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Revista Brasileira de Plantas Medicinais

Print version ISSN 1516-0572On-line version ISSN 1983-084X

Rev. bras. plantas med. vol.18 no.2 Botucatu Apr./June 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1983-084X/15_173 

Artigos

Plantas medicinais referenciadas por raizeiros no município de Jataí, estado de Goiás

Medicinal Plants referenced by“raizeiros” from Jataí county, Goiás state.

L.F. SOUZA1  * 

R.F. DIAS2 

F.A.G. GUILHERME1 

C.P. COELHO1 

1Universidade Federal de Goiás, Regional Jataí, Unidade Acadêmica Especial de Biociências, Lab. de Taxonomia Vegetal e Herbário Jataiense. Cx postal 03. Jataí, GO, 75801-615;

2Biota Projetos e Consultoria Ambiental, Rua 86-C, nº 64, Setor Sul, Goiânia, GO, CEP 74083-360.

RESUMO

Este trabalho objetivou pesquisar as plantas medicinais referenciadas por raizeiros do município de Jataí-GO, evidenciando o Valor de Uso Reportado (VUR) e a conexão com os níveis filogenéticos atuais. Com cerca de 200 anos de história, Jataí localiza-se no Planalto Central do Brasil, Sudoeste de Goiás (17°52’53’’S e 51°42’52’’W), tendo atualmente, como principal fonte de renda o agronegócio. Para a seleção dos raizeiros e coleta dos dados aplicou-se o método bola de neve e a técnica de entrevistas semiestruturadas. Determinou-se a etnoespécie, parte usada, uso, modo de preparo, sintomas / doenças relacionando aos sistemas corporais. Foram reportadas 515 referências etnobotânicas para 112 etnoespécies principalmente dos clados Fabídeas, Lamídeas, e Campanulídeas. Sobressaíram as etnoespécies Pé-de-perdiz (Croton antisyphilliticus), Sangra-dágua (C. urucurana), Pau-terra-de-folha-larga (Qualea grandiflora), Erva-de-Santa Maria (Chenopodium album), Amaro-leite (Operculina alata), Algodãozinho-do-campo (Cochlospermum regium), Cavalinha (Equisetum hiemale) e Jaborandi (Piper aduncum), com VUR maior que 10. Os sistemas corporais mais importantes com relação ao número de etnoespécies relatadas foram respiratório, digestivo, circulatório e tegumentar. As etnoespécies mais versáteis em uso nos sistemas corporais foram Copaíba (Copaifera langsdorffii), Pé-de-perdiz (Croton antisyphiliticus), Cavalinha (Equisetum hiemale), Alecrim (Rosmarinus officinalis) e Fruta-de-lobo (Solanum paniculatum). A prática da medicina tradicional em Jataí evidencia a conexão entre a escolha de plantas e os níveis filogenéticos derivados. Algumas destas etnoespécies estão na listagem de plantas medicinais que o Ministério da Saúde do Brasil escolheu para a realização de monografias, fato que fortalece o valor do conhecimento do uso da flora nas práticas da medicina tradicional.

Palavras chave Etnobotânica; Plantas nativas; Cerrado; Planalto Central

ABSTRACT

This study aimed to research medicinal plants referenced by “raizeiros” from Jataí-GO, showing the Reported Use Value (RUV) and connection with current phylogenetic levels. With nearly 200 years of history, Jataí is located in the Central Plateau of Brazil, Southwest Goiás (17°52’53 ‘’S and 51°42’52’’W), where the main source of income is agribusiness. For the “raizeiros” selection and data collection the snowball method and semi-structured interview techniques were applied. The ethnospecies, used part, usage, method of preparation for estimatedReported Value of Use (VU). There were 515 related ethnopharmacological citations of 112 ethnospecies, mainly Fabídeas, Lamídeas and Campanulídeas. Pé-de-perdiz (Croton antisyphilliticus), Sangra-dágua (C. urucurana), Pau-terra-de-folha-larga (Qualea grandiflora), Erva-de-Santa Maria (Chenopodium album), Amaro-leite (Operculina alata), Algodãozinho-do-campo (Cochlospermum regium), Cavalinha (Equisetum hiemale) andJaborandi (Piper aduncum), Pau-terra-de-folha-larga (Qualea grandiflora), Erva-de-Santa Maria (Chenopodium album), Amaro-leite (Operculina alata), Algodãozinho-do-campo (Cochlospermum regium), Cavalinha (Equisetum hiemale) andJaborandi (Piper aduncum)highlightedmorethan10RUV. The most important bodily systems in the number of reported plants were respiratory, digestive, circulatory and integumentary. The most versatile, useful plant systems were Copaíba (Copaiferalangsdorffii), Pé-de-perdiz (Crotonantisyphiliticus), Cavalinha (Equisetumhiemale), Rosemary (Rosmarinusofficinalis) and Fruita-de-lobo (Solanumpaniculatum).The practice of traditional medicine in Jataí reveals the link between the choice of plants and derived phylogenetic levels. Many referenced species are used medicinally in the Cerrado, including some that are part of the national health care system’s list, for the realization of monographs, which strengthen the knowledge of these traditional medicine practices in Goiás.

