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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498

Ágora (Rio J.) vol.14 no.2 Rio de Janeiro July/Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982011000200003 

ARTIGOS

 

Atuações delinquentes, passagens ao ato suicida na adolescência

 

 

Michèle Benhaim

Psicanalista, professora de Psicopatologia Clínica no Laboratório de Psicopatologia Clínica e Psicanálise da Universidade de Provence, Centro Saint-Charles, E-mail: michelebenhaim@voila.fr

 

 


RESUMO

Como articular a passagem ao ato delinquente e a passagem ao ato suicida na adolescência? Pretende-se mostrar o quanto e como uma e outra esclarecem a relação com a transgressão no que esta tem de exploração, de verificação, de teste dos limites corporais, familiais e sociais.

Palavras-chave: Passagem pelo ato, delinquência, adolescência, alteridade.


ABSTRACT

Delinquent acting, suicidal acting out in adolescence. How should delinquent acting and suicidal acting out in adolescence be articulated? This text aims at showing how much and how one and the other highlight the relation to transgression in its feature of exploration, verification and testing the body, the family and the social limits.

Keywords: Acting out, delinquency, adolescence, otherness.


 

 

"A adolescência: o sentimento de que sua própria tristeza está
intimamente ligada à tristeza do mundo..."

(M. Benhaim)

 

Observações gerais

A crise puberal gera vulnerabilidade no sujeito e desnuda, no centro de uma vacilação, uma dimensão humana — a da relação com a morte.

Cada adolescente vive um drama singular ante a castração, em seu encontro com seu corpo e no fato de ter que agora assumir alguma coisa do gozo, articulando-a à lei. Ele não pode mais escapar, mas acontece que esse drama vai cair na tragédia da castração radical, a morte. Esta observação propõe a problemática do excesso na adolescência.

Estudando a delinquência juvenil, Winnicott muitas vezes interpretou as transgressões adolescentes como afirmações do sujeito, sem as quais ele estaria em perigo.

Por outro lado, a adolescência é a idade do ato, do agir, mais do que da palavra, esta última podendo, sem dúvida, trair brutalmente emoções e sentimentos. Quanto à passagem adolescente, esta não vai acontecer sem correr riscos.

O ato, a atuação, a passagem ao ato, a passagem pelo ato, induzem uma forma de impulsividade na medida da dimensão absoluta da busca adolescente, e podem evidenciar a resolução do drama em tragédia.

O suicídio, a morte voluntária, dominada, pode assumir os traços desse absoluto radical, ato supremo tanto quanto irreversível.

Como articular a passagem ao ato delinquente e a passagem ao ato suicida na adolescência? Uma e outra esclarecem a relação com a transgressão no que esta tem de exploração, de verificação, de teste dos limites corporais, familiais e sociais.

 

O "sentido" do ato

Uma clínica de adolescentes apanhados em processos de passagem aos atos violentos graves ou suicidas evidencia que as motivações que estão por trás do agir escapam ao sujeito. Ela esclarece o que Freud apontava em seu texto de 1910, "Contribuições para uma discussão acerca do suicídio", uma pressão, na adolescência, entre o ideal do eu sobre o qual o sujeito poderia apoiar-se para ensaiar-se na vida, e a zona de sombra no núcleo de seu ser, essa parte pulsional que o gozo recobre. Quando a infância se afasta, insiste essa pressão ("me puseram na pressão"), que pode levar o adolescente a sair de cena, da cena de sua inserção num Outro da linguagem. O ato pode, então, revelar os aspectos de uma espécie de texto atuado à revelia do sujeito, por ser indecifrável. A pressão induz, ademais, no adolescente, essa experiência do corpo transformado pela puberdade, como não sendo ainda verdadeiramente o seu, como separado dele mesmo ("Eu tinha o sentimento de que eu matava meu corpo, meus pais não me verão mais, mas eu estarei sempre lá, que eu os verei"). Além da dimensão de corte entre o corpo e o espírito que essa revelação pressupõe, pode-se também marcar aí a atualidade do inconsciente freudiano que não conhece a morte e se articula a muitos projetos de suicídios adolescentes, nos quais o desejo de morte não entra em contradição com o sentimento humano de ser eterno.

O dito delinquente muitas vezes não tem nada a dizer de seu ato, a não ser a expressão de perplexidade ante os efeitos que esse ato produz nos que estão ao seu redor.

Confrontado ao fato de querer morrer, o adolescente acredita saber de que sofre, e nessa crença repousa sua tentativa de figuração do acontecimento desencadeante que, aos seus olhos, não pode encontrar outro meio de se resolver senão na morte.

Podemos pensar que na base dessas expressões extremas que são essas exposições ao perigo, há um sentimento intolerável de ausência de certeza — certeza de existir e certeza de ser numa identidade. Como se, para um e outro desses adolescentes, a ilusão identitária não se desse por si mesma.

Uma menina adolescente, em seguida a uma crise de violência extremamente repentina no curso da qual ela solta gritos prolongados de dor, cospe, bate com a cabeça nas paredes em torno, aterroriza e ameaça de morte outra adolescente, como se realmente tudo transbordasse, esgotada, pôde dizer, "eu sempre vivi morta", "eu não sei mais o que sinto".

Interrogada mais tarde acerca do que poderia estar contido nesse "viver morta", ela vai extrair do esquecimento que uma doença infantil a tinha impedido, com dois anos e meio de idade, de embarcar no avião em que seus pais, então, vieram a encontrar a morte.

Estaria ela, de certa maneira, "morta com eles"? "Morta ela também"?

 

A alternativa maníaco-depressiva

Uma resolução de um vazio, podendo adotar comportamento psicótico, mas nem assim resgatando da psicose, poderia cair na mania que assinala a escalada repetitiva das passagens ao ato delinquentes, ou na melancolia que engendra a atuação de um desejo de morte.

O aspecto maníaco do tratamento do sofrimento visaria a dominar esse sofrimento. A vertente depressiva grave poderia, por seu lado, visar a romper com esse sofrimento.

Eis aqui, portanto, dois limites em que, tanto num caso como no outro, é a onipotência (infantil) que parece governar o agir, algumas vezes de maneira caótica, quando, à beira de uma passagem ao ato, a adolescente conta o quanto se sentiu frágil, sem personalidade, tornando-se um perigo para si mesma ou para os outros, tendo perdido qualquer referencial.

Não se pode deixar de pensar nesses adolescentes para os quais o arranjo delinquente aparece claramente como solução psíquica, em especial quando, além da queixa, vemos com nitidez um apaziguamento da angústia, um alívio talvez de ter escapado a um fechamento psicótico, mesmo se essa economia se faça ao custo de um encarceramento, isto é, de outro fechamento.

Decerto essa é uma solução que aparece bem depressa em sua extrema fragilidade como preservando do pior num primeiro momento, mas logo se torna uma tragédia que não é mais solução para a angústia.

Um pouco como nas escarificações nas adolescentes, esses furos que se repetem no corpo que, sem dúvida, devem ser tomados ao pé da letra como permitindo escapar da angústia: "é para fazer o mal sair", dizem elas, e ei-las apaziguadas por esse corte entre si e o fora-de-si. Um tempo aí também frágil, no qual sobreviver é fugir.

Freud, em "Tipos psicopáticos no palco" (1905/1984), dizia que "o sentimento do corpo, desde então modificado, põe um termo a todo gozo psíquico".

É claro que o paradoxo está presente de saída: a atuação delinquente parece estruturar psiquicamente o adolescente e, no entanto, o obriga a infringir a lei: é esse paradoxo que faz disso uma solução temporária, solução que vê o adolescente — cuja angústia a repetição não consegue mais aliviar — cair na errância ao fim de um momento, uma identidade em errância agindo mortalmente a busca de um lugar de inscrição, na falta de figuras identificatórias sólidas.

Uma palavra do outro, e o universo pode balançar e cair no caos, uma palavra, um significante proferido à revelia daquele mesmo que o enuncia e que, no entanto, muitas vezes condensa o ponto de horror da história do sujeito ao qual é dirigido: essa constatação clínica cotidiana nos obriga a ter que decifrar as modalidades do processo de simbolização nesses adolescentes cujas expressões de violência, fatais às vezes, dão conta de um fracasso desse trabalho psíquico.

Perdidos porque abandonados pelo pensamento, ei-los aqui ameaçados de um vazio letal: esses adolescentes ditos perigosos são os primeiros expostos à sua própria violência. Sempre a propósito de psicopatia, Freud falava do "desencadeamento de afetos pessoais e do gozo que resulta daí, que corresponde ao alívio por descarga eficaz". Estaria ele pensando na passagem ao ato mortal como podendo compensar um sentimento de ausência vital?

Paradoxalmente, porém, a prática clínica junto a adolescentes delinquentes ou suicidas, ao contrário dessa alternativa "maníaco-depressiva" muito esquemática, pode evidenciar a morte como equivalente de uma espécie de "projeto de vida", a "verdadeira vida" como dizia Arthur Rimbaud, essa vida que se põe a repousar sobre a autenticidade contida num ato mais do que numa palavra. Como se uma palavra não fosse suficiente para traduzir o que se destaca do excesso.

Assim, acontece de ver-se desmoronar o adolescente apanhado no agir violento grave ao fim de uma escalada de passagens ao ato sempre mais perigosas, que só o fechamento vai interromper. (E não necessariamente a lei.)

Do mesmo modo que o após Tentativa de Suicídio pode deixar perplexos os que o cercam ante a repentina vitalidade transbordante do sujeito jovem que vem se precipitar impetuosamente na finitude. O suicídio aparece aqui como inversão de perspectiva em que teria sido questão não de desaparecer, mas de viver de outro modo. Resta o problema de que os suicídios consumados evidenciam que se trata mais de um ponto de condensação de um desejo mal construído do que de verdadeira ambivalência neurótica.

A intricação pulsão de vida/pulsão de morte não poupa a passagem ao ato adolescente num contexto em que, se os nomes do pai são pouco mais ou menos operantes, as leis da linguagem fracassam.

 

A alteridade, O outro, o Outro

A propósito dos limites que parecem ser transgredidos pelo lado de um interdito no ato violento, e pelo lado de um tabu no suicídio, pode ser que a questão da alteridade se proponha aí com toda a força.

Na falta de espaço alteritário, o adolescente não pode encontrar o outro: aliás, "eu o matei sem motivo".

Quando o ato atinge a integridade física do outro, ou de si mesmo, a realidade psíquica do adolescente transbordado por sua própria violência e do adolescente suicida exprime, muitas vezes, para um como para o outro, uma espécie de confusão quanto ao corpo atingido. Os limites se apagam, há uma espécie de transitivismo, de equivalência especular entre assassinato e suicídio em que apenas o plano do espelho estaria ligeiramente deslocado: não será, de fato, que o corpo do outro aparentemente é visado no fato de atingi-lo para esbarrar num limite real, ou então, será também o envolvimento de seu corpo próprio que é agido num corpo a corpo brutal, brutal demais e às vezes ilimitado? A que, então, pode remeter esse corpo a corpo ilimitado, senão a um ponto de alienação materna impossível de ultrapassar do qual os adolescentes, como as mães, nos informam por meio de suas dificuldades de separação? Estar morto para se separar e/ou para restabelecer os laços perdidos? "Isso me toma a cabeça"... De que é que o adolescente tem que se separar, e por que o ato evidencia um fracasso desse processo? Da mãe, do pai, dos parentes, ou do significante que até então podia representá-lo para outro significante? E se não houvesse outro? Se não houvesse outro significante que o tornasse digno de ser, ainda e apesar de tudo, acolhido? De ser ainda, e apesar de tudo, o filho Ideal? O objeto ideal? Antes morto do que insignificante? A adolescência faz passar todo mundo, o adolescente e quem está à volta, de uma margem à outra: se alguém resiste, a passagem, em vez de ser uma transgressão necessária que permite uma conflitualidade necessária para todos, pode, ao menos, ser forçada e, no pior dos casos, se tornar puro im-passe, isto é, ficar aquém da questão do desejo e deixar o adolescente como que em dívida com o que não adveio.

Mas como fazer com o atual de um "mundo que se esvazia de sua própria significância" (citando Stiegler), como antecipar aí um significante?

Da mesma maneira, não será senão seu corpo próprio que a vontade aparente de morrer convoca ou, ricocheteando, a representação que vai ficar dele na cabeça do outro, uma vez completado o suicídio? Há aí como uma dimensão de eternidade que contém a questão da presença/ausência e onde, nesse fort-da perigoso demais, o corpo próprio, tal como um símbolo real demais, faria o papel do carretel. "Eu queria morrer porque sentia que estava mesmo para morrer", dizia esse adolescente que, como pode, relata de que maneira escapou de si mesmo, quando ser se tornou sinônimo de morte.

Evocando sua noção de tendência antissocial, Winnicott dizia que esta "visava menos as pulsões que se exprimem através dela, do que as reações totais do ambiente".

De fato, a dificuldade do trabalho com esses adolescentes — dentre outras nesse paradoxo que nos confronta a atos de corte radical em que fazem curto-circuito de uma relação com o Outro — continua a ser, no fundo, uma mensagem endereçada a esse Outro. Paradoxo no centro de uma ambivalência amor/ódio impossível de elaborar, que se redobra pelo fato de que, se nos perguntarmos de que Outro se trata, de certa maneira vamos esbarrar num Outro assassinado ou repelido. Às vezes, conseguir alcançar o gozo do Outro é fundir-se aí totalmente até morrer ou fazê-lo morrer, presa de uma forma de gozo originário. "Melhor agir do que ficar esperando passivamente", nos diz esse adolescente que dá pancada como se estivesse abraçando, que maltrata como se estivesse dando um "amasso".

No texto consagrado à "Delinquência, sinal de esperança", em suas Conversations ordinaires (WINNICOTT, 1988) Winnicott insiste no fato de que "o ato delinquente espera encontrar uma resistência do ambiente".

Em todos os casos, nessas duas situações de efração corporal, há ruptura do pensamento — "eu não sei o que é que me deu", "eu queria parar de pensar nisso" —, há (tentativa de) anulação corporal, do corpo do outro e/ou do corpo próprio, numa espécie de confusão quase "incestuosa", uma tentativa de congelar esse corpo (do outro ou o seu próprio) para poder desfazer-se dele, habitados por uma violência que se impõe sem que seja convocada. "Eu não sei por que fiz isso" — o sujeito não pode saber, uma vez que não estava lá.

Essas observações mostram o quanto é necessário ao adolescente — na extrema desordem que uma confrontação ao gozo puberal pode produzir em bases frágeis demais, essa violência que as palavras não se mostram à altura de significar — o quanto é necessário agir para não pensar mais.

Estar sem Outro que devesse desprender de um gozo excessivo de não poder ser ligado ao significante, pode assinalar um ponto insuperável.

 

O ato e (é) o discurso

Apesar de tudo o que indica para nós, clínicos, a que ponto convém que essas atuações sejam recebidas como equivalentes de discursos, é o que nos recomenda expressamente que fiquemos na escuta da manifestação (sintomática, isso continua a ser uma questão) em vez de querer fazê-la desaparecer, custe o que custar. Esses discursos falam de limites, de cortes, de separação, de ataque aos laços — familiais, sociais, mas em especial os laços internos, laços de dependência, laços que assinalam a alienação exclusiva ao Outro, alienação que evoca a aflição do lactente ante o desejo do Outro, esse Outro que ele pode anular tanto quanto pode ser anulado por ele. Aí a passagem ao ato violenta referida ao outro pode assumir o aspecto de estratégia de sobrevivência psíquica.

 

Adolescentes (meninos e meninas)

A relação com o corpo e os limites fica marcada por diferenças entre meninos e meninas adolescentes.

A algazarra e a pulverização suicida frequentemente são devastadoras nos meninos, e evidenciam muitas vezes uma figuração da queda, como dependendo de uma redução do sujeito ao objeto destruído. São, todavia, menos espetaculares nas meninas, nas quais muitas vezes são os atos de cortes, como as escarificações mais ou menos profundas, espécie de tentativas de extração, que interrogam os limites corporais. Ainda que hoje essa distinção tenha perdido importância e que, para existir, determinadas adolescentes relatam o quanto a única saída é "fazer como os garotos". Este último ponto insiste, talvez, na necessidade de inscrever o sintoma adolescente no contexto atual de banalização da morte com base na abolição das fronteiras entre o real e a fantasia.

 

O passe/o im-passe

A clínica a partir da qual, para mim, se coloca a questão da relação do adolescente com a morte, é uma clínica da repetição de passagens ao ato marcadas de destrutividade — destrutividade que, dizia-nos Freud, é uma das figuras da pulsão de morte: será que dentro da repetição o adolescente atualizaria à vista de todo mundo um movimento pulsional em sua vertente mortal? Visaria esse movimento, não obstante, a ligar os vestígios de violências traumáticas, inscrevendo-os, talvez mesmo corrigindo-os? Como é possível que um adolescente não disponha senão do modo da violência mortal para exprimir o que uma palavra teria sido suficiente para dizer?

 

O momento louco

Na adolescência, todo mundo espera que algo aconteça... será possível morrer para arrumar melhor psiquicamente aquilo que não parou de não se inscrever? Como se a pulsão visasse de preferência o que já está morto, e não a morte? A violência assassina pode visar a sobrevivência, mesmo psíquica, de si mesmo à custa da morte do outro? O suicídio pode valer mais do que a errância subjetiva? Errância tomada no sentido duplo em que Lacan a compreende, o de não ser enganado pelo significante, mas também o da "repetição", errar em busca da palavra que pudesse pensar a coisa. Esse ponto de tropeço no pensamento e na palavra poderia ilustrar o acento psicótico que a passagem ao ato pode conter: "é como se não fosse mais eu", "é como se alguém me obrigasse a fazer isso", tantas expressões de aparência esquizoide ou injunções persecutórias. "Injunções" que impelem o adolescente não somente a ir ver em outro lugar mas, sobretudo, talvez a ir ver de outro lugar: é como a vida vista sob outro ângulo? Esta questão diz, talvez, algo acerca dos roteiros mortais que o adolescente constrói dentro de sua cabeça: um semelhante ensanguentado, o encarceramento, ou o desenrolar de seu próprio enterro, essa cena para a qual é tão impossível que ele seja convidado quanto para a cena primária.

"É como se eu não sentisse mais nada": esta desconexão quanto ao afeto que assinala uma insensibilidade mais próxima de uma não existência, uma "despossessão de sua substância vital", diria Artaud, mais próxima, portanto, da não existência do que da morte propriamente dita. Isso assinala também uma projeção do sujeito num espaço intemporal para, igualmente, evocar um momento psicótico no qual o dentro e o fora, o antes e o depois, tendo voado em pedaços, o pensamento se congela e nada mais vem garantir um laço alteritário interno, tanto quanto externo.

Assim, o suicídio pode aparecer aí como tentativa de inscrever algo, à beira do impossível, à beira da vida — e a clínica mostra que será menos um discurso, um apelo, uma demanda, que terá vindo assinalar a destruição, não da palavra, mas das próprias condições da palavra, da simbolização.

Este seria aqui um momento louco dentro do qual a morte real tende a se confundir com o assassinato da Coisa. Pensar, diz ainda Artaud, "é não sentir em si um buraco capital".

O que se inclina em direção a tal momento é que a atuação delinquente, como a passagem ao ato suicida na adolescência, parecem vir anular passado e futuro, o tempo do desejo, e mostrar o quanto, então, estar no tempo presente, numa suspensão do escoamento do tempo, é estar morto.

Então, por certo, confrontado ao gozo puberal, o adolescente não seria simultaneamente apanhado num gozo Outro (descoberta do Outro sexo, o sexo da mãe...) que, então, mesmo que ele devesse deixar a infância, o apanharia de volta.

Assim poderia ser descrito o momento louco do ato cujo a posteriori (é um momento louco, e não uma estrutura louca), revela uma dimensão de tentativa de elaboração de uma conflitualidade. É o que nos autoriza a propor a questão de saber o que é que se passa (ou que não se passa) quando não há a passagem ao ato? Podemos, desse ângulo, encarar a passagem ao ato como tendo valor estruturante para o sujeito?

Nesse tempo de colapso de todos os referenciais, o adolescente frágil pode se encontrar presa de uma solidão absoluta em relação a todos os laços familiais estabelecidos até então. Esse momento louco, que consiste em não poder fazer de outra maneira senão em passar pelo ato, pode de fato evocar uma forma de laço alteritário fora das normas, certamente — e é por isso que se pode falar de momento louco — mas que, de modo paradoxal, se revelou necessário à sobrevivência do sujeito.

O interesse clínico de passar além do curto-circuito manifesto do outro, e pensar, não obstante, as coisas em termos de mensagem endereçada, é o que vai fazer dessa tentativa de laço, um laço, a via de inscrição de um laço.

Esta hipótese permitiria, talvez, apreender o impulso de vitalidade que pode se seguir ao ato, ou a queda melancólica que assinalaria, ao contrário, como falência da tentativa.

Muitas vezes, o discurso a posteriori do adolescente não consegue evocar grande coisa do ato, mas termina por exprimir esse momento de eclipse subjetivo que evoca o colapso de Winnicott, é o momento no qual o adolescente, no ato, tenta talvez tratar a irrupção de uma catástrofe não inscrita, catástrofe que, por falta de inscrição, não pode senão ser uma catástrofe para um sujeito, isto é, exatamente romper todos os limites.

Vê-se aí que sentir a morte vale mais do que não sentir nada ou, dito de outro modo, como a reatualização do movimento pulsional vale mais do que uma ruptura do trabalho do pensamento e da simbolização indo a par com um curto-circuito do Outro.

Se o ato pode ser um acontecimento para um sujeito e deixá-lo transformado, a repetição do ato revela que essa tentativa está votada ao fracasso (penso aqui num adolescente que encontrei por ocasião de uma hospitalização. Após ter experimentado diversas formas de transgressões delinquentes, como acossado diante do que nunca se inscrevia para ele, terminou por se atirar da janela, e, felizmente foi resgatado: o encontro clínico mostrou a que ponto a violência, aparentemente estruturante, o desorganizou, e o quanto esses atos mortais eram ao mesmo tempo outras tantas tentativas de romper com representações intoleráveis que, não obstante, eram tentativas de simbolização de traços traumáticos desligados).

Assim, se por meio da passagem ao ato o adolescente tenta se proteger do que lhe parece como sendo o pior, uma explosão psíquica — é que a jogada não é o ato, mas antes o próprio sujeito, o sujeito confrontado a um tempo de anulação das representações e dos ideais. Dito de outra maneira, a confrontação ao real, esse impossível que estrutura a realidade, o dentro/fora, o antes/depois, e onde a alteridade poderia ser encarada, não funciona mais.

Esse ponto encontra ainda a catástrofe winnicottiana sempre ao ponto de advir, uma vez que não ocorreu por falta de um sujeito para vivê-la e de um outro que a nomeasse. Essa catástrofe, dizia-nos ele, diz respeito aos pacientes acostumados às fronteiras entre a vida e a morte.

As ideias suicidas de que nos falam os adolescentes que ainda não passaram ao ato, ou que talvez nunca virão a passar ao ato, aliás, revelam o quanto a ideia da morte alivia a sensação de explosão identitária.

Quando as garantias da palavra parecem destruídas, como construir um outro a quem falar?

Nessas relações violentas com a morte, que é que procura inscrever-se assim, à beira do impossível, pondo a vida em risco?

 

Conclusão

Um último ponto para concluir. O tempo do discurso que segue o tempo do ato, quando advém — e se uma transferência se estabelece —, vê surgir, ao fim de determinado tempo, um sentimento de culpa (de ter feito mal ao outro, de que tenha agredido esse outro ou de que tenha tentado fazer desaparecer a si mesmo) que nos conduz numa dinâmica neurótica propícia a momentos de análise de sua própria lógica de ruptura.

Precisamos, entretanto, enfatizar o risco que, para alguns, se inscreve na colocação em palavras — e devemos ficar atentos a isso.

"Ele está dormindo ao sol, com a mão em cima do peito.
Tranquilo. Tem dois furos vermelhos do lado direito."

(Arthur Rimbaud — Le dormeur du Val)

 

Referências

ARTAUD, A. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/36669023/Antonin-Artau-De-La-Chair-Au-Cri.         [ Links ]

FREUD, S. (1910/1984), Pour introduire la discussion sur le suicide, in Résultats, Idées, problèmes, v. 1, Paris: PUF.         [ Links ]

_____. (1910/1984) Personnages psychopathiques à la scène. Résultats, Idées, problèmes, v. 1, Paris: PUF.         [ Links ]

STIEGLER, B. (1994) La technique et le temps 1. La faute d'Epiméthée, Galilée.         [ Links ]

WINNICOTT, D.W. (1988), La délinquance signe d'espoir, in Conversations ordinaires, Paris, n.r.f.: Gallimard, 99-109 ou Folio essais. p 130-145.         [ Links ]

_____. (1994) Déprivation et délinquance. Paris: Payot.         [ Links ]

 

 

Recebido em 9/11/2008.
Aprovado em 12/12/2008.

 

 

Tradução
Pedro Henrique Bernardes Rondon
Psicanalista, membro efetivo da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro (SPCRJ).
Membro efetivo da Associação Brasileira para o Estudo da Psicologia Psicanalítica do Self (Abepps).