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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versão On-line ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.20 no.3 Rio de Janeiro set./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1809-44142017003004 

Artigo

As origens médico-psiquiátricas do conceito psicanalítico de narcisismo

Caio Padovan1 

1Universidade Paris-Diderot, Paris VII. Doutorando no Centro de Pesquisa Psicanálise, Medicina e Sociedade, Paris, França.

RESUMO:

Neste artigo, nosso objetivo será o de apresentar alguns elementos relativos à história da apropriação do mito de Narciso pela tradição médico-psiquiátrica, buscando assim traçar as origens do conceito psicanalítico de narcisismo. Desde um ponto de vista psicopatológico, o fenômeno narcísico, definido incialmente como uma forma particular de fetiche, começou a ser considerado um problema médico a partir do final século XIX. A apropriação psicanalítica desta noção se daria em 1905, com Freud, a partir da introdução do conceito de autoerotismo, sendo a primeira definição propriamente psicanalítica de narcisismo sugerida pelo psicanalista vienense Isidor Sadger, em 1908.

Palavras-chave: narcisismo; autoerotismo; história da Psiquiatria; história da Psicanálise.

No interior da tradição psicanalítica, o conceito de narcisismo surge como um desdobramento da noção de autoerotismo. Esta, por sua vez, fora extraída da literatura psiquiátrica do final do século XIX e assimilada pela psicanálise em 1905, a partir das teses desenvolvidas por Freud em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

O primeiro psicanalista a fazer uso do termo narcisismo foi Isidor Sadger, em um artigo publicado em 1908, intitulado Questões neuropsiquiátricas à luz da psicanálise. Assim como Freud no caso do conceito de autoerotismo, Sadger se apropria de uma noção oriunda da tradição médico-psiquiátrica, propondo assim uma releitura do narcisismo desde um ponto de vista psicanalítico.

A partir deste momento, um longo debate em torno do fenômeno clínico em questão foi realizado entre os membros da Sociedade Psicanalítica de Viena, debate que se estendeu até 1914, ano em que Freud formalizou o conceito de narcisismo, integrando-o de maneira definitiva à teoria psicanalítica.

Concentrando-nos nas duas primeiras partes desta história, uma história dos debates sobre aquilo que posteriormente será definido como o conceito psicanalítico de narcisismo, nosso objetivo neste artigo será o de: (1) traçar as origens do uso do termo narcisismo a partir da literatura médico-psiquiátrica do final do século XIX, o que incluirá também um estudo preliminar a respeito da noção de autoerotismo no interior desta mesma tradição; e (2) apontar para este momento de transição em que o termo narcisismo será apropriado pelo pensamento psicanalítico a partir das pesquisas de Isidor Sadger.

1 Autoerotismo, narcisismo e perversão sexual no interior da tradição médico-psiquiátrica

Tanto na tradição psiquiátrica como na psicanalítica, a noção de narcisismo faz apelo ao mito grego de Narciso, uma narrativa que ganha sua primeira versão escrita no início da era cristã, pelo poeta romano Ovídio1. Trata-se de um mito que, em poucas palavras, conta a história de um jovem que se apaixona pela própria imagem. Como nos mostram Vinge (1967) e Johansson (2012), o tema de Narciso acabou percorrendo toda a história da literatura ocidental, sendo a sua presença no discurso médico um movimento tardio e de modo algum evidente. Nesta passagem, marcada por uma espécie de desencantamento da narrativa mitológica original, Narciso será destituído do seu simbolismo particular, reduzido enfim em termos caricaturais a uma emoção patológica, à sua dimensão literal, irracional e, portanto, negativa.

Associada inicialmente por Alfred Binet a uma forma de fetichismo, “a fábula do belo Narciso” fora usada em um primeiro momento como modelo para a descrição de um caso particular de perversão sexual, caso em que o fetiche do sujeito perverso teria “por objeto a sua própria pessoa” (BINET, 1887, p. 264n). Como salienta Binet, esta categoria mais geral de perversão sexual, dentro da qual estariam contidos os casos de fetichismo, havia sido definida alguns anos antes, pelo neurologista Jean-Martin Charcot e pelo psiquiatra Valentin Magnan, como uma síndrome hereditária resultante de uma disposição mórbida do sistema nervoso. De acordo com estes autores, todo sintoma perverso seria o “episódio de uma doença mais profunda”; neste caso, de uma “síndrome” manifesta naqueles “sujeitos designados por Morel como degenerados” e que, “desde a infância, carregam a marca de uma tara cerebral” (CHARCOT; MAGNAN, 1882, p. 297, tradução nossa). Binet (1887, p. 164), igualmente, ainda que se propusesse a fazer em seu trabalho uma análise psicológica do fetichismo, refere-se a esta mesma disposição mórbida de caráter hereditário como “a causa das causas”. Como fica claro a partir das citações, tanto Binet, como Charcot e Magnan, assumem um ponto de vista bastante marcado pela teoria da degenerescência de Morel2.

Em todo caso, cabe lembrar que, enquanto perversão sexual, esta forma particular de fetiche à moda de Narciso foi raramente trazida e discutida pela literatura psiquiátrica. Mesmo Binet, responsável pela referência em questão, não dedica a ela mais do que uma nota de rodapé. Contudo, independente de sua frequência, o que nos importa aqui é chamar a atenção para o fato de que tal fenômeno esteve inicialmente presente no discurso psiquiátrico como representante de uma síndrome hereditária, concebida em termos patológicos como expressão de um estado de degenerescência.

