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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.13 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2011 Epub June 10, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462011005000048 

Coordenação motora fina de escolares com dislexia e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade

 

Fine motor coordination of students with dyslexia and attention deficit disorder with hiperactivity

 

 

Paola Matiko Martins OkudaI; Maria Dalva LourencettiII; Lara Cristina Antunes dos SantosIII; Niura Aparecida de Moura Ribeiro PadulaIV; Simone Aparecida CapelliniV

ITerapeuta Ocupacional voluntária do Grupo de Pesquisa CNPq "Linguagem Aprendizagem e Escolaridade" da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade estadual Paulista - FFC/UNESP - Marília - SP; Aluna especial do Programa de pós-graduação em Educação (Mestrado) da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade estadual Paulista - FFC/UNESP, Marília, SP
IINeuropsicóloga do Ambulatório de Desvios da Aprendizagem do HC/FM/UNESP - Botucatu, SP; Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade do Sagrado Coração - USC, Bauru, SP
IIINeurologista Infantil; Responsável pelo Ambulatório de Desvios da Aprendizagem do HC/FM/UNESP, Botucatu, SP
IVNeurologista Infantil; Doutora em Ciências Médicas pela FCM/UNICAMP, Campinas, SP; Docente do departamento de Neurologia e Psiquiatria da FM/UNESP, Botucatu, SP
VFonoaudióloga; Docente do departamento de Fonoaudiologia e do programa de pós-graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista - FFC/UNESP, Marília, SP; Doutora e Pós-doutora em Ciências Médicas pela FCM/UNICAMP, Campinas, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: descrever e comparar o desempenho da coordenação motora fina em escolares com dislexia e com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade utilizando parâmetros de desempenho motor e idade cronológica da Escala de Desenvolvimento Motor.
MÉTODO:
participaram 22 escolaresdo ensino fundamental, de ambos os gêneros, na faixa etária de 6 a 11 anos de idade distribuídos em: GI: 11 escolares com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e GII: 11 com dislexia. Como procedimento, provas de motricidade fina da Escala de Desenvolvimento Motor foram aplicadas.
RESULTADOS: os resultados revelaram diferença estatisticamente significante entre a idade motora fina e a idade cronológica de GI e GII. Conforme a classificação da Escala do Desenvolvimento Motor, 90% dos escolares de GI e GII apresentaram desenvolvimento motor fino muito inferior ao esperado para a idade e 10% dos escolares com dislexia apresentam desenvolvimento normal baixo ao esperado para a idade e 10% dos escolares com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade apresentaram desenvolvimento inferior ao esperado para a idade.
CONCLUSÃO: concluímos que tanto os escolares com dislexia como os com TDAH deste estudo apresentam atrasos na coordenação motora fina, demonstrando que os participantes desta pesquisa apresentam dificuldades em atividades que exijam destreza, quadro característico do transtorno do desenvolvimento da coordenação. Estudos complementares estão sendo conduzidos pelos autores deste estudo para poder verificar e comprovar se o perfil motor fino dos escolares encontrados neste estudo se assemelham ou se diferem de acordo com o quadro apresentado pelos mesmos.

Descritores: Destreza Motora; Dislexia; Transtorno da Falta de Atenção com Hiperatividade


ABSTRACT

PURPOSE: to describe and compare the fine motor coordination performance of students with dyslexia and with Attention Deficit and Hyperactivity Disorder.
METHOD: the study included 22 elementary school students of both genders, aged from 6 to 11-year old, divided into: GI: 11 students with Attention Deficit and Hyperactivity Disorder and GII: 11 students with dyslexia. For the procedure, tests of fine motor skills from the Motor Development Scale were applied.
RESULTS: the results showed a statistically significant difference between the fine motor age and chronological age of the students at GI and GII. According to the classification of the Motor Development Scale, 90% of students from GI and GII demonstrated fine motor development much lower than expected for their age, 10% of the students with dyslexia demonstrated low normal development as for the expected value according to age and 10% of students with Attention Deficit and Hyperactivity Disorder demonstrated inferior development than what is expect for their age.
CONCLUSION: we concluded that both students with dyslexia and with ADHD in this study show a delay in fine motor coordination, demonstrating that the participants of this research have difficulties in tasks that require dexterity, characteristic condition of the coordination development disorder. Additional studies are being conducted by the authors of this study in order to ascertain and to check if the fine motor profiles of students in this study is similar or differ according to their condition.

Keywords: Motor Skills; Dyslexia; Attention Deficit Disorder with Hyperactivity


 

 

INTRODUÇÃO

Durante anos, o desenvolvimento motor e o cognitivo foram estudados separadamente, como se houvesse pouca relação entre eles. Contudo, estudos recentes têm demonstrado que a motricidade e a cognição estão muito mais relacionadas do que se pensava, principalmente na etapa de alfabetização 1,2. O período da alfabetização é o momento em que há uma superposição de habilidades para a ocorrência da aprendizagem da leitura e escrita. Essa aprendizagem envolve habilidades cognitivas, linguísticas e motoras que exigem dos escolares o uso dos componentes sensório-motores e perceptivos, ou seja, a capacidade de decodificação das palavras e a ação motora adequada para a execução do ato motor da escrita 3.

Segundo Schirmer et al. 4, o processo de aquisição da linguagem escrita, assim como o da linguagem oral, envolve diversas regiões cerebrais, entre elas a área parieto-occipital. Na região occipital, o córtex visual primário é o responsável pelo processamento dos símbolos gráficos, e as áreas do lobo parietal são responsáveis pelas questões visuo-espaciais da grafia. Essas informações processadas são reconhecidas e decodificadas na área de Werneck, responsável pela compreensão da linguagem, e a expressão da linguagem escrita necessita da ativação do córtex motor primário e da área de Broca. Para todo este processo ocorrer, é importante que as fibras de associação intra-hemisféricas estejam intactas.Na região anterior do cérebro é que acontece o planejamento, organização e execução do movimento. Outras áreas também participam da ação motora, enviando mensagens, dosando a força, a agilidade, fornecendo feedback visual, táctil e auditivo, permitindo, dessa forma, o ajuste constante do movimento5. Desta forma, qualquer alteração neurofuncional nas regiões cerebrais responsáveis pela entrada, processamento e execução da informação pode comprometer o desempenho práxico-produtivo envolvido no ato de ler e escrever.

Entre os transtornos que acometem o desempenho práxico-produtivo envolvido no ato de ler e escrever estão a dislexia e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)6-12. A literatura13-16 aponta que tanto escolares com dislexia como escolares com TDAH podem apresentar, em sua história acadêmica, o fracasso escolar, quer seja determinado por alterações na entrada da informação, como ocorre no TDAH, ou no processamento cognitivo da leitura, como ocorre na dislexia.

Estudos demonstraram que tanto a população disléxica como a população com TDAH apresentam dificuldades na coordenação bimanual, destreza manual e habilidades motoras finas, o que justificaria a ocorrência da disgrafia nesta população 3,16-18. Entretanto, apesar de estes estudos apontarem essas dificuldades, a literatura especializada não referiu se as dificuldades motoras finas e a disgrafia encontrada nestas populações são partes dos quadros de dislexia e de TDAH ou se é decorrente de um quadro de transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) em comorbidade.

As alterações motoras são comumente conhecidas como Transtorno do desenvolvimento da coordenação motora (TDC), que é descrito como um comprometimento nas habilidades motoras, sendo encontrado entre 5% e 7% de crianças em idade escolar na população geral12,19. Os sinais do TDC são geralmente associados a desajeitamento e inconsistência no desempenho de tarefas, coordenação motora pobre, problemas de ritmo e sua transferência de aprendizagem, declínio do desempenho com a repetição, tensão corporal e excesso de atividade muscular em tarefas motoras, podendo apresentar dificuldades nas tarefas de auto-cuidado, como vestir-se, nas atividades acadêmicas, de lazer e esportes, além de problemas com interações sociais19.

A literatura especializada refere que, ao menos, 50% dos escolares com problemas de aprendizagem são identificados concomitantemente com uma desordem no desenvolvimento da coordenação motora20,21. Na presença de dificuldades de aprendizagem, há maior probabilidade das funções práxicas e gnósicas estarem alteradas comprometendo a destreza, a velocidade de manipulação de objetos, exatidão do movimento, a postura da mão e as habilidades de escrita e consequentemente as tarefas funcionais, como abotoar, usar tesoura, manusear moedas, lápis e escrever 17,22.

