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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versão impressa ISSN 1516-1498versão On-line ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) v.5 n.1 Rio de Janeiro jan./jun. 2002

https://doi.org/10.1590/S1516-14982002000100002 

ARTIGOS

 

A individualização no trabalho automatizado*

 

The individualization in automated work

 

 

Maria Bernadete de Carvalho

Professora adjunta do Departamento de Medicina Preventiva e Social, da Faculdade de Medicina da UFMG. Mestre em Sociologia pela Fafich, UFMG, e doutora em Psicanálise pela Universidade de Paris VIII. E-mail: riviere@dedadus.lcc.ufmg.br

 

 


RESUMO

Procura-se situar a divisão do sujeito, resultante das condições técnicas da produção industrial contemporânea. Por um lado, investigam-se os traços distintivos das montagens técnicas modernas, para apreender sua suposição de sujeito. Por outro, abordam-se as manifestações entrópicas do funcionamento técnico que atingem os trabalhadores como soluções encontradas no movimento de individualização. O texto procura demostrar que as condições técnicas modernas vêm exigindo dos sujeitos a marca no corpo como recurso ativo de individualização.

Palavras-chave: Sujeito da técnica, indivíduo e sujeito, trabalho e saúde.


ABSTRACT

This article aims to place the division of the subject who emerged from the technical conditions of the contemporary industrial production. On the one hand, it investigates the distinctive features of the modern technical assemblies in order to apprehend its supposition of the subject. On the other hand, it approaches the entropy manifestations of technical working which reaches the workers as solutions found in the movement of individualization. It demonstrates that the modern technical conditions are demanding from the subjects the mark in the body as an active resource of individualization.

Keywords: Subject of the technique, individual and subject, work and health.


 

 

De que forma nosso mundo técnico, com seus artifícios (os objetos e sistemas técnicos), incide sobre nós e transforma nossa posição no mundo? Nossas técnicas produzem um novo homem? Como isso aconteceria? Que homem é esse? Em atenção a essas questões urgentes, gostaríamos de propor alguns resultados de pesquisa.

Sustentaremos aqui que a atividade através das nossas técnicas da era da ciência e a maneira como somos a elas agregados, ou seja, segundo as regras capitalistas de produção, engendram efeitos identificáveis nas pessoas e inéditos em sua forma. Mais que isso, nossa pesquisa indica que uma mutação encontra-se em curso, vinculada a certas características de nossas técnicas, e que ela concerne ao modo pelo qual as pessoas se individualizam. Encontramo-nos, assim, diante de uma verdadeira revolução antropológica: uma mutação na lógica das relações pelas quais um número crescente de pessoas encontra uma solução para a atividade básica do ser social que é de constituir-se face aos outros, pela mediação da linguagem.

Além disso, admitindo que o indivíduo só se constitui numa relação, estamos ao mesmo tempo afirmando que essa nova forma de individualização é correlativa de um novo tipo de sociabilidade ou laço social.

Como estratégia de investigação, centramos nosso interesse sobre as condições contemporâneas da produção automatizada, com o objetivo de constituir o campo da interseção entre sujeito e atividade técnica e explicitar os mecanismos pelos quais ela induz um sujeito e ele dela se separa. Procuramos apreender o tipo de individualização que se tece hoje através do engajamento dos sujeitos em suas atividades, organizadas por nossas técnicas, sejam elas máquinas ou outros instrumentos, como os de gestão do trabalho.1

Para entender a individualização favorecida pelas atividades técnicas, trabalharemos com os conceitos de sujeito e indivíduo, tais como propostos por J. Lacan, que nos permitem situar a dimensão cultural da constituição do indivíduo, mas sem esquecer de marcar o suporte libidinal dessa operação. O processo de individualização implica para Lacan em uma incorporação particular da linguagem que, por sua vez, é social e histórica. Para ele, tal como para Freud, o coletivo está no indivíduo (ou no "eu"), que é inseparável da trama das relações sociais nas quais se formou (LACAN, 1966, p. 213). Mas Lacan assinala igualmente que a linguagem só viabiliza o estabelecimento de uma comunidade humana quando seu arranjo histórico possibilita a cada um a localização de um resto de gozo.

A forma pela qual a linguagem, sempre já organizada como um saber, incide sobre as individualidades empíricas, circunscreve um retorno do gozo. É isso que Lacan frisa, dizendo em seu Seminário XVII, O avesso da psicanálise, que o saber é meio de gozo (LACAN, 1991, p. 54-57).2 Esse gozo recuperado pelas vias do significante é um resto de gozo, nomeado por Lacan como "mais-de-gozar" ("plus-de-jouir"), em referência ao conceito de "mais-valia" proposto por Marx para designar o excedente produzido no sistema capitalista e que, no entanto, é aquilo mesmo que o motiva ou o causa e que o renova a cada ciclo (Idem, p. 13). Nessa definição do objeto (a), Lacan situa o gozo como um excedente do trabalho significante no sujeito, cujas emergências, no sintoma ou no sem-sentido, evidenciam sua divisão.

A ambigüidade da expressão proposta por Lacan ("plus-de-jouir") é a mesma do conceito, que comporta ao mesmo tempo um sentido negativo, dado pela perda radical de gozo devido à entrada na linguagem, e um sentido positivo, enquanto única dimensão pela qual o gozo é recuperado e pode ser detectado no ser falante. Esse gozo se anuncia na repetição de uma perda que tem o mesmo estatuto da entropia, ou seja, trata-se de um resultado não desejado do trabalho do saber que se revela sob a forma do desperdício ou, como Lacan dirá mais tarde, no Seminário XX, sob a forma do que não serve para nada. Os momentos de recuperação de gozo são o campo do êxtase mas também do mal-estar. Ambos os fenômenos se situam "para além do princípio do prazer", tal como Freud os apreendeu.

A individualização assim compreendida comporta sempre uma solução para o gozo através da linguagem, viabilizando o laço social. O sujeito, diz Lacan, se aparelha na linguagem enquanto a organização desta pode ser condutora de um retorno localizado de gozo.

Utilizaremos esta teoria para analisar a incidência das técnicas modernas (concebidas como organizações de linguagem) sobre os sujeitos, com o objetivo de apreender a dinâmica pela qual essa interseção lhes possibilita a recuperação localizada de um resto de gozo. Bastante concretamente, reconhecemos esse gozo nas formas do mal-estar aí encontradas, gozo sempre colado ao que vem interromper o funcionamento para um sujeito e manifestando-se cada vez mais em nosso mundo através de fenômenos como as doenças psicossomáticas, as ditas síndromes pós-traumáticas, as depressões, o alcoolismo, outras toxicomanias, etc.

É certo que essas manifestações do mal-estar não são, em definitivo, exclusivas das pessoas trabalhando com as máquinas da nossa era industrial, mas elas são muito freqüentes entre essas pessoas, tanto quanto é freqüente a presença de objetos técnicos no cotidiano de nossas sociedades industrializadas.

Embora essas formas de adoecimento não sejam uma novidade, sua ocorrência3 nos interessa aqui pelas características de que se revestem, e, em função das quais, nos permitimos agrupar fenômenos tão diversos como as doenças psicossomáticas, as toxicomanias e ainda outros, sem dúvida. Dentre essas características destacamos, desde já, um certo uso do corpo, no qual se produzem figuras da ordem da a-natomia, como as paralisias e dores na histeria, mas que, no entanto, revelam, em sua opacidade às tentativas de significação, tratarem-se de fenômenos de uma outra ordem. Sob um outro ângulo, conforme acentua DRUMMOND (2001, p. 41), essas formas do mal-estar também marcam sua contemporaneidade por viabilizarem um laço social de novo tipo, que se inscreve em instituições constituídas em torno de um sintoma, tais como os AA, as associações dos portadores de LER ou Dort, e tantas outras, todas elas, ao que parece, seguindo o mesmo modelo.

Partimos da proposição de que certas características centrais nas condições técnicas de nossas atividades vêm exigindo dos sujeitos o recurso ao corpo como meio ativo de individualização. Tentaremos apreender esse processo examinando as relações que os sujeitos mantêm hoje com o saber, isto é, a forma como lhes é dado incorporar o saber e o tipo de uso que fazem dele nos processos de individualização. Como nos sugere Lacan, o modo como o saber incide sobre os sujeitos indica o retorno do gozo que eles obterão, à condição que o sujeito faça esse saber trabalhar em nome de uma verdade.

Essas afirmações gerais requerem demonstração e detalhamento das vias que as permitiram. Tentaremos fazê-lo situando, por um lado, o sujeito suposto pelas condições técnicas e, por outro, analisando aquilo que nesse sujeito escapa e excede ao cálculo técnico, mas que não deixa de ser efeito do funcionamento desse saber, e que aparece sob a forma do descontrole, do acidente, da doença, etc.

Comecemos assim pelo sujeito suposto pelas técnicas, cuja investigação implica o exame das características destas, em sua especificidade histórica.

 

O SUJEITO SUPOSTO PELAS TÉCNICAS MODERNAS

A presente incursão no campo das técnicas se pauta pelo interesse em apreender a forma pela qual elas podem estar condicionando as relações que nos constituem e que nos especificam na história. Trata-se de localizar exatamente as características das técnicas modernas que são eficientes na produção das relações que estabelecemos e que nos constituem. Procuraremos entender como esses arranjos, que são os objetos técnicos e os sistemas técnicos dos quais eles participam, incidem sobre nós e nos transformam, não só pelo que podemos fazer, mas igualmente pela forma como nos é dado fazer, através desses mesmos objetos técnicos.

Sabemos que a tecnicidade é um dos caracteres distintivos do humano, da mesma forma que a existência da linguagem, e que ambas — tecnicidade e linguagem — compõem o que chamamos de capacidade simbólica. O surgimento dos instrumentos, afirmam alguns paleontólogos, marca, tal como a existência da linguagem, a fronteira particular da humanidade. Eles são a prova de que a evolução da espécie tomou um sentido extra-orgânico, cuidando da preservação de sua memória através da organização da matéria (LEROI-GOURHAN, 1964). De fato, os instrumentos são organizações da matéria capazes de instruir nossas ações, como o próprio termo sugere. Eles são memória exteriorizada que, a partir do momento em que se encontra organizada na matéria, pode conduzir ou conformar as relações do homem com seu meio orgânico e inorgânico.

Os instrumentos podem ser compreendidos como um saber organizado que traz em si mesmo uma suposição do operador, que o instrumento renova a cada vez que ele é utilizado. Neste sentido, os instrumentos inventam o homem, tal como um dia foram inventados por ele.4

Se os instrumentos podem, de um modo geral, ser assim qualificados, como caracterizar a novidade dessa forma de organização da matéria que constitui o sistema técnico moderno?

A idéia de que as técnicas modernas compõem um sistema particular na história das técnicas se confirma através de toda uma série de características da dinâmica interna desse sistema, tais como o ritmo acelerado das inovações, a rapidez de evolução e obsolescência dos objetos técnicos e a capacidade do conjunto de se reequilibrar quando se trata de incorporar as novidades. Este sistema se especifica igualmente pelo modo de funcionamento de seus componentes, que respondem de forma programada e automática ao acionamento, e que tendem a substituir os homens na manipulação direta dos utensílios e da matéria.

Para caracterizar a técnica moderna como sistema particular na história é igualmente relevante a investigação das relações que esse domínio mantém com outros domínios, como o do saber, o da economia e da política. Mas, deixando essa discussão para outra ocasião, o que, para os nossos objetivos, se mostrou central nessa exploração foi poder situar no domínio das técnicas uma ruptura que, tal como na ciência, marca o predomínio do simbólico sobre o imaginário na concepção de seus artifícios.

Enquanto os objetos técnicos existentes no século XVI e XVII eram, com raras exceções, objetos que se caracterizavam pela aderência de sua concepção às formas da natureza sensível e do corpo que trabalha (SIMON, 1982-3), a partir do século XVII, concomitantemente ao surgimento da ciência moderna, constroem-se as condições para que os objetos técnicos encarnem a atividade simbólica do homem, que se destaca, neles, da atividade dos sujeitos. Trata-se do momento da exteriorização da própria capacidade simbólica em objetos que tendem a se purificar ao máximo dos traços imaginários que até então haviam prevalecido. Da mesma forma que os eixos não imitam mais os movimentos dos braços, a organização do trabalho se distanciou do modelo subjetivo do homem que trabalha e os relógios deixaram de seguir o tempo cósmico e a variação das estações. A matematização do empírico permitiu esse descolamento da imagem nos fornecendo elementos para construções cuja eficiência não se deve aos poderes da percepção, senão pelo fato de que é ainda com ela que podemos contar. A partir do momento em que começamos a enumerar os eventos, com nossos sentidos e a procurar estabelecer relações constantes, o jogo dos números posto a trabalho nos transportou para uma outra realidade, habitada por ondas hertzianas e computadores, a que nenhuma imagem nos teria conduzido (Cf. LACAN, 1991, p. 185).

Convém frisar que nos referimos ao princípio de concepção dos objetos e não ao seu formato final, sempre vinculado a um uso e, portanto, à forma humana. Quando os cientistas japoneses se ocupam em construir o robô semelhante ao humano, eles convocam forças que não têm nada a ver com o que poderia sugerir a imagem do corpo e de seus movimentos.

A adesão à imagem foi identificada por Bachelard como um dos obstáculos epistemológicos à descoberta na ciência e, no entanto, um dos exemplos que ele utiliza nos remete igualmente ao campo das técnicas: segundo ele, foi preciso que o homem esquecesse a imagem da costureira em sua atividade para conceber a máquina de costura. Operou-se, desde então, uma transformação no saber, no modo como apreendemos o mundo, e isso nos permite trabalhar a partir de um sistema descolado das formas sensíveis. O instrumento na ciência é um meio para a redução máxima da experiência sensível usual, que deve se restringir à possibilidade de contar que nos oferecem os sentidos. A estratégia pela qual os instrumentos criam a possibilidade dessa redução consiste na capacidade de determinação estrita do observador, que se transforma, assim, nos dizeres de Canguilhem, em "um instrumento do instrumento científico" (CANGUILHEM, 1966, p. 89).

Essa transformação foi descrita metodologicamente pela primeira vez por Galileu, através das operações implicadas na construção do seu telescópio. Segundo F. REGNAULT (1985), ele expõe tais procedimentos no Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo, obra de 1632, pela qual foi condenado. Galileu retomou ainda esse assunto em um livro que ficou inacabado, As operações astronômicas, provavelmente redigido em Arcetri, em prisão domiciliar e com as restrições da vista enfraquecida pelo cansaço. É o próprio Galileu quem nos faz saber que já não enxergava com o olho direito e conservava pouco da vista esquerda. É nesse momento que ele se dedica a descrever as operações necessárias para fazer convergir "em um só ponto óptico-geométrico" a capacidade de visão de que dispõe toda a superfície da pupila.

As etapas da construção do telescópio compõem um movimento de anulação progressiva do "olho enquanto olho de um homem":

"...elimina-se sucessivamente o fato de que a pupila se contraia ou se dilate, em seguida o fato de que a minha é diferente da sua, enfim o fato de que ela tenha uma superfície e se terá reduzido o observador a um ponto".(REGNAULT, 1985, p. 118)

Eliminando a realidade do homem que olha, através dessa série de subtrações, Galileu encontra o meio de "suprimir a diferença que existe entre o homem que olha e, digamos, o sujeito geométrico" (REGNAULT, 1985, p. 120). Ele abre o caminho para o cálculo da equação pessoal do astrônomo, formulada em 1796, por Maskeline, que estabelece definitivamente o ponto ótico-geométrico que é preciso para as observações, no lugar do olhar.

Os instrumentos viabilizaram a tentativa de fixar, pela eliminação das particularidades individuais, uma capacidade de resposta determinada e reprodutível. Não mais as subjetividades e habilidades diversas, formas de expressão de um sujeito da representação; o que o instrumento moderno torna possível é o sujeito de uma representação homogênea, ou seja, o indivíduo cuja intervenção trata-se de calcular.5

Os objetos técnicos modernos encarnam as operações capazes de calcular e reproduzir uma homogeneidade nos termos das respostas humanas. Essa possibilidade os tornou atraentes primeiro nos laboratórios científicos, depois nas fábricas, com as máquinas produtivas, e no governo dos povos, com os equipamentos da cidade. Os objetos técnicos estenderam sempre sua aptidão a selecionar as respostas dos operadores e a consolidar uma certa humanidade, pela reprodução contínua dos mesmos indivíduos. A possibilidade de controle das atividades humanas através dos objetos técnicos não parou de se aperfeiçoar na modernidade. Através de sua simples utilização, os objetos técnicos atualizam nos homens uma resposta calculada e pontual, mas numa freqüência cada vez maior.

Os instrumentos modernos, todos aqueles que são a encarnação do cálculo operacional, supõem um sujeito sem nenhuma singularidade. Nas situações técnicas precisa-se de um sujeito mas não há espaço para o desdobramento de um traço que lhe seja próprio. Os sujeitos são alocados num sistema no qual só há lugar para as respostas fixadas pelo funcionamento técnico que organiza as situações. O sujeito está lá, mas ele não deve se representar na situação pois ele já se encontra fixado, solidificado numa resposta determinada pela montagem técnica. Eles são sujeitos-supostos-se-moldarem-inteiramente. Presenciamos hoje em dia os efeitos da proliferação dessa metodologia e de sua suposição. De fato, os sujeitos aderem aos sistemas técnicos que só pedem uma resposta padronizada. Mas trata-se exatamente de uma adesão a esse saber e não de uma incorporação. Conforme veremos, os sujeitos aderem ao saber que lhes é exterior sem poder romper com sua exterioridade: uma inclusão da exterioridade enquanto exterioridade.

Vale marcar aqui o contraste entre esse tipo de relação ao saber e aquele que o antecedeu, no qual Freud e Lacan verificam não uma relação de exterioridade, mas uma relação de incorporação, que se revela nas tentativas de expressão de uma marca singular pela via da representação significante, ou seja, pela via da palavra, numa apropriação dos saberes. Nossas técnicas de automação, pela exterioridade que elas impõem à adesão do sujeito, tornam impossível a tentativa da representação significante. A impossibilidade de se fazer representar através da operação técnica é justamente o que há de real para os sujeitos nessas situações.6

A prova de que a adesão dos sujeitos ao funcionamento técnico é efetiva encontra-se nas manifestações de mal-estar que tomam como matéria as próprias disrupções desse funcionamento. São acontecimentos como a pane, a perda de controle (que ocorrem no corpo — como taquicardia, sudorese, dores, compulsões, etc. — ou no funcionamento técnico) que se mostram capazes de dividir o sujeito das técnicas, aderido ao funcionamento.

 

MANIFESTAÇÕES DO SUJEITO EM SITUAÇÕES TÉCNICAS

Verifica-se nas situações de trabalho automatizadas que não há lugar para uma inscrição do operador como sujeito de desejo. Os operadores devem simplesmente se acoplar, aderir a uma seqüência preestabelecida, num movimento que os supõe mas que busca determiná-los o mais estritamente possível, sem deixar espaço para uma resposta do sujeito, pela via da representação significante.

A adesão dos sujeitos não se explica como o simples resultado do cálculo do indivíduo realizado pelas técnicas. Ao contrário, o objetivo inscrito nas técnicas de fixar um indivíduo, um "eu" unívoco e homogêneo, impede a expressão do sujeito através de sua atividade. A homogeneização das respostas torna impossível a individualização dos sujeitos através da representação significante. Isso não impede, e até estimula, que os sujeitos busquem e reivindiquem constantemente "identidade", em nossas sociedades. Mas os sujeitos só constroem uma identidade, através da atividade técnica, contornando a impossibilidade de singularizar-se nela, pela via do significante. As situações técnicas só são capazes de capturar o sujeito ou de implicá-lo através das irrupções de excessos, ou seja, através do que excede e escapa ao cálculo funcional.

Trata-se de uma lógica de adesão que já se anuncia através de depoimentos segundo os quais os laços se estabelecem entre os operadores no momento das panes. Nestes momentos, uma equipe de trabalho se constitui, reunindo competências para uma reparação, que, no entanto os reenvia ao funcionamento. Os efeitos inesperados do funcionamento técnico, os acidentes, o mal-estar são, de início, manifestações do insucesso das técnicas em tudo controlar. Mas é exatamente esse insucesso das técnicas que dará oportunidade aos sujeitos de deixarem a condição de objetos do controle (condição subjetivada fantasmaticamente como a de um objeto do gozo do Outro) e passarem àquela de sujeitos pessoalmente implicados, ainda que por vias que desconhecem o conteúdo da atividade e seus sentidos sociais, para se apoiar na prática de um autocontrole formativo ou no aperfeiçoamento da performance pessoal. Essa via de constituição dos indivíduos tende a levá-los a uma adesão renovada ao funcionamento.

A descrição da Síndrome Subjetiva Comum ou "fadiga nervosa" realizada por Le Guillant, a partir de um estudo sobre as queixas das telefonistas, constitui um exemplo esclarecedor do movimento que buscamos apreender. Segundo Le Guillant, o quadro abaixo foi freqüentemente encontrado nas pessoas examinadas durante seu estudo:

"...esse nervosismo é mantido pelo próprio trabalho que, ao mesmo tempo, o exige e o cria: certas telefonistas atingem rendimentos consideráveis (140 a 150% em relação à média), não por zelo, mas porque o trabalho, dizem elas, as torna nervosas e que quanto mais elas estão nervosas, mais elas trabalham rápido."

Ainda de acordo com ele,

"...esse nervosismo das telefonistas é (...) uma doença necessária ao desempenho das tarefas profissionais; as mais nervosas são as que obtêm os melhores rendimentos. O sistema de notação da produção favorece esse estado de coisas."

Le Guillant constata então:

"a automação cada vez mais aperfeiçoada leva a uma monotonia penosa; as operadoras sofrem por trabalhar como robôs, por fazer um trabalho mecânico, por não ter nenhuma iniciativa a tomar, por não poder organizar o próprio trabalho, por não imprimir absolutamente nada delas nesse trabalho". (LE GUILLANT, 1984, p. 10)

Esse quadro não somente ilustra nossas afirmações anteriores como permite localizar o que as telefonistas imprimem delas próprias na atividade, ou seja, a aceleração, o "nervosismo". O que o sujeito procura acelerando o trabalho é aceder a um "eu" que desmente a homogeneização exercida pelas técnicas, situando-se num para além daquilo que o cálculo técnico fixa. O sujeito procura individualizar-se na situação incorporando os excessos produzidos pelo próprio funcionamento técnico. Trata-se de uma individualização que não se faz pelo recurso à representação significante. O que o sujeito incorpora não é um significante que o situa no mundo mas, ao contrário, aquilo que a organização técnica produz como resto, ainda escapando ao seu controle.

Essa operação permitirá, mesmo não sendo pela via do desejo, que o sujeito marque uma posição própria frente à organização técnica, que é completamente indiferente a suas particularidades. O sujeito aqui se individualiza no movimento de evitar a manifestação de um sintoma, concebido como a marca de um gozo estranho. Em resposta a esse gozo e portanto mantendo-o como suporte, o sujeito tece sua individualidade. A partir de então (e enquanto essa posição do sujeito com relação ao saber se mantiver), seja qual for a atividade desse sujeito, seu trabalho se centrará sobretudo nesse exercício pessoal, performático, em cuja dinâmica reconhecemos um compromisso entre contexto técnico e gozo.

Efetivamente, manifestações como as doenças psicossomáticas ou os quadros pós-traumáticos levam a re-arranjos na vida dos sujeitos. Elas se constituem para eles como pontos de referência a partir dos quais esses sujeitos instituem, no cotidiano de trabalho e de lazer, um ritmo e regras a respeitar, para manter essas manifestações dentro dos limites do suportável.

Trata-se de um gozo específico que não se deixa decifrar como o gozo na histeria ou na obsessão. Os sujeitos nessa posição não podem realmente estabelecer uma relação entre seu sintoma e um desejo e nem construir um sentido, para além das diversas informações que acumulem sobre os fenômenos que experimentam. Essas manifestações situam para seu sujeito um gozo que ele não reconhece como seu, mas que tem lugar em seu corpo e que atinge a imagem de si, marcando o corpo. São manifestações que podem interromper o funcionamento para um sujeito, mas elas são igualmente o que lhe permite organizar uma nova tentativa de individualização, aderindo mais uma vez a um saber que funciona. A adesão ao funcionamento se explica como um modo de evitar ou de controlar a manifestação de um gozo estranho que, por sua vez, é aquilo que possibilita ao sujeito situar-se em sua relação com o funcionamento técnico. Essas manifestações constituem um ponto a partir do qual um sujeito pode regular sua adesão à operacionalidade do saber e, através disso, modelar uma identidade.

Convém marcar, mais uma vez, que esse mecanismo trans-individual ou social de individualização é bastante diferente daquele que se organiza em torno dos Nomes-do-Pai (também chamados Significantes Mestres), ou seja, em torno daqueles significantes que descobrimos a posteriori terem sido os balizadores de uma trajetória de vida. As identificações aos Nomes-do-Pai induzem um retorno de gozo (o gozo fálico) descrito por Freud através da noção de Supereu e dos mecanismos da culpabilidade. Tornou-se entretanto difícil a realização de um mandato significante no mundo simbólico de nossas técnicas, que se mantém perfeitamente ignorante a propósito das determinações particulares a cada sujeito e só leva em conta, nas suas deliberações, o cálculo dos custos e benefícios.

Em nossos dias o gozo fálico não encontraria mais condições favoráveis para a sua realização: o valor do ideal se deteriorou (MILLER, J.-A., LAURENT, E. 1996-97) e, mais que isso, a montagem de nosso mundo técnico, tal como vimos, inviabiliza progressivamente a representação significante do sujeito: ela só quer dele uma resposta padronizada. Não há, portanto, espaço para que o sujeito se individualize através do desdobramento na cultura, de um significante que ele tenha incorporado de forma especial, um S1, significante que o representa para os outros significantes. O que vem, hoje, como decorrência da montagem técnica do mundo, cumprir esta função de ancoragem dos sujeitos são as manifestações de mal-estar. Elas causam o sujeito que, no movimento de evitá-las, tende a ser re-enviado a uma adesão ao saber que funciona, tentando fixar uma coerência, uma identidade. Dito de outro modo, o sujeito se divide pela incorporação dos efeitos entrópicos do funcionamento e tenta se suturar por uma adesão renovada a esse mesmo funcionamento que, no entanto, continua a não permitir a inscrição de um nome próprio.

Na tentativa de se suturar, o sujeito dividido pela emergência de uma zona heterogênea toma a operacionalidade do saber técnico como suporte para o exercício de um "eu", que se motiva na recusa da condição de objeto de um gozo, que ele não reconhece como seu. O sujeito não reconhece esse gozo como seu porque realmente não lhe é possível articulá-lo a um desejo. As manifestações que analisamos não são o resultado do deslocamento significante da realização de um impulso, elas são respostas que dão consistência a um Outro gozador, do qual elas são objeto.

É a partir da experiência de descontrole e de impotência, através da qual esse gozo se manifesta, que o sujeito encontra motivo para um esforço renovado de autodisciplina em suas performances na rede do saber operacional. Mas ele só acede a algo que possa individualizá-lo, nesse exercício sobre a organização técnica, através de um excesso com relação à sua operacionalidade.

Reconhecemos essa dinâmica de individualização tanto nos contextos de trabalho quanto nas instituições voltadas para a reabilitação das vítimas do mal-estar social. Ela se revela pelo "eu sou nervoso", através do qual o sujeito se constitui em excesso à indiferença das seqüências técnicas. Ela se mostra igualmente no "eu sou responsável" ou nos exercícios de autodisciplina pelos quais os sujeitos se individualizam em oposição à falta de controle sobre os acontecimentos que, na ordem do mundo das redefinições operacionais, afetam suas vidas. Ela reaparece no "eu sou doente" que permite a seu sujeito organizar um ritmo em suas atividades, em função do controle ou da evitação de seu mal-estar. Ela se mostra ainda no "eu sou alcoólico", através do que os sujeitos se suturam, exercitando um "eu" que permanece fixado na experiência de impotência vivida no vício. A fixidez dessa identidade, que se conquista através de um exercício que independe da rede de saber que o suporta, nos faz postular que se trata de uma identidade imaginária. Além disso, essas identidades estão sempre ancoradas em um substrato orgânico, em uma particularidade que deve se escrever no corpo.

Deixando essa discussão sobre o caráter imaginário do processo de identificação para um outro momento, podemos concluir que a montagem significante do nosso mundo técnico favorece um modo particular de divisão e sutura do sujeito, que só se esclarece como conseqüência de uma conjunção histórica, na interseção da política, da economia e da ciência, que pôde incrustar em posição de comando um saber operacional fundado sobre o cálculo simbólico do sujeito. Uma vez que esse arranjo se encontra instalado, ele tem força para constranger no sentido da reprodução da divisão do sujeito que lhe é própria. A generalização das condições impostas por esse arranjo histórico e a maior coerência de seus meios, que eliminam cada vez mais os elementos que encarnam a exceção significante na cultura, estão fortemente vinculados às manifestações sintomáticas do tipo estudado, que são, afinal, o resultado de um esforço de individualização.

 

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STIEGLER, B. (1994) La technique et le temps: la faute d'Epiméthée, Paris, Galilée/Cité des Sciences et de l'Industrie.         [ Links ]

 

 

Recebido em 14/3/2002. Aprovado em 8/5/2002.

