SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 número1Meditation on an instructive dream: the fetishistic error and the Freudian hitDefense and trauma: from the Project to the present índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Articulo

Indicadores

Links relacionados

  • No hay articulos similaresSimilares en SciELO

Compartir


Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versión impresa ISSN 1516-1498

Ágora (Rio J.) vol.15 no.1 Rio de Janeiro enero/jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982012000100004 

ARTIGOS

 

Trauma: o avesso da memória

 

Trauma: the reverse of memory

 

 

Maria Manuela Assunção MorenoI; Nelson Ernesto Coelho JuniorII

IPsicanalista, mestre pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, membro aspirante do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E-mail: mariamanumoreno@hotmail.com
IIPsicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. E-mail: patnelco@uol.com.br

 

 


RESUMO

O presente trabalho é uma interrogação à teoria psicanalítica acerca das ressonâncias do traumatismo na função psíquica da memória, a partir da leitura das obras de Sigmund Freud, Sandor Ferenczi, Nicolas Abraham e Maria Torok. Sustenta-se que o traumático subverte o registro psíquico dos acontecimentos. A imagem paradoxal do trauma enquanto avesso da memória espera oferecer uma figurabilidade a esta subversão, indicando a alteração no direcionamento dos investimentos psíquicos.

Palavras-chave: Psicanálise, trauma, memória, investimento psíquico.


ABSTRACT

The present essay comprises an interrogation to psychoanalysis theory on the consequences of trauma in the psychic role of memory, based on the works of Sigmund Freud, Sandor Ferenczi e Nicolas Abraham e Maria Torok. We state that the traumatic subverts the psychic registry of events. The paradoxical image of trauma as the reverse of memory intends to offer a symbolism to this subversion, indicating the change in the direction of the psychic cathexis.

Keywords: Psychoanalysis, trauma, memory, psychic cathexis.


 

 

Na atualidade, podemos observar o ressurgimento de interrogações à teoria psicanalítica a partir da clínica do trauma. Não pretendemos aqui nos aprofundar nas motivações sociológicas de tais questionamentos nem exaurir suas possibilidades, mas interessam-nos, justamente, aqueles que retomam as relações entre as noções de trauma e de memória, dois conceitos fundamentais à psicanálise e que remetem, ambos, tanto à constituição como aos limites do psiquismo. São os sintomas do trauma, ou melhor, suas marcas que se apresentam repetidamente na cena analítica, deixando-nos vislumbrar as ressonâncias do pavor no psiquismo, que instigam um trabalho de inteligibilidade acerca dos efeitos do trauma na função psíquica da memória - trabalho esse que nos retira do campo de paralisia, de silêncio e de negatividade irradiado pelo trauma.

Em Freud, as relações de trauma e memória, desde suas primeiras formulações teóricas acerca da histeria, e principalmente a partir da conceituação de um além do princípio do prazer, apontam para o funcionamento, ou melhor, para as falhas de funcionamento nos limites do psíquico - entre corpo e psique, entre percepção e representação - responsáveis pela instauração da memória e pela diferenciação psíquica. O traumático passa, na segunda tópica freudiana, a ser associado às dinâmicas da pulsão de morte e da angústia automática, aquela que faz continuamente uma demanda de trabalho psíquico, mais especificamente de ligação, como primeira medida de contenção anterior à instauração do princípio de prazer. Quando não há possibilidade de ligação e transcrição do acontecimento, seus efeitos apresentam-se de forma negativa como danos narcísicos.

Sandor Ferenczi (1873-1933) localizou os vestígios do traumático justamente em uma espécie de memória corporal, o sistema mnésico do ego, sistema limite entre o somático e o psíquico. A partir de 1928, Ferenczi passa a considerar o papel do objeto como determinante em relação ao destino traumático de um acontecimento. Caso o objeto não possa adaptar-se às necessidades do sujeito e fornecer ou legitimar um sentido ao vivido, interrompe-se o processo de introjeção e inscrição psíquica. Frente ao desamparo psíquico decorrente da ausência de investimento do objeto, o psiquismo se defenderia ou por meio da clivagem das impressões traumáticas ou imergiria em comoção, da qual não resta memória. Nicolas Abraham (1919-1975) e Maria Torok (1925-1998) acrescentam que um acontecimento que permaneceu clivado no psiquismo de uma geração - impossibilitado de circulação e figurabilidade - é transmitido enquanto lacuna de memória para a próxima geração.

A imagem do traumatismo como o avesso da memória pretende oferecer uma reserva psíquica/teórica ao analista enquanto figurabilidade possível das ressonâncias do traumático na memória. Tal imagem, como pretendemos explorar no presente artigo, apresenta um paradoxo essencial no que concerne à compreensão da subversão traumática, ao indicar a alteração no direcionamento dos investimentos psíquicos. Ela remete tanto às impressões que precisam ser associadas a uma imagem para ganhar sentido e qualidade psíquica, como à pura negatividade relativa à falta de uma inteligibilidade sensível e representacional. No modelo da neurose traumática, a repetição busca revelar, por meio da ligação com uma imagem nos sonhos traumáticos ou em estado quase-alucinatório, impressões que permaneceram desligadas. No registro da negatividade, ou da não-representação, a imagem do avesso suscita a ideia de uma impossibilidade de inscrição que irradia efeitos a partir do dano narcísico.