No Brasil, ainda são escassos os estudos sobre o TDC e, desta forma, conforme aponta a literatura nacional14,15, é possível que escolares que apresentam alterações motoras associadas à dislexia e ao TDAH sejam sub-diagnosticados acarretando o desenvolvimento de programas de intervenção psicoeducacionais inadequados para esta população. Ainda, apesar de existirem na literatura internacional23-26 e nacional27,28 baterias que se propõem a avaliar a função motora fina, não há a descrição de normativa para a população brasileira, assim, para a realização deste estudo, optou-se pelo uso das provas de motricidade fina da Escala de Desenvolvimento Motor28devido à Escala apresentar resultados normativos para a população brasileira que permitem o estabelecimento da comparação do desempenho motor e a idade cronológica dos escolares deste estudo consoante os parâmetros da escala.

Com base no exposto, este estudo tem por objetivos descrever e comparar o desempenho da coordenação motora fina em escolares com dislexia e escolares com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade utilizando os parâmetros de desempenho motor e idade cronológica da Escala de Desenvolvimento Motor.

 

MÉTODO

Participaram deste estudo 22 escolares na faixa etária de 6 anos e 3 meses a 11 anos de idade, de ambos os gêneros, com nível socioeconômico médio, do ensino fundamental de escolas públicas e privadas. A classificação do nível socioeconômico foi realizada com base no estudo estatístico do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico - IDESE29, garantindo assim, a homogeneidade da amostra do ponto de vista socioeconômico. Os escolares foram divididos em dois grupos:

- Grupo I (GI): 11 escolares com diagnóstico interdisciplinar de Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), sendo 11 (100%) do gênero masculino. Esses escolares não apresentaram intercorrências pré, peri e pós-natais, nem tampouco atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, apresentando, portanto, o TDAH de origem primária.

- Grupo II (GII): 11 escolares com diagnóstico interdisciplinar de dislexia, sendo 4 (36%) escolares do gênero feminino e 7 (64%) do gênero masculino. Estes escolares não apresentaram intercorrências pré, peri e pós-natais, nem tampouco atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Todos os escolares apresentaram atraso no desenvolvimento da linguagem e transtorno fonológico presente na linguagem oral e escrita, apresentando, portanto, a dislexia de origem primária.

Os escolares dos grupos citados foram selecionados a partir do diagnóstico interdisciplinar confirmado de dislexia e TDAH, obtido a partir de avaliação neurológica, neuropsicológica, fonoaudiológica e terapêutico ocupacional em 65 escolares encaminhados para o Ambulatório de Neurologia Infantil - Desvios da Aprendizagem do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina- FM/UNESP - Botucatu-SP no período de maio a junho de 2009.

Para a realização deste estudo, foram utilizados os seguintes procedimentos:

- Termo de Consentimento: Conforme resolução do Conselho Nacional de Saúde CNS 196/96, anteriormente ao início das avaliações, os pais ou responsáveis dos pacientes selecionados assinaram o termo de Consentimento Pós-Informado para autorização da realização do estudo.

- Provas de motricidade fina da Escala de Desenvolvimento Motor (EDM28): A EDM compreende um conjunto de provas muito diversificadas e de dificuldades graduadas conforme a idade, conduzindo a uma exploração minuciosa de diferentes habilidades motoras do desenvolvimento da criança. Entretanto, para este estudo, foram utilizadas somente as provas específicas para avaliar a coordenação motora fina (MF). Foram aplicadas as seguintes provas de motricidade fina: Cubos em Torre, Cubos em Ponte, Agulha, Nó, Labirinto, Bolinha de Papel, Ponta do polegar, Lançar uma Bola, Círculo com polegar e Agarrar uma Bola. Os materiais utilizados para a aplicação deste procedimento foram: bola, cubos, cesto com buraco e pedaços de papel, conforme descrito no manual de aplicação do procedimento.

Os testes foram realizados segundo os critérios descritos no manual do próprio autor, por uma terapeuta ocupacional, em uma sala de atendimento do Ambulatório de Neurologia Infantil - Desvios da aprendizagem do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina- FM/UNESP - Botucatu-SP, em uma única sessão, com duração média de trinta minutos.