Key words Ethnobotany; native plants; Cerrado; Central Plateau

INTRODUÇÃO

Desde tempos remotos, as plantas são usadas para fins de diagnóstico, profilaxia ou cura, usos que se perpetuaram na história. Em 1978, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1978) reconheceu a Fitoterapia como uma prática oficial e recomendou a difusão dos conhecimentos necessários para o seu uso. WHO (2002) observou que 85% da população mundial usa plantas medicinais e elaborou uma série de resoluções considerando o valor das plantas na medicina tradicional e sugerindo o envolvimento dos serviços de saúde regionais.

Plantas medicinais são aquelas que apresentam compostos químicos com ação farmacológica em animais, que embora bem diversificados, não raro, são específicos para determinado grupo vegetal. Segundo Kaplan et al.(1994), o distanciamento filogenético entre as espécies vegetais é diretamente proporcional às diferenças químicas entre elas. Os vegetais apresentam uma rede de reações químicas versáteis conferindo ampla variabilidade estrutural ao seu metabolismo o que faz com que uma única espécie produza centenas de substâncias (Gottlieb & Borin 2012). O homem, ao longo dos séculos, vem selecionando estas substâncias para a resolução dos problemas orgânicos (Gottlieb & Borin 2002).

As práticas da medicina tradicional variam muito de país para país e de região para região, sendo influenciadas por fatores culturais, históricos, sociais e filosóficos, sendo importantes para a escolha da farmacopeia local. Para demonstrar a segurança e eficácia dessa farmacopeia, há necessidade de pesquisas que forneçam evidências seguras das plantas nas práticas da medicina tradicional. Ainda há poucas pesquisas para referendar com segurança a eficácia das espécies vegetais na medicina tradicional de Goiás.

Esta pesquisa, de cunho etnobotânico, reporta as espécies vegetais referenciadas por raizeiros em Jataí, visando fornecer evidências que fortaleçam o conhecimento destas nas práticas da medicina tradicional de Goiás, com vistas a pesquisas futuras nas áreas de ecológica, agronômica, validação farmacológica e prospecção química.

MATERIAL E MÉTODO

O município de Jataí localiza-se no Planalto Central, microrregião Sudoeste de Goiás (17052’53’’S e 51042’52’’W, 708 m. de elevação), tendo começado sua história em setembro de 1836, com a formação de fazenda de criação de gado. Os momentos importantes foram a criação da Freguesia do Divino Espírito Santo de Jatay (1864), a transformação em Vila do Paraíso (1882) e a criação do município de Jatay (1890). A etimologia do nome Jataí (Jaatay) advém de espécies do gênero Hymenaea, que em tupi-guarani refere-se aos frutos secos de pericarpo endurecido (Chiaradia, 2008). O gentílico de quem nasce em Jataí é jataiense. Com área de 7.174,228 Km, o município apresenta remanescentes florestais, savânicas e campestres, porém predominam as monoculturas de soja, milho, girassol e cana de açúcar, ocasionando perda de cerca de 60% de áreas nativas (Oliveira, 2007). Os rios da região fazem parte da bacia do Paranaíba, alta bacia do Paraná e Prata, com predominância latossolos profundos. O clima é tropical com médias anuais de 24,6°C e precipitação média anual de 1.747,4mm, verão chuvoso de outubro a março e inverno seco de abril a setembro (Silva et al. 2006).

Para alcançar o objetivo proposto, buscamos identificar e quantificar a diversidade botânica filogenética referenciada pelos raizeiros (especialistas que comercializam plantas medicinais ou seus produtos), relacionar essa diversidade às doenças dos sistemas corporais, salientando o valor de uso reportado das etnoespécies (VUR). O estudo foi conduzido ao longo do ano de 2010, usando o método bola de neve (Albuquerque et al. 2008) para selecionar os raizeiros, sendo o primeiro aquele que trabalha na feira local. Os raizeiros reportaram sobre as plantas usadas considerando as variáveis etnoespécies (ET), parte usada (PU), doenças ou sintomas (DS) e formas de uso (FU). Coletamos o material botânico em quintais e áreas nativas do município com a presença do raizeiro. Categorizamos as etnoespécies em exóticas (EX), nativas conhecidas (NC) e nativas desconhecidas (ND), sendo que amostras das duas primeiras categorias foram coletadas em qualquer fase de vida, enquanto da terceira coletamos em fase reprodutiva. Registramos os dados em caderneta de campo, digitamos em planilha, para a somatória das variáveis e análise do percentual reportado. O material botânico foi depositado no Herbário Jataiense prof. Germano Guarim Neto (HJ) da Universidade Federal de Goiás (Regional Jataí), onde ocorreu a determinação por comparação com amostras reprodutivas. A classificação seguiu APG III (2009) e o nome dos táxons e autores está de acordo com Forzza et al. (2015). Relacionamos as doenças e sintomas (DS) aos sistemas corporais (SISTCORP) seguindo os dados mínimos ideais para sistemas de informação de saúde segundo a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (OMS 2004). O Valor de Uso Reportado (VUR) refere-se ao número total de usos referenciados para cada etnoespécie (Gomez-Beloz 2002), valorizando cada espécie pelo conjunto total de usos que lhe é reputado. Analisamos também o valor de uso para os sistemas corporais com a finalidade de determinar as espécies mais versáteis referenciadas pelos raizeiros de Jataí.

