SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23 issue1SYMBIOTIC ILLUSION AND FEMALE IDENTITY CONSTRUCTION IN EATING DISORDERS: A PSYCHOANALYTICAL PSYCHOSOMATICS’ PERSPECTIVEGenerational psychic transmission linked with the dimensions of repetition and transformation author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.23 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2020  Epub Jan 24, 2020

http://dx.doi.org/10.1590/1809-44142020001011 

Artigo

A DISJUNÇÃO MÃE/MULHER A PARTIR DE UMA PRÁTICA DE CONVERSAÇÃO

The mother/woman disjunction from a conversation practice

Cristina Moreira Marcos1 
http://orcid.org/0000-0002-2481-2172

Renata Lucindo Mendonça2 
http://orcid.org/0000-0002-9288-1807

1Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Faculdade de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Belo Horizonte/MG, Brasil.

2Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Belo Horizonte/MG, Brasil.


RESUMO:

Em Freud, a mulher é irremediavelmente ligada a uma reivindicação fálica jamais satisfeita e a assunção da feminilidade coincide com a maternidade. Que o feminino não se deixe recobrir inteiramente pela mãe é, por outro lado, destacado por Lacan. A prática da conversação com adolescentes mães e gestantes realizada no âmbito de uma pesquisa revela que, apesar das diversas conquistas das mulheres nas últimas décadas, a maternidade fornece ainda hoje significado e imagem com os quais se revestem o feminino pela via do ter fálico. Contudo, a tentativa de encerrar o feminino na mãe não cessa de fracassar.

Palavras-chave: mulheres; maternidade; feminino; psicanálise

Abstract:

For Freud, the woman is inexorably linked to a phallic claim and the assumption of feminility does coincide with motherhood. For Lacan, on the other hand, the feminility does not overlap completely with motherhood. The conversation practice we conducted with teenagers, both mothers and pregnant, has shown that, in spite of all the progress made by women in the last decades, the meaning and the image of motherhood around the feminility are still defined by the phallic. However, all the efforts to close the feminility in motherhood does not stop failing.

Keywords: women; motherhood; feminility; psychoanalysis

INTRODUÇÃO

Em Freud, a castração feminina recebe o nome de inveja do pênis. Sua resolução está ligada a uma reivindicação fálica jamais satisfeita que culmina no desejo de ser mãe na medida em que o filho é o substituto do que ela não tem, o falo. Que o feminino não se deixe recobrir inteiramente pela mãe é, por outro lado, destacado por Lacan. Já em seu texto Propos directives pour un congrès sur la sexualité féminine, de 1960, podemos encontrar um antecedente do que será a noção do “não-todo feminino” a partir de uma dissociação entre a mãe a mulher (MARCOS, 2007).

Do mesmo modo, convém nos interrogarmos se a mediação fálica drena tudo o que pode se manifestar de pulsional na mulher, e notadamente toda a corrente do instinto materno. Por que não colocar aqui que o fato de que tudo que é analisável seja sexual não comporta que tudo o que é sexual seja acessível à análise. (LACAN, 1960/1966, p. 730).

Longe de designar a maternidade como solução para a questão do feminino, Lacan vai apontar, em diversos momentos do seu ensino, como esta saída do Édipo feminino não apazigua “o que pode se manifestar de pulsional na mulher”. Seja na voracidade materna apontada no Seminário 4 (1956-1957/1995) e no Seminário 5 (1957/1958/1998), seja na descrição da mãe como crocodilo em cuja boca o filho está, no Seminário 17 (1969-1970/1992), a mãe lacaniana está longe de ser completamente saciada pelo nascimento de um filho.

É inegável que, nos tempos de Freud, poucos eram os destinos abertos às mulheres fora do território do matrimônio e da maternidade. Contudo, apesar das diversas conquistas das mulheres nas últimas décadas, a maternidade fornece ainda hoje significado e imagem com os quais se revestem o feminino pela via do ter fálico. Correlativamente ao declínio da autoridade paterna, encontramos frequentemente uma idealização da mãe que pode se converter em um querer ser mãe generalizado ou na veiculação de uma imagem ideal da mãe à qual toda mulher deve se conformar. Neste cenário, a criança torna-se uma espécie de mais-valia, objeto precioso (MARCOS, 2017).

Nossos encontros com adolescentes gestantes e mães, realizados no âmbito de uma pesquisa,1 desvelam o feminino e seu gozo que não se deixa recobrir pela maternidade. Parte da pesquisa foi realizada em uma instituição que acolhe adolescentes gestantes e mães. Nela, as adolescentes se vêem ao abrigo de atos violentos e condições de vida precárias que frequentemente caracterizam suas vidas e encontram uma inscrição no Outro simbólico, através da maternidade. São ali reconhecidas enquanto mães. Através da sua criança, têm direito ao cuidado, à proteção, à educação, enfim, a um lugar no mundo. Contudo, a tentativa de encerrar o feminino na mãe não cessa de fracassar.

Em um primeiro momento, iremos discorrer acerca do modo como a psicanálise aborda a questão do tornar-se mulher e suas vicissitudes a partir de Freud e Lacan, para posteriormente discutirmos de que modo as nossas conversações no âmbito da pesquisa permitiram vislumbrar o que pode se manifestar de pulsional na mulher, e notadamente toda a corrente do instinto materno, para além do falo.

