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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versão impressa ISSN 1516-1498versão On-line ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) v.5 n.1 Rio de Janeiro jan./jun. 2002

https://doi.org/10.1590/S1516-14982002000100005 

ARTIGOS

 

O observador do mundo: a noção de clivagem em Ferenczi*

 

The world's observer: Ferenczi's idea of cleavage

 

 

Julio Sergio Verztman

Psicanalista, psiquiatra, doutor pelo Ipub-UFRJ e psiquiatra deste mesmo órgão. E-mail:jverztman@uol.com.br

 

 


RESUMO

Discute-se a noção de clivagem de Ferenczi, comparando-a com as teorias freudianas sobre o tema e verificando sua importância para a prática clínica da contemporaneidade. A hipótese que serve de eixo do trabalho é a que supõe a clivagem como resultado de uma descontinuidade radical entre as figuras discursivas da primeira e da terceira pessoa. Em função desta descontinuidade constrói-se uma organização psicológica pautada pelo papel de observador do mundo e pela culpa de ser.

Palavras-chave: Ferenczi, clivagem, melancolia.


ABSTRACT

This article is an attempt to discuss Ferenczi's notion of cleavage comparing it with some Freudian theories about this subject and also to verify its importance to contemporary clinical practice. The main assumption of this paper is that cleavage is a radical interruption between figures related to the first and third grammatical person. Because of this interruption a psychological organization is built based on the role of the world's observer and the guilt of being.

Keywords: Ferenczi, cleavage, melancholy.


 

 

INTRODUÇÃO

Muitas vezes nos deparamos com pessoas que, muito embora não sejam psicóticas, exigem um trabalho que possibilite o que outros sujeitos parecem ter em excesso: a sensação de estar vivo. As sessões transcorrem em um clima de aparente monotonia, na medida em que o que se escuta são relatos minuciosos do cotidiano, banhados por uma temporalidade achatada, nos quais raramente vislumbramos a emergência do sujeito do inconsciente tal qual podemos reconhecer em outros discursos. Todas as tentativas de fazê-las falar de outros temas, de produzir intervalos em suas falas para o surgimento da surpresa e da novidade são catastróficas ou mal-sucedidas. Tais tentativas são consubstanciadas pela idéia de que o puro relato dos fatos da vida é uma resistência ao dispositivo analítico. Se tomarmos, entretanto, a noção de resistência em sua vertente positiva como indicadora do nosso caminho, podemos supor que o objetivo destes sujeitos é fazer da nossa presença o testemunho ocular de uma verdade que se esconde na aparente uniformidade de seus relatórios diários. Eles usam o olhar do analista como garantia de que suas ações, sensações e sentimentos formam conjuntos que podem ser reconhecidos como sendo suas vidas. Este reconhecimento que, para muitos, é imediato e pré-reflexivo, só ocorre, quando ocorre, após muito labor. Aquilo que é o ponto de partida de muitos percursos analíticos e que deve ser desconstruído para que ele se dê, não o é em absoluto para estas pessoas. Um sentimento de estranheza radical em relação a si as invade. O vazio que as acomete parece localizar-se na própria idéia de ser, o que acarreta numa falta de consistência da imagem narcísica e numa percepção de futilidade e indiferença quanto às próprias ações.

Embora a importância da psicanálise para estes sujeitos seja capital, encontramo-nos pouco aparelhados para tratá-los. Nosso aparato conceitual que gravita em torno dos mecanismos de recalque, no que diz respeito à neurose, e foraclusão, no que tange à psicose, parece insuficiente. Estes analisandos raramente expressam ambigüidade, com poucas brechas para o aparecimento da divisão na fala. Quando eventualmente os surpreendemos em um ato falho (fato infreqüente), ocorre uma reordenação imediata do discurso de modo a fazê-lo desaparecer sem nenhum vestígio. Há uma barragem ao inconsciente, o que muitas vezes denota uma separação radical entre o falante e o universo da fantasia. Tudo isto, entretanto, que nos faria pensar em psicose para caracterizá-los, mostra-se pouco consistente. Na maior parte de suas vidas estas pessoas, além de não apresentarem nenhum dos fenômenos elementares de psicose, tiveram uma relação de submissão absoluta à lei, extraindo dela uma fonte para a manutenção da vida. Pode-se objetar que a ambivalência constitutiva do supereu torna impossível a sujeição absoluta a seus imperativos, entretanto, a simples existência desta aspiração merece que a separemos das aspirações psicóticas. O uso refinado que eles fazem da linguagem demonstra cabalmente esta diferença. Ao passo que os psicóticos devem reinventar a linguagem ordinária em parcelas consideráveis a fim de poderem continuar a usá-la, estes sujeitos exaltam as propriedades da linguagem pública. Eles procuram eternamente depurá-la visando a que cada vocábulo encontre seu significado preciso e derradeiro, segundo cânones partilhados.

Desde a invenção da psicanálise, vários autores descreveram os caminhos e impasses do tipo de funcionamento psicológico a que estou aludindo. A caracterização que proponho é, infelizmente, ampla o suficiente para abarcar perfis tão heterogêneos quanto personalidades narcísicas e borderlines, definidas pela escola norte-americana; sujeitos organizados em torno do falso self, como proposto por Winnicott, sujeitos melancólicos, entre outros.1 No âmbito deste artigo, todavia, procurarei seguir os passos daquele que nos abriu as portas para esta realidade: Sándor Ferenczi. A sua teoria do trauma e a proposição associada da clivagem psíquica transformaram nosso edifício teórico e forneceram abrigo a muitos sujeitos despejados pelos síndicos de plantão. Tratada alternadamente como segredo ou como manifestação da alma atormentada e já doentia de Ferenczi, a clivagem derivada da confusão de línguas por ele proposta vem sendo tematizada de forma marginal nos textos psicanalíticos. A sua noção de clivagem, entretanto, demonstrou tanta pujança que Freud a ela se rendeu, mesmo que parcialmente, no final da obra, após a morte de Ferenczi. É exatamente com a teoria freudiana da clivagem que começamos, esperando que o leitor possa reconhecer algo de sua própria clínica nas páginas que se seguem.

