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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.14 no.6 São Paulo Oct./Dec. 2012 Epub May 29, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462012005000041 

Modificações faciais em clientes submetidos a tratamento estético fonoaudiológico da face em Clínica-Escola de Fonoaudiologia

 

Face changes on patients after aesthetic speech therapy treatment in School-Practice of Speech Therapy

 

 

Hilda Gabriela Arantes de ArizolaI; Silvana Maria BrescoviciII; Susana Elena DelgadoIII; Caroline Kurtz RuschelIV

IAcadêmica do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Luterana do Brasil, Canoas, RS
IIFonoaudióloga; Professora Adjunta do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Luterana do Brasil - ULBRA, RS; Mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Brasil
IIIFonoaudióloga; Professora Adjunta do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Luterana do Brasil - ULBRA,RS; Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA
IVFonoaudióloga; Canoas, RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: identificar possíveis modificações faciais em pacientes submetidos à tratamento estético fonoaudiológico da face na Clínica-Escola de Fonoaudiologia e verificar se estas modificações foram percebidas pelo cliente, por terceiros e por fonoaudiólogos, e constatar o grau de satisfação do cliente com o resultado.
MÉTODO: participaram do estudo 11 mulheres com idade de 40 a 50 anos (média de idade 44,5 ± 3,6 anos), excluíram-se as com tratamento fonoaudiológico estético ou cirurgia faciais prévios e patologias neurológicas. Submeteram-se a 10 sessões de terapia, com exercícios estáticos e dinâmicos. Responderam questionário sobre modificações percebidas por elas ou referidas por terceiros. Suas fotos pré e pós tratamento foram analisadas por fonoaudiólogos especialistas em motricidade orofacial identificando presença ou ausência de modificações. Em escala análoga visual de 100 mm, marcaram seus graus de satisfação com aparência facial pré e pós tratamento.
RESULTADOS: todas (100%) perceberam modificações faciais: diminuição das rugas dos olhos e dos lábios (100%) e diminuição do sulco nasolabial, lábios mais definidos, pele mais viçosa e brilhante e suavização das marcas de expressão (90,91%). Terceiros referiram modificação: diminuição das olheiras pele mais viçosa e brilhante (45,45%). Não se encontrou concordância entre os três especialistas, embora tenham percebido em maior ou menor grau modificações na maioria das variáveis analisadas. O grau médio de satisfação com a aparência facial aumentou de 46,18 para 82,09 (p=0,05).
CONCLUSÃO: o tratamento fonoaudiológico proporcionou modificações faciais percebidas pelas clientes, por terceiros e pelos especialistas. Elas mostraram-se mais satisfeitas com o aspecto estético da face após a intervenção fonoaudiológica.

Descritores: Fonoaudiologia; Estética; Face


ABSTRACT

PURPOSE: to identify possible facial changes in patients undergoing aesthetic facial treatment at the Practice School of Speech Therapy and checking whether these changes were perceived by patients, other people and by audiologists, as well as checking their satisfaction as for the results.
METHOD: the study included 11 women aged 40 to 50 years (average 44.5 ± 3.6 years). Exclusion criteria: women undergoing previous speech therapy treatment, aesthetic facial surgery, or neurological disorders. They were submitted to 10 therapy sessions, with isotonic and isometric exercises. Furthermore, they answered a questionnaire about perceived changes. The "before and after" pictures were analyzed by speech-language pathologist being specialists in oral motricity who identified the presence or absence of changes. In a 100mm visual analogue scale, the satisfaction score on the facial appearance after and before treatment was flagged.
RESULTS: all patients (100%) have perceived facial changes: eye and lips wrinkles' reduction as well as nasolabial furrow, more defined lips, youthful and shining skin, and mitigation of wrinkle expressions (90.91%). The others have referred the following changes (45.45%): reduction of undereyes' shadows, youthful and shining skin. The specialists have not found agreement, although they have realized changes in greater or lesser degree in the majority of the variables analyzed. The average degree of facial appearance satisfaction increased from 46.18 to 82.09 (p=0.05).
CONCLUSION: speech treatment has proportioned facial changes which were noted by the patients, by others and by the specialists. The patients have shown more satisfaction with their faces' aesthetic aspects after the speech treatment.