 

 

* Este artigo retoma algumas das conclusões obtidas em trabalho apresentado para a obtenção do título de doutora, pela Universidade de Paris VIII, em julho de 2000, com o apoio do CNPq. Uma versão inicial do presente texto foi apresentada no "Fórum de Antropologia da Pessoa: processos de individualização na sociedade contemporânea", no âmbito do IV RAM (Reunião de Antropologia do Mercosul), em Curitiba, entre 11 e 14 de novembro de 2001.
1 Cf. ARENDT (1983) e CASTEL (1998) que situam, através de percursos diferentes, a centralidade do trabalho na construção do indivíduo moderno.
2 Lacan apresenta no Seminário XVII sua teoria dos discursos, na qual condensa uma série de reflexões sobre a produção do sujeito nas civilizações. De forma geral, podemos dizer que através dos matemas dos discursos Lacan nos ensina que os arranjos de civilização só se estabilizam porque eles encontram meios de renovar, em sua dinâmica de estrutura, a recuperação de um resto de gozo, por meio da linguagem. Temos um discurso quando o gozo se aparelha na linguagem de modo a possibilitar uma relação com o outro. Para Lacan, o discurso é aquilo que, "...na seqüência do que se pode produzir pela existência da linguagem, faz função de laço social" (LACAN, 1978, p. 51). Os quatro discursos identificam diferentes montagens estruturais de relações estáveis e fundamentais, onde as enunciações e condutas vêm se inscrever. São aparelhos ou realidades (de discurso) que estão no mundo e que o sustentam (LACAN, 1991, p. 13).
3 As informações epidemiológicas a respeito dos casos de LER/Dort (respectivamente Lesões por Esforços Repetitivos / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho — a nomenclatura oscila ainda, mas, no Brasil, optou-se recentemente pela segunda, que é mais abrangente) confirmam o aumento de sua ocorrência. Em que pese a imprecisão desses dados, inclusive porque o aumento constatado coincide com a construção social (e sindical) do próprio diagnóstico, a relevância social do fenômeno fica, de todo modo, evidenciada. Segundo o Manual do Ministério da Saúde (MAENO, 2001, p. 9-17), os casos de LER/Dort têm aumentado significativamente a partir de meados do século XX em vários países industrializados, o que vem caracterizando uma endemia global desse grupo de doenças. Nos EUA, os casos computados de LER/Dort aumentaram 14 vezes entre 1981 e 1994. No Canadá e na Dinamarca, os casos de LER/Dort representaram respectivamente 50,5% e 45,6% dos casos das doenças ocupacionais, em 1993. No Brasil, os dados existentes são aqueles disponibilizados pela Previdência Social, "coletados com finalidades pecuniárias e não epidemiológicas", mas eles indicam um quadro tão grave quanto os dos países acima citados.
4 STIEGLER (1994) aborda no livro indicado a determinação exercida pelos sistemas técnicos sobre os sujeitos, numa discussão que concerne à gênese dos objetos técnicos e à autonomia de seus desdobramentos com relação à vontade dos homens.
5 Esse indivíduo calculado não é o sujeito da ciência que emerge nas fronteiras móveis entre o saber e o real, com a possibilidade de suturar esse real pela formalização de um saber novo. Conforme acentua REGNAULT (1985, p. 126), "o sujeito da ciência é imaginariamente o inverso do sujeito da representação, e ao mesmo tempo, não é dedutível dela." O sujeito da representação calculada ou o indivíduo moderno não é o sujeito que, por definição, se constitui em exclusão interna a suas atividades.
6 O estado de linguagem que predomina nas situações técnicas pode ser caracterizado como holofrástico e não como metafórico. Enquanto a metáfora permite que subvertamos a ordem habitual do sentido, produzindo outros sentidos, a holófrase é o estado de linguagem em que o enunciado prevalece sobre a enunciação, bloqueando as manifestações do sujeito através da representação. Não há representação porque o operador deve simplesmente se acoplar a uma seqüência preestabelecida, incorporando um significado já fixado, que lhe escapa em sua dimensão de desejo e que não lhe cabe interrogar. O movimento da representação supõe a dupla significante S1-S2 e o intervalo entre os dois elementos, onde o desejo do Outro pode ser interrogado e um sujeito pode dele se separar, modelando seu próprio desejo (Cf. LACAN, 1973, p. 197-208). Na situação técnica, como na holófrase, código e representação coincidem, sem deixar espaço para o equívoco e a questão. Sujeito e significante-mensagem formam um monolito. Essa colagem não deixa espaço para a representação simbólica, mas, o sujeito está na linguagem, no discurso, e pode se manifestar de outras formas, conforme veremos. Para uma caracterização das situações técnicas em termos de linguagem, cf. CARVALHO (2000).

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