 

MEMÓRIA SEM LEMBRANÇAS: AS IMPRESSÕES TRAUMÁTICAS

A noção de trauma está relacionada à problemática da memória desde as primeiras teorizações freudianas acerca da histeria. Em suas primeiras formulações nos Estudos sobre a histeria (1893), Freud referia-se a "traços de memória de traumas" ou a "lembranças do trauma" que se apresentavam nos ataques histéricos. Já neste momento teórico, Freud relacionava o traumático à ideia de ruptura psíquica por grandes quantidades de excitação e à noção de dissociação psíquica. Não obstante tal compreensão ter conduzido à teorização, na segunda tópica, da impossibilidade de representação de tais intensidades, neste primeiro período teórico o traumático ainda remetia à teoria do recalque e à noção de representação.

A partir da mudança teórica caracterizada pela segunda tópica, o trauma aparece em referência ao excesso pulsional não ligado, intensidades que surpreendem um psiquismo despreparado, ou seja, desinvestido, não se constituindo como lembranças de fato. Em seu caso clínico O homem dos lobos, de 1918, Freud nos fala de impressões muito intensas, marcas perceptivas da cena primitiva que não poderiam ser evocadas, apenas construídas a posteriori. Freud acrescenta que não utiliza o termo lembrança de maneira intencional.

De fato, os fenômenos de repetição não respondiam mais ao modelo do retorno do recalcado, mas ao da apresentação de impressões sensíveis, tanto nos sonhos traumáticos como de maneira quase-alucinatória na vigília. Tais quadros apontavam para um além da representação e da memória. A partir de 1920, em seu Mais além do princípio do prazer, Freud aproxima o trauma do funcionamento do caos pulsional presente no id, que realiza incessantemente uma pressão de trabalho no aparelho psíquico. Lembremos que, a partir de 1923, Freud localizou o domínio psíquico desse momento primário, em que prevalece a necessidade de ligação, como o de um id em processo de diferenciação, quando não podemos distinguir o que seria o id e o que seria o corpo. O trabalho que o trauma demanda, assim como a pulsão, é, assim, um trabalho de captura do pulsional, um trabalho de ligação. Decorre daí a possibilidade de pensar que existe uma potencialidade traumática, uma zona de não-representação, na raiz da pulsão.

"O acontecimento real é traumático quando, em um violento movimento de regressão, entra em ressonância, pela via sensorial direta, imediata, com a potencialidade traumática, quebrando assim os sistemas das representações Pcs e Ics em suas capacidades de ligação." (BOTELLA & BOTELLA 2002, p.171)

O traumático refere-se, então, a rupturas do psíquico por uma quantidade que não pode ser prontamente assimilada, associada e inserida em uma cadeia representacional. Portanto, o trauma deixa de se configurar como representação sexual recalcada, como deixa também de obedecer a uma relação de causa e efeito com a realidade. Freud, nesse momento, acentua a dimensão econômica do trauma ao aproximá-lo da dinâmica das pulsões e da angústia automática. O casal Cesar e Sara Botella nos oferece um caminho de retorno ao texto do Projeto para uma psicologia científica de Freud para nos explicar como o psiquismo se defende destas irrupções. Os comentadores nos falam que "Seria em função de uma busca de inteligibilidade, esforçando-se para evitar um estado de desamparo, que o ego utilizaria uma percepção-signo (Projeto) ligada por simultaneidade à experiência de pavor" (BOTELLA & BOTELLA, 2002, p.166). Freud remete, neste texto, a constituição da memória à experiência de dor, pois se refere à necessidade do aparelho psíquico de diferenciar a excitação que conseguiu romper a barreira de contato por meio da criação de facilitações, marcas que deixam uma espécie de trilhamento mais permeável à passagem de novas excitações.

Freud retoma e aprofunda a temática da memória um ano mais tarde em sua Carta 52, endereçada a Fliess. Em consonância com Maia (2002), consideramos que nesse breve texto Freud oferece-nos a chave para a compreensão do registro traumático. Freud teoriza os mecanismos psíquicos como diversas modalidades de registros mnêmicos, formados em um processo de estratificação que parte da percepção em direção à representação de palavra propriamente dita. Os sucessivos registros representam a realização psíquica de épocas sucessivas da vida, o que indica a temporalidade psíquica. Vale reproduzir, a seguir, o caminho do processo de estratificação pensado por Freud.

Em primeira instância, teríamos as percepções - W (Wahrnehmungen), que correspondem aos neurônios em que se originam as percepções, ligadas à consciência e que não conservam traço algum do acontecido. Freud afirma aqui que consciência e memória são mutuamente excludentes. Os primeiros registros psíquicos seriam os signos de percepção - WZ (Wahrnehmunszeichen), as indicações de percepção. Estas últimas constituem a primeira transcrição do ocorrido, associam-se por simultaneidade, mas não podem alcançar por si mesmas a consciência. A segunda forma de transcrição ou registro, a inconsciência - UB (Unbewusstsein) ordena tais signos segundo outras relações, talvez causais, constituindo traços, lembranças conceituais que também não têm acesso à consciência. A pré-consciência constitui a terceira transcrição, relacionada às representações verbais, e que corresponde, segundo Freud, aos processos egoicos.

