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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.4 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982001000100002 

ARTIGOS

 

Lacan e a toxicomania: efeitos da ciência sobre o corpo

 

Lacan and drug addiction: effects of the science on the body

 

 

Jésus Santiago

Professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Psicanalíticos (UFMG). Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise.Avenida Contorno 5.351/809. 30310-100 Belo Horizonte MG. Tel (31) 3225-4655. santiago.bhe@terra.com.br

 

 


RESUMO

Ao retomar a interrogação sobre a relação existente entre os objetos da ciência e o gozo, Lacan propõe-se também a postular, nesse contexto, o fenômeno toxicomaníaco presente no uso metódico e ordenado dos diversos produtos que vão desde os tranqüilizantes até os alucinógenos. A materialização do efeito real da ciência sobre o corpo, no caso do uso destas substâncias tóxicas, torna-se objeto de uma hipótese que se inscreve no horizonte da chamada dimensão ética do gozo. Abordar a toxicomania sob o ponto de vista ético do gozo do corpo, leva, certamente, a concebê-la como um modo particular de satisfação, distinto da dependência biológica própria de toda concepção repreensiva do problema. Esse modo de satisfação que cativa certos sujeitos é considerado uma tentativa de enfrentar as perturbações do gozo do corpo e, diante do corpo inseparável do gozo, a toxicomania poderia ser vista como um mais-gozar particular, correlativo a uma mudança operada, pela ciência, no real.

Palavras-chave: toxicomania, ciência, corpo, gozo, psicanálise.


ABSTRACT

Returning to the question of the relationship between science objects and jouissance, Jacques Lacan's purpose, in this context, is to claim the drug addiction phenomenon which is present in the methodic and ordered use of several products from tranquilizers to hallucinogens. The real effect of science materializing over the body when under the use of these toxic substances, becomes the object of a hypothesis inserted in the horizon of the so called ethical dimension of jouissance. The drug addiction approach under the ethical dimension of the body jouissance is certainly conceived as an idea of private satisfaction which is different from the biological dependency peculiar to every reprehensive idea of the problem. This way of satisfaction that captivates some types of subjects is seen as an attempt to face the jouissance disturbances in the body, and when facing the inseparable body from jouissance, drug addiction could be seen as a particular plus jouissance, correlative to an operated change by the science, in the real.

Keywords: Keywords: drug addiction, science, body,'jouissance', psychoanalysis.


 

 

Para Lacan, é preciso distinguir a estrutura do saber científico do impacto dos efeitos desse saber no mundo e é este último aspecto que o levou a falar da atividade científica como uma forma de discurso. A ciência, certamente, está apta a reconhecer aquilo de que ela é capaz, mas não está preparada para entender o que ela engendra, isto é, o que ela quer, enquanto discurso, ou seja, como forma de saber que assume poderes no plano do laço social. Nos dias de hoje, a imprevisibilidade desses efeitos é patente sobre o homem que se sustenta das "mais efetivas realizações — e também das realidades mais atrativas" da ciência (LACAN, 1973, p. 6).1 O homem de ciência, se possui um controle efetivo do que faz, "não sabe o que, de fato, nos efeitos da ciência, interessa a todo mundo". Esse não-saber, Lacan denomina-o ponto de ignorância do cientista, ponto enraizado na fronteira entre os princípios de seu poder e de seu desejo (LACAN, 1960, p. 808).

É a dimensão ética do gozo que, constituindo a especificidade do desejo do analista, comparado ao desejo do cientista, pode explicar a discordância entre o trabalho da ciência e seu querer no mundo. Considere-se a atividade médica, que traduz muito bem as incidências da ciência no saber. Lacan observa como esse saber, cujos contornos mais efetivos se desenham no alvorecer da antigüidade grega, deu uma guinada significativa, ao longo dos tempos, em razão do surgimento da ciência. Na tradição antiga, a figura do médico confundia-se com a do sábio reconhecido, cujo saber não se restringia aos limites do que, mais tarde, seria a filosofia da natureza. O exercício da medicina era uma prática de prestígio e de autoridade, porque representava todo um campo do saber que envolvia distintas esferas do conhecimento erudito e não apenas um saber sobre o corpo (LACAN, 1966, p. 36).

 

REGISTRO PURIFICADO DO CORPO

Em contraste com essa manifestação inicial da medicina, esta se vê, hoje, inserida num modo de saber comprometido com os meios fornecidos por um domínio exterior ao que ela foi no passado, a saber, o discurso da ciência. Com a emergência da ciência, o médico perdeu sua posição tradicional e quase sagrada de outrora. A evocação da arqueologia de Michel Foucault, em relação à crise ética que sofreu o discurso médico ao longo do tempo, não está ausente da argumentação lacaniana. Para Foucault, um primeiro passo no sentido de ultrapassar essa posição tradicional esboça-se na "promoção, por Bichat, de um olhar que se fixa sobre o campo do corpo, no curto espaço de tempo em que ele subsiste rendido à morte, isto é, o cadáver"(LACAN, 1966, p. 37). Entretanto, me parece que de acordo com Lacan, o problema situa-se mais além da escolha da figura do olhar como última fonte epistêmica do nascimento da medicina anatomopatológica. Faz-se necessário examinarem-se, antes de tudo, as exigências determinadas pelo aparecimento de um homem que serve às condições de um mundo científico, que suscita novos poderes de investigação e de pesquisa. O médico deve enfrentá-los, se não quiser apagar sua presença no mundo em nome de sua aplicação ao trabalho da ciência. Enfim, a medicina moderna adquire uma configuração, ao mesmo tempo esboçada e subvertida, fora dela mesma, pela ciência. Por essa via, Lacan observa, com razão, que o saber médico avança, a partir do que ele chama de relação epistemo-somática, como o maior indício das incidências do progresso da ciência sobre a relação da medicina com o corpo (LACAN, 1966, p. 42).

Enfim, o que caracteriza, atualmente, a relação do saber médico com o corpo é a purificação de toda dimensão erudita, tradicional da ética. Considerando-se essa relação epistemo-somática, pode-se falar de um corpo no seu "registro purificado", relação de que toda consideração de natureza ética está radicalmente abolida. Conseqüentemente, esse domínio sobre o corpo o reduz a uma máquina composta de circuitos hormonais, neurônicos, imunológicos ou genéticos. Transformado em alvo da ciência, o corpo é "fotografado, radiografado, calibrado, diagramado e passível de ser condicionado"; daí em diante, ele não constitui senão um organismo. Enquanto tal, tem a possibilidade de coincidir com "aquilo que vem de longe, do exílio, a saber, do exílio para onde a dicotomia cartesiana do pensamento e da extensão proscreveu o corpo"(LACAN, 1966, p. 42).

 

UM CORPO É ALGO FEITO PARA GOZAR

Sabe-se que o tratamento da questão do corpo, na tradição antiga, é muito mais complexa do que geralmente se pensa. É caso, por exemplo, de não se aceitar a afirmação corriqueira de que, em Platão, há um estatuto negativo do corpo perante a alma. Quero dizer que a noção de corpo presente, por exemplo, nos estados de entusiasmo, não é tanto a origem do mal, mas o lugar de sua residência. O verdadeiro responsável em causa não é, pois, o corpo, mas o desejo, que constitui o meio para se ligar à sensibilidade. O cartesianismo, ao contrário, repousa num dualismo fundamental da alma e do corpo, postos como duas substâncias de fato distintas, heterogêneas e irredutíveis uma a outra. Contrariamente ao que ocorre na problemática do corpo em Platão, essa dicotomia aloja-se, no pensamento cartesiano, para sustentar que a substância viva do corpo é impensável. Com efeito, não há lugar, nesse pensamento, para a animação do corpo, a não ser sob a forma da extensão. A análise efetiva do dualismo entre o pensamento e a extensão revela de que maneira, para Descartes, o ser vivo escapa à linguagem. Sobre isso, deve-se lembrar o gesto de Bichat, repertoriado por Foucault como o ponto de partida decisivo da clínica anatomopatológica, uma vez que o corpo, nessa perspectiva, é considerado como já morto. Em resumo, a visão cartesiana do corpo, presente no saber médico, contribui para apagar o que se considera como a verdadeira natureza do corpo para a psicanálise. À luz desta, o corpo não pode ser simplesmente caracterizado pela extensão: "Um corpo é alguma coisa que é feita para gozar, gozar de si mesma"(LACAN, 1966, p. 42).A natureza do corpo vivo inscreve-se na aparelhagem própria ao órgão não-substancial, incorporal, da libido, que é o gozo. Portanto, se, para a medicina, o corpo se confunde com o organismo enquanto realidade primária, para a psicanálise, ele é sempre secundário, porque só existe pela in(corpo)ração da estrutura simbólica. Nesse sentido, considera-se que o sujeito não nasce com um corpo; ele o precede de modo incontestável.

 

USO METÓDICO E ORDENADO DOS TÓXICOS

É essa dimensão, abolida radicalmente da relação epistemo-somática, que autoriza a afirmação inédita de Lacan de que a toxicomania só pode receber uma definição "puramente policial" (LACAN, 1966, p. 43).A toxicomania, ele a concebe sob o ponto de vista ético do gozo do corpo, o único capaz de evitar o horizonte simplesmente repreensível do que ele chama de uso ordenado e metódico dos tóxicos. Desse modo, a prática metódica da droga é apreendida no plano dos efeitos imprevisíveis da ciência, sobretudo daqueles que trazem conseqüências para o corpo (LACAN, 1987, p. 29).2 O recurso do toxicômano às drogas é apenas um efeito, entre muitos, que a ciência produz no mundo. Essas incidências da ciência no corpo, como já se assinalou, não devem, de maneira alguma, ser consideradas simplesmente a partir da ordem da percepção, ainda que concebidas, como faz Foucault, por meio da figura discursiva do olhar. Lacan insiste no fato de que toda tentativa de organização do saber científico, segundo a gênese mítica da percepção adequada da realidade, falseia o eixo central do funcionamento desse saber. E afirma ainda que o impacto de tais efeitos sobre o corpo, ultrapassa, em muito, tudo o que se poderia especular sobre um efeito de conhecimento. O aspecto crucial do surgimento da ciência não é, em absoluto, o de haver introduzido, no mundo, um conhecimento mais aprofundado e mais extenso, mas o de haver feito surgirem, no real, coisas que não existiam, de forma alguma, no nível da percepção humana. Portanto a singularidade da interpretação lacaniana das incidências da ciência no corpo visa, especialmente, a isolar o elemento real desses efeitos. A problemática epistemológica, que pretende estabelecer as condições de obtenção de uma garantia não-ilusória do aparelho perceptivo, desvia-se do real que se decanta da operação da ciência.

 

O OPERCEBER E AS METAMORFOSES DO REAL

Esse ponto real só é pensável na perspectiva do avanço da ciência, ou seja, a presença, na estrutura interna desse saber, de um puro formalismo significante (LACAN, 1969-70, p. 147).3 Considerando o fundamento formal da ciência, Lacan valoriza o registro do operceber (LACAN, 1969-70, p. 153) — neologismo criado para traduzir a intrusão maciça da operatividade do formalismo significante no perceber — como a marca essencial das fabricações da ciência, situando-o em oposição ao campo perceptivo, que recobre o domínio do conhecimento. Essa conversão do saber ao registro do "perceber é sinal de que a ciência não tem mais nada a fazer com os pressupostos que, desde sempre, animam a idéia de conhecimento. Contrariamente à idéia corrente de que a ciência pode ser deduzida da percepção e permite conhecer melhor o que há no mundo, ela, de fato, faz aparecerem objetos dos quais não se tinha a menor idéia (LACAN, 1969-70, p. 150), acarretando transformações na própria estrutura do real.

A ciência não apenas torna possível o acesso ao real, mas também determina-o e transforma-o, povoando-o de certo número de objetos que antes não estavam ali, mas, também, sérios candidatos a se tornarem restos, resíduos, rebotalhos da civilização. Com muita pertinência são chamados de gadgets, designando-se, assim, com exatidão, a natureza de dejeto que impregna sua presença no mundo.4 Esses gadgets qualificam todas as espécies de instrumentos que, desde então, fazem parte da existência humana, sendo que o lado fortemente utilitarista desses objetos é o fator que viabiliza o enfoque conceitual da ciência como discurso, portanto, como um dispositivo de saber que produz laço social. O extraordinário dessa elaboração é a maneira como essas fabricações da ciência oferecem ao sujeito os meios de uma recuperação da satisfação pulsional. A característica mais singular dos gadgets é que o sujeito se liga a eles, até mesmo agarra-se e fixa-se neles.

O exame dos efeitos da ciência faz acentuar-se a reflexão sobre o nexo entre esses objetos e o gozo do corpo. Meu interesse volta-se, sobretudo, para a idéia de que estes só existem para oferecer ao sujeito uma certa satisfação pulsional. Os objetos da ciência existem para que o sujeito possa gozar deles — esse é o efeito real que escapa ao cientista. A ciência não se limita a fabricá-los, mas encontra, também, o meio de ligá-los ao sujeito, o meio de manter o desejo deste último aderido a tais objetos.

Nada mais ilustrativo do liame entre as criações da ciência e o gozo do corpo do que a invenção contemporânea das ondas. Lacan interroga-se, de início, sobre a sua extensão imperceptível na escala planetária e interplanetária e sobre as razões que levam as vozes humanas a se inserirem nelas. Ele comenta o exemplo dos astronautas, "que teriam, provavelmente, muito menos sucesso, se não estivessem, o tempo todo, acompanhados pelo pequeno (a) da voz humana" (LACAN, 1969-70, p. 153). Esse exemplo autoriza-o a introduzir o efeito real do gozo que o operceber do saber formalizado da ciência é incapaz de apreender. A prova disso é fornecida pelo caso dos astronautas, em que a presença da voz humana, na sua função de "sustentar-lhes o períneo", não pode, em absoluto, ser desvendada pela ciência (LACAN, 1969-70, p. 153). O mesmo acontece com o olhar "agora onipresente, sob a forma de aparelhos que vêem por nós, nos mesmos lugares, isto é, qualquer coisa que não é um olho, mas que isola o olhar como presente" (LACAN, 1966, p. 43).

 

UM MAIS-GOZAR PARTICULAR

Numa intervenção no Colégio de Medicina, intitulada "Psicanálise e medicina", Lacan pergunta se o gozo, presente nos prolongamentos da voz e do olhar, não parece, à primeira vista, pouco concreto. Tentando responder a essa interrogação sobre o material da relação existente entre os objetos da ciência e o gozo, ele apresenta o exemplo da droga, ou seja, dos "diversos produtos que vão desde os tranqüilizantes até os alucinógenos"(LACAN, 1966, p. 43).A materialização do efeito real da ciência sobre o corpo, no caso das substâncias tóxicas, torna-se, até mesmo, objeto de uma hipótese. Imagine-se, diz Lacan, que, um dia, se esteja sob o domínio de um produto que não seja definido por esses efeitos estupefacientes sobre o corpo. Suponha-se, ainda, que a ciência conseguisse localizar uma substância tóxica que agisse diretamente sobre o conhecimento, um produto que permitisse "recolher informações sobre o mundo exterior"(LACAN, 1966, p. 43). Tal hipótese é introduzida apenas para circunscrever o fator econômico, também designado como a dimensão ética do gozo, presente na relação do sujeito com a droga. Seu objetivo é mostrar que o ponto de vista do gozo recusa toda concepção do ato toxicomaníaco que se mantenha restrita ao aspecto da repreensão.

Na verdade, as drogas passam a existir para responder ao que as velhas escolas de pensamento nunca evitaram como uma das próprias leis de sua reflexão ética: a questão do gozo do corpo. Atualmente, a ciência fornece operadores químicos capazes de se constituir em reguladores da própria economia libidinal, cuja única finalidade é extrair satisfação no nível do corpo. Essa seria a técnica do corpo que poderia ser considerada como um mais-gozar especial, em razão do modo de captação dos excedentes do gozo gerado pelo uso da droga.

É preciso notar que essa técnica, destinada a proporcionar satisfação, age por meio da recuperação da parte de gozo primitivamente perdida. Se Freud teve a oportunidade de apreender a função da droga no corpo partindo de seu ponto de vista econômico, baseado nos conceitos derivados do campo da termodinâmica, Lacan, por sua vez, elegeu uma outra perspectiva. Evidentemente, ele não despreza a consideração freudiana do plano econômico. Na verdade, a conceitualização do gozo leva-o a acentuar ainda mais o ponto de vista econômico; apenas procura realizá-lo levando em conta a contribuição marxista da economia política. Esse ponto de vista prevalece, igualmente, para a função econômica da droga, função, desde então, explicada pelo conceito de mais-valia e tomada de empréstimo à teoria do valor preconizada no materialismo marxista. Em outras palavras, as configurações econômicas da termodinâmica, que se ofereciam a Freud para tratar as trocas libidinais do sujeito, têm, em Lacan, o estatuto do mais-gozar. Observa-se o uso da termodinâmica desde os escritos sobre a cocaína, mas também por sua interferência ao longo de toda a obra de Freud. Trata-se, para ele, de delimitar alguma coisa difícil de se nomear no sujeito e que não diz respeito apenas às suas relações com seu semelhante, mas, antes, à relação mais profunda com o que se chama, em geral, sua dimensão vital (FREUD, 1929, p. 93).5 Lacan lança mão da mais-valia marxista, justamente, para sublinhar a função de extração do gozo, função dificilmente apreensível na ótica da termodinâmica. Toda a complexidade da relação do gozo com o objeto a está subjacente a ela. O recurso à mais-valia intervém na tentativa de isolar uma outra função do objeto a, distinta daquela de causa do desejo. Essa dedução do mais-gozar com base na economia marxista não é perceptível, se não se levar em conta a função de mercado definida no Seminário, proferido no final da década de 1960, intitulado: De um Outro ao outro (LACAN, 1968). Segundo Lacan, Marx parte da função de mercado para acentuar que o trabalho é um dado do mercado. No âmbito do mercado capitalista, destaca-se a função da mais-valia, concebida como essa parte do valor engendrada pelo labor dos trabalhadores que, por sua vez, excede àquela que permite reconstituir o valor de sua própria força de trabalho. Esta maneira de ver, permite a Marx dividir em duas partes homogêneas o valor que o trabalho vivo acrescenta a uma mercadoria em vias de ser produzida, ou seja, o chamado capital variável equivale ao que é devolvido ao trabalhador sob a forma de salário e a mais-valia que é apropriada pelo capitalista na forma do lucro. Assim, se encontraria depurada a fonte mesma das relações sociais de produção capitalista, no interior das quais o lucro aparece como o valor produzido integralmente pelo labor dos trabalhadores enquanto que para os economistas clássicos, o lucro é percebido como uma renda irredutível ao fator valor-trabalho.

A novidade introduzida por Lacan, quando retoma a teoria do valor, é a afirmação de que todo discurso é capaz de articular uma certa configuração da renúncia e, principalmente, uma extração do gozo, em geral, que, nesse âmbito, faz aparecer o mais-gozar. Por conseguinte, há uma homologia efetiva entre esses dois registros — a mais-valia e o mais-gozar — e não apenas uma simples relação metafórica. O mais-gozar emerge devido ao discurso, porque é na renúncia ao gozo que se encontra um efeito de discurso. Pode-se dizer que o emprego particular da economia política pressupõe a idéia de um vasto mercado, onde a circulação e a distribuição do gozo acontecem graças à própria existência do discurso. Portanto, a delimitação entre o desejo e o gozo, entre o desejo e a pulsão, explicita-se, então, numa dupla articulação: de um lado, as primeiras elaborações do objeto a como causa do desejo, recobrindo a dialética do desejo em Freud; de outro, o objeto a como mais-gozar (RABINOVICH, 1989, p. 7-8). Em torno deste, fundamenta-se o essencial da teoria de Lacan sobre o objeto da pulsão, a saber, uma função inseparável da definição de gozo como satisfação da pulsão. No fundo, essa vertente do objeto a concerne à renúncia ao gozo, efetuada pela satisfação pulsional assim delimitada. O mais-gozar circunscreve essa renúncia sob a égide do efeito de um discurso. A renúncia ao gozo em si mesmo torna disponíveis diversas manifestações do mais-gozar no mercado da civilização.

Se a droga pode servir à satisfação, isso acontece porque esta última está aberta, por sua natureza mesma, a toda espécie de saída possível. A abordagem clínica propriamente lacaniana da droga sustenta-se no fato de que a pulsão pode se satisfazer com um objeto nocivo ao indivíduo. A questão clínica da droga expõe, justamente, o paradoxo da satisfação extraída de um objeto, de que a investigação científica limita-se a reiterar, de forma monótona e indefinida, a nocividade tóxica para o organismo. Esse paradoxo consiste, pois, em que o sujeito não procura, forçosamente, um objeto que lhe traga o bem (LACAN, 1959-60, p. 131).6 Essa indiferença quanto ao objeto coincide com a definição do gozo como satisfação da pulsão, que solicita, necessariamente, a presença do corpo, concebido como uma estrutura secundária, exatamente, porque, nele, está implicada a linguagem e não o organismo.

Com efeito, a adesão profunda do toxicômano à droga não pode se explicar senão pelo corpo submetido à ação do significante e inseparável do gozo. Abordar a toxicomania sob o ponto de vista ético do gozo do corpo, como sugere Lacan, em Psicanálise e medicina, leva, certamente, a concebê-la como um modo particular de satisfação, distinta da dependência biológica. Esse modo de satisfação que cativa certos sujeitos é considerado uma tentativa de enfrentar as perturbações do gozo do corpo. Diante do corpo inseparável do gozo, a toxicomania poderia ser vista como um mais-gozar particular, correlativo a uma mudança operada, pela ciência, no real.

 

BIBLIOGRAFIA

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RABINOVICH, D. Una clínica de la pulsión: las impulsiones, Buenos Aires, Manantial, 1989.         [ Links ]

 

 

Recebido em 10/3/2001. Aceito em 25/5/2001.

 

 

1 Não me parece fortuito que, nesse curto escrito de Jacques Lacan, a referência às criações da ciência preceda a evocação "das quatro substâncias episódicas" da causa do desejo, substâncias estas que suportam o próprio funcionamento da satisfação pulsional.
2 Convém lembrar que, no final da década de 1930, Lacan se havia referido ao que ele chama "envenenamento lento de certas toxicomanias pela boca". Sob a ótica de uma concepção de estágios do desenvolvimento psíquico em moda na época, encontra-se a primeira consideração lacaniana sobre a toxicomania. Quando da publicação do seu trabalho intitulado Os complexos familiares, ele demonstra uma verdadeira crença na evolução da libido por fases, em que a preocupação de uma construção cronológica do psiquismo compreende três tipos de complexos distintos: desmame, intrusão e Édipo. Deve-se considerar, entretanto, que a tendência genética de tal formulação não exibe o objetivismo psicológico da maioria das escolas analíticas da época. Ao contrário, para sustentar a hipótese desses três complexos, ele preferiu adotar o caminho de uma fenomenologia clínica. É, com efeito, essa orientação clínica que justifica o primeiro aparecimento da toxicomania no pensamento de Lacan, como exemplo do complexo do desmame. Os distúrbios toxicomaníacos e anoréxicos testemunham a resistência do sujeito às "novas exigências, que são as do progresso da personalidade". Com efeito, a recusa do sujeito em ultrapassar sua ligação com a imago materna torna-se um fator de morte. Essa tendência psíquica para a morte, que se exprime à saída do complexo de desmame, revela-se mais tarde, nas formas de "suicídios muito especiais que se caracterizam como não-violentos". Nesse ponto de sua elaboração, Lacan afirma: "A análise desses casos mostra que, no seu abandono à morte, o sujeito busca reencontrar a imagem da mãe."
3 Esse formalismo significante presente no nascimento da ciência, Lacan o situa no uso grego da matemática. É a manipulação do número como tal, nas primeiras demonstrações geométricas de Euclides, que exprime "a origem de um uso rigoroso do simbólico".
4 É curioso constatar-se que o sentido dado a esse anglicismo pelo Grand Robert — "…objeto engenhoso, divertido e sem utilidade…" — contém, ao mesmo tempo, a idéia de satisfação e de dejeto.
5 É surpreendente observar o quanto, em Mal-estar na civilização, as primeiras intuições sobre a função econômica da droga respondem a uma reflexão de caráter ético. A respeito disso, convém lembrar o uso que Freud faz da expressão técnica vital para designar a toxicomania.
6 O ponto básico da proposta do paradoxo ético é a definição do gozo como satisfação da pulsão. É no contexto desse paradoxo que Lacan demonstra o laço indissolúvel entre o gozo e o mal.

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