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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.23 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2020  Epub Jan 24, 2020

http://dx.doi.org/10.1590/1809-44142020001005 

Artigo

CONTRIBUIÇÕES DE RENÉ KAËS PARA A EPISTEMOLOGIA DA PSICANÁLISE

Contributions of René Kaës to the epistemology of psychoanalysis

Fernando da Silveira1 
http://orcid.org/0000-0002-5149-2338

Maria Inês Assumpção Fernandes2 
http://orcid.org/0000-0001-5221-8691

Georges Gaillard3 
http://orcid.org/0000-0002-6072-7565

1Universidade Peresbiteriana Mackenzie(UPM), Professor do Curso de Psicologia, São Paulo/SP, Brasil.

2Universidade de São Paulo(USP), Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Social, São Paulo/SP, Brasil.

3Universidade Lumière Lyon 2, Professor com Habilitation a Diriger des Recherches (HDR) e membro do Centro de Pesquisa em Psicopatologia e Psicologia Clínica (CRPPC), Lyon, França.


RESUMO:

O objetivo deste artigo é discutir os efeitos das alianças inconscientes na restrição à extensão da psicanálise no que se refere à construção do conhecimento psicanalítico sobre os grupos. Cinquenta e cinco textos publicados na Revista Brasileira de Psicanálise RBP, entre 1967 e 1976, foram analisados a partir do referencial teórico-metodológico proposto por René Kaës. Numa breve reconstrução histórica, operou-se com o conceito de alianças inconscientes com o propósito de investigar as bases narcísicas presentes desde as origens da psicanálise; que restringiram a capacidade de pensar o grupo no campo da psicanálise. Benefícios narcísicos foram extraídos destas resistências que ainda hoje dificultam a extensão da psicanálise no que diz respeito à inclusão do grupo como objeto teórico.

Palavras-chave: movimento psicanalítico brasileiro; alianças inconscientes; alianças narcísicas - grupo

Abstract:

Contributions of René Kaës to the epistemology of psychoanalysis. The objective of this article is to discuss the effects of the unconscious alliances on extension of psychoanalysis. 55 texts published in the Revista Brasileira de Psicanálise between 1967 and 1976 were analyzed under the theoretical framework of René Kaës. A brief historical reconstruction with the concept of unconscious alliances in order to investigate the narcissistic bases present since the origins of psychoanalysis; that restricted the capacity to think in the group in the field of psychoanalysis. Narcissistic benefits were extracted of this resistance, that still today difficult the extension of the psychoanalysis for the inclusion of the group as a theoretical object.

Keywords: the Brazilian analytical movement; unconscious alliances; narcissistic alliances - group

Segundo Kaës (2015), a resistência ao estudo dos grupos no movimento psicanalítico pode ser o ponto de partida de uma pesquisa sobre as instituições psicanalíticas. O grupo indaga sobre as fronteiras da psicanálise em relação à sua extensão para bases diferentes das tradicionalmente estabelecidas por Freud. Utilizando-se como referencial teórico a psicanálise proposta por René Kaës (2015), o objetivo deste artigo é colocar em evidência a relação entre as alianças inconscientes e a capacidade de produção do conhecimento no movimento psicanalítico durante o período de consolidação das instituições psicanalíticas brasileiras.

Em uma pesquisa realizada na Revista Brasileira de Psicanálise RBP, (SILVEIRA, 2007), foi constatado que psicanalistas pioneiros do movimento psicanalítico brasileiro publicaram diversos artigos sobre trabalhos clínicos com grupos entre 1967 e 1970. No entanto, estes artigos deixaram de ser publicados no início dos anos 1970. Neste mesmo período estudado, diversos artigos da RBP discutiam as crises institucionais nas sociedades psicanalíticas.

Este artigo apresenta alguns resultados de um estudo (SILVEIRA, 2016) realizado em cinquenta e cinco textos sobre grupos e o movimento psicanalítico, incluindo a discussão de suas crises, publicados na RBP entre 1967 e 1976. O referencial teórico de Kaës foi utilizado para uma reconstrução das origens da psicanálise em Freud, onde foram identificadas alianças inconscientes que estiveram presentes nas bases da sua institucionalização. A partir desta reconstrução, foram identificados, nos textos da RBP, os efeitos alienantes das alianças inconscientes que contribuíram para a restrição da liberdade de construção do conhecimento sobre o grupo em um trabalho de interpretação dos textos selecionados.

A hipótese deste artigo é a de que as alianças inconscientes formaram uma base intersubjetiva de resistência institucional à construção do conhecimento cientifico; no caso especifico deste trabalho, à construção do conhecimento psicanalítico sobre os grupos. As alianças inconscientes, na sua vertente estruturante, podem dar suporte aos processos secundários, e simultaneamente, sob o predomínio de sua vertente alienante, formam um importante obstáculo ao processo de pensamento. O resultado esperado deste trabalho é apontar para possíveis contribuições que a teoria de René Kaës, e seu entendimento sobre a constituição do sujeito nos vínculos intersubjetivos, pode trazer para o campo da epistemologia. Elucidar as alianças inconscientes formadas ao longo da história pode ajudar a analisar, no presente, as resistências que ainda existem e que dificultam a extensão da psicanálise.