Este processo atende a aspectos econômicos do psiquismo, sendo que cada transcrição corresponde a uma inibição da anterior e a uma retirada da carga de excitação. Maia (2002) aponta que tal processo visa à manutenção normal do psiquismo, e o estrangulamento da possibilidade de circulação e transcrição da inscrição entre os registros traria o adoecimento psíquico. Apesar de Freud referir-se à falha da tradução como um 'recalcamento', afirma que, dentro de uma mesma fase psíquica e entre registros da mesma espécie, forma-se uma defesa normal devida à produção do desprazer. Já a defesa patológica somente ocorre contra um traço de memória de uma fase anterior, que ainda não foi traduzido. Desta forma, destitui a importância da magnitude de desprazer como causa de defesa, implicando-a em uma falha de tradução ou impossibilidade de investimento. Esta afirmação indica uma possível associação com a noção de trauma do desmentido formulada por Ferenczi em 1933. A impossibilidade de legitimação do sentido de uma experiência geraria uma cisão no ego, segundo o modelo da desautorização perceptiva, proposta por Figueiredo (2003), sendo mantido o signo de percepção do evento traumático isolado, sem possibilidade de nova inteligibilidade psíquica.

A memória, portanto, está na ordem da substituição, pouco guarda da percepção e do evento original. A noção de impressão, ou signo de percepção, alude à origem da memória, ao primeiro momento de elaboração mnemônico. As impressões são marcas de um processo energético, mas não podem produzir uma lembrança do acontecimento. Consideramos que o traumático deixa suas marcas sob a forma de impressões traumáticas, sinais de um processo energético aos quais uma qualidade psíquica rudimentar vem se ligar. O casal Botella afirma que: "Se há memória na neurose traumática, ela só é concebida enquanto memória sensorial, ou traço perceptivo, não tendo alcançado a qualidade de representação do traço mnésico" (2002, p.166). Retomando a concepção de Freud, os autores frisam outra distinção fundamental: o 'tornar-se consciente', no sentido de acesso à consciência dos 'traços perceptivos' desprovidos da qualidade de representação, se dá sob uma forma quase alucinatória próxima da dinâmica da neurose traumática, por meio do enlace da imagem e não da representação-palavra.

É fato que Freud não realiza em seus textos uma distinção clara entre os conceitos de impressão traumática e de imagem mnêmica não dominada (ungebändigt). Quando pensamos em ligação como um processo anterior ao princípio do prazer, referimo-nos a um processo de captura do pulsional, de uma marca no plano energético sob a forma de uma inscrição no nível do desejo e das cadeias associativas. No caso do Homem dos lobos, Freud se refere indistintamente a impressões ou a imagens traumáticas. Lejarraga (1996, p.81) nos aponta que Freud assimila as impressões às imagens quando desenvolve um trabalho teórico mais ligado à clínica, porque as imagens constituem as formas de expressão, traduzíveis, mais próximas das impressões. A imagem mnêmica, aquela retomada nos sonhos traumáticos, diferentemente das impressões, segundo os Botella (2002, p.166), não consiste na simples repetição do pavor nem numa verdadeira repetição da percepção do acontecimento que o ego sofreu de maneira passiva, mas em uma tentativa de ligação que o ego faz para evitar o pior. Trata-se da retomada alucinatória da lembrança de uma percepção simultânea à irrupção do afeto. O casal Botella diferencia imagem mnésica - que chamam de imagemlembrança e que já implica uma representação - das imagens da percepção marcadas por simultaneidade à irrupção de excitações.

A figurabilidade, ou seja, a criação de imagens como acontece nos sonhos pode ser considerada o primeiro momento de elaboração da impressão traumática. A imagem, especialmente a visual, remete à criação de uma forma, que pode ser evocada e transmitida, tornando visível aquilo da ordem do indizível e intolerável (ENRIQUEZ, 1978). As imagens dos sonhos traumáticos, portanto, apresentam um duplo sentido: serem simultaneamente a expressão do trauma e sua primeira elaboração.

As impressões traumáticas, ou seja, aqueles signos que conseguiram se impor ao ego por meio da percepção dos órgãos dos sentidos, sem que este pudesse acionar o sinal de angústia, constituem o avesso da memória, espécie de negativo de uma impressão que só pode ser revelada por meio de sua ligação a uma imagem, mediante uma regressão formal do pensamento, um estado quase-alucinatório. Em analogia a um filme de fotografias utilizado, mas não revelado, o traumático referente à neurose traumática constitui o negativo em sua positividade.

