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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.14 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2012 Epub July 08, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462011005000064 

Efeitos do(s) letramento(s) na constituição social do sujeito: considerações fonoaudiológicas

 

Effects of Literacy (ies) on the social constitution of the subject: speech therapy considerations

 

 

Natally RibeiroI; Luiz Augusto de Paula SouzaII

IFonoaudióloga; Mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP
IIFonoaudiólogo; Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo, São Paulo, Brasil; Doutor em Psicologia Clínica pela PUCSP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: caracterizar e analisar, do ponto de vista fonoaudiológico, o(s) letramento(s), os modos de circulação e uso de gêneros discursivos escritos por 69 escolares de duas classes de terceiro estágio de uma escola municipal de ensino infantil da cidade de São Paulo.
MÉTODO: construção e aplicação de protocolo composto por diversos gêneros discursivos escritos, para verificação do grau de reconhecimento, de familiaridade e de uso dos mesmos pelos 69 escolares pesquisados. A faixa etária dos escolares é de 5 anos e 1 mês a 6 anos e 1 mês, sendo 58% do sexo masculino e 42%, feminino. A análise dos dados foi feita a partir do mapeamento dos índices de letramento dos escolares, em função dos níveis e tipos de letramento consignados na literatura especializada.
RESULTADOS: entre os gêneros discursivos escritos apresentados, foi encontrado, para essa faixa etária, um reconhecimento significante para os gêneros: carta; jornalístico; narrativas infantis; placas de trânsito; quadrinhos e receitas, sendo estes visualizados e/ou utilizados por e/ou com familiares em casa, no trajeto à escola e em outros espaços sociais.
CONCLUSÃO: é considerável a presença de práticas letradas entre os pesquisados, o que sugere a relevância em se considerar os processos de letramento, tanto nas estratégias pedagógicas da educação infantil, quanto no trabalho fonoaudiológico com escolares que apresentem dificuldades e/ou distúrbios na aquisição da escrita.

Descritores: Fonoaudiologia; Educação; Políticas Públicas de Saúde


ABSTRACT

PURPOSE: to characterize and analyze the speech-language point o view, literacy (ies), the modes of movement and use of discursive genres written by 69 students from two classes of the third stage of an elementary public school for children of São Paulo.
METHOD: the construction and application protocol consists of several written genres for checking the degree of recognition, familiarity and usage by 69 schoolchildren. The age of the students was 5 years and 1 month to 6 years and 1 month, 58% male and 42% female gender. Data analysis was performed from the mapping of the students' literacy rates depending on the levels and types of literacy reflected in the literature.
RESULTS: among the written statements genres, we found, for this age group, a significant recognition for the genre: letter; journalistic narratives for children, traffic signs, cartoons and recipes, which are viewed and / or used by and / or relatives at home, on the way to school and other social ambiences.
CONCLUSION: there is considerable presence of literacy practices among those surveyed, which suggests the relevance of considering the processes of literacy in both the pedagogical strategies of early childhood education, and in speech therapy with students who have difficulties and / or disturbances in the acquisition of writing.

Keywords: Speech; Language and Hearing Sciences; Education; Health Public Policy


 

 

INTRODUÇÃO

A noção de letramento vem sendo pensada na intersecção de várias áreas de conhecimento. A Lingüística é, sem dúvida, a área com a maior concentração de estudos sobre letramento, dando respaldo teórico, inclusive, para que as demais áreas usem o conceito1-7. Para a prática da clínica fonoaudiológica, a noção de letramento é útil porque dela se extraem aspectos que podem fundamentar a clínica fonoaudiológica da linguagem escrita, principalmente para concepções que valorizam a compreensão das condições nas quais os sujeitos circulam por práticas letradas. Tal compreensão é básica à estruturação de uma escuta à experiência concreta de ler e escrever; experiência que ultrapassa a mera apreensão e domínio de códigos e convenções da língua escrita8-14.

