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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846

Rev. CEFAC vol.12 no.3 São Paulo May/June 2010  Epub May 21, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462010005000044 

ARTIGOS DE REVISÃO

 

Perfil da fala do respirador oral

 

Speech profile of the mouth breather

 

 

Cintia Megumi NishimuraI; Sandra Rosa Machado Luz GimenezII

IFonoaudióloga; Clínica Cíntia Nishimura, Maringá, PR, Brasil; Aperfeiçoamento em Voz pelo INVOZ - Instituto de Comunicação e Voz Profissional; Especialista em Voz pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia; Especialização em Motricidade Orofacial; Mestranda em Educação na Universidade Estadual de Maringá
IIFonoaudióloga; Clínica Sandra Gimenez, Maringá, PR, Brasil; Especialista em Motricidade Orofacial pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia; Mestre em Distúrbios da Comunicação pela Universidade Tuiuti do Paraná

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

TEMA: alteração de fala em respiradores orais.
OBJETIVO: o presente estudo investigou através de levantamento bibliográfico dos últimos dez anos o perfil de fala em respiradores orais.
CONCLUSÃO: constata-se a necessidade em realizar estudos mais profundos sobre este assunto para identificar as características da fala dos respiradores orais. Tais informações são muito úteis para o fonoaudiólogo, tanto para a realização de uma boa avaliação como no melhor atendimento destes indivíduos.

Descritores: Respiração Bucal; Distúrbios da Fala; Fala


ABSTRACT

BACKGROUND: alteration of speech in mouth breathers.
PURPOSE: this study carried out a bibliographic review over the last ten years about mouth breathers' speech profile.
CONCLUSION: there is a need to carry out more thorough studies on this subject to identify the speech characteristics of mouth breathers. Such information is very useful for the speech therapist, both for making a good assessment as well as for providing the best care for these individuals.

Keywords: Mouth Breathing; Speech Disorders; Speech


 

 

INTRODUÇÃO

Com o passar dos anos, aumentou o número de indivíduos que apresentam problemas respiratórios, sendo que em alguns casos, são de difícil diagnóstico e tratamento.

A respiração oral, entre diversos problemas, pode ocasionar alteração da fala. A articulação dos sons depende da mobilidade da língua, lábios e bochechas e, da posição dos dentes, mandíbula e língua 1, necessitando de posicionamentos e movimentos precisos dos articuladores, que somente são viáveis na presença de uma adequada estrutura morfológica orofacial 2. Os problemas de fala podem ser causados por alterações de mobilidade, tônus e postura dos órgãos fonoarticulatórios e alterações das estruturas orofaciais, muito comum em respiradores orais.

A partir de novas pesquisas sobre a fala do respirador oral, o fonoaudiólogo terá a oportunidade de compartilhar seus achados clínicos com a literatura, tornando desta forma, seu atendimento mais funcional e preciso. É importante investigar as alterações de fala em respiradores orais, visto que há escassez de estudos que versem exclusivamente sobre distorções articulatórias nessa população e, os poucos trabalhos existentes, abordam sobre as alterações de fala indiretamente.

Este estudo teve como objetivo verificar na literatura científica, o perfil de fala do respirador oral.

 

MÉTODOS

Foi realizado um levantamento bibliográfico durante o ano de 2008, priorizando os estudos nacionais. A pesquisa foi realizada em 21 periódicos dos últimos dez anos, disponíveis no Portal Periódicos da CAPES, sendo cinco da área de fonoaudiologia, um de otorrinolaringologia, seis de odontologia, um de ortodontia, três de pediatria, dois de pneumologia, dois de psicopedagogia, um de reumatologia e dois de fisioterapia, a fim de verificar o perfil de fala em indivíduos com respiração oral. Foi realizado um levantamento bibliográfico também de monografias e dissertações online, de revistas nacionais de fonoaudiologia não encontradas no Portal Periódicos da CAPES e de livros. As palavras chaves utilizadas na pesquisa foram: respiração oral, respiração bucal, distúrbios da fala e fala dos respiradores orais.

 

REVISÃO DA LITERATURA

A respiração é uma função vital que interfere no organismo como um todo 3. As principais funções do nariz são: filtração, aquecimento e umidificação do ar inspirado 4. A filtração do ar e a proteção das vias aéreas inferiores são realizadas pelos pêlos, função ciliar e ação química bactericida do muco. As conchas nasais, uma das partes internas do nariz, regulam o fluxo respiratório com o aumento do seu volume. O aquecimento do ar é garantido pela irrigação de calor e a umidificação é fornecida pelo contato do ar com o líquido seroso existente na cavidade nasal, com a secreção lacrimal e com o muco que adere partículas estranhas por conter um fermento bactericida. Essas funções condicionam o ar que chega aos pulmões 5.

