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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.15 no.4 São Paulo July/Aug. 2013

https://doi.org/10.1590/S1516-18462013000400027 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Saúde vocal do professor: intervenção fonoaudiológica na atenção primária à saúde

 

 

Ivana Arrais de Lavor Navarro XavierI; Ana Célia Oliveira dos SantosII; Danielle Maria da SilvaIII

IFonoaudióloga; Especialização em Saúde da Família pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco – FCM/UPE
IINutricionista; Professora Associada do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Pernambuco; Tutora e Preceptora da Residência Multiprofissional Integrada em Saúde da Família da Universidade de Pernambuco – UPE; Doutora em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pernambuco
IIIFonoaudióloga; Tutora e Preceptora da Residência Multiprofissional Integrada em Saúde da Família da Universidade de Pernambuco – UPE; Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE; Especialização em Linguagem pela UFPE; Especialização em Motricidade Oral – enfoque disfagia pela FIR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: apresentar uma ação de promoção a saúde vocal dos professores de três escolas municipais situadas no Distrito Sanitário III, em Recife-PE, no âmbito da Atenção Primária à Saúde – APS.
MÉTODO: foi aplicado um questionário sobre o histórico vocal dos professores e realizadas seis oficinas de voz, com o intuito de sensibilizar os docentes sobre a importância dos cuidados com a voz e incentivar a prática dos exercícios vocais preventivamente como ação cotidiana dentro do processo de trabalho. Por fim, foi aplicado um questionário para avaliar a percepção dos docentes em relação às oficinas.
RESULTADOS: as educadoras encontravam-se na faixa etária de 17-55 anos, tinham 10,4 anos em média de exercício profissional e 96,3% relatou a percepção de problemas com a voz ou fala, sendo que quanto maior a frequência de aparecimento do problema, maior era o tempo de exercício profissional, a jornada de trabalho e a idade. Os depoimentos foram positivos em relação às oficinas, sendo que 80% das docentes referiu melhora no desempenho profissional e 93,3% afirmou que continuará realizando os exercícios, mas apontaram a falta de tempo como principal dificuldade para realização dos exercícios rotineiramente.
CONCLUSÃO: estes resultados identificam a importância da introdução de ações voltadas à saúde do professor com o intuito de amenizar os efeitos do trabalho sobre sua saúde, e a inserção do fonoaudiólogo na APS a fim de facilitar estas ações na prática cotidiana. A utilização do espaço escolar permite configurá-lo como espaço social para tomada de consciência, reflexão, discussão sobre as condições de trabalho e como um ambiente saudável.

Descritores: Promoção da Saúde; Saúde Vocal; Professor; Educação em Saúde; Atenção Primária à Saúde


 

 

INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS) representa o primeiro contato na rede assistencial dentro do sistema de saúde, caracterizando-se, principalmente, pela continuidade e integralidade da atenção, além da coordenação da assistência dentro do próprio sistema, da atenção centrada na família, da orientação e participação comunitária e da competência cultural dos profissionais. São assim estipulados seus atributos essenciais: o acesso de primeiro contato do indivíduo com o sistema de saúde, a continuidade e a integralidade da atenção, e a coordenação da atenção dentro do sistema¹.

Com o intuito de ampliar a abrangência, a resolutividade, a territorialização, a regionalização, bem como a ampliação das ações da APS no Brasil, o Ministério da Saúde criou os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), mediante a Portaria GM nº 154, de 24 de janeiro de 20082. Um NASF deve ser constituído por uma equipe, na qual profissionais de diferentes áreas de conhecimento atuam em conjunto com os profissionais das equipes de Saúde da Família, compartilhando e apoiando as práticas em saúde nos territórios sob responsabilidade destas equipes.