PSICANÁLISE E EPISTEMOLOGIA

Bachelard, em A formação do espírito cientifico: contribuições para uma psicanálise do conhecimento (1996), discute a importância das forças psíquicas no processo de construção do conhecimento científico. Sua preocupação volta-se para o estudo da mente do pesquisador. Autores contemporâneos, como Habermas (2012) e Gadamer (1997), destacam não apenas o trabalho individual, mas também o caráter intersubjetivo e, portanto, grupal e institucional da produção do conhecimento científico. Para a maioria destes autores a referência psicanalítica é a psicanálise clássica; fundada por Freud, ela diz respeito, prioritariamente, ao estudo do espaço intrapsíquico. Kaës (2015) nomeia esta psicanálise como de primeiro tipo e propõe que a de segundo tipo, elaborada por autores como Winnicott e Green, amplia a psicanálise para a compreensão da dimensão intersubjetiva do psiquismo. A partir da pesquisa clínica sobre os grupos, Kaës (2015) propõe um novo paradigma para a psicanálise, formulando uma psicanálise de terceiro tipo.

Este artigo pretende seguir pelo caminho aberto por Kaës, estendendo a psicanálise do terceiro tipo para o estudo das instituições científicas e dos grupos que as consolidam ou constituem. Mais especificamente, compreender como a dimensão inconsciente da vida institucional está ligada às resistências à extensão da psicanálise, durante o período de institucionalização do movimento psicanalítico brasileiro, entre 1967 e 1976.

Uma perspectiva psicanalítica do terceiro tipo nos leva a considerar que a produção da racionalidade no movimento psicanalítico é atravessada pelo que se produz e se transmite pelo inconsciente em suas instituições. A lógica dos processos secundários é, portanto, assentada nos processos primários. A vida psíquica inconsciente, a pulsionalidade e o registro fantasmático permeiam toda a produção dos sujeitos, individualmente e nas suas aparelhagens grupais e institucionais da vida em comum.

SOBRE A METAPSICOLOGIA DO TERCEIRO TIPO PROPOSTA POR RENÉ KAËS

As alianças inconscientes (KAËS, 2014) estão na base da formação do inconsciente, vinculando cada sujeito singular ao grupo através de contratos, pactos e leis inconscientes. Formam os apoios metapsíquicos da vida intrapsíquica de cada sujeito singular e das relações intersubjetivas inconscientes nas instituições. Ao mesmo tempo em que as alianças inconscientes são fiadoras da vida psíquica, estruturando as relações inconscientes de um grupo e de cada sujeito no grupo e com o grupo, são também organizações defensivas que implicam sintomas compartilhados.

O contrato narcísico (AULAGNIER, 1975) é a principal aliança estruturante. Dela, podem derivar alianças patogênicas. Toda configuração psíquica corre sempre o risco de regredir e de se fechar. O contrato narcísico designa, segundo Aulagnier, o modo como o investimento do grupo no sujeito é assegurado, na medida em que ele perpetua o narcisismo grupal. Este contrato vincula, portanto, a criança e o grupo social, através do Outro maternal, em sua própria alteridade e em sua ligação com o grupo.

O “contrato narcísico” designa o espaço psíquico de articulação entre a antecipação dos pais e a antecipação social, como pré-investimento, onde o sujeito irá se inscrever; onde também está a questão do idêntico da reprodução esperada que justifica o nome “narcísico” do “contrato”. Se há um contrato, é também uma função do “terceiro” do corpo social que está envolvido “a relação entre o casal parental e a criança sempre carrega o traço da relação do casal com o meio social em torno dele”. (AULAGNIER, 1975, p. 183).1

Se o sujeito se abrir, então, à alteridade na relação com um outro, pode, também se fechar com o Outro em um pacto, sem um terceiro. Kaës (2014) propôs designar esta modalidade de acordo como pacto narcísico.

A contraface de todo contrato narcísico é o pacto denegativo, formado pela comunidade de renúncia à satisfação imediata dos impulsos ameaçadores da vida em conjunto: certos elementos devem ser denegados para que o vínculo possa ser preservado. As alianças inconscientes, como expressão dessa negatividade, ancoram-se nas estruturas de organização, nas instituições e no social.

Quanto mais rígidas e defensivas as alianças, menores as possibilidades de acesso ao denegado, menor a capacidade de se pensar em grupo e, este, mais próximo estará de um pacto narcísico.

POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA METAPSICOLOGIA DE RENÉ KAËS PARA A EPISTEMOLOGIA DE PSICANÁLISE

Uma peculiaridade do movimento psicanalítico é a de que psicanalistas e suas instituições produzem racionalidade sobre o psiquismo humano. Mezan (1996) nos lembra que a psicanálise construiu racionalidade sobre aquilo que parecia não ter sentido; e, para Green (1988), a análise do objeto psíquico nos coloca frente a uma dificuldade adicional em relação aos objetos do mundo físico, pois o “sem sentido” dos objetos humanos tem, também, um componente de resistência ativa ao processo do seu desvendamento.

A partir das contribuições de Kaës, ampliamos esta visão, entendendo que as “resistências ativas” não são somente as resistências dos sujeitos singulares, conforme Freud (1925/1980) já havia proposto, e muitos autores, do campo da epistemologia, nessa compreensão se apoiaram. São, também, resistências contraídas nos agrupamentos dos quais estes pesquisadores são parte. Assim, na construção do conhecimento científico, simultaneamente às resistências singulares, estão em jogo as resistências contraídas nas alianças inconscientes que vinculam cada psicanalista às instituições psicanalíticas.