Keywords: Language, Speech and Hearing Science; Esthetics; Face


 

 

INTRODUÇÃO

O rosto humano é de extrema complexidade e, alguns, dizem que reflete a alma do indivíduo. Às vezes, revela o que não se diz com palavras ou o que não se quer mostrar. Ele expressa emoções que são fundamentais1. Por outro lado, mais do que as outras partes do corpo, a face mostra precocemente os sinais de envelhecimento2.

O aspecto estético é importante na interação social dos indivíduos. As percepções e a capacidade de julgar a própria imagem estão vinculadas a questões emocionais, como a constituição da auto-estima, e culturais como a atratividade social. A auto-estima associa-se à imagem que a pessoa tem de si em comparação ao ideal3.

Por ser a face o segmento do corpo mais representativo e valorizado do ser humano, é natural que nela se concentrem esforços de promoção e conservação de estética e beleza4. Nos últimos tempos, a busca pela estética tem levado às pessoas a se preocuparem muito com sua aparência, principalmente no processo de envelhecimento, mecanismo fisiológico que não pode ser evitado5.

As rugas se originam devido à diminuição das funções do tecido conjuntivo que promove uma deformidade nas camadas de gordura e degeneração das fibras elásticas da pele. A deficiência de oxigenação dos tecidos provoca uma desidratação, contribuindo para a formação das rugas6. Além disso, a expressão facial em excesso, o uso de forma inadequada de alguns grupos musculares7 e os efeitos cumulativos de exposição à luz solar ou outros fatores ambientais8 contribuem com o envelhecimento precoce da pele da face.

A Motricidade Orofacial dentro da Fonoaudiologia tem contribuído para a estética facial cada vez mais, auxiliando no processo de suavização das rugas de expressão por meio de exercícios e massagens na musculatura da face9.

Pesquisadores8 observaram após tratamento fonoaudiológico, a diminuição do sulco nasogeniano, das olheiras, da flacidez das bochechas, das rugas embaixo dos olhos; além de face descansada, relaxada e serena e lábios mais definidos com mudança na postura.

Autores10 descreveram minimização das rugas horizontais na testa; retificação do posicionamento das sobrancelhas; minimização das rugas nos cantos externos dos olhos; suavização das olheiras e do sulco nasogeniano; vedamento labial mais efetivo; melhor definição dos lábios e minimização das rugas periorbiculares orais em uma voluntária de 48 anos, após um programa de tratamento fonoaudiológico estético para a face.

Levando em conta que a estética facial é um segmento em crescimento na fonoaudiologia e que poucas pesquisas têm sido publicadas na área, faz-se necessário investigar mais profundamente as possíveis modificações que ocorrem nos indivíduos tratados, a fim de proporcionar subsídios para uma atuação que, de fato, leve a um reequilíbrio das funções estomatognáticas com impacto estético e que busque atingir a satisfação do cliente.

A presente pesquisa tem como objetivo geral, identificar possíveis modificações faciais em pacientes submetidos a tratamento estético fonoaudiológico da face em uma Clínica-Escola de Fonoaudiologia e verificar se estas modificações foram percebidas pelo cliente, por terceiros e por fonoaudiólogos especialistas e, constatar o grau de satisfação do cliente com o resultado.

 

MÉTODO

Nesta pesquisa descritiva e comparativa longitudinal em série de casos, foram incluídas no estudo 11 mulheres, na faixa etária entre 40 e 50 anos de idade, que procuraram por atendimento clínico fonoaudiológico estético para a face na Clínica-Escola de Fonoaudiologia no Rio Grande do Sul, no período de 12/2009 a 02/2010. Todas as participantes foram esclarecidas quanto aos objetivos e protocolos do estudo, consentindo livre e espontaneamente sua participação.

Foram excluídas aquelas que realizaram cirurgia estética facial, tratamento fonoaudiológico estético anterior e que apresentassem alguma patologia neurológica.

As mulheres realizaram anamnese (Figura 1) e avaliação fonoaudiologia (Figura 2) por meio da observação clínica e palpação da musculatura. Todas foram fotografadas antes e após o tratamento, em pé, encostados na parede, com cabelos presos, sem brincos, mantendo-se à distância de 50 cm dos sujeitos com câmera Nikon D80 sem zoom e sem flash. As fotos foram obtidas em repouso de frente em e de perfil em repouso direito e esquerdo.

Para o tratamento fonoaudiológico estético da face, foi elaborado e aplicado um protocolo de exercícios faciais para estética fonoaudiológica (exercícios dinâmicos e estáticos), baseados em outros autores1,2 direcionados para testa e papada, olhos, bochechas e lábios, além de limpeza da pele com gaze embebida em água, manipulação de soltura muscular facial e alongamento da musculatura facial, realizado por todos os clientes (Figura 3).

O protocolo de exercícios foi aplicado duas vezes por semana com orientação da pesquisadora, pelo período de cinco semanas. A fim de evitar viés metodológico inserindo variáveis de difícil controle, solicitou-se aos clientes que não realizassem exercícios em casa.

Para a avaliação da eficácia do programa terapêutico foi realizado um questionário que indagou sobre as modificações percebidas pelas clientes e por terceiros (Figura 4). As voluntárias deveriam assinalar sim ou não para cada item que questionava a ocorrência de modificações percebidas após o tratamento e sensação sentida imediatamente após a realização dos exercícios. Igualmente foram questionados se as pessoas em geral percebiam e referiram modificações faciais após o tratamento. A mensuração do grau de satisfação pré e pós-tratamento fonoaudiológico foi realizada mediante a marcação em escala análoga visual de 100 mm (Figura 5).

Ainda, para complementar a avaliação dos resultados da intervenção fonoaudiológica e a verificação das modificações faciais, as fotos pré e pós fonoterapia foram comparadas e avaliadas individualmente por 3 fonoaudiólogos especialistas em motricidade orofacial. Eles deveriam assinalar, a partir do seu julgamento, o grau de modificação nas faces (Figura 6). Foram apresentadas as fotos frontais, de perfil direito e esquerdo, pré e pós-tratamento dispostas lado a lado em cada slide, utilizando o programa Microsoft Power Pointer®, gravado em CD e disponibilizado para a avaliação. Foram 15 os itens analisados (rugas ao redor dos olhos, rugas ao redor dos lábios; rugas transversais da testa; rugas glabelares; suavização das marcas de expressão; sulco nasolabial; olheiras; bochechas; lábios; flacidez facial; contorno do rosto; simetria facial; brilho e viçosidade da pele; relaxamento facial; papada).

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Luterana do Brasil, sob número 2009-405H.

Todos os dados coletados foram armazenados em banco de dados do programa Excel. A tabulação dos dados obtidos foi realizada e apresentada em tabelas e posteriormente confrontada com os dados da literatura pesquisada. A análise dos resultados foi realizada de forma estatística com o teste não paramétrico de Wilcoxon, quando analisadas as comparações por meio de escalas. Mediu-se a concordância interobservadores especialistas utilizando o teste Kappa. Foi considerado estatisticamente significante o valor de p < 0,05.

 

RESULTADOS

A amostra resultante constituiu-se de 11 mulheres com idade média de 44,5 anos e 3,6 anos de desvio padrão.

Na anamnese, verificou-se que das 11 mulheres, oito (72,73%) eram onicofágicas; duas (18,18,4%) tabagistas; três (27,27%) apresentaram bruxismo. Quatro (36,36%) tinham expressões faciais repetitivas; duas (18,18%) apresentaram tensão facial; oito referiram dormir de bruços (72,73%). Boa qualidade de sono foi referida por duas (18,18%), uso de creme para o rosto por sete (63,64%) e, de filtro solar, por duas (18,18%).

