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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.12 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982009000100009 

ARTIGOS

 

Criação, afetação e paradoxo em psicanálise

 

Creation, affection and paradox in psychoanalysis

 

 

Eduardo Rozenthal

Psicanalista, doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor da pós-graduação (Cepcop) da Universidade Santa Úrsula e professor da pós-graduação da Universidade Estácio de Sá. rozen@infolink.com.br

 

 


RESUMO

Pretende-se alinhavar uma compreensão teórica da análise de um sujeito compulsivo da atualidade. As subjetividades contemporâneas sofrem de adversidades da criação de si, para além da dinâmica das representações, entre o recalcado e o sintoma. A compulsão é uma tentativa malograda de inscrição pulsional e somente o paradoxo da afetação transferencial - ao mesmo tempo, afetar e ser afetado - contribuiria para o desvio do gozo. Para além da interpretação do que o analisante não diz, trata-se da possibilidade de acolhimento do que jamais poderia ser dito, mas apenas sentido.

Palavras-chave: Criação de si, afeto, paradoxo.


ABSTRACT

The aim of the article is to outline a theoretical understanding of a current compulsive subject analysis. The contemporary subjectivities suffer of self-creation problems, beyond the dynamic of the representations, between the repressed and the symptom. The compulsion is a failure pulsional inscription try and only the transferencial affection paradox - at the same time, to affect and to be affected - would contribute to lust (jouissance) deviation. Beyond the interpretation of what the analysand doesn't say, what is at stake is the possibility of the reception that could never be said, but only felt.

Keywords: Self-creation, affection, paradox.


 

 

PARA ALÉM DA INTERPRETAÇÃO

Observamos que as relações humanas vêm, hoje em dia, sendo estruturadas, de forma compulsória, pela dimensão econômica. A ação deletéria do marketing invasivo de alta tecnologia tem tomado o lugar do diálogo, deflacionado nas esferas sociais ou políticas do mundo "ciberespacial" da atualidade (LÉVY, 1999). A morbidez subjetiva do terceiro milênio expressa uma disfunção dos encontros subjetivos diferente daquela que mobilizava os sujeitos ditos modernos, marcados que eram, acima de tudo, pelas vicissitudes da interlocução, da linguagem e da representação. De fato, para Freud, as patologias da subjetividade seriam compreendidas pelo movimento relativo das representações psíquicas, investidas pelos quanta de afeto (FREUD, 1915a/1986).

O mal-estar neurótico seria, então, descrito por Freud (1914a/1986) com os recursos teóricos fornecidos pela sua metapsicologia da representação. As representações insuportáveis seriam recalcadas pelo eu com o intuito (vão) de atender aos ditames do ideal do eu - mais tarde, equivalente ao todo-poderoso supereu moderno. Tal operação defensiva produziria, contudo, a angústia de castração cujo caráter aversivo seria o motor do sintoma.

Ao contrário, o sofrimento psíquico do sujeito contemporâneo se coloca, dos pontos de vista tópico e dinâmico, para além da subjetividade e do recalque, respectivamente. Nos dias de hoje, a inoperância das leis da representação simbólica ou, em última análise, a decadência dos encontros estruturados pelo diálogo aponta, antes, para uma "franja" da subjetividade. Para o sujeito atual, o padecimento emana das dificuldades da fixação da força da pulsão. Tanto os sujeitos denominados 'depressivos', como os compulsivos ou os adictos da "sociedade de consumo" atual sofrem de adversidades da subjetivação, isto é, de dificuldades da criação de si mesmos (subjetividade), no campo do Outro. Mais do que problemas referentes ao funcionamento do recalque e seus sintomas, as subjetividades atuais são afligidas, antes de tudo, por distúrbios decorrentes do excesso pulsional.

O objetivo deste artigo é acompanhar, ainda que de forma esquemática, um caso clínico típico da atualidade, alinhavando teoricamente, uma descrição da análise correspondente. Neste caso, se tornou evidente a necessidade de articular o que chamamos de agenciamentos transferenciais à utilização - e compreensão -, pura e simples, da interpretação. Reduzir a transferência ao âmbito da subjetividade edipiana e ao manejo da interpretação, no jogo entre recalcado e sintoma, não poderia atender, de modo adequado, aos sintomas singulares de nossos dias.

É certo que interpretar as resistências já não dava conta da totalidade do padecimento psíquico, ainda à época de Freud (1937/1986). De fato, no contexto social de "Viena-fim-do-século", os "limites da subjetividade" já vinham interpelar o pensamento freudiano. Com menos frequência e intensidade do que hoje, ainda assim, a franja da subjetividade já impunha aos conceitos, a renovação contínua dos seus enunciados. Constata-se, então, um dos postulados epistemológicos centrais da teoria freudiana (FREUD, 1914a/1986), a saber, que os enunciados teóricos jamais poderão esgotar as estratégias clínicas adotadas. Estas últimas exigirão sempre a reformulação daqueles.

