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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versão impressa ISSN 1516-1498

Ágora (Rio J.) vol.14 no.2 Rio de Janeiro jul./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982011000200011 

RESENHAS

 

Vale a pena queimar a psicanálise?

 

 

Joel Birman

Psicanalista. Professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ; professor adjunto do Instituto de Medicina Social da Uerj, E-mail: joelbirman@uol.com

 

 

O livro negro da psicanálise. Viver e pensar melhor sem Freud, organizado por Catherine Meyer.  Edição brasileira com organização e prefácio de Simone Perelson e tradução de Maria Beatriz de Medina e Simone Perelson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 638 p.

 

Um livro-acontecimento

O livro negro da psicanálise é um livro-acontecimento, como foi denominado pelo dossiê organizado pela revista Le Nouvel Observateur, publicada após o lançamento da obra na França, em 2005. Isso porque foi o disparador de numerosas polêmicas, as quais incidiram não apenas no campo psicanalítico, mas também na representação social da psicanálise. Lido vorazmente, em decorrência da ampla disseminação midiática e das controvérsias que promoveu, o livro já estava na terceira reimpressão no mês de seu lançamento.

Porém, se o dossiê do Le Nouvel Observateur, intitulado "Deve-se acabar com a psicanálise?", era favorável à obra, o do L'express, publicado em seguida, criticou o livro. Inúmeros artigos vieram à baila em jornais e revistas de grande circulação, sem considerar os que apareceram em revistas especializadas. Com toda esta galvanização pública, os analistas tiveram que sair de seus nichos institucionais e vir a público para responder às críticas.

Para destacar as linhas de força do debate é preciso destacar a inflexão simbólica condensada no título da obra, como enfatizou Elisabeth Roudinesco, na revista Critique Communiste, em 2005. Com efeito, inscreveu-se na obra sobre a psicanálise a carga simbólica de um livro anterior, intitulado O livro negro e que foi publicado em 1995, constituído pelos testemunhos dos que sobreviveram aos campos de concentração. Como pontuou Jean Birbaum, no Monde des Livres, em 2005, a expressão 'livro negro' remete para o crime de massa. Assim, a psicanálise foi identificada com o terror e a obra em pauta seria um relato de sobreviventes.

Não se pode esquecer, ademais, que o livro se insere numa série deles, publicados na França, em que a expressão 'livro negro' está no título: O livro negro do comunismo (1997), O livro negro do colonialismo (2003) e O livro negro da Revolução Francesa (2008). Na inflação do significante 'livro negro', a psicanálise se inscreveria no que existiria de pior na tradição ocidental – que iria de goulag ao horror colonial, passando pelo terror da Revolução Francesa.

No campo psicanalítico, a obra suscitou a publicação de dois livros, como críticas a ela. Assim, se E. Roudinesco publicou, ainda em 2005, Pourquoi tant de haine? Anatomie du livre noir de la psychanalyse, J. A. Miller publicou L'anti-Livre noir de la psychanalyse, em 2006. O que os críticos salientaram foi não apenas a virulência que impregnava o livro, mas também seu contraponto: a ausência de uma argumentação consistente que pudesse fundamentar a crítica severa. Vale dizer: os argumentos foram considerados frágeis.

Não obstante ser uma publicação francesa, organizada por Catherine Meyer, o livro contou com a colaboração de 40 autores, de dez nacionalidades e de diferentes campos do saber. Desta maneira, a obra era não apenas coletiva, mas internacional e interdisciplinar. Contudo, a publicação brasileira é condensada, composta por 23 autores, na qual a organizadora selecionou os textos mais inflamados, para manter vivo o estilo contundente da obra, e os textos de crítica conceitual.

 

A hegemonia do campo psi em questão

No entanto, é preciso dizer que O livro negro da psicanálise é o ponto de chegada de um longo debate que atravessa a França, já há alguns anos, acerca da hegemonia da psicanálise sobre o campo dos saberes psi. Esta perda de hegemonia ocorrera anteriormente nos Estados Unidos, na Inglaterra, e em vários países europeus. Contudo, desde os anos 1990, a posição estratégica da psicanálise na França foi colocado em questão, pela disseminação dos paradigmas das neurociências e das psicoterapias cognitivas e comportamentais. Neste contexto, a psicanálise passou a ter que defender suas posições contra os novos paradigmas. Em contrapartida, a psicanálise continua a ser ainda uma referência teórica importante na América Latina.

É neste contexto que é preciso inscrever esta publicação e o debate que suscitou. Por ser justamente o ponto de chegada de um longo debate sobre a hegemonia da psicanálise é que a quinta parte do livro se intitula "Existe vida depois de Freud", na qual diferentes artigos dissertam sobre os novos paradigmas. Pode-se afirmar que estaria aqui o que disparou a organização do livro. Após a demolição do campo psicanalítico, o que se quer apresentar são as novas alternativas para o domínio do campo psi, mas que estariam já colocados no ponto de partida. Enfim, é evidente a circularidade da construção da obra.

 

Uma clínica sem sujeito

Como foi sistematizada a crítica em questão? Se examinarmos a construção das diferentes partes que compõem o livro, pode-se depreender que o que está em pauta é a desconstrução do paradigma freudo-lacaniano e não os que se encontram presentes em outras tradições psicanalíticas, que fizeram alianças teóricas com os paradigmas das neurociências e das terapias cognitivo-comportamentais.

Por isso, a primeira parte do livro pretende desconstruir o discurso freudiano, e a segunda tem no discurso lacaniano o seu alvo. Com efeito, antes de indicar os supostos impasses epistemológicos da psicanálise, na sua terceira parte, a obra teve que demolir os fundamentos da psicanálise, na intercessão entre os discursos de Freud e de Lacan. Por este viés, os ditos 'impasses epistemológicos' estariam já delineando a psicanálise como condenada à morte, de forma que 'as vítimas da psicanálise' poderiam ser apresentadas na quarta parte. Para não existir mais vítimas para o 'holocausto' promovido pela psicanálise, os novos paradigmas do campo psi foram apresentados triunfalmente na quinta parte, indicando que poderia existir 'vida sem Freud'.

Assim, nas duas primeiras partes, estaria o núcleo da obra. O que se destaca é que Freud foi não apenas um 'bom contador de histórias' sobre 'a eficácia terapêutica' da psicanálise – mentirosas, evidentemente – mas também que soube fazer publicidade de seu discurso. Foi sobre este santo de pé de barro que aos fundamentos teóricos da psicanálise faltaria a eficácia clínica, mas que se disseminou socialmente nas classes sociais abastadas, na medida que estas preferiam ter quem as escutasse do que se submeter à psiquiatria organicista. No entanto, Freud soube construir uma organização poderosa, sem a qual tal disseminação teria sido impossível. A mesma estratégia foi repetida pela posterior tradição lacaniana. Contudo, o inconsciente seria uma modalidade de conceito 'faz tudo', pois apresentaria muitas faces, como uma cabeça de Medusa, isto é, seria um conceito sempre reorganizado para neutralizar as objeções de maneira 'oportunista', pela destruição que faria das críticas colocadas. Teria sido por este viés que a psicanálise teria evitado, enfim, o confronto decisivo para a verificação de sua cientificidade.

A incapacidade crítica dos discípulos de Lacan estaria na base da exceção francesa e do que existia de obscuro no discurso teórico de Lacan, ao mesmo tempo o correlato da sedução que exercia sobre aqueles. Os impasses epistemológicos e as 'vítimas' produzidas pelo dispositivo analítico dão sequência à crítica do livro, que se fecha pela apresentação das novas alternativas paradigmáticas.

Porém, nestas alternativas, o que está em pauta são práticas clínicas nas quais o sujeito estaria ausente, pois, tanto pelas propostas enunciadas pelo DSM-III quanto pelo DSM-IV, o que está em questão é uma clínica sem sujeito, em que o naturalismo seria triunfante. A medicalização do espaço social ultrapassaria todos os limiares até agora atingidos, desde o século XIX, pois o que se inscreve no horizonte da contemporaneidade seria a psiquiatrização dos normais. Os esboços do DSM-V indicam isso claramente, pois esta norma vai radicalizar ainda mais o que foi já estabelecido pelos códigos diagnósticos anteriores.

Estaria justamente aqui o projeto político em curso na crítica da psicanálise promovida pelo livro em exame: a performance do indivíduo seria a finalidade estabelecida pelos novos paradigmas, com a anulação definitiva do sujeito e a promoção do controle social dos indivíduos.

Se é para isso que se quer banir a psicanálise, é preciso que nos indaguemos se vale a pena queimar a que temos. Da minha parte, proponho que devemos resistir a isso de todas as formas possíveis.