2 O autoerotismo e o amor à moda de Narciso como manifestações da atividade sexual normal

A partir de 1898, porém, com o aparecimento da noção de autoerotismo introduzida pelo médico inglês Havelock Ellis em seu artigo Autoerotismo: um estudo psicológico, esta dimensão mórbida do narcisismo foi em parte relativizada. Neste trabalho, que se tornaria um clássico da literatura especializada, toda uma série de fenômenos de natureza sexual até então entendidos como patológicos, incluindo aí o amor narcísico, passaria a ser pensada como expressões da atividade sexual normal.

2.1 A definição de autoerotismo

Em seu artigo, Ellis nos fornece a seguinte definição para o autoerotismo:

Por ‘autoerotismo’, eu busco expressar os fenômenos da emoção sexual espontânea gerados na ausência de um estímulo externo oriundo, direta ou indiretamente, de uma outra pessoa. Essa definição exclui a excitação sexual normal despertada pela presença de uma pessoa amada do sexo oposto; ela também exclui a perversão sexual associada à atração provocada por uma pessoa do mesmo sexo; excluindo ainda as múltiplas formas de fetichismo erótico e emoções voluptuosas despertadas por algum objeto - cabelo, sapatos, vestes etc., - que para o amante normal são secundárias, mesmo possuindo considerável importância. O domínio do autoerotismo permanece extenso; ele compreende desde ocasionais devaneios voluptuosos, em que o sujeito é inteiramente passivo, até os atos vigorosos, persistentes e desavergonhados de automanipulação sexual testemunhado entre os loucos. Ele também inclui os casos estranhos e pouco comuns em que as pessoas se apaixonam por elas mesmas. Entre os fenômenos autoeróticos, ou fronteiriços, é preciso incluir ainda as manifestações religiosas de cunho sexual dirigidas a um objeto ideal, para as quais podemos encontrar evidências na vida dos santos e extáticos. A forma típica de autoerotismo é a ocorrência do orgasmo sexual durante o sono. (ELLIS, 1898a, p. 260, itálico e tradução nossos)

A partir da definição, notamos que “os casos estranhos e pouco comuns em que as pessoas se apaixonam por elas mesmas” passam a ser tomados como “fenômenos da emoção sexual espontânea”; fenômenos estes que são encarados pelo autor como não necessariamente patológicos. Ainda de acordo com a definição, observamos que estes mesmos casos são também diferenciados dos casos de fetichismo erótico despertados por objetos, o que da mesma forma problematizaria a delimitação feita por Binet.

Buscando ilustrar o fenômeno particular do amor narcísico, Ellis descreve um caso que exibiria justamente aquilo chamado de “disposição para agir como Narciso” {Narcissus-like tendency}. Trata-se do caso de:

(...) uma senhora de 28 anos de idade, de grandes porém finas proporções, ativa, saudável e inteligente, que, no entanto, não demonstra atração sexual pelo sexo oposto; ao mesmo tempo, ela não é invertida, ainda que desejasse ser um homem, e tivesse um considerável grau de desprezo por mulheres. Ela tem uma intensa admiração por sua própria pessoa, especialmente pelos seus membros; ela nunca está tão feliz como nos momentos em que está sozinha e nua em seu próprio quarto e, tanto quanto possível, ela cultiva a nudez. Ela sabe de cor as várias medidas de seu corpo e orgulha-se do fato de que estas estão estritamente de acordo com os cânones de perfeição. Ela ri orgulhosamente ao pensar que sua coxa é mais grossa que a cintura de muitas mulheres. Ela é franca e segura em seus modos, sem timidez sexual, e ainda que queira receber atenção e admiração de outros, ela não faz esforços para obtê-los. Ela jamais, em nenhum momento, experimentou nenhuma emoção mais forte que o próprio prazer consigo mesma. (ELLIS, 1898a, p. 280 - tradução nossa)

No decorrer de seu artigo, ao contextualizar a sua nova definição de autoerotismo, Ellis conclui que algumas das manifestações nela compreendidas já haviam sido abordadas por outros autores. Dentre estes, seria o caso de chamar a atenção para a referência feita ao Dr. Laupts, pseudônimo de Georges Saint-Paul (1870-1837), que, em um trabalho intitulado Perversão e perversidade sexuais (1896), introduz a noção de autofilia. No que diz respeito a esta noção, ainda que o médico inglês se limite a associá-la à masturbação - descrita em sentido lato como “vício solitário” - seria interessante aqui destacar a passagem do texto em que Laupts expressa a sua definição, a qual nos aparece como um inesperado prelúdio às futuras elaborações psicanalíticas:

O vício solitário está ligado à autofilia, e a autofilia à inversão. Amar a si mesmo sexualmente é se inverter; amar seus próprios órgãos é se preparar para amar aqueles do vizinho. Todos os invertidos ou quase todos são então, de uma forma ou de outra, autofílicos. Existe sexualidade no amor deles por si mesmos. Estamos então diante de um ponto (um dos mais importantes para os mais jovens) sobre o qual o terapeuta deverá colocar a sua atenção. (LAUPTS, 1896, p. 337, tradução nossa).

