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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.23 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2020  Epub Jan 24, 2020

https://doi.org/10.1590/1809-44142020001012 

Artigo

TRANSMISSÃO PSÍQUICA GERACIONAL VINCULADA COM AS DIMENSÕES DE REPETIÇÃO E TRANSFORMAÇÃO

Generational psychic transmission linked with the dimensions of repetition and transformation

Camilla Viana Gonçalves Pereira1 
http://orcid.org/0000-0003-2852-8950

Maria Carolina Andrade de Freitas2 
http://orcid.org/0000-0002-6585-1370

1 Universidade de Salamanca (USAL), Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação, Salamanca, Castela e Leão, Espanha.

2 Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vila Velha, Espírito Santo, Brasil.


RESUMO:

Este trabalho apresenta uma breve contextualização sobre as configurações familiares na atualidade, de forma a articular o desejo de família à questão da transmissão psíquica geracional. Toma como ponto de partida o conceito freudiano de transmissão, problematizando-o no entrecruzamento da dimensão individual, contexto cultural e geracional. Assim, ressalta a dimensão propriamente inconsciente daquilo que é transmitido em sua vinculação com a repetição e a possibilidade de transformar o conteúdo recebido em algo singular. Conclui diferenciando o que os autores denominam como transmissão psíquica intergeracional e transgeracional, tomando para análise fragmentos de um caso clínico.

Palavras-chave: transmissão psíquica; repetição; caso clínico

Abstract:

This paper presents a brief background on current family configurations in order to articulate the desire of families towards generational psychic transmission. It takes as its starting point the Freudian concept of transmission, discussing it in the intersection of the individual, cultural and generational dimensions. Therefore, it highlights the unconscious dimension of what is transmitted in its relationship with the repetition, and the possibility of transforming the received content into something unique. Finally, the distinction between what the authors refer to as intergenerational and transgenerational psychic transmission is made, based on the analysis of fragments of a case study.

Keywords: psychic transmission; repetition; case study

Muitas são as discussões nos campos políticos e sociais sobre a crise que a instituição familiar tem enfrentado mediante as novas configurações familiares, impondo uma condição alarmista do possível enfraquecimento desta instituição. Mas, apesar desses enfrentamentos ditos ameaçadores, Ciccarelli aponta que a humanidade está constantemente em crise de referenciais e a História nos ajuda a entender que não há crise sem vinculação às condições históricas datadas, carecendo então de constantes reorganizações para responder à nova leitura do mundo: “Somos de tal forma impregnados pelas associações sintagmáticas que utilizamos para decompor o mundo e, em seguida, recompô-lo que, muitas vezes, o novo é sentido como uma ameaça, pois nos obriga a reavaliar as representações que confortavam nossas angústias” (CICCARELLI, 2007, p. 90).

Olhar para o nosso tempo nos direciona a interrogar não somente sobre a mudança das novas configurações familiares, mas também sobre as possibilidades de tornar-se casal. Um exemplo dessas mudanças encontra-se na decisão de muitos casais optarem por não terem filhos ou adiarem esta decisão, rompendo assim com o que em outro momento da História parecia improvável. Porém, ainda assim, o desejo de constituir família com filhos se torna um objetivo para muitos casais (BORLOT; TRINDADE, 2004). Afirmam tais autores que, independente das formas que assumam as constituições familiares, a instituição família insiste como algo incontestável.

No entanto, Roudinesco (2003) e Julien (2000) afirmam que as relações de parentesco não são suficientes para certificar que o exercício da parentalidade seja exercido, uma vez que a modernidade produz um corte entre a conjugalidade e a parentalidade, fazendo com que a parentalidade não seja mais o objetivo principal da sustentação familiar.

Segundo Zornig (2010), a parentalidade é um termo que começou a ser utilizado pela psicanálise a partir dos anos 60 para marcar o processo de construção no exercício da relação dos pais com os filhos, sendo estes fortemente influenciados pelas fantasias e fantasmas parentais. A autora ainda discute sobre a formação de “tornar-se pai” e “tornar-se mãe”, sendo este um processo ligado à história individual de cada um.