MÃES, MULHERES E MENINAS, SEGUNDO FREUD E LACAN

Freud inicia sua conferência sobre a feminilidade dizendo que, através da história, “as pessoas têm quebrado a cabeça com o enigma da natureza da feminilidade” (FREUD, 1933/1989, p. 140). Se, de um lado, a distinção entre homem e mulher é a primeira distinção que fazemos quando encontramos um ser humano, por outro, nem a ciência anatômica nem a psicologia fornecem os critérios elementares para se fazer esta distinção. A anatomia não fornece uma reposta acerca do que define o masculino e o feminino, assim como a psicologia também não consegue descrever o comportamento que corresponderia a tal distinção. Nesta conferência, Freud afirma que a psicanálise não busca descrever o que é uma mulher, mas, sim, dizer como um sujeito se torna mulher, ou seja, “como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual” (FREUD, 1933/1989, p. 144).

Freud refere-se à feminilidade como um continente negro, território no qual sua lente fálica e edipiana não lhe permite desvendar todos os mistérios. É inegável que ele tenha encontrado uma dificuldade para representar a posição sexuada do lado feminino; ele mesmo o confessa. A questão acerca do que é ser uma mulher é colocada em cena no primeiro grande caso clínico publicado por ele: o caso Dora. Há, desde sempre para Freud, um ponto de inassimilável no feminino. Lacan o destaca nesta breve passagem do seminário sobre as psicoses.

Quando Dora se vê interrogar a si mesma sobre o que é uma mulher, ela tenta simbolizar o órgão feminino com tal. Sua identificação com o homem, portador do pênis, é para ela, nessa ocasião, um meio de aproximar-se dessa definição que lhe escapa (...). Tornar-se uma mulher e interrrogar-se sobre o que é uma mulher são duas coisas essencialmente diferentes. Eu diria mesmo mais é porque não nos tornamos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tornar-se. (...) Sua posição é essencialmente problemática, e até um certo ponto inassimilável. (LACAN, 1955-1956/1988, p. 204).

Logo de início, Freud dirá também que o desenvolvimento de uma menina em uma mulher normal é muito mais difícil e complexo do que o de um homem, visto que ela terá que enfrentar duas tarefas que não encontram equivalentes nos meninos: a mudança de objeto, da mãe para o pai, e a mudança de zona erógena, do clítoris para a vagina. A dissimetria entre os sexos é algo central na conferência sobre a sexualidade feminina em 1931, mas, mesmo antes, em 1923, no texto sobre as consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos, já está colocada a impossibilidade de uma especularidade entre o desenvolvimento do menino e da menina.

Bassols (2017) lembra que esta assimetria entre os sexos é introduzida pela sexualidade feminina, a partir do fato de que a mãe, na medida em que ela é também uma mulher, é o primeiro objeto de amor para ambos os sexos. Não há, para a menina, um caminho direto até o pai; ela precisa fazer todo um desvio para chegar até ele. Ora, por trás do pai, e do homem, sempre haverá a relação com a mãe. A vertente pré-edipiana do desenvolvimento libidinal da menina, na qual se situa o vínculo primordial da mulher à mãe, marca a dissimetria entre o desenvolvimento sexual masculino e feminino e é onde Freud situa a alteridade do feminino.

É em sua última conferência sobre a sexualidade feminina que Freud (1933/1989) enumera as três saídas possíveis para o Édipo feminino: a inibição sexual, o complexo de masculinidade e a feminilidade normal. Na primeira, a menina, que viveu até o momento de modo masculino, perde o prazer obtido com sua sexualidade fálica, após a comparação com o órgão sexual masculino e com a descoberta da castração materna. Na segunda, há o desenvolvimento de um intenso complexo de masculinidade. A menina recusa-se a renunciar à sua atividade clitoridiana e refugia-se em uma identificação com a mãe fálica ou com o pai. Por fim, a terceira saída leva a uma feminilidade normal. O desejo que a fez voltar-se para o pai é originalmente o desejo de possuir o pênis que a mãe não lhe deu. O desejo de pênis é substituído pelo desejo de um filho, ou seja, o filho assume o lugar do pênis através de uma equivalência simbólica.

Freud (1933/1989) confessa que, após tantos anos de reflexão e pesquisa, ele fica sem resposta em relação à pergunta: o que quer uma mulher? Sua conclusão não ultrapassa a inveja do pênis, ao qual a mulher jamais conseguiria renunciar. O desejo do pênis é, segundo ele, um desejo feminino, par excellence. O desejo de um filho é um modo de responder a isso através da equivalência psíquica inconsciente entre o desejo de ter o falo e desejo de ter um filho. Deste modo, a mulher é, para Freud, irremediavelmente ligada a uma reivindicação fálica jamais satisfeita.

No Seminário 5, Lacan afirma que “Ele (Freud) não viu que a solução do problema da castração, tanto no homem quanto na mulher, não gira em torno do dilema de ter ou não ter o falo” (LACAN, 1957-1958/1998, p. 465). Todos os elementos do Édipo freudiano são retomados neste seminário. Nele, Lacan reformula a questão da relação primordial à mãe nos seguintes termos: trata-se de se tornar o ser desejado ou não. O sujeito busca saber o que orienta o desejo da mãe para encontrar aí seu lugar. O pai é aquele que abre a possibilidade de um além da captação imaginária. Permanece o fato de que a relação mãe-filha continua a ser centrada na reivindicação fálica. Lacan, entretanto, distancia-se da posição dos pós-freudianos que atribuem uma importância excessiva à mãe ao caracterizarem a relação mãe-criança como dual. O que é essencial, para Lacan, é o fato de a mãe se situar como Outro primordial. Para o sujeito, trata-se de saber se ele se tornou desejado ou não, ele busca no desejo da mãe um lugar para se situar no Outro. É ao desejo do Outro que a menina é confrontada e sua angústia se faz presente diante deste desejo (MARCOS, 2016).