Observamos que o Dr. Laupts sugere em seu texto uma relação entre, por um lado, o amor a si mesmo e, por outro, a inversão sexual, paralelo que anos mais tarde seria restabelecido pelas pesquisas psicanalíticas.

Outro caso interessante - não citado por Ellis no artigo de 1898, mas que vem anunciar algo que também mais tarde seria sustentado pela psicanálise - é aquele trazido por Charles Féré, antigo aluno de Charcot na Salpêtrière e colega de Binet. Em uma obra intitulada Instinto sexual: evolução e dissolução (1899, p. 257), Féré descreve o caso de uma jovem de 29 anos que, entre outros sintomas, apresentava aquilo que o autor chamou de autofetichismo. Desde os 8 anos de idade, esta jovem esteve ligada a uma forma de “masturbação” bastante atípica; alcançava um alto grau de excitação ao beijar o dorso de uma de suas mãos, chegando por vezes ao orgasmo. Sendo levada a dar explicações a respeito desta prática, a paciente descreve uma cena, ocorrida provavelmente antes dos seus oito anos, em que a mãe, de quem a jovem possuía uma profunda aversão, toma à força uma das suas mãos, beijando-a na altura do dorso (1899, p. 261). Como veremos mais adiante ao abordarmos a apropriação psicanalítica do conceito de narcisismo por Sadger, a relação da criança com a mãe irá desempenhar um papel importante na gênese do desejo narcísico.

Retomando o artigo de Ellis, lembramos ainda que, ao propor a noção de autoerotismo, um dos objetivos deste autor é o de articular tais fenômenos às atividades consideradas normais da dita emoção sexual espontânea. Segundo Ellis, esta articulação permitiria uma melhor compreensão da sexualidade humana (ELLIS, 1898a, p. 261). Nestes termos, o fato do fenômeno autoerótico representar uma subversão da finalidade supostamente natural dos impulsos sexuais - no caso, a relação sexual genital - terminará por conduzir o autor à ideia de que o comportamento sexual humano seria “antinatural”. Isso justificaria inclusive o paralelo estabelecido entre este comportamento e outras realizações humanas também pensadas por Elis em termos sexuais, como a arte, a moral e a civilização em geral (ELLIS, 1898a, p. 299). Por outro lado, em termos psicopatológicos, a mesma visão de conjunto parecia também lançar luz sobre alguns enigmas de uma forma de afecção nervosa bastante discutida na época, a histeria.

Mas de que forma Ellis relaciona estes dois fenômenos, autoerotismo e histeria? Para responder essa questão de maneira satisfatória, devemos recorrer à segunda versão publicada em 1901 do texto de Ellis sobre o autoerotismo. Nesta, a definição de autoerotismo passa a incluir o seguinte adendo:

Em um sentido amplo, que não pode ser totalmente ignorado aqui, o emprego do termo autoerotismo pode incluir estas transformações da atividade sexual reprimida que são um dos fatores de algumas condições mórbidas, assim como da manifestação normal da arte e da poesia e que, de fato, dão colorido em maior ou menor grau à totalidade da vida (ELLIS, 1901, p. 110, itálico e tradução nossos)

Nota-se aqui a influência exercida pelo trabalho Estudos sobre a histeria, publicado por Breuer e Freud em 1895, sobre Ellis; obra que o autor já citava na primeira versão de seu texto, qualificando Breuer e Freud como os investigadores que “parecem ter lançado mais luz sobre os seus aspectos psíquicos {da histeria} do que quaisquer outros investigadores recentes” (ELLIS, 1898a, p. 279, tradução nossa). A ênfase aqui recai, nestes termos, sobre as “transformações” sexuais causadas pela ação da “repressão” {repression} sobre a atividade sexual e não sobre uma suposta natureza patológica intrínseca a estas atividades. O sintoma não é, portanto, o próprio autoerotismo, mas, sim, o resultado da ação da repressão sobre os impulsos autoeróticos.

2.2 A crítica freudiana do autoerotismo

Sabemos que nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud, em referência ao trabalho de Havelock Ellis, lança mão da noção de autoerotismo, atribuindo a ela um lugar central em sua argumentação. Esta apropriação, porém, não é feita de maneira direta e, para que possamos compreendê-la de maneira adequada, somos levados a supor uma influência mútua entre os dois autores, um diálogo implícito que teria acontecido em pelo menos dois tempos: um primeiro tempo em que Ellis se apropria de algumas hipóteses freudianas; e um segundo tempo em que Freud se apropria da própria apropriação que o médico inglês fez de sua obra.