Os resultados foram analisados seguindo os critérios definidos na EDM28, ou seja, por meio do cálculo do quociente motor fino (QMF). Esse cálculo foi realizado por meio da divisão da idade motora fina (IMF) pela idade cronológica (IC) e multiplicado por cem (QMF= IMF/IC x 100), resultando em uma pontuação referente à função motora fina. Com a obtenção desta pontuação, esta foi classificada de acordo com parâmetros estabelecidos na Tabela 1.

 

 

Depois do término deste estudo, todos os pais ou responsáveis pelos escolares foram informados sobre os resultados por meio de relatórios e orientados sobre a necessidade do desenvolvimento de atividades com a função motora fina tanto em casa como em sala de aula. Para esta orientação foram entregue duas cópias do manual de atividades de função motora30, sendo uma para os pais ou responsáveis e uma para o professor destes escolares. Aos escolares que se encontravam em terapia multidisciplinar, um destes manuais também foi entregue para os terapeutas.

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista - FFC/UNESP/Marília - SP, sob o protocolo de número 3405/2006.

Os resultados obtidos foram analisados estatisticamente por meio do Teste dos Postos Sinalizados de Wilcoxon, com a finalidade de verificar possíveis diferenças entre a idade cronológica dos escolares e a idade da função motora; Teste de Mann-Whitney, com o objetivo de verificar diferença entre os grupos deste estudo; Teste de Friedman para verificar possíveis diferenças de desempenho dos grupos nos subtestes de função motora fina quando comparadas concomitantemente; e Análise de Correlação de Spearman, com o objetivo de verificar o grau de relacionamento entre os subtestes de função motora fina. O nível de significância (valor de p) adotado foi de 5% (0,050) e está marcado com asterisco. Para a análise dos dados, foi utilizado o programa SPSS (Statistical Package for Social Sciences), em sua versão 13.0.

 

RESULTADOS

Na Tabela 2, pode-se observar que os resultados dos subtestesde função motora fina, analisada pelo Teste Friedman, revelaram diferença estatisticamente significante tanto para o GI como para o GII, indicando que ocorreu diferença de desempenho entre os escolares com dislexia e TDAH nos subtestes de função motora fina.

 

 

Como na Tabela 2 foi evidenciada diferença estatisticamente significante para todos os subtestes, foi aplicado o Teste dos Postos Sinalizados de Wilcoxon para verificar em qual subteste os escolares do GI e GII apresentaram melhor desempenho (Tabela 3).

Na Tabela 3, pôde-se observar que os escolares do GI apresentaram desempenho superior em construção de cubos em torre (CT) se comparado a labirinto (Lab), bolinha de papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB) e círculo com o polegar (Cpo). Apresentaram desempenho superior na construção de cubos em ponte (CP) se comparado com labirinto (Lab), bolinha de papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB) e círculo com o polegar (Cpo). Apresentaram desempenho superior na prova da agulha (Agu) se comparado com labirinto (Lab), bolinha de papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB) e círculo com o polegar (Cpo). Apresentaram desempenho superior na prova do nó (Nó) se comparado com labirinto (Lab), bolinha e papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB) e círculo com o polegar (Cpo). Apresentaram desempenho superior na prova do labirinto (Lab) se comparado a círculo com polegar (Cpo) e agarrar uma bola (AB). Apresentaram desempenho superior na prova de ponta do polegar (PP) se comparado com agarrar uma bola (AB). E apresentaram desempenho superior em lançar uma bola (LB) e na prova círculo com polegar (Cpo) em relação a agarrar uma bola (AB).

Os escolares do GII apresentaram desempenho superior em construção de cubos em torre (CT) se comparado a labirinto (Lab), bolinha de papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB), círculo com o polegar (Cpo) e agarrar uma bola (AB). Apresentaram desempenho superior na construção de cubos em ponte (CP) se comparado a labirinto (Lab), bolinha de papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB), círculo com o polegar (Cpo) e agarrar uma bola (AB). Apresentaram desempenho superior na prova da agulha (Agu) se comparado a labirinto (Lab), bolinha de papel (BP), ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB), círculo com o polegar (Cpo) e agarrar uma bola (AB). E apresentaram desempenho superior na prova do nó (Nó) se comparado a labirinto (Lab) e círculo com polegar (Cpo).