Aqui ressaltamos que, embora a autora afirme as vinculações do tornar-se pai ou mãe como efeitos das histórias individuais, não há como fugir do campo relacional que a constituição humana põe em jogo, fazendo com que a história individual seja também a história do mundo. “Ora, todo ser é um cruzamento do passado com o presente, do individual com o coletivo” (GUEDES, 2012).

Portanto, este trabalho convoca a pesquisa em psicanálise e sua ligação com a experiência clínica, situando algumas interrogações produzidas nos atendimentos que solicitaram a escrita. A discussão teórica assinala as relações entre aquilo que atualizamos das histórias que nos constituem, em suas dimensões de repetição e transformação. Assim, junto à discussão do conceito freudiano de transmissão, segue diferenciando o que outros autores denominam como transmissão psíquica intergeracional e transgeracional, tomando, para tanto, um caso clínico como elucidações teóricas. Este texto também aponta questões relacionadas do porquê a família resiste, ainda que esta esteja sofrendo constantes modificações. Por último, o debate inclui algumas articulações com o sintoma infantil e a noção do segredo.

A polissemia do conceito de transmissão

O conceito de transmissão discutido por Freud, do alemão ubertragung, designa diversos usos para tratar dos temas ligados à transferência e à repetição. Esta mesma noção aparece também subsidiando os debates quanto aos processos de transmissão de pensamento, fenômenos de contágio, funcionamento de imitação nas multidões e, também, nas modalidades de prescrição dos tabus.

O tema da transmissibilidade propõe a questão sobre o que é transmitido pelas vias da repetição, isto é, não caracterizando somente por aquilo que julgamos que seja conveniente transmitir, visto a dimensão propriamente inconsciente da constituição psíquica. Mas a transmissão inclui toda uma gama de fragmentos e experiências de um sujeito e de uma geração.

No que se refere à transmissão intrapsíquica, Freud, em a Interpretação dos sonhos (1900/1996), afirma que o que se transmite é um traço inconsciente em comum, sustentado pela identificação com o objeto.

Já em Psicologia de grupo e a análise do ego (FREUD, 1921/1996), Freud define a transmissão como algo que um grupo se apropria de outro grupo por meio das identificações, fazendo com que transpasse algo da ordem de um objeto individual a um objeto comum a todos. A partir desta perspectiva, é possível fazer ainda outra articulação com o texto freudiano Chistes e sua relação com o inconsciente, quando Freud afirma que ninguém se contenta em fazer um chiste apenas para si, pois há um impulso de contar o chiste a alguém que está ligado à sua elaboração. Ainda, “o processo psíquico da construção de um chiste não parece terminado quando o chiste ocorre a alguém: permanece algo que procura, pela comunicação da ideia, levar o desconhecido processo de construção do chiste a uma conclusão” (FREUD, 1905/1996, p. 138).

Em Moisés e o monoteísmo, parte I (FREUD, 1939/1996), o tema da transmissão surge novamente. Freud aborda questão dos traumas precoces e afirma que esta não está interligada somente ao que o indivíduo experimentou, mas se ajusta a um modelo de herança da espécie. Logo, é postulado o termo herança arcaica para explicar que há possibilidade de sermos interferidos psiquicamente sem que tenhamos tido uma experiência direta. Isto é, uma geração recebe os traços memoriais das experiências da geração antecedente. Importa destacar, nesta altura, que a noção de trauma se expressa como uma experiência de ruptura que se transmite, comparece como algo que não está vinculado ao desejo, que supera a capacidade do sujeito de dominar-se e elaborar psiquicamente o ocorrido, sendo o trauma da ordem do Real (CÂMARA, 2011).