Lacan (1962-1963/2005) encontra outra solução para o rochedo da castração mostrando que, tanto para o homem quanto para a mulher, o desejo de ter o falo é substituído pela questão do gozo que se localiza nos objetos a. Nesta época, a diferença entre os sexos se inscreve na relação respectiva do homem e da mulher ao objeto a, que é diferente e particular para cada um dos sexos. No Seminário 20 (1972-1973/2005), Lacan situa a mulher como não-toda na dimensão fálica. Sendo assim, não há um significante que defina A mulher. Cada mulher tem uma relação particular com o Outro e o gozo (DERZI; MARCOS, 2013).

Para Lacan (1971/2007), o falo tem uma função simbólica que define a posição do sujeito em relação ao desejo e é marcado pelo modo como os sujeitos se relacionam com a castração. Os homens são submetidos à castração e formam um conjunto. As mulheres não podem ser privadas do que elas não têm; não formam um conjunto. Segundo Lacan, não podemos definir um universal das mulheres. Os diferentes modos de lidar com a castração inauguram diferentes modos de gozo: o gozo fálico e o gozo outro, que Lacan (1972-1975/1985) define como gozo feminino. É preciso dizer que ser biologicamente homem ou mulher não significa nenhuma relação predeterminada ao gozo sexual. Se dizer ou se acreditar homem ou mulher é questão de cada um e, para Lacan, não depende unicamente da questão edipiana. “A identificação sexual não consiste em alguém se acreditar homem ou mulher, mas em levar em conta que existem mulheres, para o menino, e existem homens, para a menina” (LACAN, 1971/2007, p. 33).

Se, para Freud, o filho é substituto do falo, Lacan abre uma outra perspectiva ao situar o filho como possível objeto a para a mãe. Ou seja, o homem toma a mulher como objeto causa de desejo, inscrevendo a condição fetichista do desejo masculino. Do lado masculino, o homem se serve, portanto, da mulher, que toma a forma de fetiche, para encobrir a castração. Para a mulher, o objeto do qual ela se ocupa seria a criança.

Um pai só tem direito ao respeito, e até mesmo ao amor, na medida em que o dito amor, o dito respeito, é, vocês não vão acreditar no que vão ouvir, père-versement orientado, isto é, ele faz de uma mulher, objeto a que causa seu desejo, mas o que uma mulher acolhe assim não tem nada a ver com a questão. Aquilo de que ela se ocupa, é de outros objetos a, que são as crianças, junto a quem o pai intervém, portanto excepcionalmente no bom caso para manter na repressão, no junto mi-dieu, a versão que lhe é própria de sua perversão. (LACAN, 1975, grifo nosso).

Não importa somente a relação do pai com a lei, mas também com o gozo. O amor e o respeito aos quais o pai tem direito se devem à sua relação com a mãe como mulher objeto causa do seu desejo, mais do que enquanto mãe. Desse lugar perversamente orientado, a mulher se ocupa de outros objetos a, que são as crianças. Assim, a perversão feminina, se ela existe, encontraria na criança sua orientação. Bem antes do seminário R. S. I., Lacan afirma que: “Freud nos revela que é graças ao Nome do Pai que o homem não permanece amarrado ao serviço sexual da mãe” (LACAN, 1964/1966, p. 852). A criança é um objeto real nas mãos da mãe que, para além dos cuidados, pode usá-lo como uma possessão. Teríamos assim a criança na posição de fetiche.

Deste modo, Lacan não subscreve a conclusão freudiana segundo a qual o destino da menina, que se comportava como um menino, na assunção da sua feminilidade, é tornar-se mãe. Ser mãe pode ser uma solução para a falta pela via do ter, sob a forma da criança, substituto do falo. Entretanto, o ser mulher da mãe não se resolve inteiramente aí e faz surgir no horizonte um outro desejo que não se satisfaz na relação com a criança. O desejo e a sexualidade da mulher não se esgotam inteiramente na maternidade e na relação com o filho. Essa ideia já está presente em Lacan na década de 50 quando ele afirma que a mãe não é completamente saciada pelo filho nos seminários 4 (Lacan, 1956-1957/1995) e 5 (1957-1958/1998), mas também é retomada após os anos 70 a partir da noção de não-todo, nos seminários 17 (1969/1970/1992) e 20 (1972-1973/2005).

Freud (1905/1989) dissocia a sexualidade do determinismo biológico, desde Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, com a formulação de uma pulsão sexual perverso-polimorfa; no mesmo movimento, ele permite pensar a diferença sexual fora de qualquer complementaridade entre os sexos. A sexualidade existe desde sempre no sujeito, independente do registro biológico do sexo, e se encontra apartada do fim biológico da reprodução. Neste sentido, o sujeito visa a satisfação e o gozo, e o discurso freudiano inscreve a sexualidade no campo do desejo (BIRMAN, 1999, p. 30). Esta ideia é retomada em toda a sua teoria das pulsões (FREUD, 1915/1989). Entretanto, a lógica fálica conduz a um “impasse da maternidade” (NERI, 2002, p. 29), na medida em que associa o feminino à função biológica da reprodução, aproximando-se assim de uma teoria essencialista da qual Freud buscava se distanciar. Se Lacan (1972-1973/1985) afirmou, no Seminário 20, que a mulher só existe enquanto mãe, foi para destacar que aquilo do feminino que escapa ao falo não é apreensível pelo simbólico. Ele não deixará de afirmar, ao longo do seu ensino, uma dissociação entre a mãe e a mulher.