É notório que, dia a dia, adotamos procedimentos analíticos de cunho eminentemente empírico, que emanam do questionamento imposto pela clínica da atualidade sem que possamos, contudo, muitas vezes, organizar formulações teóricas que os possam respaldar. Se assim não fosse, se as estratégias analíticas tivessem se mantido inalteradas diante da produção contemporânea de subjetividades, com certeza a psicanálise não estaria mais no cenário das terapêuticas psíquicas no século XXI. Com efeito, os analistas vêm, repetidas vezes, lançando mão de expedientes clínicos inovadores para tratar das situações-limite. Coloca-se, portanto, antes de tudo, a necessidade de apoiar teoricamente os expedientes analíticos que já vimos utilizando, face à inusitada insistência da invasão do excesso pulsional nas análises de hoje.

Trabalhar os conceitos psicanalíticos, no rastro da inspiração epistemológica de Freud significa dar a eles uma inflexão mais ampla, permitindo dilatar o domínio de sua abrangência. Por conseguinte, com mais forte razão ainda do que à época de Freud, em nossos consultórios a interpretação deverá se deixar articular aos agenciamentos analíticos que lidam direto com a força sem representação da pulsão.

Contudo, faz-se necessário notar por último que não se trata, na clínica contemporânea, de preferir os ditos agenciamentos transferenciais à utilização da interpretação. Não é o caso de se considerar obsoleto ou secundário o instrumento da interpretação das resistências inconscientes.

Efetivamente, devido à grande frequência da presença do excedente pulsional no cotidiano de nossas clínicas, a interpretação deverá, amiúde, ser precedida pelo trabalho de agenciamento para a inscrição da pulsão, isto é, pelo trabalho de construção do inconsciente. Nesta medida, este último se apresenta como a condição analítica de possibilidade da primeira.

 

O BINÔMIO MÓRBIDO DA SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA

Este é o caso de Pedro, jovem de 20 anos incompletos e estudante universitário à época em que me procurou. Filho de pais separados, intelectuais. Pedro é interessado e emocionado, romântico, místico e curioso. Contudo, seus dias são monótonos e desvitalizados. São poucas as realizações que o gratificam. De modo geral, se encontra possuído por um tédio contínuo e avassalador, acompanhado de um sono quase incontrolável.

De pais que pertencem à geração marcada pelos valores da juventude dos anos 70 - ele é filho de professores universitários que viveram a contracultura, isto é, o momento de báscula das grandes instituições culturais modernas. O desenvolvimento acelerado das novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC) se coloca como pivô da crise institucional que hoje atinge seu clímax (CASTELLS, 1999).

Para aqueles que, não como os pais, mas decerto como os avós de Pedro, foram jovens na estável modernidade técnico-burocrática de base científica, a face coercitiva da sociedade se discriminava com clareza. De fato, o dispositivo de poder do capitalismo industrial permitia a identificação do comando opressivo que se expressava com nitidez. Tornava-se óbvia, ainda que dolorosa, a dicotomia moral entre opressor e oprimido ou, de modo amplo, entre certo e errado (EHRENBERG, 1998).

Deste cenário maniqueísta, sairiam potencializadas as representações simbólicas do grande Outro. Deste patamar, as instituições sociais, muito fortalecidas, ofereciam, sequencialmente, modelos consistentes para a constituição das subjetividades. Assim, as identidades de pai, professor, patrão ou, por vezes, médico ou carcereiro seriam, por analogia, equivalentes e serviriam como ideal (do eu) ou referência sólida para as subjetividades que então se produziam.1

Se considerarmos o quadro cultural de hoje, podemos dizer que o sofrimento psíquico de Pedro é característico de uma nova modalidade de subjetividade.2 Pedro busca sem parar referências seguras, quadros ideais estáveis que possam fornecer material para identificação subjetiva, orientação ou inspiração. Entretanto, não encontra o que procura, quer no ambiente familiar, quer no âmbito social do trabalho ou do estudo. A incompetência estrutural das instituições atuais oferece a Pedro um mundo não confiável: o interesse econômico hegemônico açambarca os encontros, transformando as relações em commodities. O padecimento subjetivo de Pedro é típico de um jovem de classe média das grandes metrópoles ocidentais de nossos dias.

Pedro se vê atormentado pelo fascínio da oferta falaciosa das mais variadas e valorizadas "mercadorias" criadas pela tecnologia de ponta. No seu caso, os "maravilhosos objetos" se dão sob a forma de incontáveis opções de estudo ou de trabalho ou, ainda, de inéditas possibilidades amorosas, que lhe chegam, sem descanso, pelas redes informáticas e telemáticas. A hipervalorização dos produtos tecnológicos da atualidade, alardeados pela mídia, a um só tempo, competente, agressiva e sem ética, sustenta o consumo desenfreado. Diante da impositiva necessidade de escolhas incessantes dentre as incontáveis alternativas, Pedro é incapaz de distinguir o objeto que prefere e o sentimento de indecisão o assola. De fato, quando a pletora de objetos se coloca no horizonte de satisfação do desejo, é o próprio desejo que vacila.