O NASF deve atuar dentro de algumas diretrizes relativas à APS, a saber: ação interdisciplinar e intersetorial; educação permanente em saúde dos profissionais e da população; desenvolvimento da noção de território; integralidade, participação social, educação popular; promoção da saúde e humanização. Devem ser lembradas ainda as diversas modalidades de intervenção no território, por exemplo, no desenvolvimento de projetos de saúde no território; no apoio a grupos; nos trabalhos educativos e de inclusão social; no enfrentamento de situações de violência e ruptura social; nas ações junto aos equipamentos públicos3.

Um importante equipamento social em que a equipe de saúde atua são as escolas. As políticas de saúde reconhecem o espaço escolar como privilegiado para práticas promotoras da saúde, preventivas e de educação para saúde, cujo os processos educativos têm como eixos a construção de vidas mais saudáveis e a criação de ambientes favoráveis à saúde4. Há poucas ações dirigidas à saúde e vida do professor, que tem sido visto principalmente como um mediador, ou parceiro, nas ações desenvolvidas para promover a saúde dos alunos, familiares e comunidade5.

A docência exige grande demanda da voz sendo constatada uma série de problemas vocais entre os que a exercem. Poucos possuem preparo vocal para o uso profissional; há conhecimento apenas superficial a respeito dos cuidados com a voz; falta atenção para as queixas, sinais e sintomas do processo saúde/doença vocal, como também às dificuldades em perceber, interpretar e enfrentar os determinantes de tal processo; o uso da voz se dá em condições laborais ambientais e organizacionais adversas e percebe-se a demora e a resistência na busca pelo atendimento especializado6.

A voz do professor é apontada por ele mesmo como um de seus principais recursos de trabalho, porém pela falta de prévio treinamento vocal, e por um conjunto de condições desfavoráveis de ensino, o professor torna-se um profissional de risco para desenvolver um problema de voz. A responsabilidade de transmitir conhecimento, de formar culturalmente alunos e de cumprir os currículos escolares, entretanto leva muitas vezes o professor a relegar seus problemas vocais a segundo plano, buscando ajuda somente quando se torna impossível produzir uma voz audível5,6.

Nas ações fonoaudiológicas em saúde vocal docente é preciso ampliar a percepção e análise dos determinantes do processo saúde-doença vocal de professores, deslocando o eixo patologia/tratamento para saúde/promoção e incorporando os aspectos do cotidiano e da qualidade que é uma dimensão fundamental para analisar a disfonia no trabalho docente em que se observa a díade: condições ruins de trabalho e pior qualidade de vida relacionada à voz7. Uma vez ampliados os focos da ação fonoaudiológica, as oficinas e os grupos de vivência de voz seriam um espaço social possível para as intervenções8.

Esse estudo partiu das atividades realizadas pela Residência Multiprofissional em Saúde da Família-RMISF, por meio da ação do núcleo de Fonoaudiologia, em um momento que o NASF da cidade do Recife ainda não havia sido implementado, partindo das reflexões propostas pelas políticas acima supracitadas e observando que a literatura traz a existência da pouca contribuição sobre promoção de saúde/prevenção de alterações vocais9,10. O objetivo desse estudo foi, a partir de uma realidade identificada, apresentar uma ação, dentro da perspectiva NASF, voltada para promoção à saúde com grupos de professores, e a percepção dos mesmos sobre a ação realizada.

 

MÉTODO

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco CEP/UPE, em 28/06/2010 (CEP/UPE 095/10). Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido autorizando a divulgação dos resultados.

Trata-se de um estudo de natureza descritiva, com abordagem quanti-qualitativa, desenvolvido em três escolas municipais situadas nos bairros do Córrego do Jenipapo, da Macaxeira e do Morro da Conceição, localizadas no Distrito Sanitário III, na cidade de Recife – PE.

Inicialmente o estudo foi composto de 27 participantes, todas do sexo feminino. Porém durante o andamento das oficinas uma das escolas solicitou exclusão da pesquisa devido a problemas com relação ao horário dos professores, sendo realizados apenas dois encontros neste estabelecimento de ensino. Apesar disso, os dados coletados na primeira etapa da pesquisa foram mantidos com o objetivo de caracterizar a amostra inicial.