Concordamos com Neri (2005) quando ela afirma que Lacan não inaugura efetivamente a possibilidade de pensar o feminino para além da lógica fálica, na medida em que esta perspectiva já está presente na obra freudiana, marcada por uma tensão entre a lógica fálica e o seu mais além. No entanto, será Lacan quem irá formalizá-lo, sobretudo a partir da década de 70. Em nossa discussão, nos pautaremos na orientação lacaniana a partir da leitura de Miller do ensino de Lacan, sem, contudo, a intenção de esgotar as diversas questões suscitadas, mas, antes, apontar algumas balizas para se pensar a mulher e a mãe a partir da psicanálise.

Que o feminino não se deixe recobrir inteiramente pela mãe é o que revela uma experiência de pesquisa realizada por nós através da prática da conversação. Apesar dos diversos avanços e conquistas das mulheres nas últimas décadas, a maternidade ainda se apresenta hoje como destino feminino natural idealizado pela cultura.

A conversação é uma metodologia de intervenção e pesquisa criada na França em 1996 com o intuito de possibilitar novos campos de investigação a partir do diálogo da psicanálise com outros discursos. Segundo Jacques-Alain Miller, a conversação é:

Uma situação de associação livre, se ela é exitosa. A associação livre pode ser coletivizada na medida em que não somos donos dos significantes. Um significante chama outro significante, não sendo tão importante quem o produz em um momento dado. Se confiamos na cadeia de significantes, vários participam do mesmo. Pelo menos é a ficção da conversação: produzir não uma enunciação coletiva senão uma associação livre coletiva, da qual esperamos um certo efeito de saber. Quando as coisas me tocam, os significantes de outros me dão ideias, me ajudam e, finalmente, resulta às vezes algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas. (MILLER apud ALVAREZ, 2005, p. 15-16, tradução do autor).

Nesse dispositivo, o que nos interessa é a palavra, a autorização para que ela circule entre nós e, assim, possamos recolher algo do inconsciente do sujeito. Com esse modo de funcionar, a psicanálise circula também pela cidade e escuta os sujeitos nos locais em que ele vive, trabalha ou se reúne. Esse dispositivo tem como finalidade a oferta da palavra (LACADÉE, 2007a). A conversação mantém o objetivo psicanalítico de escutar o inconsciente e unir o tratamento à pesquisa. Esse dispositivo visa a produzir um tratamento do gozo a partir do momento em que reconhece e respeita a singularidade e a palavra de cada um, dando um lugar peculiar para o simbólico.

O dispositivo pode fazer operar “uma prática inédita da palavra”, que, segundo ele, tenta subverter o laço social daqueles que, de alguma maneira, foram confinados ao silêncio excludente marcados por identificações. O que as conversações propõem é “destravar as identificações”, isto é, no trabalho desenvolvido, a palavra pode mostrar aos sujeitos que ali se encontram aquilo pelo qual estão tomados e, quem sabe, apostar que podem livrar-se do gozo em que estão aprisionados (MIRANDA; VASCONCELOS; SANTIAGO, 2006, p. 3).

UMA PRÁTICA DA CONVERSAÇÃO2

A discussão que se segue refere-se às conversações realizadas em uma ONG (organização não governamental) que atende e acolhe gestantes e mães adolescentes. Nela, as adolescentes recebem diversos cuidados assistenciais (educação e assistência médica), abrigo e condições materiais para cuidar de seu bebê. Em contrapartida, a adolescente deve se comprometer a cumprir as regras institucionais e a dedicar-se integralmente ao seu filho, à vida escolar e à doméstica. As regras a serem seguidas referem-se à manutenção da ordem na casa, aos cuidados domésticos e às obrigações maternas. As saídas são também reguladas, assim como o comportamento, as roupas, a aparência das adolescentes, como, por exemplo, a proibição do uso do piercing. As gestantes e mães adolescentes que ali chegam e são acolhidas são inscritas no campo da maternidade. Elas são abrigadas enquanto mães com seus bebês e não como mulheres. Ali estão por determinação da justiça com o intuito de proteger a elas e a seus filhos. Algumas foram ameaçadas de morte, outras colocaram seus filhos em situações de risco, no entendimento da Justiça, devido ao uso de drogas ou às condições de vida e moradia.

Participaram das conversações gestantes e mães entre 13 a 17 anos, com caraterísticas sociais e econômicas semelhantes. Em comum, as adolescentes são oriundas de famílias de baixa renda, foram frequentemente expostas a situações de violência dentro e fora da família e possuem baixa escolaridade. A gestação, na maioria dos casos, é fruto de um relacionamento afetivo, entretanto, frequentemente marcado pela violência. Os pais dessas crianças encontram-se, em sua maioria, presos por ações ligadas ao tráfico de drogas. Foram realizadas 7 conversações, com um número de participantes que variou entre 5 a 7 a cada encontro. Foram feitos registros escritos pela pesquisadora após cada conversação, assim como supervisões clínicas e discussões acerca do material recolhido.