Se for assim, o fonoaudiólogo precisa voltar sua atenção para a relação entre a escrita e quem escreve, ou seja, para escrita como marca e expressão da singularidade e da história de cada leitor e escritor, e como ação (pessoal e social) que toma parte no movimento de se fazer sujeito e cidadão. Se a escrita é também expressão da singularidade e da subjetividade, quando em sua aquisição e em seu uso existe sofrimento, há razão suficiente para justificar a intervenção do fonoaudiólogo15.

Os trabalhos voltados à promoção da saúde põem em jogo uma prática da Fonoaudiologia Educacional construída na interlocução com a escola, potencializadora de conhecimentos comuns, interdisciplinares, sobre as linguagens escrita e oral. Pelo lado da Fonoaudiologia, esse trabalho pode encontrar inspiração na noção de letramento, uma vez que o impacto social das práticas letradas na vida e na aprendizagem das crianças ajuda a dar contorno e lugar ao fonoaudiólogo nos processos educacionais8. O lugar da Fonoaudiologia, nessa concepção, se daria, para além do processo formal de aquisição da leitura e escrita – de responsabilidade da escola – pela construção de uma escuta clínica particular e própria ao fonoaudiólogo: apreender os sentidos da escrita na vida das crianças, equacionando seus papéis na constituição de suas relações expressivas e comunicativas.

A aquisição de linguagem (da oralidade à escrita) é um processo que se desenvolve pela interação entre a criança e o outro – inicialmente a mãe ou quem cumpre a função materna16. A aquisição e os usos da linguagem vão carregar as marcas das potencialidades e das perturbações das interações nas quais se constroem. Nesse sentido, estudos sobre aquisição de linguagem propõem uma inversão na equação conhecimento-uso, ou seja, não seria necessário conhecer para usar; o uso produziria o conhecimento16-18.

Desse modo, os erros cometidos pelas crianças em processo de aquisição de linguagem pedem interpretações diversas daquelas que os aponta sempre como problema e, às vezes, como distúrbio. O erro precisaria ser visto também como processo de construção, como experiência relevante na constituição da linguagem pela criança16. A relação do sujeito com a língua está em movimento. No início da aquisição de linguagem, os enunciados do outro retornam na fala da criança, ou seja, a criança está alienada à fala do outro. Depois, a criança passa a transitar, ainda de maneira titubeante, no plano da língua, o que se observa pelos erros ou violações que circulam na fala da criança, em relação às leis e regras da língua.

Estes movimentos seriam necessários, finalmente, para criança passar a escutar o outro como outro, e também a si mesma, conquistando autonomia e possibilidade de aprender satisfatoriamente as convenções da oralidade e, posteriormente, também as da escrita19-21. A linguagem, se interação humana e plano a partir do qual se constituem as relações sociais, faz com que aqueles que falam ou escrevem se tornam sujeitos na relação com outros sujeitos e com o meio22. Por meio da linguagem, o sujeito que fala ou escreve pratica ações que não conseguiria praticar a não ser falando e escrevendo14. Por essa via, a questão da Fonoaudiologia na escola passa a ser a do favorecimento de relações entre trabalhos distintos mas complementares, do fonoaudiólogo e do educador, em busca de uma interdisciplinaridade capaz de ampliar o alcance do trabalho de ambos, o que, por conseqüência, fomente a promoção da saúde e o desempenho escolar dos alunos23, 24.

A questão, então, é a do estabelecimento de reflexões englobando estudos sobre o letramento infantil, alfabetização e estratégias de construção de sentidos e usos significativos para as linguagens oral e escrita8. O trabalho de assessoria à escolas seria pensado como realização de práticas baseadas na compreensão do desenvolvimento e dos usos lingüísticos empreendidos pelo sujeito25-27. Nessa medida, o papel que o fonoaudiólogo deve exercer está colocado ao lado daquele realizado pelo professor, pela promoção de vínculos que possibilitem a discussão de ações/trabalhos para o desenvolvimento dos alunos28, 29. Ou seja, o perfil da atuação em assessoria escolar seria orientado por um trabalho focado na relação entre educadores e fonoaudiólogos, sendo que estes últimos assumiriam, portanto, funções de agentes potencializadores do desenvolvimento, da circulação e dos usos da linguagem (oral e escrita) pelos escolares30-32.

O objetivo desta pesquisa foi o de caracterizar e analisar, do ponto de vista fonoaudiológico, o(s) letramento(s), os modos de circulação e uso de gêneros discursivos escritos por 69 escolares de duas classes de terceiro estágio de uma escola municipal de ensino infantil da cidade de São Paulo.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa realizada por meio de um experimento com escolares de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEI) da cidade de São Paulo, de caráter descritivo e com abordagem quanti-qualitativa.

Após o recebimento da autorização da direção e da coordenação pedagógica da escola, participaram da pesquisa os escolares de duas classes do terceiro estágio de uma escola de educação infantil pública da cidade de São Paulo.

Foi entregue à direção e à coordenação pedagógica o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, bem como aos pais ou responsáveis pelos escolares , a fim de que os mesmos fossem informados sobre os objetivos do trabalho e seu conteúdo, e para que fosse autorizada a utilização dos dados na pesquisa.

Participaram da pesquisa os 69 escolares de duas classes de terceiro estágio de uma escola de educação infantil pública da cidade de São Paulo. Pela natureza da pesquisa, não houve critérios de exclusão na seleção dos sujeitos participantes. Houve a confecção e aplicação individual do instrumento de coleta de dados (em anexo), o qual continha gêneros discursivos escritos variados.

A aplicação do instrumento ocorreu da seguinte maneira: a cada um dos escolares foram apresentados doze materiais escritos pertencentes a gêneros discursivos diversos, em dois modos distintos: um com poucas pistas contextuais (descontextualizado) e outro com mais pistas contextuais (contextualizado), com a finalidade de encontrar respostas mais fidedignas quanto ao reconhecimento dos gêneros. Nesta etapa da aplicação do instrumento, considerou-se como Reconhecimento Espontâneo a resposta obtida do escolar quando a ele foi oferecido o material sem nenhum tipo de intervenção do entrevistador.

A seguir, a partir de tal reconhecimento, foram direcionadas perguntas para a obtenção dos dados pertinentes ao mapeamento (onde ele havia entrado em contato com o gênero e em que lugares ou situações o escolar já havia tomado ou toma contato com os gêneros apresentados), para mapear o uso e a familiaridade com os gêneros pesquisados.

Caso houvesse gêneros discursivos que o escolar não tivesse reconhecido de forma espontânea, coube ao entrevistador iniciar uma nova etapa: oferecer tais gêneros discursivos de forma induzida. O Reconhecimento Induzido foi, portanto, a resposta obtida do escolar com a intervenção da pesquisadora, por meio de informações e dicas sobre o gênero.

Aqui buscou-se o reconhecimento dos gêneros anteriormente descartados pelo escolar. Após o reconhecimento induzido, quando houve reconhecido do gênero pelo escolar, também foram feitas perguntas para obter dados sobre os locais onde havia entrado em contato com o gênero e em que situações, mapeando usos eventuais dos gêneros pesquisados nesta etapa.

Esta forma de coleta buscou caracterizar alguns índices de letramento dos escolares, no sentido de buscar evidências sobre os níveis de letramento dos escolares pesquisados, ou seja, representações que têm sobre certas características, usos e relações com a escrita. A aplicação do protocolo foi complementada com entrevista individual com os escolares, com vistas a compreender o impacto e as impressões gerais de cada escolar sobre o conteúdo das atividades da pesquisa.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da PUCSP sob o protocolo de número 038/2009.

 

RESULTADOS

Na apresentação dos gêneros de forma contextualizada, resultados significantes para o reconhecimento espontâneo dos escolares para alguns gêneros, como podemos visualizar na Figura a seguir:

 

 

Estes dados são significantes pois tais gêneros foram reconhecidos, segundo os escolares, por serem mais visualizados e usados por eles e/ou por familiares e pessoas próximas de seus convívios e contextos socioculturais.

Destaque feito aos gêneros jornalístico e aos mapas, com maior reconhecimento em escolares do sexo masculino, que alegarem usos voltados à prática da leitura da coluna esportiva pelos pais, tios e/ou avôs (no caso do gênero jornalístico, 21 escolares) e por observarem o uso do gênero pelos pais em passeios familiares, seja em transporte público, seja em transporte particular (no caso do gênero mapas, 22 escolares).

Outro destaque a ser feito é o reconhecimento espontâneo do gênero discursivo panfletos por 5 escolares do sexo feminino. Este foi o único gênero reconhecido mais vezes espontaneamente por escolares do sexo feminino, em razão do uso do gênero em mercados e até mesmo em casa, nos quais as mães fazem pesquisa de preços para compras.

Ainda na análise de gêneros discursivos escritos por meio de reconhecimento espontâneo, mas agora para apresentação do gênero de forma descontextualizada, o único gênero reconhecido em maior grau por escolares do sexo feminino foi a bula de remédio. Reconhecimento equivalente entre os dois sexos foi verificado nos gêneros carta, cruzadinhas, panfletos, propagandas, receitas e regras de jogo. Destacou-se também os gêneros jornalístico, mapas, narrativas infantis, placas de trânsito e quadrinhos no reconhecimento espontâneo descontextualizado em escolares do sexo masculino.

Os escolares que não reconheceram espontaneamente os gêneros apresentados – tanto de forma contextualizada quanto descontextualizada – foram submetidos à segunda etapa da coleta de dados, na qual, também individualmente, foram induzidos ao reconhecimento gênero a gênero.

Nesta segunda etapa, para a categoria "contextualizado" dos gêneros, foi encontrado reconhecimento, por meio da indução, para os gêneros bula de remédio, carta, jornalístico, mapas, narrativas infantis e placas de trânsito. O gênero quadrinhos, por ter tido maior reconhecimento de forma espontânea entre os escolares, teve pequena expressão para respostas de forma induzida para a apresentação do gênero de forma contextualizada e descontextualizada.

Os gêneros cruzadinha, panfletos, propagandas, receitas e regras de jogo foram gêneros nos quais mais ocorreram respostas negativas para o reconhecimento, tanto de forma contextualizada quanto descontextualizada.

 

DISCUSSÃO

A partir da noção de letramento e do modo como foi utilizada e apropriada no trabalho Fonoaudiológico aqui empreendido, constata-se a pertinência e a utilidade de estudos sobre o uso, a familiaridade e os sentidos dos gêneros discursivos escritos para escolares, na medida em que dão acesso à variadas lógicas com as quais as crianças operam, no pensamento e na ação, em práticas que envolvem a presença da escrita.

Espontaneamente, os escolares pesquisados tiveram um grau maior de reconhecimento de gêneros escritos, que fazem parte do seu repertório de conhecimentos e práticas ligados à faixa etária em que estão: quadrinhos, placas de trânsito, narrativas infantis e jornalísticos.

Tais dados permitem supor que esses gêneros, por sua frequência no cotidiano e pela articulação com dimensões pictográficas (imagens fotográficas e desenhos), estão presentes no universo infantil e, do ponto de vista dos processos de aprendizagem, permitem trânsito entre oralidade e escrita e trânsito entre desenho e escrita.

