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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.14 no.3 São Paulo May/June 2012 Epub Mar 13, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462012005000015 

Fonoaudiologia e humanização: percepção de fonoaudiólogas de um hospital público

 

Speech and language therapy and humanization: perception of speech and language therapist of a public hospital

 

 

Sorel Herrera CelínI; Flávia Horta Azevedo GobbiII; Stela Maris Aguiar LemosIII

IFonoaudióloga graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil
IIFonoaudióloga; Mestre em Fonoaudiologia pela Pontifica Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo,Brasil
IIIFonoaudióloga; Professora Adjunto do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; Doutora em Ciências pela universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: investigar o conhecimento e aplicação da Política Nacional de Humanização por fonoaudiólogos de um hospital público de Belo Horizonte.
MÉTODO: trata-se de um estudo qualitativo que teve como instrumento de coleta de dados um formulário elaborado pelas pesquisadoras. A amostra foi composta por 25 fonoaudiólogas de um hospital público. Foi realizada análise quantitativa das questões de caracterização da amostra e análise quanti-qualitativa de conteúdo na qual foram identificadas e elencadas as categorias de análise e a frequência de ocorrência dos conteúdos e expressões para as questões discursivas.
RESULTADOS: na análise quantitativa, percebeu-se que 68% das fonoaudiólogas eram formadas há mais de cinco anos; 88% tinham pós-graduação; 56% atuavam na área de Audiologia; 52% atuavam também em instituições privadas e 60% referiram conhecer a PNH. Na análise qualitativa, as necessidades/demandas apontadas para garantia do atendimento humanizado constaram dos eixos temáticos gestão e organização dos serviços de saúde, instrumentalização do trabalhador da saúde, multiprofissional e intersetorial, além do respeito às demandas e direitos do usuário.
CONCLUSÃO: o conceito de humanização apresentado pelas fonoaudiólogas está em consonância com o descrito na PNH. E quanto aos eixos para garantia da atenção humanizada tomando com referência a instituição, o usuário e o profissional, as entrevistadas citaram parcialmente os princípios da Política Nacional de Humanização.

Descritores: Humanização da Assistência; Saúde Pública; Sistema Único de Saúde; Atenção Terciária à Saúde; Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde


ABSTRACT

PURPOSE: to investigate speech therapists knowledge and application as for the National Policy of Humanization (NPH) in a public hospital in Belo Horizonte
METHOD: it is a qualitative and qualitative study. With 25 speech therapists answering a self-applicable questionnaire, used as instrument for data collection, elaborated by the authors. A quantitative analysis was carried through on the questions referring to sample characterization and also a qualitative analysis of the content, through which the categories of analysis were identified and ranked, as well as contents' frequency as for the occurrence and expressions being used.
RESULTS: it was possible to perceive in the quantitative analysis that 68% of speech therapists had been graduated for more than five years; 88% were post-graduated; 52% also acted in private institutions and 60% declared being familiar with NPH. In the qualitative analysis, content was organized in the following categories: service organization; instruments used for professionals and team training; management of multi professional and inter-sector works.
CONCLUSION: in what concerns the concept of humanization presented by the speech therapists, it is in consonance with what has been described in the National Politic of Humanization. About the criteria needed in order to guarantee a humanized assistance taking as reference the institution, the user and the professional, the interviewed subjects partially cited the principles of the National Policy of Humanization.

Keywords: Humanization of Assistance; Public Health; Unified Health System; Tertiary Health Care; Health Knowledge, Attitudes, Practice


 

 

INTRODUÇÃO

Compreender que o termo humanização deriva da palavra humanizar, que significa "tornar humano, educado, afável, civilizado" é fundamental para compreender as políticas e programas de humanização da assistência em saúde.

A humanização da atenção em saúde permeia a relação entre sujeitos de forma responsável, compromissada e acolhedora, respeitando direitos e deveres de cada um. Atualmente, as relações estabelecidas entre os sujeitos nos espaços de saúde e doença por vezes carecem de tais conceitos. Deste modo, tornam-se relevantes procedimentos humanizadores em gestão, assistência e produção do cuidado em saúde para o aprimoramento da qualidade dos recursos humanos e do acesso aos serviços1.

A integralidade na assistência e prevenção em saúde busca oferecer ao indivíduo um atendimento global, que alivie a queixa, diminua o sofrimento, intervir em aspectos que possam orientar e ampliar o conhecimento do profissional sobre o indivíduo tratado e orientar a organização dos serviços1.

A Política Nacional de Humanização (PNH), criada em 2004, procura melhorar de forma sistematizada a gestão e a prestação de saúde nos serviços públicos e privados do Brasil, tendo como protagonistas os usuários, os profissionais de saúde e a área administrativa das instituições. Os princípios norteadores de tal política valorizam, estimulam e favorecem a subjetividade e o campo social nas práticas de atenção e gestão em saúde. Esta política ressalta estratégias e prioridades para desenvolvimento de programas humanizadores dentro e fora das instituições de saúde. 2

No Sistema Único de Saúde (SUS) existem programas, projetos, atividades e ações, com o tema de humanização, mas estudos apontam para erros, que levam a verticalização, fragmentação e banalização de tais programas 2,3. Deste modo, a política nacional de humanização propõe mudanças nos modelos de atenção e gestão em saúde, amparando usuários e trabalhadores, garantindo para todos espaço físico, administrativo e ambiental digno, para desenvolver da melhor forma seus papéis dentro do SUS 2,3.

A assistência humanizada do cuidador possibilita a este e a seu paciente uma convivência mais próxima, que permite a troca de experiências, a solução de problemas e o conhecimento da limitação do outro, mesmo que a comunicação entre os participantes não seja verbal4.

A literatura mostra que as instituições de assistência pública de saúde contribuem para a quebra do diálogo entre os usuários e a instituição, por terem a certeza de executar de forma correta os princípios, acreditando saber de antemão o que o usuário precisa. Esta forma de preencher as necessidades em saúde faz com que o usuário não participe de forma ativa junto à equipe do sistema5.

Para garantir práticas humanizadoras em serviços de saúde é importante buscar a qualificação de trabalhadores e serviços, a atualização dos conceitos e a inclusão da PNH em momentos de planejamento e avaliação dos serviços6.

Cabe ressaltar que existe relação entre ação humanizadora e ética no trabalho, que coloca a ação humanizadora como uma das bases da ética profissional. E para que essa relação seja cumprida adequadamente, deve existir nas instituições uma comunicação ampla e horizontal que proporcione a todos os integrantes participarem das decisões, planejamentos e educação na assistência de ambientes humanizados, respeitando as singularidades ou diferenças de cada indivíduo ou grupo7.

A humanização busca resgatar a subjetividade em saúde, apresentando como reflexão a relação médico-paciente. Discute, dessa forma, o atual objetivo dos profissionais que têm uma prática de trabalho mais tecnológica e menos humanizada8.

Assim, é de suma importância a investigação sobre a humanização dos serviços saúde, incluindo os constituídos por Fonoaudiólogos. Além disso, grande parte do processo de humanização perpassa habilidades e atitudes comunicativas que são escopo de estudo e intervenção do fonoaudiólogo.

O presente estudo busca dados sobre o conceito de humanização e sobre as percepções de fonoaudiólogos quanto às necessidades para garantia do atendimento humanizado, tendo como referência a instituição, o ambiente de trabalho, o usuário e o profissional de saúde. Pretende-se, ainda, subsidiar a reflexão dos fonoaudiólogos e/ou profissionais de saúde quanto ao cumprimento da Política Nacional de Humanização como base do sucesso de procedimentos terapêutico e, principalmente, como exercício da cidadania.

Este trabalho teve como objetivo geral investigar o conhecimento e aplicação da Política Nacional de Humanização por fonoaudiólogos de um hospital público de Belo Horizonte.

Para tanto os objetivos específicos foram:

1. Caracterizar a amostra quanto à formação, à área de atuação e à vinculação ao Hospital das Clínicas e outras instituições;

2. Verificar a percepção da amostra quanto ao conhecimento da Política Nacional de Humanização;

3. Identificar, como categorias de análise, o conceito de humanização e a percepção dos fonoaudiólogos quanto às demandas da instituição, do ambiente, do usuário e do profissional de saúde, para garantia de atendimento humanizado.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo transversal observacional com amostra de conveniência com análise de base quantitativa e qualitativa. O instrumento de coleta de dados foi elaborado pelas pesquisadoras e trata-se de um formulário dividido em duas partes. A primeira parte teve como objetivo a caracterização da amostra por meio de dados sócio demográficos, tempo de formação, tipo de vínculo com o hospital onde foi realizada a pesquisa e outras instituições e área de atuação.

Na segunda parte do instrumento constavam questões relacionadas ao conceito de humanização e aos princípios da Política Nacional de Humanização (PHN), que visaram identificar os conhecimentos e as percepções dos fonoaudiólogos quanto ao atendimento humanizado, a saber:

1. Qual é seu conceito de Humanização?

2. O que você considera necessário para um atendimento Humanizado do ponto de vista:

a. Da instituição:

b. Do ambiente de trabalho:

c. Do usuário:

d. Do profissional:

Participaram do estudo 25 das 28 fonoaudiólogas vinculadas a um hospital de ensino de Belo Horizonte – MG, pois 2 recusaram-se e 1 efetuou a entrega do formulário após a análise dos dados. Os participantes foram contatados por telefone, e-mail ou visita ao local de trabalho. Em seguida foram agendados encontros no próprio local de trabalho para explicação da pesquisa, assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e entrega instrumento de coleta de dados (formulário). Cada profissional teve a liberdade de devolver o formulário quando melhor lhe conviesse mediante um prazo estipulado.

Foram considerados como critérios de inclusão: o fonoaudiólogo que exerce seu trabalho no hospital de ensino localizado na cidade de Belo Horizonte ter lido e assinado o termo de consentimento livre e esclarecido mostrando que concordou em participar do presente estudo. Como critério de exclusão foi considerado o preenchimento do formulário com menos de 90% de questões respondidas.

O presente estudo foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sob parecer nº ETIC181/07.

Para análise dos formulários, as respostas foram digitadas em um banco de dados e conferidas. Foi realizada análise descritiva da distribuição de frequência de todas as variáveis categóricas. Para as questões abertas, optou-se por utilizar a análise de conteúdo9 dos discursos, metodologia de análise de textos que parte de uma perspectiva quantitativa, analisando-se numericamente a frequência de ocorrência de determinados termos, construções ou referências. Após a seleção das categorias a serem analisadas em cada questão, verificou-se a sua frequência de ocorrência (advento) nos discursos dos sujeitos de termos e expressões.

 

RESULTADOS

Os dados revelaram que 16% das entrevistadas são graduadas em fonoaudiologia de 1 a 5 anos, outros 16% de 3 a 5 anos e 68% há mais de 5 anos.

A maioria das entrevistadas (56%) teve ingresso na instituição participante da pesquisa (hospital de ensino) por meio de concurso público.

Em relação à formação profissional, 36% da amostra possui especialização, 48% mestrado e 16% doutorado. Os dados referentes às áreas de atuação da amostra estão apresentados na figura 1 e evidenciam que a maioria atua na área de audiologia.

 

 

A figura 2 mostra aspectos das instituições onde as entrevistadas trabalham, além do hospital de ensino. Os resultados evidenciam que a maioria está vinculada à rede privada.

 

 

Em relação ao conhecimento da Política Nacional de Humanização 60% das fonoaudiólogas relataram conhecê-la e as categorias emergentes foram atendimento integral, acolhimento e qualidade de vida, conforme apresentado na figura 3.

Quanto às necessidades/demandas para garantia do atendimento humanizado tendo como referência a instituição, as categorias identificadas baseadas nas respostas das entrevistadas foram: acesso e organização do serviço, relação entre os trabalhadores e equipes, instrumentalização/capacitação de profissionais e equipes, ações de promoção da saúde, valorização do profissional e infraestrutura para o trabalhador em saúde, conforme consta na figura 4.

Quanto às necessidades/demandas para garantia do atendimento humanizado tendo como referência o ambiente de trabalho, as categorias identificadas baseadas nas respostas das entrevistadas, observadas na figura 5, foram: garantia de condições estruturais e de higiene e micropolítica das relações e gestões do trabalho multiprofissional e intersetorial.

Quanto às necessidades/demandas para garantia do atendimento humanizado tendo como referência o usuário, as categorias identificadas baseadas nas respostas das entrevistadas foram: conhecimento dos direitos pelos usuários, responsabilidade do usuário, respeito das demandas e direitos do usuário e respeito às regras, normas e demandas dos profissionais pelos usuários, conforme apresentado na figura 6.

Quanto às necessidades/demandas para garantia do atendimento humanizado tendo como referência o profissional, as categorias identificadas baseadas nas respostas das entrevistadas foram: investimento no trabalho em equipe, compromisso com formação e instrumentalização profissional e respeito ao usuário, apresentado na figura 7.

 

DISCUSSÃO

Ao considerar o projeto do Sistema Único de Saúde no Brasil como uma política de construção da democracia, que visa desenvolver relações mais lineares na construção e na gestão do processo de saúde-doença e promover inclusão social e redução de desigualdades, é de suma importância discutir a formação e o perfil dos recursos humanos da saúde e sua interrelação com a população atendida.

Baseado nessa concepção o processo de implantação, avaliação e monitoramento da Política Nacional de Humanização deve ser discutido criticamente e tomado como compromisso de cada categoria profissional e o do universo dos trabalhadores da saúde e das instituições e equipamentos de formação em saúde. Deste modo, a discussão aqui apresentada é uma tentativa de suscitar o debate acerca do compromisso de fonoaudiólogos com processo de humanização da atenção em saúde.

Dos resultados referentes à caracterização da amostra

Conhecer os sujeitos e suas histórias deve anteceder a discussão de suas impressões, escolhas e discursos. Assim, a discussão dos dados de caracterização da amostra tem como objetivo consubstanciar a compreensão das respostas e conteúdos dos sujeitos participantes do estudo.

A análise da amostra quanto ao tempo de formação e prestação de serviços em outras instituições, mostrou que a maior parte das fonoaudiólogas são graduadas há mais de 5 anos e atuam também em outras instituições. Assim apresentam experiência de prática clínica no setor público e privado. Estas experiências podem garantir e promover a expansão e aprofundamento de conhecimentos e vivências de diretrizes, ações, projetos e programas em hospitais públicos e privados. Os dados revelam, ainda, que as fonoaudiólogas apresentam maior experiência clínica quando comparada às práticas coletivas e corroboram estudos que discutem a formação e a prática do fonoaudiólogo ainda muito voltada à clínica em detrimento da saúde coletiva10. As instituições de ensino precisam, portanto, introduzir nos programas educacionais, voltados para a formação do fonoaudiólogo, modelos e práticas de saúde coletiva.

A análise do perfil das fonoaudiólogas em relação à formação evidenciou que a maioria investiu e investe em atividade de educação continuada e permanente o que deve impactar positivamente as atividades assistenciais e de gestão. Além disso, parte da amostra é, também docente no curso de Fonoaudiologia da instituição e portanto, apresenta formação acadêmica (mestrado e doutorado). Tal dado aproxima a formação dos estudantes das práticas clínicas e de gestão na instituição. Entende-se que a pós-graduação tem como perfil a formação de docentes de ensino superior capazes de traçar estratégias de planejamento e gestão do conhecimento em consonância com as práticas clínicas desenvolvidas na instituição11.

Dos resultados referentes ao conhecimento da Política Nacional de Humanização

Em face do conceito de humanização divulgado e preconizado por esferas do governo e da própria instituição, ao verificar que 60% da amostra referem conhecer a Política Nacional de Humanização, cabe avaliar a implicação deste dado na prática assistencial e no conhecimento e aplicação das políticas de saúde. Cabe ressaltar que os dados de conhecimentos / desconhecimento da PNH não necessariamente se traduzem em relações e práticas mais ou menos humanizadas. Cabe ainda, considerar que nem sempre o conhecimento formal de um conceito garante sua instituição e aplicação. Contudo, o conhecimento e apropriação do conceito é a primeira etapa a ser garantida antes da incorporação na prática. No presente estudo deve ser vista como positiva a amostra de fonoaudiólogos que referiu conhecer a PNH.

A análise dos conteúdos das respostas apresentadas pelas fonoaudiólogas quanto ao conceito de humanização, revelou que o atendimento integral, a qualidade de vida e o acolhimento são categorias destacadas. Percebe-se que as fonoaudiólogas demonstram acreditar que para garantia do atendimento humanizado é necessário oferecer atendimento integral com equidade, em todas as práticas profissionais, e considerar cada usuário como ser indivisível sem possibilidades de desvincular biológico, psíquico, espiritual e social. A qualidade da atenção deve demonstrar o respeito que se tem pelo indivíduo/pelo sujeito. O acolhimento ou valorização do usuário enquanto sujeito do processo saúde/doença garante o cuidado com o outro, proporcionando relações mais saudáveis, assim como maior efetividade do atendimento. Estes achados indicam que as fonoaudiólogas participantes da pesquisa destacam a importância de existir uma assistência integral que busque resolver problemas e necessidades de saúde do usuário conforme enfatizado pela literatura1 e contribuir positivamente para a qualidade da atenção, comunicação e integração entre profissionais e usuários12. Tais dados corroboram ainda diversos estudos7,13-17.

A análise dos conteúdos das respostas apresentadas pelas fonoaudiólogas quanto o necessário para um atendimento Humanizado, tendo como referência a instituição, revelou que o acesso e organização dos serviços, a relação entre os trabalhadores e as equipes, a instrumentalização/capacitação de profissionais e equipes, as ações de promoção da saúde, valorização do profissional e infra-estrutura para o trabalho em saúde foram as categorias enfatizadas. Estes achados demonstram que os sujeitos de pesquisa entendem as dimensões e implicações da incorporação da PNH no perfil organizacional e a valorização dos espaços de trabalho em equipe como parte do processo de humanização da assistência.

Vale dizer que a instituição deveria lançar mão de estratégias que propiciem, no processo administrativo e burocrático, maior efetividade dos serviços. Para tanto, é fundamental propiciar a capacitação do trabalhador em saúde, quanto à gestão do trabalho e capacitação técnica e assistencial, dando a ele oportunidade de conhecer e valorizar suas atividades. 17-20 Deste modo, a promoção do cuidado também seria resultado da valorização e capacitação do trabalhador da saúde.

As necessidades relatadas pelas fonoaudiólogas corroboram estudos que relatam a necessidade de criação de uma PNH que traga mudanças nos modelos de atenção e gestão em saúde, amparando usuários e servidores, assim como garantindo um espaço físico, administrativo e ambiental digno2,7. Considerar a PNH na escolha e gestão de estratégias e projetos assistenciais de saúde é fundamental para amparar o trabalhador e o próprio projeto institucional2,6,7,12, 18-21.

A análise dos conteúdos quanto ao necessário para um atendimento humanizado, tendo como referência o ambiente de trabalho, demonstrou que a garantia de condições estruturais, de higiene, a micropolítica das relações e gestão do trabalho multiprofissional e intersetorial foram categorias predominantes. Em face das respostas, para um desempenho positivo dos servidores, estes devem contar com uma infra-estrutura física, de higiene, ambiental e de relacionamento que beneficie e facilite as suas atividades e serviços prestados. Neste caso, vale lembrar a experiência realizada em outro hospital, que trouxe como resultado a possibilidade de obter mudanças positivas nos serviços saúde, quando o trabalho de organização dos mesmos é desenvolvido em equipe19.

Os dados referentes às demandas do ambiente de trabalho corroboram, ainda, estudos que enfatizaram o papel do ambiente de trabalho na garantia de condições assistenciais adequadas e do processo de trabalho humanizado e humanizador, que lembram da necessidade de união e comprometimento de trabalhadores e usuários para o cumprimento de tais demandas2,21,22.

As respostas apresentadas quanto o necessário para um atendimento Humanizado, tendo como referência o usuário, evidenciaram a importância do usuário conhecer seus direitos e deveres, os direitos e deveres dos trabalhadores, além de respeitar regras, normas instituição. Com isto, percebe-se também que grande parte das fonoaudiólogas ressalta o cumprimento dos direitos e deveres dos usuários, enquanto outras demandam responsabilidade ao usuário quanto aos procedimentos. Cabe ressaltar que a responsabilidade principal pelos procedimentos e práticas assistenciais não deve ser delegada ao usuário pois este, muitas vezes, não tem poder ou não é considerado no processo decisório das ações profissionais. O que deve ser analisado e discutido é o processo de vinculação e desvinculação e apropriação do usuário. Assim, deve-se olhar com cuidado as respostas de parte das fonoaudiólogas que delegaram ao usuário a responsabilidade pela adequação dos procedimentos assistenciais. Sabe-se que a participação do usuário é fundamental no processo de assistência, mas ele não pode ser responsabilizado pela adequação ou não dos procedimentos prestados. Alguns estudos enfatizam a necessidade de considerar o usuário como protagonista do processo de atenção em saúde, mas em nenhum deles o processo de responsabilização é retirado do profissional3,14,23. Assim, cabe destacar achados que ressaltam a importância da preparação e participação dos usuários e dos técnicos nos processos assistenciais, para garantir acolhimento e processo de recuperação mais rápido3,23. Médicos que foram em algum momento pacientes, relataram ter vivenciado a sensação de perda dos seus direitos, além da falta de apoio psicológico por parte dos profissionais da área, trazendo então a importância da participação do usuário para atendimento mais humanizado14.

