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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.14 no.3 São Paulo May/June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462012000300001 

EDITORIAL

 

 

Com muito prazer recebi o convite dos editores da Revista CEFAC para escrever este editorial. Afinal de contas, dentre os periódicos específicos da Fonoaudiologia, sou obrigada a reconhecer que a Revista CEFAC merece destaque pelo número expressivo de artigos, que a cada dois meses disponibiliza para reflexão de todos os interessados na área. Parabenizo também a equipe de retaguarda, uma vez que a tarefa de organizar e formatar uma revista requer atenção constante, em sintonia com as diferentes perspectivas de pesquisa.

O leitor encontrará neste exemplar 20 artigos que abordam temáticas de diferentes especialidades da área, desenvolvidos por profissionais de diversas regiões do Brasil (além de um deles ser do Chile), que complementam a formação do pesquisador por apresentarem diversos procedimentos metodológicos.

Mais do que falar de forma resumida sobre cada um deles, resolvi comentar a respeito da nossa produção bibliográfica. Mais especificamente evidenciar as mudanças ocorridas nas últimas décadas.

É nítida a diferença quando comparamos a produção de hoje com a do inicio da Fonoaudiologia! Pensei que, ao fazer um resgate histórico dessa produção, poderia levar os profissionais veteranos a relembrar o passado, e os mais novos, a conhecê-lo.

Em 1993, eu e a minha amiga (saudosa) Ieda resolvemos analisar a produção dos livros, escritos por fonoaudiólogos. A Pró-Fono mostrou interesse em divulgar esse material e foram realizadas duas edições: uma primeira que analisou o período de 1969 a 1993, e uma segunda, atualizada até 1994. Na época compilamos um total de 144 livros, que divididos em décadas representou: década de 60 – 0,7%; 70 – 16,0%; 80- 32,0% e apenas em quatro anos da década de 90, 51,3, ou seja, mais da metade da produção !!! Na análise por áreas, entre as três mais abordadas, destaque maior foi dado a que trazia material referente à articulação e motricidade oral (17,3%); seguido de materiais terapêuticos em geral (15,2%) com propostas que subsidiavam a atuação do fonoaudiólogo em diferentes áreas; e voz e seus distúrbios (13,2%). A maioria desses livros tinha como preocupação auxiliar os fonoaudiólogos na atuação basicamente clinica, sem a pretensão de descrever resultados de pesquisas realizadas.

Diria que o marco da maturidade, científica e política, foi conquistado dez anos depois dessa publicação, em 2004, com o lançamento do primeiro Tratado de Fonoaudiologia, organizado e escrito basicamente por fonoaudiólogos, e chancelado pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia! Nesse material, pode-se destacar o detalhamento da maioria das áreas da Fonoaudiologia, com apresentação de diferentes formas de atuação, muitas subsidiadas por pesquisas. Hoje, para nosso orgulho, esse Tratado está presente nas referencias bibliográficas da maioria dos currículos e editais de concurso da Fonoaudiologia em nosso país.

Pode-se dizer que se o numero de livros era alto, o de capítulos de livros também, e escrever artigos em periódicos, sempre esteve no presente no dia-a-dia dos fonoaudiólogos. Mas ultimamente é visível o aumento desse tipo de produção e tentarei aqui elencar alguns aspectos que em minha opinião alavancaram essa produção.

O primeiro deles vai na direção da criação de órgãos de fomento, desde a década de 50 do século passado, quando diversas modalidades de bolsas foram sendo oferecidas para incentivo às pesquisas, e muitos dos fonoaudiólogos que hoje ocupam lugar de destaque no desenvolvimento cientifico da Fonoaudiologia foram beneficiados com elas. Toda e qualquer pesquisa deve ser divulgada e parte dos relatórios desses trabalhos foi transformada em artigos.

Com relação a essa questão, deve-se destacar que o acesso mais fácil aos editais, via internet, democratizou a acessibilidade e conseqüente envio de projetos, e hoje temos uma maior participação de interessados em ter suas pesquisas subsidiadas por bolsas. A concentração de recursos na região sudeste, pela própria tradição de pesquisa, iniciada pelos primeiros cursos de formação de mestres e doutores (mestrado em 1972 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorado em 1982 na Escola Paulista de Medicina) também se apresenta hoje menor, por conta da política de incentivo a projetos da região nordeste, adotada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

O segundo aspecto a ser destacado é o incentivo para elaboração, entre os alunos da Graduação, de Iniciação Científica, pratica iniciada em 1986, no Curso de Fonoaudiologia da USP e cada vez mais presente em todos os cursos de formação do pais. Essa iniciativa tem sido motivada pelos programas oficiais de incentivo (CNPq) ou mesmo pelo patrocínio das próprias instituições em que os Cursos de Fonoaudiologia funcionam. Ao serem finalizadas, parte delas é encaminhada para publicação.

Na mesma direção, destaca-se como terceiro aspecto, a realização de Trabalhos de Conclusão de Curso, que começam a ser exigidos em diferentes cursos de graduação em Fonoaudiologia. Essa obrigatoriedade é iniciada em 1984, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Universidade Tuiuti do Paraná, e nos dias de hoje, está presente na maioria dos cursos. A cada ano percebe-se maior rigor na realização dos mesmos, com estabelecimento de bancas examinadoras e exigência de posterior publicação dos achados.

O quarto item a ser mencionado é a criação de cursos de Pós-graduação lato sensu (provavelmente os mais antigos são os do CEFAC e CEV), que também incentivaram vários fonoaudiólogos (em torno de 5500 no Brasil) para desenvolverem a prática da pesquisa e conseqüente publicação, ao realizarem suas monografias.

A criação de associações científicas (a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia em 1998, Academia Brasileira de Audiologia em 2001 e mais recentemente Associação Brasileira de Motricidade Orofacial (2011) pode ser destacada como mais um aspecto de incentivo a publicação de artigos, pois a regularidade de seus eventos e a obrigatoriedade de encaminhamento de resumo para compor os anais, contribuiu para a elaboração de trabalhos que a cada ano são apresentados e discutidos pelos pares, e a seguir submetidos a periódicos científicos.

O sexto aspecto a ser destacado é a criação de periódicos específicos da área. Muitos deles foram importantes na historia da Fonoaudiologia, mas deixaram de circular por conta da complexidade de se manter uma revista cientifica. Dentre as que conseguiram superar as dificuldades podemos destacar a revista Distúrbios da Comunicação, pioneira na área e criada em 1986, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; a Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e o Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (anteriormente Revista de Atualização Cientifica Pró-Fono), ambas mantidas pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia; e a Revista CEFAC, mantida pelo próprio CEFAC. Esses periódicos foram indexados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e fazem parte do Qualis, utilizado para análise da qualidade da produção intelectual dos programas de pós-graduação.

É neste momento que destaco o sétimo e provavelmente o aspecto que mais determinou o avanço da nossa área na produção bibliográfica de artigos. Hoje a Fonoaudiologia conta com 10 Programas de Pós-Graduação (nove acadêmicos e um profissional), e juntamente com as sub-áreas da Educação Física (27 Programas), Fisioterapia (14 Programas) e Terapia Ocupacional (1 Programa), constituem a chamada área 21 da CAPES (52 Programas). Essa Coordenação deu inicio a um processo de avaliação dos Programas de Pós-Graduação que tem considerado como importante critério a produção bibliográfica, em maior destaque aquela presente em periódicos. Dessa forma, todos os professores envolvidos tem se empenhado para aumentar sua produção com a participação de seus discentes, para manter ou alavancar a avaliação do Programa em que se encontra alocado.

Para ilustrar esse aspecto, trago um dado referente a somatória dos artigos publicados nos quatro periódicos acima referidos em apenas um ano (2011): publicamos nesse período um total de 362 artigos!!! É claro que esse número pode surpreender aqueles que fazem parte das primeiras turmas formadas na área, uma vez que esses acompanharam os desafios e as dificuldades vivenciadas para chegarmos até aqui.

Porem certamente esse registro é muito menor quando comparado a de outras áreas mais consolidadas! Podemos destacar, por exemplo, uma única revista da área de Enfermagem – Revista da Escola de Enfermagem da USP – que no mesmo período analisado (ano de 2011) publicou 242 artigos... Por outro lado, alguns leitores podem contestar dizendo que algumas áreas, principalmente as relacionadas às Ciências Humanas consideram o livro como a modalidade mais importante que demonstra o progresso de sua área. Contudo se estamos inseridos na área da Saúde, o artigo é a produção mais valorizada por trazer achados relevantes e atuais, compactuados pelos revisores dos periódicos, assim como por seus editores.

Finalizo este texto orgulhosa por fazer parte desta história! Espero que a leitura do mesmo contribua para motivar algum dos leitores a se aventurar neste universo! Podem ter certeza de que as dificuldades encontradas a cada etapa (iniciada no momento da organização do artigo, a seguir sua submissão, aguardo dos pareceres, novo(s) envio(s) da(s) correção(ões), aguardo do parecer final e ainda após aprovação o aguardo de sua inserção em algum número do periódico),  ficam ínfimas frente a celebração pela publicação de um artigo, pelos seus autores!

Léslie Piccolotto Ferreira