Uma primeira referência de Freud a Havelock Ellis encontra-se em uma carta encaminhada a Fliess no dia 3 de janeiro de 1899:

Uma coisa agradável, sobre a qual eu havia tensionado escrever-lhe ontem, foi-me enviada - de Gibraltar, por um certo Sr. Havelock Ellis, autor que se interessa pelo tema do sexo e é, obviamente, um homem altamente inteligente, pois seu artigo, que foi publicado no Alienist and Neurologist (outubro de 1898) e versa sobre a ligação entre a histeria e a vida sexual, começa com Platão e termina com Freud; ele concorda muito com este último e dá aos Estudos sobre a Histeria, bem como aos trabalhos posteriores, o que lhes é devido, de maneira muito sensata. (MASSON, 1985/1986, p. 339)

O artigo enviado por Ellis a que Freud se reporta aqui é A histeria em referência às emoções sexuais (1898b). Neste, o autor dedica uma parte considerável do texto à exposição das hipóteses dos “investigadores vienenses”, sobre os quais chegaria inclusive a afirmar: “Atrevo-me a dizer, {que eles} não apenas fizeram a primeira contribuição realmente importante para o nosso conhecimento da histeria desde as investigações de Charcot, mas abriram caminho para o único campo no qual o estudo da histeria pode ser talvez agora produtivo” (ELLIS, 1898b, p. 608-9).

Neste primeiro momento, o teor do diálogo se limitaria ao apelo à sexualidade como possível fator etiológico da histeria, o que, para Ellis, passava por uma espécie de transformação do autoerotismo mediada pela repressão {repression}, mecanismo então proposto pelos investigadores vienenses. Trata-se aqui, portanto, da apropriação ellisiana de uma hipótese freudiana. Neste sentido, cabe salientar que, para o médico inglês, a manifestação das “emoções sexuais” envolvidas na gênese da histeria seria ela mesma gerada pelas necessidades autoeróticas (ELLIS, 1898b, p. 614, tradução nossa).

Levando em conta o contexto científico da época, o apelo à sexualidade e o destaque à sua função etiológica em algumas condições mórbidas, assim como a sua influência na determinação da natureza do homem, não eram vistos como uma grande novidade. O psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing, por exemplo, já chamava a atenção para o caráter determinante deste poderoso “instinto natural” {Naturtrieb} de origem sexual que estaria, ao mesmo tempo, na gênese de certas patologias e na origem da nobreza moral do homem civilizado (KRAFFT-EBING, 1886/1894, p. 1, tradução nossa). No caso desta tradição, porém, a compreensão de tal instinto estava subordinada a uma definição precisa das emoções sexuais em termos exclusivamente anatomofisiológicos.

Evidentemente, no caso de Freud e, posteriormente, no de Ellis, o problema da sexualidade seria abordado de outra forma. Ao desenvolver um pensamento crítico a respeito do estatuto da sexualidade, o primeiro seria então conduzido ao conceito de autoerotismo proposto pelo segundo. Acreditamos que tal noção tenha parecido útil a Freud, na medida em que o permitia pensar em uma dimensão bastante particular do campo sexual, dimensão esta que incluía o aspecto psíquico do erotismo. Será então desta forma que, em um segundo momento deste diálogo, Freud se apropriará da noção proposta pelo médico inglês, usando-a como base para o desenvolvimento de uma nova teoria da sexualidade. Mas de que modo isso será feito? Quais serão as modificações impostas pelo psicanalista vienense às hipóteses ellisianas?

O primeiro ponto a ser salientado aqui diz respeito a uma importante diferenciação estabelecida por Freud entre uma sexualidade infantil e uma sexualidade adulta, quer dizer a instauração bitemporal do desenvolvimento sexual nos seres humanos. Deste primeiro ponto, podemos derivar um segundo que, levando em conta esta distinção entre uma sexualidade infantil e uma sexualidade adulta, estabelecerá uma diferenciação entre um autoerotismo e um aloerotismo. Trata-se de uma diferenciação que aparece de forma explícita nos Três ensaios de 1905 - quando o autoerotismo será associado à sexualidade infantil e o aloerotismo à sexualidade adulta - mas que já podia ser observada alguns anos antes a partir do trabalho clínico de Freud3. Em resumo, pode-se dizer que os critérios responsáveis pelo estabelecimento desta associação foram: (1) a disposição infantil e inata à sexualidade autoerótica, capaz de se satisfazer a partir da estimulação do próprio corpo; e (2) o encontro com o objeto externo que marcaria a entrada na puberdade e encerraria o período da sexualidade infantil, forçando assim o aparecimento de um outro modo de satisfação não mais baseado no autoerotismo, mas sim no aloerotismo.

Dito isso, somos então capazes de avaliar estes dois tempos do diálogo entre Freud e Ellis: um primeiro tempo em que Ellis se apropria do valor atribuído pelo psicanalista vienense à sexualidade, não mais definida inteiramente em termos anatomofisiológicos, e um segundo tempo em que Freud se apropria da noção de autoerotismo desenvolvida por Ellis a partir da própria ideia freudiana de sexualidade assumida pelo autor inglês. Neste segundo tempo do diálogo, é possível notar de que maneira Freud refina e conceitua o autoerotismo, articulando-o, ao mesmo tempo, às neuroses, às psicoses, às perversões e à história da civilização. Posteriormente, como veremos na sequência, esta releitura será importante no debate sobre o narcisismo.

3 A psicopatologia do narcisismo e a sua relação com o autoerotismo

Ainda que o tema de Narciso já tivesse sido explorado em termos psicológicos e psicopatológicos por Ellis e por Binet, o uso e a definição do narcisismo como uma entidade psicopatológica seriam feitos somente em 1899, pelo psiquiatra e criminologista alemão Paul Näcke.

3.1 Paul Näcke e o narcisismo como expressão patológica do autoerotismo

Assim como Ellis, Näcke fez uma crítica ao moralismo ligado a assuntos de ordem sexual que parecia dominar a ciência médica da época. Em um artigo intitulado Estudo crítico do problema da sexualidade normal e patológica (1899a), o psiquiatra alemão chamava a atenção para a dificuldade de se estabelecer uma fronteira precisa entre o normal e o patológico no que concerne às práticas sexuais. Segundo Näcke, muitas das práticas censuradas em um determinado lugar ou contexto histórico poderiam não sê-los em outros contextos, situação que, somada às dificuldades diagnósticas para encontrar os ditos “sinais da degenerescência” em tais casos, complexificava a questão de modo considerável. Apoiando-se no trabalho do médico e antropólogo Hermann Ploss, Näcke chegou inclusive a afirmar que, dada a sua frequência em certas culturas, o onanismo, a pederastia, entre outras perversidades, não poderiam ser propriamente descritas como patologias, podendo ser no máximo pensadas como formas de “indecência” {Unzucht} (NÄCKE, 1899a, p. 358-9, tradução nossa). Tendo isso em vista, Näcke assumiu em termos metodológicos a seguinte posição: tomar como patológicos apenas os “casos mais pronunciados de perversidade sexual” (1899a, p. 358, tradução nossa) e não aqueles considerados mais leves e duvidosos.

Este será o contexto de emergência da noção de narcisismo {Narcismus}. A patologia em questão será classificada, ao lado de outros casos de perversidade sexual julgados pelo autor alemão como suficientemente pronunciados, como uma forma particular de atividade sexual marcada pela “paixão por si mesmo” {Selbstverliebtheit}. Para Näcke (1899a, p. 375, tradução nossa), uma classificação como esta se justificaria quando o sujeito em questão demonstrasse um tipo muito especial de amor próprio que, segundo o autor, ultrapassaria o limite da “mera vaidade”. Apenas “quando a visualização do eu ou das suas partes é acompanhada por sinais claros de orgasmo”, é que se poderia falar em narcisismo. Assim, fazendo referência a casos deste tipo, o psiquiatra alemão finalmente evoca a noção proposta por Havelock Ellis, dizendo: “este seria o caso mais emblemático de ‘auto-erotism’ no sentido de H. Ellis” (idem, p. 375, tradução nossa).

Em um segundo artigo, publicado no mesmo ano e intitulado As perversões sexuais em um asilo (1899b), o psiquiatra alemão traz a mesma ideia. Retomando a expressão “paixão por si mesmo” e, novamente a partir da referência a Ellis, Näcke toma o narcisismo como a “forma mais intensa de autoerotismo” (idem, p. 146, tradução nossa). A partir de um estudo sistemático e estatístico das perversidades sexuais encontradas no asilo Hubertusburg, o psiquiatra chega, no entanto, à conclusão de que os casos de narcisismo “verdadeiro” são bastante raros. Dos mais de mil casos observados, apenas cinco (quatro pacientes do sexo masculino e um do sexo feminino) poderiam ser classificados como verdadeiros narcisistas. Entre os quatro pacientes homens, o autor chama a atenção para o fato de um deles ser hebefrênico4 e dos outros três “ficarem com muita frequência na frente do espelho, contemplando-se diante dele {espelho} com prazer” (idem, 128-9, tradução nossa). No caso da paciente mulher, Näcke afirma que o fenômeno poderia ser observado apenas de forma periódica, quando a paciente mostrava-se particularmente excitada; “durante o surto, ela se beijava, os braços e as mãos, expressando uma absoluta paixão” (idem, p. 131, tradução nossa).

Embora a noção de “perversidade sexual” trazida pelo autor em seu texto seja bastante ampla, contemplando diversos “desvios dos impulsos sexuais” {Abweichungen des Geschlechtstriebs} não necessariamente patológicos, como a masturbação, a pederastia, o exibicionismo etc., vale salientar que todos estes desvios foram observados em pacientes internados em um asilo para doentes mentais. Seguindo a classificação de Kraepelin, tratava-se de pacientes diagnosticados como portadores de “distúrbio mental”, “demência paralítica”, “idiotas” e “imbecis” (idem, p. 123, tradução nossa). Mais uma vez, e em oposição implícita a Ellis, Näcke estaria indiretamente associando o fenômeno narcísico a uma manifestação patológica da sexualidade. Um dos pacientes apontados pelo psiquiatra é inclusive, como bem vimos, diagnosticado como hebefrênico - quadro clínico que seria posteriormente integrado ao domínio da demência precoce - o que pode nos levar à hipótese de que Näcke pensava o narcisismo como um fenômeno talvez ligado à psicose.

Segundo Ellis (1907, p. 208), na terceira edição de seu artigo sobre o autoerotismo, estes casos considerados extremos, além de terem sido retomados por Paul Näcke, foram ainda retrabalhados pelo médico alemão Hermann Rohleder (1907) e pelo americano Charles H. Hughes. Rohleder lança mão do termo automonossexualismo e considera os sujeitos assim diagnosticados como portadores de um “defeito congênito no centro sexual do cérebro”. Hughes, por outro lado, entende a condição autoerótica como um capítulo da psicologia normal, aproximando-a do “sentimento estético” e da “admiração do nu na arte”.