Freud, em Totem e Tabu, supõe que os tabus são proibições impostas de forma violenta a uma geração pela geração anterior, proporcionando uma transmissão geracional da tradição através da autoridade parental e social. Contudo, o autor afirma que as gerações posteriores tornaram essas proibições um dom psíquico herdado. Ainda neste texto, há uma indicação da hereditariedade psíquica de forma filogenética: “Nenhuma geração pode ocultar, à geração que a sucede, nada de seus processos mentais mais importantes, pois a psicanálise nos mostrou que todos possuem, na atividade mental inconsciente, um apparatus que os capacita a interpretar as reações de outras pessoas” (FREUD, 1913/1996, p. 160).

No texto Sobre o narcisismo: uma introdução (FREUD, 1914/1996), são desvendados os fundamentos narcísicos da transmissão entre as gerações e através delas. Freud afirma que os pais transferem ao bebê seu narcisismo infantil, atribuindo-lhe todas as perfeições. Assim, coloca-se o filho em um lugar ideal, titulado por “Sua majestade, o bebê”. O autor também trabalha no conceito da imortalidade do Eu, que seria esse o ponto mais delicado do sistema narcísico, pois se espera que a criança concretize os sonhos não realizados dos seus pais em troca dos investimentos afetuosos. Nesta perspectiva, Aulagnier (1975/1979) propõe o “contrato narcísico”, que consiste em recomendar à criança a missão de assegurar a imortalidade da identidade familiar e fortificar seu narcisismo.

Por outro lado, em Totem e tabu, Freud utiliza a frase do poeta Goethe para afirmar que todo sujeito é um transformador em potencial dos conteúdos herdados, modificando a herança psíquica em algo próprio, uma vez que a transmissão psíquica é um processo de identificações constitutivas: “Aquilo que herdaste dos teus ancestrais, transforma-o e torna-o teu” (FREUD, 1913/1996, p. 160). Desta forma, em Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915/1996), Freud afirma que a cultura oferece a preparação de um caminho à nova geração, para a transformação pulsional mais ampla, o que possibilita as mudanças de uma geração para outra.

A partir deste percurso em Freud, podemos situar que a transmissão se dispõe pela forma de uma história preexistente, que é organizada e perpassada em uma narrativa de forma atualizada. Marconi (2008) afirma que o que é escutado não pode ser furtado, uma vez que o inconsciente é formado pelos resíduos da linguagem.

Nesse sentido, encontra-se, no Rascunho L (FREUD, 1886/1996), a suposição de que as fantasias têm a tendência de aprimorar as lembranças, sendo feitas de coisas que foram ouvidas, acontecimentos passados que envolvem a história dos pais e dos ancestrais e coisas que a própria pessoa vivenciou. Desta forma, o que foi transmitido para cada sujeito resulta na combinação entre o ouvido, o percebido e o que foi vivenciado por outras gerações, que se caracteriza na trama fantasmática familiar.

Portanto, compreende-se que somos receptores dos significantes que circulam no discurso familiar. Lacan em Nota sobre a criança (), destaca que a conservação da família está interligada a algo relacionado ao sinthome que, de alguma forma, refere-se à exigência em transmitir:

A função de resíduo exercida (e, ao mesmo tempo, mantida) pela família conjugal na evolução das sociedades destaca a irredutibilidade de uma transmissão - que é de outra ordem que não a da vida segundo as satisfações das necessidades, mas é de uma constituição subjetiva, implicando a relação com um desejo que não seja anônimo. (LACAN, 1969/2003, p. 369).

A partir dessa releitura, pode-se compreender que a conservação da família está interligada com a urgência em transmitir e a um desejo de assegurar a perpetuidade da herança genealógica. A transmissão psíquica geracional se relaciona com o mito do progresso, onde é evidente a busca pela continuidade, tanto singular quanto grupal. Isso implica dizer que há um laço e uma distância entre o “transmissor” e o “receptor”, o que pode originar um trabalho de ligação e transformação, deixando uma marca individual nesse percurso. Porém, o trabalho da transformação pode falhar, impondo uma transmissão bruta aos descendentes (GRANJON, 2000).

Retomando as discussões sobre o conceito de transmissão em psicanálise, Granjon (2000) aponta que podem ser definidos dois tipos de transmissão psíquica: A transmissão psíquica intergeracional se caracteriza pela passagem de conteúdos de uma geração para a outra, acompanhada de modificações do que é transmitido, pelo fato de haver o contato direto entre as gerações. Já a transmissão psíquica transgeracional são descendências distantes, nas quais se encontram lacunas e falhas daquilo que foi operado pela transmissibilidade. Desta forma, tais processos restringem a possibilidade de que a simbolização psíquica ocorra pelas lacunas e distâncias que portam, o que viabiliza a ocorrência de repetições geracionais.

Neste sentido, pode-se destacar uma dimensão da transmissão denominada como o segredo, podendo ser compreendido como histórias que não são ditas, mas que insistem na história familiar, desencadeando sintomas geracionais (INGLEZ-MAZZARELLA, 2006). Os segredos podem ser manifestos tanto pela forma do não-dito quanto pela forma do inominável. O primeiro modo está associado a uma interdição, sendo algo ocultado pelas gerações por disparar sentimentos culpa e vergonha. Consequentemente, as histórias se perpetuam por se colocar como aquilo que não pode ser conversado (AZEVEDO; FÉRES-CARNEIRO; LINS, 2015). O modo do segredo como o inominável encontra-se fora do simbolizável. Por isso, transita pelas genealogias como tentativa de representação, por terem faltado palavras para simbolizar o acontecimento traumático (CORREA, 2000).

Entenda-se que o que se transmite é o que se repete, e, ainda, o ato de repetir representa o que não foi simbolizado. Freud (1920/1996) afirma que o princípio do prazer é constituído por uma insistência em repetir experiências relacionadas ao sofrimento. Contudo, repetimos, sim, mas nunca da mesma forma, pois não há memória que seja pura.

A clínica nos indica que o sujeito não é passivo em sua história, pois é possível experimentar um limite transformador, como se valêssemos da metáfora do mosaico, onde cada traço, cada elemento, entra diferentemente na composição da obra, ainda que partindo de um dado anterior (CAREL, 1998). Assim, este trabalho propõe pensar a transmissão como o processo que colocará em movimento aquilo que se repete, mas que também suscita a diferença, pois o sujeito-protagonista de sua história é capaz de transformar o conteúdo recebido em algo singular.

A metáfora de uma transmissão em mosaico é muito pertinente porque direciona a um trabalho de aposta na alteridade das gerações e de modificações daquilo que nelas foram depositadas. Na Carta 52, Freud afirma: “O material presente em forma de traços de memória estaria sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo segundo novas circunstâncias a uma retranscrição” (FREUD, 1886/1996, p. 281).

Para Gianesi (2005), a repetição está relacionada à falta, sendo próprio da repetição o fracasso da tentativa de reencontrar o perdido. Desta forma, afirma-se que não há repetição total; o que se busca é a origem mítica, não sendo possível encontrá-la. Então, pode-se indicar que há a prevalência de um não-sabido, de um trauma, ou de uma falta na transmissão. Pode-se também demonstrar que a falta põe em movimento tanto aquilo que se refere ao desejo como aquilo que se refere ao gozo.

Mas há também um indizível que não é possível ser narrado, que Freud (1914/1996) assinala como experiências que de nenhuma forma podem ter sua lembrança recuperada, e para deixar de repetir é preciso revivê-la, atuá-la na transferência. Em Construções em análise (1937/1996), Freud afirma que o analista incide nos elementos que estão presentes, mesmo os que foram esquecidos e estão inacessíveis, utilizando-se de fragmentos que aparecem na transferência através das repetições.

Entenda-se que, na transferência do tratamento, mesmo diante daquilo que se repete, abre-se espaço para que algo se modifique. Logo, a narrativa que se segue é uma vinheta clínica e deseja constituir-se como pistas para elucidar as discussões feitas até aqui.

“Jogar com as Regras do Jogo”: a história-travessia de uma menina na constituição de si

Aos três anos de idade, B. morava com seu pai, a madrasta (que via como uma mãe) e seu irmão mais novo, filho do casal.