Nossa chegada à instituição, neste momento em particular, articula-se a alguns trabalhos ali realizados por nós anteriormente e a uma demanda que se faz a partir daí. Logo de início escutamos: “Que bom que voltaram, estamos precisando muito de vocês”. Temos assim dois pontos fundamentais para a conversação: a transferência estabelecida e a presença de um impasse. A coordenadora da ONG nos relata então que a instituição sofreu uma intervenção do Estado e algumas mudanças foram determinadas, não só em relação aos diversos cargos exercidos dentro da ONG como também em relação às regras que geriam a casa, visando uma menor rigidez e evitando punições excessivas. A partir daí, ela verifica que as adolescentes passam a transgredir algumas normas que regem a casa. De acordo com seu relato, as brigas e agressões entre as adolescentes tornam-se mais frequentes, assim como o desacato aos funcionários, o que é interpretado pela coordenação como um desrespeito à instituição. Segundo ela, havia um acontecimento específico que estava causando desconforto a todos, inclusive às adolescentes, a saber, o namoro entre duas delas envolvendo muito ciúme e muitas brigas entre elas e entre as outras moradoras da casa. As brigas e os ciúmes abalam o bom funcionamento da casa, segundo a coordenadora.

Um casal, formado por duas adolescentes, mães e também mulheres, instaura o mal-estar na instituição. O encontro e as carícias trocadas publicamente entre as duas é vivido como um escândalo. A exibição do encontro entre os corpos é sentida como um desafio “Elas pensam que podem fazer tudo” e um pedido de ajuda nos é endereçado “Estamos precisando muito de vocês”. A mostração é acompanhada de insultos aos técnicos da instituição a cada vez que se busca uma medida disciplinar.

Diversos são os elementos que surgem em uma conversação. Entretanto, destacamos esse ponto colocado acima pela instituição como um impasse: a relação amorosa entre as duas adolescentes. Na primeira conversação com as adolescentes, destacamos uma história contada por K: ela relata que uma jovem foi retirada de uma instituição porque “arrancou o coração” de uma adolescente no bairro em que morava. A jovem avisa que fez isso porque “a moça estava se engraçando para o namorado dela, então, ela foi lá e arrancou o coração da moça” e K completa: “eu faria o mesmo”. Perguntamos: “Faria?” Nesse momento, elas vão dizendo que a relação amorosa era assim: “Ser traído ou ver alguém se engraçando para seu companheiro ou companheira, era para arrancar o coração ou matar com faca, ver a faca entrando e depois saindo”.

A segunda conversação gira em torno das regras que regem o mundo e a instituição. R conta porque foi parar ali. Ela havia sido ameaçada de perder a guarda da sua criança porque havia sido vista fumando maconha com a filha no colo. “Vejo muitas crianças bem maltratadas no lugar em que vivo e elas não foram tiradas da mãe, mas a minha foi tirada e eu pedi para o juiz para vir pra cá, pra ficar com a minha filha”. E acrescenta: “Aqui, eles querem as nossas crianças, ficam querendo elas para eles, mas eu não vou dar”.

Em outro momento, não são os encontros amorosos que se apresentam, mas as mudanças ocorridas na instituição a partir da intervenção do Estado. O que fica evidente neste instante é como as adolescentes vêem as promotoras que vão até a instituição, suas roupas, seus sapatos de salto alto, suas imagens de mulheres. “Uma delas colocou silicone, tenho certeza disso” diz uma adolescente. “Mas elas não estavam nem aí pra gente, eu estava almoçando e ela diz ‘vem agora que eu estou sem tempo’. Eu estava comendo e precisei parar para conversar com ela”. Podemos afirmar que a questão que se apresenta neste momento é um olhar sobre essas outras mulheres e seus corpos de mulheres, diferentes da imagem de mulher transmitida pela instituição regida pelas leis religiosas e pelo ideal de maternidade. As promotoras chegam com um corpo vestido de mulher, elas têm o poder, agem sobre a instituição, fazem uma oposição entre mãe e mulher, na medida em que acolhem algumas demandas das adolescentes exigindo mudanças, mas não dirigem o olhar a elas: “Mas não estavam nem aí pra gente [...]”.

No terceiro encontro, elas passam a dizer do namoro que estava acontecendo dentro da instituição, os ciúmes, as crises e as brigas, e vão localizando essa dificuldade presente nos encontros, tentando fazer com que algo funcione. Nesse momento, elas falam daquilo que a coordenadora localizou como mal-estar e apresentou como uma queixa a nós.

As carícias são um modo de lidar com o gozo e a instituição nos pede uma intervenção acreditando que as regras podem regular o gozo e a pulsão. A maternidade é a solução encontrada por Freud no caminho da menina em direção à assunção da sua feminilidade. Ser mulher é idêntico a ser mãe. Segundo Miller (2015), podemos dizer que a maternidade é uma solução honrosa para a mulher, mas ele se pergunta se ela é autêntica. Lacan (1956-1957/1995, p. 85) aproxima a mãe do Outro da demanda, definindo-a como uma potência que pode satisfazer a demanda. A mãe é o Outro que tem, aquela que tem o objeto cobiçado, ao qual as adolescentes se referem, como vimos.

A disjunção entre “ser mãe” e “ser mulher” é considerada, segundo Miller (2015), a partir da oposição entre o “Outro da demanda” e o “Outro do desejo”, a quem não se demanda nada, “mas que se submete, que se explora, que se coloca a trabalhar para explorar esse trabalho, que é censurado, o Ouro que é reduzido ao silêncio, que é amarrado e que além do mais, de quem se fala mal” (MILLER, 2015, p. 14). A mulher, diferente da mãe, é o Outro que não tem, o Outro do desejo. Não há identidade entre a mãe e a mulher.

Miller (2015) nos lembra que o que o Édipo e a Metáfora Paterna ensinam é justamente que a mãe é uma mulher, que o lugar do desejo deve ser preservado e existir fora da relação com a criança. O escandaloso é que a mãe é uma mulher, ele conclui. É isto que exibem as carícias das adolescentes trocadas em público. Elas são não-todas mãe. O que se revela como insuportável para a instituição.

Posteriormente, as adolescentes pedem para que o encontro seja realizado no pátio interno da instituição, “no sol”, fora da sala, fora do ambiente interno, em um lugar mais íntimo e fora do olhar institucional. Assim, as relações amorosas voltam a ser tratadas, falam do namoro que ocorre lá dentro, falam dos parceiros que estão presos, do amor que cada uma delas sente por um rapaz específico, de como viviam a sexualidade e das regras que regem os encontros sexuais.

Cada uma das namoradas se nomeia. A L diz que gosta dos homens. A diz que é “sapata”. R fala do “marido” que está preso, e diz: “ele é aquele que eu amo, posso ficar com vários, mas ele é o meu marido, o homem pelo qual meu coração bate”. Relatam os encontros e desencontros e a violência das relações amorosas.

Após um tempo de trabalho em que falam de emancipação, o que fazer após a saída da instituição, elas pedem, novamente, para irmos ao pátio interno onde a conversação transcorre em torno do sexo e das regras que buscam reger as relações. Neste dia, elas ficam muito interessadas na minha roupa, cabelo, tatuagem e falam do quanto elas cuidam uma da outra: uma delas é boa em fazer escovas, cuidar do cabelo, outra faz maquiagem e sobrancelha, e existem aquelas que não são boas nisso, “que precisam fazer outras coisas”. Elas relatam que a instituição queria fazer um bazar e afirmam: “Impossível um bazar com as roupas doadas, nem a gente quer. Se fossem boas já teríamos pego pra gente”. Outra diz: “A gente podia fazer um salão”. A partir daí, começam a delimitar quem era quem neste salão, onde ele poderia ser instalado e o que poderia ser feito e vão construindo um salão de beleza.

Podemos afirmar que o modo como as adolescentes se apresentaram o namoro entre elas era considerado pela instituição uma afronta; elas não obedeciam mais às regras. As regras da instituição apagavam a sexualidade, não dando lugar para o que significa ser uma mulher no mundo. Conclui-se que a gravidez e a maternidade não respondem sobre a mulher. Na instituição, as adolescentes apresentam um modo de dizer através de seus atos, que se contrapõe aos cuidados com as crianças, com a saúde e a educação, oferecidos pela instituição. O que era oferecido pela ONG não respondia sobre a sexualidade e sobre um lugar possível para uma mulher. Poderíamos dizer que o namoro entre elas seria um acting out direcionado à instituição?

Nossas conversações têm o objetivo de tocar o particular de cada sujeito em uma conversação coletiva. A instituição opera com um saber da ordem do universal ditado pelas políticas públicas: o adolescente é aquele a ser conduzido e ensinado, de um modo pedagógico. A conversação subverte essa lógica. Nela, o que nos interessa é o não sabido, não há um saber pronto a ser entregue ou ensinado. Nesse dispositivo, apostamos no mal-entendido, no fora do sentido, no furo do dizer como uma ausência fundamental.

A palavra é um dom pleno de poder. Sua oferta às adolescentes, cujas vidas são marcadas pela violência e pelo abuso, não é sem efeitos. Lacadée (2010) afirma que a aposta da conversação é fazer uma oferta da palavra, “lá onde isso não fala”, onde o discurso estabelecido tem a função de fazer calar a indisciplina fundamental do sujeito. Esta indisciplina pode se manifestar na violência, nas passagens ao ato, nos insultos. Quando, nas conversações, essas adolescentes se vêem diante de outra mulher, uma mulher que não é mãe, independente, solteira e que se apresenta com seu desejo de escutá-las falarem de si e de suas vidas, ela falam e se entregam à articulação dos significantes.

No início das conversações, uma frase se destaca “Aqui, eles querem nossos bebês” , instaurando as adolescentes como detentoras de um objeto precioso, ao mesmo tempo em que as condena a não serem nada além da mãe. A criança vem obturar o furo do trauma do encontro sexual. Ela, ao mesmo tempo, salva e condena. Através da gravidez e da maternidade, há um Outro jurídico e institucional que cuida, protege, pune. O sujeito desaparece sob o “eles querem” e o “nosso”, não meu, único, mas de todas.