 

FREUD

Ao expor algumas noções freudianas que gravitam em torno da cisão do eu, pretendo apenas fornecer um panorama mínimo de dois momentos deste conceito na obra de Freud, para que o leitor possa compará-los com as proposições de Ferenczi sobre o tema. Não é meu intuito discutir aprofundadamente os seus desdobramentos nem as controvérsias teóricas que o assunto vem despertando na literatura psicanalítica. Participar mais ativamente desta discussão requereria ou um outro artigo, ou o prolongamento excessivo deste ou uma capacidade de síntese que infelizmente ainda não possuo.

 

CLIVAGEM E MELANCOLIA

Em seu único artigo dedicado à melancolia (FREUD, 1917/1993, p. 235-256), Freud fez da clivagem no eu um dos mecanismos responsáveis pelas manifestações mais características desta neurose narcísica. Mais especificamente é esta hipótese etiológica que lhe fornece instrumentos para demonstrar que o sujeito melancólico expressa um conflito psíquico. As propostas formuladas no texto referentes à identificação narcísica com o objeto perdido e à regressão a uma fase de relação objetal caracterizada pela ambivalência não permitem a Freud localizar uma dinâmica conflitiva na melancolia. Somente quando é enunciado o surgimento de uma fenda no eu, de uma neoformação representada pela consciência moral, torna-se possível dizer que a melancolia expressa um conflito entre o eu e a parte do eu modificada pela identificação narcísica. Isto decorreria do não-reconhecimento mútuo entre instâncias que, em outras circunstâncias, carregariam a marca do investimento egóico. A consciência moral só reconhece o objeto perdido onde deveria vislumbrar o eu e o eu só percebe a alteridade onde costumam estar presentes as marcas mais caras à constituição do sujeito.

Este ponto de vista é retomado no contexto da segunda tópica no breve artigo "Neurose e psicose" (FREUD, 1924/1993). Nele, Freud efetua uma separação entre as psicoses e as neuroses narcísicas (melancolia) com base nas relações conflitivas que dizem respeito ao eu. Enquanto que as psicoses expressam um conflito entre o eu e o mundo exterior, a melancolia é definida pelo embate entre eu e supereu. A meu ver, dois fatores contribuíram para que o conceito de clivagem não fosse desenvolvido para explicar este arranjo. Em primeiro lugar, uma transposição apressada entre eu alterado pela identificação narcísica para supereu. Concordando com Pinheiro (1998), a impermeabilidade entre eu e a consciência crítica na melancolia torna complicada a caracterização da consciência crítica como supereu, muito menos como ideal de eu. Subseqüentemente, em função da universalidade do supereu na subjetividade humana e da ênfase concedida a este como fonte privilegiada na produção de mal- estar, a divisão radical entre dois destinos de investimentos egóicos torna-se obscurecida. Conflito entre eu e supereu é algo muito abrangente para especificar a organização psíquica dos melancólicos, concorrendo para outras formas discursivas, especialmente a neurose obsessiva, com a qual a melancolia é freqüentemente comparada. Assim, o conceito de clivagem do eu permaneceu longo tempo adormecido e teve um breve despertar no final da obra.

 

SEGUNDA DEFINIÇÃO DE CLIVAGEM

A segunda definição freudiana de clivagem ganha os primeiros contornos no artigo sobre "O fetichismo" (FREUD, 1927/1993) e torna-se mais abrangente em "Esboço de psicanálise" (FREUD, 1940/1993), "A clivagem do eu no processo defensivo" (FREUD, 1940b/1993) e "Análise terminável e interminável" (FREUD, 1937/1993). É importante notar que boa parte destas idéias emergiu após a morte de Ferenczi e é legítimo supor, como veremos na seção seguinte, que elas tenham sido influenciadas (na forma de resposta) por sua teoria do trauma.

O mecanismo de clivagem ou cisão tem sido freqüentemente imputado à perversão, por contraposição ao recalque na neurose e à foraclusão (sobretudo na tradição lacaniana) na psicose, porém, se examinarmos mais detidamente as palavras de Freud veremos que este é um acontecimento mais amplo: "Não se creia que o fetichismo seja uma exceção, com respeito à cisão do eu: não é mais do que um objeto particularmente favorável a seu estudo" (FREUD, 1940a/1993, p. 205).

O exemplo clínico de clivagem fornecido em "O fetichismo" é de um sujeito obsessivo (Idem, p.150) e Freud, nos vários momentos em que aborda o tema, sugere que se possa lançar mão do mecanismo em várias estruturas. "O ponto de vista que postula em todas as psicoses uma cisão do eu não teria títulos para reclamar tanta consideração se não demonstrasse seu acerto em outros estados mais semelhantes às neuroses e, em definitivo, nestas mesmas" (FREUD, 1940a/1993, p. 204).

A universalidade do recalque nas neuroses parece estar sendo colocada em xeque, embora Freud não desenvolvesse mais este ponto. A cisão no eu é derivada do processo mais amplo de desmentido que é desta forma caracterizado (FREUD, 1927/1993, p.148): "Se assim se quer separar de maneira mais nítida o destino da representação do destino do afeto, e reservar o termo `repressão' para o afeto, `desmentido' (Verleugnung) seria a designação alemã correta para o destino da representação."

Freud demonstra que em algumas circunstâncias o eu divide-se em duas correntes opostas, uma capaz de acatar a realidade (realidade da castração) e outra que a nega peremptoriamente. O acontecimento em nada tem a ver com distúrbios na percepção. Cada uma destas correntes é incapaz de reconhecer a outra e ambas convivem lado a lado sem se influenciarem, o que produziria uma importante defesa contra a psicose, a qual só eclodiria caso uma delas (a que assume a realidade) se enfraquecesse. A noção de ininfluenciabilidade dos dois fragmentos merecerá maiores considerações, no entanto descreveremos antes como estes se formam.