B., apesar de muito nova, assumia funções de adulto e cuidava do seu irmão, pois os responsáveis trabalhavam fora. Um dia, não se sabe ao certo o motivo, a madrasta deixa a família e vai embora para outro estado, levando apenas seu filho. Isso faz com que B. volte a morar com sua mãe biológica.

Quando B. estava com seis anos de idade, seu pai foi preso por assassinar sua mãe. Um grande abandono se coloca e B. fica sem lar. As famílias dos genitores discutem qual o destino da menina: adotá-la ou encaminhá-la a um abrigo. A família materna de B. não quer se responsabilizar pela menina e quem a adota é a esposa do irmão do pai de B. Um detalhe registra-se aqui: o pai de B. era adotado e não tinha contato com sua família biológica tampouco a adotiva. Ainda assim, a família que adotou o pai de B. diante do que estava para acontecer, decidiu assumir o compromisso de ficar a criança.

B. chega ao atendimento aos 9 anos de idade e pouco sabe da sua história ou da história dos seus pais, pois vários desdobramentos e fatos foram mantidos em segredo pelos tios “de consideração” da menina.

No primeiro atendimento feito com a criança, ela escolhe jogar Cara a Cara. No decorrer do jogo, ela percebe que não estávamos jogando da maneira correta. Logo, ela se expressa: “Ei, não é assim, tem que jogar com as regras do jogo”. E logo me pergunto: quais são as regras desse jogo?

Sabe-se que o sintoma é o que faz o sujeito sofrer e este sofrimento porta uma verdade, sendo também o sintoma o modo pelo qual o sujeito goza. Sendo assim, o sintoma é de extrema importância para o sujeito por representar uma mensagem (sintoma-mensagem) de uma representação inconsciente. Para Quinet, “o sintoma nos indica que o passado é atual e o desejo eterno dói” (QUINET, 2008, p. 17). O autor propõe que o sintoma faz compreender o passado atualizado e expresso na formação substitutiva.

B., apesar de muito nova, carrega consigo um histórico de muitas perdas. Mas, enquanto isso, a garotinha de pouca idade reconhece que, se não fizer valer as regras do jogo, pode perder mais coisas.

“Eu quero o jogo da memória”: o ato que fala

Muitas foram as tentativas de inserir outros jogos lúdicos, mas raríssimas foram as sessões que B. não optou pelo jogo da memória, sendo este o seu preferido. Vale mencionar que a brincadeira em que houve mais expressão de raiva foi a de “contar histórias”. Esta escolha não é insignificante, aliás, o contar histórias, para esta garotinha, que mal sabe do seu passado, era um tanto insuportável.

Na prática clínica, não é incomum atestar a demanda de tratamento dos pais ou responsáveis quanto à aparição dos sintomas infantis. No entanto, Lacan (1969/2003) afirma que o sintoma da criança corresponde ao que existe de sintomático na família, representando a verdade do par parental. Porém, muitas vezes, a criança não consegue elaborar esses sintomas em palavras, sendo o ato que continua a falar.

Este fato traz uma questão da prática psicanalítica que é o não dizer tudo, mas falar o que puder ser dito. E o que B. oferece naquele momento era jogar com a memória, não sendo esta uma escolha aleatória. Memórias que não necessariamente foram faladas, mas foram postas em ato.

Em Repetir, recordar e elaborar, Freud introduz a compulsão como outra modalidade da memória: “O paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo” (FREUD, 1914-1996, p. 165).

“Yes! Estamos presas!”: os conteúdos não-ditos como causadores de sintomas

Com grande frequência, chegam à clínica questões referentes a um segredo, do que não pode ser falado ou encontra-se velado sobre a história de uma criança. Desta forma, os conteúdos não-ditos podem ter uma relevância como causadores de sintomas, sendo este um elemento na produção sintomática. O não-dito só irá produzir sintoma quando o significante estiver articulado a algo primordial para o sujeito. Como diz Lacan: “A Coisa só se apresenta para nós na medida em que ela acerta na palavra, como se diz acerta na mosca” (LACAN, 1959/1960, p. 71).

E apenas uma brincadeira foi capaz de fazer o jogo da memória desaparecer e dar lugar a outra cena: o “brincar de estar presa”. Após algumas visitas que B. fez ao seu pai na prisão, ela ensaia uma brincadeira de ficar com as portas e janelas trancadas, com as luzes apagadas, como se estivéssemos presas. Curiosamente, não era mais preciso relembrar as memórias, porque de alguma forma elas estavam manifestas.

“Roubar é um desvio de conduta”: uma desorganização necessária

As visitas ao seu pai na prisão ainda estavam presentes quando B. manifesta um novo sintoma: furtar objetos. A tia que a adotou, muito preocupada, refere-se ao comportamento da menina como “desvio de conduta” (sic). Nas sessões, B. não sabe contar sobre o que levou seu pai à prisão. Porém, em ato lúdico, torna-se presa e depois apresenta comportamento que poderia levar alguém a ficar preso: roubar. Inclusive, a tia já havia indicado que isso poderia acarretar uma prisão.

Neste momento, em atendimento com a tia, interveio-se afirmando que o crescimento produz desvios. A intervenção do analista mostra à tia que era necessário retificar as formas de nomeação dos atos e produzir mudanças de sentido. Ou seja, passar de um sentido fechado e destituído a uma afirmação de que a vida produz desvios.

Julien (2000) aponta que nem sempre os desvios de trajetória têm que ser negativos ou repetitivos, mas podem dar vazão a novas experiências:

Dar direito a seus próprios pensamentos, sejam eles nobres ou baixos, nascidos na paixão ou na serenidade, e acolher a contradição entre eles tornou-se uma boa chance a ser agarrada. O indivíduo não é mais chamado a dominar seu destino, mas bem antes a ser desapossado de uma identidade fixa. (JULIEN, 2000, p. 21).

Pode-se compreender que B. dá vazão para que algo se repita na sua história diante da história do seu pai. A partir desta cena que se instala, o direcionamento clínico para B. foi o de abrir caminhos para que algo novo pudesse se configurar, apostando num trabalho de ligação e transformação. A intervenção junto à tia e à menina de que crescer era produzir desvios possibilitou que B. se apropriasse de outras formas dos rastros da sua história e diferenciasse suas “destinações”, a fim de inscrever sua marca singular, visto que sua história não precisava ser como a do pai, nem precisava estar como ele: preso.

“Espaço é liberdade”: construção da própria verdade

Após algumas intervenções, a garotinha, ao brincar de montagens, começa a mudar as regras dos jogos que escolhia, dizendo que “é chato jogar sempre com a regra do jogo”. Realmente, não é preciso tomar o que está posto como a única forma de verdade, uma vez que existem regras que podem mudar.

B. começa a jogar inventando jeitos. Inscreve nos novos modos de jogar sua singularidade. E, mais uma vez, B. retoma o jogo da memória, mas com uma diferença. As figuras precisavam estar afastadas umas das outras, isso porque “espaço é liberdade” (sic.).

Este significante liberdade chama a atenção, pois se configura como algo que seu pai não tem no momento, mas que B. afirma ter, fazendo referência ao espaço de liberdade que tem em seu quarto.

Além do mais, os “desvios de conduta” não se apresentaram novamente, mas vale ressaltar que, apesar de ter causado espanto por parte da família, foi necessária a aparição desta desorganização para que algo pudesse ser tratado. Não há possibilidade de intervenção sem que os sintomas apareçam.

O tratamento do sintoma permite a apropriação da verdade inconsciente, que sempre desvela a castração do sujeito desejante. A verdade do sujeito do inconsciente demonstra sua ligação com o plano dos afetos e da história. Não se trata de afirmar o trabalho analítico pelas vias de prescrições conscientes, mas de criar um saber que não se sabe, capaz de franquear saídas singulares que inscrevam a história do sujeito do inconsciente de forma a favorecer que ele lide com as lacunas e impossibilidades sem adoecer ou aprisionar-se (Lacan, 1969/1970).