Com o objetivo de promover a saúde vocal das professoras foram realizadas seis oficinas de voz em cada uma das escolas. As oficinas foram quinzenais e ocorreram no próprio espaço escolar ao final das atividades escolares, com horário combinado entre a diretoria da escola e professoras.

Na primeira oficina, com duração de uma hora, as professoras responderam a um questionário intitulado "histórico vocal" (Figura 1) adaptado de França (2003)11. O intuito foi conhecer o perfil vocal dos professores participantes para futuro planejamento das oficinas. Ainda neste encontro discutiu-se sobre a produção da voz e fala, sobre os hábitos da vida diária e sua relação com a voz e a importância dos cuidados com a voz.

As demais oficinas tiveram duração de 40 minutos e seguiam ao seguinte padrão:

1) Momento de troca sobre orientações da oficina anterior – influência das orientações em sua prática profissional e dificuldades diárias na realização das atividades;

2) Utilização de técnicas vocais universais, partindo de momentos de relaxamento, técnicas de reforço sobre os cuidados com a voz (saúde vocal), e exercícios vocais. O objetivo foi mostrar a efetividade dos cuidados com a voz e minimizar os efeitos do uso abusivo da voz nestes profissionais. Para tal, foram realizados os exercícios a seguir: gargarejo sonorizado com água, emissão de fricativos, vibração de lábios e língua, humming.

3) Escuta da voz e impressões, trabalhando a importância da percepção e auto-avaliação da voz com o intuito de que cada uma pudesse avaliar como sua voz estava naquele momento e no decorrer do tempo e para reflexão do que pode influenciar positiva ou negativamente na qualidade vocal de cada uma. Foram realizadas gravações das vozes das professoras antes e após a realização dos exercícios vocais. Estas gravações foram utilizadas para posterior discussão com as participantes sobre a melhora ou não da qualidade vocal.

Na última oficina foi aplicado um questionário, (Figura 2) elaborado pelas autoras, com a finalidade de registrar o resultado da percepção da intervenção pelas professoras.

Por ser uma atividade realizada na APS, não havia pretensão de realização de diagnóstico ou acompanhamento especializado, mas de promoção, prevenção e educação em saúde, incentivando a prática dos exercícios vocais preventivamente como ação cotidiana dentro do processo de trabalho do professor.

Os dados coletados em ambos os questionários foram armazenados em um banco de dados do Excel – Windows7 e foi realizada uma análise quantitativa descritiva com distribuição de frequências e uma análise qualitativa a partir das respostas dos questionários e do reflexo das ações desenvolvidas na sensibilização do docente quanto ao cuidado com a voz.

Os dados relevantes dentro do estudo estão apresentados sob a forma de tabelas.

 

RESULTADOS

As 27 professoras participantes do estudo encontravam-se na faixa etária entre 17 e 55 anos de idade, com idade média de 35 anos. O tempo médio de exercício profissional foi de 10,4 anos, sendo que no grupo das que tinham até 10 anos de exercício de docência encontravam-se 15 professoras (55,6%) e 12 (44,45%) laboravam há mais de 10 anos. Com relação à carga horária semanal, 19 (70,4%) trabalhavam mais de 20hs, e 8 (29,6%) até 20 horas semanais.

Na Figura 3 estão apresentados os sintomas ou queixas vocais mais percebidos pelas professoras, que foram: ardência na garganta (85,2%), rouquidão (74,1%), pigarro (70,4%) e esforço ao falar (66,7%).

Dentre as professoras 92,5% referiram sintomas, inclusive apresentando-os simultaneamente. Na tabela 1 estão descritas as informações sobre as condições referidas pelos professores e as variáveis relacionadas à atividade profissional.

Referiram apresentar problemas com a voz ou fala 96,3 % das professoras, sendo sua frequência em relação às variáveis relacionadas à atividade profissional, exposta na Tabela 2.

