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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.4 no.2 Rio de Janeiro July/Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982001000200005 

ARTIGOS

 

A partir de "A terceira margem do rio": algumas considerações sobre transmissão em psicanálise*

 

 

Ana Vicentini de Azevedo

Psicanalista, professora da UnB, coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Psicanálise e Arte (Lappa-UnB). SQ Norte 206 bloco J ap. 206, 70844-100, Brasília DF. Tel. (61)272-4088; anavica@terra.com.br

 

 


RESUMO

Tendo como ponto central da argumentação o caráter não transitivo da transmissão em psicanálise, o trabalho compara a lógica do discurso literário, em particular o conto "A terceira margem do rio", de J. Guimarães Rosa, com algumas questões cruciais da experiência psicanalítica, visando pôr em cena, em termos de enunciação e de enunciado, uma experiência de transmissão.

Palavras-chave: transmissão, literatura, retórica.


ABSTRACT

From "The third bank of the river" — some considerations about transmission in psychoanalysis. Having the intransitive dimension of transmission in psychoanalysis at its core, this paper constructs a comparison between the logic of the literary discourse, in particular the short-story "From the third bank of the river", by J. Guimarães Rosa, and some crucial questions of the analytic experience, with the purpose of enacting, on the level of both the enunciation and the statement, an experience of transmission.

Keywords: transmission, literature, rhetoric.


 

 

potamoî toî autoî embaínomén te kaì ouk embaínomen, eîmen te kaì ouk eîmen

(No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos.)

HERÁCLITO (frag. 49)1

O pai, sempre taciturno, decide certo dia ir-se em uma canoa — projetada para conter apenas o remador — para o meio do rio, que naquele tempo ficava próximo à casa da família. A sentença irada da mãe, que regia, prenuncia um paradoxo estruturante: "você vai, você fica". Os três filhos, em silêncio, assistem à partida do pai, que abençoa apenas um deles, aquele que pede para ir junto com ele.

O tempo trans-corre com o rio, e o pai ali permanece, sem jamais aportar em nenhuma das margens. Do filho abençoado recebe parcos alimentos ao longo dos anos e das margens. Sua enigmática resolução inquieta a todos, que não tardam em apresentar profusas interpretações: é doidice, pagamento de promessa, doença contagiosa, ou até premonição da missão de Noé. A família, membro a membro, abandona o lugar, permanecendo tão somente o filho, "de resto".

Já velho, e sempre acompanhado por um não saber "a explicação" e uma "tanta culpa", o filho apela ao pai para que troquem de lugar. A resposta positiva deste enche o filho de pavor, e ele corre afugentado. A partir daí, do pai nunca mais se sabe o paradeiro, e ao filho, "falido", resta esperar pela morte para que, finalmente, possa ser posto em uma canoa, rio abaixo.

Em linhas gerais essa é uma das formas de contar a intricada fábula tecida por J. Guimarães Rosa em "A terceira margem do rio", conto publicado nas Primeiras estórias, em 1962.2 Se esta é uma das formas de contar essa história, há várias outras pelas quais esse conto pode ser lido — sob perspectivas de natureza temática, formal, estrutural, dentre outras. Mas é da retórica que retiro um grid de leitura que me parece frutífero para fazer confluir a literatura com a psicanálise e, a partir desta confluência, suscitar algumas questões sobre a transmissão em psicanálise. Vejo na figura da alegoria este grid privilegiado.

Muito freqüente na tradição bíblica e medieval, a alegoria é figura eloqüente não apenas em períodos e gêneros de composição literária, mas diz respeito também a uma forma de leitura. Ou seja, a leitura de um texto é feita sabendo-se que, além do sentido imediato, há um outro a que ele se refere, ou ainda, para além do sentido imediato, ou interno, há um outro, externo e, na maior parte das vezes, mais "profundo". Essa dicotomia entre interno e externo, entre superficial e profundo complica-se já à primeira vista. A imbricação da primeira vertente, i.e., da composição (poiesis), com a segunda, da exegese (aiesthesis), é óbvia, como também é senso comum o fato de um texto literário não se ater a um único referente. A polissemia é traço distintivo do literário, ou dito de forma mais precisa, a literatura põe em ato uma concepção de linguagem na qual vigora, em termos absolutos, a supremacia do significante e de seus deslizes e deslizamentos. Tal como Lacan vai mais tarde re-conceitualizar, a partir da lingüística.