Para B. remontar a sua história abriu a possibilidade de se reconstruir a partir do momento em que pôde contá-la do “seu jeito”, ou seja, sendo protagonista de sua história.

Considerações finais

Apesar de todas as mudanças nas configurações familiares e estas serem vistas como uma ameaça por alguns, entenda-se que esta precisa estar constantemente em reajustes, para que seja possível acompanhar as novas recomposições de mundo. A família de B. é um exemplo das novas organizações, posto que, para esta família existir, é preciso estar vinculada a um desejo que não seja anônimo. Ou seja, todos nós precisamos ser adotados do ponto de vista do desejo. Apesar de todos os impasses dos “tios” em assumirem a guarda da menina, estes os fazem, com seus temores, possibilidades e investimentos. E a garotinha tateia na vida tentando encontrar rumos para sua história mal contada.

Desta forma, o exercício da parentalidade é influenciado pela forma como o sujeito recebe o que foi ouvido, percebido e vivenciado por ele e outras gerações. Articulam-se, então, os termos parentalidade e transmissibilidade, uma vez que a parentalidade é construída a partir de um campo relacional, visto que a história individual também é a história da humanidade.

Todo ser é uma junção do passado com o presente, de forma que a sua história se organiza por meio dos resíduos de linguagens que construíram uma verdade. Construir “uma verdade” é pensá-la como não-toda, pelo fato de estar no plano da impossibilidade acessar a verdade plena, sendo esta inserida em um contexto de mosaico. E cada sujeito que a recebe, lida e se apropria de modo singular, havendo construiram desta forma, a possibilidade de transformação deste material.

Contudo, o trabalho de transformação por parte das gerações pode conter falhas que se impõem como uma transmissão bruta aos descendentes, pelo fato de que o que se transmite são os conteúdos não elaborados e qualquer episódio cujo afeto não foi expresso. São consideradas vias privilegiadas de transmissão as histórias insistentes que não foram verbalizadas, portanto, não foram simbolizadas, ou por estarem sustentadas por um segredo.

Assim, pensar em transmissão é pensar também no que se repete, sendo que a repetição se dá pela ordem do que não está simbolizado. Assim, para deixar de repetir, é preciso atuá-la na transferência, colocando em movimento a própria repetição.

Trazer consigo parte da história dos antepassados e arranjos familiares faz-se imprescindível, pois é a partir disso que serão extraídos os processos identificatórios capazes de nos constituir como sujeitos. No entanto, tanto a transmissão quanto a repetição, sendo elas não-todas, colocam em jogo a modificação e transformação como possibilidades de reajustar a herança psíquica em algo próprio.

Por fim, o conceito da transmissibilidade corresponde a um recurso teórico significativo a ser investigado pela clínica psicanalítica, pois dá suporte a outros conceitos fundamentais como o trauma, o sintoma, a fantasia, os fantasmas e a repetição, os quais, devido às condições pontuais do objetivo deste trabalho, não foram propriamente dissertados, mas, diante da sua relevância, restam como pistas para outros desdobramentos.

Portanto, entender e conhecer a respeito sobre o tema da transmissão psíquica geracional torna-se um dispositivo clínico importante para o manejo e a condução clínica dos casos. Este artigo acena caminhos para múltiplas discussões, pois abre espaço para que algo novo se produza do próprio inacabamento que a experiência clínica realiza.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 10 de Maio de 2018; Aceito: 08 de Dezembro de 2019

Camilla Viana Gonçalves Pereira - Doutoranda em Psicologia, Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Salamanca (USAL), Salamanca, Castela e Leão, Espanha. camillavianagp@gmail.com

Maria Carolina Andrade de Freitas - Professora Doutora titular da Universidade Vila Velha, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vila Velha, Espírito Santo, Brasil. maria.andrade@uvv.br

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