RESULTADO E DISCUSSÃO

Perfil do raizeiro de Jataí - GO

A metodologia permitiu incluir toda a população de raizeiros da área urbana do município, sendo sete no total. A Tabela 1 indica que o raizeiro jataiense apresenta em média 65 anos de idade, tempo médio de residência no município igual a 56 anos e trabalha como raizeiro em média há 31 anos. Todos são naturais de Goiás, tem renda familiar até dois salários mínimos, a maioria é do gênero masculino, etnia parda, religião católica, com instrução até o ensino fundamental.

TABELA 1 Perfil do Raizeiro de Jataí, Goiás. 

Raizeiros gênero idade etnia Anos que reside no munícipio Anos que trabalha como raizeiro religião renda familiar (salários) grau de instrução
R1 masculino 75 parda 51 40 católica 1 a 2 fundamental
R2 masculino 58 parda 58 35 católica 1 a 2 fundamental
R3 feminino 63 parda 60 35 protestante 1 a 2 fundamental
R4 masculino 83 parda 76 45 protestante 1 a 2 fundamental
R5 masculino 57 branca 45 20 católica 1 a 2 fundamental
R6 feminino 69 branca 50 30 católica 1 a 2 fundamental
R7 masculino 49 parda 49 15 protestante 1 a 2 Médio

Etnobotânica

Os raizeiros referenciaram 113 etnoespécies dentro das divisões Sphenophyta (uma etnoespécie: Cavalinha) e Angiospermas (112), observadas na Tabela 2. Foram reportadas 515 referências etnobotânicas sendo que Cavalinha (Sphenophyta, Equisetum hiemale) obteve VUR = 11 (2,1%), usada contra osteoporose, anemia, ansiedade, cálculos renais, infecção dos rins e bexiga. É uma planta exótica plantada em quintais com fins terapêuticos e ornamentais. As angiospermas somaram 504 referências etnobotânicas, distribuídas em Angiospermas basais (16,5%) e Eudicotiledôneas (81,4%). Destacaram os clados Fabídeas (28 espécies e 151 referências), Lamídeas (28/112) e Malvídeas (20/94) somando juntos 65% das espécies e 70% das referências (Figura 1). Entre as ordens, destacaram Malpighiales, Lamiales, Fabales, Myrtales, Asterales e Gentianales com 58 espécies (50%) e 289 referências (55%). Analisando outros trabalhos do uso de plantas medicinais observa-se essa mesma relação; em trabalho de revisão sobre a riqueza de plantas medicinais mato-grossenses, Guarim Neto & Morais (2003), levantaram 96 famílias, das quais cerca de 60% pertencem aos clados Fabídeas, Malvídeas, Asterideas, Lamídeas e Campanulídeas. Em 2003, Leonti et al., ao analisarem a flora medicinal de Popoluca (México), concluíram que as cinco famílias mais usadas são Asteraceae, Piperaceae, Fabaceae, Euphorbiaceae e Lamiaceae, a maioria pertencente aos grupos derivados. Na região nordeste do Brasil, trabalhos citam Fabaceae, Euphorbiaceae, Cucurbitaceae (Fabídeas), Malvaceae (Malvídea), Lamiaceae (Lamídea) e Asteraceae (Asterídea), como as famílias mais representativas (Ribeiro et al., 2014; Oliveira & Lucena, 2015; Silva et al., 2015). Esta prática se deve certamente a fatores como: 1.pool gênico que permite maior diversidade aos grupos derivados, maior amplitude de ambientes colonizados, produção e ocorrência de compostos químicos; 2.facilidade de obtenção do vegetal e 3.seleção inconsciente desses compostos através da seleção consciente das plantas, pelos especialistas tradicionais.

TABELA 2 Lista das etnoespécies (ET) usadas por raizeiros na zona urbana do o município de Jataí (GO), de acordo a família e espécie botânicas, sistema corporal (SISTCORP), doenças ou sintomas (D/S), parte usada (PU), forma de preparo (PREP) e n°. de registro no Herbário Jataiense (RHJ) 