3.2 Isidor Sadger e o narcisismo como fase do desenvolvimento psicossexual

O primeiro psicanalista a utilizar o termo narcisismo com objetivos teórico-clínicos fora Isidor Sadger, então membro da Sociedade Psicanalítica de Viena. Em Questões neuropsiquiátricas à luz da psicanálise, publicado em 1908, o autor discute a partir de dois casos clínicos justamente aquilo que passaria a ser chamado de Narzismus no contexto da sexualidade infantil. Notamos aqui que a grafia em alemão é ligeiramente diferente daquela proposta por Näcke5.

Buscando avançar em relação às antigas definições, Sadger afirma que o amor dirigido a si mesmo poderia, a partir de uma investigação psicanalítica, ser entendido como a reprodução de um amor, por vezes abusivo, que fora um dia dado pela mãe. Nestas condições, o sujeito reuniria, em seu próprio corpo, aquele que acaricia e aquele que é acariciado. No caso do primeiro paciente por ele discutido, uma jovem de 29 anos, a análise de certas fantasias revelou uma espécie de reunião “da mãe e da criança em um só corpo” (SADGER, 1908, p. 54, tradução nossa) que remontaria à primeira infância. O mesmo seria observado em um segundo caso, de um jovem de 18 anos, cuja análise revela a mesma tendência. Para sustentar tal afirmação, o autor recorre à noção de identificação; no caso, uma identificação com a mãe.

A ideia de que o sujeito poderia reunir no próprio corpo aquele que acaricia e aquele que é acariciado já havia sido intuída pelo psicanalista um ano antes, quando Sadger afirma o caráter bissexual das fantasias histéricas observadas durante o ataque histérico (SADGER, 1907). Freud, que publicaria em 1908 o seu curto artigo sobre as Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, reconheceria esta descoberta independente de Sadger em uma nota de rodapé (FREUD, 1908b/1996, p. 154n). Naturalmente, o mesmo poderia ser dito em relação à noção de identificação, retomada por Freud somente um ano mais tarde em Algumas observações gerais sobre ataques histéricos (1909/1996).

Sabemos que Freud já havia utilizado o termo identificação {Identifizierung} na Interpretação dos sonhos, ao abordar o problema da “identificação histérica” (FREUD, 1900/1996, p. 183). Neste caso, porém, tal noção vinha representar não mais do que um “ato psíquico” próprio ao modo histérico de relação com o objeto. Por outro lado, com Sadger, a identificação começa a ser pensada como um acontecimento mais fundamental, que teria lugar no contexto da sexualidade infantil (SADGER, 1908, p. 54). Em resumo, o que está sendo dito mais uma vez é que, em um determinado momento do desenvolvimento psicossexual, o indivíduo é tomado por si mesmo como objeto, tendo o amor materno como modelo de investimento.

Outro importante ponto trazido por Sadger, o qual parece ter sido por um lado baseado em um artigo publicado por Näcke em 1906 e, por outro, em pesquisas anteriores realizadas pelo próprio psicanalista, diz respeito à relação entre narcisismo e homossexualidade.

Segundo Näcke, que tece elogios explícitos aos Três ensaios de Freud, o desejo homossexual ou mesmo bissexual deveria ser entendido como um destino possível do “impulso sexual {Geschlechtstrieb} reconhecidamente indiferenciado” que marca a infância autoerótica do homem. Ao se referir ao autoerotismo, o psiquiatra se reporta textualmente a Ellis e a Freud, argumentando que se trata de uma “fase” em meio à qual não se estabelece qualquer relação com um “objeto sexual estrangeiro” {fremdes Sexualobjekt} (NÄCKE, 1906, p. 588, tradução nossa). Passada, porém, esta fase, o impulso heterossexual finalmente adveio com a conquista do objeto externo, impulso este que por vezes poderia estar carregado de tendências homossexuais. Tal mescla, segundo o autor (idem, p. 599), dependeria do caráter mais ou menos intenso de certas vivências precoces, o que daria estofo à sua teoria da bissexualidade constitucional. Neste contexto, Näcke chama então a atenção para o fato de que, “no caso raro do narcisismo”, haveria também um impulso homossexual que se manifestaria pela via autoerótica e que, não obstante, tomaria a imagem de si como estímulo à excitação sexual. Desta forma, nem todo caso de homossexualidade seria um caso de narcisismo; porém, todo caso de narcisismo estaria, de alguma forma, associado à homossexualidade e à inaptidão para o amor objetal. Dito isso, o autor exemplifica citando muito brevemente dois casos, ambos diagnosticados como casos de demência precoce. Um deles é o de um jovem que se masturba sorrindo e mandando beijos diante de sua própria imagem, o outro é o de uma mulher que faz o mesmo beijando os próprios braços (idem, p. 603).