Apoiado em Bachelard, Kaës, assim como outros teóricos, diferencia os obstáculos epistemológicos dos obstáculos epistemofilicos:

Os primeiros estão ligados a problemas da consciência, objetiváveis pelo funcionamento da razão: eles se manifestam diante do questionamento dos conhecimentos já definidos pelas novas descobertas. Os segundos revelam obstáculos constituídos pelas representações inconscientes e os investimentos pulsionais e afetivos associados aos objetos da consciência. (KAËS, 2015).2

A tradicional resistência do movimento psicanalítico à extensão da psicanálise para condições distintas da clínica dual estabelecida por Freud é fruto, segundo Kaës (2015), de obstáculos epistemofílicos.

Do ponto de vista epistemológico, a concepção teórica de sujeito em Freud não se restringiu à individualidade. Em 1914, Freud afirma que “O indivíduo tem de fato uma dupla existência, como fim em si mesmo e como elo de uma corrente, à qual serve contra - ou, de todo modo, sem - a sua vontade (FREUD, 1914/1980, p. 20). Em seu trabalho de 1921, Freud (FREUD, 1921/1980, p. 91) sinalizou a falsa oposição entre a psicologia do indivíduo e a das massas.

No entanto, o estudo da dimensão inconsciente do sujeito no vínculo permaneceu sintomaticamente denegado no movimento psicanalítico, ao longo de muitos anos. Produzir racionalidade sobre o inconsciente não implica necessariamente autoanálise e nem imuniza o pesquisador e suas instituições dos efeitos daquilo que estudam. É necessário realizar um trabalho de análise sobre estas resistências para que os efeitos alienantes do inconsciente sejam desvelados.

O caráter extensivo do objeto da psicanálise o inconsciente, nas suas dimensões intersubjetiva e transubjetiva coloca o psicanalista a indagar sobre quais são os suportes metapsíquicos que sustentam a construção de uma racionalidade sobre o inconsciente. O psicanalista é convocado a se pensar como um sujeito do grupo, em que, ao mesmo tempo em que realiza uma série de renúncias, dela extrai benefícios narcísico-identitários.

Os objetos com os quais a psicanálise lida são elementos psíquicos potencialmente “tóxicos”. Numa concepção freudiana, a psique é “talhada” pela recusa do outro e pela paixão “desdiferenciadora” (assassinato e incesto). Essa pulsionalidade bruta e potencialmente tóxica que constitui o fundamento da psique é a mesma que levará Freud a enunciar sua famosa fórmula “Wo Es war, soll Ich werden” “Onde estava o Id, ali estará o ego” (FREUD, 1933[1932]/1980). As instituições psicanalíticas têm seus bolsões clivados que servem como depósito do negativo, onde são depositados estes elementos tóxicos. Estes bolsões servem de defesa contra a intoxicação da organização pelos elementos não metabolizados (ROUSSILLON, 1989).

Neste artigo, analisaremos alguns destes elementos narcísico-identitários e que estão associados às origens do movimento analítico. Toda fundação da instituição, todo vínculo institucional, joga de acordo com um “criar-se contra”. A construção identitária dos grupos e o investimento narcísico a ela inerente forçam os grupos a se constituírem enfatizando uma diferença e, como decorrência, uma oposição em relação ao “fora dele”. Essa ênfase sobre a diferença os levará a esquecer, secundariamente, que esse movimento contém, em si mesmo, as identificações que serão, então, “postas em negativo”.

O movimento psicanalítico é o veículo de transmissão, de conservação, de transformação desses elementos “postos em negativo”, desde as suas origens. Justifica-se, portanto, um trabalho de análise da formação das instituições psicanalíticas como modo de contribuir para a ampliação da capacidade de pensamento a que estas instituições dão (ou não) suporte.

SOBRE A ORIGEM DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO

A história mostra que a produção de uma racionalidade sobre o funcionamento psíquico não fez com que as sociedades de psicanalistas fossem mais racionais do que outras sociedades científicas. As crises entre psicanalistas, cuja consequência é o comprometimento da capacidade de construir e transmitir o conhecimento psicanalítico, foram, desde Freud, objeto de discussão. Em um artigo publicado na RBP, Van der Leeuw (1968) discute sua experiência como presidente da International Psychoanalysis Association IPA quando visitou, nos anos 1960, inúmeras sociedades psicanalíticas no mundo inteiro. Chamaram sua atenção as crises de relacionamento entre psicanalistas que, segundo ele, adquirem cores locais para problemas idênticos. Nos artigos da RBP revisados, apesar das crises serem descritas como de relacionamentos, as análises destas ficaram predominantemente circunscritas a problemas individuais (SILVEIRA, 2016). A análise dos aspectos vinculares das crises (SILVEIRA, 2016) foi sintomaticamente denegada nestes artigos revisados, o que nos levou a uma interpretação deste fenômeno como resistência e nos remeteu às alianças inconscientes construídas desde as origens do movimento psicanalítico, com Freud.