Diante de uma situação traumática a função sintética do eu (FREUD,1940b/1993, p. 276) pode sofrer uma série de perturbações. O elemento que responde pelo sentimento de si pode se bifurcar em dois tipos de respostas coetâneas que são assentidas como verdadeiras, embora opostas. Estes comportamentos irão produzindo, com o passar do tempo, núcleos identificatórios distintos e um "desgarramento no interior do eu que nunca se reparará" (FREUD, 1940b/1993, p.275). Uma verdadeira fenda narcísica se desenvolve e torna cada vez mais distantes as duas respostas ao trauma. Todos estes acontecimentos seriam banais, na medida em que a psicanálise lidaria desde sempre com a divisão psíquica. O sujeito sobre o qual ela incide é desde sempre dividido, entretanto, Freud demonstra que a clivagem mencionada é de outra ordem tópica:

"Os fatos da clivagem do eu os quais temos descrito não são tão novos nem tão estranhos como à primeira vista puderam parecer. Que com respeito a uma determinada conduta subsistam na vida anímica da pessoa duas posturas diversas, uma contraposta à outra e independentes entre si, eis um traço fundamental das neuroses; só que neste caso uma pertence ao eu e a contraposta, como reprimida, ao isso. A distinção entre ambos os casos é, no essencial, tópica ou estrutural [grifo nosso] e nem sempre é fácil decidir frente a qual destas duas possibilidades se está" (FREUD, 1940a/1993, p. 205).

O fundamental, portanto, não é a existência da cisão, mas a sua localização. Dizer que a clivagem incide sobre o eu é afirmar a existência de dois grupos psíquicos separados que possuem a marca do investimento narcísico. Em cada um deles o sujeito pode reconhecer uma imagem assumida como representante privilegiado de si e alcançar a vivência pré-reflexiva do sentimento de existência. Freud adverte, entretanto:

"Não interessa o que empreenda o eu em seu afã defensivo, seja desmentir um fragmento do mundo exterior real e efetivo ou rechaçar uma exigência pulsional do mundo interior, o resultado nunca é perfeito, sem resíduo, senão que sempre se seguem duas posturas opostas, das quais também a subjacente, a mais débil, conduz a ulterioridades psíquicas." (FREUD, 1940a /1993, p. 206)

É difícil, portanto, conceber que não ocorram influências recíprocas entre as duas atitudes e que elas não produzam inibições, sintomas ou angústia. Em alguns momentos Freud parece apontar para esta direção, quando, por exemplo, caracteriza o fetiche como uma "formação de compromisso" capaz de "destruir a prova da possibilidade da castração" (Idem, p. 204). Formação de compromisso significa resolução provisória de conflito psicológico. Defendo a hipótese de que o mecanismo de cisão egóica desloque o campo de batalha do psiquismo para as duas correntes narcísicas que se desenvolveram como resposta ao trauma. Devemos neste momento examinar quais são os acontecimentos designados pela palavra trauma, se os seus referentes são parte do mecanismo mais geral da castração, como pensava Freud, ou acontecimentos mais específicos como queria Ferenczi. Tentaremos compreender com este último como a bifurcação do investimento narcísico pode ser uma enérgica resposta à proximidade do aniquilamento do eu.

 

FERENCZI

Introjeção

Não podemos circunscrever a noção de clivagem em Ferenczi sem definirmos minimamente seu conceito de introjeção, na medida em que a clivagem é o selo de uma introjeção impossível. A noção de introjeção, criada por Ferenczi em 1909, conheceu inúmeros desdobramentos na literatura psicanalítica, inclusive nas várias teorias freudianas sobre a identificação; devemos, entretanto, sublinhar as diferenças entre elas. Ferenczi, ao contrário de Freud, afirma que o sujeito introjeta, não como reação a qualquer tipo de perda objetal, mas porque assim procedendo consegue atenuar, através da diluição, "a tonalidade penosa dessas aspirações `livremente flutuantes', insatisfeitas e impossíveis de satisfazer" (Ferenczi 1909/1986a, p. 36). Este mecanismo é responsável pelos investimentos generalizados e excessivos do neurótico e não é uma compensação, um troféu de consolação conseqüente à falta e à impossibilidade de satisfação pulsional. A introjeção não diz respeito à posse de objetos, mas à pulsão. Como reitera Torok (1995a, p. 222):

"É que, precisamente, a aspiração da introjeção não é da ordem da compensação, mas da ordem do crescimento: ela busca introduzir, alargando-a e enriquecendo-a, a libido inconsciente, anônima ou recalcada. Além disso, não se trata de `introjetar' o objeto, como se diz facilmente, mas, o conjunto das pulsões e de suas vicissitudes cujo objeto é o próprio contexto e mediador."

A introjeção é o processo permanente pelo qual os neuróticos se vinculam aos outros, porque, por seu intermédio, a pulsão torna-se compatível com a vida. Quando um sujeito introjeta é a própria pulsão que deixa de funcionar como agente externo e se integra ao eu, lembrando, com Mezan (1996, p.101), que eu para Ferenczi, neste momento, corresponde a todo o psiquismo. A introjeção nunca poderia ser compensação, na medida que a maneira neurótica de amar pressupõe a integração do outro a si, a inclusão da maior parcela possível do mundo dentro do eu (FERENCZI, 1912/1986, p. 61). O eu não é formado pelo embate do isso com o mundo exterior, mas isso e eu são formados pelo processo introjetivo, o que faz com que haja um recobrimento entre introjeção e aparelho psíquico. É o que afirma Costa (1995, p.13) ao invocar a categoria mais recente, para a psicanálise, de sujeito: "Não existe distância lógica ou fenomenológica entre o sujeito e as introjeções. Sujeito é aquilo que introjeta e aquilo que é introjetado."