A confluência da alegoria com a polissemia literária e com o significante lacaniano põe em relevo o jogo de presença e ausência que está no fulcro da linguagem e da simbolização. Podemos também apontar, a título hipotético, que, na noção e, especialmente na tradição de leitura alegórica, também podemos ouvir ecos do trabalho do sonho, calcado na relação entre conteúdo manifesto e conteúdo latente. Tais aproximações, contudo, são complexas e vacilantes e algumas delas serão lapidadas ao longo desta reflexão.

Fazendo soar os gregos, ouvimos deles que alegoria vem de állos, outro, e do verbo agoreúo, falar, discursar; o que nos permite re-traduzir esta figura de linguagem por "a fala do outro". Cabe ressaltar que o recurso à etimologia aqui é feito à la Lacan: sirvo-me dela na medida em que ela serve ao propósito da minha argumentação, qual seja, o de pensar com e a partir do conto de Guimarães Rosa algumas questões sobre transmissão. Uma reflexão que será feita, a partir de alegorias da relação entre literatura e psicanálise, em torno de três eixos, flexionados sob a ótica dos três registros lacanianos — o imaginário, o simbólico e o real — desdobrados, respectivamente, a seguir.

 

"POR ONDE FOR, QUERO SER SEU PAR"3

Aproximar literatura e psicanálise sob a égide da alegoria coloca, de imediato, a questão da tradução — do "discurso do outro", em que os alcances conceituais deste outro devem ser interrogados.

É freqüente, em incursões neste espaço interdisciplinar, o privilégio dado a uma relação especular entre os dois campos, na busca de encontrar correspondências entre imagens, temas e conceitos de cada um. Busca-se, assim, a constituição de um par perfeito, ideal e que, portanto, tem no imaginário um porto seguro. Matizando um pouco mais este duo, podemos ver a literatura, especialmente a partir de certos tópoi recorrentes em seu cânone, colocada, por alguns autores, como um eu ideal da psicanálise.

Dentro desta moldura especular, por exemplo, o conto de Guimarães Rosa pode ser visto na visada da função paterna e de algumas indagações sobre sua falência. O pai, esse terceiro que se aliena na terceira margem, apesar de levar a efeito um certo corte na potência desta mãe que "tudo regia", abdica, tal como Rei Lear, de seu patri-mônio, ou, etimologicamente, do que é da propriedade do pai, do que lhe é próprio. Mas, ao fazer colapsar o (sentido) próprio, colapsa também o (sentido) metafórico, ou seja, a metáfora paterna, na medida em que próprio e figurado, denotativo e figurativo são pares indissociáveis.

"Apesar de ao filho escolhido o pai 'um dia [ter ensinado] a fazer assim', ele deixa como legado ao primeiro o peso das 'bagagens da vida', um filho que jamais poderá ocupar o lugar do pai, e que o filho situa como um 'falimento'. Porém, mesmo nessa leitura temática e superficial, resta a indagação sobre os pólos da transmissão: é o pai que naufraga no exílio da canoa, ou o filho que afunda à e na margem, sem poder ouvir a fala deste outro? A lógica que preside a essa indagação também merece ser interrogada: trata-se, de fato, de um ou outro, ou deve-se pensar a transmissão à luz do que Maurice Blanchot, em seu ensaio 'Freud', diz a respeito do empreendimento de Lacan: "ele mostra que o essencial da análise é a relação com o outro, nas formas tornadas possíveis pelo desenvolvimento da linguagem.'" (BLANCHOT, 1999, p.111)4

Lanço essa ligeira mirada de maneira alegórica, na medida em que ela carreia consigo um problema que toca de perto a transmissão em psicanálise (para não mencionar também a da experiência literária). Refiro-me à hiperinflação da teoria analítica, e de alguns de seus conceitos, que são esvaziados de sua envergadura e especificidade ao serem intimados a depor sobre diversos discursos, notadamente o literário. Deitam-se personagens e autores no divã ou, como mais freqüentemente praticado nos últimos tempos, pérolas literárias e artísticas são servidas como meras ilustrações de questões da psicanálise.