Observa-se que 48,1% apresentam estes problemas de forma ocasional; 37,0% frequentemente; 11,1%, permanentemente; e apenas 3,7% nunca os apresentaram.

No grupo das professoras na faixa etária entre 51 anos ou mais, 100% relatou apresentar problemas permanentemente, enquanto que no grupo com até 30 anos e na faixa de 31 a 40 anos o maior percentual de problemas ocorrem ocasionalmente, 50% e 80%, respectivamente. Com relação ao tempo de profissão há um maior percentual de problemas permanentes no grupo com 11 anos ou mais enquanto que no grupo com até 10 anos ocorrem mais ocasionalmente. Com relação aos distúrbios relacionados, os mais referidos foram rinite (44,4%), laringite/faringite (37,04%), sinusite (29,63%), bronquite e outros (18,5%).

Apesar de 74,0% das professoras apresentarem tais distúrbios, fizeram tratamento médico específico para os problemas vocais ou relacionados à voz apenas 33,3% destas, a maioria (66,7%) referiu nunca ter feito tratamento específico.

No que se refere ao hábito de fumar, houve baixa incidência neste grupo, apenas uma professora era consumidora de tabaco.

Em relação à autopercepção das participantes sobre ações fonoaudiológicas, no que se refere à melhora no desempenho profissional, 80% das professoras responderam ter percebido a melhora, 6,7% delas não percebeu e 13,3%, não responderam a esta pergunta. Sobre a avaliação das oficinas pelas docentes, a maioria (66,7%) considerou as atividades ótimas e as demais julgaram a ação boa. Os principais benefícios referidos pelas professoras foram: diminuição da rouquidão (53,3%); melhoria na qualidade vocal (40%); diminuição do esforço ao falar (20%); e diminuição do pigarro (13,3%). A realização dos exercícios sugeridos nas oficinas como rotina estava sendo feita por 73,3% das participantes e as demais, (26,7%), não estavam realizando por falta de tempo. Quando questionadas sobre a intenção de continuar a prática das orientações e exercícios propostos, manifestaram o desejo de continuar com a prática dos exercícios 93,3% das professoras e apenas 6,7% respondeu que não continuará com esta prática também por falta de tempo.

 

DISCUSSÃO

A população pesquisada, considerada como população de risco para alterações vocais, apresentou várias queixas relacionadas ao mau uso da voz e servem de alerta para que se busquem maiores cuidados com a voz, que pode dar sinais auditivos de estar sofrendo alguma alteração merecedora de atenção sendo, portanto importante estar atento a estes sinais6,7.

A maioria dos sintomas aumenta à medida que aumenta a faixa etária. Todos os docentes na faixa etária de 51 anos ou mais apresentaram mais de um sintoma. Também se percebe a relação dos sintomas com o tempo de profissão e a carga horária semanal, que tiveram maior percentual entre as participantes com 11 ou mais anos de profissão e 21 horas ou mais semanais de trabalho.

Corroborando com os dados apresentados, um estudo demonstrou que rouquidão, cansaço ao falar, perda da voz e irritação na garganta são mais frequentes entre os professores com mais de 25 horas semanais de trabalho; concluindo que o fator horas-aula está fortemente associado às alterações vocais neste grupo ocupacional12.

Este dado é um alerta para a necessidade do desenvolvimento de ações de promoção e prevenção a fim de evitar que estes problemas ocasionais se tornem permanentes com o passar do tempo.

A literatura relata que a idade e o tempo de profissão podem ser fatores de risco para o professor desenvolver problemas vocais. As pessoas com alterações de voz são em média um pouco mais velhas do que as sem alterações, que se mostram maiores na terceira década de vida, sendo o tempo médio para desenvolver tais alterações de 11 anos de carreira13,14.