ET FAMÍLIA ESPÉCIE SISTCORP D/S PU PREP RHJ
Abacate Lauraceae Persea americana Mill. Digestivo
Urinário
Disenteria
Problemas Renais
Brotos
Folhas
Sementes
Infuso
Decocto
Óleo
308
Abacaxi Bromeliaceae Ananas comosus (L.) Merr. Imune, respiratório Urinário Vermífugo, catarro nos pulmões, tosse, Diurético Frutos Suco 100
Abóbora Cucurbitaceae Cucurbita pepo L. Digestivo, sensorial Má digestão, dor de ouvido Flores Suco 101
Açafrão Zingiberaceae Curcuma longa L. Digestivo, urinário Má digestão, Diurético Raiz Infuso 102
Acerola Malpighiaceae Malpighia glabra L. Respiratório Gripe Folhas Decocto 1107
Açoita cavalo Malvaceae Luehea grandiflora Mart. & Zucc. Circulatório Antiglicerídeos Caule Infuso 2065
Agrião Brassicaceae Nasturtium officinale R. Br. Circulatório
Respiratório
Urinário
Depurativo
Bronquite
Diurético
Flores folhas Suco 103
Alcachofra Asteraceae Cynara scolymus L. Digestivo
Endócrino
Urinário
Problemas no fígado
Vias biliares, obesidade
Diurético
Folhas Decocto 104
Alecrim Lamiaceae Rosmarinus officinalisL. Cardiovascular, nervoso, Digestivo Urinário, respiratório Acalma o coração
Calmante má digestão
Diurético, Bronquite
Folhas Infuso / macerado Inalar a fumaça 992
Alecrim do campo Bignoniaceae Anemopaegma arvense (Vell.) Stellf. Nervoso Energético
Tônico
Raiz Garrafada 6868
Alface Asteraceae Lactuca sativa L. Imune,nervoso Musculoesquelético Inchaços, insônia Contusões Folhas Infuso/emplasto 105
Alfavaca Lamiaceae Ocimum campechianum Mill. Respiratório Gripe , Tosse Folhas Infuso 1127
Algodãozinho do campo Bixaceae Cochlospermum regium (Mart. Ex. Schrank.) Pilger Reprodutivo Dores, inflamação do útero e ovários Folhas/raiz Decocto / garrafada 6718
Algodoeiro Malvaceae Gossypium hyrsutum L. Tegumentar reprodutivo Acne, infecção de pele dores no útero e ovário Inflamações em geral Folhas Sumo 953
Amaro leite Convolvulaceae Operculina alata (Ham.) Urb. Circulatório Depurativo Batata / raiz Doce / Garrafada macerado/ polvilho 998
Angico branco Fabaceae Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan Respiratório Bronquite Caule Decocto 105
Angico do cerrado Fabaceae Anadenanthera peregrina var. falcata(Benth.) Altschul Respiratório Bronquite, problemas pulmonares, gripe Caule, resina Decocto, macerado na pinga / vinho, xarope 3210
Aroeira branca Anacardiaceae Lithrea molleoides (Vell.) Engl. Musculoesquelético Reumatismo caule Banho do decocto 1148
Arnica da serra Asteraceae Lychnophora ericoides Mart. Musculoesquelético Contusões Folhas Alcoolatura 106
Aroeira Anacardiaceae Myracrodruom urundeuva Allemão Digestivo respiratório Musculoesquelético Disenteria, úlceras no estômago Gripe ciático Gota reumatismo Caule Beber o decocto ou banho na parte afetada 3818
Assa peixe Asteraceae Vernonanthura ferruginea (Less.) H.Rob. Respiratório Bronquite asmática e simples, Expectorante, Gripe, Pneumonia, problemas pulmonares Folhas Infuso 1546
Arruda Rutaceae Ruta graveolens L. Reprodutivo tegumentar Cólicas menstruais, Menstruação difícil e dolorosa Inflamações dos olhos Todo o Ramo Banho do infuso 107
Babosa Asphodelaceae Aloe vera (L.) Burm. F Circulatório
Digestivo
Tegumentar
Hemorroidas
Má digestão Erisipelas, queimaduras Inflamações em geral
Queda de cabelo
Mucilagem Emplasto / pilula 108
Baru Fabaceae Dipteryx alata (Vogel) Taub. Musculoesquelético Coluna Caule Decocto 3882
Bálsamo Fabaceae Myroxylon peruiferum L. f. Imune respiratório
Sensorial
Inchaços gripe
Dores
Caule sementes Decocto 5844
Barbatimão Fabaceae Stryphnodendron polyphyllum Mart. Imune
Tegumentar
Reprodutivo
Infecções em geral
Cicatrizante Infecção uterina
Leucorréia Problemas vaginais
Folhas Cascas do caule Banho
Garrafada
Decocto:ducha vaginal
Banho de assento
5872
Boldo Lamiaceae Plectranthus barbatus Andrews Digestivo Desintoxica o fígado, má digestão Folhas Infuso, sumo 109
Buchinha Cucurbitaceae Luffa operculata (L.) Cogn Respiratório Sinusite Frutos Alcoolatura 110
Cigana Bignoniaceae Adenocalymma nodosum (Silva Manso) L.G.Lohmann Circulatório Depurativo Raiz Decocto 1513
Cajuzinho do campo Anacardiaceae Anacardium humile A.St - Hill Digestivo Gastrite Raiz Decocto / pó 7044
Caju Anacardiaceae Anacardium occidentale L. Digestivo Úlcera gástrica e nervosa Raiz 499
Cardo santo Papaveraceae Argemone mexicana L. Respiratório Pneumonia Sementes Decocto 117
Carambola Oxalidaceae Averrhoa carambola L. Urinário Problemas Renais Folhas Decocto 116
Canela Lauraceae Cinnamomum zeylanicum Breyn. Circulatório
Endócrino
Antianêmico colesterol alto
Antidiabete
Caule
folhas
Infuso 113
Copaíba Fabaceae Copaifera langsdorffii Desf. Endócrino
Tegumentar
Imune Reprodutivo
Antidiabete
Cicatrizante curar umbigo de recém nascido, próstata
Antibiótico alto valor medicinal.
Óleo
Resina
Caule
Gotas na água
Pingar no local
