SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue2The automaton: a figure of passionKNOWLEDGE, TRUTH AND JOUISSANCE: THE WALL OF LANGUAGE AND THE POETIC FUNCTION author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.20 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1809-44142017002007 

Artigo

PAREDES MOVEDIÇAS: o espaço como efeito de linguagem

Fernanda Pereira Breda1 

Simone Zanon Moschen2 

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, Porto Alegre/RS, Brasil.

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Porto Alegre/RS, Brasil.

Resumo:

O presente artigo aborda o tema da constituição da noção de espaço para a psicanálise, discutindo as relações entre percepção e representação a partir de fenômenos de instabilidade de bordas no campo pulsional (como a alucinação, a despersonalização, o Unheimlich, os processos miméticos ou mesmo a errância psicótica). Propõe que as relações espaço-temporais no âmbito humano sejam tomadas como efeito da posição do sujeito na linguagem, problematizando a função do recalque como produtor de fronteiras que definem e estabilizam as relações do sujeito em sua experiência perceptiva.

Palavras-chave: espaço; psicose; mimetismo; percepção; representação.

Gorgeio é mais bonito do que canto porque nele se inclui a sedução.

É quando a pássara está enamorada que ela gorgeia.

Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.

Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.

É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.

É por isso que as árvores deliram.

Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.

E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.

As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

(Gorgeios, Manoel de Barros)

O presente artigo se propõe, a partir de elementos que se apresentam no trabalho clínico com a psicose e que indicam uma forma singular de ocupação e trânsito no espaço, a interrogar como se constitui a experiência de demarcação espacial no âmbito do humano. A clínica psicanalítica é a clínica da palavra - o que pressupõe que as operações terapêuticas ocorram no campo da linguagem e que, ao incidirem sobre os sujeitos, possam também produzir alterações nas suas relações com o meio. Nesse sentido, percorreremos proposições sobre a constituição do sujeito psíquico na psicanálise com a atenção voltada ao estabelecimento de noções espaciais elementares, levando em conta a proposição de Lacan, que aponta ser através do nome que se estabilizam as percepções e as relações - espaciais e temporais - entre sujeito e objeto. Assim, partiremos da clínica da psicose para interrogar a experiência do espaço como uma produção a ser construída no atravessamento da estruturação psíquica. Partiremos da psicose, mas nela não centraremos nossa argumentação, pois esta almeja as idiossincrasias da constituição de uma experiência do espaço.

Na psicopatologia, podemos encontrar vários indicativos de alterações importantes nas relações dos pacientes com seu meio; desde sintomas produtivos, presentes em quadros psicopatológicos mais graves (como as alucinações), até alterações sutis e, por vezes, momentâneas, na capacidade de discernir as bordas entre sujeito e objeto (como o Unheimlich freudiano). Na psicose, encontramos, reiteradamente, a errância dos sujeitos como uma forma singular de trânsito e ocupação de espaços geográficos. Podemos apontar também a vivência de aniquilamento e despersonalização testemunhada na clínica como sinal de instabilidade na constituição de bordas psíquicas. Identificamos, nessas situações, um verdadeiro ruído nas relações entre sujeito/espaço/representação. Em quê esses fenômenos permitem interrogar a experiência da constituição de bordas espaço-temporais no âmbito humano? Para avançarmos nessa indagação inicial, propomos percorrer o caminho necessário ao infans à constituição psíquica de bordas demarcadoras das oposições elementares interior/exterior. Nossa proposição inicial é a de que a estruturação das noções de tempo e espaço é determinada por um campo pulsional que responde a cadeias significantes estabelecidas previamente (representações, traços identificatórios e narrativas). A estruturação espaço-temporal é efeito da incidência da linguagem sobre o corpo e diz respeito à posição do sujeito na tecitura simbólica. Assim, o espaço subjetivo não pode ser tomado como um espaço geométrico euclidiano restrito às coordenadas de altura, largura e profundidade. A experiência de espaço no homem é regida pela lógica inconsciente que articula topologicamente os diferentes registros psíquicos: Real, Simbólico e Imaginário.

Caillois no ensino de Lacan

No artigo O Estádio do Espelho, escrito em 1949, Lacan, ao abordar o tema da identificação, no sentido das transformações produzidas nos sujeitos ao assumirem uma imagem, traz para o diálogo os estudos de Caillois (1938/1986), antropólogo e sociólogo francês. As proposições desse autor a respeito de diversos fenômenos observados na natureza são tomadas por Lacan em seu ensino como balizadoras das discussões sobre a estruturação do sujeito a partir de um campo de imagens. Discutindo os efeitos formativos que as imagens podem ter sobre os organismos, apresenta exemplos retirados do mundo animal, como a maturação da gônada da pomba ou a passagem da forma solitária do gafanhoto à forma gregária. Tratam-se de casos em que a simples visão de um semelhante produz modificações importantes nos organismos - o que Lacan irá chamar de “identificação homeomórfica” (1949/1998, p. 99). Nessa sequência, no artigo referido acima, aborda também casos de “identificação heteromórficas”, relativas aos chamados fenômenos miméticos que, para Lacan, colocariam diretamente em causa a significação do espaço para o organismo.