Estas características são essenciais à compreensão de que a relação entre processos de letramento, práticas sociais e circulação discursiva de crianças em processo de constituição sociocultural passa, primeiramente, por um conhecimento pautado nas experiências de vida, nas quais determinados gêneros vão sendo apropriados, seja por meio do trânsito entre a oralidade e a escrita (para os gêneros narrativas infantis e jornalísticos), seja por meio do transito entre o desenho e a escrita, como no caso dos gêneros quadrinhos e placas de trânsito 3,7.

Embora os resultados não tenham variado significativamente em função do sexo dos escolares pesquisados, nota-se em algumas respostas e em comentários dos escolares a certos gêneros escritos, a presença de diferenças de interesses e de repertório cultural, ou seja, prenuncia-se variações nos universos imaginários de referência de uns e de outros (meninos e meninas); variações que são, diga-se de passagem, relativamente comuns em nossa sociedade14.

Mais relevante que as questões de gênero, na pesquisa observa-se que, nos relatos, existe interferência primária de um leitor/escritor mais experiente para a apropriação dos gêneros escritos. Aliás, como se sabe, tal fato sempre ocorre nos processos de aquisição de linguagem (oral e escrita); a mediação do outro é condição de possibilidade para construção da linguagem, tanto porque possui mais experiência, quanto porquê as relações na linguagem são afetivas, ou seja, depende de como os sujeitos se afetam mutuamente.

A interação entre sujeitos, mais e menos experientes, é parte essencial da concepção vygotskyana33 de aprendizagem socialmente elaborada. Os segmentos a seguir reiteram tal posição:

Escolar C31, 5 anos, 5 meses e 13 dias, sexo feminino, após reconhecimento espontâneo do gênero Cartas:

"Antes do Natal, mamãe me ajudou a escrever uma carta pro Papai Noel. Aí, ela me levou lá no shopping pra eu entregar pra ele".

Escolar C15, 5 anos, 7 meses e 22 dias, sexo masculino, após reconhecimento espontâneo do gênero Propagandas:

"Minha mãe sempre olha isso pra ficar na moda".

O mesmo escolar, após o reconhecimento espontâneo do gênero Receitas:

"Minha mãe usa a receita pra fazer bolo do chocolate. Eu gosto de bolo!".

Ainda o mesmo escolar, após indução para reconhecimento do gênero Cruzadinha:

"Ah, é isso que meu irmão faz depois da aula. Ele comprou aquela revistinha... Recreio... Lá tem esse joguinho. É de por as letras, não é?!"

Escolar C59, 5 anos, 8 meses e 10 dias, sexo feminino, após indução para reconhecimento do gênero Regras de Jogo:

"Lá em casa só tem videogame, não tem joguinho. Mas meu irmão me fala que no videogame também tem regras".

Escolar C43, 6 anos e 6 dias, sexo masculino, após reconhecimento espontâneo do gênero Mapas:

"Eu imagino que seja mapa porque meu pai usa muito isso no carro e me diz que serve pra gente não se perder".

O mesmo escolar, após indução para reconhecimento do gênero Regras de Jogo:

"Quando meus amigos vão lá em casa eles me ensinam a jogar porque eles sabem ler".

Os parceiros mais experientes, além de apresentarem os gêneros, criam formas de relação entre a linguagem e o universo infantil. Nos segmentos recém citados, o reconhecimento se fez pela mediação do adulto, do adolescente ou da criança mais velha, o que aproxima os aprendizes da escrita, por meio do uso de estratégias de letramento, isto é, os parceiros mais experientes se valem de usos e sentidos sociais da escrita para franquear tal linguagem à criança. Tais mediações ajudam a explicar, inclusive, o porquê de algumas crianças reconhecerem especificamente apenas alguns gêneros do mundo letrado: são fruto de parcerias bem sucedidas com parceiros mais experientes, sobretudo com os pais, irmãos mais velhos e professores.

Se é assim, o fonoaudiólogo precisa olhar para as habilidades, competências e experiências com a escrita para além do universo escolar, convidando e provocando os professores a fazerem o mesmo, a agirem também sobre tal esfera de relação com a leitura e a escrita. Eis aí uma das entradas do trabalho fonoaudiológico na escola 8,9,11,22.