É preciso destacar a parte da amostra que elencou a vinculação entre profissional e usuário no processo assistencial e como esta vinculação pode favorecer atenção integral e práticas mais humanizadas O atendimento integral cria um vínculo entre o profissional e o usuário1. Ao conhecer melhor o usuário o profissional obtém maior conhecimento sobre o indivíduo. Por outro lado, há estudos que contam da experiência de encontrar passividade e resignação em alguns sujeitos (usuários) entrevistados frente aos seus direitos como cidadãos19. Os dados referentes às demandas do usuário corroboram, ainda outros estudos4,5,15,17,24,25.

A análise dos conteúdos quanto ao necessário para um atendimento Humanizado, tendo como referência o profissional, evidenciou como categorias o investimento no trabalho em equipe, compromisso com a formação e instrumentalização profissional e respeito ao usuário. Devem-se considerar estas categorias como essenciais, uma vez que, para ter o atendimento humanizado, é indispensável à instrumentalização e formação permanente dos servidores. Quando há equilíbrio entre tecnologia, formação e construção de identidade profissional, se oferece ao trabalhador apropriação, segurança e satisfação frente às ações e projetos desenvolvidos., Os dados aqui elencados corroboram autores que revelam a importância da discussão entre tecnologia das relações, processo de cuidado e do trabalho em saúde na garantia do acesso e da humanização das práticas de saúde14; e enfatizam a necessidade de mudanças nos processos de trabalho26-28, no caso do estudo em partos, para garantir os direitos da mulher e sua família29. O conhecer e ter habilidade de tratamento interpessoal auxilia na comunicação e interação entre profissional e usuário, garantindo maior abrangência e eficácia no tratamento17.

Na literatura compulsada foram encontrados estudos que lembram a importância da construção de um projeto coletivo, da formação profissional e da atualização permanente em equipe e da equipe para o estabelecimento de práticas humanizadas e humanizadoras7,17,21,29-37. A literatura aponta que a PNH deve favorecer a mudança de rotinas, práticas e, sobretudo a relação entre usuários, profissionais e gestores38.

As fonoaudiólogas que participaram do estudo consideraram o conhecimento da Política Nacional de Humanização (PNH) como elemento essencial para o desenvolvimento de programas humanizadores que propiciem a relação efetiva entre usuário, profissionais e instituição.

No presente estudo, a discussão da Política Nacional de Humanização aliada a prática fonoaudiológica, pode ser considerada relevante e pode, ainda contribuir no avanço na investigação na área de saúde coletiva, sobretudo e na interface com a gestão e avaliação de serviços assistenciais. Apesar das contribuições do estudo, foram observadas algumas limitações durante a sua realização. Duas delas foram o tamanho e o delineamento da amostra, visto que foram analisadas percepções de fonoaudiólogos de apenas uma instituição. Além disso, a amostra de conveniência impede generalizações dos achados.

Dados como os aqui apresentados podem ser relevantes para a prática fonoaudiológica, pois é possível a consideração dos achados como eixos de discussão na estruturação da assistência e na construção de atendimentos de qualidade e efetivos. Podem ainda contribuir na discussão da garantia, da valorização e priorização do outro no encontro entre "usuário-cidadão", "profissional-cidadão" e instituição comprometida.

 

CONCLUSÕES

Frente aos achados da pesquisa foi considerado pertinente concluir que a maioria das entrevistadas, graduada em Fonoaudiologia há mais de cinco anos, refere conhecer a Política Nacional de Humanização (PNH). O conceito de humanização apontado pela amostra perpassa os conceitos de atendimento integral, acolhimento e qualidade de vida.

As necessidades/demandas apontadas para garantia do atendimento humanizado tendo como referência constou dos eixos temáticos gestão e organização dos serviços de saúde, instrumentalização do trabalhador da saúde, inclusão de práticas multiprofissionais e intersetoriais, além do respeito às demandas e direitos do usuário.

 

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Endereço para correspondência:
Stela Maris Aguiar Lemos
Departamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Medicina – UFMG
Avenida Alfredo Balena, 190, sala 069
Santa Efigênia – Belo Horizonte – Minas Gerais – CEP: 30130 –100
E-mail: smarislemos@medicina.ufmg.br

Recebido em: 10/02/2011
Aceito em: 20/07/2011

 

 

Conflito de interesses: inexistente