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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.14 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2012 Epub Oct 14, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462011005000107 

Audição, zumbido e qualidade de vida: um estudo piloto

 

Hearing, tinnitus and life quality: a pilot study

 

 

Carolina Campos EstevesI; Florence Nunes BrandãoII; Carlos Gustavo Alves SiqueiraIII; Sirley Alves da Silva CarvalhoIV

IFonoaudióloga graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil
IIFonoaudióloga; Especialista em Audiologia Clínica pelo CEFAC – MG
IIIFonoaudiólogo graduado pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas – UNCISAL; Especialização em Audiologia pela Faculdade de Estudos Administrativos e Faculdade de Estudos Superiores – FEAD, MG
IVFonoaudióloga; Professora Adjunto do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; Doutora em Biofísica Sensorial pela Universidade d'Avergne – França

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: analisar a influência do zumbido na qualidade de vida dos pacientes; verificar a relação entre grau de incômodo do zumbido e presença de perda auditiva concomitante.
MÉTODO: estudo observacional transversal com amostra de conveniência. Foram aplicados anamnese e questionário com enfoque das características clínicas do zumbido em 22 pacientes. Para análise dos dados, foi aplicado o Teste exato de Fisher, com nível de significância de 5% (p < 0,05).
RESULTADOS: dos 22 pacientes, 7 ( 31,8%) apresentaram audição normal e 15 (68,2%) apresentaram algum tipo de perda auditiva. Dos pacientes possuidores de perda auditiva, 12 apresentaram perda auditiva neurossensorial em pelo menos uma das orelhas e 3 perda mista uni ou bilateral. Quanto ao grau de incômodo, utilizando a escala análogo-visual, 17 (77,27%) dos pacientes relataram incômodo intenso, ao passo que 5 (22,72%) consideraram grau reduzido de incômodo gerado por esse sintoma. Foi evidenciado que o zumbido impacta mais as emoções e o sono dos pacientes, do que a concentração e realização de atividades sociais.
CONCLUSÕES: dos 22 pacientes com zumbido, encaminhados para realização do PEATE, 70% apresentam zumbido e perda auditiva associada. No entanto, não houve relação entre a presença de zumbido e presença de perda. Não houve ainda relação entre o grau de incômodo e presença de perda.

Descritores: Zumbido; Perda Auditiva; Qualidade de Vida; Audiologia


ABSTRACT

PURPOSE: to analyze life quality in patients that suffer from tinnitus; to check the relation between degree of tinnitus' annoyance and presence of concomitant hearing loss.
METHOD: transversal observational study, , with convenience sample. Anamneses were applied focusing tinnitus symptom over 22 patients. In order to analyze data we used Fisher's Exact Test within a 5% significance level.
RESULTS: 31.8% of the sample had tinnitus concomitant with normal hearing bilaterally; 68.2% had tinnitus concomitant with some type of hearing loss in one or both ears. In this case, 12 patients showed sensorioneural hearing loss and 03 patients had mixed loss. As for the degree of annoyance referred from tinnitus symptom, using the visual analog scale, 17 (77.27%) patients reported intense discomfort, whereas 5 (22.72%) reported restricted discomfort. Regarding tinnitus' interference in the quality of life, it was possible to note that tinnitus impacts most in patients' emotions and sleep.
CONCLUSIONS: from 22 patients referred to take PEATE's exam, 70% of the survey had hearing loss concomitant with tinnitus. However, the relation between tinnitus and hearing loss was not evidenced. We neither found any relation between degree of hearing loss and annoyance.

Keywords: Tinnitus; Hearing Loss; Quality of Life; Audiology


 

 

INTRODUÇÃO

As definições mais recentes de zumbido, encontradas na literatura nacional e internacional, descrevem-no como uma ilusão auditiva, uma sensação sonora endógena, não relacionada a nenhuma fonte externa de estimulação, sendo provavelmente um sintoma recorrente de outra patologia não auditiva, como alterações metabólicas, que afetam a saúde e o bem-estar do paciente 1-3. Não se têm dados estatísticos concretos quanto à incidência no Brasil, entretanto acredita-se que mais de 28 milhões de brasileiros apresentam zumbido em alguma etapa de sua vida 3,4.

Gerado pela porção neurossensorial do sistema auditivo e acometendo aproximadamente um terço da população adulta, o zumbido tem vasto leque de etiologias, entre as quais: otológica, cardiovascular, metabólica, neurológica, farmacológica, odontogênica ou psicogênica. Com o objetivo de diagnosticar a causa do zumbido, os pacientes são encaminhados para avaliação audiológica verificando-se assim a integridade de toda a via auditiva 3-6.

O modelo neurofisiológico proposto por Jastreboff na década de 90 sugere que o zumbido seria o resultado da interação dinâmica entre os centros auditivos e os não-auditivos do Sistema Nervoso Central, incluindo o Sistema Límbico e o Sistema Nervoso Autônomo. A avaliação permanente de um possível estímulo nervoso, pelos Sistemas Nervoso Central e Límbico seria o responsável pelo incômodo induzido pelo zumbido 7,8. Infere-se que os fatores que geram o seu aparecimento não sejam os mesmos que determinam a sua persistência ou incômodo 7,8. Este último ocorreria quando a associação entre a percepção do zumbido é aliada a algo negativo, por exemplo: coincidência aleatória da percepção de zumbido e um sentimento de desconforto ou tensão7. Pessoas com tal sintoma, frequentemente atribuem ao zumbido muitos de seus problemas, tais como alterações na saúde, depressão e dificuldade de percepção da fala. Tais efeitos podem comprometer de tal maneira a qualidade de vida das pessoas que, em casos extremos, levam ao suicídio 3,5,9-11 .

Muitas pesquisas já foram realizadas a fim de discutir o impacto do zumbido na qualidade de vida 3,5,8,9-15 . Foi demonstrando que 20% dos pacientes que possuem essa sintomatologia apresentam grau de incômodo moderado a severo, com repercussão impactante e, até mesmo, incapacitante na qualidade de vida, com interferências no sono e nas atividades sociais, além de provocar distúrbios emocionais 3,10,16. Algumas queixas demonstram que o incômodo do zumbido chega a afetar funções mentais normais, tais como o raciocínio, memória e concentração. Essas alterações trazem prejuízos nas atividades de trabalho e de lazer, no repouso, na comunicação, no ambiente social e doméstico com repercussão na esfera psíquica, deixando as pessoas irritadiças, ansiosas, angustiadas, deprimidas e insones. Fatores, como perda auditiva, alterações concomitantes da orelha média, alterações no sistema vestibular, dores de cabeça, bem como infecções das vias aéreas superiores mostraram papel significante na determinação do grau de incômodo 3,9,10. Agravantes, como fadiga física e mental, ansiedade, estresse e depressão levam a uma piora no incômodo percebido pelo paciente 3,11,12.

Ao analisar variáveis, como gênero, idade e presença de perda auditiva tem-se grande variação quanto ao incômodo gerado. Sabe-se que a incidência de zumbido e perda auditiva aumenta com o avançar da idade 2,3,8,11,16. A avaliação das consequências do zumbido, por meio de questionários, foi incluída na rotina clínica com o objetivo de quantificar os déficits psicoemocionais e funcionais provocados, visando à universalização de critérios e às comparações entre populações afetadas13,16.

Em estudos realizados com população de idosos, questionários foram aplicados englobando as características do zumbido e a repercussão na vida do paciente 3,13,14. Nessa população, este é tido como causa da diminuição da inteligibilidade da fala, dificultando seu relacionamento interpessoal. A maioria dos pacientes referiu ainda interferência no sono e no estado emocional, com implicação também na realização das atividades de vida diárias 13,14.

É descrito na literatura que o zumbido é potencializado quando ocorre juntamente com algum tipo de perda auditiva 3,9-12,14. Foi realizada pesquisa com indivíduos brasileiros de 7 a 95 anos, todos com queixa de zumbido. Concluiu-se que a ocorrência de perda auditiva em sujeitos portadores de zumbido é progressivamente maior à medida que a idade avança, com maior incidência também de perdas auditivas 10,14,15.

No teste Audiometria Tonal, mensura-se a intensidade mínima audível para puros. A configuração da curva audiométrica de um paciente que possui zumbido é geralmente descendente com audição pior nas frequências altas3,6,11,17,18.

Em estudo realizado em população com zumbido, objetivou-se comparar as características clínicas e sua interferência nas atividades da vida diária em pacientes com e sem perda auditiva. Concluiu-se que pacientes sem perda auditiva associada apresentaram menor interferência nas atividades de concentração e equilíbrio emocional, quando comparados com o grupo controle, que possuía perda auditiva 16.

A Fonoaudiologia insere-se tanto na avaliação audiológica do paciente quanto na terapia para o zumbido. São descritas na literatura a utilização de aparelhos de amplificação sonora individual (AASI) e até mesmo implante colear, como controle do zumbido em pacientes com perda auditiva neurossensorial 19. A reabilitação vestibular também foi descrita como opção na melhoria da sintomatologia no caso de paciente com zumbido associado a alterações vestibulares, com remissão ou diminuição significante do impacto do zumbido após a terapia 20-22. Além desses é famosa a opção pela terapia de habituação, o TRT – Tinnitus Retraining Therapy, aplicado por fonoaudiólogo devidamente treinado 23.

Diante da grande subjetividade e das controvérsias em torno deste tema, a presente pesquisa visa analisar a influência do zumbido na qualidade de vida de seus portadores, bem como correlacionar o perfil audiométrico, verificando a existência de relação entre grau de incômodo e presença de perda auditiva concomitante, além de relação dos fatores sexo e idade. Espera-se que tais dados auxiliem no direcionamento da terapia e, consequentemente, na melhoria da qualidade de vida desse sujeito.

 

MÉTODO

O delineamento do estudo é do tipo observacional, transversal, com amostra de conveniência. Realizou-se amostragem piloto, com casuística composta por 22 participantes, encaminhados ao Serviço de Audiologia do Hospital São Geraldo, anexo do Hospital das Clínicas-UFMG em Belo Horizonte, por otorrinolaringologistas e/ou neurologistas, para realização do exame Potenciais Evocados Auditivos de Tronco Encefálico (PEATE), que apresentavam como queixa a presença de zumbido. Foram incluídos na pesquisa participantes com idade acima de 18 anos, de ambos os gêneros, que já haviam realizado a Audiometria Tonal e traziam consigo os resultados apresentados no momento da execução do exame PEATE. Foram excluídos da amostra pacientes com quaisquer comprometimentos cognitivos, neurológicos, ou não usuários do código linguístico oral. Todos os participantes receberam as orientações e explicações sobre a pesquisa, leram, concordaram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, em agosto de 2009 com o parecer nº 295/09.

Inicialmente, foi aplicada anamnese prevista no protocolo de atendimento do Ambulatório de Audiologia, enfocando história atual e pregressa da queixa apresentada pelo paciente, bem como sinais e sintomas associados. Em seguida, aplicado questionário enfocando descrição das características clínicas do zumbido, repercussão do zumbido na vida do paciente 11.

A severidade do zumbido foi analisada pela escala análoga visual (EVA). Segundo esse método, o paciente é inquirido a dar nota de 1 a 10 a seu zumbido, imaginando que 1 seria zumbido leve, e 10 o pior zumbido que ele poderia imaginar (figura 1). Para realização de análise estatística, fragmentaram-se os resultados da EVA em maiores (muito incômodo) ou menores (pouco incômodo) que cinco. Foi realizada adicionalmente coleta dos dados da Audiometria Tonal Limiar, Vocal e Imitanciometria. A classificação do grau de perda auditiva foi baseada em critérios propostos por Davis & Silverman 24.

 

 

Adotou-se o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) 15.0 for windows – SPSS Incorporation, Chicago, Illinois, Estados Unidos da América, 2008.

Para caracterização da amostra, foram feitas tabelas de distribuição de frequências para as variáveis categóricas (sexo, presença de perda auditiva, interferência no sono, na concentração, na emoção e na vida social, tipo de perda auditiva) e, para as variáveis contínuas (idade, resultado do EVAS), foram utilizadas

medidas de tendência central (média, mediana, mínimo e máximo) e variabilidade (desvio padrão (DP)).

Para comparação dos grupos com variáveis categóricas, foi feito o teste Qui-quadrado de Pearson, apropriado para comparação de proporções, ou teste de Fisher, quando foram utilizadas amostras com pequenas frequências.

Com a finalidade de estudar a relação estatística entre as entre resultado do EVAS e idade do pacientes, utilizou-se a regressão. Os resultados foram demonstrados por meio do diagrama de espalhamento ou de dispersão (Scatter plot).

Em todas as análises, foi considerado um nível de 5% de significância.

 

RESULTADOS

O grupo estudado foi composto por 22 sujeitos de ambos os sexos. Foram avaliados 11 pacientes do sexo feminino e 11 do sexo masculino. A média de idade da população estudada foi de 53,09 anos, com desvio padrão igual a 13,71, mínimo 22 e máximo 73.

Quanto ao perfil audiométrico, dos 22 pacientes 7 (31,8%) apresentaram audição normal e 15 (68,2%) apresentaram algum tipo de perda auditiva. Não ocorreu na amostra caso algum de paciente com comprometimento retrococlear A tabela 1 descreve o perfil audiométrico dos pacientes em relação ao tipo e grau de perda auditiva. Todos os pacientes da amostra possuem zumbido.

 

 

Na tabela 2, é descrita a associação entre perda auditiva e o resultado da EVA.

 

 

A figura 2 demonstra os resultados da influência do zumbido na qualidade de vida de seus portadores.

 

 

O estudo de correlação entre intensidade do zumbido (EVAS <5 e EVAS>5) e influência na qualidade de vida está demonstrado na tabela 3.

 

 

A figura 3 demonstra que não há correlação entre idade e resultado de EVAS (p>0,05).

 

 

A análise comparativa em relação ao gênero não demonstrou diferença com significância estatística, resultando em P valor maior que 0,005.

 

DISCUSSÃO

Ao analisar a idade da população estudada, nota-se média de 53,09 anos. Apesar de possuir alto desvio padrão, este dado está de acordo com a literatura, que descreve que a ocorrência de zumbido é maior em indivíduos a partir de 50 anos, apesar da variabilidade de idade de incidência 3,8,11,12,16,17.

Quanto ao perfil audiométrico da população, observa-se que 68,2% dos sujeitos estudados (n=15) apresentaram perda auditiva concomitante ao zumbido (Tabela 1).

Dos pacientes possuidores de perda auditiva, 12 apresentaram perda auditiva neurossensorial em pelo menos uma das orelhas, e três perda mista uni ou bilateral.

É descrito na literatura que 80% dos zumbidos são de origem neurossensorial, ou seja, proveniente da contração das células ciliadas externas. Este estudo está de acordo com a literatura, uma vez que 58,1% dos sujeitos possuíram componentes neurossensoriais em alterações auditivas 9,10,12.

É incerto se a perda auditiva funcionaria como gatilho para o início do zumbido ou se seria também preditor de sua gravidade. No caso de pacientes com perda auditiva e zumbido concomitantemente, sugere-se investigar qual desses sintomas provoca maior incômodo, a fim de indicar qual melhor abordagem deve ser realizada durante a terapia 3,10,14,15 . Pode-se observar que 50% (n=11) dos pacientes que possuiam perda auditiva relataram maior incômodo referente ao zumbido (Tab 2). No entanto, 4 pacientes (18,18%) possuidores de perda auditiva relatam menor incômodo. 27,27% dos pacientes com audição normal apresentaram zumbido com alto grau de incômodo.

O fato de alguns pacientes apresentarem zumbido com audição normal e, ainda, apresentarem grau de incômodo pode ser explicado por fatores associado à queixa de zumbido. Adversidades, como fadiga, estresse, ansiedade e depressão levam a uma piora no grau de incômodo do zumbido percebido pelo paciente, o que demonstra que não é necessária perda auditiva concomitante para que o grau de incômodo seja relatado como moderado ou severo. Queixas, como: alteração vestibular, dor de cabeça e infecção das vias aéreas superiores, quando concomitante ao zumbido, também agravam o grau de incômodo descrito por pacientes 16. Na amostra estudada, verificou-se que pacientes sem perda auditiva apresentaram menor grau de incômodo quando comparado aos pacientes com perda auditiva. No entanto, não foi questionado a esses pacientes se possuíam outras alterações concomitantes ao zumbido. Assim, não se pode afirmar que a ausência de perda auditiva está diretamente relacionada com a redução do incômodo. Os achados corroboram, ainda, o modelo proposto por Jastreboff 7,8, demonstrando que a influência do Sistema Límbico e as emoções podem agir mais negativamente sobre o incômodo gerado pelo zumbido do que o grau da perda auditiva.

Em estudo realizado na Austrália, foi observado que 20% da população apresentava zumbido com graus intensos de incômodo 9 .No presente estudo observou-se que 77,28% da amostra (n= 17) relataram muito incômodo utilizando-se a escala análogo-visual (Tab 2). Apenas cinco pacientes (22,72%) consideraram o zumbido como sintoma que não gerava grande incômodo Tal incidência é acima do esperado. Esse achado é clinicamente importante. No entanto, o número total de sujeitos avaliados nesta pesquisa não é expressivo, quando comparado à incidência na população afetada por tal sintoma, não se podendo, assim, generalizar tal dado.

A análise de regressão confirma a ausência de correlação entre as variáveis idade e EVA (R2=0,173). Não foi possível observar no perfil da população associação entre o aumento da idade e aumento do incômodo impactado pelo zumbido, uma vez que os resultados encontram-se dispersos e sem padrão nem organização. Esse achado difere da literatura, que demonstra o aumento do incômodo gerado pelo zumbido associado ao aumento de idade de seus portadores. 3,9-12,14.

Em relação ao impacto na qualidade de vida, analisaram-se separadamente as variáveis: interferência no sono, interferência na concentração, interferência no estado emocional e na vida social. Esses dados estão distribuídos na Figura 2. É possível observar que 59,09% (n=13) dos pacientes consideraram que o zumbido interferia em seu estado emocional; 50% dos pacientes relataram impacto na qualidade do sono; 36,36 % (n=8) impacto na taxa de concentração e 31,81% (n= 7) interferência em sua vida social.

Em estudo realizado em população paulista, encontrou-se a incidência da interferência no sono em 50% da população estudada 6, similar ao encontrado no presente estudo. No entanto, ao comparar os achados do presente estudo com a literatura, nota-se diferença marcante do tamanho na população estudada, sendo o "n" deste estudo quantitativamente menor.

Quanto à interferência na concentração, 35 % da população relatou ter alterações de concentração geradas pelo zumbido e 15 sujeitos (65%) não relataram alteração na concentração (Tab 3). Tal resultado foi inferior ao obtido por Sanchez (2004), no qual a interferência na concentração foi queixa de 43,5% (8 sujeitos) da população. Vale ressaltar que o n das duas pesquisas diferem, o que pode ter sido uma possível causa de resultados distintos encontrados.

Ao analisar a interferência do zumbido no estado emocional e sua relação com o grau de incômodo relatado pelo paciente, 8 pacientes (36,36%) relataram interferência de alguma forma em suas emoções. Estes resultados aproximam-se muito dos resultados encontrados por Sanchez (2004) onde 59% da população estudada relatou interferência no equilíbrio emocional.

No presente estudo não houve associação entre o grau de incômodo do zumbido e a interferência na vida social. Esses dados corroboram estudos prévios 6.

Pacientes com queixa de zumbido podem apresentar graus de incômodos variados, tendo maior ou menor impacto na qualidade de vida. Tendo em vista a definição de qualidade de vida proposta pela OMS em 1995 24, sabe-se que a percepção subjetiva que o paciente tem sobre seu bem-estar é relevante para contextualizar o grau de impacto do sintoma relatado em sua vida. Quando se aplica esse conceito ao paciente que possui zumbido não se pode perder de vista que queixas são relatadas, e se há algum grau de fobia relacionado aos danos. É relevante lembrar que o zumbido pode afetar atividades da vida diária, bem como atividades mentais superiores, levando ao isolamento social e até mesmo ao suicídio. Sendo assim, é importante entender detalhadamente como o zumbido impacta a qualidade de vida do paciente, sugerindo dados que facilitarão a conduta terapêutica.

Neste estudo, foi evidenciado que o zumbido impacta mais as emoções e o sono dos pacientes do que a concentração e realização de atividades sociais.

Apesar de relevantes, as conclusões dessa pesquisa não podem ser extrapoladas para outras populações. Supõe-se que a ausência de associação significativa e/ou correlação nas análises realizadas não tenha ocorrido por se tratar de um estudo piloto, com n insuficiente para estabelecer tais tipos de relação e associação estatística.

 

CONCLUSÕES

Dos 22 pacientes com zumbido encaminhados para realização do PEATE, 68,19% apresentavam algum tipo de perda auditiva uni ou bilateral. Não foi encontrada relação estatisticamente significante entre a presença de perda auditiva e grau de incômodo relatado. 27,27% dos pacientes com audição normal apresentaram zumbido com alto grau de incômodo. No entanto, não houve relação entre a presença de zumbido e perda auditiva associada. Não houve ainda relação entre o grau de incômodo e presença de perda.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Carolina Campos Esteves
R. Raimundo Correa, 108/100, São Pedro
Belo Horizonte – MG – Brasil
CEP: 30330-090
E-mail: carolcampose@hotmail.com

Recebido em: 21/02/2011
Aceito em: 11/05/2011

 

 

Conflito de interesses: inexistente
Estudo apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Fonoaudiologia na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.