Mapear a circulação discursiva dos escolares na oralidade e na escrita, indiciando os modos pelos quais são afetados pelo jogo do discurso, e também pelas dimensões formais aí implicadas, pode ser tarefa do fonoaudiólogo na escola, em companhia do professor. A pesquisa deixou clara a importância em trabalhar o letramento com os escolares, levantando seus conhecimentos sobre os gêneros escritos pesquisados, mas, também, aspectos de suas trajetórias singulares nos usos que fazem deles ou que lhes atribuem 15.

Bakhtin 34 afirmava a linguagem como plano privilegiado à constituição das relações sociais. Segundo ele, um signo é um fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior. A palavra não é diretamente signo, porque, sozinha, ela não significa. Somente a palavra molhada num contexto social tem significado, faz sentido. Mais do que valorizar a apreensão formal dos gêneros discursivos, é necessário saber interpretar os modos pelos quais a criança lê e age no mundo, pela oralidade e pela escrita. Nesse sentido, é por meio do letramento que a escrita entra nas experiências concretas e, a partir daí, se processa a aquisição da leitura e da escrita.

Pesquisas contemporâneas apontam para a necessidade de se dissolver a dicotomia entre linguagem escrita e oral, para que se possa compreender a variedade de relações existentes entre linguagem oral e escrita não mais a partir de suas materialidades básicas (som e grafia), mas pensá-las discursivamente, como gêneros do discurso, com suas especificidades e esferas de circulação15.

A criança é capaz de descobrir como é a linguagem escrita e a escrita da linguagem se ambas forem apresentadas como prática discursiva15, desde que lhe sejam oferecidas condições de aprendizagem a partir das experiências de vida, do aprender enquanto se usa a escrita para responder a problemas reais, e não a tarefas e esquematismos escolares35. Com esta pesquisa, foi possível demonstrar que a aquisição da escrita, por crianças em períodos iniciais de escolarização, é atravessada por uma miríade de práticas letradas presentes nas relações pessoais e institucionais de nossa sociedade, configurando níveis e modos de letramento, cuja consideração e análise são úteis à compreensão dos processos de aprendizagem dos escolares, especialmente àqueles ligados à alfabetização.

A discussão dos achados de nossa pesquisa corrobora a afirmação de que a Fonoaudiologia, como um campo capaz de se colocar à escuta da linguagem na experiência, tem lugar na compreensão do(s) letramento(s), fazendo uso dele(s) para manejar trabalhos com a linguagem escrita, seja no suporte à trajetórias desejáveis de aquisição e uso dessa linguagem, seja no equacionamento de transtornos que podem acometê-la. Num caso ou no outro, o intuito precisa ser o de por e/ou devolver a escrita à circulação em meios socioculturais os mais diversos.

É importante lembrar, como mencionado na revisão da literatura, que a aquisição e os usos da linguagem carregam as marcas das potencialidades e das perturbações das interações nas quais se constroem e assumir que os erros cometidos pelas crianças em processo de aquisição de linguagem pedem interpretações diversas daquelas que os aponta como problema e, às vezes, como distúrbio16. O erro precisaria ser visto também como construção da linguagem, como constituição subjetiva, que se opera pelos usos que a criança faz da linguagem, que variam e ganham complexidade durante os processos de aquisição de linguagem (oral e escrita) e ao longo da vida.

Durante o experimento da pesquisa, o não reconhecimento de gêneros escritos por determinadas crianças não foi lido como problema, ao contrário, ele indiciou modos desses escolares pensarem e circularem pelos gêneros apresentados. Os gêneros não reconhecidos, frequentemente, foram identificados pelas crianças a partir da mediação dos pesquisadores, que recorreram aos usos sociais desses gêneros para aproximá-los das experiências das crianças, promovendo o reconhecimento. Em outras palavras, a noção de letramento foi utilizada para facultar o reconhecimento e o aprendizado do gênero, o que poderá favorecer a conquista de seu uso autônomo pelas crianças daqui por diante.

Por fim, em relação à aquisição de escrita e aos processos escolares de ensino e aprendizagem da escrita, o letramento oferece parâmetros relevantes ao trabalho fonoaudiológico na escola, bem como em relação à demanda escolar para terapia, uma vez que produz uma zona de encontro e de diálogo entorno da escrita, que permite, simultaneamente, diferenciar papéis dos educadores e dos fonoaudiólogos, e projetor ações específicas e comuns sobre várias latitudes dessa linguagem.

 

CONCLUSÃO

É notável a presença de práticas letradas entre os pesquisados, o que sugere a relevância em se considerar os processos de letramento, tanto nas estratégias pedagógicas da educação infantil, quanto no trabalho fonoaudiológico com escolares, inclusive aqueles que apresentem dificuldades e/ou distúrbios de escrita. Nesse sentido, a Fonoaudiologia pode tirar proveito (em seu trabalho clínico e de assessoria à instituições educacionais) da leitura e da escrita na condição de interação social, pautada por práticas sociais específicas, o que – para além da aprendizagem das convenções – situa os usos da escrita no plano da constituição dos sujeitos e das realidades sociais, bem como oferece condições à compreensão de várias das razões que sustentam dificuldades – e o sofrimento que elas implicam – na aquisição da linguagem (oral e escrita) e na aprendizagem escolar dessa linguagem.

No entanto, é necessário não perder de vista que a atuação do fonoaudiólogo na escola ainda se encontra, em boa medida, apenas baseada na tríade: detecção de problemas fonoaudiológicos – diagnóstico – tratamento. A falta de clareza sobre possíveis papéis da Fonoaudiologia na escola pode levar fonoaudiólogos a repetir equívocos históricos: individualização e medicalização das dificuldades de escrita; sobreposição do trabalho que cabe aos educadores; e/ou presunção de que os fonoaudiólogos sabem mais do que os educadores sobre os processos de aquisição e aprendizagem formal da escrita.

Para evitar tais equívocos, é preciso buscar parcerias simétricas com os educadores, pois ambos têm o que dizer e fazer na construção da escrita pelos estudantes. Assim, na óptica do fonoaudiólogo, é preciso tirar o professor da condição de mero espectador (aquele que detecta), para torná-lo participante da ação fonoaudiológica na escola, formando uma rede de cuidado à saúde, permeada pela promoção do letramento9.

Em síntese, conclui-se a pertinência e a utilidade de estudos sobre o uso, a familiaridade e os sentidos dos gêneros discursivos escritos para escolares, na medida em que dão acesso à variadas lógicas com as quais as crianças operam, no pensamento e na ação, em práticas que envolvem a presença da escrita; a necessidade do esclarecimento do trabalho em parceria do fonoaudiólogo com os educadores, convidando-os e provocando-os a olharem para as habilidades, competências e experiências dos escolares com a escrita para além do universo escolar, e a agirem também sobre tal esfera de relação com a leitura e a escrita.

Se a Fonoaudiologia assumir que a criança é capaz de descobrir como é a linguagem escrita e a escrita da linguagem se ambas forem apresentadas como prática discursiva15, então estará em condição de tomar para si o compromisso de articular saúde, educação e cultura no âmbito das dimensões e questões relacionadas à linguagem e à comunicação humanas.

A nossa pesquisa, em última análise, aponta também para necessidade desse compromisso.

 

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Endereço para correspondência:
Natally Ribeiro
Rua Antonio Buso, 47 – Chácara Santo Antônio
São Paulo – SP
CEP: 04718-070
E-mail: natally.ribeiro@yahoo.com.br

Recebido em: 17/12/2010
Aceito em: 25/04/2011

 

 

Conflito de interesses: inexistente