Para a compreensão do caso de Pedro é preciso também fornecer as características centrais do correspondente quadro edipiano. Poderemos reconhecer, ainda na apresentação de tais aspectos distintivos, as marcas da atualidade social. Para que possamos melhor acompanhar o trabalho analítico efetuado, devemos descrever, mesmo que de modo muito esquemático, as relações representacionais que o sujeito estabelece com a castração.

A mãe de Pedro, inequivocamente fálica, seduz o filho, omitindo qualquer referência à desgastada lei do Pai da atualidade. Sem remeter a potência do lugar que ocupa a uma instância terceira, sua mãe acaba por encarnar tal lugar, se tornando, então, o espelho do poder absoluto. Esta representação psíquica restringe as alternativas que poderiam retirar o rapaz do encantamento paralisante em que se encontra. Por outro lado, o pai de Pedro se associa à demanda sedutora da mãe. Absorto por seu novo relacionamento amoroso e pelas exaustivas necessidades profissionais, típicas da nova dinâmica do trabalho, o pai quase não se volta para Pedro, reduzindo seus esparsos encontros a desagradáveis determinações de controle da economia do filho.

A articulação intrínseca entre a falta de modelos identitários (em meio à deflação institucional atual) e a ausência do desejo (na sociedade de consumo) é o pano de fundo subjetivo que se vê constelado no - e catalisado pelo - triângulo edipiano. A depressão de Pedro viria a convergir com a compulsão, estabelecendo o binômio mórbido da atualidade. No seu caso, o uso compulsivo da droga se associaria à depressão.

 

AS VICISSITUDES DA CONSTRUÇÃO (CLÍNICA) DO INCONSCIENTE

A problemática do sujeito contemporâneo extrapola o domínio simbólico. Impõe-se, então, o trabalho clínico com a inscrição das forças extra-subjetivas da pulsão. Contudo, por um lado, Pedro me identifica com o pai, o que faz com que a angústia de castração aumente. Na tentativa de aliviar a tensão, ele estabelece comigo uma rivalidade agressiva. Tal quadro neurótico poderá, no entanto, ser tratado pela interpretação das representações inconscientes.

Porém, quando a transferência se coloca para além do quadro propriamente subjetivo e o gozo do sintoma avança, de pouco - ou de nada - adiantaria o simples uso do dito operador clínico, sem o trabalho preliminar de agenciamento da força pulsional. Neste último caso, sou alçado por Pedro à posição de espectador da cena de consumo exagerado de drogas. O gozo do sintoma se expressa pela repetição da exibição desmedida, pela desapropriação subjetiva nas narrativas que enceta, marcadas quase sempre pela angústia.

Ao insistir no uso da interpretação das resistências, frente às excitadas descrições das noitadas animadas pelas drogas, verifico que nada de significativo ocorre na dinâmica desejante de meu analisante. Diante da interpretação inócua, resta a Pedro o caminho da atuação (acting out) e do gozo. Deste modo, aumentam ainda mais a sua ambiguidade, confusão, dificuldade de decisão ou, então, por outro lado, o tédio e o sono paralisantes.

Neste contexto, torna-se imperativo adotar uma estratégia clínica para além da interpretação, propiciando a construção de um campo transferencial que favoreça a inscrição da pulsão. Com efeito, para a dita depressão da atualidade, o que está em jogo não são apenas os desajustes dos circuitos do desejo, mas, antes, as linhas de força da fixação da pulsão. Interpretar a (na) transferência não seria suficiente - nem, tampouco, conveniente - uma vez que o desejo não comparece ou, por outra, sequer o sujeito advém.

Nestas situações, a interpretação cujo objetivo é a reorganização das representações edipianas face à angústia de castração se mostra, amiúde, ineficiente. É certo que a hermenêutica analítica é capaz de provocar deslocamentos e condensações inconscientes, bem como contra-investimentos (pré-)conscientes. O recalcado e o seu retorno são efetivamente mobilizados pela interpretação das resistências, suscitando a elaboração psíquica em torno da coesão, unidade e identidade do eu (FREUD, 1914b/1986).

Contudo, as disfunções dos sujeitos atuais são, antes de tudo, a consequência psíquica de distúrbios pulsionais. Trata-se de dificuldades da criação do inconsciente e de seu princípio regulador. Hoje em dia nos encontramos, com extrema regularidade, diante da compulsão de repetição, para além do princípio de prazer.

É preciso, por último, observar que os desajustes da fixação da pulsão não excluem os entraves ao funcionamento psíquico da economia representacional do desejo (Édipo e castração). Sendo assim, diante da frequência e da intensidade do sofrimento devido ao excesso pulsional, cada vez maiores nas situações analíticas atuais, a análise contemporânea deverá permitir a articulação clínica da interpretação ao trabalho sobre a pulsão-força. Desta maneira, a transferência se capacitaria a incorporar estratégias que permitissem lidar diretamente com a pulsão, isto é, com as vicissitudes da criação do inconsciente, para além da interpretação deste último.

 

O PARADOXO DA CRIAÇÃO DE SI

Situar a transferência no nível da inscrição da pulsão equivale a deslocar o foco teórico e clínico, afastando-o dos sistemas ou das instâncias psíquicas e do funcionamento do recalque (ROZENTHAL, 2003). A topologia freudiana (FREUD, 1915b/1986) situa a pulsão além dos circuitos psíquicos, sejam conscientes, sejam relativos ao desempenho fantasmático do desejo. De fato, Freud eleva a pulsão à condição de força motriz para a constituição do próprio desejo inconsciente, isto é, para a criação de si.

Contudo, a pulsão enquanto força é, ao mesmo tempo, a negação absoluta da subjetividade. A ameaça de trauma ou a angústia automática, esta última, oriunda da invasão do terreno psíquico pela pulsionalidade sem qualquer princípio de funcionamento, coloca a subjetividade, continuamente, em perigo.

Eis o paradoxo da criação de si em psicanálise. Há uma espécie de "reserva" pulsional, não inscritível, que garante a independência da pulsão, em sua interminável insistência. Por outro lado, a "tendência" da pulsão, isto é, perseverar em seu ser de pulsão, equivale à criação da subjetividade.3

A partir de certas condições, o limiar é atingido, isto é, a pulsão-força se "desdobra" em representação, ensejando a subjetividade sem, no entanto, deixar de permanecer "dobrada" como força pulsante. Esta última esposaria a subjetividade "na superfície" sem, contudo, deixar de se manter divorciada dela "na profundidade", insistindo em sua autonomia de pulsão.

Percebemos, então, que, diferente da contradição dialética do tipo a ou não-a, que preserva a identidade do conjunto, é o paradoxo - a e não-a - que traduz a potência criativa da pulsão. Para o que diz respeito à pulsão, não há identidade antecessora e nenhum conjunto, regulado por qualquer princípio organizador, pode se constituir. Melhor seria, então, descrever a subjetividade como uma potência da pulsão.4

É preciso, ainda, compreender que o limiar em questão não corresponde ao simples incremento gradativo da "natureza" pulsional até o ponto em que a pulsão, por fim, poderia ser representada. A concepção de limiar não pretende sugerir a ideia de integração de uma pulverização "microscópica" até que se constitua uma unidade "macroscópica" da mesma natureza. Não se trata de mera questão de escala. De fato, o processo de criação de si exige que se admita, do ponto de vista do "além", o paradoxo da negação absoluta do que se cria ou, ainda, que se enuncie a "condição de possibilidade" da criação da subjetividade em psicanálise.5

Por tais razões, a subjetividade que se configura como campo das representações psíquicas exige a concepção da pulsão como "irrepresentável". Assim, a pulsionalidade jamais poderia ser expressa pela fala, pela comunicação ou pela simbolização. Ao contrário, a força pulsional não poderá nunca ser capturada pela linguagem, constituindo antes uma zona de variações sutis, imperceptíveis e indeterminadas. A pulsão se evidenciará, então, pelo "campo paradoxal de afetação" cujos signos transferenciais, apresentaremos mais adiante.

A manifestação clínica da pulsão não poderia, portanto, jamais ser representada pelo discurso do analisante. Nem mesmo os derivados do inconsciente, tais como sintomas, atos falhos, sonhos, fantasias, chistes, etc. teriam a capacidade de traduzir o que é da pulsão. Como tal, a força pulsional não poderia tampouco ser objeto da escuta do analista.

Podemos relacionar o trabalho transferencial na franja da subjetividade ao que Foucault (1994) denominava de criação de "estilo", isto é, constituição de novos modos de ser "si mesmo". Na gramática psicanalítica, é possível retraduzir a proposta foucaultiana pela figura da construção analítica da subjetividade. A inscrição da pulsão é a condição efetiva de possibilidade do funcionamento do recalque. Sendo assim, o trabalho de agenciamento da força pulsional equivale à construção clínica do inconsciente e deverá se exercer na ausência do campo semântico da palavra.

 

AGENCIAMENTOS TRANSFERENCIAIS: CLÍNICA E CRIAÇÃO

O tratamento dos distúrbios da inscrição pulsional corresponde ao deslocamento da satisfação imediata da pulsão. A construção transferencial de um campo que favoreça o processo de inscrição da pulsão poderá ser empreendida por meio de agenciamentos diretos. Contudo, a transferência que assim se estabelece não excluirá a interpretação que visa o tratamento das disfunções do recalque.

De fato, a inscrição pulsional que se empreende pela via de um agenciamento poderá acarretar um incremento do recalque. Do obstáculo ao gozo extrapsíquico surgiria uma corrente subjetiva que fortalece o recalque. Não é de se estranhar, portanto, que expedientes analíticos que, efetivamente, bloqueiam o gozo, produzam novas e distintas consequências desprazerosas.

Não obstante, o sintoma que, desta maneira, sofreria um novo investimento, poderá ser objeto da interpretação do analista. Os expedientes analíticos poderão, portanto, ser articulados em consonância com a descrição do movimento da subjetividade - ou da subjetividade como movimento -, isto é, a dinâmica da constituição do inconsciente e o conjunto de mecanismos representacionais do recalque e do retorno do recalcado (ROZENTHAL, 2003).

Para o que é da pulsão, não se trata da utilização de procedimentos analíticos baseados na racionalidade do sintoma. Para o agenciamento da pulsão, seria preciso que o analista fosse capaz de deslocar os pressupostos da escuta das resistências inconscientes. Contudo, apenas a posteriori, no seguimento da análise, é ainda a escuta das renovadas possibilidades narrativas do analisante que seria capaz de atestar a convergência dos ditos agenciamentos com a efetiva contenção do gozo pulsional. Para tornar mais claro o que acabo de expor, passo à descrição das estratégias transferenciais que adotei no caso de Pedro.

Após alguma hesitação, Pedro começa a discorrer a respeito da experiência com as diferentes drogas. Sinto em suas longas e detalhadas narrativas uma boa dose de gozo pela exibição do que lhe parece ser, a meus olhos, uma mistura de, por um lado, coragem e desprendimento e, por outro, desamparo em que o efeito da droga o coloca.

Poderíamos, em princípio, tentar traduzir tal sentimento pela noção de contratransferência. Contudo, este expediente traria a desvantagem de dicotomizar a situação clínica (transferência e contratransferência), desmobilizando o potencial do encontro analítico. Mas, não é só isso que nos leva a preferir a ideia de agenciamento. Para esta última o que está em jogo não são os sentimentos formais ou as sensações determinadas do analista, oriundas da relação com o analisante.

De fato, ao utilizar o verbo "sentir", pretendo referir a "presentificação" do campo paradoxal de afetação não representacional ou de uma "atmosfera" de "pequenas percepções" imperceptíveis.6 Em suma, o agenciamento direto da força pulsional lida com sensações sutis e sentimentos indeterminados, mas que, ainda assim, encontram-se, inequivocamente, presentes no cenário da transferência.

Com o uso do verbo sentir, procuro, portanto, marcar o afastamento clínico da esfera da "escuta" das representações, com finalidades interpretativas e o deslocamento em direção à operação de construção do inconsciente. Contudo, a "compreensão do que sinto" só se poderá efetivar no território semântico, onde avalio, ainda que teoricamente, as razões associadas aos ditos sentimentos.

Pedro descreve, com confusa minúcia, os encontros com amigos para a ingestão sucessiva de "fumo" (maconha) e "doce" (LSD). Frequenta festas rave onde consome um verdadeiro coquetel de "bala" (ecstasy), "microponto" (LSD) e fumo. Pedro enaltece a experiência da droga como processo de obtenção de intenso prazer e estabelece relações entre o prazer obtido e o conhecimento de si que proporciona. Contudo, ainda que em meio aos profusos elogios que dedica às drogas, escuto que Pedro não está convencido. Ao utilizar agora o verbo "escutar", diferente de "sentir", busco demarcar o trabalho de interpretação das resistências, na esfera do funcionamento do inconsciente.

Aos poucos, começo a me deslocar do lugar ao qual Pedro me alçara. Como condição de seu gozo, ele reservara a mim a posição de espectador extasiado frente a suas performances alucinógenas e, ao mesmo tempo, de observador da vítima impotente diante do poder inexorável da droga. Contudo, minha atitude confronta seus esforços.

Diante dos relatos marcados pela desmedida e constante desapropriação de si, intervenho de maneira tranquila e atenta. Sem qualquer dose de hipocrisia, dou razão a Pedro, admitindo que cada uma das substâncias entorpecentes que ingere possui eficiências específicas, capazes de causar sensações agradabilíssimas. Aproximo-me também de suas conjeturas, no que toca a alusão às drogas como catalisador do conhecimento de si, acolhendo suas hipóteses de forma simples e direta.

Mais adiante, esclareço, em sentido contrário, que as drogas atuam nas sinapses nervosas, podendo causar sérios danos físicos, algumas vezes irreversíveis. Acrescento, ainda, que é necessário que haja intervalos entre uma ingestão e outra, não apenas por conta do desgaste fisiológico, mas devido às exigências da realidade. Seria preciso também viver sem a droga, uma vez que o uso contínuo da mesma seria incompatível com a disponibilidade que se requer para o estudo ou para o trabalho.

É importante ressalvar que a minha concordância ou discordância das opiniões de Pedro quanto à utilização das drogas não é o agente para a construção do campo de inscrição pulsional. O que está em jogo, neste momento da análise, é a possibilidade de acolhimento daquilo que não poderia ser dito pelo analisante ou escutado pelo analista, mas apenas sentido por ambos.

Acolher tais sensações, nesta borda da análise, equivale a estabelecer uma associação transferencial paradoxal - ao mesmo tempo, afetar e ser afetado - para além da comunicação, mas também distanciada dos efeitos de significação. Só o potencial de subjetivação, isto é, a capacidade de afetação, que ultrapassa o terreno "macroscópico" da representação, estaria norteando a transferência que assim se consubstancia. O acolhimento, neste caso específico, envolvera a suspensão das estratégias de resguardo, rigorosamente não prescritivas.

A afetação pela força da pulsão aponta para o sentimento ligeiro ou a leve sensação indizíveis e "microscópicos", não comunicativos ou significativos, mas que, no entanto, me "orientavam" na direção da construção de um ambiente de extrema franqueza. Ao estabelecer uma atitude de consideração pelas opções e opiniões de Pedro quanto à droga, mantendo, ao mesmo tempo, uma posição aberta com relação ao meu próprio pensamento, contribuía para a construção de um campo afetivo capaz de subsidiar o agenciamento pulsional.

A criação do ambiente afetivo colaboraria para que Pedro abandonasse, pouco a pouco, as detalhadas exposições das noitadas embaladas. A pulsão começava, ainda que de forma lenta, a se deslocar do gozo mudo e sem negociação da performance, em direção ao território alteritário do diálogo e da argumentação criativa. Iniciava-se o movimento de desvio da pulsão: da satisfação imediata ao adiamento ou do gozo em direção à busca, ainda que trabalhosa, decerto mais segura, do prazer.

Entretanto, situar-se de forma demasiado "diretiva ou sugestiva" ao invés de se buscar o terreno "seguro" da interpretação, envolve riscos. Freud (1914b/1986) alerta para o fato de que a interpretação da transferência teria a função de atenuar as resistências à análise. O agenciamento que eu adotara, ainda que tivesse favorecido o desvio e a inscrição da força pulsional, por outro lado, aumentava a possibilidade de que os laços comigo se tornassem mais infantis, o que, provavelmente, dilataria as defesas resistivas de meu analisante. Entretanto, tal incremento da corrente do recalque poderia ser escutado por mim e, portanto, se tornar objeto de interpretação.

Com efeito, mais adiante, se coloca o momento da articulação da interpretação. Saliento, então, as queixas de Pedro a respeito da falta de memória, atribuída por ele próprio ao fumo, adiantando, a seguir, que ele teme correr o risco, tanto físico, quanto social, de comprometer a materialização do seu desejo.

A operação direta de inscrição pulsional e, a seguir, a interpretação tornaram possível o surgimento manifesto dos fantasmas inconscientes de impotência, ligados ao uso e à eficácia das drogas. O rapaz foi capaz de admitir a preocupação de que a droga pudesse "se tornar seu meio de vida", temendo não ter forças para produzir seu próprio prazer sem o auxílio dos anestésicos (a utilização do Viagra em suas relações sexuais não era incomum).

É preciso, também considerar que o trabalho analítico de construção do campo transferencial de subjetivação não é, contudo, garantia da inscrição pulsional. No presente caso, entretanto, certos signos, sempre a posteriori, permitiram avaliar a conveniência dos agenciamentos implementados. Com efeito, a prepotência acrítica e o entusiasmo excitado de Pedro começaram, pouco a pouco, a ceder o lugar a ponderações mais equilibradas e a comportamentos mais cautelosos. As novas assertivas e condutas confirmavam, portanto, a propriedade das intervenções combinadas.

Somente a dilatação do campo transferencial, englobando o trabalho direto sobre as intensidades pulsionais sem representação poderá, de maneira significativa, concorrer para o tratamento psicanalítico da droga-adição. A compulsão dos adictos é uma tentativa malograda de inscrição da pulsão e apenas a dimensão paradoxal e afetiva do encontro entre analista e analisante seria capaz de contribuir para o deslocamento do gozo da droga.

 

NOVOS AGENCIAMENTOS TRANSFERENCIAIS: CLÍNICA E CORPO

Novas situações clínicas se apresentavam ao longo da análise de Pedro, ratificando a necessidade de construção de um encontro transferencial para além da significação, que pudesse propiciar a inscrição da pulsão. Certa manhã, Pedro, com a voz embargada, liga para o consultório relatando que havia atropelado uma menina ciclista, de apenas 7 anos.

A menina se desembaraçara da mãe na calçada e, inesperadamente, pedalara para a rua sem dar a Pedro, ao volante de seu carro, tempo de desviar. Sem pestanejar diante dos gritos da garotinha ou dos protestos da mãe, ele presta socorro à pequena vítima, conduzindo-as ao hospital mais próximo. Por fim, a mãe da menina acaba por reconhecer que a culpa pelo acidente não fora de Pedro e fica muito grata diante da oferta deste de, ainda assim, pagar as despesas hospitalares.

A situação está sob total controle. A menina fraturou o braço, mas já recebeu os cuidados adequados. A mãe da garota se sentiu aliviada e agradecida pelo interesse de Pedro. Contudo, mesmo assim, ao telefone, Pedro não consegue conter a angústia que transborda das palavras e que excede todo o significado. As fortes emoções vivenciadas em tão curto tempo haviam deslocado, violentamente, o cenário subjetivo para além do funcionamento edipiano. Houve um abalo da significação, uma espécie de bypass da dinâmica identitária do recalque e do sintoma, presentificando a angústia automática - para além da angústia de castração -, oriunda da invasão pulsional sem a mediação da representação, nos confins da subjetividade (FREUD, 1926-1925/1986).

Diante do afastamento abrupto do domínio das representações subjetivas, se tornava imperativo estabelecer um campo transferencial, acima de tudo afetivo, no interior do qual Pedro pudesse compartilhar aquilo que não poderia ser comunicado, simbolizado, falado ou escutado. Diante da angústia automática, não lhe digo algo propriamente significativo, a título de interpretação que, de resto, de nada adiantaria. "Prefiro", apenas, repetir como numa espécie de acalanto: "Tudo está bem, você agiu direito, não há nada com que se preocupar..."

Pierre Fédida (1988), em seu belo livro Clínica psicanalítica: estudos, reúne uma série de situações excepcionais "que fogem completamente ao que [os analistas] entendem e esperam que seja uma psicanálise" (p. 10). O autor argumenta, a partir de um conjunto de exemplos, que seria preciso, em tais casos, enfatizar o funcionamento psíquico do analista. Para o autor, cada vez mais, novas e maiores exigências deveriam ser requeridas ao analista. Só este expediente viria trazer possibilidades de se pensar numa clínica da singularidade - "além do princípio de prazer" -, sem recair no "misticismo" ou no "empirismo ingênuo".7

Observamos hoje em dia que tais momentos "excepcionais" perderam seu caráter de eventualidade, passando a frequentar muito mais as análises, sobretudo a dos jovens. Tenho certeza de que todos os analistas já enfrentaram o tipo de situação em que há uma espécie de ruptura ou de excesso que não pode aguardar pelo momento seguro da interpretação das resistências inconscientes.

De fato, o atropelamento da menina não deflagrara, prioritariamente, o sentimento inconsciente de culpa de Pedro por conta do lugar subjetivo que meu analisante ocupava como objeto do desejo da mãe. Antes, o acidente incitara o domínio aberto das pulsões. Para além do retorno sintomático do recalcado, a angústia automática batia à porta da subjetividade.

O trabalho de agenciamento da força pulsional exige que o analista seja capaz de se deixar afetar pelo encontro com o analisante, para além de tudo o que poderia ser dito por este último, o que exigirá daquele, certos requisitos. É a isto a que Fédida se refere quando propõe desviar a ótica da psicanálise para investir o funcionamento psíquico do analista. Com mais ênfase do que Freud (1937/1986) o propusera, em nossa sociedade, será preciso que o analista tenha cumprido de maneira adequada sua análise pessoal e que retorne a ela sempre que for necessário. Entretanto, conforme veremos, isso não é tudo.

Para lidar com a angústia automática, evito o caminho da interpretação. Quando Pedro me telefona, não escuto o que ele não diz, como convém à interpretação. Ao contrário, me deixo afetar pelo que não é dizível, pelo "clima" da angústia que, então acolhido, pode se expandir para impregnar o encontro transferencial.

É desta maneira que o pulsional se inscreve no cenário transferencial. Algumas vezes, somos tomados por uma sensação indistinta de tristeza, de calor tênue, uma ansiedade ligeira ou inquietação leve que nos causa um mal-estar pouco - ou nada - percebido. Estes fenômenos invadem a transferência como uma atmosfera que, por assim dizer, envolve os protagonistas como modalidade indizível de sensação ou sentimento e correspondem ao "fundo" pulsional que esposa, momentaneamente, a "superfície" perceptiva representacional, mas que, contudo, não abdica de ser fundo.

A atmosfera que invade a transferência só é passível de ser sentida e, apenas enquanto sentimento passageiro ou sensação fina, poderia ser compartilhada entre os sujeitos. Ao acolhê-la "entoando o acalanto", empenho meu corpo afetado que se torna, então, o complemento indispensável para a construção do campo transferencial que denominamos de paradoxal.

E foi o que ocorreu. Pelos elementos discursivos que se representaram a seguir, pude notar a justeza do agenciamento. Logo após minha intervenção, Pedro se tranquiliza e passa a fazer uma avaliação consciente e clara da situação, ponderando, inclusive, a respeito do risco que correra por estar sem a carteira de motorista no momento do acidente.

Podemos dizer que o estatuto do agenciamento transferencial equivale à criação de um campo de acolhimento da intensidade, que se presentifica pela afetação paradoxal do par analista-analisante e se passa no corpo de ambos. Tal corpo, sede da fonte e do impulso da pulsão (FREUD, 1915b/1986), é o veículo do agenciamento pulsional. Constituído, ao mesmo tempo, de atividade e passividade, de sensações sem forma ou de sentimentos sem determinação, para além do sentido dos significados ou dos comunicados, o paradoxo é o signo da potência deste corpo capaz de favorecer a remissão da angústia automática.

 

A POTÊNCIA DO PARADOXO: REQUISITOS AO ANALISTA

O manejo do agenciamento me distancia da figura do analista neutro, descrito por Freud, pelo menos até o ano de 1914, cujo eu deveria servir de objeto de identificação para o eu do analisante (CHERTOK & STENGERS, 1990). Contudo, meu afastamento é, com efeito, maior. Ao evitar a interpretação, inscrita na racionalidade do princípio de prazer, contribuo para um "recuo" transferencial até os limites da subjetividade.

Para "se deixar afetar" pelo clima do encontro, certos requisitos são, de fato, exigidos do analista, como propunha Fédida. Para implementar o agenciamento, para poder se entregar à sensação de, a um só tempo e indistintamente, afetar e ser afetado seria preciso a suspensão do saber teórico, da formação institucional e até da história pessoal do analista. Assim, este último coloca seu corpo (da fórmula freudiana da pulsão) como agente propiciador da mudança de cenário transferencial. Do recalque ou do sintoma em direção à diferenciação da força pulsional, o corpo do analista (e o do analisante) se encontra implicado no estabelecimento, para o analisante, de um novo estilo de vida.

Para o analista, o campo paradoxal da transferência pode ser enunciado pelo "se deixar afetar". O paradoxo da dita situação corresponde à convivência, sem contradição ou contrariedade, isto é, para além do território dialético, entre a atividade de autorizar ("se deixar") e a passividade de "ser afetado" pela atmosfera do encontro. Dá-se o mesmo com o analisante. Por um lado, este último, ao ser afetado, se submete passivo ao clima da transferência. Contudo, neste momento, um potencial de "estilização", isto é, a efetiva potência da criação de si se disponibiliza para ele.8

A este propósito, convém lembrar a maneira lírica pela qual Freud (1905/1986) relata a experiência de amamentação: a criança "se deixa[r] adormecer ao seio materno" (p. 165). Com esta descrição, Freud enquadra a "ação específica" da alimentação no campo inclusivo do paradoxo. Com efeito, a criança não estaria simplesmente passiva diante da mãe que a alimenta. O "se deixar" implicaria uma parcela de atividade que caberia à criança, ao mesmo tempo que o estado de passividade em que esta se encontra. A amamentação (os cuidados) promoveria, assim, a partir da potência do encontro paradoxal, o agenciamento subjetivo das pulsões ou a convocação do "infante" para o projeto cultural do simbólico.

A força paradoxal da pulsão não deve ser, no entanto, compreendida como uma categoria espiritual, mística ou esotérica. Ao contrário, trata-se daquilo que Susanne Langer, citada por Gil (2004), descreve como domínio "virtual" cuja existência não é da ordem da imaginação ou do fantasma onírico. Para a autora,

"as forças que julgamos perceber da maneira mais direta e convincente são criadas para a nossa percepção; e não existem senão para ela (...). O que existe unicamente para a percepção, e não desempenha qualquer papel comum e passivo na natureza, como os objetos fazem, é uma entidade virtual. Não é irreal: onde quer que sejamos confrontados com ela, percebemo-la realmente, não sonhamos ou imaginamos que a percebemos." (p. 42)

Hoje em dia, mais do que em qualquer outro momento, a transferência deverá ser capaz de permitir a representação daquilo que nunca será representado. Este paradoxo é o sinal que traduz a insistência de uma virtualidade da qual emana tudo aquilo que poderá, um dia, configurar um novo estilo da existência.

 

REFERÊNCIAS

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CHERTOK, L. & STENGERS, I. (1990) O coração e a razão: a hipnose de Lavoisier a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

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Artigo recebido em 13/8/2007. Aprovado em 5/5/2008.

 

 

1 A referência para as características institucionais da sociedade moderna é a leitura deleuziana da "sociedade disciplinar", esta última, descrita por Foucault (DELEUZE, 1992).
2 A esse respeito recomendo, entre outros, os trabalhos de Ehremberg (1998) e Dufour (2005).
3 A independência, aqui, diz respeito à potência criativa da pulsão que não se esgota jamais naquilo que cria. A autonomia ou espontaneidade da criação da subjetividade não elide absolutamente o caráter alteritário desta. Ao contrário, a potência do paradoxo da pulsão emana, em última análise, do encontro. Ver, a esse respeito, Rozenthal (no prelo). A ideia de "tendência", por sua vez, associa a força ao movimento e à independência (espontaneidade). Assim, uma tendência, capaz de produzir movimento como produto de uma espontaneidade que se dirige a um fim, se chama força; a "tendência para perseverar no movimento" de ser aquilo que o ser é, tem o nome de inércia (LALANDE, 1985).
4 A este respeito, remeto o leitor interessado a Deleuze (1988).
5 Sobre a condição de possibilidade do movimento, ver a concepção de "esforço" de Von Laban. Para o autor, esforço seria uma espécie de repouso do movimento que, ao mesmo tempo que nega o movimento, se "presentifica" como sua condição de possibilidade (citado por GIL, 2004). Cumpre notar que "presentificação" (Darstellung) não é representação (Vorstellung). A este respeito, ver mais adiante neste trabalho.
6 O tema das "pequenas percepções" é utilizado por Leibniz (1765/1988) para a compreensão dos fenômenos perceptivos de modo geral. Para a apropriação da problemática leibniziana na descrição da percepção estética, o leitor poderá consultar Gil (1996).
7 É preciso mencionar o trabalho pioneiro de Ferenczi no sentido da valorização clínica dos requisitos exigidos do analista. Ver, por exemplo, Ferenczi (1927-28/1992).
8 Sobre o estilo (“estilização”) como “tecnologia de si” com vistas à criação do sujeito, envio o leitor para Foucault (1994).

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