of medicinal use and the socioeconomic data of residents in 132 urban backyards in Rio Branco between 2009 and 2010. The districts selected for the study were "Aeroporto Velho", "Placas" and "Novo Horizonte", all situated on the outskirts of the city. We detected 83 medicinal plant species belonging to 50 botanical families, especially Lamiaceae (12.0%) and Asteraceae (6.0%), of which 66.2% are exotic, and 28.9% and 16.8% are associated with food and ornamental use, respectively. Decoction of the leaves in order to obtain tea was the main mode of preparation of these plants. Logistic regression analysis between species richness and various socioeconomic factors of the interviewees showed that the probability of occurrence of species is threefold higher in backyards managed by residents older than 50 years. Nonparametric correlation analysis of quantitative factors showed that the variable time of residence is more correlated to the richness of medicinal plants than to the variable age. Cultivation of medicinal plants in urban backyards in Rio Branco helps prevent diseases and promote ex situ conservation of agroforest agrobiodiversity, welfare to the residents by improving the landscape, microclimate ambiance and entertainment space.

Key words: plant diversity, phytoterapy, Amazon, urban agriculture


 

 

INTRODUÇÃO

A utilização da natureza para fins terapêuticos é tão antiga quanto à civilização humana e por muito tempo produtos de origem mineral, vegetal e animais foram as principais fontes de drogas (Schultes & Raffauf, 1990).

O estudo das plantas medicinais permite o entendimento das bases racionais para o uso medicinal de algumas espécies vegetais, desenvolvimento de fitoterápicos a baixo custo e a descoberta de novas drogas. Estima-se que 80% da população no terceiro mundo façam uso de fitoterápicos, sendo que 85% destes fabricam extratos de plantas medicinais a partir de cultivos existentes na própria casa (Embrapa, 1994). Diversas drogas derivadas de plantas foram descobertas como resultados de estudos químicos feitos a partir de plantas usadas na medicina tradicional (Ming, 2006).

O valor estético de espaços verdes, a formação de micro climas, a prevenção de doenças por meio de alimentação diversificada e o poder curativo das plantas medicinais são componentes da qualidade de vida proporcionadas pela agricultura urbana e periurbana (Dias, 2000).

Em estudo realizado em diversas localidades na América Latina relata a presença de plantas medicinais na maioria das residências que praticam alguma forma de agricultura urbana que permitem reduzir os gastos das famílias com problemas de saúde. Entre as espécies de plantas medicinais mais utilizadas na agricultura urbana na América do Sul se destacam a babosa (Aloe vera L. ex Webb.), o alecrim (Rosmarinum officinalis L.), anacahuita (Schinus molle L.) e a hortelã (Mentha L.) (Santandreu et al., 2010).

Alta diversidade de espécies é cultivada nos quintais urbanos, periurbanos e agroflorestais com múltiplas finalidades de uso como artesanal, ornamental, paisagístico, além de proporcionar melhoria do micro clima (sombra), fonte de fibra, uso mágico e, notadamente, as plantas medicinais (Nair, 2004).

Segundo Amorozo (2002), os quintais são espaços de resistência no ambiente urbano que garante a interação do homem com elementos do mundo natural. O quintal se refere ainda ao espaço do terreno situado ao redor a casa, regularmente manejado onde são cultivadas plantas como alimentares, condimentares, medicinais, ornamentais e mágicas e também são criados animais domésticos de pequeno porte. Em relação à conservação da agrobiodiversidade, os quintais urbanos são considerados um verdadeiro banco de recursos genéticos de grande importância para a humanidade.

Na Amazônia, nos quintais urbanos e rurais, as plantas medicinais e condimentares de porte herbáceo são cultivadas em áreas restritas onde recebem maiores cuidados, geralmente próximos à cozinha, pois facilita os cuidados, uma vez que a mulher é a principal responsável por essas espécies. Os quintais urbanos e periurbanos na Amazônia são caracterizados como pequenos espaços onde se cultivam diversas espécies vegetais para usos distintos e múltiplos (Murrieta & Winklerprins, 2003).

Estudos etnobotânicos podem contribuir para a compreensão e à preservação da diversidade biológica e cultural. Em relação ao Acre, poucos são os trabalhos que podem ser citados nesta área. Kainer & Duryea (1992) e Emperaire & Delavaux (1992) realizaram levantamentos etnobotânicos que incluíam as plantas medicinais em quintais agroflorestais de moradias das reservas extrativistas no Acre. Ehringhaus (1997) realizou estudos de uso e diversidade junto à etnia Kaxinaua relatando o uso medicinal e mágico de dezenas de espécies de Piper spp.

Na Reserva Estadual do Croa na região da boca do rio Croa, Rodrigues Alves, (AC) foram relatadas 87 espécies medicinais das quais 14 são também ornamentais e 13 fruteiras cultivadas em esquema tradicional na área rural. O uso das plantas medicinais são para remédio, banho e defumação as relacionadas à prática religiosa como aquelas de uso no ritual do Santo Daime (Seixas, 2008). Ming (1995) realizou o primeiro levantamento detalhado de plantas medicinais utilizadas pelos seringueiros na Reserva Extrativista Chico Mendes localizada em Xapuri, AC.

Souza et al. (1998) levantaram as plantas medicinais utilizadas por produtores rurais da Vila Nova Califórnia, região de Rondônia na divisa com o Acre e encontraram 151 espécies de plantas medicinais distribuídas em 53 famílias botânicas com destaque para as famílias Asteraceae, Lamiaceae e Caesalpinaceae.

Os bairros periféricos de Rio Branco apresentam população predominantemente de baixo poder aquisitivo, notadamente, originários do interior do Estado, sendo a maioria composta de ex-seringueiros, portanto, conhecedores de saber tradicional a respeito do uso dos recursos vegetais da floresta, principalmente as plantas medicinais. Um levantamento de plantas medicinais comercializadas in natura no município de Rio Branco, entre 1990 e 1995, identificou 74 espécies sendo comercializadas por vendedores ambulantes e em bancas de feiras livres (Silva, 1997).

Nos quintais periurbanos de Rio Branco, Mendes (2008) relatou a ocorrência de 44 espécies de uso medicinal em 32 quintais periurbanos estudados. Haverroth & Freitas (2008) pesquisaram a diversidade vegetal de 35 quintais urbanos de dois bairros de Rio Branco, encontrando 60 espécies, entre medicinais e alimentares. Os quintais das moradias do município de Rio Branco apresentam grande número de plantas de uso alimentar sendo que 34% destas estão associadas também o uso medicinal (Siviero et al., 2011).

O objetivo deste trabalho foi realizar a caracterização das espécies vegetais de uso medicinal que ocorrem em quintais urbanos de Rio Branco. Foram pesquisados aspectos da diversidade de plantas medicinais e as principais indicações terapêuticas, hábitos de crescimento e cultivo das espécies e as características socioeconômicas dos entrevistados. O estudo teve origem com pesquisa sobre a agrobiodiversidade dos quintais de Rio Branco desenvolvida por Delunardo (2008).

 

MATERIAL E MÉTODO

A cidade de Rio Branco está situada na extremidade da Amazônia Ocidental e exerce forte atração populacional com alta taxa de urbanização, recebendo uma população oscilante e altamente diversa do interior do Acre de outras regiões do país (Figura 1). O município de Rio Branco tem população de aproximadamente 320.000 habitantes e área de 883.143,74 há (Schmink & Cordeiro, 2008).

O clima de Rio Branco é do tipo Am, ou seja, quente e úmido, apresentando uma estação chuvosa com altos índices pluviométricos de outubro a março e a precipitação anual varia de 2000 a 2100 mm. A vegetação do município de Rio Branco é atualmente classificada como área antrópica (AP), no entanto, a vegetação original foi classificada como Floresta Tropical Aberta. O município apresenta variação altimétrica de 130 a 330 metros de altitude no extremo sudoeste (Acre, 2006). Os solos de Rio Branco são de origem sedimentar apresentando solos bem desenvolvidos como os latossolos até solos jovens, como neossolos se destacando os argissolos, plintossolos, luvissolos e gleissolos com ocorrência de terras baixas de relevo ondulado (Rio Branco, 2007).

A escolha dos bairros para esta pesquisa foi realizada usando os seguintes critérios: abrigar moradores de baixa renda onde as plantas medicinais do quintal são mais importantes para a segurança alimentar da família; ter localização periférica onde ocorrem quintais maiores ainda não impermeabilizados visando aumentar a possibilidade de entrevistar maior número de ex-extrativistas nativos e apresentar épocas de fundação distintas visando acessar residências construídas nos vários movimentos de migração campo-cidade ocorridas no Acre.

Desta forma foram escolhidos para esta pesquisa os bairros e as respectivas datas de fundação, sendo Aeroporto Velho (1960), Placas (1969) e Novo Horizonte (1978). A partir destes critérios de escolha e da curva de acumulação de espécies medicinais foram selecionadas neste estudo 55 residências no bairro Aeroporto Velho, 54 no bairro das Placas e 25 residências no Novo Horizonte.

O bairro Aeroporto Velho, fundado em 1960 está localizado na zona Sul da capital sendo formado por 16 loteamentos e abriga cerca de 80.000 pessoas. Esse bairro é um dos mais antigos da cidade, fica à margem do Rio Acre e tem perfil de classe média a baixa de um modo geral. O segundo foi o bairro das Placas tem sua origem em 1969, formado por 30 loteamentos, invasões e pequenos conjuntos habitacionais. Essa região tem ocupação antiga (mais de 50 anos).

O bairro de Placas está localizado em níveis altimétricos mais elevados de Rio Branco às margens do igarapé São Francisco em área tipicamente residencial, com aspectos de segregação urbana sendo periférico tanto em caráter físico como social, no entanto apresenta bom uso, cobertura e aproveitamento do solo (Carmo & Schaefer, 2009). Da mesma forma, foi delimitada uma área com quadras predominantemente residenciais e que não estavam às margens das principais vias de tráfego.

O último foi o bairro Novo Horizonte, criado em 1978, sendo composto por 13 quadras e composto por 34 pequenos conjuntos habitacionais e loteamentos. A ocupação das quadras ocorreu através de processo de inscrição na COHAB/AC (Companhia de Habitação do Acre) e posterior sorteio. Trata-se de bairro de criação mais recente com habitações que apresentam maior homogeneidade de tamanho de quintal devido ao melhor planejamento de sua fundação. A região abriga famílias de classe media a baixa, de modo geral.

A primeira etapa do estudo consistiu na realização de visita prévia as associações de moradores de cada bairro e de consultas a diversos órgãos da Prefeitura Municipal de Rio Branco visando obter dados secundários sobre o processo de formação dos bairros. A escolha das residências em cada bairro foi feita pelo método de amostragem sistemática de pontos de amostragem (Albuquerque et al., 2008). Partindo escolha de uma quadra central do bairro, afastado de vias de grande circulação de veículos. Uma vez escolhida, aleatoriamente, a primeira residência da quadra para entrevista, o próximo ponto de amostragem escolhido era duas casas após o primeiro ponto e, assim, sucessivamente circundando todo o perímetro da quadra.

A metodologia de coleta de dados primários foi feita via abordagem qualitativa utilizando técnicas de entrevista semi estruturada seguindo um roteiro-guia padrão e de observação direta participante (Triviños, 1987).

Foram pesquisados aspectos socioeconômicos qualitativos e quantitativos dos entrevistados. A entrevista aplicada considerou ainda os aspectos levantados por Millat- Mustafa (1998) e constou de questões sobre a área do quintal e dados das espécies alimentares cultivadas como nome comum, forma de obtenção da planta (floresta, vizinho, etc.), indicação de usos da espécie, hábito de crescimento, propagação, partes da planta e formas de preparo do fitoterápico.

As espécies vegetais mais comuns de cada quintal foram contabilizadas em campo. As espécies que não puderam ser identificadas no local foram encaminhadas para o Herbário da Universidade Federal do Acre visando à identificação botânica em nível de família, gênero e espécie. A identificação das plantas foi feita por comparação com exsicatas do herbário, chaves de identificação, levantamento bibliográfico em literatura especializada como Lorenzi & Matos (2008) e em bases de dados como o MOBOT (Trópicos, 2010). O sistema taxonômico vegetal adotado neste trabalho foi o APG III (The Angiosperm Phylogeny Group, 2009). A nomenclatura dos nomes científicos foi conferida utilizando as bases de dados Plantminer (Carvalho et al., 2011).

Para determinar os efeitos das variáveis sócios econômicos qualitativos: idade, gênero, escolaridade, estado civil, naturalidade e tempo de moradia na residência sobre a riqueza de espécies, foram ajustados um modelo binário logístico, com técnica de otimização de escores de Fisher (PROC LOGISTIC do SAS 9.1). Para determinar as associações entre as variáveis quantitativas, como idade, tempo de moradia e riqueza foram feitas análises de correlação não paramétrica (PROC CORR Spearman do SAS 9.1) (SAS, 2003).

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

Os resultados indicaram uma grande riqueza de plantas medicinais nas residências registrando-se 109 espécies de plantas de uso medicinal das quais 66,2% são exóticas e 28,9% e 16,8% espécies estão associadas ao uso alimentar e ornamental respectivamente. Neste trabalho consideraram-se como exóticas as plantas que tiveram origem fora do continente americano. Cada planta medicinal apresenta uma ou mais características de indicações terapêuticas e outros usos pelos moradores como alimento, ambiência e mágico. Foram identificadas 48 famílias botânicas (Tabela 1) com destaque para Lamiaceae (12,0%) e Asteraceae (6,0%).

A indicação terapêutica das plantas seguiu um padrão constante nos três bairros pesquisados com poucas contradições quanto ao uso. Entre as plantas medicinais mais usadas em Rio Branco merecem destaque o crajirú (Arrabidaea chica (Humb. & Bompl.) B. Verl.), a babosa (Aloe vera L.), corama (Kalanchoe pinnata Pers.), malvarisco (Coleus amboinicus Lour.) e alfavaca (Ocimum basilicum L.).

Quanto ao tipo de crescimento das plantas medicinais empregadas pelos moradores, a maior parte é do tipo herbáceo (38%), seguido do arbustivo (36%), arbóreo (18%) e trepadeira (8%). Estes valores indicam que todos os estratos da vegetação são utilizados como plantas medicinais com destaque para os hábitos de crescimento herbáceo e arbustivo devido ao reduzido espaço disponível no quintal (Figura 2). As espécies de plantas medicinais nativas continuam sendo bastante usadas, apesar do número de espécies de plantas medicinais exóticas ser maior (66%), em relação às plantas citadas.

Quanto ao modo de preparo do medicamento caseiro a decocção (chá das folhas) foi o modo de preparo mais citado pelos entrevistados. O estudo revelou ainda que a folha é a parte vegetal mais utilizada (58%), seguida dos frutos (10%), cascas (9%) e raízes (8%) e 3,5% de outras partes como flores, resinas casca da vagem, bulbos e pendões.

Nesta pesquisa foi encontrado grande número de espécies exóticas sendo cultivadas nos quintais (66%), provavelmente, devido cerca de metade dos moradores serem oriundos de cidades fora da Amazônia e ao intercâmbio de mudas e sementes de espécies frutíferas e hortaliças entre parentes e vizinhos de outras regiões do país. Carniello et al. (2010) também reportaram baixa ocorrência de plantas nativas em quintais urbanos do Mato Grosso devido à influência dos diversos fluxos migratórios ocorridos naquele estado.

Emperaire & Eloy (2008) relataram o fenômeno do estreitamento da relação entre comunidades florestais e áreas urbanas na Amazônia. De acordo com as autoras, as atividades de produção agrícola, originalmente praticadas na floresta, estão sendo modeladas na periferia das cidades, construindo um novo mosaico agrícola urbano. A riqueza de espécies medicinais cultivadas no quintal e a origem dos moradores corroboram a tese do fluxo de espécies da floresta para a cidade.

Das espécies medicinais identificadas nos quintais de Rio Branco 28,9% é também de uso alimentar. A frequência de plantas de uso alimentar e medicinais de quintais urbanos ou rurais ocorre, geralmente, em números equivalentes (Amaral & Guarim Neto, 2008).

Durante a pesquisa verificou-se que os entrevistados têm o costume de cultivar as plantas medicinais em canteiros suspensos e em vasos separados, uma vez que essas plantas exigem maiores cuidados quanto ao solo, geralmente mal drenado, luminosidade e intensidade das chuvas invernais. Algumas vezes, essas plantas também são cultivadas em conjunto com as espécies hortaliças, ao utilizarem tais técnicas, os moradores estão facilitando o manejo e o controle de doenças e pragas que podem atacar as plantas.

O resultado do estudo socioeconômico dos entrevistados revelou que a maioria dos responsáveis pela condução e manejo do quintal é do gênero feminino e casado. Cerca de 60% dos entrevistados apresentam baixa escolaridade. Quanto à naturalidade dos entrevistados, constatou-se que cerca da metade dos entrevistados é oriunda do Acre dos quais 55% são oriundos de cidades do interior do estado. Os moradores do bairro Aeroporto Velho são mais idosos e moram há mais tempo no bairro (Tabela 2).

A regressão logística entre dados da frequência de espécies dos quintais visitados em relação aos fatores socioeconômicos dos entrevistados revelou que a idade dos entrevistados foi a variável mais importante na conservação das plantas medicinais dos quintais urbanos estudados (Tabela 3).

Estes resultados indicam que a maioria dos fatores sócio-econômicos analisados nesta pesquisa não apresentou correlação direta com a riqueza de plantas medicinais cultivadas em quintais urbanos, com exceção do fator idade, mostrando que moradores mais idosos manejam mais espécies e possuem um bom conhecimento tradicional acerca das plantas que cultivam.

Analisando a Tabela 3 observa-se que a chance de aumentar em três vezes a frequência de espécies detectadas nos quintais se dá quando se entrevistam pessoas acima de 50 anos de idade. O modelo logístico (Binário logístico, com técnica de otimização de scores de Fisher) ajustado para determinar os efeitos das variáveis idade, sexo, escolaridade, estado civil, naturalidade e tempo de moradia sobre a probabilidade de ocorrência de plantas medicinais (Tabelas 2 e 3), com base em 132 quintais e dos quais 100 com plantas medicinais, satisfez o critério de convergência, é significativo (GL=6; Wald= 13,74; p<0,05).

Somente a variável idade apresenta estimativa diferente de zero (p<0,01), ou seja e1,1675, mostrando que a chance de encontrar plantas medicinais em quintais é 321% maior quando se entrevistam pessoas acima de 50 anos de idade. A análise de correlação mostra que a variável tempo de moradia (0,4653; p<0,001) está mais correlacionada com a riqueza de plantas medicinais do que a variável idade (0,3834; p<0,001).

Os dados socioeconômicos dos moradores de Rio Branco associados à riqueza de espécies de uso medicinal corroboram os estudos realizados em Goiás onde foi relatado que o número de espécies medicinais que ocorrem no quintal independe do grau de escolaridade, gênero, local de nascimento, idade e zona de procedência rural ou urbana, no entanto, a maior proporção de informantes que têm o hábito de cultivar espécies medicinais pertence às faixas etárias superiores a 54 anos (Silva & Proença, 2008).

Neste trabalho a estatística mostrou a forte relação entre idade do morador e a riqueza de espécies medicinais presente nos quintais urbanos de Rio Branco evidenciando que pessoas mais idosas tendem a conservar as práticas da medicina popular tradicional, cujo conhecimento relativo ao uso de plantas é, geralmente, expresso no cultivo das espécies na residência.

Amaral & Guarim Neto (2008) relataram que informantes mais idosos são os que possuem maior informação sobre o uso de plantas medicinais. Carniello et al. (2010) reportaram que a maioria dos informantes entrevistados (90%) em Mirassol do Oeste, MT são aposentadas e dispõem de tempo integral para convívio no espaço da moradia e para a realização de atividades relacionadas, principalmente, com a administração e manejo do quintal como e cultivo de plantas.

A relação entre gênero e os fatores idade do responsável, riqueza de espécies, grau de uso de plantas na familia em região tropical indica que as mulheres estão mais envolvidas com o manejo da flora dos quintais do que os homens sendo mais pronunciada entre pessoas mais idosas notadamente entre 30 e 80 anos (Voeks, 2007).

Na Amazônia brasileira os quintais urbanos e rurais as plantas medicinais são cultivadas em áreas restritas onde recebem maiores cuidados, geralmente próximos à cozinha, pois facilita os cuidados. Os quintais agroflorestais e urbanos na Amazônia são caracterizados como pequenos espaços onde se cultivam espécies frutíferas, medicinais, raízes, hortaliças, ornamentais, místicas associados à criação de pequenos animais, sendo, notadamente, manejados por mulheres (Murrieta & Winklerprins, 2003; Siviero et al., 2011).

Durante a realização da pesquisa notou-se que há trocas de espécies vegetais bem como suas peculiaridades de uso e cultivo entre vizinhos e parentes de uma mesma rua, denunciando a existência de rede social que é reforçada pelas trocas do conhecimento tradicional. O mesmo fato foi reportado em estudos junto a moradores da periferia de Santarém, PA, envolvendo os quintais urbanos registrando a importância dos sistemas informais de produção, doação e trocas de conhecimentos tradicionais na sobrevivência dos moradores (Winklerprins & Oliveira, 2010).

A riqueza de plantas medicinais mesmo sendo a maioria de origem exótica, reflete a conservação da diversidade agrícola incidental pelo uso. Os principais responsáveis pela manutenção da riqueza de espécies de uso medicinal nos quintais urbanos são as mulheres, notadamente aquelas com idade superior a 50 anos podendo ser consideradas como guardiãs e manejadoras de verdadeiros ´hotspots' de diversidade agrícola.

 

CONCLUSÃO

Os quintais urbanos de Rio Branco podem ser considerados sistemas agroflorestais que conservam alta diversidade genética de espécies de plantas medicinais muitas destas apresentam também uso ornamental e alimentar. Os moradores com idade acima de 50 anos, sexo feminino, casada e com baixa escolaridade são os que mais contribuem no manejo e conservação das plantas medicinais nos quintais de Rio Branco. Esta pesquisa é de grande utilidade como subsídio para formulação de políticas públicas de saúde pública, segurança alimentar, conservação de recursos genéticos e geração de renda por meio da agricultura urbana uma vez que boa parte dos moradores do município de Rio Branco são detentores de conhecimento tradicional a respeito do uso das plantas medicinais.

 

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Recebido para publicação em 03/03/2001
Aceito para publicação em 21/05/2012

 

 

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