Kaës (1994) entende que a psicanálise foi inventada em dois lugares antagônicos e complementares: na situação da clínica psicanalítica, sob o paradigma da cura; e na experiência grupal entre os psicanalistas que se reúnem em torno de Freud. Consideramos também, neste artigo, um terceiro lugar: a mente de Freud, no seu processo de autoanálise. Disciplinado sob os mais rigorosos moldes do positivismo, Freud demarcou a separação entre o sujeito e seu objeto de estudo de um modo bastante peculiar, nos primórdios da psicanálise. Autoconhecimento e a produção de uma racionalidade sobre o funcionamento mental caminharam inicialmente juntos numa única pessoa. Parafraseando Bleger (1993), Freud sofria do mesmo mal que pretendia curar: era, ao mesmo tempo, o sujeito do estudo e seu próprio objeto. Sua obra é a encarnação da finalidade epistemológica peculiar da psicanálise, que deve explicar o funcionamento da psique a partir de si mesma. Este processo é sempre infiltrado pela parte irredutível da história do sujeito e de seu grupo de origem, desencriptando seu mundo a partir de sua própria constituição.

Freud publicou em 1900 A interpretação dos sonhos, examinando seus próprios sonhos sob a objetividade de um rigoroso método de investigação; dentre eles, Injeção de Irma, segundo Anzieu (1975), o sonho princeps da psicanálise. Sob esse método rigoroso de investigação, Freud abriu caminho frente às suas próprias resistências para revelar o que elas ocultavam: seus desejos edípicos incestuosos e parricidas.

Green (1988)nos lembra de outro desejo presente nesse sonho: a placa comemorativa das descobertas sobre os segredos da vida onírica lembraria aos transeuntes futuros os feitos de Freud. Green vê na equação Freud/psicanálise o desejo narcísico que a placa nos revela: a imortalidade a partir de sua obra. As falhas inerentes à constituição psíquica, a partir das quais foi constituído o narcisismo de Freud, são um pilar central no processo de criação da psicanálise, ao mesmo tempo em que dão sustentação às alianças inconscientes que formam as bases do processo de sua institucionalização.

Quando publica seu trabalho, ao mesmo tempo em que sofre diversos ataques, Freud expõe sua intimidade, revelando ao mundo a chave de interpretação dos seus próprios sonhos, esquecimentos e lapsos mas, também, abrindo as portas de um mundo esquecido por ele e por todos nós: nosso mundo intrapsíquico. Pela necessidade de garantir o rigor de suas investigações, delimita o estudo do intrapsíquico como seu objeto de estudo (KAËS, 2011). Mantém o interesse nos agrupamentos humanos e teoriza sobre o caráter extensivo do psiquismo; no entanto, sua autoanálise e seu divã são seus grandes laboratórios. Freud nunca utilizou o grupo como um dispositivo metodológico.

Nos primeiros anos, trabalhou solitariamente, contando com alguns poucos, mas fundamentais, interlocutores com os quais manteve relação conturbada: Breuer e Fliess. Para criar uma nova disciplina, foi necessário transformar um “saber sobre si” e um “saber sobre as histéricas” em um modelo heurístico do funcionamento mental. Os limites à difusão do seu trabalho, impostos pelo isolamento, obrigaram Freud a criar também um campo coletivo de trabalho e buscar apoio em outros semelhantes (KAËS, 1994). Assim, Freud reuniu em torno de si um pequeno grupo encarregado de difundir a sua nova disciplina e, para tanto, este grupo teve que fazer frente às resistências que mantinham fechadas as catacumbas do inconsciente, enfrentando a hostilidade provocada pela subversão proposta pela psicanálise, apoiada na ideia do primado do sexual.

Nesta organização, foi construído coletivamente um aparelho intersubjetivo3 no qual são colocadas as figuras grupais de ideais ideal do ego, eu ideal, superego , aparelhagem sustentada centralmente na figura de Freud. Defender a psicanálise é, também, defender Freud; assim, para qualquer assunto, os objetos de pesquisa da psicanálise encontram nele o pilar de sustentação. O fundador é confundido com seu objeto, portanto, o fracasso de um implica necessariamente no colapso do outro (KAËS, 1994). O trabalho de se pensar em grupo está atrelado às lealdades contraídas com Freud e constitutivas dessas figuras idealizadas que o grupo tentará encarnar. Discordar de Freud pode desembocar na traição, como aconteceu com Jung e tantos outros.

Ao discutir a expansão da psicanálise, Freud reconhece os seus limites em relação à “enorme quantidade de miséria neurótica” (FREUD, 1918/1980, p. 209), afirmando que “a quantidade que podemos resolver é quase desprezível” (idem). No entanto, a expansão ameaça sua pureza: “É muito provável, também, que a aplicação em larga escala de nossa terapia nos force a fundir o ouro puro da análise livre com o cobre da sugestão direta” (FREUD, 1918/1980, p. 211). A popularização da psicanálise, incluindo o trabalho com grupos, ameaça descaracterizar o ouro puro do trabalho de Freud, prevalecendo, na história do movimento psicanalítico, a “(...) preservação da identidade da psicanálise, das instituições da psicanálise e da ortodoxia das teorias que ela fundou (...)” (KAËS, 2011, p. 25). No entanto, isso deixará marcas profundas nas estruturas psicanalíticas de organização.

Na purificação do objeto psicanálise, sua pretensão científica é confundida com o ideal do grupo de fundadores. Sob a sombra do narcisismo de Freud, o grupo é paradoxalmente o suporte de transmissão da psicanálise e um objeto de estudo a ser denegado no movimento psicanalítico, desde a sua fundação. As alianças inconscientes contraídas na fundação da psicanálise preservam a indissociação Freud/psicanálise e, com isto, a imortalidade de Freud através da perpetuação do seu ouro puro. Enquanto preservam Freud, os herdeiros, pelo pedigree, desfrutam dos benefícios dessa herança.

A terceira ferida narcísica à humanidade causada pela psicanálise, ao nos mostrar que o inconsciente nos mostra que “não somos senhores de nossa própria morada”, foi construída sobre a denegação de uma quarta ferida narcísica, a de que este mundo intrapsíquico “[...] que o mantém na sua própria identidade e que compõe o seu inconsciente, não lhe pertence propriamente mas às instituições sobre as quais se apoia e que se mantém por esse apoio” (KAËS, 1991, p. 23). As bases narcísicas destas alianças são protegidas pela impossibilidade em se pensar no grupo, ao custo da capacidade de se pensar em grupo (SILVEIRA, 2016).

SOBRE A RESISTÊNCIA DAS SOCIEDADES BRASILEIRAS DE PSICANÁLISE AO ESTUDO DOS GRUPOS NO INÍCIO DOS ANOS 1970

O período entre 1967 e 1976 é um momento socialmente conturbado. O início dos anos 1970 é o período mais sangrento da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Neste contexto, as sociedades psicanalíticas brasileiras buscam manter uma posição de neutralidade política sob o argumento de serem organizações científicas. Este é, também, um período de expansão do mercado “psi” e diversas práticas alternativas passam a concorrer com as sociedades filiadas à IPA que controlavam grande parte deste mercado, até então. Trata-se de um período de consolidação das instituições psicanalíticas e de transição entre a geração dos pioneiros e a chegada das segundas e terceiras gerações (OLIVEIRA, 2006).

Para preservar as instituições psicanalíticas das ameaças externas e internas, foi necessário estabelecer mais claramente os limites entre o dentro e o fora. Pela legitimidade científica das práticas, contra a impureza das análises selvagens, as normas das sociedades brasileiras passam cada vez mais a seguir o rígido padrão imposto pela IPA. Estabelecer a verdadeira psicanálise legitimaria uma ortodoxia e as excomunhões que a acompanham. Nesta busca, as impurezas deveriam ser removidas para preservar o ouro puro.

A partir de 1970, as fronteiras da psicanálise delimitaram-se cada vez mais em torno do estudo do intrapsíquico, acessado pelo divã, nos consultórios particulares. Trabalhos com grupos realizados pelos pioneiros da institucionalização da psicanálise no Brasil ficaram de “fora” do movimento analítico por não serem legitimados como verdadeiramente psicanalíticos. Eram pejorativamente chamados de “psicanálise dos pobres” (SILVEIRA, 2016).

Na ausência de Freud, definir a verdadeira psicanálise remete à questão: quem pode falar em nome da psicanálise? Há, nesses períodos de passagem entre os fundadores e as gerações seguintes, uma verdadeira “crise genealógica” (GAILLARD, 2008), que é uma crise de legitimidade. Essas passagens confrontam as instituições e os sujeitos com uma ameaça de fragmentação da referência. Essa situação coloca o problema dos legados e filiações que, para os psicanalistas, é a filiação ao divã, trazendo à tona os nós transferenciais e as paixões que nele se desenvolvem.

O TRECHO DE UM ARTIGO PUBLICADO EM 1972 NA RBP É TOMADO COMO UM ANALISADOR DESTE MOMENTO:

Paciente do sexo feminino, com 26 anos, solteira, vivia com sua irmã, depois de perder os pais. Fora abandonada pelo irmão solteiro e pelo amante que lhe deixara um filho e que diz ter sido obrigada a entregá-lo a pessoa desconhecida. No momento em que a paciente entra na sala de sessões, pelas janelas ouvem-se sons denotando passagens ininterruptas de ambulâncias, viaturas da polícia e do Corpo de Bombeiros.

P - O senhor não sabe do incêndio?

Silêncio

P É homem indiferente a tudo e a todos!

Silêncio

P O fogo parece que começou perto do “elevador”. Tive medo, pois lá trabalha minha irmã. Não posso imaginá-la no meio do fogo. Creio que ela não saberia o que fazer e como dele se defender. Esse medo passou quando ela me telefonou. O incêndio não foi perto da casa em que trabalha. Ainda bem... Foi na Avenida São João.4

Silêncio

A - Parece alheia ao fogo que está dentro de si. Deixa-se queimar, não sabendo como lutar contra sua própria destruição. Vem me pedir ajuda.

Durante toda a sessão, continuavam os ruídos das viaturas e suas sirenas. Logo na entrada da paciente senti receio pela notícia. A angústia me invadiu. Os três períodos de silêncio foram dolorosos para mim. Pensava nos meus. No decorrer da sessão, a paciente transmitiu-me, no material que apresentava, o local do incêndio. Pela sua descrição fiz uma localização, evidentemente fantasiosa, onde deveriam estar os meus. Acalmei-me para continuar o meu trabalho fazendo negação da realidade externa. Procurei me manter aparentemente calmo, para não contaminar o ambiente de trabalho. Pura aparência, pois devia estar perturbado, uma vez que não consigo lembrar-me dos pormenores da sessão, que seriam úteis para esta ilustração. Poder-se-ia dizer que a angústia do analista seria decorrente de incêndio existente dentro dele. A paciente levou para a situação analítica uma realidade social. Embora a análise transferencial seja intersubjetiva, no dizer de Fluornoy), com dificuldades o analista procurou efetuar a cisão que foi evidentemente falha, uma vez que realizou uma versão individual no material que recebeu de seu paciente. A versão do analista decorreu de episódio anterior quando, no leito com a esposa, ambos febris, na vigência de processo grupal, reagira com muita intensidade emocional ao desinteresse dos seus nessa oportunidade. (CAPISANO; KOCH, 1972, p. 351-352).

Analisado sob o ponto de vista daquilo que se passa na sessão, notamos a aparente indiferença do psicanalista frente à realidade social, enquanto essa insiste em invadir a sala pelo barulho e pela fala do paciente. Para sustentar seu lugar, o analista deveria cindir em relação à realidade social para evitar a contaminação do ambiente de trabalho pois o recorte da verdadeira psicanálise é a realidade psíquica. O fogo que importa é o “intrapsíquico”, que queima no interior do paciente. Ou, como o discutido pelos autores, o que queimou na mente do analista resultando em atuação contratransferencial pois ele não deu conta de suas perturbações mentais advindas de estímulos que reanimaram seus fantasmas. O analista não conseguiu cindir em relação ao que se passava fora do setting e sustentar sua neutralidade quando foi confrontado com o incêndio da rua que deveria ser posto em negativo.

Esta cisão também pode ser vista como uma metáfora em relação à posição que se pretendia no seio das sociedades de psicanálise em relação ao fora da realidade social. Ao mesmo tempo em que há um esforço em restringir o interesse da psicanálise ao que se passa no intrapsíquico analisado no interior dos consultórios, o silenciamento em relação ao fogo que queima durante os anos de chumbo não evita que a violência daquilo que é denegado ameace o lado de dentro do movimento psicanalítico. O fora, como negativo, abarca uma amplitude de fenômenos grupais, institucionais, sociais, dentre outros, que não podem ser pensados a partir de uma perspectiva psicanalítica.

Como aquilo que foi posto de fora insiste em retornar, é preciso dar lugar a isso e exercer um trabalho de pensamento sobre o que foi denegado. O tema do IX Congresso Latino-americano de Psicanálise, realizado em 1972, é Incidência da realidade social no trabalho psicanalítico. Em 1973, no IV Congresso Brasileiro de Psicanálise, o tema é o conflito de gerações, quando são discutidas as crises na transmissão da psicanálise. Em 1974, o tema do X Congresso Latino-americano é Identificação e identidade na cultura atual. Todos estes temas servem como trampolim para discussões sobre as crises internas nas sociedades psicanalíticas, fartamente publicadas nos relatórios dos congressos.

Posicionando-se como organizações científicas apolíticas, a SBPSP e a SPRJ negam-se a oferecer ajuda a psicanalistas presos pelo regime totalitário. Assumir uma posição seria aderir a uma ideologia política, contrariando, assim, uma pretensa neutralidade da ciência psicanalítica. Apesar da posição oficial apolítica das sociedades psicanalíticas brasileiras, diversos psicanalistas engajaram-se politicamente e fomentaram discussões ideológicas, tanto os apoiadores como os opositores ao regime militar. Uma evidência da divisão de posições políticas entre psicanalistas é observada no Rio de Janeiro com o “Caso Amilcar Lobo” (VIANNA, 1994).

Teóricos da escola de Frankfurt já haviam chamado a atenção para os riscos da instrumentalização da ciência durante o nazismo. Nas construções organizacionais, os sujeitos produzirão ideologia, mesmo que ela seja mascarada pela reivindicação de uma posição a-política. Não podemos nos esquecer que qualquer lugar no mundo é, em si, um lugar na polis e, portanto, um lugar que vem do político. O psicanalista ocupa um lugar social, inclusive em relação às classes, e a clientela testemunha a sua participação na estrutura social.

O fechamento das sociedades psicanalíticas denota uma posição defensiva frente à ameaça do mundo exterior em um pacto narcísico que recusa a existência de um terceiro, ou seja, o meio social que os envolve.

Outro tema de interesse é o conflito entre gerações devido às crises desencadeadas pela chegada da nova geração ao poder no início dos anos 1970 (OLIVEIRA, 2006). Sob a desconfiança de legitimidade de uma produção local, prevalece no Brasil a reprodução de trabalhos importados, principalmente da Inglaterra. Estes trabalhos são transmitidos pela formação de escolas organizadas em torno de nomes daqueles que são considerados, pela IPA, como legítimos herdeiros da linhagem direta ligada a Freud, principalmente Klein e Bion.

O contrato narcísico implica na presença de um terceiro e, na sua ausência, observamos a exacerbação do caráter narcísico de reprodução do mesmo. Prevalecem as alianças narcísicas alienantes contraídas com Freud e conservadas ao longo da transmissão entre as gerações, reconfiguradas nos termos da verdadeira psicanálise. A fidalguia, o pedigree, é artigo de luxo, cada vez mais fetichizado e se torna, por sua vez, mais caro. Pertencer a uma escola de linhagem pura, ser descendente de Freud, é sinal de grande valor. Uma nova aristocracia é, portanto, construída; as filiações são estabelecidas pela segregação financeira que permite a possibilidade de aceder a essa experiência. O trabalho psicanalítico, enquanto aquele que permite a um sujeito reconhecer-se como dependente do outro, como “não sendo senhor de sua própria morada”, como forjado por uma pulsionalidade incestuosa e assassina retorna com um bônus narcísico que tal experiência de filiação a um grupo propicia ao sujeito. Sob a lógica de uma aliança alienante, a cisão com a realidade social tem o seu preço: um ano de análise com um analista didata de renome é comparado ao valor da compra de uma casa (OLIVEIRA, 2006). Desta forma, os verdadeiros herdeiros de Freud, durante os anos de chumbo, tomam para si os benefícios desta aliança narcísica, convertendo o ouro puro da psicanálise em dinheiro, ao mesmo tempo em que qualquer trabalho de criação é deslegitimado.

Toda instituição é fundada sobre a questão do poder e terá que se articular em torno de uma mesma tarefa primária: assim que as dinâmicas do poder estão em jogo, as do limite e da castração também começam a se manifestar. “Mais vale o poder que beijar”5 a crueza desta fórmula permite introduzir o movimento pelo qual a tentação incestuosa e arcaica é revitalizada através da dinâmica de possessão imaginária do corpo grupal e do corpo institucional. Em sua concisão, ela testemunha a maneira como, para o eu, o poder pode ser substituído e ser confundido com o desejo. Se, de fato, o desejo funda o sujeito, expondo-o aos riscos da alteridade; o poder, em sua tentação extrema, é um espelho narcísico tenso, onde qualquer alteridade pode desmoronar. As cenas institucionais são constituídas por muitos espaços onde se manifestam essas paixões de domínio, essas vertigens onde o sujeito vê a multiplicação de seu poder de agir, e seu triunfo fálico através do poder performativo da sua palavra (AUSTIN, 1990).

O analista sem memória e sem desejo de Bion6 justifica a neutralidade do setting analítico, fundamentando o “splitting” (CAPISANO; KOCH, 1972), ou “clivagem” (BICUDO, 1972) do setting analítico em relação ao social. O estudo do social fica sob domínio da sociologia. Esvazia-se o grupo como espaço psíquico intermediário entre o intrapsíquico e o intersubjetivo. A clivagem indivíduo e sociedade retoma a dicotomia entre o sociologismo e o psicologismo, que estão nas bases de fundação da psicologia moderna (FARR, 2004).

O espaço psíquico do grupo e dos vínculos como um negativo para a psicanálise cumpre a função de resistência, preservando e sustentando os vínculos alienantes e as estruturas de poder das sociedades psicanalíticas brasileiras. O narcisismo das pequenas diferenças sustenta a coesão de pequenos grupos, protegendo os analistas reunidos em torno dos analistas didatas “medalhões”. Figuras constantes nas sociedades e institutos, idolatrados por uns, os “medalhões”, que são alguns analistas didatas mais experientes, são também criticados pelos efeitos nocivos de seu narcisismo nas relações interpessoais.

A infantilização dos analistas frente à figura dos “medalhões”é um analisador das alianças inconscientes herdadas de Freud. Para Van Der Leeuw, um ponto a ser analisado sobre a infantilização é a relação de cada psicanalista com o trabalho de Freud:

Desde o primeiro encontro com a psicanálise, queiramos ou não, estabelecemos uma relação que nos envolve emocionalmente com o grande homem. O fato de ele estar morto não faz muita diferença. Esta relação emocional não é, como se diz frequentemente, uma criação de Freud, mas nossa própria resposta, que expressa, entre outras coisas, o desejo e a necessidade de segurança inabalável, a incapacidade de ficarmos sós e de sermos independentes. A fim de sentirmo-nos familiarizados e à vontade com o trabalho de Freud, torna-se necessário aceitarmos nossa ambivalência com ele, a fim de podermos manobrá-la. Admitindo nosso ciúme, rivalidade e sentimentos feridos, nossas fantasias e sentimentos de grandeza alternados com os de impotência, estaremos contribuindo para este objetivo. (VAN DER LEEUW, 1968, p. 289-290).

A relação de cada analista com Freud é entendida como uma relação dual. Nesta situação paradigmática da clínica psicanalítica, observa-se uma repetição da relação infantil de rivalidade edípica do filho com seu pai e todas as ambivalências decorrentes desta relação. Cada analista passa pelo mesmo caminho que Freud precisou passar, precisa elaborar a rivalidade com o pai, elaborada por Freud em sua autoanálise, para que possa tornar-se psicanalista. Logo, uma relação transferencial de idealização sobre Freud impede o entendimento do seu trabalho.

O espírito científico de liberdade de pensamento e questionamento ao trabalho de Freud é controlado por uma interpretação psicologizante, onde a inveja ao falo freudiano é uma fonte de ataques destrutivos ao autor e a sua obra. Novas proposições serão ameaçadoras sob o risco de serem tomadas como críticas destrutivas, de rivalidade, de inveja, tentativa de posse e usurpação do trabalho de Freud.

Em um pacto narcísico, como é possível a dissolução do complexo de Édipo, frente a um pai imortal, que não está submetido à Lei universal de Ananké? Para Leeuw, psicanálise e trabalho de Freud são sinônimos. Ao enfatizar as renúncias necessárias às novas gerações, não elucida os ganhos narcísicos advindos da renúncia. Para sair de uma posição de dependência infantil e assumir responsabilidade de uma vida adulta, é necessário renunciar ao desejo de tomar o lugar do pai, mas, também, é fundamental que o contrato narcísico garanta às novas gerações os ganhos narcísicos, como a possibilidade de tomar posse da herança, afirmar-se como uma nova geração, ser autorizado e, quem sabe, admirado pelo pai, por desenvolver seu trabalho, e transmiti-lo para uma nova geração que dará continuidade aos processos de manutenção/transformação. A imortalidade do pai impede que o luto seja realizado e a temporalidade seja instaurada nos termos da sucessão entre as gerações. Limita a vida de cada nova geração à reprodução da herança, caso contrário será acusada de apropriação indevida, neste caso, da psicanálise/trabalho de Freud.

Van der Leew conclui que a solução apontada para as crises nas sociedades de psicanálise é a necessidade de ampliação das análises didáticas e a reanálise (SILVEIRA, 2016). Deste modo, analistas didatas tomaram para si benefícios das crises de relacionamento, fazendo aquilo que sabiam fazer: analisar a infantilização de cada psicanalista individualmente. Os poucos analistas didatas habilitados durante este período tinham para si o controle de um lucrativo mercado de formação de analistas, pois a demanda por análise excedia a oferta do ouro puro.

CONCLUSÃO

Nas alianças que restringem o objeto da psicanálise ao intrapsíquico, os herdeiros diretos de Freud, pelo pedigree, extraem seus benefícios narcísico-identitários, em relações de poder rigidamente hierarquizadas. O pacto narcísico, modalidade alienante de contrato narcísico, obriga cada sujeito singular a aderir à cadeia intergeracional, onde cada herdeiro, para ocupar o seu lugar no grupo, pouco faz além de herdar e reproduzir um discurso previamente estabelecido, aniquilando, portanto, a capacidade de se pensar em grupo e de se pensar o grupo. Nestas condições, torna-se inviável o trabalho de criação das novas gerações.

Freud, quando trabalhava sozinho, pôde desfrutar da liberdade de produzir conhecimento a partir de suas experiências clínicas. Elas lhe ofereceram os alicerces para a invenção da psicanálise. No entanto, pela maneira como o movimento psicanalítico organizou-se, desta liberdade criativa não puderam desfrutar seus herdeiros ao longo do período estudado, pelas restrições à possibilidade de se pensar. As marcas desta história permanecem vivas até hoje, na dificuldade que persiste em se tomar a vida psíquica na sua pluralidade de dimensões grupais, institucionais e sociais como um objeto legítimo de conhecimento para a psicanálise. Raros são os psicanalistas que se aventuram no trabalho com o divã sem a formação baseada no consagrado tripé análise pessoal/prática supervisionada/estudos teóricos. Muitos psicanalistas trabalham atualmente com grupos; no entanto, raros são aqueles que realizam algum tipo de formação específica para esta modalidade de trabalho sicanalítico.

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1 No original em francês (tradução livre): Le “contrat narcissique” désigne l›espace psychique d›articulation entre anticipation parentale et anticipation sociale, comme pré-investissement où va venir s›inscrire le sujet; où il est aussi question de l›identique de la reproduction attendue qui justifie l’appellation “narcissique” du “contrat”. S’il y a contrat c’est aussi de fonction tiers du corps social qu’il s’agit - «la relation qu’entretient le couple parental avec l’enfant porte toujours la trace de la relation du couple au milieu social qui l’entoure.

2No original em francês (tradução livre): Les premiers sont liés à des problèmes de la connaissance objectivables par le travail de la raison: ils se manifestent devant la mise en question des connaissances déjà établies par de nouvelles découvertes. Les seconds révèlent des obstacles constitués par les représentations inconscients et les investissements pulsionnels et affectifs associés à l’objet de la connaissance.

3[xref ref-type="bibr" rid="r20"]Kaës (1997[/xref], p. 169) desenvolve o conceito de “aparelho psíquico grupal”. Sua característica principal é assegurar a mediação e a troca de diferenças entre a realidade psíquica nos seus componentes intrapsíquicos, intersubjetivos e grupais e a realidade grupal em seus aspectos societários e culturais.

4 Em fevereiro de 1972, 16 pessoas morreram no incêndio do edifício Andraus, localizado na Avenida São João, em São Paulo.

5Proverbio reportado por Massimo Tomassini (1992).

6O trabalho de Bion com grupos é negado por Philips: “É... Bem... Bion mesmo não usou grupos... Bion usou grupos como ele descreve naquele livro experiência com grupos. Mas o mais interessante - observo - é o grupo no indivíduo” ([xref ref-type="bibr" rid="r27"]PHILIPS, 1997[/xref], p. 130).

Recebido: 29 de Janeiro de 2019; Aceito: 09 de Dezembro de 2019

Fernando da Silveira - fesilveira1@uol.com.br

Maria Inês Assumpção Fernandes - marines@usp.br

Georges Gaillard - georges.gaillard@orange.fr

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