Do ponto de vista desta, e de sua transmissão, sob o véu estetizante de belas (porque correspondentes) ilustrações, acabamos por congelar a possibilidade de constituição de uma dialogia (no sentido de Bakhtine, 1970) entre os dois campos, da qual poderiam advir novas questões à teoria e à escuta analítica e a seu avanço. Saímos então da alegoria, do discurso do outro, reduzimos este outro a um prolongamento de si e, assim, caímos na tautologia, no discurso do mesmo. Um afã identificatório que nos lembra Narciso ao deparar-se com sua imagem: "iste ego sum", nos diz Ovídio.5 Ou seja, uma metamorfose na qual tudo passa a ser idêntico e identificável a si mesmo. Na trilha do ensinamento de Freud e Lacan, somos alertados sobre o círculo vicioso que aprisiona esta morfologia. Ao invés da trans-formação necessária à transmissão, re-editamos Eco, a desoladora enamorada de Narciso, fadada a eternamente reproduzir a fala do amado — iste ego sum. Um trágico mutismo engendrado pela alienação.

 

"NÃO SEI SE É JOGO, OU SE POESIA"6

Essa "psicanálise aplicada", e uma dimensão imaginária que lhe acompanha, é na maior parte das vezes inescapável quando se encontram arte e psicanálise. Porém, podemos flexionar esse encontro à luz do discurso de Narciso e de Freud: ao enunciar que "este sou eu", Narciso desvela um eu já sempre cindido entre este (ou isso) e eu. Na e pela linguagem ele se divide; o sujeito que fala não é igual ao que é falado. Essa não-univocidade prenuncia o que mais tarde será sublinhado por Lacan em termos da não-equivalência entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação.

Na retórica, a presença desta quebra de unidade é posta em relevo pelas figuras de linguagem, em especial pela alegoria. Como herança do romantismo alemão, notadamente de Goethe, recebemos uma acepção de alegoria em oposição à de símbolo. Este para o poeta é superior àquela na medida em que condensa o universal no particular. Já a alegoria, na visão de Goethe, "desce" do universal para o particular, não sendo, portanto, mais do que um exemplo do universal (1996, p. 310). Ou seja, a alegoria é condenada por sua descontinuidade, enquanto o símbolo é exaltado por sua continuidade, como aponta Jonathan Culler (1983, p. 64), sob inspiração do importante resgate empreendido por Paul de Man da figura da alegoria.

A partir de The rhetoric of temporality, ensaio originalmente publicado em 1969, De Man, investiga a articulação da alegoria com a temporalidade, insistindo não apenas na demanda de comentário que aporta essa figura, mas nos diferentes níveis de significação que lhe perpassam. Assim sendo, a alegoria des-estabiliza a "unidade" do símbolo e sem cessar desloca posições (subjetivas) de leitura. Como diz De Man, "enquanto o símbolo postula a possibilidade de uma identidade ou identificação, a alegoria marca primeiramente uma distância em relação à sua própria origem e, ao renunciar à nostalgia e ao desejo de coincidência, ela constitui sua linguagem no vazio desta diferença temporal" (1986, p. 210). Desta forma, em oposição ao sým-bollon, ou ao que é posto junto, podemos dizer que a alegoria é diabólica (dia-bollé), na medida em que insiste na disjunção, no não-fusionamento, no fugidio e, sobretudo, na possibilidade da co-existência de diferenças e paradoxos.

Tais atributos vão pari passu com os fundamentos da psicanálise, como nos mostra Freud, especialmente em Para além do princípio do prazer (1920g/1974). Não é à toa que, ao tratar do "Problema da sublimação", justamente no seminário sobre A ética da psicanálise, Lacan nos faz atentar para o fato de que o "príncipe do mundo — Diabolous", é inextricável do simbólico (1986, p. 111). Ao invés da coalescência imaginária do símbolo, a alegoria nos aproxima do simbólico lacaniano. Ambos se fundam na presença-ausência, na superação das dicotomias paralisantes de ou...ou, convocando-nos sempre, tal como no jogo do fort-da, a um constante movimento, a uma trans-locação, ou a um trabalho de tradução. Como o trabalho do sonho, o trabalho de uma análise e o que esperamos de uma transmissão.

É a este tipo de trabalho que incita "A terceira margem do rio". Para além da prazerosa ilustração da função paterna, da harmoniosa e contínua relação entre literatura e psicanálise, defrontamo-nos, desde o título do conto, com o paradoxo: um rio e três margens. Diferentemente de leituras pós-modernas que privilegiam "a margem", Guimarães Rosa nos põe em movimento, solapando o conforto de uma ou outra margem, da margem e do centro, ou, ainda, de duas margens. "E o rio-rio-rio, o rio..." (p. 412) — para além de um clamor semântico-interpretativo, temos em ato o significante em seu constante deslizamento, na correnteza da linguagem.

De fato, a linguagem de Guimarães Rosa emerge, sob a lupa da alegoria diabólica, em sua natureza de travessia. Entre o registro erudito e o regional, entre a sintaxe rigorosa e a sincopada, a semântica oficial e o neologismo, Rosa trata a língua portuguesa tal como o pai de seu conto: "perto e longe de sua família dele" (p. 410). Um tratamento que se aproxima dos efeitos que Lacan identifica à alíngua: "ela articula coisas que vão muito além do que o ser falante suporta de saber enunciado (...) O inconsciente é um saber, um saber fazer [savoir-faire] com alíngua" (1972-1973/1975, p. 127). Na descontinuidade entre enunciação e enunciado, na inquietante estranheza do estranho e do familiar, há o ir-e-vir, que marca o próprio trabalho do inconsciente.

Esse jogo do fort-da, do perto e longe é levado a efeito, no conto, pelo filho-narrador, e podemos ver tal tarefa sob a perspectiva alegórico-temporal. Três tempos estão presentes na linguagem narrativa, tomada aqui enquanto "feita de alíngua" (Lacan, 1972-1973/1975, p.127): o personagem filho, passado, é retomado pelo filho-narrador, presente, que lança seu relato escrito a um leitor futuro. Esses tempos se entrelaçam: o futuro, por exemplo, está longe de ser um futuro simples e pode ser flexionado em um futuro do presente e um futuro do pretérito. O leitor futuro já está no narrador presente, na medida em que este é também um leitor do filho-personagem e que este antecipa o filho-narrador e o leitor. Na experiência do relato e na confluência de personagem, narrador e leitor, perto e longe, estranho e familiar se entrecruzam, perfazendo uma travessia das margens da linguagem, em um transporte que se faz de perdas em torno do mistério, do indizível, em uma tentativa de con-figurá-lo.

Dois pontos dignos de nota interessam de perto à reflexão sobre transmissão em psicanálise. O primeiro diz respeito à etimologia de figura: o radical fig liga-se ao verbo fingere, que aceita múltiplas traduções, dentre elas, moldar, conformar, inventar, fabricar, fingir, ordenar. Além disso, como nos lembra Quintiliano (1954, IX, 10-11), a figura diz respeito a um uso da língua distinto do familiar e do comum. Na tradição da retórica, e na de Freud e Lacan, esses dois procedimentos me parecem pontos demarcatórios do campo da transmissão. De acordo com a primeira, conforme dito acima, a figura estrutura-se e é estruturada em torno de um vazio, o que põe em relevo, a meu ver, sua acepção de "invenção". A tradição psicanalítica, por seu turno, nos ensina que esse vazio, ou a descontinuidade, é condição para que se dê a transmissão, para que haja invenção (con-figuração).

Mais do que uma conjugação da psicanálise com a literatura em torno de um eixo temático, temos, então, na breve leitura feita acima, uma aproximação estrutural da instância temporal da narrativa com a estrutura temporal do fantasiar que Freud identifica em "Escritores criativos e devaneio": "assim, passado, presente e futuro se entrelaçam, como se fosse pelo fio do desejo que lhes atravessa" (1908e/1974, p.148).

Por esse fio condutor, parece-me mais pertinente pensarmos em transmissão em psicanálise, ao invés de transmissão da psicanálise. Uma mudança de pre-posição que permite circunscrever a pergunta lançada por Lacan em A psicanálise e seu ensino": "como ensinar o que a psicanálise nos ensina?" (1957/1996, p. 439). Dito de outro modo, como estender a experiência de atravessamento que temos na clínica, seja enquanto analisandos ou analistas, às nossas atividades em extensão? O que tenho sugerido ao longo desta reflexão aponta para a necessidade de cruzamento com outras disciplinas — algo sobre o qual Freud e Lacan não somente insistiram, como puseram em prática ao longo de suas obras. Um cruzamento que, sobretudo, deve ir além de identificações (no duplo sentido) de afinidades temáticas ou de empréstimo de outras disciplinas para confirmação de questões da psicanálise.

Como a meditação a que nos convida o conto de Guimarães Rosa, a transmissão é algo que se funda na travessia de margens, de línguas, em torno de um não-sabido, de um vazio. O que nos leva a propor, então, como questão, o caráter intransitivo inerente à transmissão. Muito mais do que o re-passe de um aparato teórico-conceitual, a transmissão, no e do legado de Freud e Lacan, requer um permanente passe, uma experiência, na radicalidade da etimologia. Do latim experior, temos as noções de teste, de pôr à prova, de tentar, de arriscar, que nos dão um contorno mais preciso desta experiência constitutiva da psicanálise e de sua transmissão, uma experiência que deságua na "margem da palavra", como poeticamente qualifica Caetano Veloso essa dimensão do real, na canção que leva o mesmo nome do conto de Guimarães Rosa.

 

"AQUILO QUE NÃO HAVIA, ACONTECIA"7

Sob a ótica do tempo lógico de Lacan, a temporalidade narrativa de "a terceira margem do rio" nos coloca mais questões. A diegesis8 do conto inicia-se, no pretérito, com os preparativos de partida do pai, seguidos de suas conseqüências mais prementes — desolação da família, solidão do pai, reações atônitas dos vizinhos, os desvelos do filho. Uma atualização se impõe no conto a partir da dúvida do filho acerca do mistério do exílio paterno: "nem queria saber de nós; não tinha afeto?" (p. 411).

Esse momento graficamente marcado da dúvida assinala também uma passagem do nível diegético (narrativo) para o "mostrativo". Ao invés de narrar um evento pretérito, o conto atualiza a dúvida (ou a dúvida presentifica o conto).9 Entrecruzando esses tempos narrativos com o tempo lógico, podemos ver que é a dúvida que põe em cena o tempo para compreender, marcado, como tal, pelo não-compreender. E, como nos lembra Lacan, o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir são marcações do tempo lógico, o qual, tal como o tempo ficcional, é distinto do cronológico.

De maneira análoga, não se pode separar, de forma estanque e ordinal, os tempos de narração da partida do pai e da encenação da dúvida. Na costura dos tempos à qual fez alusão Freud na citação acima, como também à luz da alegoria, podemos ver a diegesis de "A terceira margem do rio" como uma posta em ato, com a agudeza presente e premente de um drama, das possibilidades e limites da leitura, da escuta, da interpretação. No horizonte narrativo deste conto, paira a inexpugnável presença do não-saber, do mistério acerca do pai, de seu desejo, com a qual se confronta o filho-narrador, que, por sua vez, nos confronta a nós, leitores, solapando, de maneira contundente, o que De Man chama de "autoridade epistemológica" (1979, p. 257).

A desconstrução desta instância é fulcral para a psicanálise (como também para a crítica literária, ainda que de maneira mais tímida do que na primeira), uma vez que a prática analítica, seja ela clínica ou teórica, distingue-se verticalmente do conhecimento cumulativo, da epistemologia, em proveito do saber, ou melhor, de saber sobre o não-saber, ou seja, um vislumbre do impossível. Como nos diz Blanchot, "a situação analítica, tal qual Freud a descobriu, é uma situação extraordinária", na qual aquele que não deve parar de falar, gradativamente começa a falar "a partir da impossibilidade de falar, impossibilidade que já está sempre no interior das palavras..." (1999, p. 109).

O conto de Rosa nos defronta com essa impossibilidade e empreende uma semelhante desconstrução ao pôr em ato o que poderíamos chamar de uma cena de leitura. Nesse sentido, podemos lê-lo enquanto uma "alegoria da leitura", que, conforme De Man, diz respeito a "narrativas que contam a estória do fracasso da leitura" (1979, p. 205). Fracasso esse que se coaduna ao "falimento" que o filho se atribui ao final da narrativa: "sei que ninguém mais soube dele [pai]. Sou homem depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado" (p. 412), um "calamento" que dá notícia do momento de concluir.

O silêncio sentenciado remete a um outro tipo de falimento, com o qual freqüentemente nos confrontam a experiência literária e a analítica. Uma observação de De Man sobre a primeira sinaliza nessa direção: "a literatura não pode ser recebida meramente como uma unidade definida de sentido referencial [transferencial, acrescento], o qual pode ser decodificado sem deixar um resíduo" (1979, p. 4). Em questão, aqui, parece-me estar o próprio falimento da palavra em tudo dizer, face ao real da língua, face à impossibilidade do que não cessa de não se escrever. "As palavras falham" (verba ...desunt), já nos lembrava Ovídio.10 Portanto, ao "somos e não somos" da epígrafe de Heráclito, ao "ser ou não ser" de Shakespeare, Lacan nos dá o enquadre necessário, ao pontuar que "esse ser ou não ser é uma história completamente verbal... Nesse momento se perfila toda a dimensão da linguagem" (1954-1955/1978, p. 272). Dimensão essa que, tal como a alegoria de leitura que segui aqui do texto de Guimarães Rosa, se con-figura na tríade Imaginário-Simbólico-Real, sobre a qual também deve ter assento a experiência da transmissão.

 

"NÃO ESPERO NADA DAS PESSOAS E ALGO DO FUNCIONAMENTO"11

A falha real nos remete também a um outro e último tipo de falimento, que trago com o intuito de pôr um ponto e vírgula (e não um ponto conclusivo) a uma questão que não se esgota e que pretendo retomar em outro momento. Tenho em mente a dimensão institucional presente na transmissão e tomo como ponto de partida as dissensões que Freud traz em "A história do movimento psicanalítico". Ao longo deste ensaio, vemos ser analisada uma série de "falimentos" na história do (ainda jovem) movimento psicanalítico. Ao reconhecer essas falhas, Freud nos diz: "qualquer pessoa que tenha acompanhado o crescimento de outros movimentos científicos saberá que os mesmos levantes e dissensões comumente acontecem também neles. Pode ser que eles estejam mais cuidadosamente escondidos. Mas a psicanálise, por repudiar tantas idéias convencionais, é mais honesta no que se refere também a esses assuntos" (1914d/1974, p. 49).

Deixo, como um caminho a ser explorado e indagado, a possibilidade de desdobrarmos essa honestidade que Freud detecta na psicanálise, vis-à-vis seus falimentos institucionais, em termos de duas noções que nos propõe Lacan: a de grande Outro (A) e a de objeto a. Da polifonia do primeiro (A), ressalto sua dimensão enquanto marca de um lugar, do locus dos significantes e de, supostamente, um ser de saber (LACAN, 1972-1973/1975, p. 89-90). Para alguns, a instituição funciona como uma recomposição deste Outro, que se dilui ao final da análise: "esse Outro sob medida para os analisados, para os analistas enquanto analisados, ...é o que chamamos de Escola. É o papel, é a verdade clínica da Escola — e a primeira razão para ser uma Escola, devo dizer, deve ser uma razão clínica" (MILLER, 1995, p.34).

Afasto-me de Miller no que diz respeito à instituição Escola enquanto o Outro feito sob medida, mas retenho desse comentário a necessidade de vincular a instituição à prática clínica, ou seja, a relação entre psicanálise em intensão e psicanálise em extensão. Desdobro esse vínculo em termos do discurso do analista, como articulado por Lacan na teoria dos quatro discursos (). Para os propósitos desta argumentação, detenho-me brevemente sobre o estatuto do objeto a nesse discurso. De suas múltiplas reverberações conceituais, merece atenção, em primeiro lugar, sua natureza algébrica, ou seja, o fato de que o objeto a não corresponde a nenhum objeto em particular, mas funda-se na possibilidade de marcar o lugar, "a presença de um cavo, de um vazio, ocupável, nos diz Freud, por não importa que objeto, e cuja instância só conhecemos na forma de objeto perdido, a minúsculo" (LACAN, 1964/1979, p. 170). É por essa possibilidade dialética de presença e ausência que o objeto a se torna importante na teorização lacaniana sobre o lugar do analista, importância essa que Lacan torna ainda mais explícita, no Compte rendue do Seminário "O ato psicanalítico" (1967-1968, inédito), quando aponta que o analista se faz do objeto a, ou seja, se faz produzir por e com esse objeto (LACAN, 1969/2001, p. 379). E, mais adiante, no Seminário Mais, ainda, nos alerta que o analista não é suporte do semblante, "nem sequer é semblante. Somos o que, ocasionalmente, pode ocupar seu lugar e aí fazer reinar, o quê? — o objeto a" (1972-1973/1975, p. 88).

Porém, ao vincular a instituição ao discurso do analista, destacando daí o a no lugar de agente, parece-me também necessário atentar para outros matizes de a, em particular em termos da impossibilidade do real, da contingência do simbólico e do necessário que marca o imaginário (LACAN, 1972-1973/1975, p. 86-88). Sabemos que esses registros amarram-se borromeanamente e que no centro deles está o a (cf. LACAN, 1974). Assim sendo, ele flexiona-se conforme o registro: a em R, a em S, a em I.

As múltiplas vertentes de a anteriormente indicadas e, sobretudo, esta inflexão, nos permitem formular uma hipótese permissiva (a expressão é de Lacan) no que diz respeito ao funcionamento da instituição analítica. Se para muitos ela funciona sob a égide do necessário (a no I), esse funcionamento deve estar advertido sobre sua natureza contingencial (a no S) e, sobretudo, sobre sua impossibilidade (a no R), sobre a impossibilidade de representação.

Nesse jogo de malabares das letras, em que a última incidência tem o peso de vaticínio,12 é importante, tal como nos ensina o conto de Rosa, que esse falimento possa ser objeto de um trabalho de elaboração, de uma re-configuração, que esse vaivém entre as margens da língua (e margeando o real) seja sustentado, de modo a que algo possa surgir disso. "Sou obrigado a inventar, já que perdi o barco da Escola", nos diz Lacan no Seminário "Dissolução" (sessão de 15/01/80), ao partir em outro barco para a terceira margem.

Do jogo de malabares à poesia: T.S. Eliot nos adverte acerca do maior patrimônio literário inglês: "se não podemos jamais ter certeza de estarmos certos sobre Shakespeare, pelo menos devemos mudar nossa maneira de estarmos equivocados". Enquanto artesão do significante, Eliot sabe que este está sempre fadado ao equívoco e, como a psicanálise nos ensina, é esse fatum que abre passagem para o inconsciente. Manter esse passo e sustentar esse passe parece-me ser o diapasão mestre de uma instituição, especialmente no que diz respeito à transmissão. É sob esta ética que vejo a honestidade de Freud.

 

DE RESTO

Tendo como ponto estrutural o caráter não transitivo da transmissão em psicanálise, busquei nesse trabalho aproximar e com-parar a lógica do discurso literário, em particular da "A terceira margem do rio", com algumas questões fulcrais à experiência analítica. Tal comparação teve por objetivo pôr em cena — ao nível de enunciação e não apenas de enunciado — uma experiência de transmissão. Feitas várias travessias por Rosa, Freud e Lacan, resta aqui pontuar algumas delas.

Primeiramente, vejo emergir a figura do pai, ou o pai como figura, no cerne da questão da transmissão, conforme nos mostram o conto e a obra de Freud e Lacan. Se transmissão e função paterna são inextricáveis, há que se ir além das identificações imaginárias que em geral funcionam como mola mestra de experiências de transmissão. Isso foi o que busquei fazer ao resistir à (cômoda) confluência entre noções do texto de Rosa com princípios da teoria psicanalítica. Para além dessa dimensão imaginária, pus em relevo a lógica do significante, que funda o simbólico, em um movimento em torno dos limites da fala e da interpretação, ou seja, em torno do impossível que marca o campo do real.

Feito o entrelaçamento de imaginário, simbólico e real na travessia de "A terceira margem do rio", e da experiência de transmissão que ela oferece, indico, de maneira ligeira e como objeto de futuras elaborações, a necessidade de essa lógica ser constitutiva do funcionamento da instituição psicanalítica. A referência a esta última tornou-se importante não somente por ser ela uma instância privilegiada da e na transmissão, como, especialmente, pelas novas formas de mal-estar na cultura que têm desafiado a nós analistas na sustentação do movimento do barco, para que o legado de Freud e Lacan não padeça do funesto destino de um "resto" de nossos falimentos.

 

BIBLIOGRAFIA

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Recebido em 28/8/2001. Aprovado em 8/11/2001.

 

 

* Versões preliminares deste trabalho foram apresentadas no Encontro sobre Transmissão da Psicanálise, São Paulo, 26 e 27 de agosto de 2000 e em Après-Coup Psychoanalytic Association, Nova York, outubro de 2000.
1 A tradução é de Emmanuel Carneiro Leão.
2 Todas as referências a esse texto são retiradas de João Guimarães Rosa: ficção completa., v. II. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994.
3 "Andança", canção de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós.
4 Esse texto de Blanchot foi primeiramente publicado em 1956, na Nouvelle Revue Française. Em 1969, ele é republicado em L'Entretien infini, com algumas modificações e acréscimos. As duas versões estão presentes no número 4 da revista Essaim, fonte de todas as referências a esse texto.
5 Metamorphoses III- 463.
6 Carlos Drummond de Andrade, "Elegia".
7 "A terceira margem do rio", p. 409.
8 Categoria da teoria da narrativa, a diegesis refere-se ao contar, em oposição ao mostrar, ao representar (mimesis), ao pôr em ato. Em termos bastante genéricos, a diegesis marca o gênero narrativo e a mimesis o drama.
9 Note-se que essa divisão temporal das modalidades narrativas é de ordem analítica, dado que o conto se faz todo no pretérito, exceto pelas quatro últimas linhas.
10 Op. cit., III-231.
11 Lacan, Seminário livro 27, "Dissolução", sessão de 15/1/1980; inédito.
12 Vale lembrar, com Lacan, que o a "só se resolve, no final das contas, no seu fracasso, em não poder se sustentar na abordagem do real" (LACAN, 1972-1973/1975, p. 122).

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