Entretanto, são encontradas discrepâncias na literatura a este respeito. Os autores de um estudo não observaram relação entre a frequência de disfonia e a idade ou tempo de profissão. Estes autores acreditam que isto se deva ao fato dos professores com problemas importantes serem readaptados, ou seja, afastados da sala de aula e adaptados a outras funções no setor da educação, ou até mesmo abandonarem a profissão, em casos mais extremos15.

Estudos apontam que um maior tempo de exposição à atividade docente associa-se a maior frequência de efeitos negativos sobre a voz, sejam estes agudos ou crônicos. Sendo os sintomas e alterações vocais aumentam com a intensidade da carga horária12,16,17.

No relato das professoras, foi observado que a maioria das participantes apresentarem queixas vocais, porém apenas uma frequência pequena relataram ter feito terapia vocal, indicando que ações da atenção básica e da saúde escolar nas escolas podem trazer uma melhora da qualidade de vida destes profissionais.

Mesmo apresentando problemas vocais, muitas vezes o professor continua a utilizar a voz com a mesma demanda e evita tomar providências, não buscando ajuda para minimizar o problema ou romper com os hábitos abusivos6,12. A rouquidão, o cansaço ao falar e as falhas na voz são percebidos, entretanto, o fato de se fazer compreender e de manter o controle sobre os alunos tem maior prioridade que assegurar os cuidados vocais propostos pelos terapeutas15.

Outro dado importante que foi encontrado neste estudo é que 18,5% das professoras realizavam alguma técnica vocal, o que nos mostra que, muitas não têm conhecimento em relação ao uso e aos cuidados com a voz e mesmo as que têm, nem sempre os utiliza no dia-a-dia.

Na avaliação das oficinas pelas participantes, vale ressaltar o relato de umas delas:

"A importância dessas oficinas foi relevante, pois me trouxe a consciência do quanto precisamos cuidar da voz, já que a utilizamos como instrumento de trabalho. Saber usar a voz de maneira adequada e realizar os exercícios corretamente é primordial. Foi um aprendizado para minha vida. Amei! (AMS)."

Apesar da avaliação positiva das oficinas, algumas professoras pensaram em desistir das oficinas, por falta de tempo e por vergonha de realizar as atividades em grupo, uma delas referiu ainda, dificuldade em realizar alguns exercícios.

O tempo do professor é escasso, a maioria trabalha em mais de uma escola e ainda tem família e filhos15, entretanto, a maioria das participantes deste estudo relatou que estava realizando os exercícios sugeridos nas oficinas. O relato de uma das professoras sugere até mesmo a necessidade de trabalho do fonoaudiólogo na escola.

"Gostaria de sermos contempladas com mais oficinas como esta. Pois como não temos tempo, a fonoaudióloga na escola nos fornece um período para a prática dos exercícios (DRS)."

A afirmação de uma professora, descrita acima, demonstra que as oficinas foram favoráveis, bem como a percepção da importância da realização dos exercícios por parte das participantes, pois responderam que continuarão realizando os exercícios mesmo após a intervenção 93,3% delas, apenas 6,7% respondeu que não continuará com a prática dos exercícios por falta de tempo.

"A proposta foi boa, os resultados são obtidos automaticamente, ganho na qualidade da voz, precisaria mais encontros porque adquiriríamos uma rotina e estímulo, seríamos levados a praticar rotineiramente (AEO)."

Percebe-se que o contexto e a rotina de trabalho dos professores dificultam a prática de ações voltadas para a sua saúde vocal, entretanto há consciência da importância destas.

"...Na minha concepção, esse tipo de trabalho deve ser mais frequente na escola, pois como profissionais da voz precisamos ter mais cuidado com nosso instrumento de trabalho, e ainda, a saúde vocal é uma necessidade geral da sociedade, pois a população precisa se conscientizar de que a voz faz parte do corpo, e contribui para o funcionamento geral do mesmo (JRGB)."

A partir dos relatos das professoras percebe-se o interesse destas na inclusão das atividades realizadas em sua rotina de trabalho, bem como a percepção de que os cuidados com a voz são importantes para um melhor desempenho profissional.

Atividades de educação em saúde com professores apresentam bons resultados, principalmente quando a atividade é realizada em grupo, já que as dificuldades que os docentes possuem são semelhantes18,19, logo ações educativas processuais, como os grupos de vivência de voz, se caracterizam como importantes espaços de reflexão e de mudança das relações entre trabalho e saúde do professor20.

Entretanto, nota-se que apesar do impacto positivo demonstrado pelos dados apresentados, outras questões relacionadas ao processo e condições de trabalho dificultam a manutenção de uma voz saudável durante a atividade profissional. Como enfatizado em outra pesquisa, a procura ou não pela assistência à saúde tem articulação com outros fatores que vão além da percepção do adoecimento, com a possível influência da organização do trabalho escolar na decisão do professor em procurar ajuda por causa da voz21.

Outro aspecto que facilitou ou dificultou o acesso da fonoaudióloga às escolas foi o vínculo destas com as Unidades de Saúde da Família (USF) da área. Nas escolas em que as USF já desenvolvem algum tipo de intervenção a aceitação das oficinas foi melhor, havendo maior credibilidade na atividade desenvolvida e maior assiduidade por parte das professoras. Este fato reforça a importância da intersetorialidade, da integração entre os setores da saúde e educação, e da responsabilização da equipe de saúde pelo território adscrito, pelas ações junto aos equipamentos sociais, incluindo a escola.

Sendo o professor um trabalhador, torna-se fundamental o olhar para a escola enquanto ambiente de trabalho, com suas condições e organização de trabalho que influenciam e determinam o processo saúde-doença do professor trabalhador.

Tendo em vista que as questões de saúde do professor ultrapassam os problemas com a voz, ressalta-se a inclusão de equipes multiprofissionais nas escolas e recomenda-se que o PSE seja voltado não apenas para o escolar, mas para a escola, contribuindo com ações voltadas para a comunidade escolar, incluindo pais, professores e demais profissionais, além dos alunos; bem como para que o ambiente de trabalho seja mais saudável.

 

CONCLUSÃO

A grande maioria das docentes referiam problemas na voz ou fala e poucas tinham procurado assistência para os problemas que referiam. A intervenção realizada com as docentes nas oficinas de voz mostrou-se positiva, pois a maioria delas percebeu a importância dos cuidados com a voz para uma melhora no desempenho vocal e no desempenho profissional e referiu que continuará realizando os exercícios após a intervenção.

O trabalho em grupo favoreceu a troca de experiências e a motivação. O fato de a intervenção ter sido no espaço escolar facilitou a participação das professoras, que mesmo percebendo a necessidade e importância da realização dos exercícios e participação nas oficinas, na maioria das vezes queixavam-se da falta de tempo.

Estes resultados identificam a importância da introdução de ações voltadas à saúde do professor com o intuito de amenizar os efeitos do trabalho sobre sua saúde, e a inserção do fonoaudiólogo na APS a fim de facilitar estas ações na prática cotidiana. A utilização do espaço escolar permite configurá-lo como espaço social para tomada de consciência, reflexão, discussão sobre as condições de trabalho e como um ambiente saudável.

Nesta perspectiva, torna-se importante vislumbrar propostas de promoção da saúde nas escolas norteadas pela integralidade, interdisciplinaridade e intersetorialidade sendo fundamental um maior vínculo entre as escolas e as equipes de saúde da família, bem como os NASF, tendo em vista a saúde integral do professor e da comunidade escolar.

 

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Endereço para correspondência:
Danielle Maria da Silva
FCM/UPE – Rua Arnóbio Marques, 310 Santo Amaro – Recife – PE – Brasil
CEP: 50100-130
E-mail: dllsilva@yahoo.com.br

Recebido em: 24/05/2012
Aceito em: 02/04/2013

 

 

Conflito de interesses: inexistente

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