Um aspecto importante do trabalho de introjeção é exatamente seu movimento antiinteriorização, ou seja, sua característica de lançar o eu para fora de si. O enriquecimento egóico proposto por Ferenczi não é o aumento da densidade hidráulica do reservatório narcísico, mas sim da sua capacidade de se inserir no mundo, de aumentar seu vínculo com muitos objetos, de expandir os mais variados laços de dependência com os outros. Uma chave para compreender como é possível tal efeito encontramos na comparação entre introjeção e linguagem. Segundo Pinheiro (1995b, p. 47), Ferenczi afirma que o resultado do processo introjetivo é o povoamento do universo psíquico por representações do objeto, que quando associadas produzem a fantasia. É evidente que a concepção de linguagem de Ferenczi é datada, baseada na teoria representacional.2 Aqui, entretanto, ele nos brinda com um design bastante avançado, se pensarmos nos padrões de 1909. Vejamos: a introjeção é um mecanismo lingüístico que produz linguagem. Fornecer tal descrição da origem do aparato psíquico — mesmo que o suporte de todo o processo seja a pulsão — constituiu-se em grande inovação. Desse modo, o alargamento do eu traduz-se em sua capacidade de fomentar vínculos lingüísticos, os quais visam à produção de sentido. Sentido, para Ferenczi, é transformar o estranho em familiar, o mundo exterior em lugar habitável, em suma, um processo marcado pela onipotência e pela atividade, pelo desejo de expansão. Isto faz com que Pinheiro defina a introjeção como introjeção de sentido (Pinheiro 1995b, p. 48). É exatamente o funcionamento holístico da linguagem o que nos faz compreender a gulodice do ego de introjeção. O sentido só é dado por referência aos outros elementos lingüísticos, e sua produção exige sempre jogos de linguagem mais sofisticados e complexos, com maiores possibilidades de inter-relações entre seus constituintes.

O excesso de investimento característico deste processo originaria o recalcamento das pulsões introjetadas e forneceria a conformação sintomática própria das neuroses. Neste primeiro momento, Ferenczi definiu apenas uma outra configuração distinta da neurose, que não seria baseada no modelo da introjeção: a paranóia e seu mecanismo projetivo. O paranóico expulsaria para o exterior inclinações antes referidas a si e se comportaria como objeto deste excessivo interesse alheio. A inexistência de introjeção pode, todavia, tomar formas mais sutis e menos ruidosas. No final de sua obra, Ferenczi concebeu, a partir de sua clínica e de sua relação transferencial com Freud, um tipo de impossibilidade introjetiva aparentemente paradoxal, que toma a forma contrária à expulsão projetiva: a incorporação violenta da palavra do outro. Com ela a noção de clivagem começa a se desenhar.

 

A teoria do trauma

Escutando vários pacientes que não melhoravam com dispositivos clínicos tradicionais, Ferenczi supôs que a situação analítica estivesse implicada nestes resultados terapêuticos, através do que ele denominou de hipocrisia da figura do analista. Hipocrisia esta que se colava catastroficamente à razão pela qual o paciente procurava ajuda. O analista estaria reproduzindo a mesma cena que tornava estas pessoas tão frágeis e incapazes de reação frente à onipotência do outro. Para descrever este tipo de relação transferencial, Ferenczi lançou mão de uma vinheta bastante simples, a qual, infelizmente, tornou-se mais conhecida que suas outras formulações derivadas e fez com que sua teoria do trauma parecesse uma retomada ingênua dos capítulos iniciais da psicanálise. De forma resumida, um adulto seduz uma criança. O ato sexual é sentido pela criança como desprazeroso, porém ela o percebe dentro da linguagem da ternura e do universo lúdico que é o seu, ao contrário do adulto, que no primeiro momento realizou o ato em função da linguagem da paixão.3 Isto ocorreu — é importante sublinhar porque abrange parte central em minha argumentação — em função do adulto não ter reconhecido as necessidades da criança devido à cegueira momentânea produzida por sua excitação. O adulto da vinheta clínica, ao se restabelecer de seu estado apaixonado, reage com culpa ao ocorrido e afirma para a criança que nada se passou. Se parássemos neste ponto, teríamos uma situação extremamente dolorosa, mas não traumática. Ocorre que a criança, incapaz de renunciar tão radicalmente às suas impressões do evento, relata-o a um terceiro. Este, atordoado com o que ouviu, atribui as palavras da criança a fantasias infantis e produz uma segunda negação, esta sim traumática. O fator traumático, portanto, não é a linguagem da paixão, mas a negação de sua existência, a culpa diante da pulsão, a necessidade de torná-la um segredo. A situação analítica pode ser traumática se o analista tomar parte na cena exatamente como este terceiro que nega o ocorrido.

Ao recontar este pequeno mito clínico, pretendo manter os elementos que me parecem centrais da teoria da traumatogênese e substituir aqueles pouco aptos a participarem de uma metapsicologia desta configuração subjetiva da qual procuro me aproximar. Produzirei uma pequena torção argumentativa, pois não definirei como traumatogênica a linguagem da paixão, mas sim a linguagem da indiferença. A preponderância da teoria sexual na psicanálise de sua época fez com que Ferenczi acentuasse a relativa independência entre dois modos de funcionamento da pulsão: a forma excitada da paixão sexual própria do universo adulto e outro tipo de móvel infantil denominado de ternura. O escandaloso é que, ao contrário de Freud, Ferenczi não fez da ternura uma forma decantada da excitação passional e afirmou que a primeira era mais especificamente infantil. Assim, foi nesta tensão entre paixão do adulto e ternura da criança que ele construiu sua criança traumatizada. O problema é que ressaltando a confusão de línguas não podemos entrever os elementos que possibilitaram a clivagem. Retornando à vinheta, não são os atos do adulto apaixonado que efetivaram as conseqüências psicológicas próprias ao trauma. Este só ocorreu porque não existiram instâncias de mediação eficazes entre os dois jogos de linguagem. O elemento que não cumpre esta função é o terceiro, a quem a criança relata o ocorrido e que produz o ato do desmentido.

O empobrecimento do eu que se segue ao trauma é de ordem diversa do estreitamento subjetivo próprio às psicoses esquizofrênicas. O mecanismo que vem conferir singularidade a este tipo de impossibilidade introjetiva é o que Ferenczi denomina de identificação com o agressor. Após o sentimento de irrealidade gerado pelo desmentido e as conseqüentes sensações de desconforto e medo, agrega-se um tipo particular de submissão, que faz o adulto desaparecer da realidade externa para assumir todo o espaço de reconhecimento de si da criança. O adulto deixa de ser um outro. Esta identificação particular, que pode ser correlacionada com a identificação narcísica de Freud, impede que a criança construa um universo subjetivo pautado na percepção de que os investimentos que dirige ao mundo são seus.

Para prosseguirmos, devemos lembrar que o adulto/agressor de Ferenczi não é um perverso. Na maior parte das vezes o que se segue ao suposto ato sexual com a criança é um sentimento de culpa que reforça o silêncio em relação à cena incompreensível para o infante. Como o terceiro mantém a criança no lugar da mentira e do engano, o único signo lingüístico capaz de abrigar este ser perplexo é a culpa do adulto. Por não dispor de palavras para significar a culpa, a criança contorna-a com seu silêncio e incorpora absolutamente o jogo de linguagem do adulto. Por outro lado a culpa é o único vestígio do ato. A identificação com o agressor é, portanto, incorporação violenta da culpa. É uma tentativa paradoxal e desesperada de introjeção, na medida em que o que está em jogo é a significação do ocorrido. Se a criança só encontra a culpa como campo lingüístico no qual pode se mover, isto se deve ao fato de não lhe ter sido disponibilizado outro vocabulário capaz de manter sua integridade subjetiva.

"Considerado de um outro ponto de vista, o da indestrutível pulsão de autoconservação, o mesmo processo deveria ser descrito desta maneira: quando se abandonou qualquer esperança de ajuda por parte de uma terceira pessoa, e sente-se as próprias forças de autodefesa totalmente esgotadas, nada mais resta senão esperar pela clemência do agressor. Se me submeto tão completamente à vontade dele que deixo de existir, se, portanto, não me oponho a ele, talvez me conceda salvar a própria vida..." (FERENCZIi 1990, p. 143)

O terceiro não foi capaz de reconhecer a verdade que a criança expressa, de dar menos importância ao fato que ela relata do que ao sentimento de perplexidade que ela demonstra. A fórmula de Ferenczi é mais abrangente do que parece à primeira vista. Podemos retirar toda a cena de violência sexual do seu enunciado, própria ao imaginário de sua época, e ainda assim mantemos seus constituintes. Não é necessário supormos uma criança abusada sexualmente para termos acesso às dificuldades que o ambiente lhe proporcionará. Quando a onipotência introjetiva não encontra qualquer elemento no mundo que a sustenta — neste caso o reconhecimento por parte de um terceiro — ocorre um curto-circuito na construção do sentido. Quando o desmentido atinge uma área onde a afirmação de si seja prioritária, neste caso a verdade das próprias sensações, o que é desmentido é o próprio sujeito.

Para que o desmentido seja performativo e o trauma se efetive não é necessário que este terceiro emita sentenças específicas a respeito da criança. Basta que não a encare como uma pessoa com necessidades próprias. A ausência de reconhecimento característica do trauma não é um problema sensoperceptivo. Diante dos obstáculos típicos da vida, o infans escuta precocemente que ele deve se adequar ao mundo tal qual ele é, que nada pode fazer para transformá-lo, que o único modo de existir é na quietude, que deve aceitar prontamente aquilo que lhe é oferecido. O traumatizado se agarra à idéia de que tudo que lhe ocorre é fruto de um destino que nada quer e que precisa utilizá-lo como intérprete para provar o seu poder.

 

A clivagem do pós-traumática

A resultante psíquica do trauma denuncia a sua etiologia, ou seja, ocorre uma descontinuidade subjetiva radical que toma a forma de uma clivagem estável da personalidade, tão eficaz que não apresenta as características da fragmentação. A clivagem demonstra que não houve mediação entre dois modos diferenciados de uso da linguagem, que a descontinuidade foi tão extensa que não permite que os seus constituintes sejam percebidos como integrados imaginariamente numa mesma unidade narcísica. Devemos examinar mais detalhadamente este modo de funcionamento. No "Diário clínico" (Ferenczi, 1990), nosso autor fornece uma definição abrangente do trauma:

"`Comoção', reação a uma excitação externa ou interna num modo mais autoplástico (que modifica o eu) do que aloplástico (que modifica a excitação). Essa neoformação do eu é impossível sem uma prévia destruição parcial ou total, ou sem dissolução do eu precedente. Um novo Ego não pode ser formado a partir do ego precedente, mas a partir de fragmentos, produtos mais ou menos elementares de decomposição deste último. (Explosão, pulverização, atomização.)" (FERENCZI, 1990, p. 227)

Retemos desta definição que a atividade egóica se mantém após o evento traumático, embora à custa de uma neoformação possibilitada por fragmentos discursivos que pertenciam ao eu precedente ao trauma. Este aspecto diferencia o traumatizado do esquizofrênico. Ternura e paixão permanecerão isoladas na vida psíquica do sujeito, com poucas mediações capazes de constituir uma transição entre estes dois universos de interesse. Ferenczi, entretanto, aponta para uma conseqüência mais radical. Os fragmentos não são pedaços intocados da decomposição egóica, são novos arranjos lingüísticos inventados após a destruição do eu. Isto significa que tanto a linguagem da paixão quanto a da ternura não podem ser reconhecidas no discurso destes sujeitos. Elas apenas tomam parte, enquanto móveis privilegiados, na construção de uma nova subjetividade, baseada em novas regras semânticas. Para enunciá-las devemos primeiramente circunscrever quais são as suas vertentes. Ao contrário de Freud, que formulou a clivagem como a formação de fragmentos independentes que não se reconheciam e nem se influenciavam, Ferenczi sugere um mecanismo em que os fragmentos, apesar de não se reconhecerem, entram em conflito e produzem sintomas. Ao ressaltar a confusão de línguas, ele indica que os dois fragmentos que se estabilizam são a linguagem sufocada da ternura da criança e a culpabilidade da paixão sexual do adulto. Não encontrando outro termo para indicar o destino específico destas representações, Ferenczi utiliza a palavra "recalque" para demonstrar a presença de conflito. Curiosamente, não são atributos, crenças ou desejos referidos ao eu que são recalcados, mas sim a própria instância:

"A memória é, portanto, uma coleção de cicatrizes de choques do Ego. O pavor dissolve tão totalmente a rigidez do Ego (resistência) que o material do Ego torna-se como que fotoquimicamente modelável — e, de fato, ele é sempre modelado — pela excitação exterior. Em lugar de me afirmar, é o mundo exterior (uma vontade estranha) que se afirma às minhas custas, que se impõe a mim e recalca o Ego. (Será assim a forma original de recalcamento?)" (Ferenczi, 1990, p. 150)

A linguagem da ternura, aqui tomada como sendo o eu da criança, é recalcada pela linguagem do adulto. Como visto antes, o elemento recalcante, neste caso, não pode ser definido como supereu ou ideal de eu. Falta exatamente a sua capacidade de ser reconhecido como intimamente ligado à formação do sujeito e, portanto, ao domínio de si. O recalque é, desta maneira, um recalque exterior. O que torna os traumatizados diferentes dos paranóicos é o sucesso, entretanto, de uma segunda interiorização. Este sucesso é conferido pela manutenção de conjuntos inteiros de enunciados, alterando-se apenas os signos que indicam a posição do sujeito. Recalcar o ego é retirar dos enunciados subjetivos privilegiados a correlação entre palavras como me, mim, minha, eu, etc., e todo um conjunto lingüístico definido pela nossa cultura como referido à esfera da experiência privada, ao mundo das sensações imediatas e sentimentos, ao campo de exercício da autonomia individual.