Lacan (1949/1998) irá referir inúmeras vezes às proposições de Caillois (1938-1986), pois esse autor, ao indagar sobre distinções elementares demarcadoras de bordas entre organismo e meio circundante, presentes no cerne da experiência constitutiva, ao situar o olhar como um organizador externo, desnaturaliza radicalmente a lógica suposta nessas relações, apontando para uma esquize fundamental entre órgão e função. Ao final do artigo, Lacan propõe um deslocamento na concepção do Eu, não mais centrado sobre o sistema nomeado por Freud como “percepção-consciência”, não mais organizado pelo “princípio da realidade”, mas fundado, em sua origem, por um desconhecimento radical sobre o que lhe determina.

Lacan, no seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1988), refere-se aos trabalhos desse pensador para articular a posição do sujeito e sua inserção em um determinado campo. Ao abordar mais uma vez o tema do mimetismo, indica o que estaria em jogo nesses fenômenos: o movimento de inscrição do sujeito em um determinado quadro. Não se trataria de um processo adaptativo ou de ordem defensiva, como seria mais evidente supor, mas essencialmente de uma forma de inserção. A base do ver se encontraria em uma primitiva instituição da forma, ou seja, em algo que Lacan nomeou de “empuxo daquele que vê”, algo propriamente anterior ao olhar. Lacan (1964/1988) aponta para a necessária tomada de posição do sujeito em relação a essa inserção primeira, que podemos pensar como a entrada no mundo dos signos.

O problema mais radical do mimetismo é saber se precisamos atribuí-lo a alguma potência formativa do organismo mesmo que nos mostra suas manifestações. Para que isto seja legítimo, seria preciso que pudéssemos conceber por quais circuitos essa força poderia se encontrar em posição de dominar não apenas a forma mesma do corpo mimetizado, mas sua relação com o meio, dentro do qual trata-se de que ou bem se distingue dele, ou bem, pelo contrário, com ele se confunda. (Ibidem, 1964/1988, p. 72)

A partir de uma discussão extensa sobre vários casos de mimetismo encontrados no meio ambiente, Caillois (1938/1986), no artigo Mimetismo e Psicastenia Legendária, nos faz pensar esses fenômenos não mais a partir de uma ótica natural de preservação da vida, como processos de defesa de um organismo sobre o outro. Ao contrário, ao se mimetizar ao meio, o organismo, inúmeras vezes, é capaz justamente de se colocar em risco. Caillois apresenta essa temática através de um apanhado bibliográfico, o que o leva a concluir que os casos estudados não podem ser explicados pelos biólogos dentro de uma lógica da natureza. Propõe, por sua vez, uma explicação singular: seriam fenômenos em que se apresentaria um evidente “distúrbio da percepção do espaço”. É a partir dessa proposição que irá, no seguimento do artigo, traçar relações com a psicopatologia, desenvolvendo a ideia da “subsistência no homem de virtualidades psicológicas que correspondem estranhamente a estes fatos” (ibidem, 1986, p. 62, grifo nosso). Nessa direção, propõe analogias entre os processos miméticos e a experiência da psicastenia1. Para sustentar tal posição, nos convida a pensar suas relações com o que denominou de “domínio da magia mimética”.

Ao relacionar magia e mimetismo, Caillois (1986) busca encontrar leis gerais que determinem as relações mais elementares entre os seres e o espaço circundante. O autor postula, como tendência dominante no organismo, o movimento de indistinção em direção ao ambiente: “A procura do semelhante aparece como um meio, senão como um intermediário. O fim parece ser, com efeito, a assimilação ao meio” (ibidem, 1986, p. 62, grifo do autor). Como pano de fundo, propõe a concorrência de duas forças: ao lado do instinto de conservação, que levaria o ser em direção à vida, revela-se uma “tendência ao abandono”. Afirma: “Esta assimilação ao espaço é obrigatoriamente acompanhada de uma diminuição do sentimento de personalidade e da vida” (ibidem, 1986, p. 64).

O principal da proposta de Caillois (1986) é desvincular a ideia do mimetismo à funcionalidade biológica, apontando uma verdadeira tendência dos corpos a uma espécie de assimilação imaginária ao espaço, como uma forma de inserção de sua imagem no universo das imagens. Talvez por isso Caillois tenha tomado o mimetismo como uma patologia, um distúrbio nas distinções entre o organismo e o meio; justamente por não ser possível encontrar, nos casos estudados, uma lógica que seria “natural”. Lacan destaca dessa proposição a ideia de “insuficiência orgânica” (1949/1996, p. 99), que aponta estar presente nessas formações da natureza, para pensar a posição do infans em sua dependência ao seu semelhante. No seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1988), indica os trabalhos de Caillois para propor a esquize no sujeito entre olho e olhar. É porque a função do olho se destaca do olhar que o sujeito humano constitui um campo pulsional que não é regido por leis naturais e, sim, pelo atravessamento da linguagem na relação com seus semelhantes.

“Parece até que se exerce uma verdadeira tentação do espaço” (ibidem, 1986, p. 62). Frase emblemática que nos leva a indagar sobre essa curiosa atração a se compor com o meio, a se perder no espaço circundante. Segue essa ideia propondo uma concepção própria do que seria o espaço para o organismo. Formula uma equação com dois termos que se relacionam de forma complexa: percepção e representação. O que o leva a afirmar, em uma proposição final: “[...] o espaço é indissoluvelmente percebido e representado” (ibidem, 1986, p. 62).