Observou-se na avaliação, que cinco (45,45%) tinham o biótipo da pele mista, sete apresentaram alterações quanto à sua condição (63,64%) e o fototipo mais frequente foi do tipo IV. Rugas foram encontradas em dez (90,91%) mulheres, estando localizadas nos olhos em dez (90,91%); na glabela em seis (54,55%); na boca em quatro (36,36%). A papada foi verificada em oito (72,73%) delas.

Após tratamento fonoaudiológico estético para a face, oito (72,7%) mulheres relataram sensação de bem-estar e três (27,3%) perceberam sensação face mais relaxada. Outras modificações percebidas pelas clientes, por terceiros e pelos julgadores são descritas nas tabelas a seguir.

A Tabela 1 apresenta as demais modificações faciais percebidas pelas clientes.

A Tabela 2 descreve as modificações percebidas por terceiros que foram relatadas pelas mulheres.

A Tabela 3 descreve as modificações faciais observados pelos julgadores fonoaudiólogos especialistas ao analisarem as fotos pré e pós terpaia fonoaudiológica. Não houve concordância quanto as modificações faciais após terapia quando consideradas os três julgadores. O julgador A não concordou com os demais em nenhum aspecto. Porém, o julgador B e C concordaram que houve melhora nas rugas dos olhos (p= 0,036*), nas rugas da testa (p= 0,026*), no contorno do rosto (p= 0,044*) e no brilho e viscosidade da pele (p= 0,011*). Os mesmos julgadores, B e C também concordaram que as mulheres do presente estudo não apresentaram melhora nas rugas dos lábios (p= 0,000*).

Dez (90,91%) mulheres aumentaram o grau de satisfação quanto à aparência estética da face (figura 1) após tratamento. Houve diferença entre as médias pré (46,18) e pós-tratamento (82,09).

 

Figura 7

 

DISCUSSÃO

Embora nos últimos anos tenha aumentado a publicação de trabalhos sobre a atuação fonoaudiológica em estética facial9-16, a maioria deles, com o objetivo de verificar a eficácia da intervenção fonoaudiológica, estudou pequenas amostras10-15 e utilizou metodologias diversas, o que dificulta a comparação direta entre eles. Alguns descrevem modificações em determinada região facial9,13, outro verifica a eficácia de duas técnicas13, outro ainda se propõe a descrever o raciocínio clínico em cada um dos três terços faciais conforme a queixa do paciente14.

O presente estudo utilizou programa terapêutico único para todas as clientes, independente dos resultados da avaliação fonoaudiológica. Além disso, as clientes foram orientadas a não realizarem exercícios em casa para que se pudesse controlar a variável relacionada à frequência da exercitação.

Todas as clientes realizaram duas sessões semanais com tratamento uniforme, durante cinco semanas totalizando dez sessões. O tempo de duração do tratamento do presente estudo está contido no intervalo de tempo dos tratamentos fonoaudiológicos propostos e descritos na literatura1,17. Sabe-se que tecido muscular esquelético tem a capacidade de se reestruturar após uma situação de estresse causada pelo exercício físico e com 6-8 semanas de exercícios já se percebe efeitos sobre a forma e a função dos músculos18.

As rugas, encontradas na maioria das mulheres no presente estudo, podem ser explicadas principalmente pelo processo do envelhecimento, uma vez que a faixa etária das participantes foi de 40 a 50 anos, e pelo uso desequilibrado e repetitivo da musculatura orofacial: oito eram onicofágicas, oito referiram dormir de bruços, quatro tinham expressões faciais repetitivas, três apresentavam bruxismo e duas apresentavam tensão facial. É preciso destacar que embora sete mulheres usassem creme facial, apenas duas faziam uso de filtro solar, o que favorece o fotoenvelhecimento. Além disso, apenas duas referiram boa qualidade de sono e duas eram tabagistas.

O aparecimento de rugas13 está condicionado a determinantes genéticos individuais e pelo acúmulo de diversas agressões ambientais que proporciona perda gradativa da tonicidade muscular e decréscimo funcional de orgãos e tecidos, tornando o colágeno rígido e a elastina menos elástica, desidratando e favorecendo a formação das rugas de expressão. Autores17 afirmam que modificações faciais decorrentes do envelhecimento se iniciam aos 30 anos e tornam-se mais visíveis por volta dos 40 anos, idade acima da qual estão todas as participantes do presente estudo. A pele intrinsecamente envelhecida, que é fina, sem elasticidade e finamente enrugada com aprofundamento de linhas de expressão facial. Essas alterações evidenciam o afinamento da epiderme e derme com um achatamento dos cones epidérmicos na junção dermoepidérmica. Pele extrinsecamente envelhecida aparece clinicamente como manchada, espessa, amarelada, frouxa, áspera e dura19.

À semelhança de outra pesquisa9, todas as clientes do presente estudo referiram perceber modificações faciais após o tratamento fonoaudiológico. As modificações faciais mais referidas no presente estudo foram diminuição das rugas ao redor dos olhos e dos lábios e diminuição do sulco nasolabial, lábios mais definidos, pele mais viçosa e brilhante e suavização das marcas de expressão. A diminuição da papada foi a menos referida. A pesquisa9 realizada em Pernambuco com dez professores de ambos os gêneros com idade média de 43,5 anos e realização de tratamento fonoaudiológico semanal uniforme para todos durante sete semanas, encontrou percepção de modificações faciais pelos participantes preferencialmente nas áreas das bochechas e da boca. A área da papada e pescoço também foi a menos referida.

Outro estudo17 com oito voluntários de ambos os gêneros com idades entre 31 e 66 anos, o relaxamento após o exercício, seguido de sensação de bem estar e face menos flácida foram as modificações mais referidas após três meses exercitação. Naquela pesquisa17 metade das participantes não percebeu modificações. Entretanto, cabe ressaltar, que os voluntários realizavam os exercícios em casa sem a intervenção do pesquisador, o que pode ter contribuído para o resultado mais ou menos efetivo da intervenção. Além disso, foi bastante ampla a faixa etária dos participantes. Pesquisadores14 ressaltam que a meta do tratamento estético não é erradicar os sinais do envelhecimento, mas sim, atenuá-los e retardá-los e portanto, é recomendável uma intervenção em faixas etária menores.

Por outro lado, também neste último estudo17, sete indivíduos relataram que foram observadas diferenças variadas por terceiros, como: rosto mais tranquilo, expressão mais serena, pele mais viçosa e brilhante, lábios mais definidos e diminuição do sulco nasolabial, e apenas um não ouviu qualquer comentário de outras pessoas, a respeito de mudanças na sua face. Na pesquisa com dez professores9, sete também referiram que tiveram melhora percebida por terceiros. No presente estudo, a frequência de voluntários que relataram modificações percebidas por terceiros foi menor e esteve relacionada à diminuição das olheiras e pele mais viçosa e brilhante.

O registro fotográfico é um dos recursos utilizados em vários estudos9,13,16,17,20 para a avaliação dos resultados após a intervenção fonoaudiológica. Alguns descrevem positivamente as modificações após tratamentos9,13, uma10 ou duas20 sessões de intervenção fonoaudiológica. Outro17, solicita, de 11 observadores, a ordenação das fotos pré e pós tratamento estético e encontra a porcentagem de acertos variando entre 45,4% e 100%.

Ainda outro16 com nove mulheres com idade entre 40 e 55 anos, idade média 48 anos e 6 meses, ao realizar análise das fotos, encontra diferença estatisticamente significante apenas na atenuação do sulco nasogeniano e na modificação da postura dos lábios que se apresentaram de entreabertos no pré para ocluídos no pós. Os autores, que não observaram diferenças na simetria da face, nas rimas e no contorno dos lábios, no músculo mentual e no queixo duplo, justificam que o número de sessões propostas e/ou o tempo de duração das sessões não foram suficientes para promover modificações específicas e que a realização de exercícios em casa, contrários ao proposto no desenho daquela pesquisa, poderiam ter modificado tais resultados.

A presente pesquisa submeteu as imagens fotográficas a três fonoaudiólogos especialistas para o julgamento das modificações faciais após intervenção fonoaudiológica. Considerou-se, mesmo que mínima qualquer modificação percebida. Não se encontrou concordância entre eles. Entretanto, ao se verificar o grau de concordância entre cada dois julgadores observou-se concordância em algumas variáveis entre os julgadores B e C: nas rugas dos olhos e na testa, no contorno do rosto, no brilho e viscosidade da pele, assim como na ausência de modificação nas rugas dos lábios. O julgador A tendeu a encontrar modificações mais favoravelmente. Tal avaliador, além de especialista em motricidade orofacial, tem aprimoramento em estética facial o que poderia justificar uma percepção mais minuciosa e detalhista. Pesquisa realizada em Pernambuco com objetivo de verificar o conhecimento que o especialista em motricidade orofacial tem sobre a atuação em estética facial encontrou que quase a totalidade dos entrevistados não tem experiência nesta área21, possivelmente porque a atuação fonoaudiológica nesta área é ainda um tema recente na Fonoaudiologia. É de se considerar, portanto, estudos com avaliadores que apresentem perfis ainda mais homogêneos enquanto ainda estão surgindo e divulgando-se novos conhecimentos sobre o tema. Mais ainda, como do registro fotográfico é uma medida subjetiva, seria recomendado a complementação da análise com medidas quantitativas como a da projeção do sulco nasogeniano9, da papada22, dos bucinadores23.

De qualquer maneira, mesmo sem haver concordância, os avaliadores observaram no presente estudo, em maior ou menor grau, modificação em todas as variáveis analisadas, exceto na diminuição das rugas dos lábios, que foi indicada apenas pelo julgador A (avaliador que além de especialista tem aprimoramento em estética e atua na área). Nesta variável os julgadores B e C concordaram que não houve modificação. Contraditoriamente, aos B e C, e concordando com o avaliador A, para este item, todas as mulheres perceberam modificações.

Considerando que a avaliação da estética facial é complexa e subjetiva recebendo a influência não apenas de fatores físicos, mas também de fatores psicológicos e sociais24, que o conceito de beleza é próprio de cada indivíduo3, que o aspecto estético é importante na interação social dos indivíduos e que as percepções e a capacidade de julgar a própria imagem estão vinculadas a constituição da auto-estima25, a avaliação de como o indivíduo percebe sua face e as expectativas em relação à sua imagem facial tornam-se muito importante. Neste estudo, a mensuração do grau de satisfação com a aparência facial foi realizada por meio da escala análoga visual antes (grau médio = 46,18%) e após (grau médio = 82,09%) o tratamento fonoaudiológico. A maioria das mulheres aumentou o grau de satisfação após o tratamento e esta é uma medida na avaliação da efetividade do tratamento fonoaudiológico a ser considerada.

 

CONCLUSÃO

O tratamento fonoaudiológico proporcionou modificações faciais percebidas pelas clientes, por terceiros e pelos especialistas.

Todas as clientes submetidas ao tratamento perceberam modificações faciais. As modificações faciais mais referidas por elas foram diminuição das rugas ao redor dos olhos e lábios; seguida de diminuição do sulco nasolabial, lábios mais definidos, pele mais viçosa e brilhante e suavização das marcas de expressão. A diminuição da papada foi a menos referida.

Em torno de metade das clientes referiu que terceiros perceberam modificações faciais, tais como, diminuição das olheiras, pele mais viçosa e brilhante.

Não se encontrou concordância interobservadores especialistas quanto às modificações faciais após intervenção fonoaudiológica. Entretanto, eles observaram, em maior ou menor grau, modificação em todas as variáveis analisadas, exceto na diminuição das rugas dos lábios, que foi indicada por apenas um fonoaudiólogo.

A maioria das mulheres aumentou o grau de satisfação após o tratamento mostrando-se mais satisfeita com sua aparência facial.

 

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Endereço para correspondência:
Silvana Maria Brescovici
Rua Barão de Ubá, 651
Porto Alegre - RS. CEP: 90450-090
E-mail: silvana@brescovici.com.br

Recebido em: 21/08/2011
Aceito em: 08/11/2011
Conflito de interesses: inexistente