A respiração nasal favorece o crescimento e desenvolvimento craniofacial, cujo processo fisiológico inicia-se a partir da passagem do ar pelo nariz 6.

A principal causa da respiração oral são as doenças obstrutivas, tais como: rinite alérgica, hipertrofia das tonsilas palatinas e faríngeas 7. Essas doenças obrigam o indivíduo a modificar o padrão respiratório nasal para oral. A obstrução nasal é muito comum na infância 8.

O respirador oral apresenta características inconfundíveis: lábios entreabertos, língua no soalho bucal, hiperfunção do músculo mentual ao realizar o vedamento labial, lábio inferior com eversão, problemas de oclusão dentária 9, palato atrésico e ogival 10, flacidez de bochechas e aumento da altura da face 11. A fala pode ser imprecisa com presença de sigmatismo anterior ou lateral e a voz pode ser alterada pelo ressecamento dos tecidos da laringe que prejudica a vibração das pregas vocais 12.

As consequências da respiração oral, muitas vezes são irreversíveis para o crescimento e desenvolvimento da criança como: alterações posturais 13,14, craniofaciais 15,16, oclusais 17,18, auditivas 19, vocais 17, articulatórias 13,18,19, nas funções estomatognáticas 13,19, dos órgãos fonoarticulatórios 14,15, redução de apetite, dificuldades de atenção e concentração, agitação, ansiedade 14 e dificuldade na aprendizagem 13,14,20, desempenho inferior de habilidades fonológicas 7 e envelhecimento facial precoce em comparação aos respiradores nasais, destacando-se maior presença de olheiras, rugas abaixo dos olhos, sulco mento-labial, face discretamente alongada na região das bochechas e maior desproporção facial 21.

Além dos problemas de respiração, mastigação, deglutição, postura e tonicidade dos órgãos fonoarticulatórios, os respiradores orais podem apresentar também distúrbio articulatório 22,23.

A má-oclusão, uma das principais características do respirador oral pode acarretar dificuldades ou desvios de produção fonético/articulatório 24.

Entretanto, existem poucos trabalhos que relatam a ocorrência de distúrbios articulatórios decorrentes a este tipo de respiração.

Foram encontrados estudos relacionados ao respirador oral como: tipos de respirador oral 22, estudos cefalométricos 25, alterações craniofaciais 26, periodontais 27, faciais 22,28, comportamentais 28, posturais 14,29, dos órgãos fonoarticulatórios 30, da força de língua 31, do estado nutricional 32, dos problemas de aprendizagem em crianças com obstrução das vias aéreas superiores associados às dificuldades de atenção 20, correlação de problemas posturais com a aprendizagem 13, associação da respiração oral com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade 33.

Constatou-se escassez na literatura nacional dos últimos 10 anos sobre a fala dos respiradores orais. Foram encontrados 38 estudos sobre respiração oral, e destes, somente um sobre a fala desses indivíduos.

Devido à diversidade de achados morfo-funcionais, a atuação multidisciplinar é muito importante para o respirador oral 7,13. Pensando neste aspecto, o respirador oral pode se beneficiar muito com a terapia fonoaudiológica, pois esta permite a reabilitação funcional do sistema estomatognático.

 

CONCLUSÃO

Constata-se que há necessidade em realizar estudos específicos sobre a fala em respiradores orais, com o objetivo de averiguar a prevalência e identificar as alterações mais frequentes, visto que, em alguns casos, apenas a terapia miofuncional orofacial possibilita indiretamente e diretamente a melhora da fala, principalmente em crianças. Muitos respiradores orais procuram o tratamento fonoaudiológico para amenizar as consequências causadas por esta alteração, com isso a identificação das características de fala é útil para o fonoaudiólogo, tanto na avaliação como no atendimento destes indivíduos, possibilitando inclusive a elucidação do prognóstico.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Cintia Megumi Nishimura.
Rua Aristides Lobo, 420 ap. 501
Maringá - PR
CEP:87030-240
E-mail: cnishimura@bol.com.br

Recebido em: 13/03/2009
Aceito em: 02/11/2009

Conflito de interesses: inexistente

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