Para pensar as relações entre representação do espaço e percepção, a imagem que nos oferece é a de um duplo diedro, que muda a todo o momento de grandeza e de situação:

Diedro da ação cujo plano horizontal é formado pelo solo e o plano vertical pelo homem mesmo que anda e que, em decorrência desse fato, forma o diedro consigo mesmo; diedro da representação determinado pelo mesmo plano horizontal que o precedente (mas representado e não percebido), cortado verticalmente na distância onde o objeto aparece. É com o espaço representado que o drama se precisa, pois o ser vivo, o organismo, não é mais a origem das coordenadas, mas um ponto entre outros. (Ibidem, 1986, p. 62)

Trata-se de um esquema de difícil interpretação. Destacaremos alguns pontos que nos parecem importantes à nossa construção. O primeiro diz respeito ao apontamento que Caillois (1986) faz sobre o movimento: há uma instabilidade própria ao sistema que tenderia a se reconfigurar a todo instante. No diedro da ação, o homem estaria como referente, mas em uma instabilidade perceptiva e motora importante. Como veremos a seguir, é Lacan (1955/1986) quem irá formular posteriormente o registro do simbólico como o que pode trazer alguma estabilidade ao sistema. Caillois aponta um reposicionamento necessário: entre o plano da percepção e da representação dá-se um movimento de descentramento. A representação implicando necessariamente em descentramento na posição do homem. Caillois não desenvolve plenamente, mas parece indicar que o objeto só aparece, enquanto representação, a partir de um corte entre o homem e o meio. O que dá origem às relações que estabelece entre despersonalização e assimilação ao espaço.

Claramente, para o autor, é no caminho para a representação que o ser se descentra, não sendo mais nele que se situaria a referência (como ocorre na função perceptiva), mas no exterior, no mundo das representações. Em Freud, encontramos uma importante discussão em torno dessa questão, quando este formula os três abalos narcísicos sofridos pela humanidade. Nomeadamente: o descentramento da terra em relação ao universo; o descentramento provocado pela ciência em relação à religião quando anuncia a origem das espécies; e o descentramento da consciência provocado pela psicanálise. Tratam-se de abalos narcísicos - formas de despertar de uma lógica imaginária - que ampliam a condição de representação na cultura.

A partir de Caillois (1986), seria possível fazermos uma analogia entre os fenômenos miméticos, no campo da biologia, e o movimento necessário ao infans em se projetar no campo do Outro como entrada enquanto imagem/representação no mundo da linguagem? O autor faz uma leitura do mimetismo como um “empuxe” a se confundir com o meio, como um retorno ao inorgânico. Pensamos, desde essa ótica, a posição reincidente na psicose de “empuxe” a vir aderir à demanda do Outro, justamente por não encontrar os significantes que demarquem uma constelação capaz de circunscrever uma posição diferenciada dentre os objetos no mundo. A clínica com esses pacientes exige a constante recolocação em cena de elementos da cultura, essenciais aos processos de subjetivação, já que haveria uma espécie de “tentação” a se deixar fagocitar pelo Outro.

O sentimento de personalidade, enquanto sentimento da distinção do organismo ao meio, da ligação da consciência com um ponto particular do espaço não tarda nessas condições a tornar-se gravemente comprometido; entramos então na psicologia da psicastenia e, mais precisamente, da psicastenia legendária, se consentimos nomear assim o distúrbio das relações definidas acima da personalidade com o espaço. (Ibidem, 1986, p. 63, grifo nosso)

Caillois (1986) retira suas afirmações de experiências “pessoais” com esquizofrênicos, referindo estarem em pleno acordo com a literatura médica contemporânea (cita as obras de Pierre Janet):

O espaço parece a esses espíritos desapossados de uma potência devoradora. O espaço os persegue, os encurrala, os digere em uma fagocitose gigante. Por fim, ele os substitui. O corpo então se desolidariza do pensamento, o indivíduo atravessa a fronteira de sua pele e habita do outro lado dos seus sentidos. Ele procura se ver de um ponto qualquer do espaço, espaço negro onde não se podem por coisas. Ele é semelhante, não semelhante a alguma coisa, mas simplesmente semelhante. (Ibidem, 1986, p. 63)

Há uma despersonalização pela assimilação ao espaço. Assim se denomina aquilo que o mimetismo realiza morfologicamente ou cromaticamente em algumas espécies de animais: o ambiente pronto para devorar mimeticamente sua vítima tomada pela “tentação” a se deixar fagocitar. Como diz Caillois: “O mimetismo seria, pois, como que um encantamento fixado no seu ponto culminante e tendo apanhado o feiticeiro na sua própria magia” (1986, p. 63, grifo do autor).

A propósito, Caillois (1986) inicia seu artigo falando sobre os princípios que regem a magia - especificamente sobre aquilo que se comunica de uma forma sobrenatural. Relembra que toda prática encantatória está mais ou menos fundada nos princípios da contiguidade e da similitude. Assim, o desejo - ou mesmo um breve pensamento -, por essa lógica, pode se transformar em fato. Dentro dessa lógica, é possível incluir também a temática do contágio, daquilo que caminha de um corpo a outro em contiguidade. Novamente, estamos percorrendo as frágeis bordas do organismo com seu meio, partindo da ideia de que o exterior pode se comunicar com o interior sem descontinuidades.