A partir da oferta da palavra, as adolescentes vão colocando questões sobre o seu ser de mulher e isso se apresenta a cada encontro. Primeiro, o modo como o ciúme e as traições são tratados apresentando o problema descrito pela coordenadora, depois, evidenciam o olhar para as promotoras, procurando ali um modelo de mulher a ser seguido para além da maternidade. Posteriormente, podem dizer do seu encontro com os homens e as mulheres, sobre o amor e a violência, sobre as regras que tentam reger as relações amorosas. Tomam a palavra no pátio, “fora da instituição”, em um lugar à parte e, em seguida, podem dizer de um novo modo para lidar com o corpo feminino, “um salão de beleza”, e assim substituir as carícias sexuais pelo encontro com o saber sobre a mulher, onde podem ver outras mulheres, de fora da instituição, como clientes, prestar um serviço e fazer novas perguntas.

O significante que se destaca ao final da série de conversações é “salão de beleza”. Lugar de se fazer bela, lugar de conversa entre mulheres, portanto, da palavra. As adolescentes propõem a criação de um salão de beleza para se ocuparem da beleza de outras mulheres e delas mesmas. É diferente dizer isto diante de uma mulher e dizê-lo diante da instituição. No espelho da instituição, isso se reflete de outro modo. Destaca-se um outro modo de lidar com seus corpos e com o gozo que passaria pelo salão. O significante “salão de beleza” faz surgir a disjunção entre ser mãe e mulher.

A adolescência, para a psicanálise, é o momento em que o sujeito inventa uma saída para o encontro com o sexo. Freud (1905/1989) refere-se a esse momento de reatualização das escolhas da infância como metamorfoses da puberdade. Toda a trama que acontece na primeira infância é recalcada e o sujeito passa, após o recalque, a viver um período de latência no qual as repostas simbólicas inventadas para essas questões são suficientes para o sujeito lidar com sua vida e seus objetos amorosos. Na puberdade, o sujeito deverá repassar por sua antiga escolha de objeto. Lacadée (2010) lembra que esta escolha implica uma referência ao sexo, ao Outro sexo enquanto alteridade. As escolhas sintomáticas são modos de resposta diante do surgimento de um real.

Em seu prefácio à peça de Wedekind, O despertar da primavera (1974/2003), Lacan aborda o encontro do adolescente com o furo do sexo no real. O real do gozo que irrompe na vida dos personagens da peça é causa de múltiplos efeitos e passagens ao ato. Na peça, cada um vai, a seu modo, confrontado com a questão sexual, inventar uma resposta. É no Seminário 18 que Lacan anuncia sua famosa afirmação: “Não há relação sexual no ser falante” (LACAN, 1971/2009, p. 60). Ele a desdobrará nos seminários subsequentes, os seminários 19 (1971-1972) e 20 (1972-1973), e ainda mais posteriormente no Seminário 22 (1974-1975), ano em que escreve o prefácio à peça de Wedekind. Lacan assinala que a questão da inexistência da relação sexual está no centro desta peça.

Podemos dizer que o novo que surge no momento da puberdade é, na verdade, o reaparecimento, para o sujeito, de sua falha de saber no real. Trata-se da emergência de um novo para o qual o sujeito não tem reposta. A inexistência da relação sexual é a dificuldade de saber o que fazer quanto ao sexo; é a ausência de um saber quanto ao sexo. Lacadée (2010) afirma que o correlato oposto ao aforismo lacaniano “não há relação sexual” é “mas há gozo” e o lugar do gozo é o corpo próprio. “Não há relação sexual” significa dizer que o gozo é solitário, que não estabelece uma relação com o Outro e que o gozo do corpo do Outro sexo esbarra em um impossível, em uma não-relação. A puberdade é o momento em que o sujeito se confronta com essa não relação sexual. Cabe a cada um inventar o que fazer face ao Outro sexo.

Com a exibição dos corpos, as provocações, as carícias trocadas, as adolescentes evidenciam que a maternidade não responde ao que é ser uma mulher, que a criança não somente preenche mas também divide, e que não sacia o ser de mulher, enfim, que não há relação sexual, mas há gozo. Miller (2014) afirma que a ênfase dada ao valor fálico da criança acaba por promover a função de preenchimento da criança e deixa esquecido que a criança, ao contrário, divide o sujeito feminino que tem acesso à função materna, ou seja, a criança divide no sujeito feminino a mãe e a mulher.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se o objetivo da conversação é tocar o particular de cada sujeito a partir de uma conversação coletiva, sabemos, como Freud e Lacan, que o que há de mais particular para cada um é o seu sintoma. É na adolescência que o sujeito se vê confrontado, a partir de um aumento da energia pulsional, às transformações corporais. Stevens (2004) fornece uma preciosa definição da adolescência, como uma sintomatização da puberdade. Nesse sentido, a função da adolescência seria a sintomatização do excesso pulsional ao qual o adolescente se vê confrontado. Dito de outro modo, a adolescência seria a construção de um modo singular de fazer frente ao real pulsional que atinge os sujeitos no momento da puberdade. Cada uma das adolescentes vai, a seu modo, inventar uma resposta ao real com o qual se deparam na puberdade e se virar com o encontro com o desejo sexual. “A conversação é fundada sobre a tradução, pela palavra, dos pontos de real em jogo para cada um” (LACADÉE, 2010, p. 334).

A oferta da palavra e o endereçamento ao Outro faz surgir uma resposta e um saber inéditos. Apresentadas através do significante “mães”, é sob sua égide que as adolescentes encontram uma inscrição no campo do Outro. Em um primeiro momento, é a anulação do sujeito sob a injunção “Querem nossos bebês” que se dá a ver. Eles quem? Quem quer? Que bebê? De quem? De que mãe? De que pai? Há pai? A partir daí, um deslocamento se produz em direção ao sujeito e seu objeto que se apresenta nas mais diversas declinações: objeto precioso, cobiçado, sacrificado, desejado.

Extraímos daí um saber inédito: somos não-toda mães. Exibe-se a impossibilidade de encerrar o feminino na mãe. O gozo não é domável, ele escapa às normas e regras. A maternidade é frequentemente apontada como a saída clássica em direção à feminilidade. Efetivamente, a criança pode se converter no parceiro de uma mulher que se tornou mãe e a mulher pode encontrar a consistência que lhe faltava enquanto mulher na maternidade. Contudo, a maternidade não é capaz de encerrar a questão do feminino. Para Freud, a castração feminina se formula como inveja do pênis e o desejo de ter um filho responde à falta feminina, na medida em que ele é um substituto do que ela não tem: o falo. No Seminário 4 (1956-1957/1995), Lacan evidencia na voracidade da maternidade que a mãe não é inteiramente satisfeita pela criança e que, ao mesmo tempo, a criança se sente impotente em satisfazer o desejo da mãe. A voracidade da mãe não deixa de revelar que ela está longe de ser uma mulher cujos anseios foram apaziguados. A maternidade é tão somente um véu com o qual se recobre o feminino. Isso nos ensinam as adolescentes e suas palavras na conversação.

REFERÊNCIAS

BASSOLS, M. Lo femenino, entre centro y ausencia. Olivos: Grama, 2017. [ Links ]

BIRMAN, J. Cartografias do feminino. São Paulo: Editora 34, 1999. [ Links ]

DERZI, C.; MARCOS, C. M. As manifestações do ato e sua singularidade em suas relações com o feminino. Ágora, n. 16, p. 71-86, 2013. [ Links ]

FREUD, S. Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise - Conf. XXXIII Feminilidade (1933). Rio de Janeiro: Imago, 1989. (Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12) [ Links ]

FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes (1915). Rio de Janeiro: Imago, 1989. (Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14) [ Links ]

FREUD, S. Os três ensaios sobre a sexualidade infantil (1905). Rio de Janeiro: Imago, 1989. (Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7) [ Links ]

LACADÉE, P. Le malentendu de l’enfant. Paris: Ed. Michèle, 2010. [ Links ]

LACAN, J. A angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005. (O seminário, 10) [ Links ]

LACAN, J. A relação de objeto (1956-1955). Rio de Janeiro: Zahar, 1995. (O seminário, 4) [ Links ]

LACAN, J. As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1998. (O seminário, 5) [ Links ]

LACAN, J. De um discurso que não seria do semblante (1971). Rio de Janeiro: Zahar, 2007. (O seminário, 18) [ Links ]

LACAN, J. Mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1985. (O seminário, 20) [ Links ]

LACAN, J. O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992. (O seminário, 17) [ Links ]

LACAN, J. ...ou pior (1971-1972). Rio de Janeiro: Zahar, 2011. (O seminário, 19) [ Links ]

LACAN, J. Prefácio a O despertar da primavera (1974). In: LACAN, J Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar , 2003, p. 557-559. [ Links ]

MARCOS, C. M. Anorexia: uma conjugação do amor no feminino?Psicologia Clínica, n. 28, p. 105-121, 2016. [ Links ]

MARCOS, C M.. Figuras da maternidade em Clarice Lispector ou a maternidade para além do falo. Ágora, v. X, n. 1, p. 35-47, 2007. [ Links ]

MARCOS, C. M. O desejo de ter um filho e a mulher hoje. Trivium: estudos interdisciplinares, ano IX, ed. 2, p. 246-256, 2017. [ Links ]

MIRANDA, M.; VASCONCELOS, R.; SANTIAGO, A. L. (). Pesquisa em psicanálise e educação: a conversação como metodologia de pesquisa. Psicanálise, Educação e Transmissão, 6. 2006. Disponível em:Disponível em:http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000032006000100060&script=sci_arttext . Acesso em:26 abr. 2018. [ Links ]

MILLER, J. A. A criança entre a mulher e a mãe. Opção Lacaniana, n. 15, p. 1-15, 2014. [ Links ]

MILLER, J A. Mèrefemme. La cause du désir Revue de Psychanalyse, n. 89, p. 115-122, 2015. [ Links ]

NERI, R. A psicanálise e o feminino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. [ Links ]

NERI, R. O encontro entre a psicanálise e o feminino: singularidade/diferença. In: BIRMAN, J. (org.). Feminilidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 13-34. [ Links ]

1O artigo refere-se à pesquisa O que quer a mãe, hoje: um estudo sobre maternidade no século XXI a partir da psicanálise, obteve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais/FAPEMIG e foi aprovada pelo Comité de Ética da PUC/Minas em novembro de 2017.

2Agradecemos a Philippe Lacadée e a Ana Lúcia Lutterbach pelas supervisões ao longo das conversações.

Recebido: 30 de Maio de 2018; Aceito: 07 de Dezembro de 2018

Cristina Moreira Marcos - Professora Titular da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Doutora em Psicanálise pela Universidade de Paris 7. Pesquisadora Mineira FAPEMIG, Belo Horizonte/MG, Brasil. cristinammarcos@gmail.com

Renata Lucindo Mendonça - Mestre pela Faculdade de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Belo Horizonte/MG, Brasil. renatalucindopsi@yahoo.com.br

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons