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vol.17 issue1Comparative study of the susceptibility of clinical isolates of Cryptococcus neoformans (Sanfelice) against some antifungal agents of hospital use and plant extracts obtained from medicinal plants of the semiarid Sergipe region, BrazilPotential of horsetail (Equisetum sp.) derivatives on the synthesis of defense metabolites using soybean ( Glycine max L.) cotyledons and their effect on the in vitro growth of Rhizoctonia solani Kuhn author indexsubject indexarticles search
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Revista Brasileira de Plantas Medicinais

Print version ISSN 1516-0572

Rev. bras. plantas med. vol.17 no.1 Botucatu Jan./Mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1983-084X/12_055 

Artigos

Levantamento etnobotânico de plantas medicinais em área de Caatinga na comunidade do Sítio Nazaré, município de Milagres, Ceará, Brasil

Ethnobotanical survey of medicinal plants in the Caatinga area in the community of Sitio Nazaré, Milagres, Ceará, Brazil

C.G. SILVA 1   * 

M.G.V. MARINHO 2  

M.F.A. LUCENA 3  

J.G.M. COSTA 4  

1Universidade Federal de Campina Grande, Pós-Graduação em Ciências Florestais, Unidade Acadêmica de Engenharia Florestal, Avenida Universitária, s/n, Bairro Santa Cecília, CEP 58700-970, Patos-Brasil

2Universidade Federal de Campina Grande, Pós-Graduação em Ciências Florestais, Unidade Acadêmica de Ciências Biológicas, Avenida Universitária, s/n, Bairro Santa Cecília, CEP 58700-970, Patos-Brasil

3Universidade Federal de Campina Grande, Unidade Acadêmica de Ciências Biológicas, Herbário CSTR, Avenida Universitária, s/n, Bairro Santa Cecília, CEP 58700-970, Patos-Brasil

4Universidade Regional do Cariri, Laboratório de Pesquisa de Produtos Naturais, Rua Cel. Antônio Luiz, 1161, Bairro Pimenta, CEP 63100-000, Crato-Brasil

RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo realizar um levantamento das plantas medicinais nativas no bioma Caatinga na comunidade do Sítio Nazaré, no município de Milagres, Ceará. Foram utilizadas entrevistas semiestruturadas com 100 informantes entre 25 a 85 anos registrando informações de 62 espécies medicinais sobre o uso, parte utilizada, indicação terapêutica, e formas de preparo dos remédios caseiros, além de coleta do material botânico e produção de exsicatas. As famílias com maior representatividade na pesquisa foram Fabaceae (16 spp.), Euphorbiaceae (7 spp.), Cucurbitaceae e Malvaceae (3 spp.), e as demais com duas ou uma espécie cada. Nas preparações dos remédios caseiros verificou-se que todas as partes da planta são utilizadas, predominando as raízes (33,77%) e as cascas (29,87%). Observaram-se várias formas de preparo, sendo o chá a mais indicada (49,21%), seguida do lambedor (40,69%). Os dados encontrados revelaram que o conhecimento popular sobre as plantas medicinais é de extrema importância para o controle das afecções e contribui para a realização de estudos etnofarmacológicos.

Palavras-Chave: Caatinga; etnobotânica; plantas medicinais; Ceará

ABSTRACT

The present study aimed to survey the native medicinal plants in the biome Caatinga in the community of Sítio Nazaré from Milagres, in Ceará, Brazil. Semi-structured interviews with 100 persons, from 25 to 85 years old, were recorded. Sixty-two species were pointed for medical information on use, used plant part, therapeutic indication and methods of preparation of home remedies. We also prepared the collection of botanical material and production of exsiccates. The most representative families reported in this study were: Fabaceae (15 spp.), Euphorbiaceae (7 spp.), Cucurbitaceae and Malvaceae (3 spp.). On the preparation of remedies, we found that all parts of the plants were used, predominantly the roots (33.77%) and the barks (29.87%). The most common way of preparation observed was tea (49.21%), followed by syrup (40.69%). These collected data revealed that popular knowledge on medicinal Caatinga plants were important for disease control in the local population and it has contributed to other ethnopharmacology studies.

Key words: Caatinga; ethnobotanical; medicinal plants; Ceará

INTRODUÇÃO

Toda sociedade humana acumula um acervo de informações que a possibilita interagir e prover suas necessidades de sobrevivência. O ser humano foi e, ainda é, importante agente de mudanças vegetacionais e de evolução vegetal, porque sempre foi dependente do meio botânico para a sobrevivência, manipulando-o não somente para suprir as necessidades mais urgentes, mas também na magia e medicina, no uso empírico ou simbólico, nos ritos gerenciadores da vida e mantenedores da ordem social (Albuquerque, 2005). Reconhecer a importância das relações entre o homem e a natureza significa um avanço cognitivo (Santos et al., 2008).

Muitas comunidades rurais do nordeste estão inseridas em áreas de vegetação de caatinga, onde tiram seu sustento, através da agricultura, assim como, de produtos não madeireiros, como ervas medicinais, óleos, sementes, frutos. As plantas medicinais acabam sendo a única alternativa dessas comunidades para combater suas enfermidades, sendo o único recurso disponível. Para Pilla et al. (2006), à medida que a relação com a terra passa por uma modernização e o contato com centros urbanos se intensifica, a rede de transmissão do conhecimento sobre plantas medicinais pode sofrer alterações, sendo necessário com urgência fazer o resgate deste conhecimento e das técnicas terapêuticas, como uma maneira de deixar registrado este modo de aprendizado informal.

A partir de levantamentos em determinadas comunidades locais pode-se averiguar as potencialidades dos recursos vegetacionais, desde medicinais, alimentares, madeireiros, forrageiros, assim como, as formas de uso repassado para futuras gerações pelos moradores.

Através disso, o estudo da etnobotânica busca não só o registro do uso dos recursos vegetais presentes em determinada área, mas as formas de manejo como são empregadas por comunidades tradicionais. O conhecimento repassado de geração a geração nas comunidades tradicionais, sobre os recursos terapêuticos das plantas encontradas em seu ambiente natural pode ser um instrumento importante, como por exemplo, para indústria farmacêutica na elaboração de novos medicamentos. A etnobotânica é citada na literatura como sendo um dos caminhos alternativos que mais evoluiu nos últimos anos para a descoberta de produtos naturais bioativos (Maciel et al., 2002).

O objetivo do presente trabalho foi realizar o estudo etnobotânico de espécies vegetais nativas utilizadas como plantas medicinais por moradores locais da comunidade do Sítio Nazaré, município de Milagres-CE. Para isso foram investigados: as partes das plantas utilizadas, as principais doenças combatidas, a forma de preparo e uso dos medicamentos e número indicado de plantas por informantes.

MATERIAL E MÉTODOS

O Sítio Nazaré está situado a 5 km do município de Milagres, as margens da BR 116, próxima a Reserva Lega da Fazenda Nazaré, onde esta foi dividida em duas áreas: A1 (07º17'52''S e 38º54'26,6''W) e A2 (07º17'41,15''S e 38º54'57,6''W) (Figura 1). O município de Milagres está localizado na mesorregião do Sul cearense e na microrregião de Brejo Santo, com área de 577 Km², 499 km da capital Fortaleza (IBGE, 2010).

FIGURA 1. Localização da área de estudo, Sítio Nazaré, município de Milagres, CE: 

Possui um clima semiárido, conforme a classificação de Köppen é do tipo BSh', tropical quente, temperatura média anual de 26°C. A precipitação média anual é de 939 mm, com período chuvoso de fevereiro a abril. O relevo inclui a Chapada do Araripe e Depressão sertaneja. Os solos em sua maioria são litólicos, podzólico vermelho-amarelo e vertissolo (IPECE, 2009).

A coleta de dados foi feita mensalmente na comunidade rural do Sítio Nazaré, no período de janeiro a dezembro de 2011, na estação chuvosa e seca. Utilizaram-se observação participante, entrevistas semiestruturadas e estruturadas (Albuquerque & Lucena, 2004), buscando obter informações sobre o potencial medicinal e características botânicas das plantas utilizadas.

Foram entrevistados 100 (cem) moradores entre 25 a 85 anos, sendo considerados especialistas locais (raizeiros, mateiros, agricultores, rezadeiras, donas-de-casa), onde se utilizou como técnica de amostragem a metodologia proposta por Bailey (1994), chamada "bola de neve" (snow ball), onde o primeiro especialista entrevistado indica o próximo, e assim por diante, até chegar o final do estudo, onde todos especialistas da comunidades estejam entrevistados . O grau de escolaridade da maioria dos entrevistados foi o 5º ano do Ensino Fundamental, onde a vida cotidiana está voltada à agricultura familiar. Residem em casas de alvenaria, sem saneamento básico, apesar de possuir no local, um Posto de Saúde, onde são realizadas as consultas uma vez por semana.

A coleta do material vegetativo fértil (com flor, fruto) foi realizada na Reserva Legal, que em seguida, foram feitas exsicatas e duplicatas, realizando todo processo de herborização proposto por Bridson & Forman (1998), onde foram depositadas no Herbário CSTR, da Universidade Federal de Campina Grande, sendo incorporadas à sua coleção. Análises morfológicas para as identificações, descrições das espécies foram realizadas com auxílio de chaves analíticas, diagnoses encontradas na bibliografia, e os nomes científicos das espécies estão de acordo com o site Forzza et al.(2012).

A frequência relativa das plantas medicinais foi calculada no Programa Excel, conforme Martins (1979), Castro (1987) , Rodal et al (1992). Apenas as plantas que apresentaram frequência de citação ≥ 5% foram consideradas para fins de discussão.

Um checklist foi elaborado contendo nomes científicos e populares, bem como finalidades terapêuticas, formas de uso, parte(s) utilizada(s) e indicação das espécies mencionadas pelos informantes locais.

RESULTADO E DISCUSSÃO

Foram citadas 62 espécies, 31 famílias e 53 gêneros, sendo 2 espécies identificadas apenas a nível de gênero (Sapium sp.; Ocimum sp.) (Tabela 1). As famílias com maior representatividade foram Fabaceae (16 spp.), Euphorbiaceae (7 spp.), Cucurbitaceae e Malvaceae (3 spp.) e, as demais com duas ou uma espécie cada. Muitos trabalhos realizados no bioma Caatinga como o de Roque et al. (2010), Albuquerque & Andrade (2002), Florentino et al. (2007) reforçam a existência de espécies medicinais nativas do bioma na região nordeste.

TABELA 1. Espécies medicinais utilizadas pela comunidade do Sítio Nazaré, município de Milagres-CE. Convenções: Voucher (Herbário CSTR); NI/PI = Número de Indicações por Plantas pelos Informantes;*Plantas consideradas para fins de discussão. 

Voucher Família/Nome Científico Nome popular Parte usada Forma de uso Indicação terapêutica NI/PI Frequência Relativa(>= 5%)*
ANACARDIACEAE
3053 Anacardium occidentale L. caju casca, flor e entrecasca chá, maceração, decocção anti-inflamatório, adstringente 15 2,30%
3052 Myracrodruon urundeuva Allemão aroeira mansa casca chá, maceração, banho de assento anti-inflamatório, bronquite, inflamações do útero 56 8,40%
APOCYNACEAE
3051 Calotropis procera (Aiton) W.T. Aiton algodão-de- seda látex látex puro verruga 1 -
ARECACEAE
3050 Syagrus comosa (Mart.) Mart . catolé raiz e fruto água do fruto olho inflamado, pedra nos rins 8 1,20%
ASTERACEAE
2995 Acanthospermum hispidum DC . espinho de cigano raiz chá, lambedor gripe, béquico, febrífuga 17 2,60%
3049 Ageratum conyzoides L . mentrasto toda a planta chá, lambedor emenagogo, depurativo 4 -
BIGNONIACEAE
3067 Handroanthus impetiginosus Mattos ipê rosa casca infusão, lambedor, xarope anti-inflamatório, anti-cancerígeno e anti-cardíaco 7 1,00%
BORAGINACEAE
3062 Heliotropium elongatum (Lehm.) I. M. Johnst . crista de galo raiz chá, lambedor gripe, béquico, anti-inflamatório 10 1,50%
CACTACEAE
2948 Cereus jamacaru DC . mandacaru raiz e folha chá, infusão, lambedor anti-inflamatório, doenças da próstata, cardíacas e renais, gripe, béquico 24 3,60%
3001 Harrisia adscendens (Gürke) Britton & Rose rabo de raposa Espinho in natura retirada de espinhos na epiderme 3 -
CAPPARACEAE
3048 Tarenaya spionosa (Jacq.) Raf . mussambê raiz, flor, planta inteira chá, lambedor, xarope gripe, bequíco, inflamações 10 1,50%
CONVOLVULACEAE
3058 Operculina macrocarpa (L.) Urb . batata-de- purga tubérculo infusão, xarope gripe, carminativa, vermífugo, antiasmática, hemostático 1 -
CUCURBITACEAE
3047 Luffa operculata (L.) Cogn . cabacinha fruto infusão, decocção, sinusite, febre 3 -
3002 Momordica charantia L . melão-de-são- caetano folha e semente, chá, lambedor, emplasto febrífuga, antidiarreico, hemostático, queimaduras 3 -
3046 Apodanthera congestiflora Cogn . cabeça de negro raiz chá, lambedor dores de coluna 1 -
EUPHORBIACEAE
2052 Croton heliotropiifolius Kunth velame raiz, folha e látex, banho, lambedor in natura coseira, béquico, verruga, infecções 9 1,30%
2053 Croton echioides Baill . quebra-faca entrecasca chá dores nas costas, febrífuga, béquico 7 1,00%
2055 Croton nepetifolius Baill . marmeleiro branco raspa do caule chá, in natura, lambedor béquico, antidiarreico 3 -
2045 Croton blanchetianus Baill . marmeleiro raspa do caule chá, in natura, lambedor béquico, antidiarreico 10 1,50%
2950 Croton grewioides Baill . canelinha de cheiro galho e folha chá, banho gripe, béquico, febrífuga, cefaleia 54 8,10%
2039 Jatropha curcas L . pinhão-manso raiz e látex lambedor, látex puro verruga 3 -
2048 Sapium sp . burra leiteira casca e látex chá, látex puro inchaço no corpo, verruga 1 -
FABACEAE
3045 Amburana cearensis (Allemão) A. C. Sm . imburana de cheiro casca e entrecasca lambedor, xarope, banho béquico, gripe, anti-inflamatório 61 9,20%
3054 Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan angico casca e entrecasca lambedor, banho béquico, gripe, anti-inflamatório 8 1,20%
3063 Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud . mororó casca e folha, chá, lambedor xarope diabete, béquico, gripe, cefaleia, dores de barriga 6 0,90%
FABACEAE
2047 Libidibia ferrea (Mart. ex Tul.) L.P.Queiroz jucá casca e fruto chá, lambedor, xarope gripe, béquico, inflamações nos rins, calmante 7 1,00%
3043 Enterolobium contortisiliquum (Vell.) Morong . timbaúba entrecasca chá todos os tipos de dores 3 -
3044 Hymenaea courbaril L . jatobá casca, entrecasca e fruto chá, infusão, decocção, lambedor, xarope gripe, béquico, anemia, depurativo 63 9,50%
3007 Mimosa arenosa (Willd.) Poir . unha-de-gato raiz lambedor gripe, béquico 1 -
2866 Mimosa cf. malacocentra Mart . lambe-beiço, rasga-beiço raspa da entrecasca emplasto ferimentos externos 3 -
2865 Mimosa sensitiva L . Malícia raiz lambedor, xarope gripe, béquico 3 -
3060 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir . jurema-preta entrecasca banho, infusão ferimento externo, dor de dente 12 1,80%
3008 Pityrocarpa moniliformis (Benth.) Luckow & R.W.Jobson carrasco entrecasca infusão, lambedor inflamação na próstata. 1 -
3055 Poincianella pyramidalis (Tul.) L. P. Queiroz catingueira casca e flor chá, lambedor, xarope gripe, béquico, inflamações no corpo 3 -
3041 Senna obtusifolia (L.) H.S. Irwin & Barneby fedegoso raiz chá emenagogo 1 -
3068 Senna occidentalis (L.) Link manjerioba raiz chá, lambedor, xarope gripe, béquico 2 -
3069 Senna spectabilis (DC.) H.S.Irwin & Barneby canafístula folha maceração irritação na pele 3 -
2042 Trischidium molle (Benth.) H.E.Ireland jaborandi folha chá febrífuga, gripe 1 -
LAMIACEAE
3006 Ocimum sp . alfavaca raiz banho gripe 8 1,30%
3040 Leonotis nepetifolia (L.) R. Br . cordão-de-são-francisco folha e ramo infuso, decocção antirreumático, anti-inflamatório 3 -
MALVACEAE
3056 Ceiba glaziovii (Kuntze) K.Schum . barriguda entrecasca chá dores de coluna 5 0,80%
3038 Sida cordifolia L . malva branca raiz chá dor de dente 4 -
3039 Waltheria albicans Turcz . malva do mato raiz infusão, lambedor inflamações no corpo. 10 1,50%
MENISPERMACEAE
2949 Cissampelos sympodialis Eichler jarrinha raiz infusão, lambedor gripe, béquico, infecção urinária 15 2,30%
MORACEAE
3003 Brosimum gaudichaudii Trec . inharé látex látex puro impinge, inflamações externas 5 0,80%
NYCTAGINACEAE
3037 Boerhavia diffusa L . pega-pinto raiz chá, xarope anti-inflamatório, anti-hepática, bronquite 4 -
OLACACEAE
3061 Ximenia americana L . ameixa casca e entrecasca infusão, lambedor, xarope, banho ferimentos externos, anti-inflamatório 33 5,00%
PASSIFLORACEAE
3066 Passiflora foetida L . maracujá-do- mato raiz, folha e fruto chá, infusão inflamação de garganta, insônia, depressão, antirreumática 17 2,60%
PHYLLANTHACEAE
3057 Phyllanthus niruri L . quebra-pedra raiz e folha chá, lambedor, xarope pedras nos rins, fígado 13 2,00%
PHYTOLACCACEAE
3036 Petiveria alliacea L . tipí raiz e folha chá, lambedor, banho antirreumática, dor de coluna 9 1,40%
PLANTAGINACEAE
3035 Scoparia dulcis L . vassourinha toda a planta chá, xarope bronquite, infecção urinária, emenagogo, infecções do útero, anti-inflamatório 14 2,10%
RHAMNACEAE
3065 Ziziphus joazeiro Mart . juazeiro entrecasca, folha e fruto chá, infusão,decocção anemia, dores de barriga, inflamações 22 3,30%
RUBIACEAE
3034 Coutarea hexandra (Jacq). K. Schum . quina-quina entrecasca chá, infusão, decocção gripe, tosse, anti-inflamatório, sinusite 24 3,60%
3033 Genipa americana L . genipapinho entrecasca emplasto luxação e hematomas 12 1,80%
SAPINDACEAE
2046 Cardiospermum corindum L . cipó-de-vaqueiro raiz chá, lambedor, xarope gripe, béquico, inflamações no corpo 16 2,40%
SAPOTACEAE
2947 Sideroxylon obtusifolium (Roem. & Schult.) T. D. Penn . quixaba casca e entrecasca chá, infusão e lambedor gripe, béquico, inflamações no corpo 23 3,40%
SELAGINELACEAE
3032 Selaginella convuluta Spring . jericó raiz chá, lambedor gripe, dores de barriga 5 0,80%
SOLANACEAE
3031 Solanum agrarium Sendtn . gogoia raiz chá, lambedor infecção urinária, hemorroidas, vermífugo 12 1,80%
TURNERACEAE
3004 Turnera subulata Sm . chanana raiz e folha chá, infusão, xarope, emplasto infecção urinária, doença da próstata, anti-inflamatório 15 2,30%
VERBENACEAE
3011 Lantana camara L . chumbinho raiz chá, lambedor béquico, gripe 1 -
3010 Lippia microphylla Cham . alecrim de tabuleiro planta inteira chá, lambedor gripe, cefaleia, sinusite, béquico 12 1,80%
VIOLACEAE
3064 Hybanthus calceolaria (L.) Oken papaconha raiz chá, lambedor falta de apetite, dentição de criança 14 2,10%

Nesta pesquisa foram dada ênfase apenas as espécies medicinais nativas e sendo consideradas para fins de discussão, as espécies com frequência de citação ≥ 5%, por ter sido citada diversas vezes entre os entrevistados. Para comprovar o nome das espécies utilizou-se, para esta finalidade bibliografia especializada.

Dentre as 62 espécies medicinais indicadas durante as entrevistas, H. courbaril (9,5%), A. cearensis (9,2%), M. urundeuva (8,4%) e C. grewioides (8,3%) foram as mais citadas pelos informantes da comunidade do Sítio Nazaré, seguidas das demais que tem suas particularidades, na cura de várias enfermidades, como gripes, resfriados, tosse, e sendo entre muitas das plantas medicinais local, repassadas pelos povos mais antigos como "plantas milagrosas" (Tabela 2).

TABELA 2. Espécies consideradas pelos informantes significativas para cura de enfermidades. NI/PI: Número de Indicações por Plantas pelos Informantes; FR: Frequência Relativa (≥ 5%). 

Espécies NI/PI FR (%)
H. courbaril (jatobá) 63 9,5
A. cearensis (imburana de cheiro) 61 9,2
M. urundeuva (aroeira mansa) 56 8,4
C. grewioides (canelinha de cheiro) 54 8,1
X. americana (ameixa) 33 5
C. jamacaru (mandacaru) 24 3,6
C. hexandra (quina-quina) 24 3,7
S. obtusifolium (quixaba) 23 3,4
Z. joazeiro (juazeiro) 22 3,3
A. hispidum (espinho de cigano) 17 2,6
P. foetida (maracujá do mato) 17 2,5
C. corindum (cipó-de-vaqueiro) 16 2,4
A. occidentale (caju) 15 2,3
T. subulata (chanana) 15 1,8
C. sympodialis (jarrinha) 15 2,3
H. calceolaria (papaconha) 14 2,3
S. dulcis (vassourinha) 14 2,2
P. niruri (quebra-pedra) 13 2
L. microphylla (alecrim de tabuleiro) 12 1,8
G. americana (genipapinho) 12 1,8
M. tenuiflora (jurema preta) 12 1,8

No Sítio Nazaré a idade dos informantes foi entre 25 a 85 anos, onde a faixa etária entre 36 a 45 anos, entre ambos os sexos, obteve uma maior porcentagem, correspondendo a 28%. O maior número de entrevistados pertence ao sexo feminino (67%). A presença da mulher se destacou, devido ao fato de passar mais tempo em casa e ser a responsável por cuidar do ambiente familiar, enquanto o homem dedica suas atividades fora de sua residência. Estudos realizados por Marinho et al. (2011), no município São José de Espinharas-PB, dos informantes entre 30 a 60 anos, (70%) foi do sexo feminino, assim como, Silva et al. (2012), no município de São João da Ponte-MG confirma que 77% dos entrevistados entre 28 a 78 anos, pertenciam ao sexo feminino, sendo verificados os dados percentuais na pesquisa em estudo.

O tempo de residência dos informantes numa escala de 2 até mais de 50 anos, 30% (30 a 50 anos) moram no local, onde os demais foram embora para a cidade ou se destinaram para outros Estados, como por exemplo, o Sudeste do Brasil, para trabalharem em indústrias, na construção civil, grandes plantações agrícolas, em busca de melhores condições de vida.

A maioria dos entrevistados afirmou que obteve o conhecimento adquirido sobre o uso das plantas medicinais através dos pais (74%), verificando que os demais relataram ter informações sobre as plantas medicinais com tios, vizinhos e até mesmo, com os filhos mais jovens (Figura 2). Marinho (2006) verificou no município de São José de Espinharas - PB, que 85% dos entrevistados adquiriram o aprendizado sobre as plantas medicinais com os pais.

FIGURA 2. Herança de conhecimento das espécies de plantas medicinais dos moradores do Sítio Nazaré, município de Milagres-CE. 

Para obter um estudo comparativo sobre as partes e formas de uso das plantas medicinais, a opinião entre homens e mulheres foi dividida, como forma de investigar o saber adquirido por estes gêneros ao longo de suas gerações. Para preparação dos remédios caseiros, as partes utilizadas foram raízes, cascas do caule, folhas, flores, frutos e sementes, onde se verificaram que (33,77%) dos homens utilizavam às raízes e (29,51%) das mulheres as cascas do caule, embora as folhas sejam procuradas para cura das enfermidades dos homens (28,96%) e mulheres (32,47%) (Figura 3). Oliveira et al. (2005) relatam para o município de Caruaru-PE, que as plantas medicinais localmente disponíveis fornecem estruturas perenes (cascas, entrecascas e raízes) para uso medicinal, assim como, as não perenes (folhas, flores e frutos), onde o uso medicinal das espécies em questão, não significam sua utilização efetiva, mas o seu conhecimento sobre o uso de forma empírica.

FIGURA 3. Partes utilizadas das plantas medicinais pela comunidade do Sítio Nazaré, município de Milagres-CE. 

Diversas formas de preparo dos remédios caseiros foram indicadas por homens e mulheres, como lambedor, xarope, chás por decocção e infusão, macerado em água, álcool, cachaça e vinho, banho de assento, compressas e outros. Verificou-se entre as mulheres (43,45%) e os homens (49,21%), que o chá foi à forma de preparo mais citada, seguido de lambedor (40,69%) e (33,33%), respectivamente para curar as enfermidades (Figura 4). Trabalhos como o de Marinho et al. (2011), Baldauf et al. (2009), reforçam esta prática.

FIGURA 4. Formas de uso das plantas medicinais entre os informantes do Sítio Nazaré, município de Milagres-CE. 

A troca de informações, desde os mais velhos aos mais jovens, é recíproca e dinâmica, em que a relação homem-planta medicinal se completa e mantém vivo o conhecimento. Vários dos informantes relataram que na ausência de remédios convencionais, encontram como alternativa imediata, à espécie Croton grewioides (canelinha de cheiro), para amenizar os sintomas considerados simples, como por exemplo, gripe e tosse, sem contar que eles a utilizam como uma bebida quente, na falta do pó de café no período da tarde.

O interesse de repassar o conhecimento sobre as plantas que fazem bem à saúde para as gerações seguintes foi retratado pela comunidade estudada, assim como, a interação com o meio ambiente, em busca de prover meios de sobrevivência.

Durante a realização deste trabalho, observou-se que, apesar da comunidade do Sítio Nazaré estar inserida em uma área de fácil acesso, ter a implantação de um Posto de Saúde, localizado próximo à sede do município de Milagres-CE, muitas pessoas ainda mantêm a forma tradicional de curar suas enfermidades, através das plantas medicinais.

A partir de pesquisas com plantas medicinais, tendo como referência comunidades rurais, o pesquisador, acaba sendo de certa forma, um norteador, o qual pode e deve planejar caminhos que orientem no manejo da vegetação e conservação das espécies ocorrentes na área estudada, tendo em vista, que a Caatinga que tem as suas particularidades relevantes para a comunidade local. Desta forma, oferece-se uma importante contribuição, afim de que surjam outras pesquisas para ampliar o conhecimento do bioma, especialmente no que se refere à exploração racional dos seus recursos naturais.

AGRADECIMENTO

À comunidade do Sítio Nazaré pela receptividade e disponibilidade durante os trabalhos de campo e pelos momentos de aprendizado. Ao senhor Fernando Tavares, proprietário da Reserva Legal, pela permissão e contribuição nesta pesquisa. À CAPES pela concessão de bolsa para realização deste trabalho.

REFERENCES

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Received: June 04, 2012; Accepted: June 24, 2014

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