Apesar de os escolares com dislexia e TDAH apresentarem dificuldades na realização das atividades motoras finas, os escolares com TDAH apresentaram maior média de acertos para execução de tarefas motoras finas do que os escolares com dislexia, como observado nas atividades de nó, labirinto, ponta do polegar, lançar uma bola e círculo com polegar.

A tabela 4 apresenta a comparação intra-grupo da idade cronológica e idade motora fina dos escolares do GI e GII. Com a aplicação do Teste dos Postos Sinalizados de Wilcoxon, verificou-se diferença estatisticamente significante para ambos os grupos, revelando que a idade motora fina tanto dos escolares com dislexia como com TDAH é inferior à idade cronológica.

 

 

Quando foram correlacionados os resultados dos subtestes com o número de escolares deste estudo, verificou-se que ocorreu correlação estatisticamente significante, a qual foi positiva, indicando que quanto menor o desempenho em pontuação dos escolares na atividade de fazer bolinha de papel (BP) menor o desempenho em pontuação na atividade ponta do polegar (PP); o mesmo ocorrendo entre a atividade ponta do polegar (PP) com as atividades do labirinto (Lab) e do círculo com o polegar (Cpo); entre a atividade de lançar uma bola (LB) com as atividades ponta do polegar (PP), círculo com polegar (Cpo) e agarrar uma bola (AB); e entre a atividade círculo do polegar (Cpo) com as atividades ponta do polegar (PP), lançar uma bola (LB) e agarrar uma bola (AB).

 


Tabela 5 - Clique para ampliar

 

Esses achados indicam que tanto os escolares com dislexia como os escolares com TDAH apresentaram dificuldades em atividades de preensão e pressão de objetos e coordenação visuo-espacial, o que pode ser justificado pela idade motora fina aquém do esperado para idade e escolaridade.

A partir dos achados deste estudo, observou-se que conforme a classificação da Escala do Desenvolvimento Motor, 90% dos escolares com dislexia e dos escolares com TDAH apresentaram desenvolvimento motor fino muito inferior ao esperado para a idade e 10% dos escolares com dislexia apresentam desenvolvimento normal baixo ao esperado para a idade, e 10% dos escolares com TDAH apresentaram desenvolvimento inferior ao esperado para a idade.

 

DISCUSSÃO

A coordenação motora fina é a função motora necessária para a realização de atividades que exijam destreza e os escolares com déficits motores geralmente têm dificuldade de adquirir habilidades motoras condizentes com a idade e acabam apresentando dificuldades nas tarefas funcionais diárias, no lazer e nas tarefas escolares3,15,16.

Com base nos dados obtidos, pôde-se ser observado que quando comparado os grupos deste estudo, tanto os escolares com dislexia quanto os escolares com TDAH apresentaram atraso no desenvolvimento da coordenação motora fina, corroborando os estudos descritos na literatura nacional14 e internacional8,31,32.

Nos resultados deste estudo, pôde-se verificar que tanto os escolares com dislexia como os escolares com TDAH apresentaram dificuldades na execução de atividades como: fazer bolinha de papel, ponta do polegar, círculo com o polegar, labirinto, lançar uma bola e agarrar uma bola. Entretanto, verificou-se que os escolares com TDAH apresentaram maior média de acerto para execução de tarefas motoras finas do que os escolares com dislexia, de acordo com a análise quantitativa de pontuação das provas.

Essas atividades cujos escolares deste estudo apresentaram dificuldades são descritas na literatura17,20,33,34 como aquelas que necessitam de movimentos de pinça tridigital, pinça polpa-polpa, oposição do polegar e movimentação do punho, além de graduação de força e pressão dos objetos e sincronização dos movimentos, exigindo alto grau de destreza motora, necessária para a aquisição do grafismo, além da integridade neuropsicológica necessária para a organização das informações exigidas para a execução dos movimentos finos.

Em geral, o TDC35,36 é caracterizado pelo comprometimento do desempenho motor, incluindo a coordenação motora fina, que se apresenta com idade motora inferior à idade cronológica, como observado nos escolares com dislexia e naqueles com TDAH deste estudo.

As alterações de função motora fina mostraram-se presentes nestas populações, levando à reflexão sobre a possibilidade de ocorrência de TDC em comorbidade com a dislexia e com o TDAH, corroborando os estudos nacionais14 e internacionais32,37, que descreveram que as alterações de função motora fina compõem o quadro de transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC), e que isso pode ser considerado uma comorbidade relacionada com a dislexia e o TDAH.

Como a avaliação motora é um elemento importante no exame de saúde geral de crianças, torna-se necessário que os aspectos quantitativos e qualitativos da investigação dos movimentos motores finos e globais sejam investigados, uma vez que estes podem refletir a integridade e a maturidade do cérebro e podem, provavelmente, fornecer indícios de alterações no desenvolvimento motor, como os observados nos escolares com dislexia e TDAH descrito na literatura6,9,12,15.

Essas alterações motoras quando presentes no quadro de dislexia e no quadro de TDAH e não evidenciadas no processo diagnóstico fazem com que as condutas, tanto terapêuticas quanto psicoeducacionais em relação a esses escolares, sejam inadequadas para suas necessidades, podendo desencadear problemas de baixa auto-estima, fracassos escolares e desmotivação para a aprendizagem15.

Portanto, em uma perspectiva diagnóstica, a determinação do perfil motor de escolares com dislexia e TDAH pode auxiliar na identificação não apenas da comorbidade destas condições com o TDC, como também na conduta terapêutica e educacional destes escolares que necessitam de enfoque clínico e educacional voltado para a minimização do impacto das manifestações comportamentais e cognitivo-linguísticas inerentes à dislexia e ao TDAH visando a uma melhor qualidade de vida social e acadêmica destes indivíduos.

Entretanto, como este estudo apenas enfoca a coordenação motora fina em um número restrito de escolares, isso pode ser apenas considerado um indicador de alterações motoras que devem ser melhor avaliadas no contexto do desenvolvimento motor global para a investigação do TDC nesta população.

 

CONCLUSÃO

A partir dos resultados deste estudo, pode-se concluir que tanto os escolares com dislexia quanto os escolares com TDAH apresentaram atrasos na coordenação motora fina em relação à idade cronológica, revelando que 90% dos escolares com dislexia e dos escolares com TDAH apresentaram desenvolvimento motor fino muito inferior ao esperado para a idade e 10% apresentam desenvolvimento normal baixo ao esperado para a idade, demonstrando que os participantes desta pesquisa apresentam dificuldades em atividades que exijam destreza como a grafia e amarrar sapatos. Os achados idênticos entre os dois grupos se devem ao quadro de TDC que justificam seus desempenhos similares nas provas motoras finas realizadas.

Em relação à comparação do desempenho dos escolares do GI e GII entre os subtestes de coordenação motora fina foi evidenciado que os escolares de ambos os grupos apresentam alterações em habilidades motoras finas que influenciam diretamente a aquisição do grafismo. Os achados de correlação indicaram que os escolares com dislexia e os escolares com TDAH apresentam dificuldades em atividades de preensão e pressão de objetos e coordenação visuo-espacial que podem ser justificadas pela idade motora fina aquém do esperado para idade e escolaridade, no entanto, o desempenho motor fino dos escolares com TDAH é superior ao desempenho dos escolares com dislexia em atividades que exijam destreza e precisão motora fina.

Assim, a partir dos resultados deste estudo, pôde-se concluir que os escolares com dislexia e os escolares com TDAH deste estudo apresentam alteração de função motora fina, se diferindo em seus desempenhos quanto a precisão e preensão motora fina, sendo que os escolares com TDAH apresentaram desempenho superior nestas habilidades motoras finas em comparação aos escolares com dislexia. Assim, estudos complementares estão sendo conduzidos pelos autores deste estudo para a partir do aumento do número de escolares com dislexia e TDAH poder verificar e comprovar se o perfil motor fino dos escolares encontrados neste estudo se assemelham ou se diferem de acordo com o quadro apresentado pelos escolares.

 

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Endereço para correspondência:
Paola Matiko Martins Okuda
Rua Aviador Gomes Ribeiro, 23-50 apto. 26,
Jd. Brasil - Bauru-SP
CEP: 17011-067
E -mail: paolaokuda@yahoo.com.br

Recebido Em: 14/05/2010
Aceito em: 20/12/2010

 

 

Conflito de interesses: inexistente