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Revista CEFAC

On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.15 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2013  Epub Aug 20, 2013

https://doi.org/10.1590/S1516-18462013005000048 

Trajetória profissional de egressos em Fonoaudiologia

 

Professional trajectory of graduates in Speech, Language and Hearing Sciences

 

 

Letícia Caldas TeixeiraI; Ana Luiza Vilar RodriguesII; Juliana Nunes SantosIII; Ana Fernanda Rodrigues CardosoIV; Ana Cristina Côrtes GamaV; Luciana Macedo ResendeVI

IFonoaudióloga; Professora Assistente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil; Mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais; Doutoranda em Distúrbios da Comunicação Humana pela UNIFESP
IIFonoaudióloga Clinica graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil
IIIFonoaudióloga; Professora Adjunto do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil; Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais
IVFonoaudióloga Clínica; Residente Multiprofissional em Saúde do Idoso do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil
VFonoaudióloga; Professora Associada do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil; Doutora em Distúrbios da Comunicação pela UNIFESP
VIFonoaudióloga; Professora Assistente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil; Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela UFMG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: compreender aspectos da trajetória profissional e continuidade acadêmica dada aos estudos pelos egressos de Fonoaudiologia.
MÉTODO: foram convidados 250 egressos do curso de Fonoaudiologia/UFMG da instituição de origem (Primeira a décima turma), submetidos a um questionário de questões objetivas relativas à situação profissional, continuidade de estudos e formação acadêmica. Análise estatística: software Epi Info 6.04 (Testes Qui-quadrado e Exato de Fisher).
RESULTADOS: a maioria dos egressos era do sexo feminino, média de idade de 25,7 anos (±1,7) e tempo de graduação entre 1,9 a quase 3 anos. A maior parte (55%) não tem na Fonoaudiologia a única fonte de renda; a jornada de trabalho semanal foi maior para quem vive exclusivamente do trabalho fonoaudiológico tendo realização profissional, mas não financeira. A maioria dos que não vivem da Fonoaudiologia não se sente nem financeiramente (97,2%) nem profissionalmente (69,4%) realizados (p<0,05). No grupo de egressos que vivem exclusivamente do trabalho, a avaliação sobre a formação acadêmica foi em sua maioria de muito boa a ótima. Dos que não vivem exclusivamente do trabalho, a formação mostrou-se igualmente dividida entre ruim e bom quanto em muito bom e ótimo (p= 0,03). 50% dos egressos relataram grande dificuldade para inserção no mercado de trabalho.
CONCLUSÕES: o aumento da idade, maior tempo de graduação, jornada de trabalho acima de 20 horas, avaliação positiva sobre a formação acadêmica são aspectos que contribuíram para independência financeira do egresso fonoaudiólogo. Os alunos que relatam menores dificuldades na inserção do mercado de trabalho avaliaram o curso de graduação mais positivamente (muito bom /ótimo).

Descritores: Fonoaudiologia; Ensino; Educação Continuada; Área de Atuação Profissional


ABSTRACT

PURPOSE: to understand the aspects of the professional trajectory and continuity of academic studies by those who graduated on Speech, Language and Hearing Sciences (Ph).
METHOD: it was invited 250 graduates from the course at UFMG, and they were submitted a questionnaire with questions regarding professional situation, their study's continuity and academic background. Estatistical analisis: Epi softaware Info 6.04. (Chi-square and Fisher's Exact Tests).
RESULTS: most of the graduates were female, average age of 25,7 years old and time of graduation from 1,9 to almost 3 years. Most of them did not have in Ph the only source of income; the weekly working hours was higher for those who live exclusively of Ph work and they had professional achievement, but not financial. Most of those who do not have in Ph the source of income does not feel financially and professionally fulfilled (p<0,05). The evaluation of the academic background was mostly "very good to great" in the group of graduates who had Ph as exclusive source of income. Academic background was equally divided between "bad and good" as in "good and excellent" (p=0,03) in the group of graduates who does not have in Ph the only source of income. 50% of graduates reported great difficulty in entering in the labor market.
CONCLUSIONS: the increased age, increased graduation time, working hours of over 20 hours, positive assessment of the academic background are aspects that contributed to the financial independence of the graduate in Ph. The students who reported fewer difficulties in entering in the labor market assessed the undergraduate program more positively.

Keywords: Speech, Language and Hearing Science; Teaching; Education, Continuing; Professional Practice Location


 

 

INTRODUÇÃO

A idealização da profissão de fonoaudiólogo data da década de 30 e surgiu da preocupação da medicina e da educação com a profilaxia e a correção de erros de linguagem apresentados pelos escolares1. Na década de 80, a profissão foi legalmente reconhecida no Brasil pela Lei Federal 6965/81 e enuncia que o fonoaudiólogo é o profissional com graduação plena em fonoaudiologia. Atua na pesquisa, prevenção, avaliação e terapias fonoaudiológicas na área da comunicação oral e escrita, voz e audição, bem como em aperfeiçoamento dos padrões de fala e voz2.

Segundo dados de 2011, no Brasil, existem 35.369 profissionais graduados em Fonoaudiologia, sendo que deste total 5269 pertencem à 6º Região do Conselho Regional de Fonoaudiologia (CRFa – 6º Região/2011), que reúne os profissionais do Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul1,2. Em 2009 somente em Minas Gerais eram 3.528 profissionais, sendo 387 especialistas1.

A graduação em fonoaudiologia ocorre em instituições de ensino superiores oficiais ou reconhecidas2. Os cursos de graduação em Fonoaudiologia devem promover a formação de um profissional reflexivo e crítico, capaz de atuar com competência técnica, pautado em princípios éticos, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania.

A busca pelo aperfeiçoamento do ensino e a compreensão da evolução do conhecimento e exigências do mercado de trabalho impõem aos cursos de graduação, que se preocupam com a formação dos alunos, o desafio na construção de um ensino de qualidade e que acompanhe essas mudanças.

Acredita-se que o planejamento e o desenvolvimento de sistemas de acompanhamento de alunos egressos dos cursos de graduação são mecanismos que permitem às Instituições de Ensino Superior a contínua melhoria de todo o planejamento e operação dessas organizações, particularmente do processo de ensino e aprendizagem3.

Estudos de egressos de outras áreas da saúde tratam das condições de trabalho e perfil profissional. Um estudo sobre os nutricionistas egressos da Universidade Federal de Ouro Preto, Minas Gerais, traçou a média de idade dos egressos e constatou que estes haviam se formado a menos de cinco anos. A maioria dos egressos tinha concluído algum curso de pós-graduação e estava exercendo a profissão de nutricionista. Quanto à vinculação do profissional com o trabalho, observou-se que uma maior porcentagem de trabalhadores autônomos atuando na nutrição clínica, indicando existência de um número considerável de nutricionistas que trabalham em consultório particular ou com vínculos precários (tipo RPA) em hospitais e clínicas médica4.

Em outro estudo realizado com egressos da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás (FEN/UFG), concluiu-se que a maioria dos egressos avaliou a formação como boa e em seguida cursou a pós-graduação. A maioria trabalha na área pública municipal. Os autores do estudo acreditam que a opinião dos egressos contribuiu com a formação profissional de futuros egressos e que os resultados devem convergir um pouco mais para a realidade do mercado de trabalho5.

Assim, o objetivo desta pesquisa foi compreender os aspectos da trajetória profissional e a continuidade acadêmica dada aos estudos pelos egressos de Fonoaudiologia. Os alunos deste estudo foram os graduandos da UFMG. A observação da trajetória de egressos justifica-se como fonte de informações gerenciais e permite a tomada de decisões sobre o planejamento de cursos, arranjos didático-pedagógicos e/ou modalidades de programas3.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo transversal descritivo. Para participar deste, foram convidados 250 indivíduos, que correspondem à população de egressos do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais da primeira a décima turma (2003/2 a 2008/1)

Dos 250 egressos convidados a participar desta pesquisa, 67 (26,8%) aderiram ao estudo, respondendo o formulário e retornando-o às pesquisadoras. Para um cálculo de amostra com uma frequência estimada de 90%, precisão de ±5% e nível de confiança de 90% seriam necessários 70 fonoaudiólogos, segundo o programa STATCALC do software EPI-INFO 6.04. Portanto, o número de fonoaudiólogos participantes, cuja adesão foi voluntária e aleatória, é parcialmente representativo da população total de egressos da UFMG das dez primeiras turmas.

A coleta de dados foi realizada por meio de formulário enviado via e-mail e/ou por correspondência aos participantes. Os e-mails e os endereços dos indivíduos foram adquiridos no Colegiado de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, após análise documental nos arquivos, nos quais foram encontrados os registros dos egressos do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais da primeira a décima turma. Os indivíduos foram convidados a participar por meio do termo de consentimento livre e esclarecido, sendo orientados sobre o formulário a que se submeteriam. O formulário, desenvolvido pelas pesquisadoras, foi composto de questões objetivas relativas à situação profissional dos egressos do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Neste formulário, quatro itens principais direcionaram a pesquisa: identificação, situação de trabalho profissional, continuidade de estudos e formação acadêmica.

Para inserção do participante na pesquisa este deveria possuir graduação em Fonoaudiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, além de fazer parte de uma das turmas, compreendidas entre a primeira e a décima.

A identificação do participante foi realizada por meio da investigação do gênero, idade, tempo de conclusão da graduação e jornada de trabalho. Investigou-se a realização profissional e financeira do participante. No tocante à continuidade de estudos, investigou-se se o participante a concretizou e se isso foi feito por meio de especialização, mestrado ou doutorado. Avaliou-se a percepção sobre a formação acadêmica como ruim, boa, muito boa ou ótima. Investigou-se a média salarial, estipulando-se uma variável de até 4 salários mínimos e a mais de quatro salários mínimos.

Em relação ao local do exercício profissional, investigou-se quais os locais de concentração: se em hospitais, clínicas, consultório, atendimento domiciliar, faculdade, escola, teatro, empresa, funcionalismo público. Com relação à situação profissional, foi questionado ao participante se ele era contratado, autônomo, funcionário público municipal ou estadual, prestador de serviço, autônomo e voluntário.

No que concerne à inserção profissional no mercado de trabalho, foram verificados quais aspectos do curso de fonoaudiologia da UFMG auxiliaram ou dificultaram essa inserção: se aulas teóricas, práticas, pesquisas, extensão, estágios extracurriculares, interligação das disciplinas da grade curricular, possibilidades de realização de atividades comunitárias além de avaliação sobre a formação acadêmica.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sob o parecer de número ETIC 416/07. E, a fim de fundamentar a situação profissional dos egressos do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais, e cumprir os objetivos propostos pela pesquisa, optou-se por uma abordagem quantitativa. A análise dos dados foi realizada por meio do software EPI-INFO 6.04.

Na análise estatística, variáveis de identificação, situação profissional, continuidade de estudos e a avaliação da formação acadêmica foram associadas à variável: se o egresso vivia exclusivamente do seu trabalho profissional. Buscou-se também relacionar a variável "grau de dificuldade de inserção no mercado de trabalho" aos aspectos do curso da UFMG. Foram utilizados os testes Qui-quadrado, Teste Exato de Fisher e Anova, com p <0,05.

 

RESULTADOS

Com relação à caracterização da amostra, a maioria 63 (94%) dos participantes deste estudo era do sexo feminino. Dos participantes (Tabela 1) a maior parte (55%) não vive exclusivamente do trabalho fonoaudiológico. Os egressos apresentam média de idade de 25,7 anos e desvio padrão de 1,7 anos. O tempo predominante de conclusão da graduação variou entre 1,9 a quase 3 anos.

A jornada de trabalho semanal superior a 20 horas foi maior para quem vive exclusivamente do trabalho como fonoaudiólogo em relação aos que não vivem. Quanto à realização profissional, a maioria que vive do trabalho a sinalizou, embora não indicasse realização financeira. Já entre os que não vivem da Fonoaudiologia, exclusivamente, a maioria não se sente nem financeiramente (97,2%) nem profissionalmente (69,4%) realizados. Todas estas relações foram significantes (p=0,002 e p=0,0002).

Do total de egressos, a maioria deu continuidade aos estudos sendo a especialização a continuidade mais apontada, embora não significante.

Entre os egressos que referiram viver exclusivamente do trabalho, a avaliação sobre a formação acadêmica foi em sua maioria de muito boa a ótima. Entre os egressos que não vivem exclusivamente do trabalho, 50% avaliaram negativamente a formação universitária (p= 0,03).

Quanto à média salarial mensal dos egressos que exercem a profissão, houve divisão entre aqueles que ganham até quatro salários e aqueles que recebem mais de quatro salários. A grande maioria (90.3%) dos que não vivem exclusivamente de Fonoaudiologia relataram renda mensal de até quatro salários mínimos (p=0,0001).

Ressalta-se que nem todas as perguntas referentes à Tabela 1 foram respondidas por todos os participantes da pesquisa.

Em relação ao local do exercício da profissão, conforme será indicado na Tabela 2, os principais lugares de trabalho citados pelos egressos atuantes na Fonoaudiologia foram: consultório particular (34,33%) seguido de atendimento domiciliar (31,34%) e funcionalismo público (31,34%). Os outros locais citados pelos egressos foram: clínica multidisciplinar (28,36%), empresas (20,90%), hospital (17,91%), escola (16,42%), faculdade (docência) (4,48%), teatro (2,99%) e outros (4,48%). Nessa questão, havia a opção de múltipla resposta.

Os egressos atuantes em Fonoaudiologia relataram, em sua maioria (44,78%), trabalhar de forma autônoma. As outras formas citadas pelos egressos foram: contratada (26,87%), no funcionalismo público municipal (16,42%), prestação de serviços (14,93%), trabalho voluntário (4,48%) e funcionalismo público estadual (2,99%), como será indicado na Tabela 3, a seguir. Para essa questão, havia, também, a opção de múltipla resposta.

As perguntas referentes à Tabela 4, relativas à associação entre a inserção profissional dos egressos no mercado de trabalho e as características do curso de graduação da UFMG, não foram respondidas por todos os egressos que enviaram o questionário para as pesquisadoras.

Quanto à dificuldade de inserção no mercado de trabalho, 32 (50%) egressos relataram pequena e/ou média e 32 (50%) relataram grande dificuldade, como pode ser observado na Tabela 4, a seguir. Em relação aos aspectos que auxiliaram a inserção no mercado de trabalho, destacam-se: as aulas teóricas e práticas, interligação entre as disciplinas na grade curricular e possibilidades de realização de atividades comunitárias foram consideradas fatores auxiliadores nesse processo. A pesquisa, a extensão universitária e os estágios extracurriculares não foram considerados aspectos facilitadores dessa inserção. O aspecto monitoria foi considerado como fator facilitador somente pelos egressos que relataram pequena e/ou média dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Não houve relações significantes.

Dos egressos que relataram pequena e/ou média dificuldade, a maioria (78%) avaliou o curso como muito bom e ótimo. Já no grupo que relatou grande dificuldade, a avaliação ficou dividida: metade dos egressos avaliou o curso como ruim e bom e a outra metade muito bom e ótimo. Houve relação significante. (p= 0,037)

 

DISCUSSÃO

No estudo houve uma baixa participação de egressos, pois apenas 26,8% responderam o questionário e o retornaram às pesquisadoras. Contudo, o cálculo amostral aponta que 26,8% representam parcialmente a população estudada, considerando um nível de confiança de 90% com margem de erro de ±5%. A baixa adesão é um fator negativo e limitante, visto que as avaliações educacionais são de extrema importância na medida em que possibilitam melhorias no processo educacional. Além disso, nesse processo é fundamental considerar a percepção do egresso como um indicador para a avaliação6. Na literatura pesquisada, a adesão aos estudos com egressos é de 25,3%4, 39,5%7, 42,0%8 e 44,2%9, o que evidencia que a baixa adesão dos participantes foi também observada em outros estudos.

Quanto à caracterização da amostra (Tabela 1), a grande maioria, ou seja, 94% dos participantes foram do sexo feminino, o que retrata o gênero prevalente da classe profissional fonoaudiológica no Brasil10, a qual é composta em sua grande maioria, por mulheres. Era de se esperar também egressos com pouco tempo de formado (entre 6 meses a 4 anos) visto ter sido o curso de graduação em Fonoaudiologia da Universidade Federal de Minas Gerais criado há poucos anos11.

Dos egressos do curso de Fonoaudiologia da UFMG participantes deste estudo, 91,0% exercem a profissão de Fonoaudiólogo. Estudo realizado com fonoaudiólogos recém-formados nos anos de 2005 e 2006 no Rio de Janeiro verificou que a maioria dos integrantes da amostra já se encontrava em atividade profissional na ocasião da pesquisa12, ou seja, estava inserida no mercado de trabalho. Em estudos realizados com egressos de cursos de nutrição, os que estavam exercendo a profissão variaram de 79,8% a 98,0%4, 8, 9. No tocante ao mercado de trabalho, cabe às entidades de classe e aos profissionais a promoção de ações que visem à sua expansão, assim como o esclarecimento à classe fonoaudiológica quanto as suas funções neste mercado 13.

No presente estudo, a jornada de trabalho semanal está relacionada com viver exclusivamente do trabalho fonoaudiológico, sendo que perfazer uma jornada acima de 20 horas semanais, foi um dos aspectos que contribuíram para a independência financeira do egresso, enquanto fonoaudiólogo. No presente estudo, a maioria dos egressos que exercem a profissão (34,3%) trabalha até 20 horas semanais, não corroborando com estudo que revelou que a maioria dos participantes (88,7%) trabalhava 40 horas ou mais por semana8.

Quanto à realização financeira, a maioria dos egressos que exercem a profissão (53,7%) afirmou que não vivem exclusivamente do seu trabalho como fonoaudiólogo, o que não concorda com estudo realizado com os fonoaudiólogos de Minas Gerais que revelou que a maioria dos profissionais (87%) relatou ter na fonoaudiologia sua única fonte de renda10. Ressalta-se, aqui, que a maioria dos participantes desse estudo apresenta pouco tempo de formação e ainda está buscando a sua inserção no mercado de trabalho. Assim, devido à própria realidade desse mercado de trabalho, cada vez mais competitivo e com maior número de fonoaudiólogos, manter como única fonte de renda esse trabalho, pode ser um processo demorado. Incentivam-se pesquisas voltadas para o mercado de trabalho a fim de que se possa ter uma visão atual deste.

Em relação à realização profissional, a maioria dos egressos que vivem do trabalho a possuem, embora não tenham realização financeira. Como evidenciado na literatura, a baixa remuneração na fonoaudiologia é um fator desmotivante para a atuação profissional e, muitas vezes, que promove insatisfação e frustrações14.

Dos egressos participantes, a maioria continua ou continuou seus estudos. Em estudo realizado com fonoaudiólogos recém-formados nos anos 2005 e 2006 no Rio de Janeiro, foi verificado que continuar se atualizando é uma decisão quase unânime no grupo pesquisado, sendo a especialização a maior pretensão (70%), seguida do mestrado (61%), da atualização (30%) e do doutorado (26%)12. Em estudo realizado com os fonoaudiólogos de Minas Gerais, no tocante à titulação, 29,9% são especialistas, 12% mestres e 0,9% doutores10. Um estudo realizado com cirurgiões-dentistas revelou que 66,3% fizeram ou fazem pós-graduação em nível de aperfeiçoamento/especialização (52,3%), mestrado (47,7%) e, em número menor, doutorado (7,7%)7.

Atualmente, a maioria dos profissionais da área de saúde (69,4%) considera indispensável fazer cursos de pós-graduação, pois é uma tendência de mercado que leva ao aprimoramento técnico-científico, melhora a qualificação profissional e promove uma melhoria no atendimento clínico7, sendo necessário estimular a educação continuada. Um estudo revelou que os principais motivos alegados por aqueles que não cursaram nenhuma pós-graduação foram falta de dinheiro e de tempo13. Com os desafios impostos pelo mercado de trabalho, torna-se imprescindível ao profissional estar atento às oportunidades de trabalho e de aprendizagem, gerindo seu conhecimento e assegurando sua empregabilidade5.

A avaliação sobre a formação acadêmica foi muito boa para 48% dos egressos (32), boa para 34% (23), ótima para 13% (9) e ruim para 5% (3) dos fonoaudiólogos das primeiras dez turmas da UFMG, evidenciando que, na perspectiva da maioria dos egressos, o curso está estruturado entre muito bom seguido de bom e ótimo. Estes dados impelem cada vez mais esforços para que o curso continue a busca por melhoria de um ensino de excelência.

Quanto à média salarial mensal dos egressos que exercem a profissão, 34,3% relataram receber de três a quatro salários mínimos. Esse dado não corrobora com estudo realizado em São José dos Campos, que revelou que, em média, os fonoaudiólogos recebem no máximo 10 salários mínimos15.

Ao relacionar a variável de interesse "Vive exclusivamente do seu trabalho como fonoaudiólogo" com outras características do egresso, observou-se associações significantes mostrando que a idade mais avançada, maior jornada de trabalho, maior média salarial e realização profissional e financeira são fatores associados à independência financeira do fonoaudiólogo (Tabela 1).

Entre esses fatores, destacam-se o aumento da idade e o maior tempo decorrido da graduação (p<0,001). Tais achados são animadores para o cenário profissional no Estado e no país e refletem que o amadurecimento do fonoaudiólogo é um forte aliado ao mercado de trabalho.

Viver exclusivamente da Fonoaudiologia também se associou à realização profissional. Contudo não se relacionou à situação financeira do egresso, conferindo-lhe uma maior remuneração.

A partir do exposto, torna-se evidente a necessidade de estabelecer mais diálogo entre os setores das instituições formadoras, visando discutir as possíveis alternativas de melhoria da integração entre a formação científica e profissional16. Além disso, é importante o acompanhamento de egressos, sendo esta uma atividade reconhecida como uma maneira de estabelecer sintonia entre o mercado de trabalho e a instituição de ensino17.

O local de trabalho mais referido pelos participantes foi, respectivamente, (Tabela 2): Hospital, consultório particular e autônomo. Um estudo realizado com fonoaudiólogos no Rio de Janeiro constatou que grande parte destes profissionais pretende atuar na clínica12, algo semelhante ao encontrado com a classe de cirurgiões-dentistas, que preferem o consultório particular7. Em pesquisa realizada com egressos de enfermagem, concluiu-se que 79,5% trabalham na área pública municipal, no Programa de Saúde da Família, por indicação ou concurso público5. Esse dado é discordante do presente estudo, muito provavelmente pelo fato de o fonoaudiólogo apresentar ainda uma menor inserção nas equipes de saúde coletiva, cenário este, que vem se modificando gradualmente. Um estudo realizado em São José dos Campos, em 2002, revelou que a frequência de fonoaudiólogos por setor de atuação foi: consultório/clínica particular, empresa de aparelhos auditivos e instituição para atendimento de deficientes, respectivamente. Estes resultados diferem dos encontrados nesse estudo. Tais diferenças podem ser justificadas pela realidade de trabalho nos diferentes estados brasileiros.

A análise de associação da tabela 4 revela que quanto melhor a avaliação do aluno egresso da UFMG sobre sua formação acadêmica, menor foi a sua dificuldade de inserção no mercado de trabalho (p=0,03). Outros fatores do curso de graduação como as aulas teóricas, práticas, extensão universitária, pesquisa, monitoria, estágios extracurriculares e realização de atividades comunitárias, os quais foram considerados importantes pelos alunos, não se associaram de maneira estatisticamente significante à menor dificuldade de inserção no mercado profissional. É inegável a contribuição da academia na vida estudantil e profissional, mas acredita-se que a facilidade de inserção no mercado extrapole as habilidades "fonoaudiológicas" aprendidas na universidade e exija dos egressos as habilidades interpessoais e empreendedoras, o estabelecimento de uma rede de contatos e um bom marketing pessoal e profissional7.

Outro estudo relata que as principais dificuldades da inserção do fonoaudiólogo no mercado de trabalho são a não valorização da Fonoaudiologia, formação essencialmente clínica e crescimento da competitividade, em face do aumento do número de fonoaudiólogos no mercado de trabalho13. Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos cirurgiões-dentistas na busca de emprego é a alta competitividade e a saturação do mercado de trabalho, o que dificulta o estabelecimento no mercado de trabalho, desestimulando o exercício da profissão odontológica7. Ao contrário do que se observa na literatura, para a maioria (69,0%) dos egressos de nutrição, não houve dificuldade em conseguir o primeiro emprego8.

A formação acadêmica dos fonoaudiólogos favorece a inserção destes no mercado de trabalho, no que se refere aos conhecimentos específicos da Fonoaudiologia. No entanto, a ausência de discussões e disciplinas que abordem o mercado de trabalho e aspectos administrativos dificulta a inserção deste profissional13.

Ao se interrogar se o participante deste estudo se sente preparado para o mercado de trabalho, 73,1% afirmaram que sim. Em uma pesquisa realizada com egressos de Enfermagem, concluiu-se, quanto ao preparo para o mercado de trabalho: 80,5% sentiram-se preparados devido à formação acadêmica e oportunidades de educação continuada e 19,5% sentiram-se despreparados, atribuindo ao choque de realidades entre o mundo escolar e do trabalho e não atualização em áreas específicas da enfermagem5. Cabe à instituição formadora possibilitar oportunidades aos graduandos para desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes básicas para inserir-se com sucesso no mercado de trabalho5.

As diversas mudanças ocorridas no mercado de trabalho exigem profissionais qualificados e atualizados, sendo constante a preocupação com a formação de trabalhadores críticos e conscientes, ética e tecnicamente aliados a uma profissionalização17.

Objetivando o aprimoramento do ensino, um curso de fonoaudiologia (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) está em processo de implantação de novo currículo que conta com novas modalidades pedagógicas, tais como seminários interdisciplinares, oficinas técnicas de escrita e de cultura, tutorias e vivências formadoras18, importantes para a adequada formação de seus graduandos.

A formação do profissional fonoaudiólogo requer diversas competências, sendo necessário contemplar as adversidades de uma população carente de atendimento adequado e a imprescindível atualização frente aos avanços tecnológicos no cuidado com a saúde12.

Incentivam-se novas pesquisas com amostras mais representativas. Não foi encontrado na literatura pesquisada nenhum estudo relativo à situação profissional dos egressos de fonoaudiologia semelhante ao realizado, o que nos limitou uma comparação mais requintada dos dados. A caracterização e compreensão da situação profissional dos egressos em Fonoaudiologia permitem conhecer as reais possibilidades de inserção deste profissional no mercado de trabalho, cujas tendências se alteram a todo instante. Os resultados encontrados impelem ao curso que continue a buscar novas formas de ações pedagógicas para aperfeiçoar a formação do aluno, o que já pode ser observado com a Reforma Curricular do Curso de Fonoaudiologia da UFMG implantada em 2010.

Sugere-se, ainda, a realização de novas pesquisas sobre o tema, após a conclusão dos alunos na nova versão curricular do curso de Fonoaudiologia da UFMG, acompanhando as novas possibilidades de inserção deste profissional no mercado de trabalho e incentiva-se que outros cursos de Fonoaudiologia no Brasil se preocupem com o caminhar dos futuros fonoaudiólogos nas instituições de ensino do Brasil.

 

CONCLUSÕES

Ao conhecer a trajetória profissional dos alunos egressos da Fonoaudiologia, observa-se que o aumento da idade, maior tempo de graduação, jornada de trabalho acima de 20 horas, avaliação positiva sobre a formação acadêmica foram aspectos que contribuíram para a independência financeira do egresso fonoaudiólogo. Essa independência relacionou-se com a maior média salarial e interferiu diretamente na satisfação profissional.

Os alunos que relataram menores dificuldades na inserção do mercado de trabalho avaliaram o curso de graduação mais positivamente (muito bom /ótimo). Os aspectos do curso de graduação investigados na presente pesquisa (aulas teóricas, aulas práticas, pesquisa, extensão universitária, monitoria, estágios extra-curriculares, interligação das disciplinas da grade curricular, possibilidades de realização de atividades comunitárias) não obtiveram uma relação estatisticamente significante com a dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos egressos que responderam ao questionário e viabilizaram a realização dessa pesquisa.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Letícia Caldas Teixeira
Rua Grão Mogol, 689 – Carmo
Belo Horizonte – MG
CEP: 30310-010
E-mail: lcaldas4@gmail.com

Recebido em: 13/3/2012
Aceito em: 07/06/2012

 

 

Conflito de interesses: inexistente
Fontes de auxílio a pesquisa: Programa Especial de Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (PEG 056).

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