Pó na comida Decocto
4107
Cana de macaco Zingiberaceae Costus spiralis Roscoe Urinário Problemas renais Caule
folhas
flores
Decocto 1013
Capim cidreira Poaceae Cymbopogon citratus (DC) Stapf Nervoso Calmante Folhas Infuso 114
Capim pé de galinha Poaceae Cynodon dactylon (L.) Pers. Respiratório Pneumonia Raiz Decocto 4581
Chapéu de couro Alismataceae Ecchinodorus grandiflorus Mitch. Circulatório Depurativo Folhas Infuso 871
Cavalinha Equisetaceae Equisetum hiemale L. Circulatório
Musculoesquelético
Nervoso
Urinário
Antianêmico
Osteoporose
Ansiedade
Cálculos e infecção renais bexiga
Folhas
brotos
Decocto 119
Carajiru Bignoniaceae Fridericia chica (Bonpl.) L.G.Lohmann Imune Câncer Folhas Decocto 115
Cipó suma indet Indet Reprodutivo Próstata Caule Pó diluído na água 120
Carobinha Bignoniaceae Jacaranda decurrens Cham Circulatório Depurativo Raiz Decocto 1194
Cordão de frade Lamiaceae Leonotis nepetaefolia (L.) R.Br. Musculoesquelético reprodutivo Gota
Afrodisíaco
Todo o Ramo Raiz Infuso
Macerado na pinga
122
Camomila Asteraceae Matricaria chamomilla L. Digestivo
Nervoso
Má digestão, Insônia Problemas intestinais Flores, folhas Infuso 112
Cipó imbé Araceae Philodendron bipinnatifidum Schott. Musculoesquelético Coluna Fruto seco Emplasto 2018
Congonha de bugre Rubiaceae Rudgea viburnoides (Cham.) Benth. Urinário Problemas Renais Folhas Infuso 1448
Chuchu Cucurbitaceae Sechium edule (Jacq.) Sw. Nervoso Calmante Frutos maduros Polvilho 3858
Confrei Boraginaceae Symphytum oflicinale L. Tegumentar Cicatrizante
Contusões
Folhas Banho
Sumo em jejum
121
Caraiba Bignoniaceae Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth. & Hook.f. ex S. Moore Circulatório respiratório Depurativo
Gripe, tosse
Caule
raiz
Decocto
macerado na pinga
984
Catinga de mulata Asteraceae Tanacetum vulgare L. Cardiovascular Problemas no Coração Todo o Ramo Infuso 118
Capitão Combretaceae Terminalia argentea Mart. Respiratório Gripe Caule folhas Xarope 1620
Caferana Asteraceae Vernonia condensata Baker Digestivo, Imune Problemas no fígado vermífugo Folhas Macerada na água 111
Douradinha Rubiaceae Palicourea coreacea A.-St - Hill. Urinário Problemas Renais Folhas Decocto 1011
Erva cidreira Verbenaceae Lippia alba(Mill.)N.E.Br. Circulatório nervoso sensorial Pressão alta Calmante dor de Cabeça Folhas Infuso 986
Erva de bicho Polygonaceae Polygonum hydropiperoides Michx. Imune Infecções em geral Folhas Infuso 957
Erva de lagarto Salicaceae Casearia sylvestris Sw. Digestivo
Musculoesquelético
Tegumentar
Úlcera
gástrica Reumatismo
Úlceras dérmicas
Folhas Infuso 4862
Embaúba Urticaceae Cecropia pachystachia Trícul Endócrinourinário Antidiabete, problemas Renais Brotos seiva Decocto
In natura
2080
Erva de santa maria Amaranthaceae Chenopodium album L. Imune Tegumentar Musculoesquelético Vermífugo,lesão, ferimentos
Luxação, osso quebrado, contusões
Toda a planta Mascar, comer o pó, ferver no leite, Sumo, Banho do decocto 940
Espinafre Amaranthaceae Spinacea oleracea L. Circulatório Antianêmico Folhas Salada 123
Gabiroba peluda Myrtaceae Campomanesia pubescens (Mart. ex DC.) O.Berg Urinário Problemas Renais Folhas Infuso 1493
Gengibre Zingiberaceae Zingiber officinale Roscoe Respiratório Expectorante inflamação de garganta Raiz Gargarejo do infuso 1742
Guaraná da Amazonia Sapindaceae Paullinia cupana L. Reprodutivo Afrodisíaco Folhas Garrafada 124
Goiabeira Myrtaceae Psidium guajava L. Digestivo Afta, disenteria Brotos Infuso 582
Gervão Verbenaceae Stachytarpheta cayennensis (Rich.) Vahl Tegumentar Cicatrizante, contusões Folhas Sumo 4474
Hortelã baiano Lamiaceae Plectrantus amboinicus (Lour.) Spreng. Imune Respiratório FebreBronquite, falta de ar Folhas Infuso
Macerado
125
Hortelã miúdo Lamiaceae Mentha crispa L. Digestivo, imune Má digestão vermífugo Folhas Infuso 126
Imbiruçu Malvaceae Pseudobombax grandiflorum (Cav.) A.Robyns Nervoso Calmante Caule Decocto 4377
Ipê roxo Bignoniaceae Handroanthus impetiginosus (Mart. ex DC.) Mattos Imune
Tegumentar
Urinário
Anti-infeccioso
Infecções de feridas
Diurético
Caule Decocto
Banho
6960
Ipê branco Bignoniaceae Tabebuia roseoalba (Ridl.) Sandwith Tegumentar Infecções de feridas Caule Banho 127
Jaborandi Piperaceae Piper aduncum L. Respiratório
Tegumentar
Inflamação de garganta
Limpeza de pele
Folhas Infuso
Macerado
6716
Japecanga Smilacaceae Smilax poliantha Steud. Circulatório reprodutivo Depurativo
Gonorreia
Raiz Decocto 1999
Jarrinha Aristolochiaceae Aristolochia esperanzae Mart. & Zucc. Digestivo reprodutivo Má digestão
Próstata
Raiz
Caule
Decocto 6771
Jatobá da mata Fabaceae Hymenaea courbaril L. Reprodutivo respiratório Próstata
Bronquite
Caule Decocto
Macerado no vinho
4108
Jucá Fabaceae Caesalpinia ferrea Mart. Circulatório
Sensorial
Tegumentar
Hemorroidas