 

O refúgio na figura do observador

Uma das conseqüências mais notáveis do trauma é a dissolução das correlações anteriores entre o eu e o que podemos denominar de vida sentimental:

"A pessoa divide-se num ser psíquico de puro saber que observa os eventos a partir de fora, e num corpo totalmente insensível. Na medida em que o ser psíquico ainda é acessível aos sentimentos, incide todo o seu interesse no único sentimento que subsiste de todo o processo, isto é, o que o agressor sente." (Ferenczi, 1990, p. 142)

Sublinho, consubstanciado pela citação acima, que os traumatizados não são pessoas frias e insensíveis. Apenas aponto que os sentimentos que dão sentido à existência e ao trauma deixam de ser referidos ao eu, e passam a integrar outra corrente. A conseqüência imediata é a estranheza radical que eles experimentam quando percebem que alguns sentimentos e sensações lhe dizem respeito. O refúgio na atividade da observação e no discurso da terceira pessoa4 faz com que eles se identifiquem a um grande olho imanente apenas à sua própria atividade de olhar. Eles jamais podem ser observados, na medida em que a criança terna sufocada que foram tornou-se radicalmente um outro, passível do olhar apenas por essa característica de identificação com o olhar, e não que o observado ou olhado. Olhar para o que outrora fora seu eu é olhar para o outro, esta é a extensa descontinuidade produzida pela clivagem.

O jogo de linguagem do observador traumatizado apresenta ainda outra peculiaridade. Qualquer correlação entre observador e observado deve ser silenciada. Isto só ocorre se o olho do observador for de tal forma onipotente a ponto de retirar do discurso do observado qualquer positividade sensível.
O sofrimento do observado é apenas um jogo vazio de palavras sem referentes, que pode ser eliminado pela utilização correta de palavras pelo observador.
A gramática universal e a semântica derradeira livrariam o sujeito de suas mazelas e o fariam ser vitorioso diante do trauma. A clivagem é o testemunho de um projeto paradoxal. Por um lado, priva-se o sujeito de seus referentes habituais, por outro, criam-se novos referentes formados, aparentemente, frisamos, por palavras sem referentes. Isto porque a única maneira de dividir observador e observado é assumir que o sujeito está todo contido no olhar do observador e que este é somente, eternamente, observador. Nada nele pode ser observado e, portanto, relativizado. A ele devo me submeter de modo radical, pois é ele quem enuncia minhas verdades inquestionáveis e por ele devo renunciar a mim mesmo.

Quando disse que a linguagem da ternura não pode mais ser reconhecida nestes sujeitos, reitero apenas que a continuidade entre eu e ternura foi rompida de modo violento. Não encontramos, na clínica cotidiana, sujeitos com esta configuração subjetiva que expressem qualquer sentimento terno em relação a si. Um fato marcante, todavia, que pude perceber, é a disposição que eles apresentam para a solidariedade e o cuidado ao outro. Salvo quando imersas em episódios depressivos severos, estas pessoas são capazes de atos altruístas raramente concebíveis. O desamparo do outro as toca com uma intensidade que muitos de nós perderam ao longo da vida. Tudo que elas não podem sentir em relação a si são deslocadas para o outro em sofrimento. Esta forma particular de expressão da ternura não sucumbiu ao modo desafetivizado próprio ao funcionamento do observador. A clivagem a atinge apenas quanto a seu alvo. A sobrevivência, para o exterior, da ternura é, por vezes, uma via clínica que deve ser explorada. Seguiremos agora o retorno do clivado que se expressa em sintoma. Se levarmos em conta as proposições de Ferenczi, o que insiste em retornar é o próprio eu, clivado pela culpa do adulto.

 

A culpa de ser

Devemos percorrer o caminho traçado pela culpa. Quando esta palavra foi incorporada violentamente pela criança como lhe dizendo respeito, muito poucos referentes estavam a ela associados. Podemos dizer que a culpa é um signo sem qualquer sentido no jogo de linguagem da criança, que instiga, entretanto, a que a gramática da criança absorva o novo elemento, o que só pode ser feito se ela inventar novos jogos de linguagem ou rearranjar substancialmente aqueles já existentes. Por que a culpa não tem sentido para a criança?

Examinemos rapidamente a gênese da culpabilidade proposta por Freud. Embora ele tenha concebido um universo rudimentar da culpa (ver BALADIER, 1996) em termos narcísicos, organizado sobre a fórmula de angústia frente à perda do amor dos pais, os principais elementos que dão consistência à teoria freudiana da culpa são referenciados ao surgimento do supereu, sob a primazia do complexo de Édipo. O duplo crime edípico — incesto e parricídio — é o principal móvel para a comiseração. É a configuração estável de uma instância interiorizada, herdeira do complexo de Édipo, que torna a culpa uma das formas principais de reação frente aos desejos interditados pela lei paterna.
A culpa é ainda uma expressão da tensão entre eu e supereu, instância esta que se forma sob o jugo da pulsão de morte. Não é difícil perceber que o jogo de linguagem da culpa da paixão sexual não pode ser introjetado pela criança em tenra idade. Ferenczi não vê qualquer evidência de que os desejos ligados ao incesto e parricídio presidam esta etapa da vida. A linguagem lúdica e mimética da criança não correlaciona tomar o lugar da mãe ou do pai com travar para com o outro genitor comércio sexual. Ser o outro é simplesmente condição para a vida, é uma maneira de construir a própria identidade. O desejo de ser, como podemos denominar a linguagem da ternura, é, além disso, primário, ou seja, não é condicionado pelo desejo sexual em relação a um objeto específico.5

