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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.10 no.3 São Paulo  2008

https://doi.org/10.1590/S1516-18462008000300002 

EDITORIAL II

 

Comunicação alternativa na fonoaudiologia: uma área em expansão

 

 

A Comunicação Alternativa e Suplementar surgiu na atividade clinica da necessidade de encontrar formas de comunicação possíveis para pessoas que não conseguiam fazê-lo por meio da fala. Embora do ponto de vista histórico possa ser considerada uma área muito jovem, com poucas décadas de existência, muitas têm sido as conquistas tanto na consolidação de conhecimento teórico subjacente aos aspectos relacionados à Comunicação Alternativa e Suplementar e seus usuários, quanto no desenvolvimento de tecnologias que viabilizem o seu uso.

Diversos fatores históricos, sociais e econômicos deram suporte ao surgimento da Comunicação Alternativa nos anos 50. O aumento da expectativa de vida que, por sua vez, aumentou a população com risco de adquirir problemas como resultado de lesões neurológicas, traumatismos e acidentes vasculares encefálicos. As conseqüências da Segunda Guerra Mundial, quando muitas pessoas sofreram lesões, criaram uma demanda de assistência neuropsicológica, especialmente para o exercício de funções de comunicação. Nos anos 60 mudanças sociais e políticas geraram um forte aumento de atividade na área de direitos civis, na política educacional e, portanto, também em relação aos direitos dos deficientes. Mais recentemente, entre os vários fatores diretos ou indiretos que contribuíram para o crescimento da área de comunicação alternativa está o desenvolvimento tecnológico que tem influenciado a sociedade atual, não só como meio de facilitar e aumentar produção e melhorar a qualidade de vida, mas também para a comunicação, eliminando distâncias e barreiras.

A Comunicação Alternativa e Suplementar é definida como uma área de atuação clínica que objetiva compensar temporária ou permanentemente dificuldades de indivíduos com desordens severas de expressão. Apesar de a Comunicação Alternativa e Suplementar estar tradicionalmente associada ao trabalho com pessoas com paralisia cerebral, que podem beneficiar-se de soluções tecnológicas, tanto para fins de locomoção quanto de controle de ambiente e comunicação, é cada vez maior o número e a variedade de pacientes indicados para intervenção com Comunicação Alternativa e Suplementar. Com o desenvolvimento da área, seu uso estendeu-se a pessoas com outros quadros clínicos em que alterações de comunicação estão presentes, tais como: afasia, disartria, autismo, deficiência mental, esclerose lateral amiotrófica, entre outros. Os avanços tecnológicos possibilitam a esses usuários um número cada vez maior de opções de recursos e sistemas de comunicação.

Considerando tal diversidade e a gama de aspectos envolvidos em cada usuário, para que se possa fazer uma indicação que otimize o uso funcional dos sistemas de Comunicação Alternativa, é preciso compreender a natureza dos sistemas de Comunicação Alternativa e Suplementar, as habilidades sensoriais, motoras, lingüísticas e cognitivas do usuário, bem como o seu contexto social. Por isso, é fundamental que os profissionais se preocupem com a qualidade de sua formação e atuação clínica, e que se mantenham atualizados com respeito a esses recursos e à literatura acerca de seu emprego e que estejam abertos a formação e uma atuação interdisciplinar.

Para além da tecnologia, é essencial ter em mente o objetivo principal da Comunicação Alternativa, isto é, a comunicação, como meio de garantir a seus usuários a participação na vida social, em seus vários contextos. O fonoaudiólogo tem um papel central neste trabalho, pois é pela comunicação que se pode garantir às pessoas o exercício da autonomia diante dos fatos da sua vida. Como afirma Guy Durand: "A autonomia no sentido ético é em primeiro lugar a capacidade de decidir... O sentido da autonomia é a liberdade de decidir de modo responsável... A responsabilidade de refletir sobre as exigências "objetivas" do respeito e da promoção da dignidade humana em mim e em cada ser... Respeitar a autonomia de outrem não é apenas recorrer à autodeterminação, mas ajudar essa pessoa a ir ao limite de si mesma, ajudá-la a descobrir e a escolher o que está de acordo com a dignidade humana."

 

Profa. Dra. Maria de Jesus Gonçalves
Fonoaudióloga
Docente do Curso de Mestrado em Bioética do Centro Universitário São Camilo

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