Inflamações dos olhos
Ferimentos
Raiz Decocto 128
Jurubeba Solanaceae Solanum paniculatum L. Digestivo, Endócrino , Imune Musculoesquelético Problemas no fígado
Antidiabete
Infecções em geral Reumatismo
Frutos Decocto macerado na pinga / vinho 2005
Laranjeira Rutaceae Citrus aurantium L. Imune, respiratório Febre / gripe, resfriado Folhas Infuso 327
Lima Rutaceae Citrus limmeta Risso Imune
Respiratório
Febre malina de criança
Gripe recolhida
Folhas Infuso 129
Lobeira Solanaceae Solanum lycocarpum St. Hill. Digestivo Má digestão Frutos seco Polvilho 7351
Macelinha Asteraceae Achyrocline albicans (Lam.) DC. Digestivo Disenteria Todo o Ramo Infuso 6670
Maleiteira Fabaceae Bowdichia virgilioides Kunth Endócrino Antidiabete Caule Decocto 6882
Mamacadela Moraceae Brosimum gaudichaudii Trícul Circulatório tegumentar Depurativo acne infecção de pele vitiligo Raiz Decocto
Garrafada
1670
Mamão Caricaceae Carica papaya L. Digestivo, Respiratório, Imune Cólicas infantis, disenteria
Bronquite vermífugo
Flores
Frutos
Mastigar sementes
Infuso 981
Manacá do cerrado Rutaceae Spiranthera odoratissima A.St.-Hil. Musculoesquelético Reumatismo Raiz Infuso 7369
Mandioca Euphorbiaceae Manihot esculenta L. Circulatório Antianêmico Folhas Pó na comida 980
Milho Poaceae Zea mays L. Urinário Cálculos renais Diurético infecções urinárias Estigma Infuso 118
Negramina Siparunaceae Siparuna guianensis Aubl. Tratamento espiritual Banho de descarrego Folhas Banho 1997
Nó de cachorro Malpighiaceae Heteropterys aphrodisiaca O. Mach. Reprodutivo Afrodisíaco Raiz Garrafada 130
Noni Rubiaceae Morinda citrifolia L. Todos Muito valor medicinal Frutos Suco 131
Olho de Boi Ebenaceae Diospyros hispida A.DC Tratamento espiritual Mau olhado Sementes Colocar atrás da porta de casa 501
Pé de perdiz Euphorbiaceae Croton antisyphiliticus (Mart.) Circulatório
Tegumentar reprodutivo
Depurativo
Úlceras no estômago erupções da pele DST/sífilis
Raiz Garrafada / decocto 1850
Pau terra folha larga Vochysiaceae Qualea grandiflora Mart. Digestivo
Respiratório
Problemas intestinais e no no fígado. Tosse Caule, folhas Decocto 1690
Pé de anta Bignoniaceae Cybistax anthisyphilitica (Mart.) Mart. Digestivo Problemas no fígado Caule Decocto 1020
Pimenta de macaco Annonaceae Xylopia aromatica (Lam.) Mart. Respiratório Inflamação de garganta Sementes Infuso 2598
Poejo Lamiaceae Mentha pulegium L. Imune
Respiratório
Febre de criança
Descongestionante nasal, Gripe
Todo o Ramo Infuso 977
Quina Loganiaceae Strychnos pseudoquina A.St - Hill Tegumentar Queda de cabelo Folhas Lavar o cabelo com o decocto 995
Quininha Malpighiaceae Galphimia australis Chodat Digestivo Má digestão Raiz Decocto 133
Romã Lythraceae Punica granatum L. Respiratório
Reprodutivo
Inflamação de garganta
Problemas no ovário
Frutos Gargarejo do decocto
Banho de assento garrafada
134
Sangra dágua Euphorbiaceae Croton urucurana Baill. Imune
Reprodutivo
Tegumentar
Infecções em geral
Infecção uterina
Cicatrizante
Erisipelas erupções da pele
Caule / leite Beber o decocto das cascas do caule ou o leite diluido na água e fazer banho no local afetado. 947
Sene Fabaceae Cassia angustifólia Vahl. Circulatório Depurativo Raiz Decocto 135
Salsa paredão Araceae Anthurium affine Schott Circulatório Depurativo Batata Infuso 6855
Sofre dos rins quem quer Annonaceae Duguetia furfuracea (A.St.-Hil.) Saff. Urinário Problemas Renais Raiz Decocto 568
Suma branca Indet Indet Circulatório Depurativo Raiz Infuso 136
Salsa Apiaceae Petroselinum crispum (Mill.) A.W.Hill Reprodutivo Cólicas menstruais Todo o Ramo Infuso 936
Sucupira Fabaceae Pterodon pubescens Vogel Digestivo
Reprodutivo
Respiratório
Má digestão
Infecção de mulher problema uterino
Inflamação de garganta
Caule / sementes Decocto, macerado no vinho, macerado na água 228
Sabugueiro Adoxaceae Sambucus australis Cham. & Schltdl. Imune
Respiratório
Febre e gripe de criança Flores Decocto 2611
Salsa nania Smilacaceae Smilax fluminensis Griseb. Circulatório tegumentar Depurativo infecção no couro cabeludo, lepra Batata Garrafada/infuso
Banho do decocto
4410
Salsaparrilha Smilacaceae Smilax poliantha Steud. Circulatório Depurativo Raiz Infuso 1999
Tanchagem Plantaginaceae Plantago major L. Digestivo
Tegumentar
Disenteria
Cicatrizante, contusões
Folhas Infuso 988
Tropeiro Connaraceae Connarus suberosus Planch. Cardiovascular Problemas no Coração Folhas Infuso 872
Tiborna Apocynaceae Himatanthus obovatus (Mar.) Plumel Respiratório Pneumonia Raiz Leite Infuso
Tomar gotas na água
931
Urtiguinha Euphorbiaceae Cnidoscolus albomaculatus I. M. Johnst Circulatório
Musculoesquelético reprodutivo
Depurativo
Coluna
Próstata
Raiz Infuso 1310
Velame branco Apocynaceae Mandevilla velame (A. St.-Hil.) Pichon Circulatório Depurativo Folhas / raiz Infuso 137

FIGURA 1 Grupos filogenéticos mais reportados pelos raizeiros de Jataí-GO. 

As famílias e gêneros que se destacaram em diversidade de espécies e referências de uso estão listados na Tabela 1. Entre as famílias salientam Euphorbiaceae, Fabaceae, Asteraceae e Lamiaceae com 26% das espécies e 30% das referências. Para a maioria dos gêneros foram referenciadas de uma a duas espécies; aqueles com referência de duas espécies foram Citrus, Croton, Mentha, Plectranthus, Smilax, Solanum e Tabebuia.

FIGURA 2 Espécies com maior Valor de Uso Relatado (VUR) entre os raizeiros de Jataí-GO. 

FIGURA 3 Representatividade dos Sistemas corporais considerando a frequência de espécies referenciadas pelos raizeiros de Jataí-GO. 

Outros trabalhos em Goiás e em regiões do Cerrado tem referido essas famílias e gêneros nas praticas de medicina tradicional (Guarim Neto & Morais, 2003; Villa – Verde et al., 2003; Souza, 2007; Silva & Proença 2008).

Considerando que o VUR é o total de usos reportados para cada planta (Gomez-Beloz, 2002), neste trabalho sobressaem as espécies da Figura 2, com destaque para Croton antisyphilliticus e C. urucurana; embora seja composta por plantas relativamente tóxicas, Euphorbiaceae apresenta espécies que o homem aprendeu domesticar e manejar em seu benefício, tanto na alimentação quanto na medicina, por ex. os diversos usos da mandioca (Manihot esculenta L.). Neste trabalho, a raiz do C. antisyphilliticus foi indicada para os males de sífilis e outras DST, erupções da pele, úlceras no estômago e depurativo. A casca do caule e o látex de C. urucurana foram indicados como cicatrizante, contra erisipelas, erupções da pele, infecção uterina e infecções em geral. Outros trabalhos evidenciam o valor destas espécies para os mesmos males (Barros, 1982; Cruz, 1995; Lorenzi & Matos, 2002; Villa-Verde et al. 2003; Morais et al. 2005; Souza, 2007; Silva & Proença, 2008). Especificamente para C. antisyphilliticus em revisão de plantas medicinais do Brasil, Ferner et al. (2006), reportam trabalhos citando seu uso que remontam ao século XIX, para a cura de feridas e úlceras.

As doenças que os raizeiros relataram permitiram elencar dez sistemas corporais (SC) e um espiritual (Figura 3), sendo que aqueles com mais referencias de plantas foram os respiratório (14,6%) circulatório (13%), tegumentar (10%) e digestivo (8,1%).

As etnoespécies úteis mais versáteis nos sistemas corporais foram pé de perdiz (Croton antisyphiliticus), alecrim (Rosmarinus officinalis), copaiba (Copaifera langsdorffii), cavalinha (Equisetum hiemale) e fruta de lobo (Solanum paniculatum). São referenciadas para vários tipos de doenças, como demonstrado na Tabela 2, apresentando ampla potencialidade medicinal no município estudado. Neste quesito, apenas alecrim e cavalinha não são nativas do Cerrado e, com exceção de cavalinha, todas pertencem a grupos filogenéticos derivados (Fabídeas, Lamídeas e Asterídeas), o que mostra um direcionamento da escolha de plantas medicinais nestes clados.

TABELA 3 Espécies mais versáteis em relação aos sistemas corporais. 

Espécie Sistema corporal Doença Parte usada Forma de uso
Copaifera langsdorffii Endócrino Antidiabete Óleo Gotas na água
Imune Alto valor medicinal Resina Pó na comida
Antibiótico Óleo Gotas na água
Reprodutivo Problemas na próstata Caule Decocto
Tegumentar Cicatrizante
Curar umbigo de recém Óleo Pingar no local
nascido
Croton antisyphiliticus Circulatório Depurativo
Digestivo Úlceras no estômago
Reprodutivo DST, Sífilis Raiz Decocto / garrafada
Tegumentar Erupções da pele
Equisetum hiemale Circulatório Antianêmico
Musculoesquelético Osteoporose
Nervoso Ansiedade Folhas,
Urinário Cálculos renais brotos Decocto
Infecção dos rins e bexiga
Inflamação de bexiga
Rosmarinus officinalis Cardiovascular Acalma o coração Infuso, macerado
Digestivo Digestivo
Nervoso Calmante Folhas
Respiratório Bronquite Fumaça
Urinário Diurético Infuso, macerado
Solanum paniculatum Digestivo Problemas no fígado Decocto
Endócrino Antidiabete Frutos
Imune Infecções em geral Macerado na pinga ou
Musculoesquelético Reumatismo vinho

A maioria das espécies referenciadas neste trabalho é nativa do Cerrado (64%), sendo que 70% daquelas com VUR maior que 10, e 60% das mais versáteis em sistemas corporais são nativas. Esse fato evidencia a amplitude de conhecimento dos raizeiros sobre o uso medicinal da flora nativa local.

A maioria das referências etnobotânicas reporta o uso de folhas e raiz (32,6% e 21,2%), sendo que chás – infusão ou decocção – foi a forma de preparo mais expressiva (60,4%). Parece haver um direcionamento do uso de folhas sob a forma de chás nas práticas da medicina tradicional com o uso de plantas, como observado em outros trabalhos (Monteles & Pinheiro, 2007; Souza, 2007).

Concluindo, a maioria das etnoespécies referenciadas pelos raizeiros de Jataí são plantas nativas do Cerrado pertencentes aos grupos mais derivados das angiospermas. Certamente, este representa o grupo maior de plantas, mas observa-se um direcionamento inconsciente na busca dos compostos químicos úteis nas práticas da medicina tradicional local. Esse fato é demonstrado pela ampla utilização de Equisetum hiemale, planta exótica pertencente a um grupo basal, porém com VUR maior que a maioria das angiospermas. Outro dado significativo do direcionamento inconsciente da busca de compostos químicos úteis nas práticas da medicina tradicional local é a forte utilização espécies das famílias Euphorbiaceae, Fabaceae, Asteraceae e Lamiaceae, amplamente reportadas em diversos trabalhos como portadoras de plantas medicinais. Os gêneros Croton, Chenopodium e Equisetum, no qual foram encontradas as etnoespécies com maior VUR, já fazem parte da listagem do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicas, liberada pelo Ministério da Saúde do Brasil, para estudos de validação de farmacologia clínica; as espécies Psidium guajava, Solanum paniculatum, Copaifera spp. Plectranthus barbatus, Casearia sylvestris e Arrabidaea chica também são referidos no Programa. São evidências de que as plantas referidas na medicina tradicional de Jataí apresentam eficácia e são candidatas à investigações científicas nas áreas ecológica, agronômica, farmacológica e prospecção química, que validem o seu uso em modelos biomédicos. Os autores sugerem trabalhos aprofundados que avaliem a pressão de uso, sofrida pelas espécies nativas, considerando a destruição acentuada dos habitats naturais no município estudado.

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Received: September 23, 2015; Accepted: April 12, 2016

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