Farei agora um pequeno desdobramento. Como encontramos entre os sujeitos traumatizados todas as características discursivas da culpa de modo, inclusive, bastante sofisticado, podemos supor que este elemento encontra neles ressonância gramatical. Se todo o exposto antes me levou a rejeitar a introjeção da culpa passional como heurística da clivagem, estamos em condições de propor a correlação da noção de culpa com outro universo semântico. O elemento impossível de ser introjetado, como notado, é a culpa edípica do adulto. A criança não possui vocabulário para correlacionar a linguagem da mímesis com o crime da sexualidade, entretanto, ela é capaz de assumir todos os outros aspectos da culpa, tais como a comiseração, a imputação compulsiva de responsabilidade a si, a percepção de ter cometido um ato condenável, dentro da sua forma de usar a linguagem. Se caracterizarmos a ternura como uma modalidade de expressão do desejo relativamente independente, podemos sugerir que no traumatizado a culpa se dirija eminentemente a desejos ternos. Se a culpa, pelo mecanismo de identificação com o agressor, ocupa um alto posto na hierarquia moral do sujeito, sendo impossível manter-se neutro diante dela, o único desejo reconhecido pela criança como capaz de ser imputado como seu móvel é o desejo mimético de ser.6 Esta é a maneira pela qual a culpa passional do adulto é degradada no universo psíquico da criança tornando-se culpa por ser. Percebo alguma afinidade entre esta modalidade paradoxal de culpa e a culpa narcísica, definida por Freud como angústia diante da perda do amor parental. É evidente que isto deve ser ratificado pelo terceiro que, ao produzir o desmentido fazendo a criança duvidar de seus próprios sentidos, joga-a nos braços da mãe de todos os dramas. O apego que a criança adquire pela nova posição advém do fato de que foi através da culpa de ser que ela pôde se separar paradoxalmente do outro, que ela pôde assumir sua única identidade possível, que ela pôde reconhecer a presença de um desejo a ela dirigido.

 

Considerações finais. De ser observador a ser percebido

A culpa de ser é geralmente voraz a ponto de restringir substancialmente a sensação de existência do sujeito. O único universo pragmático relativamente livre desta modalidade de culpa é aquele definido pelo imperativo ser observador. Ser observador é condição de vida e não se confunde com ocupar o papel de narrador. Entre os neuróticos, quando um discurso diz respeito a si, o sujeito pode ser expresso tanto pela figura do agente na primeira pessoa quanto pela figura do narrador na terceira pessoa. É exatamente deste jogo entre essas duas posições que o processo analítico se serve para relativizar o lugar do falante, para fazê-lo ter menos apego a seus sintomas. Isto só é possível porque há um mínimo de continuidade entre aquele que sente e age e aquele que descreve o que sentiu e como agiu. Há continuidade, mas não identidade. Quando descrevemos nossas ações não estamos agindo no mesmo momento da descrição. Existe uma alteridade radical entre primeira e terceira pessoas, porém quando o discurso diz respeito ao domínio de si, há uma solidariedade entre elas que permite a sensação pré-reflexiva de que nos mantemos os mesmos quando falamos. Descrever a si, não pode ser o mesmo que descrever as células da epiderme de um urso polar, salvo raríssimas exceções. Na psicanálise, conhecemos instâncias ou registros que efetivam esta continuidade, seja ela a unidade narcísica para Freud, o registro imaginário para Lacan, ou o espaço potencial para Winnicott,7 para citar apenas estes.

Voltando ao sujeito traumatizado ferencziano, esta continuidade mínima foi rompida de modo radical, com conseqüente hipertrofia do discurso psicológico da terceira pessoa. Tal é a diferença entre o narrador e o observador. O observador (em função da descontinuidade com o discurso na primeira pessoa), ao contrário do narrador, não consegue narrar qualquer fato sobre si, apenas observa o outro. Observar o outro, mesmo que este outro pareça consigo, é a única ação reconhecida como sendo sua. Quando o sujeito está observando, ele esta sendo e agindo, entretanto ninguém pode descrever seus atos, muito menos ele próprio. O seu repertório pragmático torna-se, portanto, muito limitado. É evidente, como adverte Freud, que a vida impõe empecilhos poderosos à realização deste ideal de pura observação. Tudo o que está sob o jugo da clivagem insiste em retornar, e o que retorna, se seguirmos a sugestão de Ferenczi, é o próprio eu, em um amálgama no qual se sobressai a figura discursiva da primeira pessoa. A descontinuidade radical da clivagem faz com que o sujeito não possa suportar esta emergência, faz com que ele não possa relativizá-la, devendo se submeter completamente a este intruso inesperado. Na clínica da melancolia, isto parece ocorrer de maneira evidente. Nestes casos, o que é exteriorizado é um sentimento absoluto de desamparo, impotência, eterno sofrimento em função de um destino desde sempre desenhado. O sujeito melancólico, sobretudo em situações de crise, parece não reconhecer qualquer outro atributo que não a miserabilidade de sua vida. A clivagem o impede de fazê-lo, mas se ela for minimamente bem sucedida, esta forma de expressão da primeira pessoa pode desaparecer para reaparecer integralmente no próximo episódio depressivo.

Embora este artigo não tenha por objetivo discutir nossas possibilidades terapêuticas com estes clientes, não posso deixar, agora, de aludir a uma aposta. Se nós, analistas, nos responsabilizarmos pelo trabalho de observação, se aceitarmos esta tarefa, ao menos num primeiro momento, sem muitas restrições, talvez nossos clientes possam dar, lentamente, outros passos em novas direções. Se pudermos transformar as suas demandas por observação em sintoma analítico e não os colocarmos diante de outras exigências inalcançáveis, quem sabe eles se dêem conta de que há em seus corpos movimento, que eles podem agir e deixar para outrem a tarefa de observar o que fazem. É necessário não se deter neste ponto, na medida em que em algum momento ser observado não pode equivaler a ser percebido. Há uma assimetria entre a posição de observador absoluto do sujeito, como um sintoma, e a posição relativa de escuta e olhar do analista. O analista pode produzir uma torção na demanda de observação, tomando para si a tarefa de instituir o seu olhar (e olhar é algo sempre parcial e relativo) desejante como ponte entre paixão e ternura, palavra e corpo, ação e descrição, emoção e racionalidade. Um sujeito captado pelo olhar do outro talvez possa abrir mão de se render de modo incondicional ao grande olho do destino com o qual ele se identifica de modo narcísico. Infelizmente, minha experiência com estas pessoas me impede de alimentar qualquer esperança redentora para com eles, mas somente quem se dedica a este trabalho pode aquilatar o discreto impacto que ele pode ter em algumas trajetórias. Não foi sem surpresa que escutei de Telma:

"Eu nunca consegui viver como todo mundo diz que vive. Vida e não-vida sempre teve muito pouca diferença para mim. Desde criança eu ficava olhando para uma pedra e me perguntando: qual é a diferença entre eu e você? Não conseguia encontrar resposta, porque eu achava que sentia tanto quanto ela, muito pouco. Hoje, de vez em quando, eu acho que sou diferente da pedra. Em alguns momentos, às vezes quando venho pra cá, às vezes quando estou com minha filha, sinto que não preciso sentir qualquer outra coisa, que a minha voz sai de mim e eu não penso nisso na hora. Quando eu não penso na hora é que eu vejo que sou diferente da pedra. Mas isso é tão raro de acontecer..."

Palavras como essas têm, certamente, muito mais importância do que todas aquelas que sou capaz de escrever.

 

BIBLIOGRAFIA

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Recebido em 19/2/2002. Aprovado em 27/4/2002.

 

 

* A elaboração deste texto não seria possível sem a colaboração de todos os membros do grupo de pesquisa coordenada pela professora Tereza Pinheiro, no Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ. Agradeço também a todos os colegas do Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Ação e Sujeito (Nepas-IMS-Uerj), coordenado pelo professor Jurandir Freire Costa, pela oportunidade de discussão de seu conteúdo. Por fim, a leitura atenta de Daniela Romão-Dias permitiu o seu formato final.
1 Corroboro, neste ponto, a hipótese de Pinheiro (1995a, 1997, 1998, 1999), segundo a qual há uma organização metapsicológica comum, embora não saibamos a real extensão desta semelhança entre sujeitos melancólicos e estes outros sujeitos apontados acima. A partir da pesquisa clínica "Comparação clínica e metapsicológica entre pacientes melancólicos e pacientes portadores de lupus eritematoso sistêmico", coordenada por Tereza Pinheiro e por mim (PINHEIRO & VERZTMAN, 2002) poderemos verificar a pregnância, ou não, desta mesma configuração entre pacientes definidos pela medicina como grandes somatizadores. Sobre descrições semelhantes na melancolia, ver Verztman (2001).
2 Grosso modo, podemos definir a teoria representacional como aquela que deriva representações mentais da percepção dos objetos. Segundo Wittgenstein, esta proposição é tributária do que ele define como concepção agostiniana da linguagem, segundo a qual o significado das palavras é produto de um processo cunhado de definição ostensiva. Esta idéia geral permeia toda a psicanálise até o surgimento da teoria lacaniana. Uma crítica à teoria representacional pode ser encontrada no próprio Wittgenstein (1985) e em vários de seus comentadores, entre eles Faustino (1995) e Delgado (1986).
3 A linguagem da ternura é descrita por Ferenczi como aquela preenchida por fantasias lúdicas, nas quais a idéia de mímesis ocupa posição central. Vejamos esta passagem: "As seduções incestuosas produzem-se habitualmente assim: um adulto e uma criança se amam; a criança tem fantasmas lúdicos, como manter um papel maternal em relação ao adulto. Este jogo pode tomar a forma erótica, mas permanece ao nível da ternura" (Ferenczi, 1933/1986, p. 351). Depreendemos que a ternura, embora seja a expressão da pulsão, não é erótica, não é definida pela posse de objetos, mas pelo desejo de ser o objeto, de tomar seu lugar, de cuidar dele. Ao contrário, a linguagem da paixão é caracterizada pela excitação erótica e pelo desejo de dispor do objeto.
4 Utilizo aqui a assimetria proposta por Wittgenstein entre o discurso da primeira pessoa e o discurso da terceira pessoa. Em trabalho anterior (VERZTMAN, 1997a) desenvolvo com mais profundidade este ponto, que será retomado ao final do presente artigo. Para Wittgenstein as frases psicológicas na terceira pessoa se prestam à observação e à verificação. Em função de uma relativa distância do enunciado que tomo como objeto, posso compará-los com outros que assumo como verdadeiros e verificar sua adequação ou coerência em relação a estes últimos. Com grande dose de simplificação, podemos dizer que este é o modo de operar da ciência.
O discurso psicológico da primeira pessoa só pode ser expresso, ou, na tradução de Faustino (1995), exteriorizado. Bouveresse (1987) caracteriza esta forma de discurso como eu-sujeito, por oposição a eu-objeto. O eu-sujeito é expresso por frases como "eu vejo uma árvore". Aqui a frase não pode ser verificada e o sujeito não pode se enganar. "Eu vejo" não se presta a dúvidas para aquele que vê. Pode ser verificado apenas, caso isto seja importante no contexto, se a árvore lá se encontra para um observador externo, mesmo que este seja o próprio indivíduo. A linguagem da primeira pessoa é, assim, pré-reflexiva e não visa ao conhecimento, mas à exteriorização de comportamentos. A hipótese principal deste artigo é de que a linguagem da primeira pessoa é formadora da experiência de ser, e encontra sérias barreiras para ser utilizada entre os sujeitos traumatizados.
5 Para uma crítica acerca da universalidade da gênese sexual do sujeito em psicanálise, ver Costa (1995b) e Ferraz (2000).
6 Para uma discussão sobre a noção de mímesis, ver Borch-Jacobsen (1991) e Verztman (1997b).
7 É importante ressaltar que há diferenças importantes entre cada um destes conceitos, sobretudo entre os dois primeiros e o espaço potencial (Winnicott). Afirmo apenas que em cada um deles podemos verificar a marca da continuidade da sensação de ser que permite a correlação entre os dois modos de uso da linguagem ora postulada.

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