Ao relacionarmos as marcas do traumático aos signos de percepção - primeiro registro dos processos excitatórios - podemos pensar em uma memória sem lembranças, uma memória que se daria em um registro sensível. Registro situado nos limites do corpo e do aparelho psíquico. Ferenczi parece ter solucionado o enigma ao teorizar um sistema mnésico do ego, sistema limite entre o inconsciente das representações de coisa e o pré-consciente, no qual as sensações pré-representacionais são gravadas, porém não como traços, os quais demandam ainda um movimento libidinal em relação aos objetos. Este movimento libidinal foi caracterizado por Ferenczi como processo de introjeção. Tal processo, essencialmente afetivo, envolve a extensão do interesse autoerótico ao objeto que realiza uma união dos objetos e do ego a partir de sua apropriação corporal. O processo da introjeção foi conceituado por Ferenczi e melhor discriminado por N. Abraham e Torok (1972) como operação simbólica constituinte de uma discriminação original ego/não-ego, dentro/fora.

Assim como na experiência de dor, que deixaria uma espécie de depósito de excitação pulsional, o traumático também estaria referido a uma espécie de depósito, de interiorização sem inscrição, já que o trauma interrompe, na teorização ferencziana, o processo de introjeção. No entanto, tal depósito fundamentalmente sensorial permanece neste sistema de passagem como impressões traumáticas que ainda não puderam ser introjetadas, segundo Ferenczi.

Compreendemos aqui a dinâmica de repetição da neurose traumática como tentativa em curso de ligação da situação traumática, de um signo de percepção simultâneo à excitação que conseguiu se impor ao ego por meio da percepção, sem que este pudesse acionar o sinal de angústia e realizar, no momento, uma ligação psíquica. Desta forma, há possibilidade de (re)criação de uma atividade fantasmática, por meio do investimento dessa percepção e de sua ligação em um estado quase-alucinatório ou nos sonhos traumáticos. Na repetição reconhecemos a característica da neurose traumática como reação de defesa frente ao trauma, uma medida antitraumática baseada em uma primeira transcrição da percepção mediante seu enlace com uma imagem. Segundo tal lógica, o trauma pode ser considerado como representável em si apesar de ainda nãorepresentado, ou introjetado, indicando a possibilidade de realização de uma intrincação pulsional.

 

A NÃO-REPRESENTAÇÃO: UMA POSITIVIDADE

Quando Ferenczi (1934) afirma que um choque inesperado que atinge um psiquismo despreparado age como um anestésico ao suspender toda atividade psíquica e realizar uma desconexão com a percepção, ele descreve o que entendemos como o trauma psíquico. O trauma se constitui para Ferenczi como comoção psíquica, momento em que não há possibilidade de realização de uma nova intrincação pulsional e de decepção frente ao objeto de confiança. A desconexão com a percepção e a ausência de investimento do objeto conduzem a um vazio capaz de fissurar o psiquismo. O casal Botella utiliza a imagem de uma beância no perceptivo acompanhada de uma beância no representacional, "uma ausência de conteúdo na percepção e não de uma percepção de um conteúdo traumático" (BOTELLA & BOTELLA, 2002, p.189).

Outra imagem que pode nos oferecer alguma inteligibilidade do trauma seria a do avesso da memória. Paradoxal em si, este avesso pode referir-se tanto ao negativo em espera de revelação como àquilo que não ocorreu, ou melhor, que ocorreu em pura negatividade, e que, assim, produz efeitos psíquicos. Encontramo-nos diante de um impensável, um irrepresentável, que remete ao fundamento negativo do trauma.

Freud descreveu o trauma infantil, em Moisés e o monoteísmo (1938), em seus aspectos positivos, capazes de gerar um sentido por meio da repetição do signo de percepção, e em seus aspectos negativos, fenômenos que impedem a repetição e a consequente ligação e possibilidade de recordação do trauma. Ampliando a compreensão do trauma infantil em sua negatividade, Freud afirma que não resta lembrança do trauma, mas apenas cicatrizes dos danos precoces causados ao ego. Associamos tais marcas às cicatrizes narcísicas, ou ao dano permanente no sentimento-de-si descrito por Freud em seu Mais além do princípio do prazer (1920), decorrentes de experiências consideradas intoleráveis, desejos incompatíveis com a realidade em um estágio do desenvolvimento muito precoce. Lembremos que Ferenczi, em seu artigo póstumo de 1934, "Reflexões sobre o trauma", afirmou que nenhum traço mnêmico da comoção subsiste, de modo que as origens da comoção são inacessíveis à memória. Ferenczi também considera, em seu Diário clínico, que se o psiquismo fragmentado pelo trauma consegue realizar uma liquidação do trauma, a psique se restabelece em uma nova unidade, uma neoformação do ego. Assim como as cicatrizes narcísicas descritas por Freud, é possível pensar que talneoformação, ou alteração egoica tenha sido provocada por aquilo que "não ocorreu", que não pode ser representado, a negatividade do trauma em sua positividade.

O texto de 1925, Notas sobre o 'bloco mágico', em que Freud retoma a problemática da memória e da inscrição psíquica, nos oferece elementos para pensar nos efeitos da ruptura com a percepção. Nesta analogia do aparelho psíquico com o 'bloco mágico', Freud integra o sistema percepção-consciência ao sistema da memória em um modelo único. Não nos interessa esmiuçar o funcionamento de tal aparato de escrita, já descrito no texto, mas realçar que tal comparação forneceu a Freud uma imagem fundamental para teorizar o fracionamento de excitações constituinte do ritmo psíquico, bem como da memória. Freud percebe que o sistema perceptivo só está apto a captar percepções quando investido pelo inconsciente. Este fluxo de inervação ocorre de forma descontínua, como se o inconsciente, utilizando-se do sistema percepção-consciência, estendesse sensores no mundo e os recolhesse, após serem excitados pelos estímulos do ambiente. O conceito de um fracionamento de excitações, garantindo uma 'inexcitabilidade periódica' indica um funcionamento temporal e a condição de possibilidade de uma inscrição. Neste sentido, Derrida nos esclarece: "Os traços não produzem, portanto, o espaço de sua inscrição senão se dando o período de sua desaparição. Desde a origem, no 'presente' de sua impressão, são constituídos pela dupla força de repetição e de desaparição, de legibilidade e de ilegibilidade" (1988, p.221).

O modelo de memória apresentado neste texto oferece-nos uma compreensão a respeito da possibilidade de ruptura da função perceptiva frente ao trauma, como conceituada por Ferenczi. O choque toma de surpresa o psiquismo, no momento que não há inervação suficiente para investir o sistema pré-consciente e seu escudo protetor. Quando o trauma irrompe, não há, portanto, possibilidade de ligação psíquica e de registro do fluxo de excitações.

Já em seu Projeto (1895, p.476), Freud afirmara que a passagem de uma percepção não acompanhada de atenção, termina silenciosamente. Quando Freud se refere a uma catexização silenciosa, podemos pensar em uma falta de ligação (Bändigung), uma beância que é criada. O traumático, desta forma, aproxima-se do funcionamento da pulsão de morte no psiquismo. Ao afirmar que não há representação psíquica possível das pulsões de morte no inconsciente em contraponto às pulsões de vida que se fazem representar no psiquismo por meio de seus representantes, Freud indica que seu trabalho ocorre em silêncio. Não iremos aprofundar aqui esta temática, mas interessa-nos pensar que o modo do funcionamento do traumático no psiquismo assemelha-se ao da pulsão de morte. Diante da constatação de Ferenczi de que todo choque causa um desintrincamento imperfeito das pulsões e a interrupção do investimento da percepção, podemos pensar que é o registro da pulsão de morte que entra em cena no psiquismo, causando ruptura e silêncio.

A respeito da falta de inteligibilidade de um acontecimento, o casal Botella (2002, p.91) se questiona como uma 'percepção' sem participação sensorial, ou antes, uma inteligibilidade psíquica, fora de representações, sem qualidade consciente, atemporal, pode existir. E segue nos esclarecendo: a não-representação, por sua ausência de qualidade de "representação" e ausência de qualidade "sensorial", só pode ser definida por meio de uma terminologia negativa. Este estado é incapaz de excitar pela via progressiva a consciência; o psiquismo não consegue transformá-lo, gerando, então, um excesso de excitação que, segundo Schneider (1994, p.26) permanece fora do processo mental e que o ego experimenta como vivência traumática. Schneider fala-nos em um estado de estupor que pressupõe uma falta na disponibilidade de representações e uma falta correlativa sobre o plano de orquestração emocional que configura a vivência como traumática. Para a psicanalista, a noção de excesso de afeto não bastaria para dar conta do bloqueio, e o que paralisaria o sujeito não seria apenas o fato de ter experimentado com muita intensidade o que quer que seja, mas de têlo experimentado no escuro, tanto no escuro representativo quanto no escuro afetivo (SCHNEIDER, 1994, p.26-27). Em termos ferenczianos, o casal Botella nos oferece uma imagem desta vivência traumática:

"O trauma deve ser compreendido em uma negatividade: uma violenta e brusca ausência das tópicas e das dinâmicas psíquicas, a ruptura da coerência psíquica, o desmoronamento dos processos primários e secundários. É no caráter 'negativante', na perda pelo ego de seus recursos, que compreendemos a qualidade traumática. A desorganização brutal originar-se-ia, acreditamos, não numa percepção, mas na ausência de sentido do violento excesso de excitação e do estado de desamparo do ego, na impossibilidade para o ego de representá-los para si." (2002, p.93)

Freud, ao remeter o estado de desamparo psíquico à angústia automática, nos indica o estado de desamparo como ausência de orquestração afetiva possibilitada pela angústia-sinal. Lembrando que o protótipo da angústia automática é a experiência do nascimento, vivência que corresponde a uma grande perturbação energética interna e da qual não resta qualquer conteúdo psíquico, é possível pensar que é esta ausência que se configura como traumática para o psiquismo. Caso o objeto não possa oferecer acolhimento para tal perturbação energética, seja em termos freudianos satisfazendo a necessidade do bebê, ou ferenczianos, sintonizando-se com as angústias infantis e podendo acolhê-las e oferecer um sentido a elas, o sujeito experimenta a passagem de um estado de desamparo fisiológico para um desamparo psíquico. É, portanto, no enlace realizado pela passagem da catexia dos órgãos para a catexia objetal, que, frente à ausência de investimento do objeto, é possível se experimentar o trauma. Concordamos com a ideia apresentada pelo casal Botella que o trauma é a impossibilidade do sujeito representar-se não investido pelo objeto, "o irrepresentável de sua própria ausência no olhar do objeto; um estado no limite do psíquico, não elaborável e desorganizador, que pode ser qualificado de não-representação" (2002, p.101). Vemos, desta forma, a relação de perigo se dialetizar entre sua evocação externa e seu surgimento interno, pois o impacto pulsional precisa ser metabolizado na relação com o objeto. Esta é a tese de Ferenczi, que sustenta a noção de desmentido, já em termos de linguagem. O que vale ressaltar, entretanto, é que o que se recusa junto ao sentido solicitado ao vivido traumático pela criança ao adulto é o próprio investimento nesta criança. O adulto precisa recusar olhar para a criança, recusar reconhecer seu estado desorganizado. Os Botella continuam nos ajudando a compreender a situação:

"De fato, segundo nossa hipótese, não é a perda do objeto, mas o perigo da perda de sua representação e, por extensão, o risco de não-representação, que marca o desamparo. O perigo da perda da representação provoca um verdadeiro vazio com efeitos implosivos, jogando a percepção odiada para dentro do psiquismo; equivalente fantasmático da representação dissipada, a percepção importuna invade a cena. Na sombra da insatisfação despertada pela ausência do objeto investido, mais que a angústia-sinal de alarme do risco da perda do objeto, é o pavor automático da implosão que é chamado a tornar-se sinal de alarme do perigo da perda da representação deste mesmo objeto." (2002, p.27)

Quando os Botella nos falam de que a percepção odiada é jogada para dentro do psiquismo, pensamos, não na primeira transcrição da percepção em signo de percepção, segundo a lógica da Carta 52, mas sim na lógica da incorporação maciça de uma percepção que ocupa o vazio deixado pela impossibilidade de ligação. Se o amor pelo objeto não pode ser abandoando em função do desamparo psíquico, a libido, ou melhor, o excesso de excitação refugia-se na incorporação do objeto. Ferenczi postula que frente a uma aflição extrema, após a desconexão com a percepção, ocorra uma espécie de transe alucinatório em que toda impressão mecânica e psíquica é aceita sem resistências. É possível pensar que diante da falta de proteção causada pela ausência de investimento da percepção, da impossibilidade de ligação da excitação, o sujeito absorva de forma mimética o agressor. Ferenczi nos diz que em situações extremas, como a do trauma, em que ocorre uma eliminação da comunicação consciente, o ego reparte-se em uma parte imitadora do estranho, como forma primitiva de objetivação dos processos do mundo exterior e uma repetição autoimitadora da reação emocional que se experimentou, do excesso. Torna-se um ser insensível, que se molda segundo a forma outorgada do agressor, feito um saco de farinha. Trata-se de uma defesa que oblitera o vazio da não-representação, para manter a situação de ternura com o objeto.

O impensável, portanto, constitui a impossibilidade do sujeito representarse não investido pelo objeto; para não perder o objeto e seu investimento, ele torna-se o objeto. A representação do objeto incorporada permanece intacta ao ser clivada, segundo N. Abraham e Torok, no interior de uma cripta construída ao seu redor (1972). A cripta, como vimos, perpetua o momento traumático através da destruição ativa da capacidade de figurabilidade, como efeito dos muros intrapsíquicos que precisaram ser construídos em decorrência da experiência que pôs a tópica em perigo. Portanto, o trauma tem como efeito uma fratura no processo de simbolização, introduzindo uma lacuna no psiquismo e desencadeando como defesa a incorporação fantasiosa do objeto. Esta lacuna é preenchida pela inclusão de dados brutos da realidade traumática, pelo objeto inteiro ou por parte dele. Como medida antitraumática, a incorporação bloqueia, então, o processo de introjeção opondo-se à modificação tópica imposta pela realidade ao alucinar a presença, no interior de si, de uma coisa, de um acontecimento, de um objeto de amor para enganar a necessidade de fazer uma elaboração afetiva e verbal do vivido. É por não poder reconhecer o que se perde diante da perda do objeto, ou seja, o investimento deste e toda a 'orquestração afetiva' relacionada ao seu amparo, que se erige uma fantasia dentro de si como única forma de reparação narcísica. A incorporação como mecanismo de defesa ocupa o não-lugar da representação, ou melhor, o espaço psíquico da não-representação do vivido. Diferentemente da introjeção, que pode ser considerada como um processo de metaforização, a incorporação não se constitui como tentativa de ligação e metamorfose de sentido, mas em manutenção de um estado que não pode ser perdido, nem alterado.

A fantasia de incorporação corresponde, portanto, a uma lacuna de sentido no psiquismo, lacuna esta que, ao ser transmitida para a próxima geração - que não possui qualquer inteligibilidade do acontecimento, uma vez que não mantém relação com a fantasia - produz um vazio de sentido. Ao contrário das protofantasias originárias, que carregam em si um sentido transpessoal ou impessoal, quando existe uma lacuna de sentido que não pode ser significada e desdobrada no psiquismo dos pais, esta, ao ser transmitida passa a funcionar como um buraco na tópica do sujeito. Como uma verdadeira possessão, as palavras ou percepções encriptadas no psiquismo dos pais atuarão como ausências e rupturas inassimiláveis à cadeia de representações da criança. Tal lacuna remete a um patrimônio estrangeiro, a uma catástrofe narcísica alheia. Não há sentido algum possível, apenas um buraco impensável que impossibilita a diferenciação psíquica. N. Abraham, em Pequenas anotações sobre o fantasma (1975), faz coincidir o trabalho do fantasma com o trabalho da pulsão de morte, como descrito por Freud.

Consideramos a categoria metapsicológica do fantasma como uma excelente descrição do modo de funcionamento do trauma enquanto negatividade no psiquismo. Rand (2001, p.104) aponta que o pensamento do fantasma coloca em jogo uma nova categoria, interpessoal, de lembrança e da memória, uma recordação negativa, que não será relembrada em nenhum caso. Segundo o comentador, a teoria do fantasma alarga o paradoxo do sintoma em psicanálise. Ocorre a recepção de uma ausência, de um silêncio, de uma inacessibilidade; em uma frase, há a recepção involuntária de uma lembrança familiar apagada. O mecanismo da possessão fantasmática, assim como o trauma, corresponde a uma verdadeira fratura na operação de simbolização necessária à estruturação psíquica da criança.

 

TRAUMA, O AVESSO DA MEMÓRIA

Sugerimos a imagem paradoxal do traumatismo como avesso da memória, por referir-se aos dois sentidos apresentados dos efeitos do traumático no psiquismo, aos signos de percepção que precisam ser associados a uma imagem no modelo da neurose traumática bem como à negatividade referente à impossibilidade de inteligibilidade psíquica. Trata-se de uma imagem rica para pensarmos a subversão da memória no registro do traumático, ao indicar a alteração no direcionamento dos investimentos psíquicos.

Freud nos aponta uma via progressiva constitutiva do psiquismo que parte da percepção em direção à representação. Baseado no modelo do sonho, Freud descreve, em seu capítulo VII de A interpretação dos sonhos, no entanto, que a marcha da excitação pode ter seu sentido invertido quaisquer que sejam suas origens (pensamentos, palavras, afetos, percepções ou lembranças destas), sendo percorrida de maneira regressiva. Tal inversão ocorre também nas patologias, bem como nos devaneios. Durante a vigília, o recuo diante da necessidade de manter a prova de realidade jamais ultrapassa as imagens-lembrança, ou seja, as representações, senão nas patologias. Já nos sonhos, sem o freio da imagem-lembrança, pode ocorrer uma regressão formal que ultrapasse inclusive as representações inconscientes de coisa e alcance os signos de percepção, assim como nos estados alucinatórios, atingindo um aquém ou além da memória e da representação. É este o modelo que Freud associa ao trabalho do traumático dentro e fora do estado psíquico do sono, quando nos fala dos sonhos traumáticos e de um estado quase-alucinatório de repetição.

Freud dá a entender que existem formas patológicas da regressão nas quais a transferência de energia deve ser diferente do que é na regressão normal, que levam a um investimento total dos sistemas perceptivos. O casal Botella considera que tais formas patológicas poderiam consistir "em um movimento direto que iria, por exemplo, do traço da percepção à sua reprodução sob uma forma alucinatória, sem que os sistemas Ics e Pcs, os mecanismos de deslocamento e a condensação, e a neurose infantil participem disso" (2002, p.167-168).

Esta, segundo os Botella, representa, portanto, a única via de acesso possível à memória sensível, característica da neurose traumática. Frente ao estado de desamparo, de ausência do objeto, a tendência alucinatória do psiquismo agiria desinvestindo a percepção, negando-a, para investir a imagem-percepção, este primeiro signo perceptivo adquirido em simultaneidade ao processo de excitação, "permitindo ao ego estabelecer o elo de causalidade indispensável ao restabelecimento da coerência psíquica" (BOTELLA & BOTELLA, 2002, p.168). O ato alucinatório já se trata de sentido para os autores, um sentido imediato, mas não significação. No entanto, é por meio deste estado alucinatório que se dá uma primeira tentativa de colocação 'em cena' de algo que é puro caos energético, assim como no delírio. O elo com as imagens-percepção simultâneas pode, assim, estabelecer uma cena que, então, está apta a receber investimentos pela força do desejo e a funcionar segundo o processo primário, já que confere uma figurabilidade mínima para o vivido, sendo capaz, portanto, de canalizar a angústia.

Freud, em seu novo estudo sobre o trabalho do sonho de 1932, estabeleceu um paralelo entre o desaparecimento dos afetos ligados ao pensamento dos sonhos e a força sensorial das imagens sonhadas. Os Botella utilizaram tal paralelo para pensar a possibilidade de um deslocamento de energia dos afetos impedidos no sentido da figurabilidade. Em se tratando dos afetos aterrorizantes da perda da representação ou dos afetos dolorosos do luto, a via figurativa é uma maneira de inibir a produção destes afetos sob a 'força sensorial' da alucinação. O ato alucinatório, apesar de ter o valor de uma descarga com a capacidade de liquidar toda quantidade pulsional, não promove a integração dos elementos sensoriais, não produz sentido. "A dor, até então desaparecida sob a 'força sensorial' da alucinação, reaparecerá sustentada pela figurabilidade e poderá engajar-se num processo de luto" (idem, p.33). O casal retoma aqui a dimensão energética e afetiva desse processo, apontada desde o princípio por Freud.

Na segunda vertente, quando há impossibilidade de inteligibilidade psíquica, vimos que o traumático, enquanto negatividade psíquica, apresenta seus efeitos de maneira silenciosa, aproximando-se do trabalho da pulsão de morte no psiquismo. Retomando o pensamento ferencziano acerca do traumático, "...se a perturbação é violenta demais, portanto traumática, e não acompanha o ritmo progressivo, segundo o qual o organismo foi outrora estruturado, produz-se uma 'desintrincação' (Freud) imperfeita das pulsões do organismo" (FERENCZI, 1934, p.112-113). Tal desintrincação anuncia os efeitos desestruturantes do trauma, compreendido então como comoção psíquica. O choque causa uma suspensão de toda atividade psíquica bem como uma desconexão com a percepção. A amnésia traumática decorre desta brusca ausência de tópicas e dinâmicas psíquicas. Neste momento de paralisia psíquica e sensorial, Ferenczi afirma que toda a impressão mecânica e sensível será aceita sem resistência, porém nenhum traço mnêmico subsistirá, mesmo no inconsciente.

O traumatismo, portanto, impossibilita a inscrição psíquica, indicando a ordem do não-representado no psiquismo. Ao subverter o registro da memória, é possível afirmar que o traumático se opõe ao processo paulatino de desenvolvimento da realidade e de diferenciação tópica, produzindo fissura e desligamento na trama psíquica. O trauma impossibilita justamente o duplo movimento intrínseco à prova de realidade, realizado pela memória, que pressupõe a negação da percepção do objeto para poder investi-lo na representação, bem como sua reprodução na representação para reencontrá-lo na realidade (BOTELLA & BOTELLA, 2002, p.47). Desta forma, é possível considerar que o trauma, em sua negatividade, impede o advento de um processo de diferenciação no psiquismo, produzindo uma inviabilidade psíquica que indica o campo da psicose, ou dos limites da neurose, como possibilidade de sobrevivência. Esta compreensão se distingue da apresentada em relação ao modelo da neurose traumática, que consiste em uma tentativa de ligação e corresponde ao trabalho que toda psiconeurose deve realizar em relação à zona traumática presente no psiquismo.

 

REFERÊNCIAS

ABRAHAM, N. (1975/1995) "O fantasma de Hamlet ou o IV ato, precedido pelo entreato da 'verdade'", in ______. A casca e o núcleo. São Paulo: Escuta, p.411- 439.         [ Links ]

ABRAHAM, N.; TOROK, M. (1972/1995) "Luto ou melancolia", in ______. A casca e o núcleo. São Paulo: Escuta.         [ Links ]

BOTELLA, C. & BOTELLA, S. (2002) Irrepresentável, mais além da representação. Porto Alegre (RS): Editora Criação Humana.         [ Links ]

ENRIQUEZ, M. (1978) L'indicible et l'ecriture. Topique Revue Freudienne, Rèperes, Paris: EPI, n.21, p.47-66.         [ Links ]

DERRIDA, J. (1988) "Freud e a cena da escritura", in ______. A escritura e a diferença. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

FERENCZI, S. (1933/1987) "Confusão de línguas entre os adultos e as crianças", in BIRMAN, J. (Org.). Escritos Psicanalíticos (1909-1933). Rio de Janeiro: Taurus.         [ Links ]

______. (1934/1992) "Reflexões sobre o trauma", in Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

______. (1990) Diário clínico. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

FIGUEIREDO, L.C. (2003) "Verleugnung, a desautorização do processo perceptivo", in ______. Elementos para a clínica contemporânea. São Paulo: Escuta.         [ Links ]

FREUD, S. (1987) Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud:. Rio de Janeiro: Imago, 1996.         [ Links ]

______. (1895) "Carta 52", v.I, p.281-287.         [ Links ]

______. (1893) "Estudos sobre a histeria", v.II, p.39-316.         [ Links ]

______. (1895[1950]) "Projeto de uma psicologia científica", v.I, p.335-454.         [ Links ]

______. (1900) "A interpretação dos sonhos", v.IV e V, p.12-700.         [ Links ]

______. (1918) "História de uma neurose infantil", v.XVII, p.14-128.         [ Links ]

______. (1920) "Além do princípio do prazer", v.XVIII, p.12-75.         [ Links ]

______. (1925) "Uma nota sobre o 'bloco mágico'", v.XIX, p.251-259.         [ Links ]

______. (1939 [1934-38]) "Moisés e o monoteísmo: três ensaios.", v. XXIII, p.15-150.         [ Links ]

LEJARRAGA, A.L. (1996) O trauma e seus destinos. Rio de Janeiro: Revinter.         [ Links ]

MAIA, M. S. (2002) "Extremos da alma: dor e trauma na atualidade e clínica psicanalítica". Tese de doutorado, Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.         [ Links ]

RAND, N. (2001) Quelle psychanalise pour demain? Voies ouvertes par Nicolas Abraham e Maria Torok. Paris: Érès.         [ Links ]

SCHNEIDER, M. (1994) Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud. São Paulo: Escuta.         [ Links ]

 

 

Recebido em 24/8/2009.
Aprovado em 16/3/2010.