Em seu artigo de 1908, Sadger constrói um raciocínio semelhante. Avança, porém, trazendo a hipótese da identificação precoce entre o futuro narcisista e a mãe, o que, por sua vez, prepararia o terreno para a emergência de fantasias homossexuais que marcariam a escolha de objeto narcísica. Ao que tudo indica, contudo, ao contrário de Näcke, Sadger não busca situar o narcisismo no campo da demência precoce. Neste sentido, a distinção entre estes pacientes chamados narcisistas e os neuróticos comuns residiria tão somente no recém-descoberto terreno da identificação e na posterior escolha de objeto, não havendo, em princípio, qualquer relação entre eles e o quadro da demência precoce. Na reunião do dia 27 de maio da Sociedade Psicanalítica de Viena, Freud, ao trazer fragmentos de um caso de “homossexualidade latente”, confirmaria estas hipóteses de Sadger que, segundo ele, encontravam-se também em um livro publicado por Wilhelm Stekel (NUNBERG; FEDERN, 1962, I, p. 416).

Neste sentido, é interessante observar de que modo a noção de narcisismo foi pouco a pouco se associando à ideia de uma inaptidão para o amor objetal, a qual passaria a orientar a compreensão psicanalítica da demência precoce. Abraham (1908/2000), em um importante artigo sobre o tema, Ferenczi (1909/2011, 1911/2011) e Freud (1911/1996), com a publicação do Caso Schreber, desenvolveriam esta questão fornecendo os subsídios necessários para se pensar na relação entre homossexualidade, paranoia e narcisismo. O mesmo pode ser dito em relação ao trabalho de Rank (1911/2016). Esta problemática ultrapassa os objetivos deste artigo e não será, portanto, aqui discutida.

3.3 O narcisismo e os impasses da identificação em Sadger e Freud

A partir da pesquisa psicanalítica, o tema da identificação aparece no contexto do debate sobre a homossexualidade, problema que, por sua vez, antecede a discussão sobre o narcisismo. Em seu artigo de 1908, Sadger se refere à identificação precoce com a mãe como o responsável pela prevalência do componente homossexual do impulso sexual. Um ano mais tarde, porém, em uma apresentação que teria lugar na Sociedade Psicanalítica de Viena, o debate se aprofundaria a partir da discussão de um caso de homossexualidade masculina em que o desejo homossexual do paciente em questão seria despertado pela maneira de olhar e pela jovialidade de alguns homens. Tal desejo assim despertado era dirigido aos genitais destes mesmos homens. Por meio da análise, estes traços puderam ser reconhecidos em uma babá que manipulara os genitais do paciente quando este tinha por volta dos sete ou oito anos, o que levou o psicanalista a concluir que, “como homossexual”, este paciente “se identifica então com a mãe enquanto mulher que procura a satisfação do seu amante”6 (NUNBERG; FEDERN, 1962, II, p. 299, tradução nossa). Tendo exercido então o papel de mãe, seria, portanto, a babá - enquanto mulher que busca a satisfação de um homem - que aparecerá como o objeto ao qual o paciente se identificaria, objeto este que reúne elementos narcísicos e objetais.

Dito isso, Sadger recorre então à noção de narcisismo aliada ao autoerotismo, afirmando ser justamente uma retomada do “autoerotismo sob a forma de narcisismo” aquilo que está em jogo no desejo destes pacientes homossexuais (idem, p. 301). A busca da mãe em satisfazer o seu amante, busca que tomaria o próprio sujeito como objeto, constituiria então uma fantasia narcísica. Desta forma, as escolhas de objeto homossexuais feitas futuramente por estes sujeitos poderiam ser explicadas com base nesta fantasia, seja na busca de objetos do mesmo sexo que apresentem os traços da mãe sedutora, seja na busca por objetos do mesmo sexo capazes de representar o próprio sujeito como objeto de amor da mãe.

Tais argumentos, dados pelo psicanalista, foram encarados pela sociedade com desconfiança na sessão do dia 10 de novembro de 1909. Alfred Adler questionou a intensidade da identificação deste sujeito com a mãe; Max Eitingon sustentou que o narcisismo não pode ser tomado como um caso particular de autoerotismo; e Paul Federn, embora elogiasse a apresentação do caso, problematizou alguns aspectos da tese sadgeriana da escolha de objeto homossexual.

Freud, ao tomar a palavra, apesar de reiterar algumas críticas chamando a atenção para o caráter demasiado especulativo das opiniões de Sadger, sinaliza a potencialidade da noção de narcisismo trazida pelo autor, a qual lhe parece, nesta ocasião, uma noção “nova e válida”. Nas palavras de Freud: “O narcisismo não é um fenômeno isolado, mas um estágio do desenvolvimento necessário na passagem do autoerotismo ao amor objetal. Amar a si mesmo (amar seus próprios órgãos genitais) é um estágio indispensável do desenvolvimento” (NUNBER; FEDERN, 1962, II, p. 307, tradução nossa). Na sequência, aponta para os “dois objetos sexuais primários” do homem, argumentando que a sua vida ulterior dependerá daquele ao qual ele permanece fixado. Estes dois objetos sexuais seriam: “a mulher (a mãe, a babá etc.) e o si mesmo”. Dito isso, Freud segue argumentando: “É importante se libertar de ambos e não tardar em abandoná-los, não permanecendo em torno deles por um tempo demasiado longo”. (idem, p. 307, tradução nossa). Normalmente, continua o psicanalista, é a figura do pai que vem abalar esta relação, o que pode ser entendido como um momento crítico durante o desenvolvimento. Caso o indivíduo não seja capaz de se libertar muito cedo de si mesmo, este carregará para vida um traço homossexual (ibidem).

Três semanas mais tarde, na sessão do dia 1º de dezembro de 1909, Freud retomou o mesmo raciocínio ao abordar uma fantasia de Leonardo da Vinci, comunicação que mais tarde seria ampliada e publicada como Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci (1910/1996). Citando textualmente Sadger, o autor propôs que Leonardo fosse marcado por uma enorme fixação maternal que tivera lugar nos seus anos de infância, situação que teria determinado o seu caráter homossexual. Tratar-se-ia aqui, portanto, a partir das hipóteses lançadas por Sadger, de um possível caso de homossexualidade marcado pelo recalque do forte amor precoce despertado no artista pela mãe. Lembramos que a homossexualidade, como um subproduto do recalcamento do amor do indivíduo pela mãe, fizera parte da hipótese proposta inicialmente por Sadger, tratando-se de um dos desfechos possíveis da identificação para com a mãe. Dito isso, Freud apresentou finalmente o seguinte panorama dos mecanismos em jogo:

O desenrolar de certos casos de homossexualidade mostra que, durante o primeiro período {da vida}, uma intensa fixação à mãe se produz; ela é em seguida recalcada, sendo a partir daí que surge a grande mudança. Os homossexuais se dividem em dois grupos, de acordo com o objeto sexual primário que eles escolhem; estes dois objetos primários são a mulher (a mãe etc.) e o sujeito ele mesmo. (NURENBERG; FEDERN, 1962, II, 337-38, tradução nossa)

Conclusão

A partir deste momento, a noção de narcisismo, pensada em sua relação com a homossexualidade e com as ditas fases do desenvolvimento psicossexual, começa então a ganhar o estatuto de conceito. Para além de abordá-la na análise que faz da biografia de Leonardo, Freud, ainda em 1910, incluiu estas reflexões em torno da recente noção na segunda edição dos Três ensaios. Na sequência, observamos o aparecimento do trabalho de Rank (1911/2016) intitulado Uma contribuição sobre o narcisismo, onde o autor aborda a questão da homossexualidade feminina a partir do conceito em questão, e de Freud (1911/1996) que introduz o mesmo conceito no debate sobre a paranoia. Finalmente, em 1914, em Sobre o narcisismo, o conceito seria consolidado por Freud.

Não nos ocupamos neste artigo com a continuação desta história a partir de 1910, mas sim com a análise de um contexto que lhe era diretamente anterior. Nosso objetivo foi o de justamente explorar aquilo que teria fornecido as bases a estas posteriores elaborações. Nestes termos, ao traçar as origens do conceito de narcisismo, situamos sua gênese na tradição médico-psiquiátrica e observamos a sua evolução no interior desta mesma tradição, mostrando, por fim, de que modo tal conceito pôde ser finalmente apropriado pela psicanálise.

Como bem vimos, esta apropriação se deu por intermédio de dois pesquisadores não psicanalistas, Havelock Ellis e Paul Näcke, autores que reorientaram o debate em torno da sexualidade, criando condições para que as hipóteses psicanalíticas pudessem então se desenvolver. Em resumo, podemos dizer que tal debate se deu: (1) em torno da questão levantada por Ellis do autoerotismo como manifestação não necessariamente patológica da sexualidade; (2) nas ideias de Näcke a respeito do amor por si mesmo como uma etapa do desenvolvimento que envolve a alienação do sujeito em relação ao mundo externo; e, por fim, (3) com Sadger e Freud que, ao recolher todo este material oriundo da experiência de outros pesquisadores, foram capazes de reorganiza-lo a partir da experiência psicanalítica. Gradativamente, a noção de narcisismo deixou de ser considerada em termos puramente descritivos para ser então pensada em termos dinâmicos e, enfim, articulada à subjetividade do paciente na determinação do seu sintoma.

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1Metamorfoses, livro III, 402-510. No terceiro livro desta obra, composta por 733 versos, a parte dedicada à narrativa de Narciso vai do verso 399 ao verso 510.

2Fazemos referência aqui à concepção de doença mental exposta no Tratado das degenerescências, de Benedict-Augustin Morel, publicado em 1857. Este tratado exerceria uma grande influência sobre a psiquiatria europeia, assumindo uma posição dominante dentro do campo médico até o início do século XX.

3Cito aqui em particular o artigo A sexualidade na etiologia das neuroses, de 1898.

4O quadro de Hebefrenia, descrito inicialmente por Karl Kahlbaum, seria posteriormente abordado por Kraepelin como uma das formas da demência precoce, ao lado da forma catatônica e da paranoide. Segundo Kraepelin, os sintomas da forma hebefrênica incluem, dentre outros, delírios, alucinações e aumento da paixão sexual, e promiscuidade em alguns casos (KRAEPELIN, 1907, p. 230s).

5Sobre as diferentes formas assumidas pelo termo narcisismo, ver Padovan e Müller (2016).

6Este segundo caso, relatado em três encontros na Sociedade, foi publicado em 1910 sob o título Ein Fall von multipler Perversion mit hysterischen Absenzen {Um caso de perversão múltipla com ausências histéricas}. A fórmula etiológica em questão foi discutida em três outros artigos publicados entre 1908 e 1909.

Recebido: 03 de Janeiro de 2015; Aceito: 29 de Maio de 2015

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