Da superfície ao volume - os caminhos constituição do Espaço

Ricardo Rodulfo (1990), psicanalista argentino, desenvolve, a partir de sua experiência clínica com crianças, uma série de formulações que buscam dar conta de um brincar anterior ao paradigmático jogo do carretel, narrado por Freud (1920/1981) no texto Mais além do princípio do prazer. Suas proposições apontam na direção de uma articulação inextrincável entre um brincar arcaico e a constituição paulatina de uma experiência do corpo, como volume, e do espaço, como tridimensional. Muito embora retomar seus caminhos nos situe no risco de estabelecer um pensamento evolutivo em que ao infans estaria colocado o desafio de atravessar diferentes tempos para chegar ao mais bem acabado de uma experiência de separação em relação ao Outro, decidimos por retomar seus estudos, especialmente pelo que ele situa no que chamou de espaço das inclusões recíprocas. Isso porque sua formulação nos parece preciosa para pensar uma experiência de instabilidade de bordas a qual todos estamos, mais ou menos, sujeitos. Sua pergunta sobre como um infans constitui as noções elementares espaciais como dentro/fora, exterior/interior, nos auxilia a pensar na pluralidade de formas de habitar e transitar na vida? Pensamos que é a partir do enlace do campo pulsional à linguagem que se configura a estabilidade, mesmo que precária, na experiência dos contornos corporais.

A produção de uma superfície

O primeiro jogo estruturante, apontado por Rodulfo (1990) a partir da observação clínica de crianças muito pequenas, é composto por uma combinação de dois momentos, um par de movimentos: esburacar-fazer superfície. Trata-se, portanto, do primeiro tempo do brincar. Esse jogo estaria no cerne da constituição mais elementar de espaço construída pela criança. Ou seja, ao percorrer uma superfície contínua em que reconhece os objetos do mundo (incluindo ali também sua mãe) como contínuos a seu corpo, o infans constitui, através da experiência, um transitar entre as descontinuidades que já estão anunciadas (discutiremos esse ponto mais adiante, ao abordarmos o texto A negativa, de Freud). Portanto, Rodulfo diz que “a primeira coisa que se constrói não é de forma alguma um interior, quer dizer, um volume, mas uma película em fita contínua” (1990, p. 96). A construção da relação interior/exterior, que implica a presença de uma terceira dimensão, só irá advir em um momento posterior.

A ideia de superfície relacionada ao conceito de Eu é originalmente encontrada em Freud: “O Eu resultou do processo de diferenciação que se deu na superfície do Isso” (1923/2007, p. 38). Ainda no texto O Eu e o Id, ao falar da percepção como advinda da superfície corpórea, e sendo justamente um dos sistemas responsáveis por fornecer os elementos que irão compor o Eu, Freud afirma: “O Eu é sobretudo um Eu corporal, mas ele não é somente um ente de superfície; é, também, ele mesmo, a projeção de uma superfície” (1923/2007, p. 38). É nesse momento que irá fazer sua conhecida analogia do Eu ao “homúnculo cortical” dos anatomistas. Trata-se da superfície do corpo e do que dela se faz imagem, projeção - introduzindo aqui já a presença da duplicação (corpo e imagem). A percepção seria responsável pela composição do Eu na medida em que fornece a possibilidade de ser tomado (percebido) tanto como um objeto externo como interno: “Ao tocá-lo (o corpo), notaremos que ele produz dois tipos de sensações táteis, das quais uma pode ser equiparada a uma percepção interna” (FREUD, 1923/2007, p. 38). O interno e o externo encontram-se em continuidade, mas já se destacando eventualmente em percepções diferenciadas. Rodulfo propõe pensar esse momento como o de inscrição de uma fita contínua que pode ser percorrida infinitamente.

Da superfície à insinuação de um volume - o espaço das inclusões recíprocas

Para passarmos ao segundo tempo de estruturação do espaço, recorreremos a Sami-Ali (1993), autor também discutido por Rodulfo. Sami-Ali forja, a partir de uma discussão minuciosa do texto O estranho, de Freud (1919/1981), o conceito de “espaço das inclusões recíprocas”. Afirma: “O sentimento de estranho inquietante implica o retorno a essa organização particular do espaço onde tudo se reduz ao dentro e ao fora e onde o dentro também é o fora” (ibidem, 1993, p. 34). Para o autor, trata-se de certa percepção do espaço que pressupõe uma operação lógica de reversibilidade: ao mesmo tempo em que define polos antagônicos, é suscetível de provocar sua inversão.

O espaço das inclusões recíprocas compõe o espaço especular “onde o sujeito se apreende como um outro e onde o outro é a imagem do sujeito: mundo da metamorfose do mesmo” (ibidem, 1993, p. 36). Momento da constituição psíquica em que não existe a contradição: o dentro pode ser o fora e vice-versa. Como figura topológica, podemos evocar a fita de Moebius, onde o direito pode passar ao avesso sem solução de continuidade, sem hiância.

Para Freud (1919/1981), no estranho inquietante há um apagamento parcial do recalque e a emergência do que deveria permanecer oculto, produzindo uma zona de incerteza e angústia, de sombras e fantasmas - uma espécie de miragem de nossa condição primordial de objeto de desejo do Outro. Trata-se essencialmente de uma experiência de desorientação, na qual a função do recalque entra em pane, podendo provocar nos sujeitos a vivência de desconstrução de bordas.

Sami-Ali nos diz que, algumas vezes, pode ocorrer que “no sonho ou no estado de vigília, a relação estabelecida de modo definitivo entre o estranho e o familiar se inverta e que, em virtude de uma sutil alteração da função perceptiva, o familiar pareça estranho e o estranho, familiar” (1993, p. 30).

O autor segue essa discussão um pouco mais adiante:

Duas condições devem se encontrar reunidas, para que o familiar se transforme em seu contrário e para que tal mudança não se acompanhe do afeto que a caracteriza: que a experiência se desenvolva no plano da percepção e que se traduza pela indistinção entre o real e o imaginário. (Ibidem, 1993, p. 39)

O autor situa, portanto, a origem desse fenômeno - chamado por Freud (1919/1981) de Unheimlich - em uma “alteração da função perceptiva”. Tal posição nos suscita uma questão: como falar em alteração da função perceptiva se justamente o que parece estar em jogo é uma espécie de imersão em um tempo anterior ao que permite a construção da realidade externa, tempo em que a realidade vigente é relativa a um momento da estruturação do sujeito em que o interno ainda não se destacou do externo?

Lacan (1954-55/1985) propõe, no seminário O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise, que fenômenos dessa ordem se formam no nível de fenômenos da linguagem e não em um suposto nível sensorial.

O poder de nomear os objetos estrutura a própria percepção. O percipi do homem só pode manter-se dentro de uma zona de nominação. É pela nominação que o homem faz subsistir os objetos numa certa consistência. Se estivessem apenas em uma relação narcísica com o sujeito, os objetos não seriam nunca percebidos senão de maneira instantânea. A palavra, a palavra que nomeia, é o idêntico. Não é à distinção espacial do objeto, sempre pronta a dissolver-se numa identificação ao sujeito, que a palavra responde, mas sim à sua dimensão temporal. O objeto, num instante constituído como uma aparência do sujeito humano, um duplo dele mesmo, apresenta, entretanto, uma certa permanência de aspecto através do tempo, que não é indefinidamente durável, já que todos os objetos são perecíveis. Essa aparência, que dura um certo tempo, só é estritamente reconhecível por intermédio do nome. O nome é o tempo do objeto. A nominação constitui um pacto, pelo qual dois sujeitos, ao mesmo tempo, concordam em reconhecer o mesmo objeto. [...] Se os sujeitos não se entenderem sobre esse reconhecimento, não haverá mundo algum, nem mesmo perceptível, que se possa manter por mais de um instante. (Ibidem, 1954-1955/1985, p. 215)

A distinção espacial do objeto, para Lacan (1954-1955/1985), é insuficiente para garantir sua estabilidade. A percepção, que é instantânea (para Freud também se trata de um sistema que não deixa traços de memória), exige o significante para sua permanência no tempo.

Seguindo na discussão sobre o espaço das inclusões recíprocas, Sami-Ali (1993) refere tratar-se de um momento da estruturação psíquica no qual encontramos projeções múltiplas da realidade corporal do sujeito; “reduplicações imaginárias que determinam um espaço de contiguidade absoluta, onde tudo participa de tudo” (ibidem, 1993, p. 38).

No segundo momento do brincar arcaico proposto por Rodulfo (1990), a noção de espacialidade pressupõe a inclusão do corpo; um corpo ao que tudo indica imaginário: “O espaço é o corpo, corpo e espaço coincidem sem desdobramentos” (ibidem, 1990, p. 104). O autor situa nesse tempo o espaço das inclusões recíprocas de Sami-Ali, onde nenhum par de polaridades que irá reger o momento seguinte está presente de forma definitiva (interior/exterior, eu/não-eu, sujeito/objeto). Podemos classificar esse espaço como bidimensional, pois, para constituir volumes, espessuras, é necessário agregar mais um elemento à equação. Citamos a seguir Rodulfo, que denominou esse momento de “espaço das distâncias abolidas”: “Esmagado o espaço em bidimensional, os dois pontos de qualquer polaridade coincidem” (1990, p. 105). Nesse momento, essas polaridades de algum modo encontram-se anunciadas, mas ainda não se inscreveu entre elas o abismo que irá diferenciá-las definitivamente.

Também podemos situar no espaço das inclusões recíprocas a presença das fantasias arcaicas de devoramento: a incorporação do corpo materno pelo sujeito simultaneamente à possibilidade de seu devoramento pela mãe - em uma lógica reversível. A noção de diferença de volume aqui ainda não está colocada, o infans avalia a experiência com o recurso de apenas duas dimensões. Há a reversibilidade nas relações continente/conteúdo. As relações entre exterior e interior são da ordem da ambiguidade e não da oposição. A reversibilidade entre conteúdo e continente permite que a fantasia encontre seu lugar; o imaginário infantil mantém de forma viva algo dessa lógica arcaica. “Essas leis de funcionamento psíquico mais precoce e mais radicalmente inconsciente são prévias à separação diferencial em relação ao corpo do Outro primordial” (ibidem, 1990, p. 107).

Caillois, em suas formulações sobre o mimetismo, se vê levado a interrogar o que chama de “lógica encantatória da magia”; nela reconhecemos a mesma forma de construção reversível, assim como em seus apontamentos sobre a psicastenia. Na medida em que os estudos desse autor incidem sobre fenômenos que apresentam continuidades lógicas entre exterior/interior, organismo/meio, seus trabalhos sugerem a tentativa de circunscrever uma experiência do espaço - que em Sami-Ali (1993) ganhou o nome de “espaço das inclusões recíprocas” e que em Rodulfo (1990) foi intitulada de “espaço das distâncias abolidas”. Tratam-se de fenômenos que nos permitem ter notícias da instabilidade dos contornos que definem as bordas entre o sujeito e o outro. A diferenciação - que está ligada à imagem - não se estabiliza, tende ao movimento, coexistindo com a indiferenciação.

As aquisições psíquicas, que se inscrevem de um tempo a outro, deixam restos por articular. Mesmo sendo a passagem do bidimensional ao tridimensional fruto de um corte, algo dessa experiência de continuidade entre interior/exterior permanece sob o recalque. É justamente a experiência de perda que produz a passagem do simultâneo ao sucessivo, permitindo também que uma narrativa sobre fatos possa avançar em uma sucessão. Dessa forma, podemos tomar a perda primordial como geradora de historização. Lembramos aqui um importante trabalho de Lacan (1938/1990), Os Complexos Familiares, em que afirma ser justamente a noção de alternância o que seria capaz de produzir série. No seminário As psicoses, Lacan (1955-1956/1988) irá novamente apontar para uma condição elementar na produção de uma construção sucessiva: a existência de pares opostos. Sem polaridades significantes, não há sucessão.

O volume como efeito do corte

Em uma conferência feita no Congresso da EFP em 1974, posteriormente conhecida como A terceira, Lacan (1974/1986) propõe pensarmos as relações espaciais a partir de coordenadas matemáticas. Ao desenvolver as relações entre Real/Simbólico/Imaginário através do nó borromeano refere o Imaginário como “o lugar onde seguramente se gira em círculos” (ibidem, 1974/1986, p. 35); o Real e o Simbólico como “o que não se fecha, o que não faz o todo”, embora tenham a dimensão de uma reta, uma cruzando a outra, apontadas para o infinito. É no intercruzamento dos três registros, o chamado nó borromeano, que a dimensão do espaço, como o espaço que nos é comum, advém. “[...] o nó borromeano une essas famosas três dimensões que imputamos ao espaço” (ibidem, 1974/1986, p. 36).

Para que surja o espaço, é necessário um corte na superfície (efeito do cruzamento dos registros) que podemos referir, no Imaginário, como a superfície narcísica do Estádio do Espelho. Para atravessar o Estádio do Espelho é necessária a presença de uma instância terceira; para Freud, o ideal do Eu que se anuncia no lugar da identificação primeira ao pai; para Lacan, o Nome do Pai que faz a borda ao Real, ao irrepresentável. Portanto, é necessária uma descontinuidade para que as superfícies espelhadas possam dar origem a uma terceira dimensão.

A tridimensionalidade em um plano, por exemplo, poderia advir a partir de um “ponto de fuga”, ordenador das relações espaciais em relação a um ponto específico do espaço - um ponto cego, lugar privilegiado desde onde o Eu pode surgir. Nesse sentido, podemos situar o Eu como um reordenador da estrutura.

Esse momento de construção do espaço propriamente dito é marcado, no brincar infantil, pelos jogos de esconde-esconde, o cobrir-se/descobrir-se ou mesmo o clássico fort-da. O lançamento de objetos fora só pode ser pensado como uma reedição de um fora anterior constituinte. A passagem da bidimensionalidade para a tridimensionalidade, presente na discussão de Freud sobre o jogo do fort-da, só se torna possível por apoiar-se em uma operação de hiância anterior.

Uma expulsão na origem

No artigo A negativa (1925/2007), encontramos a proposição freudiana sobre a gênese do pensamento e a construção da noção de realidade. O autor parte do pressuposto da existência de um momento inicial de indiferenciação e continuidade entre sujeito e mundo externo. A produção de uma negativa (Verneunung) constituiria em uma primeira diferenciação em relação ao exterior, organizando como não-eu tudo aquilo que desperta desprazer no sujeito. Sob a égide do Princípio do Prazer, o que provoca desprazer é expulso, cuspido (Ausstossung), constituindo um primeiro “não-eu”, célula da diferenciação posterior “eu”/“não-eu”. No instante seguinte, o que é experimentado como prazeroso passa a configurar um primeiro “eu prazer”, resultante da afirmativa (Bejahung). Constituição do “eu-prazer” em oposição ao objeto desprazeroso, que surge como resto, como estranho (LACAN, 1964/1988, p. 180).

Freud (1925/2007) situa esse movimento de “expulsão” como originário na constituição de uma primeira delimitação de um fora - operação simbólica de instauração do mundo exterior (momento do recalcamento originário). Trata-se da constituição de um “não” primordial. A distinção posterior entre o estranho e o si mesmo pressupõe essa operação anterior de expulsão.

Segundo Freud: “Esses atos de confirmar ou negar o conteúdo dos nossos pensamentos correspondem à função psíquica de emitir juízos” (1925/2007, p. 148). Função que se refere basicamente a dois pontos: a capacidade de decidir se uma coisa possui ou não certa característica (qualidade de ser boa ou má, útil ou danosa), denominado pelo autor como juízo de atribuição; e, operação posterior, a capacidade de confirmar ou refutar se a representação psíquica dessa coisa possui existência real, denominado juízo de existência. Estamos, portanto, no tempo de constituição da base do que se configurará como borda entre o sujeito e o exterior, entre dentro e fora, e, consequentemente, entre representação e coisa, alucinação e fantasia. Freud (1925/2007) propõe, portanto, que a construção da realidade externa pressupõe essa função psíquica de emissão de juízos. Dessa forma, o autor formula sua teoria sobre o nascimento do mundo dos objetos. Trata-se, na leitura de Lacan, de “por à prova do exterior pelo interior, da constituição da realidade do sujeito na redescoberta do objeto” (1964/1988, p. 174).

Sendo assim, na teoria freudiana, o sujeito não se moveria para encontrar seu objeto, mas para reencontrá-lo. Reencontrar o objeto primitivo alucinado e eternamente perdido. Como o princípio de prazer não é capaz de distinguir o objeto real do objeto alucinado, é necessário um princípio de “correção” que confira ao aparelho psíquico uma eficiência mínima, que será dada pelo princípio de realidade. Movimento que instaura uma hiância fundamental entre sujeito e objeto, pois o objeto primitivo alucinado jamais corresponde ao encontrado na realidade, exigindo do sujeito uma nova operação, parcial, possível abertura para o sujeito do desejo. Nisso consistiria, para Freud (1925/2007), o princípio da realidade, inaugurando uma disparidade fundamental e fundante de bordas demarcadoras do eu como diferenciado do não-eu - constituinte do mundo exterior e do mundo dos objetos: “O não-real, isto é, o que é somente imaginado, o subjetivo, está presente somente no dentro; enquanto o real estará presente também no fora” (ibidem, 1925/2007, p. 149).

Ao propor que no início não haveria diferença entre o que é mau, o que é estranho e tudo aquilo que se situa fora, Freud apresenta sua mitologia a respeito da constituição do Eu e do mundo, sedimentada em torno da instauração de uma hiância irreversível. Para Lacan (1964/1988), que propõe a constituição psíquica a partir da posição do sujeito na linguagem, essa primeira divisão do sujeito entre bom/mau só pode ser concebida no campo da articulação simbólica, na alternância fundamental entre presença e ausência. Nas psicoses, essa alternância não é efetiva em função de uma falha na constituição simbólica.

Trata-se da rejeição fundamental de um significante primordial em trevas exteriores, significante que faltará desde então nesse nível. Eis o mecanismo fundamental que suponho na base da paranoia. Trata-se de um processo primordial de exclusão de um dentro primitivo, que não é o dentro do corpo, mas aquele de um primeiro corpo de significante. (Ibidem, 1964/1988, p. 174)

Como vimos, Freud (1925/2007) situa, como ponto de partida para o psíquico, uma expulsão na origem. É necessário se inscrever um não-eu como parte da estrutura do sujeito. Sem esse “fora” fundamental não é possível a operação da Bejahung.

Em Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico, Freud (1911/2004) introduz os termos princípio do prazer e teste de realidade, constituintes da base do aparelho psíquico. Relaciona o princípio do prazer como motor de construção da realidade, antecipando as proposições de 1920, em que traz a noção de pulsão de morte com o texto Mais além do Princípio do Prazer. O primeiro ponto desenvolvido por Freud (1911/2004) nesse artigo é justamente a “perda da função do real”. Ao discutir diferentes formas de afastamento da realidade nas estruturas psíquicas, refere o recalque na neurose como afastamento parcial da realidade desprazerosa: “O neurótico afasta-se da realidade por achá-la insuportável - seu todo ou parte dela” (ibidem, 1911/2004, p. 65). Freud está, nesse momento, ocupado em investigar o “significado psicológico do mundo real externo” (1911/2004, p. 65). Esse texto situa a dimensão da realidade como produto da representação criada pelo sujeito para dar conta de uma certa condição de seguir no princípio do prazer. “A substituição do Princípio do Prazer pelo Princípio da Realidade não implica a destituição do primeiro, mas a garantia de sua continuidade” (ibidem, 1911/2004, p. 66). Fantasia e desejo surgem aqui como ingredientes necessários à composição da realidade.

A partir do desacordo entre o alucinado e o encontrado, para seguir na satisfação pulsional, o aparelho psíquico torna-se capaz de postergar essa satisfação, representando “as circunstâncias reais presentes no mundo externo e almejando uma modificação real deste” (ibidem, 1911/2004, p. 66). Nesse início da constituição do aparelho psíquico, o que está em jogo é a construção do pensamento enquanto representação, imaginação, ato de conceber mentalmente (Vorstellen). Imaginar, pensar e representar apresentam, no alemão, a mesma raiz semântica. É também disso que se trata na instauração do princípio da realidade, ou seja, a constituição da possibilidade da representação. De onde se conclui que a realidade, para Freud, é representada, não sendo mais possível reduzi-la somente a uma realidade perceptiva. A realidade é uma construção simbólica.

Freud reafirma, o que pode parecer um paradoxo, a importância da perda do objeto real na constituição da noção de realidade. O objeto deixa de ser real para ser representado. É como se representação e realidade surgissem em um mesmo movimento. Portanto, a realidade externa é resultado de um processo de representação, de inserção do objeto em uma realidade simbólica (1911/2004). Sugere, assim, a presença de duas realidades: a interna e a externa, uma se constituindo em relação à outra. Esses conceitos serão desenvolvidos mais tarde por Lacan (1954-1955/1988), ao propor a distinção entre Real e Realidade, com a introdução dos três registros.

O espaço como efeito da linguagem

Hyppolite (1998, p. 899), em Comentário Falado sobre a Verneinung de Freud afirma: “O que está na origem do juízo de existência é a relação entre a representação e a percepção”. Pois, no início, o sujeito reproduziria sua representação das coisas a partir da percepção primitiva que teve delas. Haveria um segundo momento no qual o sujeito precisaria fazer a prova se essa representação corresponderia ou não à realidade. E, para isso, conforme o pensamento freudiano, é necessário ter passado pela perda do objeto. É no tempo do recalcamento primário que se constitui a base estabilizadora das bordas entre interior/exterior, a partir da qual o sujeito poderá organizar sua experiência perceptiva.

Lacan, no diálogo com o texto freudiano, propõe que a estruturação psíquica deve ser pensada a partir da posição que é destinada ao sujeito na linguagem. A leitura que faz do texto A negativa, juntamente com Hyppolite (1998), sublinha que a primeira diferenciação do sujeito entre o que é bom e o que é mau só pode ser concebida no campo simbólico, na inscrição do infans pelo desejo do Outro na linguagem.

Dessa forma, as relações tecidas por Caillois entre a psicastenia (na psicopatologia), os processos miméticos (na biologia) e mesmo os preceitos que constituem a magia circunscrevem um campo regido por similaridades lógicas, em que é possível, a partir do que trabalhamos nesse artigo, fazer associações ao espaço das inclusões recíprocas, como proposto por Sami-Ali (1993). No âmbito humano, trata-se de um tempo de reversibilidades pulsionais apoiado em identificações imaginárias.

Na neurose, temos notícia desse tempo pulsional quando emergem fenômenos como o Unheimlich freudiano, evidenciando que, por vezes, a tecitura simbólica pode se desfazer provisoriamente, provocando experiências de desorientação espaço-temporal. Há a suspensão provisória do recalque. Nesses momentos, as polaridades que orientam a vida pulsional do sujeito claudicam, provocando inversões entre sujeito/objeto, exterior/interior. Encontramos, na clínica, relatos de vivências de desrealização espacial em quadros agudos de fobias, podendo até desencadear desorientações espaciais extremas. Nas depressões graves, não é rara a presença de alucinações visuais e auditivas: vultos passageiros e vozes momentâneas que evocam frequentemente o nome do sujeito. Nas psicoses, principalmente na paranoia, em que as polaridades pulsionais encontram-se anunciadas, mas não estabilizadas pelas nomeações simbólicas, há uma organização espacial diferenciada que evidencia a instabilidade da posição do sujeito na rede significante.

Retomamos a pergunta colocada anteriormente: em que medida seria possível falar em função perceptiva se o que está em jogo é a estrutura da qual o discurso se destaca? A partir de Lacan, a realidade passa a ser sempre uma realidade discursiva. A percepção como efeito da linguagem indica que a estruturação do espaço também é efeito da posição do sujeito na ordem simbólica. “A rejeição de um significante primordial em trevas exteriores”, como anuncia Lacan, instaura, para a psicose, por exemplo, uma modalidade singular de trânsito no que poderíamos chamar de “mundo exterior” (1955-1956/1988, p. 174). Assim, não só a habitual errância do psicótico é efeito de sua posição em uma rede linguageira sem descontinuidades, mas também a experiência de um espaço de inclusões recíprocas - em que há ausência de paredes simbólicas norteadoras de um território próprio ao sujeito - determina a exposição constante à permeabilidade ou à invasão das bordas entre interior/exterior, entre sujeito/objeto.

REFERÊNCIAS

CAILLOIS, R. Mimetismo e psicastenia legendária. In: Che vuoi? Psicanálise e Cultura. Cooperativa Cultural Jacques Lacan: Porto Alegre, 1986. [ Links ]

FREUD, S. À Guisa de Introdução ao Narcisismo (1914). In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente - Volume I. Rio de Janeiro: Imago, 2007. [ Links ]

FREUD, S. A Negativa (1925). In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 2007. [ Links ]

FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911). In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 2004. [ Links ]

FREUD, S. Mas ala del Principio del Placer (1920). In: Obras Completas de Sigmund Freud. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981. [ Links ]

FREUD, S. Lo Siniestro (1919). In: Obras Completas de Sigmund Freud. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981. [ Links ]

FREUD, S. O Eu e o Id (1923). In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente - Volume III. Rio de Janeiro: Imago, 2007. [ Links ]

HYPPOLITE, J. Comentário Falado sobre a “Verneinung” de Freud. In: Escritos - Jacques Lacan. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. [ Links ]

LACAN, J. As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. (O seminário, 3). [ Links ]

LACAN, J. A Terceira (1974). In: Che vuoi? Psicanálise e Cultura. Cooperativa Cultural Jacques Lacan: Porto Alegre, 1986. [ Links ]

LACAN, J. Encore (1972-1973). Rio de Janeiro: Escola Letra Freudiana, edição não comercial, 2010. (O seminário, 20). [ Links ]

LACAN, J. O Estádio do Espelho como formador da função do Eu (1949). In: Escritos - Jacques Lacan. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. [ Links ]

LACAN, J. O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1995. (O seminário, 2). [ Links ]

LACAN, J. Os complexos familiares (1938). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. [ Links ]

LACAN, J. Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise (1964). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988. (O seminário, 11). [ Links ]

RODULFO, R. O brincar e o significante. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1990. [ Links ]

SAMI-ALI. Corpo real corpo imaginário. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1993. [ Links ]

1Psicastenia é uma categoria psicopatológica utilizada no final do século XIX e início do século XX pela psiquiatria francesa. O termo foi proposto por Pierre Janet para designar um conjunto muito amplo de fenômenos que abarcam afecções e estados muito diversos. Dentre os sintomas comuns, destacamos a despersonalização e o comprometimento da função da realidade.

Recebido: 03 de Junho de 2014; Aceito: 02 de Dezembro de 2014

Fernanda Pereira Breda -fpbreda@gmail.com

Simone Zanon Moschen -simoschen@gmail.com

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons