SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 número2A CISÃO ENTRE O SUJEITO E O SABER NO DISCURSO CAPITALISTATESTEMUNHAR - UM MODO DE COMPARTILHAR O TRAUMA índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versão impressa ISSN 1516-1498versão On-line ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.22 no.2 Rio de Janeiro maio/ago. 2019  Epub 27-Maio-2019

https://doi.org/10.1590/1809-44142019002004 

Artigo

O ESTATUTO PSÍQUICO DO DINHEIRO À LUZ DA TEORIA PSICANALÍTICA

THE PSYCHIC STATUS OF MONEY IN THE LIGHT OF PSYCHOANALYTIC THEORY

Lillian Nathalie Oliveira da Silva1 
http://orcid.org/0000-0002-5380-0605

Rogério da Silva Paes Henriques2 
http://orcid.org/0000-0002-6777-1921

1Universidade Federal de Sergipe (UFS), Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, Centro de Educação e Ciências Humanas, São Cristovão/SE, Brasil.

2 Universidade Federal de Sergipe (UFS), Departamento de Psicologia, São Cristóvão/SE, Brasil.


RESUMO:

O artigo investiga o lugar ocupado pelo dinheiro na economia psíquica de um ponto de vista pulsional, com base na psicanálise. Trata-se de pesquisa com metodologia bibliográfica e leitura interpretativa na perspectiva psicanalítica. Conclui-se que o dinheiro se constitui como objeto pulsional com injunção estruturante sobre o psiquismo, instituindo-se como cifra da própria constituição do sujeito.

Palavras-chave: dinheiro; psicanálise; economia psíquica; pulsão

Abstract:

This work proposes to investigate the place occupied by money in the psychic economy from a Freud’s drive theory. It is a research with bibliographic methodology and interpretive reading in the psychoanalytic perspective. It is concluded that money is constituted as an object of the Freud’s drive theory with a structuring injunction on the psyche, establishing itself as a cipher of the subject’s own constitution.

Keywords: money; psychoanalysis; psychic economy; Trieb

"Dinheiro é um pedaço de papel”, afirma Arnaldo Antunes na canção Dinheiro; papel esse (moeda ou cartão de plástico) com valor agregado que orquestra certa movimentação do mundo, sobretudo em se tratando das sociedades modernas industrializadas. Nestas, quase tudo tem um preço, sendo corriqueiras as histórias em que o “vil metal” se concebe como tema central e proeminente. Certa propaganda brasileira de uma bandeira de cartão de crédito, que fez muito sucesso publicitário, possuía como slogan: “Existem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras, existe Mastercard”. Esse slogan ressoa a elaboração de Marx (1996) do dinheiro como detentor de uma performance que transforma as relações humanas em relações econômicas.

Em sua forma conceitual, o dinheiro se constitui em uma ferramenta de negociação, com valor simbólico convencional, utilizado nas trocas de bens e serviços dos quais uma sociedade faz uso. Nos tratados históricos das diferentes sociedades já estudadas (MARX; ENGELS, 1848; MARX, 1971; MARX, 2008; ENGELS, 1995), ao menos da perspectiva desses autores, é impossível uma explicação fidedigna da narrativa da civilização dissociada dos fatores econômicos que a impulsionaram. Diz-se que as transformações econômicas são o motor da história, as quais também impulsionaram os maiores acontecimentos políticos do século XX (HUBERMAN, 1936; FERGUSON, 2007).

Karl Marx assinala que, nas atribuições do dinheiro como equivalente geral de mercadorias, há propriedades que são capazes de satisfazer necessidades humanas de todas as espécies, seja no âmbito de necessidades básicas, seja aquelas subjetivas - “originadas do estômago ou da fantasia” (MARX, 1996, p. 165). Assim, se o dinheiro é capaz de satisfazer necessidades de instâncias humanas diferentes, parece que ele detém propriedades para além das racionais, localizadas nas desconexões encontradas entre o saber e o fazer econômicos. A partir das considerações de Aristóteles sobre a “intemperança” (aprazia, em grego), em Ética a Nicômano, poder-se-ia atualizá-las do seguinte modo, à luz da problemática financeira contemporânea: como é possível saber o que é bom e não fazê-lo? As decisões econômicas atuais parecem se pautar em um além das ciências econômicas e de sua racionalização sobre o dinheiro. Como no caso de uma adolescente urbana de classe média, por exemplo, a qual, a despeito do seu currículo escolar ter contemplado matérias de economia doméstica, parece não ter internalizado tal educação monetária recebida, tendo em vista que seus gastos pessoais, incentivados pelo crédito fácil mensal assegurado por seu cartão, ultrapassam por vezes seu poder aquisitivo. A aparente intemperança dessa e de muitas outras decisões econômicas revela o “absurdo” (non sense) subjacente à instância do inconsciente e à divisão subjetiva.

Considerando a importância adquirida pelo dinheiro na maior parte das sociedades e épocas em que a vida humana se pôs em civilização, este trabalho investiga o seu lugar na economia psíquica, atentando para a impossibilidade de sua apreensão a partir de instrumentais positivistas pautados em instâncias racionais e conscientes. A psicanálise surge, desse modo, como ferramenta de investigação que permite ir além dos racionalismos, já que Freud teria operado a subversão do “sujeito do Iluminismo” - concebido como sujeito cognoscente e racional, provido de uma identidade fixa e unificada: o cogito ergo sum, de Descartes (HALL, 2001, p. 36-40) -, trazendo à tona um sujeito do inconsciente, dividido e desejante, causado pela pulsão1 (CABAS, 2009). É esse sujeito do inconsciente - cuja emergência teria causado uma ferida narcísica à humanidade, já que teríamos passado a reconhecer não sermos senhores sequer em nossa presumida própria casa -, determinado pela causalidade pulsional, que se pretende analisar nesse trabalho, nas suas relações com o dinheiro.

EQUIVALÊNCIAS SIMBÓLICAS FREUDIANAS: DINHEIRO=FEZES=BEBÊ=PÊNIS

Nas primeiras articulações acerca do dinheiro e suas relações simbólicas, Freud tece homologias2 entre as fezes e o dinheiro, e entre o dinheiro e a sujeira (FREUD, 1986; FREUD, 1900/1996), nas quais as fezes se constituem como primeiro objeto de troca dando lugar ao dinheiro posteriormente, a partir de uma simbolização e coletivização do processo, pois, além das sensações de volúpia mescladas às sensações dolorosas pertinentes ao próprio ato de defecar, a criança expressa no ato, através do autocontrole esfincteriano, a relação de negociação afetiva com a mãe, por quem é cuidada, recusando ou concordando com o que lhe provir (FREUD, 1905/1996).

Atividades na zona erógena anal sugerem uma série de equivalências entre traços de caráter - pessoas ordeiras, avarentas e obstinadas - em correlação a dinheiro/sujeira/sexualidade, em que se desenvolvem também processos de sublimação e formação reativa, e aquilo que antes era tido como dádiva, transforma-se em seu oposto como sinônimo do que é imundo (FREUD, 1908/1996). Nos processos do inconsciente, há uma série de equivalências simbólicas entre os significantes dinheiro=fezes=bebê=pênis em que estes podem facilmente se substituírem uma vez que mal se distinguem, de acordo com as teorias sexuais infantis (FREUD, 1917/1996).

Além da cadeia de significação simbólica presente nas fantasias sexuais infantis, Freud considera o dinheiro na clínica psicanalítica como detentor de uma importância primordial, instituído por funções de autopreservação, obtenção de poder e carregado por poderosos fatores sexuais (FREUD, 1913/1996).

A característica do dinheiro como intermediário de troca é a originária de seu surgimento, sua função essencial. Esta função, no entanto, aponta uma modificação na forma da economia, superando o modelo de escambo pela forma monetária (LOPES, 1942). Isso trouxe benefícios de facilitação na capacidade de produção, redução do tempo designado às transações realizadas pelo sistema de troca direta e aumento da liberdade de escolha para quem o possui sobre o quê e quando vai adquirir algo (SMITH, 1996; ROBERT, 1989).

Se o dinheiro surge historicamente da função de troca na inter-relação humana, isso possibilita sua inserção na série de objetos que compõem as equivalências simbólicas propostas por Freud: dinheiro=fezes=bebê=pênis. As comunidades primitivas faziam usufruto do que dispunham genuinamente a partir de seu trabalho direto; somente com o contato com outras comunidades puderam reconhecer outras formas de necessidade (ROBERT, 1989). As fezes, por sua vez, se fazem como o primeiro objeto genuíno de troca a partir da qual a criança pode negociar. Na época da constituição da fase anal, as fezes são o único objeto de negociação com o outro, e somente a partir da simbolização é que são atualizadas na forma monetária. Nos primórdios da infância, o dinheiro não tem representação para a criança, só ganhando função significante com a transformação das pulsões eróticas. Pode-se ler no processo de troca infantil: dou-lhe fezes - o bem mais genuíno que possuo - e dai-me atenção - o atributo do qual necessito, mas do qual não tenho propriedade, senão em relação com o outro. Do ponto de vista pulsional, o dinheiro, em sua equivalência com as fezes, indica que o bebê, no ato próprio de defecar, barganha com a mãe e exprime suas vontades através da retenção ou evacuação. Faz uso de seus atributos para negociar o afeto materno, que, por hora, é a porta de entrada de satisfação das necessidades, pois, da atenção dispendida pela mãe, suprime-se as demais relativas às básicas de sobrevivência (FREUD, 1905/1996).

DA NECESSIDADE À DEMANDA E AO DESEJO

Em Sobre o início do tratamento, Freud (1913/1996) observa que, ao lado da autopreservação e da obtenção de poder, o dinheiro é também envolto por poderosos fatores sexuais. O autor situa no dinheiro as três instâncias de maior influência no ser: a da ordem da necessidade, a das relações sociais, bem como aquelas relativas à sexualidade.

Na ordem da necessidade, o dinheiro surge como algo que promove a vida de forma diretamente ligada à sobrevivência. No entanto, uma vez que psicanaliticamente o conceito isolado de necessidade não é comportado pelo humano, a lógica do dinheiro enquanto equivalente universal que perpassa o âmbito das relações humanas indica uma saída do eixo da necessidade para o âmbito do desejo. Aquelas que de fato são indispensáveis à sobrevivência são coisas ínfimas e facilmente atingíveis, mas, quando a sobrevivência passa a ser permeada pelo desejo, as exigências se tornam progressivamente abundantes, tal qual o furo pulsional, a constituição do sujeito psicanalítico (QUINET, 2009).

Por sua condição relacional, “o dinheiro só existe em função da linguagem” (QUINET, 2009, p. 84), assim sobressaindo da ideia de necessidade primária, incidindo à ordem da demanda e do desejo. Na história e evolução do dinheiro, Marx (1996) constata que a produção de bens perpassa a de simples necessidade de aquisição de materiais específicos e recai na produção complexa do capital. Na economia psíquica, de promotor de necessidades humanas, o dinheiro transita por aquilo que é da ordem da demanda, intrínseco à sua implicação decorrente da linguagem. “A necessidade faz aparecer a dimensão da falta-a-ter; a demanda e o desejo fazem aparecer outro registro da falta - a falta-a-ser” (QUINET, 2009, p. 84). O registro da falta-a-ser decorre da causação pulsional humana, da ordem de um furo insaturável, resultante do fato de sermos falantes e, portanto, regidos pela linguagem.

Visto que o dinheiro não se define desde a sua gênese somente como atributo de autopreservação, na dimensão do desejo ele entra em cena marcado pela falta, pela castração, assim como as demais substâncias episódicas da pulsão decorrentes da equivalência simbólica tecida por Freud. As três dimensões mencionadas - autopreservação, poder e sexualidade - se superpõem de forma fluida nas representações atribuídas ao dinheiro. Se, na dimensão do desejo (sexualidade), ele entra em cena marcado pela castração, é por essa mesma marca que se tem o indicativo de poder.

Discriminando as funções delimitadas por Freud, o dinheiro surge como necessidade à medida que promove a vida em sociedade, com auxílio à moradia, alimentação, vestimenta etc. No entanto, a título de discussão dessa segunda função, como símbolo de poder, o dinheiro parece adquirir essa conotação porque escamoteia a falta (QUINET, 2009). Em sua condição de que tudo pode comprar, de que pode propiciar todo tipo de necessidade - seja primária, seja adquirida, tal como sugere o slogan da propaganda do Mastercard acima citada -, se põe no lugar de completo, mascara a castração, dissimula a falta, a mesma falta inerente a todo ser, essencial à condição de sujeito. O dinheiro adquire a marca fálica e se faz equivalente aos objetos protuberantes do corpo - seio, pênis, fezes. Como instrumento de poder, o dinheiro representa a detenção fálica, dando a impressão de que não se é barrado, não se é um ser castrado.

Das funções indissociáveis atribuídas por Freud ao dinheiro, torna-se eminente o papel da marca fálica, pois, além de direcionar o sujeito na busca eterna por satisfação, impulsionado pela falta, e dar a impressão de que não se é um ser castrado, a marca fálica imprime também a sexualidade às pulsões oral, anal e genital. Seguindo a teoria freudiana de equivalência simbólica entre o dinheiro e os objetos parciais marcados pela castração (fezes=bebê=pênis), aquele adquire uma representação psíquica que passa a exigir a consideração da lógica do inconsciente. Dessa forma, o dinheiro se faz passível de simbolização enquanto objeto carregado também de energia libidinal, não se caracterizando somente como objeto de relação comercial, mas como composto por poderosos fatores sexuais.

Se a pulsão se constitui por uma parte passível de representação, podendo ser simbolizada através da linguagem, e por outra parcela não apreensível, como a parte que escapa, sendo a energia sexual propriamente dita, pode-se direcionar o entendimento do dinheiro revestido por poderosos fatores sexuais. Se nem tudo da pulsão consegue ser apreendido, nem mesmo através dos destinos da libido tomados para a satisfação parcial, surge um resto que demarca a falta no sujeito, que é o mesmo objeto perdido, o qual impede a satisfação total (QUINET, 2009).

Enquanto a necessidade básica denuncia uma falta na posse, no ter, a passagem pela linguagem, que se transforma em desejo e demanda, denuncia uma falta no ser. O dinheiro, tal como concebido indispensavelmente pela linguagem, já denota a dimensão da falta no ser. Passa, portanto, a se comparar com os objetos importantes ao sujeito, que vão para além da necessidade, assim como os objetos marcados pela castração - com a mesma equivalência simbólica - traçados por Freud, e permite, portanto, um ciframento da libido. O dinheiro passa a ser revestido pela mesma energia sexual indissociável, mas ele se situa na barreira entre o que é representável e aquilo que é inapreensível da pulsão e, a partir dessa condição, se faz capaz de cifrar a parcela inapreensível.

A habilidade de ciframento da libido se faz possível porque, ao tempo em que o dinheiro dá a impressão de que pode estancar o furo, a energia libidinal é voltada inteiramente para ele, que passa a servir, portanto, de depositário dos fatores sexuais envolvidos. Uma vez que o dinheiro dá a impressão de poder comprar tudo aquilo de que se possa ter necessidade, vem se autoafirmar como possibilitador de por fim à falta inerente a todo ser através de bens e serviços específicos, amoeda a libido, tornando-a palpável por ser o seu centro, capital de investimento libidinal. Nesse sentido, o dinheiro tanto funciona como metonímia da libido, como parte significativa que representa, e também como metáfora, quando, ao se comprar serviços erotizados, paga-se com investimento libidinal (QUINET, 2009).

Uma vez que a libido e a satisfação não possuem representação inconsciente, são os destinos da pulsão que constituem a demanda ao outro e a demanda do outro. Tais demandas são atualizadas de diversas formas durante a vida do indivíduo, constituindo-se enquanto atualizações do bebê, que pede o seio, e da mãe, que pede as fezes do bebê. O dinheiro surge, portanto, como uma atualização também dessa demanda, a partir de toda a sua origem, equivalência e representação.

Se o dinheiro se encontra na conjunção entre o representável e o que escapa, ele contém um fetiche não identificável (QUINET, 2009), no qual o sujeito passa a simbolizar uma agregação daquilo que o move, seja no sentido de manter-se vivo biologicamente, seja na necessidade de relação com o outro. O dinheiro, dessa forma, é encantado pela condição de necessidade e de sobrevivência em todos os aspectos do ser; como meio de circulação, indica que a sexualização é também o que permeia as relações. É meio de circulação eternizável porque detém a libido em si.

A sexualidade, amoedada na libido no caso do dinheiro, é para Freud o que está presente em todos os atos dos seres humanos, ao lado das pulsões de autoconservação, ao lado das relações sociais de poder. O dinheiro, portanto, se eterniza pela sua condição de agregar as três esferas pelas quais o ser humano é permeado. Perpassar instâncias constitutivas como as de autopreservação, as sociais e as sexuais põe o dinheiro como condensador da própria condição de existência do ser.

VALOR DE TROCA X VALOR DE USO: ENTRE A DÍVIDA SIMBÓLICA E A ONIPOTÊNCIA NARCÍSICA

Na análise do dinheiro sob um ponto de vista pulsional, este se apresentou até então como estruturante no psiquismo humano por sua condição limítrofe entre o social e o individual, entre o que é da ordem da necessidade à demanda e ao desejo, entre ser o objeto condensador que amoeda as instâncias estruturantes como as de ordem sexual, relacional e autopreservativas. Paradoxalmente, o dinheiro vem apresentar um lado obscuro quando se implica nas relações sociais. Uma das características elementares do dinheiro é que ele vem servir como medida universal de valor porque é capaz de reificar o trabalho humano empregado nas mercadorias, sendo este a real medida de valor de todas as coisas (SMITH, 1996).

Se o dinheiro se dá como principal via de troca entre os membros das sociedades mercadológicas, ele ganha um importante estatuto simbólico, visto que implica o reconhecimento mútuo entre os sujeitos. Mas convém sublinhar que até então a moeda foi tomada tão somente por seu valor de troca, por suas características de facilidade, como meio eterno de circulação e outros atributos que dão um reconhecido lugar ao outro.

Há, no entanto, uma condição do dinheiro que se contrapõe à sua essência de troca: a de ser o equivalente universal e deter em si o valor de uso de todas as mercadorias. Para Marx, “a utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso” (MARX, 1996, p. 45). Aquela coisa externa que serve para satisfazer necessidades humanas de qualquer espécie tem sua serventia em nível particular, e é somente através dessa condição de satisfação das necessidades privadas que as mercadorias passam a deter um valor de troca. O dinheiro, nessa condição, como equivalente universal de mercadorias, passa por um processo de condensação desses valores atribuídos, acaba por se usurpar de uma ótica de se ter um fim em si, quando, na verdade, se constitui em meio para se atingir fins específicos.

Quando o dinheiro retoma exclusivamente o valor de uso, ele se destitui de sua habilidade de reconhecimento do outro e passa a representar uma individuação, em que a posse do dinheiro, por si só, se faz capaz de corresponder à ilusória onipotência narcísica do sujeito. Através do valor de uso evidenciado no dinheiro, o sujeito esquece a dívida simbólica que o constitui, o que demanda uma mudança radical na sua estrutura devido à transgressão simbólica do papel do dinheiro como meio de troca (BIRMAN, 1993).

No simbólico, assim como no papel social, o dinheiro desliza sobre dois polos distintos, que definem e requerem economias libidinais diferentes. Se embutido do valor de troca, o dinheiro perpassa o reconhecimento do outro e, por conseguinte, o reconhecimento de si; isso o põe como intermediário direto da própria existência do ser. No entanto, enquanto valor de uso, o polo que se enaltece é a falta-a-ter, é o dinheiro que nega a castração que se evidencia (BIRMAN, 1993).

No polo exclusivo do valor de uso, o que está em jogo é o quanto de si o dinheiro pode elucidar, destacando o caráter perverso e narcísico da subjetividade, em que prescinde do outro e não se reconhece pelo que poderia ser, mas pelo que poderia ter. Nesse sentido, se é o caráter perverso e o narcisismo que se tornam onipotentes na aparição do dinheiro absorto de valor de uso, devem-se considerar tais elementos também constituintes do ser até então não abordados diretamente.

A teoria psicanalítica mantém a sexualidade como o centro desde sua gênese, e não seria diferente o entrelace sobre narcisismo e perversão encontrado no valor de uso atribuído ao dinheiro. Freud (1905/1996) nos indica que traços perversos podem ser encontrados não só na estrutura que lhe é designada, mas nas demais, e com alcance permanente durante a vida. Fantasias perversas pré-genitais coexistem nas estruturas psíquicas possíveis, porém, o papel vai se distinguir de acordo com os mecanismos infantis de lidar com a ameaça de castração, aquela implicada no complexo edípico, no qual o mecanismo atuante na estrutura perversa é o da recusa da castração, e, dessa forma, o perverso põe em prática as suas fantasias pré-genitais porque recusou essa condição, enquanto o neurótico não as põe devido a esse empecilho imponente.

É conciso então que, nos valores adotados pelo dinheiro, o sujeito se apresente ora no polo de reconhecimento da dívida simbólica, com a marca da castração, em que o outro existe e se faz essencial no seu campo de reconhecimento, e ora como perverso, na atribuição do valor de uso, negando toda a condição de qualquer necessidade para além de si. No valor de uso, portanto, a característica perversa torna-se bem evidenciada através da utilização dos objetos disponíveis da forma mais intensa, sendo a objetificação a maior característica dessa prevalência perversa. É no valor de uso que o outro, por não apresentar-se como constituinte, é objetificado e o dinheiro passa a promover a supremacia de si em detrimento de qualquer “objeto”. O dinheiro sobrevém denotar uma exploração do outro uma vez que a falta deste não constitui ameaça à própria vida. Nessa atribuição, o que fica em primazia é o gozo.

Da mesma forma, o narcisismo - como uma etapa fundamental do desenvolvimento humano sexual, na qual o indivíduo toma a si mesmo como objeto de amor, sendo as demais formas de laço social derivadas deste (FREUD, 1914/1996) - se tomado às ultimas consequências de ater-se somente a si como objeto sexual, pode ser posto no mesmo patamar das perversões. Nesse sentido, pode-se considerar que, nas relações interpessoais nas quais os indivíduos se empenham na vida em sociedade, há de forma atuante uma regressão aos níveis de narcisismo primário, há sempre uma parcela individualista que leva o humano a se instituir como possuidor de direitos privativos em detrimento das necessidades alheias. O dinheiro, ainda portador do polo exclusivo de valor de uso, aparece como articulador desse narcisismo represado pela presença necessária do outro, servindo à disposição humana de se posicionar frente e anterior a tudo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O sujeito freudiano, da ordem da falta permanente, dos conflitos e das ambivalências, indica que o dinheiro amoeda a própria condição de existência, permeia as instâncias estruturantes do ser. O dinheiro se metamorfoseia nas esferas de maior importância, equiparando aquilo que é necessidade, o que é demanda e o que é desejo; mas ele indica também a ambivalência conflitiva da constituição humana, ao tempo que é advindo da relação de troca e perpassa a ótica do reconhecimento do outro, se atém à emergência da onipotência narcísica e da perversão resguardadas no indivíduo desde as primeiras experiências de vida, fazendo ressurgir a predileção pela causa própria, sem pôr como primazia a dívida simbólica que condiciona a própria existência.

Assim, o dinheiro, como equivalente geral de todas as mercadorias, não pode tomar partido e se ultrajar em apenas uma. Não pode representar uma coisa em si. Então, o lugar do dinheiro na simbologia é a de ser puro significante, em que a linguagem é sua condição; à função sociológica de equivalência geral, exercida pelo dinheiro, responde no sujeito sua função significante.

Gerbase (2015, p. 107-108) assinala que o traço metonímico dos objetos que compõem as equivalências simbólicas de Freud (dinheiro=fezes=bebê=pênis) é que eles são objetos que o sujeito dá ao outro; são presentes. Segundo Freud, tratam-se de objetos que caem do corpo, utilizando a expressão niederkommen, que em alemão significa dar à luz, parir, descer, cair. Lacan (1962-63/2005) os reunirá sob a insígnia do “objeto a3. Se o sujeito dá ao outro algo de si, presenteia-o. O analisando paga as sessões de análise, isto é, ele dá ao analista algo de si além da fala: seu dinheiro. O pagamento em análise implica a perda do narcisismo, onde o analisando paga com o que tem para dar lugar à falta-a-ser.

Na condição de dádiva do sujeito, o dinheiro em uma psicanálise equivale a um objeto pulsional. Dessa forma, no contexto de uma sessão analítica, a abordagem pelo paciente da questão do dinheiro não deve ser escutada pelo analista sociologicamente, como se fosse uma mera relação comercial, mas, sim, como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como o chiste, o ato falho, o esquecimento ou o lapso. A questão do pagamento, intermediada pelo dinheiro, coloca o inconsciente a trabalhar.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Ética a Nicômano. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Os pensadores; 2). [ Links ]

CABAS, A. G. O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. [ Links ]

BIRMAN, J. Sujeito, valor e dívida simbólica: notas introdutórias sobre o dinheiro na metapsicologia freudiana. In: VIEIRA, J. et al. (org.). Na corda bamba - doze estudos sobre a inflação. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993, p. 139-154. [ Links ]

ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 13. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. [ Links ]

FERGUSON, N. A lógica do dinheiro: riqueza e poder no mundo moderno. Rio de Janeiro: Record, 2007. [ Links ]

FREUD, S. A Correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904. Editada por Jeffrey Moussaeff Masson. Rio de Janeiro: Imago, 1986. [ Links ]

FREUD, S. A interpretação dos sonhos II (1900). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 5). [ Links ]

FREUD, S. As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal” (1917). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 17). [ Links ]

FREUD, S. Caráter e erotismo anal (1908). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 9). [ Links ]

FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes (1915). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 16). [ Links ]

FREUD, S. Sobre o início do tratamento: novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I (1913). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12). [ Links ]

FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 15). [ Links ]

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7). [ Links ]

GERBASE, J. A hipótese lacaniana. Salvador: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2011. [ Links ]

GERBASE, J. Atos de fala. Salvador: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2015. [ Links ]

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 5. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. [ Links ]

HUBERMAN, L. História da riqueza do homem. 20. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1936. [ Links ]

LACAN, J. A angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. (O seminário, 10). [ Links ]

LOPES, J. Moeda e bancos: uma introdução. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1942. [ Links ]

MARX, K. Contribuições à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008. [ Links ]

MARX, K. Formaciones económicas precapitalistas. México: Siglo XXI, 1971. [ Links ]

MARX, K. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os economistas, 1). [ Links ]

MARX, K.; ENGELS, F. O manifesto comunista (1848). Rocket Edition, 1999. (Versão para eBooks). Disponível em: Disponível em: http://ebooksbrasil.com . Acesso em: 20 maio 2017. [ Links ]

QUINET, A. As 4 + 1 condições da análise. 12. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar , 2009. [ Links ]

ROBERT, J. A origem do dinheiro. 2. ed. São Paulo: Global, 1989. (Universidade Popular). [ Links ]

SMITH, A. () A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os economistas). [ Links ]

1Segundo Cabas, a noção de sujeito é estranha ao vocabulário freudiano, aparecendo somente uma vez ao longo de sua vasta obra, no texto metapsicológico em que ele discute a pulsão e seus destinos (FREUD, 1915/2004). A noção de sujeito pertenceria, antes, ao vocabulário lacaniano. O sujeito freudiano equivaleria ao desejo inconsciente, cuja base material seria a pulsão e seus circuitos. Cabas assinala que “(...) o sujeito freudiano é um correlato da pulsão, um efeito da satisfação (em tempo: do gozo). Que o lugar do sujeito é congruente com a fonte pulsional. Que sua materialidade é da ordem de um buraco. Que sua substância é da ordem de um furo e que, por tudo isso, o sujeito freudiano é - em última instância - um dos efeitos do real” (CABAS, 2009, p. 73). Foge aos nossos propósitos o aprofundamento dessas questões. Assinalamos tão somente a pulsão enquanto base material do sujeito freudiano.

2 A semelhança comporta-se de duas maneiras: analogia e homologia. “Na semiótica, a homologia é um tipo de relação em que se faz correspondência, no plano do significado, entre dois pares de signos. (...) A homologia é uma relação de não arbitrariedade, estabelecida entre signos linguísticos sempre que duas estruturas [análogas] se correspondem” (GERBASE, 2011, p. 58-59).

3 O objeto a extraído do corpo e projetado ao campo do Outro funda o campo da realidade para o sujeito, a partir da constituição da fantasia ($ <> a), causando-lhe a falta e, portanto, a metonímia do desejo. A fórmula lacaniana da fantasia nos mostra que sujeito e objeto não podem coexistir no mesmo espaço, já que, diante do objeto, o sujeito desvanece.

Recebido: 29 de Maio de 2017; Aceito: 29 de Outubro de 2017

Lillian Nathalie Oliveira da Silva Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristovão/SE, Brasil. lillian_nat@hotmail.com

Rogério da Silva Paes Henriques - Professor Associado do Departamento de Psicologia, Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão/SE, Brasil. ruggerosph@gmail.com

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons